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O céu e o inferno

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O porvir e o nada

1. Vivemos, pensamos e agimos: eis o que é positivo. E morremos,

o que não é menos certo. No entanto, deixando a Terra, para onde vamos?

Que seremos após a morte? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou

não? Ser ou não ser, tal a alternativa. Para sempre ou para nunca mais; ou

tudo ou nada; ou vivemos eternamente ou tudo se aniquilará para todo o

sempre. Vale a pena pensarmos nisto.

Todo homem experimenta a necessidade de viver, de gozar, de amar,

de ser feliz. Dizei ao moribundo que ele viverá ainda, que a sua hora é re

tardada; dizei-lhe sobretudo que será mais feliz do que porventura o tenha

sido e seu coração palpitará de alegria. Mas para que servirão essas aspira

ções de felicidade se um leve sopro é capaz de dissipá-las?

Haverá algo mais desesperador do que essa ideia da destruição absolu

ta? Afeições caras, inteligência, progresso, saber laboriosamente adquirido,

tudo despedaçado, tudo perdido! De nada nos serviria, portanto, qualquer

esforço para nos tornarmos melhores, para reprimirmos as nossas paixões,

para ilustrarmos os nossos espíritos, desde que nada aproveitássemos de

tudo isso, considerando-se a opinião de que amanhã, talvez, isso já não

nos serviria para coisa alguma! Se fosse assim, a sorte do homem seria cem

vezes pior que a do animal, porque este vive inteiramente do presente, com

vistas à satisfação dos seus apetites materiais, sem aspiração para o futuro.

Uma secreta intuição, porém, nos diz que isso não é possível.

2. Pela crença no nada o homem concentra, forçosamente, todos os

seus pensamentos na vida presente. Não faria sentido, é lógico, preocupar--se com um futuro do qual nada se espera. Esta preocupação exclusiva do

presente leva o homem naturalmente a pensar em si, de preferência a tudo;

é, pois, o mais poderoso estimulante do egoísmo e o incrédulo é coerente

consigo mesmo quando chega à seguinte conclusão: gozemos enquanto

estamos aqui; gozemos o mais possível, pois com a morte tudo se acaba;

gozemos depressa, porque não sabemos por quanto tempo estaremos vivos.

É coerente também com esta outra conclusão, muito mais grave ainda para

a sociedade: gozemos apesar de tudo, gozemos de qualquer modo, cada

qual por si; a felicidade, neste mundo, é do mais astuto.

Se o respeito humano retém algumas pessoas, que freio haverá para

os que nada temem? Estes últimos acreditam que as leis humanas só al

cançam os tolos e assim empregam todo o seu talento no melhor meio de

se esquivarem a elas. Se há uma doutrina insensata e antissocial, é, segura

mente, o niilismo, porque rompe os verdadeiros laços de solidariedade e

fraternidade, em que se fundam as relações sociais.

3. Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, todo um povo

adquire a certeza de que em oito dias, num mês ou num ano será aniquila

do; que nem um só indivíduo sobreviverá, nem restará traço algum de sua

existência após a morte. Que fará esse povo durante esse tempo? Trabalhará

pela sua melhoria, pela sua instrução? Entregar-se-á ao trabalho para viver?

Respeitará os direitos, os bens, a vida do seu semelhante? Submeter-se-á a

qualquer lei ou autoridade por mais legítima que seja, mesmo a paterna?

Haverá para ele um dever qualquer? Certo que não. Pois bem! O que não

se dá coletivamente, a doutrina do niilismo realiza todos os dias individual

mente. Se as consequências não são tão desastrosas quanto poderiam ser,

é, em primeiro lugar, porque na maioria dos incrédulos há mais bravata

que verdadeira incredulidade, mais dúvida que convicção, possuindo eles

mais medo do nada do que pretendem aparentar, já que o qualificativo

de espíritos fortes lisonjeia-lhes o amor-próprio; em segundo lugar, por

que os incrédulos absolutos se contam por ínfima minoria; sujeitam-se, a

contragosto, ao ascendente da opinião contrária e são mantidos por uma

força material. Se a incredulidade absoluta se tornasse maioria, a sociedade

entraria em dissolução. Eis aonde nos leva a doutrina do niilismo.2

2 Nota de Allan Kardec: Um jovem de 18 anos estava afetado por uma enfermidade do coração con

siderada incurável. A Ciência havia dito: “Ele pode morrer dentro de oito dias ou de dois anos,

mas não irá além.” Sabedor do fato, o rapaz logo abandonou os estudos e entregou-se a excessos

de todo o gênero. Quando lhe advertiam que, dada a sua situação, uma vida desregrada era pe

rigosa para a sua saúde, respondia: “Que me importa, já que só tenho dois anos de vida? De que

me serviria fatigar o espírito? Gozo o pouco que me resta e quero divertir-me até o fim.” — Eis a

consequência lógica do niilismo.

Fossem quais fossem, porém, as suas consequências, se o niilismo

fosse uma verdade, seria preciso aceitá-la de qualquer modo, pois nem sis

temas contrários, nem a ideia dos males que daí pudessem resultar seriam

capazes de impedir-lhe a existência. Ora, não há como negar que o ceticis

mo, a dúvida e a indiferença ganham terreno dia a dia, apesar dos esforços

da religião; isto é positivo. Se a religião é impotente contra a increduli

dade, é que lhe falta alguma coisa para combatê-la, e caso se condenasse

à imobilidade, em pouco tempo estaria infalivelmente ultrapassada. O

que lhe falta neste século de positivismo, em que se procura compreender

antes de crer, é a sanção de suas doutrinas por meio de fatos positivos; é

também a concordância de certas doutrinas com os dados positivos da

Ciência. Dizendo ela ser branco o que os fatos dizem ser negro, é preciso

optar entre a evidência e a fé cega.

4. É nestas circunstâncias que o Espiritismo vem opor um dique à in

vasão da incredulidade, não somente pelo raciocínio e pela perspectiva dos

perigos que ela acarreta, mas pelos fatos materiais, tornando visíveis e tan

gíveis a alma e a vida futura. Certamente todos somos livres na escolha das

nossas crenças; podemos crer em alguma coisa ou não crer em coisa alguma,

mas aqueles que procuram fazer prevalecer no espírito das massas, princi

palmente da juventude, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade do

seu saber e no ascendente da sua posição, semeiam na sociedade os germes

de perturbação e dissolução, incorrendo em grande responsabilidade.

5. Há uma outra doutrina que se defende do epíteto de materialista,

porque admite a existência de um princípio inteligente fora da matéria:

é a da absorção no Todo Universal. Segundo esta doutrina, cada indivíduo

assimila ao nascer uma parcela desse princípio, que constitui sua alma e lhe

dá a vida, a inteligência e o sentimento. Pela morte, esta alma volta ao foco

comum e se perde no infinito, qual gota d’água no oceano.

Sem dúvida esta doutrina é um passo adiante sobre o materialismo

puro, visto como admite alguma coisa, ao passo que este nada admite.

Se esse moço fosse espírita, provavelmente teria dito: “A morte só destruirá o corpo, que deixarei

como roupa usada, mas o meu Espírito viverá sempre. Serei na vida futura aquilo que eu próprio

houver feito de mim nesta vida; nada do que nela puder adquirir em qualidades morais e intelectuais

será perdido; ao contrário, será outro tanto de ganho para o meu adiantamento; toda imperfeição

de que me livrar será um passo a mais para a felicidade. A minha ventura ou infelicidade depende

da utilidade ou inutilidade da presente existência. É, portanto, de meu interesse aproveitar o pouco

tempo que me resta, e evitar tudo que possa diminuir minhas forças.”

Qual destas doutrinas é preferível?

Contudo, as consequências são exatamente as mesmas. Ser o homem imer

so no nada ou no reservatório comum, é para ele a mesma coisa. Se, no pri

meiro caso, ele é aniquilado, no segundo perde a sua individualidade; logo,

é como se não existisse, visto que as relações sociais nem por isso deixam

de romper-se, e para sempre. O que é essencial para o homem é a conser

vação do seu eu; sem este, que lhe importa se subsistirá ou não? O futuro

se lhe afigura sempre nulo, e a vida presente é a única coisa que o interessa

e preocupa. Sob o ponto de vista das consequências morais, esta doutrina

é tão perversa, tão desesperadora e estimula de tal modo o egoísmo quanto

o materialismo propriamente dito.

6. Pode-se, além disso, fazer esta objeção: todas as gotas de água

tomadas ao oceano se assemelham e possuem idênticas propriedades como

partes de um mesmo todo. Por que, então, as almas, tomadas ao grande

oceano da inteligência universal assemelham-se tão pouco? Por que o gênio

ao lado da estupidez, as mais sublimes virtudes convivendo com os vícios

mais ignóbeis? Por que a bondade, a doçura, a mansuetude ao lado da

maldade, da crueldade, da barbaria? Como podem ser tão diferentes entre

si as partes de um mesmo todo homogêneo? Dir-se-á que é a educação que

a modifica? Mas então de onde vêm as qualidades inatas, as inteligências

precoces, os instintos bons e maus, independentes de toda educação e tan

tas vezes em desarmonia com o meio no qual se desenvolvem?

É fora de dúvida que a educação modifica as qualidades intelectuais

e morais da alma. Aqui, porém, se apresenta outra dificuldade. Quem dá à

alma a educação para fazê-la progredir? Outras almas, que por sua origem

comum não devem ser mais adiantadas. Por outro lado, tornando a alma

a entrar no Todo Universal, de onde havia saído, e havendo progredido

durante a vida, leva-lhe um elemento mais perfeito. Daí se deduz que esse

Todo, com o passar do tempo, se encontraria profundamente modificado

e melhorado. Assim, como se explica saírem incessantemente dele almas

ignorantes e perversas?

7. Nesta doutrina, a fonte universal de inteligência que abastece as

almas humanas é independente da Divindade; não é precisamente o pan

teísmo. O panteísmo propriamente dito considera o princípio universal de

vida e de inteligência como constituindo a Divindade. Deus é ao mesmo

tempo espírito e matéria; todos os seres, todos os corpos da natureza com

põem a Divindade, da qual são as moléculas e os elementos constitutivos.

Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas; cada indivíduo, sen

do uma parte do todo, é também Deus; nenhum ser superior e indepen

dente rege o conjunto, de modo que o universo é uma imensa república

sem chefe, ou melhor, onde cada qual é chefe com poder absoluto.

8. A este sistema podem opor-se numerosas objeções, das quais são

estas as principais: não se podendo conceber a Divindade sem o infinito

das perfeições, pergunta-se como um todo perfeito pode ser formado de

partes tão imperfeitas, tendo necessidade de progredir? Devendo cada par

te ser submetida à lei do progresso, conclui-se que o próprio Deus deve

progredir; e se Ele progride incessantemente, deveria ter sido, na origem

dos tempos, muito imperfeito. Ora, como admitir que um ser imperfeito,

formado de vontades e ideias tão divergentes, tenha sido capaz de conceber

leis tão harmoniosas, tão admiráveis de unidade, de sabedoria e previdên

cia quais as que regem o universo? Se todas as almas são porções da Divin

dade, todas concorreram para as leis da natureza. Como se explica, pois,

que elas murmurem sem cessar contra essas leis que são obra sua? Uma

teoria não pode ser aceita como verdadeira senão com a condição de satisfazer

a razão e dar conta de todos os fatos que abrange. Se um único fato lhe trouxer

um desmentido, é que não contém a verdade absoluta.

9. Do ponto de vista moral, as consequências são igualmente ilógi

cas. Em primeiro lugar é para as almas, tal como no sistema precedente,

a absorção num todo e a perda da individualidade. Caso se admita, de

acordo com a opinião de alguns panteístas, que as almas conservem essa

individualidade, Deus deixaria de ter vontade única para ser um misto

de vontades divergentes. Além disso, sendo cada alma parte integrante da

Divindade, nenhuma é dominada por um poder superior; não incorre,

por conseguinte, em responsabilidade por seus atos bons ou maus. Visto

que é soberana, a alma não tem interesse algum na prática do bem e pode

praticar o mal impunemente.

10. Além do fato de que esses sistemas não satisfazem nem a razão

nem as aspirações do homem, deles decorrem, como se vê, dificuldades

insuperáveis, pois são impotentes para resolver de fato todas as questões

que levantam. O homem tem, pois, três alternativas: o nada, a absorção, ou a

individualidade da alma antes e depois da morte. É para esta última crença

que a lógica nos impele irresistivelmente, crença que tem formado a base

de todas as religiões desde que o mundo existe.

Se a lógica nos conduz à individualidade da alma, também nos aponta

esta outra consequência: a sorte de cada alma deve depender das suas quali

dades pessoais, pois seria irracional admitir que a alma atrasada do selvagem,

como a do homem perverso, estivesse no mesmo nível da do cientista e do

homem de bem. Segundo os princípios de justiça, as almas devem ter a res

ponsabilidade dos seus atos, mas para que sejam responsáveis, é preciso que

elas sejam livres na escolha do bem e do mal. Sem o livre-arbítrio há fatalida

de, e com a fatalidade não poderia haver responsabilidade.

11. Todas as religiões admitiram igualmente o princípio da felicida

de ou infelicidade da alma após a morte, ou, por outra, as penas e gozos

futuros, que se resumem na doutrina do céu e do inferno encontrada em

toda parte. Porém, no que elas diferem essencialmente, é quanto à natureza

dessas penas e gozos, principalmente sobre as condições determinantes de

umas e de outras. Daí os pontos de fé contraditórios dando origem a cultos

diferentes, e os deveres particulares impostos por estes para honrar a Deus

e, por esse meio, ganhar o céu e evitar o inferno.

12. Todas as religiões tiveram que se conformar, em sua origem, com

o grau de adiantamento moral e intelectual dos homens; estes, excessiva

mente dominados pela matéria para compreenderem o mérito das coisas

puramente espirituais, fizeram consistir a maior parte dos deveres religiosos

no cumprimento de fórmulas exteriores. Por muito tempo essas fórmulas

lhes satisfizeram a razão. Mais tarde, porém, porque a luz se fizesse em seu

espírito e porque sentissem o vácuo dessas fórmulas, vácuo que a Religião

não preenchia, abandonaram-na e se tornaram filósofos.

13. Se a religião, apropriada no princípio aos conhecimentos limitados

dos homens, tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito

humano, não haveria incrédulos, porque está na própria natureza do homem

a necessidade de crer, e ele crerá desde que receba o alimento espiritual em har

monia com as suas necessidades intelectuais. O homem quer saber de onde

veio e para onde vai. Se lhe mostrarem um fim que não corresponda às suas

aspirações nem à ideia que ele faz de Deus, nem aos dados positivos que a

Ciência lhe fornece; se, além disso, para atingir o seu objetivo, impõem--lhe condições que sua razão contesta, ele tudo rejeita. O materialismo e

o panteísmo parecem-lhe ainda mais racionais, porque com eles ao menos

se raciocina e se discute; raciocínio falso, é verdade, mas o homem prefere

raciocinar em falso a não raciocinar absolutamente.

Se, contudo, lhe apresentarem um futuro lógico, digno em tudo da

grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, ele repudiará o ma

terialismo e o panteísmo, cujo vácuo sente em seu foro íntimo, e que só

havia aceitado em falta de crença melhor. O Espiritismo dá coisa melhor;

por isso é acolhido sem demora por todos os atormentados pela dúvida

pungente da incerteza, os que não encontram nem nas crenças nem nas fi

losofias vulgares o que procuram. O Espiritismo tem a seu favor a lógica do

raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que o têm combatido em vão.

14. Instintivamente o homem acredita no futuro, mas não possuin

do até agora uma base certa para o definir, a sua imaginação há concebido

sistemas que originaram a diversidade de crenças. A Doutrina Espírita so

bre o futuro, não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquite

tada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais

que se desdobram hoje à nossa vista congregará, como já está acontecendo,

as opiniões divergentes ou vacilantes e trará gradualmente, pela força das

coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, crença que já não se baseará

em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte

futura das almas será o primeiro ponto de contato entre os diversos cultos, um

passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para

a completa fusão.

Temor da morte

• Causas do temor da morte • Por que os espíritas não temem a morte

Causas do temor da morte

1. O homem, seja qual for a escala a que pertença, desde a fase sel

vagem tem o sentimento inato do futuro. Diz-lhe a intuição que a morte

não é o último termo da existência e que aqueles cuja perda lamentamos

não estão perdidos para sempre. A crença no porvir é intuitiva e muito

mais generalizada do que a do nada. Como é possível que, entre os que

acreditam na imortalidade da alma, tantos ainda se achem apegados às

coisas da Terra e sintam tamanho temor da morte?

2. O temor da morte é um efeito da sabedoria da Providência e uma

consequência do instinto de conservação comum a todos os seres vivos.

Ele é necessário enquanto o homem não estiver suficientemente esclare

cido sobre as condições da vida futura, como contrapeso ao arrastamento

que, sem esse freio, o levaria a deixar prematuramente a vida terrena e a

negligenciar o trabalho que deve servir ao seu próprio adiantamento. É

por isso que, nos povos primitivos, o futuro não passa de vaga intuição,

mais tarde tornada simples esperança e, finalmente, uma certeza, embora

de certo modo neutralizada por secreto apego à vida corpórea.

3. À medida que o homem compreende melhor a vida futura, o

temor da morte diminui; compreendendo melhor a sua missão terrena,

aguarda-lhe o fim com mais calma, resignação e serenidade. A certe

za da vida futura dá-lhe outro curso às ideias, outro objetivo aos seus

trabalhos; antes de ter essa certeza ele só cuida da vida atual; depois de

adquiri-la, trabalha com vistas ao futuro sem negligenciar o presente,

porque sabe que o porvir depende da boa ou da má direção que der à

vida atual. A certeza de reencontrar os amigos depois da morte, de reatar

as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho,

de engrandecer-se incessantemente em inteligência e perfeição, dá-lhe

paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas momentâneas

da vida terrena. A solidariedade que ele vê estabelecer-se entre vivos e

mortos faz-lhe compreender a que deve existir na Terra, entre os vivos; a

fraternidade e a caridade têm desde então um fim e uma razão de ser, no

presente como no futuro.

4. Para libertar-se do temor da morte é preciso que o homem a

encare sob o seu verdadeiro ponto de vista, isto é, que tenha penetrado

pelo pensamento no mundo espiritual, fazendo dele uma ideia tão exata

quanto possível, o que denota da parte do Espírito encarnado um certo

desenvolvimento e aptidão para desprender-se da matéria. Naqueles que

não progrediram suficientemente, a vida material prevalece sobre a espi

ritual. Como se apega às aparências, o homem não distingue a vida além

do corpo, embora na alma esteja a vida real. Aniquilado o corpo, tudo se

lhe afigura perdido, desesperador. Se, ao contrário, em vez de concentrar

o pensamento no corpo ele se reportasse à alma, fonte da vida, ser real

que sobrevive a tudo, lastimaria menos a perda da vestimenta carnal,

fonte de tantas misérias e de tantas dores. Para isso, porém, o Espírito

necessita de uma força que só pode adquirir com a maturidade.

O temor da morte decorre, portanto, da noção insuficiente da vida

futura, embora denote também a necessidade de viver e o receio de que

a destruição do corpo seja a destruição total; é, assim, provocado pelo

secreto desejo da sobrevivência da alma, velado ainda pela incerteza. Esse

temor decresce à medida que a certeza aumenta, e desaparece quando

esta é completa.

Eis aí o lado providencial da questão. Não seria conveniente des

lumbrar o homem com tal ideia, cuja razão não estivesse ainda bastante

forte para suportar a perspectiva muito positiva e sedutora de um futu

ro melhor, já que ele poderia negligenciar o presente, necessário ao seu

adiantamento material e intelectual.

5. Este estado de coisas é alimentado e prolongado por causas

puramente humanas, que o progresso fará desaparecer. O primeiro é

o aspecto sob o qual é apresentada a vida futura, aspecto que poderia

contentar as inteligências pouco desenvolvidas, mas que não conseguiria

satisfazer as exigências da razão dos homens que refletem. Assim, eles

dizem: “Desde que nos apresentam como verdades absolutas princípios

contestados pela lógica e pelos dados positivos da Ciência, é que eles não

são verdades.” Daí, a incredulidade de alguns e a crença vacilante de mui

tos outros. Para estes a vida futura é uma ideia vaga, constituindo mais

uma probabilidade do que uma certeza; acreditam nela, desejariam que

assim fosse, mas apesar disso exclamam: “E se não for assim? O presente

é positivo, ocupemo-nos dele primeiro, que o futuro virá por sua vez.”

E, depois, acrescentam: “Afinal de contas, que é a alma? Um ponto,

um átomo, uma faísca, uma chama? Como se sente, vê ou percebe?” É

que a alma não lhes parece uma realidade efetiva, mas uma abstração.

Os seres que lhes são caros, reduzidos ao estado de átomo no seu modo

de pensar, estão por assim dizer perdidos para eles, e não têm mais a

seus olhos as qualidades pelas quais se lhes fizeram amados; não podem

compreender o amor de uma faísca nem o que a ela possamos ter; eles

mesmos ficam mediocremente satisfeitos de se transformarem em mô

nadas. Daí o retorno ao positivismo da vida terrena, que possui algo de

mais substancial, sendo considerável o número de criaturas dominadas

por este pensamento.

6. Outra causa de apego às coisas terrenas, mesmo nos que mais

firmemente creem na vida futura, é a impressão que eles conservam do

ensino que relativamente a ela lhes tem sido dado desde a infância. Con

venhamos que o quadro inventado pela religião, sobre o assunto, é pouco

sedutor e não tem nada de consolador.

Senão, vejamos. De um lado, contorções de condenados a expia

rem em torturas e chamas eternas os erros de uma vida efêmera e pas

sageira. Os séculos sucedem-se aos séculos, sem qualquer perspectiva de

abrandamento das penas, sem qualquer piedade; e, o que é mais atroz

ainda, o arrependimento não tem nenhum proveito para eles. De ou

tro lado, as almas combalidas e atormentadas do purgatório aguardam a

sua libertação mediante a intercessão dos vivos, que orarão ou farão que

orem por elas, e não dos esforços que fizerem para progredir.

Estas duas categorias compõem a imensa maioria da população de

além-túmulo. Acima delas paira a limitada classe dos eleitos, gozando,

por toda a eternidade, da beatitude contemplativa. Esta inutilidade eter

na, preferível sem dúvida ao nada, não deixa de ser de fastidiosa monoto

nia. É por isso que se vê, nas pinturas que retratam os bem-aventurados,

figuras angélicas em que mais transparece o tédio do que a verdadeira

felicidade.

Este estado não satisfaz nem as aspirações nem a ideia instintiva de

progresso, única que parece compatível com a felicidade absoluta. Custa

crer que, só por haver recebido o batismo, o selvagem ignorante, cujo

senso moral é tão obtuso, esteja no mesmo nível do homem que atingiu,

após longos anos de trabalho, o mais alto grau de ciência e de moralida

de práticas. É ainda menos concebível que uma criança, morta em tenra

idade, antes, portanto, de ter consciência de seus atos, goze dos mesmos

privilégios somente por força de uma cerimônia — o batismo — na qual

a sua vontade não tomou parte alguma. Estas reflexões não deixam de

preocupar os mais fervorosos crentes, por pouco que meditem.

7. Como não acreditam que a felicidade futura depende do traba

lho progressivo na Terra, os homens dão aos gozos do mundo o melhor

valor, já que acreditam conquistar facilmente essa felicidade por meio

de algumas práticas exteriores, mesmo a possibilidade de comprá-la a

dinheiro, sem regeneração de caráter e costumes.

Consideram alguns crentes, em seu foro íntimo, que, uma vez asse

gurado o seu futuro pelo preenchimento de certas fórmulas, ou por doa

ções póstumas que de nada os privam, seria supérfluo impor-se sacrifícios

ou quaisquer incômodos em benefício dos outros, visto que se consegue

a salvação trabalhando cada qual por si.

Seguramente, nem todos pensam assim, pois há grandes e honrosas

exceções; mas não se poderia negar que assim pensa o maior número,

sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a ideia que fazem das

condições de felicidade no outro mundo não entretenha o apego aos

bens deste e, por conseguinte, o egoísmo.

8. Acrescentemos ainda o fato de que tudo nos costumes tem con

corrido para que se lamente a perda da vida terrena e se tema a passagem

da Terra ao céu. A morte é cercada de cerimônias lúgubres, que mais

infundem terror do que provocam a esperança. Se descrevem a morte, é

sempre com aspecto repelente e nunca como sono de transição; todos os

seus emblemas lembram a destruição do corpo, mostrando-o hediondo

e descarnado; nenhum simboliza a alma se desembaraçando radiosa dos

grilhões terrenos. A partida para esse mundo mais feliz só se faz acom

panhar do lamento dos sobreviventes, como se imensa desgraça houves

se atingido os que partem; dizem-lhes eternos adeuses como se jamais

devessem revê-los. O que se lastima por eles é a perda dos gozos mun

danos, como se não fossem encontrar maiores gozos no além-túmulo.

Que desgraça, dizem, morrer tão jovem, rico e feliz, tendo diante de si a

perspectiva de um futuro brilhante! A ideia de um futuro melhor apenas

toca de leve o pensamento, porque não tem nele raízes. Tudo concorre,

assim, para inspirar o terror da morte, em vez de inspirar esperança.

Por certo será preciso muito tempo ainda para que o homem se desfaça

desses preconceitos, o que acabará se dando à proporção que a sua fé se

for firmando e à medida que ele conceber uma ideia mais sensata da vida

espiritual.

9. Além disso, a crença vulgar coloca as almas em regiões apenas

acessíveis ao pensamento, onde se tornam de alguma sorte estranhas aos

sobreviventes. A própria Igreja põe entre umas e outras uma barreira

insuperável, declarando rotas todas as relações e impossível qualquer co

municação. Se as almas estão no inferno, toda a esperança de as rever é

perdida para sempre, a menos que para lá também se vá; se estão entre

os eleitos, vivem completamente absortas em beatitude contemplativa.

Tudo isso interpõe entre mortos e vivos uma distância tal que se consi

dera a separação como eterna, razão por que muitos preferem ter junto

de si, embora sofram, os entes queridos, a vê-los partir, ainda mesmo que

para o céu. Ora, a alma que estiver no céu será realmente feliz vendo,

por exemplo, arder eternamente seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos?

Por que os espíritas não temem a morte

10. A Doutrina Espírita modifica completamente a maneira de

encarar o futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser re

alidade. O estado das almas depois da morte não é mais um sistema,

porém o resultado da observação. Ergueu-se o véu; o mundo espiritual

aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens

que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os

próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação.

Aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da

felicidade e da infelicidade, assistindo, enfim, a todas as peripécias da

vida de além-túmulo. É por isso que os espíritas encaram a morte calma

mente e se mostram serenos nos seus últimos momentos sobre a Terra.

Já não é apenas a esperança que os conforta, mas a certeza; sabem que

a vida futura é a continuação da vida presente em melhores condições e

aguardam-na com a mesma confiança com que aguardariam o nascer do

Sol após uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança decorrem

dos fatos testemunhados e da concordância desses fatos com a lógica, a

justiça e a bondade de Deus, correspondendo às íntimas aspirações do

homem.

Para os espíritas, a alma não é mais uma abstração; tem um corpo

etéreo, que dela faz um ser definido, capaz de ser concebido pelo pensa

mento, o que já é muito para fixar as ideias sobre a sua individualidade,

aptidões e percepções. A lembrança dos que nos são caros repousa sobre

alguma coisa de real. Não os representamos mais como chamas fugazes

que nada falam ao pensamento, porém sob uma forma concreta que an

tes no-los mostra como seres viventes. Além disso, em vez de perdidos

nas profundezas do espaço, estão à nossa volta; o mundo corpóreo e

o mundo espiritual identificam-se em perpétuas relações, assistindo-se

mutuamente. Como se vê, o temor da morte perde a sua razão de ser, por

não ser mais permitida qualquer dúvida sobre o futuro, de modo que o

espírita encara a sua aproximação a sangue-frio, como quem aguarda a

libertação pela porta da vida e não do nada.

O céu

1. Em geral, a palavra céu designa o espaço indefinido que circunda

a Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso horizon

te. Vem do latim cœelum, formado do grego coïlos, côncavo, porque o céu

parece uma imensa concavidade. Os Antigos acreditavam na existência

de muitos céus superpostos, de matéria sólida e transparente, formando

esferas concêntricas e tendo a Terra por centro. Girando em torno da

Terra, essas esferas arrastavam consigo os astros que se achavam em seu

circuito.

Essa ideia, oriunda da deficiência dos conhecimentos astronômi

cos, foi a de todas as teogonias, que fizeram dos céus, assim escalonados,

os diversos graus da bem-aventurança. O último deles era a morada da

suprema felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e

daí a expressão — estar no sétimo céu — para exprimir perfeita felicidade.

Os muçulmanos admitem nove céus,3 em cada um dos quais se aumenta

a felicidade dos crentes. O astrônomo Ptolomeu4 contava onze e deno

minava ao último Empíreo,5 por causa da luz brilhante que nele reina.

É este ainda hoje um nome poético dado ao lugar da glória eterna. A

teologia cristã reconhece três céus: o primeiro é o da região do ar e das

nuvens; o segundo, o Espaço em que se movem os astros; o terceiro, para

além deste, é a morada do Altíssimo, a região dos que o contemplam

face a face, ou seja, a dos eleitos. É de conformidade com esta crença que

Paulo foi arrebatado ao terceiro céu.

2. As diferentes doutrinas sobre a mansão dos bem-aventurados

baseiam-se todas no duplo erro de considerar a Terra como centro do

universo, e limitada a região dos astros. É além desse limite imaginário

que todas têm colocado esse local afortunado e a morada do Todo-Pode

roso. Singular anomalia que coloca o autor de todas as coisas, aquele que

as governa, nos confins da Criação, em vez de situá-lo no centro, de onde

o seu pensamento, irradiante, poderia abranger tudo!

3. A Ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, le

vou a sua luz até as profundezas do Espaçoe mostrou a nulidade de todas

essas teorias. A Terra não é mais o eixo do universo, mas um dos menores

astros que rolam na imensidade; o próprio Sol não passa de centro de um

turbilhão planetário; as estrelas são outros tantos e inumeráveis sois, em

torno dos quais circulam mundos sem conta, separados por distâncias

apenas acessíveis ao pensamento, embora pareçam tocar-se. Neste con

junto grandioso, regido por leis eternas, em que se revelam a sabedoria

e a onipotência do Criador, a Terra não é mais que um ponto imper

ceptível e um dos planetas menos favorecidos quanto à habitabilidade.

Sendo assim, é lícito perguntar-se por que Deus faria da Terra a única

sede da vida e nela houvesse relegado as suas criaturas prediletas? Tudo,

ao contrário, anuncia a vida por toda parte e a humanidade é infinita

como o universo. Como a Ciência já nos revelou mundos semelhantes

aos nossos, Deus não podia tê-los criado sem objetivo, antes deve tê-los

povoado de seres capazes de os governar.

4. As ideias do homem estão na razão do que ele sabe. Como to

das as descobertas importantes, a da constituição dos mundos deveria

imprimir-lhes outro curso. Sob a influência desses conhecimentos novos,

as crenças se modificaram: o céu foi deslocado; a região estelar, sendo

ilimitada, não mais lhe pode servir. Onde está ele, pois? Diante desta

questão todas as religiões emudecem.

O Espiritismo vem resolvê-la demonstrando o verdadeiro destino

do homem. Tomando-se por base a natureza deste último e os atributos

de Deus, chega-se a uma conclusão; isto quer dizer que partindo do co

nhecido alcança-se o desconhecido por uma dedução lógica, sem falar

das observações diretas que o Espiritismo faculta.

5. O homem compõe-se de corpo e Espírito; o Espírito é o ser

principal, racional, inteligente; o corpo é o envoltório material que re

veste o Espírito temporariamente, para o cumprimento de sua missão na

Terra e a execução do trabalho necessário ao seu adiantamento. O corpo,

gasto, se destrói e o Espírito sobrevive à sua destruição. Sem o Espírito,

o corpo não passa de matéria inerte, qual instrumento privado da mola

que o faz agir; sem o corpo, o Espírito é tudo: a vida, a inteligência. Ao

deixar o corpo, retorna ao mundo espiritual, de onde havia saído para

reencarnar.

Existem, portanto, dois mundos: o mundo corpóreo, composto de

Espíritos encarnados, e o mundo espiritual, formado de Espíritos de

sencarnados. Os seres do mundo corpóreo, devido mesmo à materiali

dade do seu envoltório, estão ligados à Terra ou a um globo qualquer;

o mundo espiritual ostenta-se por toda parte, em redor de nós como

no Espaço, não lhe sendo assinalado nenhum limite. Em virtude da

natureza fluídica de seu envoltório, os seres que o compõem, em vez de

se arrastarem penosamente sobre o solo, transpõem as distâncias com a

rapidez do pensamento. A morte do corpo é a ruptura dos laços que os

retinham cativos.

6. Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dotados de

aptidão para tudo conhecerem e progredirem, em virtude do seu livre--arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas faculda

des, novas percepções e, por conseguinte, novos gozos desconhecidos dos

Espíritos inferiores; eles veem, ouvem, sentem e compreendem o que os

Espíritos atrasados não podem ver, nem ouvir, nem sentir ou compreen

der. A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de

dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o outro, unicamente por não

possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso preci

sem estar, cada qual, em lugar distinto. Mesmo juntos, pode um estar em

trevas, ao passo que tudo resplandece em volta do outro, tal como um

cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele

não recebe a mínima impressão. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às

qualidades que possuem, eles a colhem em toda parte em que se encontram,

seja na superfície da Terra, no meio dos encarnados ou no Espaço.

Uma comparação vulgar fará compreender melhor ainda esta si

tuação. Caso se encontrem em um concerto dois homens, um deles bom

músico, de ouvido apurado, e outro que desconheça a música, de sentido

auditivo pouco delicado, o primeiro experimentará sensação de felicida

de, enquanto o segundo permanecerá insensível, porque um compreende

e percebe o que no outro não produz nenhuma impressão. Assim sucede

com relação a todos os gozos dos Espíritos, que estão na razão da sua

sensibilidade. O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmo

nias e sensações que os Espíritos inferiores, ainda submetidos à influência da

matéria, nem sequer entreveem, e que somente são acessíveis aos Espíritos

depurados.

7. O progresso nos Espíritos é fruto do seu próprio trabalho; mas,

como são livres, trabalham pelo seu próprio adiantamento com maior

ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo a vontade

deles; desse modo, aceleram ou retardam o progresso e, por conseguinte,

a própria felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, outros perma

necem estagnados por longos séculos nas fileiras inferiores. São eles, pois,

os próprios artífices da sua situação, feliz ou infeliz, conforme esta frase

do Cristo: “A cada um segundo as suas obras.” Desse modo, todo Espí

rito que se atrasa não pode queixar-se senão de si mesmo, assim como

o que se adianta tem o mérito exclusivo do seu esforço, dando por isso

maior apreço à felicidade conquistada.

A suprema felicidade só é partilhada pelos Espíritos perfeitos, ou,

por outra, pelos Espíritos puros, que só a conseguem depois de terem

progredido em inteligência e moralidade. O progresso intelectual e o

progresso moral raramente marcham juntos, mas o que o Espírito não

consegue em dado tempo, alcança em outro, de sorte que os dois pro

gressos acabam por atingir o mesmo nível. É por isso que se veem muitas

vezes homens inteligentes e instruídos pouco adiantados moralmente, e

vice-versa.

8. A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual

do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do tra

balho; ao progresso moral pela necessidade que os homens têm uns dos

outros. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades. A

bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o

egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a

lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em suma, tudo o que constitui o homem

de bem ou o homem perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo as

relações do homem com os seus semelhantes. Para o homem que vivesse

isolado não haveria vícios nem virtudes. Se, pelo isolamento, ele se preserva

do mal, por outro lado o bem se anularia.

9. Uma só existência corpórea é claramente insuficiente para que

o Espírito possa adquirir todo o bem que lhe falta e de se desfazer de

todo o mal que traz em si. Como poderia o selvagem, por exemplo,

numa única encarnação, alcançar o nível moral e intelectual do mais

adiantado europeu? É materialmente impossível. Deve ele, pois, perma

necer eternamente na ignorância e barbaria, privado dos gozos que só o

desenvolvimento das faculdades pode proporcionar-lhe? O simples bom

senso repele tal suposição, que seria não somente a negação da justiça e

da bondade divinas, mas das próprias leis progressivas da natureza. É por

isso que Deus, que é soberanamente justo e bom, concede ao Espírito do

homem tantas existências quantas forem necessárias para atingir o seu

objetivo, que é a perfeição.

Para cada nova existência, o Espírito traz consigo o que adqui

riu nas anteriores, em aptidões, conhecimentos intuitivos, inteligência

e moralidade. Cada existência é assim um passo adiante no caminho do

progresso.6

A encarnação é inerente à inferioridade dos Espíritos. Deixa de

ser necessária quando estes, transpondo-lhe os limites, progrediram no

estado espiritual, ou nas existências corpóreas de mundos superiores, que

nada mais têm da materialidade terrena. Da parte destes a encarnação

é voluntária, tendo por fim exercer sobre os encarnados uma ação mais

direta para o cumprimento da missão de que estão encarregados junto

a eles. Nesse caso, é por devotamento que aceitam as vicissitudes e os

sofrimentos que tais encarnações acarretam.

10. No intervalo das existências corpóreas o Espírito torna a entrar

no mundo espiritual por um tempo mais ou menos longo, onde é feliz

ou infeliz conforme o bem ou o mal que haja feito. O estado espiritual é

o estado normal do Espírito; é o seu estado definitivo; o corpo espiritual

não morre. O estado corpóreo é transitório e passageiro. É no estado

espiritual sobretudo que o Espírito colhe os frutos do progresso realizado

pelo seu trabalho na encarnação; é também nesse estado que se prepara

O Espírito também progride na erraticidade,7 adquirindo conheci

mentos especiais que não poderia obter na Terra, e modificando as suas

ideias. O estado corpóreo e o estado espiritual constituem a fonte de dois

gêneros de progresso, solidários entre si, pelos quais o Espírito tem de

passar alternadamente, nas existências peculiares a cada uma dessas duas

variedades de existência.

11. A reencarnação pode ocorrer na Terra ou em outros mundos.

Há entre os mundos alguns mais adiantados do que outros, onde a exis

tência se exerce em condições menos penosas que na Terra, física e mo

ralmente, mas onde só são admitidos Espíritos chegados a um grau de

perfeição relativo ao estado desses mundos.

A vida nos mundos superiores já é uma recompensa, visto nos

acharmos isentos, aí, dos males e vicissitudes de que somos vítimas na

Terra. Os corpos, menos materiais, quase fluídicos, não mais estão sujei

tos às moléstias, às enfermidades, nem às mesmas necessidades do nosso

planeta. Como deles estão excluídos os Espíritos maus, os homens vivem

em paz, sem outra preocupação que a de se adiantarem pelo trabalho

intelectual. Em tais mundos reina a verdadeira fraternidade, porque não

há egoísmo; a verdadeira igualdade, porque não há orgulho; e a verda

deira liberdade por não haver desordens a reprimir, nem ambiciosos que

procurem oprimir o fraco. Comparados à Terra, esses mundos são verda

deiros paraísos; são etapas no caminho do progresso que conduzem ao es

tado definitivo. Sendo a Terra um mundo inferior destinado à depuração

dos Espíritos imperfeitos, fica patente a razão do mal que aí predomina,

até que praza a Deus fazer dela morada de Espíritos mais adiantados.

É assim que o Espírito, progredindo gradualmente à medida que se

desenvolve, chega ao apogeu da felicidade; porém, antes de ter atingido

o ponto culminante da perfeição, goza de uma felicidade relativa ao seu

progresso. A criança também frui os prazeres da infância, mais tarde os

da juventude, e finalmente os mais sólidos, da madureza.

12. A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não consiste na

ociosidade contemplativa, que seria, como temos dito tantas vezes, uma

eterna e fastidiosa inutilidade. A vida espiritual em todos os seus graus é,

ao contrário, uma constante atividade, mas atividade isenta de fadigas. A

suprema felicidade consiste no gozo de todos os esplendores da Criação,

que nenhuma linguagem humana poderia descrever, que a imaginação

mais fecunda não seria capaz de conceber. Consiste também no conhe

cimento e na penetração de todas as coisas, na ausência de sofrimentos

físicos e morais, numa satisfação íntima, numa imperturbável serenidade

de alma, no amor puro que envolve todos os seres, por causa da ausência

de atrito devido ao contato dos maus e, acima de tudo, na contemplação

de Deus e na compreensão dos seus mistérios revelados aos mais dignos.

A felicidade também existe nas tarefas cujo encargo nos faz felizes. Os Es

píritos puros são os messias ou mensageiros de Deus para a transmissão

e execução das suas vontades. Executam as grandes missões, presidem à

formação dos mundos e à harmonia geral do universo, tarefa gloriosa a

que não se chega senão pela perfeição. Os da ordem mais elevada são os

únicos a possuírem os segredos de Deus, inspirando-se no seu pensamen

to, de que são os representantes diretos.

13. As atribuições dos Espíritos são proporcionais ao seu progres

so, às luzes que possuem, às suas capacidades, experiência e grau de con

fiança que inspiram ao soberano Senhor. Aí, nada de privilégios, nada

de favores que não sejam o prêmio ao mérito; tudo é medido e pesado

na balança da estrita justiça. As missões mais importantes são confiadas

àqueles que Deus julga capazes de as cumprir e incapazes de falhar ou

de comprometê-las. Enquanto os mais dignos compõem o supremo con

selho, sob as vistas de Deus, é atribuída a chefes superiores a direção de

turbilhões planetários, e a outros conferida a de mundos especiais. Vêm,

depois, pela ordem de adiantamento e subordinação hierárquica, as atri

buições mais restritas dos prepostos aos progressos dos povos, à prote

ção das famílias e indivíduos, ao impulso de cada ramo de progresso, às

diversas operações da natureza até os mais ínfimos detalhes da Criação.

Neste vasto e harmonioso conjunto há ocupações para todas as capacida

des, aptidões e esforços de boa vontade; ocupações que são aceitas com

júbilo, solicitadas com ardor, por serem um meio de adiantamento para

os Espíritos que aspiram a elevar-se.

14. Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores,

há outras de importância relativa em todos os graus, concedidas a Espí

ritos de todas as categorias, o que nos leva a afirmar que cada encarnado

tem a sua, isto é, deveres a cumprir a bem dos seus semelhantes, desde

o pai de família, a quem incumbe o progresso dos filhos, até o homem

de gênio que lança na sociedade novos elementos de progresso. É nessas

missões secundárias que se verificam desfalecimentos, prevaricações e re

núncias que, embora prejudicando o indivíduo, não chegam a afetar o

todo.

15. Todas as inteligências concorrem, pois, para a obra geral, qual

quer que seja o grau atingido, e cada uma na medida das suas forças, seja

no estado de encarnação, seja no estado de espírito. Existe atividade em

toda parte, desde a base até o ápice da escala, onde todos se instruem,

auxiliam-se mutuamente e se dão as mãos para alcançarem o ponto cul

minante.

Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o

mundo corpóreo, ou, em outras palavras, entre os homens e os Espíritos,

entre os Espíritos libertos e os cativos. Assim se perpetuam e consolidam,

pela depuração e continuidade de relações, as verdadeiras simpatias, as

mais santas afeições.

Por toda parte, a vida e o movimento; nenhum recanto do infinito

é despovoado, nenhuma região que não seja incessantemente percorrida

por legiões inumeráveis de seres radiantes, invisíveis aos sentidos gros

seiros dos encarnados, mas cuja vista deslumbra de alegria e admiração

as almas libertas da matéria. Por toda parte, enfim, há uma felicidade

relativa a todos os progressos, a todos os deveres cumpridos; cada um traz

consigo os elementos de sua felicidade, em virtude da categoria em que

se coloca pelo seu grau de adiantamento.

A felicidade depende das qualidades próprias dos indivíduos, e não

do estado material do meio em que se encontram; pode existir, portanto,

em qualquer parte onde haja Espíritos capazes de a gozar. Nenhum lugar

lhe é circunscrito no universo. Onde quer que se encontrem, os Espíritos

puros podem contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda

parte.

16. Entretanto, a felicidade não é pessoal. Se a possuíssemos so

mente em nós mesmos e não pudéssemos partilhá-la com os outros, ela

seria egoísta e triste. Também a encontramos na comunhão de pensa

mentos que une os seres simpáticos. Os Espíritos felizes, atraindo-se pela

similitude de ideias, gostos e sentimentos, formam vastos agrupamentos

ou famílias homogêneas, no seio das quais cada individualidade irradia

suas próprias qualidades e satura-se dos eflúvios serenos e benéficos ema

nados do conjunto. Os membros deste, ora se dispersam para se consa

grarem à sua missão, ora se reúnem em dado ponto do Espaço para se

prestarem contas do trabalho realizado, ora se congregam em torno de

um Espírito mais elevado para receberem instruções e conselhos.

17. Embora os Espíritos estejam por toda parte, os mundos são de

preferência os locais onde eles se reúnem, em virtude da analogia exis

tente entre eles e os que os habitam. Em torno dos mundos adiantados

abundam Espíritos superiores, como em torno dos mundos atrasados pu

lulam Espíritos inferiores. A Terra ainda faz parte dos mundos atrasados.

Cada globo tem, de alguma sorte, sua população própria de Espíritos

encarnados e desencarnados, alimentada em sua maioria pela encarnação

e desencarnação dos mesmos. Esta população é mais estável nos mun

dos inferiores, pelo apego deles à matéria, e mais flutuante nos mundos

superiores. Destes últimos, porém, verdadeiros focos de luz e felicidade,

Espíritos se destacam para mundos inferiores a fim de neles semearem os

germes do progresso, levar-lhes consolação, esperança e levantar os âni

mos abatidos pelas provações da vida. Algumas vezes também encarnam

para cumprir com mais eficácia a sua missão.

18. Nessa imensidade sem limites, onde está o céu? Em toda parte.

Nada o cerca nem lhe traça limites. Os mundos felizes são as últimas es

tações do caminho que a ele conduz, cujo acesso as virtudes franqueiam

e os vícios interditam.

Ante este quadro grandioso, que povoa todos os recantos do uni

verso, que dá a todas as coisas da Criação um fim e uma razão de ser,

quanto é pequena e mesquinha a doutrina que circunscreve a humani

dade a um ponto imperceptível do Espaço, que no-la mostra começando

em dado instante para acabar um dia igualmente com o mundo que a

contém, não abrangendo mais que um minuto na Eternidade! Como é

triste, fria e glacial essa doutrina quando nos mostra o resto do universo,

antes, durante e depois da humanidade terrena, sem vida, nem movimen

to, qual imenso deserto mergulhado no silêncio! Como é desesperadora

a perspectiva dos eleitos votados à contemplação perpétua, enquanto a

maioria das criaturas é condenada a sofrimentos sem-fim! Como é do

loroso, para os corações que amam, a ideia dessa barreira entre mortos

e vivos! As almas felizes, dizem, só pensam na sua felicidade, como as

infelizes, nas suas dores. Logo, é de admirar que o egoísmo reine na Terra

quando no-lo mostram no céu? Oh! quão acanhada nos parece essa ideia

da grandeza, do poder e da bondade de Deus!

Como é sublime, ao contrário, a ideia que o Espiritismo nos per

mite fazer do céu! Quanto a sua doutrina engrandece as ideias e amplia

o pensamento! — Mas quem diz que ela é verdadeira? A razão primeiro,

a revelação depois e, finalmente, a sua concordância com os progressos

da Ciência. Entre duas doutrinas, das quais uma amesquinha e a outra

exalta os atributos de Deus; uma está em desacordo e a outra em harmo

nia com o progresso; uma se deixa ficar na retaguarda enquanto a outra

marcha para frente, o bom senso diz de que lado está a verdade. Que,

pois, ao confrontá-las, cada um consulte a consciência e uma voz íntima

lhe falará por ela. As aspirações são a voz de Deus, que não pode enganar

os homens.

19. Mas replicarão, por que Deus não lhes revelou desde o prin

cípio toda a verdade? Pela mesma razão por que não se ensina à infância

o que se ensina aos de idade madura. A revelação limitada foi suficiente

a certo período da humanidade e Deus a proporciona gradativamente

segundo os progressos do Espírito. Os que recebem hoje uma revelação

mais completa são os mesmos Espíritos que já receberam parte dela em

outros tempos e que desde então se engrandeceram em inteligência.

Antes que a Ciência tivesse revelado aos homens as forças vivas da

natureza, a constituição dos astros, o verdadeiro papel da Terra e sua for

mação, poderiam eles compreender a imensidade do Espaço, a pluralida

de dos mundos? Antes que a Geologia comprovasse a formação da Terra,

poderiam os homens tirar-lhe o inferno das entranhas e compreender

o sentido alegórico dos seis dias da Criação? Antes que a Astronomia

descobrisse as leis que regem o universo, poderiam compreender que

não há alto nem baixo no Espaço, que o céu não está acima das nuvens

nem limitado pelas estrelas? Antes dos progressos da ciência psicológica

poderiam as criaturas identificar-se com a vida espiritual? Seriam capa

zes de conceber, depois da morte, uma vida feliz ou infeliz, a não ser

em lugar circunscrito e sob uma forma material? Não; compreendendo

mais pelos sentidos do que pelo pensamento, o universo era muito vasto

para o cérebro deles; era preciso restringi-lo ao seu ponto de vista para

alargá-lo mais tarde. Uma revelação parcial tinha sua utilidade; embora

adequada para aquele tempo, não satisfaria hoje. O erro provém dos que,

não se dando conta do progresso das ideias, pretendem poder governar

homens maduros, quais se fossem crianças. (Veja-se O evangelho segundo

o espiritismo, cap. III.)8

O inferno

Intuição das penas futuras

1. Desde todas as épocas o homem acreditou, por intuição, que a vida

futura seria feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal praticado neste mundo.

A ideia, porém, que ele tem feito dessa vida está em relação com o desenvol

vimento de seu senso moral e com as noções mais ou menos justas do bem e

do mal. As penas e recompensas são o reflexo dos instintos predominantes. É

assim, por exemplo, que os povos guerreiros fazem consistir a suprema felici

dade nas honras conferidas à bravura; os caçadores, na abundância da caça; os

sensuais, nas delícias da voluptuosidade. Enquanto o homem for dominado

pela matéria, não poderá compreender senão imperfeitamente a espirituali

dade, razão pela qual imagina para as penas e gozos futuros um quadro mais

material que espiritual; acredita que deve comer e beber no outro mundo,

porém mais e melhor que na Terra.9 Mais tarde já se encontra nas crenças

sobre a vida futura um misto de espiritualismo e materialismo, de modo que

ao lado da beatitude contemplativa ele coloca um inferno com torturas físicas.

2. Não podendo compreender senão o que vê, o homem primiti

vo naturalmente moldou o seu futuro pelo presente. Para compreender

9 Nota de Allan Kardec: Um pequeno saboiano, a quem o seu cura fazia a descrição sedutora da vida

futura, perguntou-lhe se todo mundo lá comia pão branco, como em Paris.

outros tipos, além dos que tinha à vista, precisava de um desenvolvimento

intelectual que só o tempo deveria completar. Por isso o quadro por ele

idealizado das penas futuras não passa de um reflexo dos males da humani

dade, em mais vasta proporção. Aí foram reunidas todas as torturas, todos

os suplícios, todas as aflições que achou na Terra. Nos climas abrasadores

imaginou um inferno de fogo, e nas regiões boreais um inferno de gelo.

Não estando ainda desenvolvido o sentido que mais tarde o levaria a com

preender o mundo espiritual, não podia conceber senão penas materiais.

É assim que, com pequenas diferenças de forma, os infernos de todas as

religiões se assemelham.

O inferno cristão imitado do inferno pagão

3. O inferno pagão, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o mo

delo mais grandioso do gênero, perpetuando-se no inferno dos cristãos,

onde, por sua vez, também houve poetas e cantores. Comparando-os, en

contram-se neles, salvo os nomes e algumas variações nos detalhes, nume

rosas analogias; ambos têm o fogo material por base de tormentos, como

símbolo dos sofrimentos mais atrozes. Mas coisa estranha! os cristãos su

peraram em muitos pontos o inferno dos pagãos. Se estes últimos tinham

o tonel das Danaides,10 a roda de Íxion,11 o rochedo de Sísifo,12 eram es

tes suplícios individuais; os cristãos, ao contrário, têm para todos, sem

distinção, caldeiras ferventes, cujos tampos os anjos levantam para ver as

contorções dos condenados;13 e Deus, sem a menor piedade, a lhes ouvir

os gemidos por toda a eternidade! Jamais os pagãos figuraram os habitantes

dos Campos Elíseos14 deleitando a vista nos suplícios do Tártaro.15

13 Nota de Allan Kardec: Sermão pregado em Montpelier em 1860.

4. Assim como os pagãos, os cristãos têm o seu rei dos infernos

— Satã — com a diferença, porém, de que Plutão16 se limitava a gover

nar o sombrio império que lhe coubera em partilha, mas não era mau;

retinha em seus domínios os que haviam praticado o mal, porque essa

era a sua missão, mas não induzia os homens ao pecado para desfrutar,

tripudiar dos seus sofrimentos. Satã, no entanto, recruta vítimas por

toda parte e se alegra ao atormentá-las com uma legião de demônios

armados de forcados para revolvê-las no fogo. Já se tem discutido se

riamente sobre a natureza desse fogo que queima sem jamais consumir

suas vítimas. Tem-se mesmo perguntado se não seria um fogo de betu

me.17 O inferno cristão, portanto, nada fica a dever ao inferno pagão.

5. As mesmas considerações que, entre os antigos, haviam feito lo

calizar o reino da felicidade, fizeram circunscrever igualmente o lugar dos

suplícios. Tendo os homens colocado o primeiro nas regiões superiores, era

natural reservar ao segundo os lugares inferiores, isto é, o centro da Terra,

acreditando-se que certas cavidades sombrias, de aspecto terrível, lhes ser

viam de entrada. Os cristãos também colocaram ali, por muito tempo, a

morada dos condenados. Mas esta não é a única analogia existente entre o

inferno pagão e o inferno cristão. Senão, vejamos:

O inferno dos pagãos continha de um lado os Campos Elíseos e do

outro o Tártaro; o Olimpo, morada dos deuses e dos homens divinizados,

ficava nas regiões superiores. Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu

aos infernos, isto é, aos lugares baixos para deles tirar as almas dos justos que

aguardavam sua vinda. Os infernos não eram, pois, um lugar unicamente

de suplício; estavam, tal como para os pagãos, nos lugares baixos. A morada

dos anjos e dos santos, assim como o Olimpo, ficava nos lugares elevados.

Colocaram-na para além do céu estelar, que se julgava limitado.

6. Essa mistura de ideias pagãs e cristãs nada tem que deva surpreen

der. Jesus não podia, de uma hora para outra, destruir crenças arraigadas, pois

faltava ao homem conhecimentos necessários para conceber a infinidade do

Espaço e o número infinito dos mundos; para eles a Terra era o centro do

universo; não lhe conheciam a forma nem a estrutura interna; tudo se limi

tava ao seu ponto de vista: as noções do futuro não podiam ir além dos seus

conhecimentos. Jesus encontrava-se, pois, impossibilitado de os iniciar no ver

dadeiro estado das coisas; mas, por outro lado, não querendo com a sua autori

dade sancionar os preconceitos dominantes, absteve-se de os retificar, deixando

ao tempo essa missão. Limitou-se a falar vagamente da vida bem-aventurada

e dos castigos reservados aos culpados, sem se referir jamais nos seus ensinos a

castigos e suplícios corporais, que constituíram para os cristãos um artigo de fé.

Eis aí como as ideias do inferno pagão se perpetuaram até os nossos

dias. Foi preciso a difusão das luzes dos tempos modernos e o desenvolvi

mento geral da inteligência humana para lhe fazer justiça. Como, porém,

nada de positivo houvesse substituído aquelas velhas concepções; ao longo

período de uma crença cega sucedeu, transitoriamente, o período da incre

dulidade a que vem pôr termo a Nova Revelação. Era preciso demolir antes

de reconstruir, já que é mais fácil incutir ideias justas aos que em nada

creem, por sentirem que algo lhes falta, do que fazê-lo pelos que possuem

uma fé sólida, ainda que absurda.

7. Localizados o céu e o inferno, as seitas cristãs foram levadas a não

admitir para as almas senão duas situações extremas: a felicidade perfeita

e o sofrimento absoluto. O purgatório não passa de uma posição interme

diária e passageira, ao sair da qual as almas passam diretamente à mansão

dos justos. E nem poderia ser de outro modo, considerando-se a crença na

sorte definitiva da alma após a morte. Se não há mais de duas moradas,

a dos eleitos e a dos condenados, não se podem admitir muitos graus em

cada uma sem admitir a possibilidade de os franquear e, por conseguinte,

o progresso. Ora, se há progresso, não há sorte definitiva, e se há sorte defi

nitiva, não há progresso. Jesus resolveu a questão quando disse: “Há muitas

moradas na casa de meu Pai.”18

Os limbos

8. É verdade que a Igreja admite uma posição especial em alguns

casos particulares. As crianças falecidas em tenra idade, por não terem feito

mal algum, não podem ser condenadas ao fogo eterno; mas, por outro lado,

não tendo feito o bem, também não lhes cabe direito à felicidade suprema.

Diz a Igreja que elas ficam nos limbos, situação mista jamais definida, na

qual, se não sofrem, também não gozam da bem-aventurança. Já que a

sorte delas é fixada irrevogavelmente, ficam privadas da felicidade por toda

a eternidade. Tal privação equivale, então, a um suplício eterno e imerecido,

visto não haver dependido dessas almas que as coisas assim sucedessem.

O mesmo se dá quanto ao selvagem que, não tendo recebido a graça do

batismo e as luzes da religião, peca por ignorância, entregue aos instintos

naturais, não lhe cabendo nem a responsabilidade, nem o mérito daqueles

que agem com conhecimento de causa. A simples lógica repele semelhante

doutrina em nome da Justiça de Deus, que se contém integralmente nestas

palavras do Cristo: “A cada um segundo as suas obras.” Obras sim, boas ou

más, porém, praticadas livremente, voluntariamente, únicas que implicam

responsabilidade; não é o caso da criança, do selvagem, nem, muito menos,

daquele que não teve oportunidade de ser esclarecido.

Quadro do inferno pagão

9. O conhecimento do inferno pagão nos é fornecido quase exclu

sivamente pela narrativa dos poetas. Homero20 e Virgílio21 deram dele a

mais completa descrição, devendo-se, contudo, levar em conta as necessi

dades poéticas impostas à forma. A descrição de Fénelon,22 no seu livro As

aventuras de Telêmaco, embora colhida na mesma fonte quanto às crenças

fundamentais, tem a simplicidade mais concisa da prosa. Descrevendo o

aspecto lúgubre dos lugares, preocupa-se principalmente em realçar o gê

nero de sofrimento dos culpados, estendendo-se bastante sobre a sorte dos

maus reis, com vistas à instrução do seu régio discípulo. Por mais popular

que seja esta obra, nem todos guardam essa descrição na memória, ou não

meditaram sobre ela de modo a estabelecer comparação. Por isso, julgamos

por bem reproduzir as partes que mais diretamente interessam ao nosso

assunto, isto é, as que se referem mais especialmente às penas individuais.

10. “Ao entrar, Telêmaco23 ouve gemidos de uma sombra inconsolá

vel. — Qual é — perguntava-lhe ele — a vossa desgraça? Quem fostes na

Terra? — Nabofarzan — responde a sombra — rei da soberba Babilônia;

só de ouvirem o meu nome, todos os povos do Oriente tremiam; fazia-me

adorar pelos babilônios num templo de mármore, representado por uma

estátua de ouro, a cujos pés se queimavam noite e dia os preciosos perfu

mes da Etiópia; jamais alguém ousou contradizer-me sem ser logo punido;

inventavam-se diariamente prazeres novos para tornar-me a vida mais e mais

deliciosa. Moço e robusto, oh! quantos prazeres me restavam ainda por usu

fruir no trono! Mas certa mulher, a quem eu amava e que não me corres

pondia, fez-me sentir que eu não era um deus: envenenou-me, e... nada mais

sou. As minhas cinzas foram ontem encerradas com pompa em uma urna de

ouro; choraram, arrancaram cabelos; fingiram atirar-se às chamas da minha

fogueira, a fim de morrerem comigo; vão ainda gemer junto do túmulo das

minhas cinzas, mas ninguém me deplora; a minha memória horroriza a pró

pria família, enquanto aqui embaixo já sofro horríveis suplícios.

“Comovido diante de tal espetáculo, diz-lhe Telêmaco: — Éreis verda

deiramente feliz durante o vosso reinado? Sentíeis porventura essa doce paz sem

a qual o coração se conserva opresso e abatido em meio das delícias? — Não

— respondeu o babilônio —, não sei mesmo o que quereis dizer. Os sábios

exaltam essa paz como bem único; quanto a mim, nunca a senti; meu coração

agitava-se continuamente por novos desejos de temor e de esperança. Procurava

aturdir-me com o abalo das próprias paixões, tendo o cuidado de entreter essa

embriaguez para torná-la permanente, contínua; o menor intervalo de razão, de

calma, ser-me-ia muito amargo. Eis a paz que fruí; qualquer outra me parece

antes uma fábula, um sonho. São esses os bens cuja perda deploro.

“Assim falando, o babilônio chorava como um homem pusilânime,

que se deixou debilitar pelas prosperidades, desabituado de suportar resig

nadamente uma desgraça. Havia junto dele alguns escravos que mandaram

matar para honrar seus funerais. Mercúrio24 os entregara a Caronte25 com o

seu rei, concedendo-lhes poder absoluto sobre esse rei, a quem tinham ser

vido na Terra. Essas sombras de escravos não temiam a sombra de Nabofarzan,

que retinham encadeada, infligindo-lhe as mais cruéis afrontas. Uma lhe di

zia: — Não éramos homens iguais a ti? Como pudeste ser tão insensato a

ponto de te julgares um deus, esquecendo tua origem comum a todos os

homens? — Outra sombra, para insultá-lo, dizia: — Tinhas razão em não

querer que te tomassem por homem, porque na verdade eras um monstro

desumano. — Outra, ainda, lhe dizia: — Então?! onde estão agora os teus

bajuladores? nada mais tens a dar, infeliz! Não podes nem mesmo fazer o

mal, como antes; eis-te reduzido a escravo dos teus escravos. A justiça dos

deuses tarda, mas não falha.

“A essas frases duras Nabofarzan se lançava por terra, arrancando os

cabelos em acesso de raiva e desespero, mas Caronte dizia aos escravos: —

Arrastem-no pela corrente, levantem-no contra a vontade; ele não terá nem

mesmo o consolo de esconder a sua vergonha; é preciso que todas as sombras do

Estige26 a testemunhem como justificativa aos deuses, que por tanto tempo

sofreram enquanto esse ímpio reinava na Terra.

“E ele avista logo, bem perto de si, o negro Tártaro,27 de onde saía

escura e espessa fumaça, cujo odor empestado provocaria a morte, caso se

espalhasse pela morada dos vivos. Essa fumaça cobria um rio de fogo, um

turbilhão de chamas, cujo ruído, semelhante às torrentes mais caudalosas

quando se precipitam de altos rochedos em profundos abismos, concorria

para que nada se ouvisse nesses lugares tenebrosos.

“Secretamente animado por Minerva,28 Telêmaco entra sem medo

nesse abismo. Viu primeiramente um grande número de homens que ti

nham vivido nas mais humildes condições e que eram punidos por haverem

procurado riquezas por meio de fraudes, traições e crueldades. Aí notou

muitos ímpios hipócritas que, simulando amar a religião, dela se tinham

servido como de um belo pretexto para satisfazerem ambições e zombarem

das pessoas crédulas. Tais homens, que haviam abusado da própria vir

tude, o maior dom dos deuses, eram punidos como os mais celerados de

todos os homens. Os filhos que haviam degolado seus pais; as esposas que

26 N.E.: Rio que contornava sete vezes o inferno e cujas águas tornavam invulnerável quem neles se

banhasse.

mancharam as mãos no sangue dos maridos; os traidores que venderam a

pátria, violando todos os juramentos, sofriam penas menos cruéis do que

aqueles hipócritas. Os três juízes infernais assim o queriam, por esta razão:

os hipócritas não se contentam em ser maus como os demais ímpios, po

rém querem passar por bons e concorrem, por sua falsa virtude, para que

os homens não ousem mais confiar na verdade. Os deuses, que eles zomba

ram e desprezaram diante dos homens, empregam com prazer todo o seu

poderio para se vingarem de tais insultos.

“Perto destes, aparecem outros homens, que as pessoas comuns jul

gam pouco ou nada culpados, mas que a vingança dos deuses persegue im

piedosamente: são os ingratos, os mentirosos, os aduladores que louvaram

o vício, os críticos perversos que procuraram manchar a mais pura virtude;

enfim aqueles que, julgando temerariamente as coisas, sem as conhecer a

fundo, prejudicaram por isso a reputação dos inocentes.

“Telêmaco, vendo os três juízes sentados a condenarem um homem,

ousou perguntar-lhes quais eram os seus crimes. O condenado, tomando a

palavra, logo bradou: — Nunca fiz mal algum; todo o meu prazer consistia

em praticar o bem; fui sempre generoso, liberal, justo e compassivo; de que

podem, pois, censurar-me? — Minos29 então lhe disse: — Não te fazemos ne

nhuma acusação quanto aos homens, porém, não devias menos a eles do que

aos deuses? Que justiça, pois, é essa de que te vanglorias? Para com os homens,

que nada são, não faltaste jamais a qualquer dever; foste virtuoso, é certo,

mas só atribuíste essa virtude a ti próprio, e não aos deuses, virtude que eles

te deram porque querias gozar do fruto de tua própria virtude e te fechar em

ti mesmo: foste a tua divindade. Mas os deuses, que tudo fizeram, e o fizeram

apenas para si, não podem renunciar aos seus direitos; tu os esqueceste e eles

também te esqueceram; eles te entregarão a ti mesmo, pois quiseste pertencer--te e não a eles. Procura agora, se podes, o consolo em teu próprio coração. Eis-te

agora para sempre separado dos homens, aos quais querias agradar; eis-te só

contigo, tu que eras o teu ídolo; fica sabendo que não há verdadeira virtude

sem respeito e amor aos deuses, a quem tudo é devido. A tua falsa virtude, que

por muito tempo deslumbrou os homens ingênuos, vai ser confundida. Os

homens, por não julgarem o vício e a virtude senão pelo que lhes agrada ou

incomoda, são cegos quanto ao bem e quanto ao mal. Aqui, uma luz divina

derroga seus julgamentos superficiais, condenando muita vez o que eles admi

ram, e outras vezes justificando o que condenam.

“A estas palavras, o filósofo, como que fulminado por um raio, mal

podia suster-se. A complacência que tivera outrora em rever a sua modera

ção, a coragem, as inclinações generosas, transformavam-se em desespero. A

visão do próprio coração, inimigo dos deuses, promove-lhe suplícios; vê, e

não pode deixar de se ver; vê a vaidade dos julgamentos humanos, aos quais

buscava lisonjear em todas as suas ações. Opera-se uma revolução radical

em todo o seu íntimo, como se lhe revolvessem todas as entranhas; já não é

o mesmo; não encontra apoio no coração; sua consciência, cujo testemunho

lhe fora tão agradável, revolta-se contra ele, censurando-lhe amargamente o

desvario, a ilusão de todas as virtudes, que não tiveram por princípio e por

fim o culto da divindade; está perturbado, consternado, preso da vergonha,

do remorso, do desespero. As Fúrias30 não o atormentam, porque lhes basta

o terem entregado a si próprio, para que expie pelo coração a vingança dos

deuses desprezados. Procura os lugares mais sombrios para se ocultar dos

outros mortos, mas é incapaz de esconder-se de si mesmo. Procura as trevas

e não as pode encontrar; uma luz importuna o segue por toda parte; de todos

os lados os raios penetrantes vingam a verdade que ele desdenhou seguir.

Tudo que amava se lhe torna odioso como fonte dos seus males infindáveis.

Murmura consigo: — Ó insensato! Não conheci, pois, nem os deuses, nem

os homens, nem a mim mesmo! Não; porque jamais amei o verdadeiro e

único bem; todos os meus passos foram tresloucados; a minha sabedoria

não passava de loucura; a minha virtude mais não era que o orgulho impie

doso e cego: eu era, enfim, o meu próprio ídolo!

“Finalmente Telêmaco avistou os reis condenados por abuso de po

der. De um lado, vingadora Fúria apresentava-lhes um espelho que lhes mos

trava toda a monstruosidade de seus vícios; aí viam, sem poder desviar os

olhos, a vaidade grosseira e ávida de ridículos louvores; a crueldade para

com os homens, a quem deveriam ter feito felizes; a insensibilidade para com

as virtudes, o temor da verdade, a predileção pelos covardes e bajuladores,

a falta de aplicação, a inércia, a indolência; a desconfiança ilimitada; o

fausto e a magnificência excessivos calcados sobre a ruína dos povos; a am

bição de glórias vãs à custa do sangue dos concidadãos; a crueldade, enfim,

30 N.E.: Fúrias ou Eríneas ou Emênides: deusas da vingança, que os romanos chamavam Fúrias. Eram

três: Alecto, Tisífone e Megera, e tinham por missão punir os crimes dos homens.

que procura a cada dia novas delícias nas lágrimas e no desespero de tan

tos infelizes. Esses reis reviam-se constantemente nesse espelho, achando--se mais monstruosos e horrendos que a própria Quimera31 vencida pelo

Belerofonte,32 que a Hidra de Lerna33 abatida por Hércules e que o próprio

Cérbero34 vomitando por suas três goelas um sangue negro e venenoso,

capaz de empestar toda a raça de mortais que vivem sobre a Terra.

“De outro lado, outra Fúria lhes repetia injuriosamente todos os lou

vores que os lisonjeiros lhes dispensavam em vida e mostrava-lhes ainda outro

espelho em que se viam tais como a lisonja os havia pintado. Da antítese dos

dois quadros tão contrários brotava o suplício do amor-próprio. Notava-se que os

piores dentre esses reis foram os que tiveram maiores e mais fulgentes louvores

durante a vida, porque os maus são mais temidos que os bons e exigem sem

pudor as vis adulações dos poetas e oradores do seu tempo.

“Seus gemidos são ouvidos nas profundezas dessas trevas, onde só

se veem insultos e escárnios. Nada os cerca que não os repila, contradiga e

confunda em contraste ao que supunham na vida, zombando dos homens

e convictos de que tudo era feito para servi-los. No Tártaro, entregues a

todos os caprichos de certos escravos, os quais, por sua vez, lhes faz provar

a mais cruel servidão; humilhados dolorosamente, não lhes resta esperança

alguma de modificar ou abrandar o cativeiro. Qual bigorna sob as marte

ladas dos Ciclopes,35 quando Vulcano36 os encoraja nas fornalhas incan

descentes do Monte Etna,37 assim permanecem, mercê das pancadas desses

escravos transformados em verdugos.

“Aí, Telêmaco viu pálidos semblantes, hediondos e consternados. Ter

rível tristeza que consome estes criminosos, horrorizados de si próprios, sem

poderem dela desligar-se como da própria natureza; não precisam de outro

castigo às suas faltas senão as mesmas faltas; veem incessantemente toda a sua

enormidade, apresentando-se a eles sob a forma de espectros horríveis que os

perseguem. Procurando livrar-se dessa perseguição, buscam morte mais po

tente do que a que os separou do corpo. No desespero em que se acham, in

vocam uma morte capaz de lhes extinguir a consciência; pedem aos abismos

que os absorvam, a fim de se furtarem aos raios vingadores da verdade que

os persegue, mas continuam votados à vingança que sobre eles destila gota a

gota e que jamais estancará. A verdade que temem ver lhes constitui o suplício;

veem-na, contudo, e só têm olhos para vê-la erguer-se contra eles, ferindo--os, despedaçando-os, arrancando-os de si mesmos, tal como o raio que,

sem nada lhes destruir exteriormente, penetra-lhes o âmago das entranhas.

“Entre os seres que lhe eriçavam os cabelos, Telêmaco viu vários reis,

antigos reis da Lídia38 punidos por haverem preferido ao trabalho as de

lícias de uma vida inativa, quando aquele deve ser o consolo dos povos,

inseparável da realeza.

“Esses reis lastimavam-se reciprocamente a cegueira. Um dizia a outro,

que fora seu filho: — Não vos tinha eu recomendado tantas vezes durante

a vida e antes da morte que reparásseis os males ocorridos por negligência

minha? — Ah! infeliz pai! — dizia o filho — fostes vós que me perdestes!

Foi o vosso exemplo que me inspirou o fausto, o orgulho, a voluptuosidade

e a crueldade para com os homens! Vendo-vos governar com tanta incúria,

cercado de aduladores infames, habituei-me a prezar a lisonja e os prazeres.

Acreditei que os homens eram para os reis o que os cavalos e outros animais

de carga são para os homens, isto é, animais que só se consideram enquan

to proporcionam serviços e comodidades. Acreditei-o e fostes vós que mo

fizestes crer; sofro agora tantos males por vos haver imitado.

“A estas recriminações aliavam as mais acerbas blasfêmias, como que

possuídos de raiva suficiente para se despedaçarem mutuamente. Quais

notívagos mochos,39 em torno desses reis corvejavam as suspeitas cruéis, os

vãos receios e desconfianças que vingam os povos da dureza de seus reis, a

ganância insaciável das riquezas, a falsa glória sempre tirânica e a moleza

displicente que redobra os sofrimentos sem a compensação de prazeres du

ráveis. Viam-se muitos desses reis severamente punidos, não por males que

tivessem feito, mas por terem negligenciado o bem que poderiam e deveriam

fazer. Todos os crimes dos povos, provenientes da desídia na observância

das leis eram imputados aos reis, que não devem reinar senão para que as

leis exerçam seu ministério. A eles se imputavam também todas as desor

dens oriundas do fausto, do luxo e dos demais excessos que impelem os

homens à violência e à tentação de desprezar as leis para a aquisição de

bens. O rigor recaía principalmente sobre os reis que, em vez de serem

bons e vigilantes pastores dos povos, só cuidavam de devastar o rebanho,

quais lobos rapaces.

“O que mais consternou Telêmaco, porém, foi ver nesse abismo de

trevas e males um grande número de reis que, tendo passado na Terra como

os melhores, condenaram-se às penas do Tártaro por se terem deixado guiar

por homens ardilosos e maus. Eram punidos pelos males que tinham deixado

que outros praticassem em nome da sua autoridade. Além disso, a maior parte

desses reis não foram nem bons nem maus, tal a sua fraqueza; não os ate

morizava a ignorância da verdade; como não experimentaram o prazer da

virtude, jamais poderiam fazê-lo consistir na prática do bem.”

Descrição do inferno cristão

11. A opinião dos teólogos sobre o inferno resume-se nas seguintes

citações.40 Esta descrição, sendo colhida dos autores sagrados e da vida dos

santos, pode ser considerada como expressão da fé ortodoxa na matéria,

porque é reproduzida a cada instante, com pequenas variantes, nos ser

mões do púlpito evangélico e nas instruções pastorais.

12. “Os demônios são Espíritos puros, e os condenados, presente

mente no inferno, podem também ser considerados Espíritos puros, visto

que só a alma aí desce, já que os restos mortais, entregues à terra, se trans

formam em ervas, plantas, frutos, minerais, líquidos, sofrendo incons

cientemente as metamorfoses constantes da matéria. Mas os condenados,

assim como os santos, devem ressuscitar no dia do juízo final, retomando,

para não mais deixá-los, os mesmos corpos carnais que os revestiam e sob

os quais eram conhecidos quando viviam na Terra. Os eleitos ressuscita

rão, porém, em corpos depurados e radiosos, e os condenados em corpos

maculados e desfigurados pelo pecado. Isto os distinguirá. Portanto, não

haverá no inferno somente Espíritos puros, mas homens como nós. Con

seguintemente, o inferno é um lugar físico, geográfico, material, visto que

será povoado por criaturas terrenas, dotadas de pés, mãos, boca, língua,

40 Nota de Allan Kardec: Estas citações são tiradas da obra intitulada O inferno, de Auguste Callet.

dentes, ouvidos, olhos semelhantes aos nossos, sangue nas veias e nervos

sensíveis à dor.

Onde estará situado esse inferno? Alguns doutores o têm colocado

nas próprias entranhas do nosso globo; outros, não sabemos em que pla

neta; a questão, contudo, ainda não foi resolvida por nenhum concílio.

Estamos, pois, quanto a este ponto, reduzidos a meras hipóteses; a única

coisa positiva é que esse inferno, onde quer que se encontre, é um mundo

composto de elementos materiais, embora sem Sol, sem Lua, sem estre

las, mais triste e inóspito do que a Terra, desprovido de todo germe e das

aparências benéficas que porventura se encontram ainda nas regiões mais

áridas deste mundo em que pecamos.

Os teólogos mais reservados não se atrevem, à semelhança dos egíp

cios, dos hindus e dos gregos, a descrever todos os horrores dessa morada,

limitando-se a no-la apresentar como amostra do pouco que dela fala a

Escritura, o lago de fogo e enxofre do Apocalipse e os vermes de Isaías,

esses vermes que formigam eternamente sobre os cadáveres do Tofel, e os

demônios atormentando os homens aos quais eles perderam, e os homens

a chorarem, rangendo os dentes, segundo a expressão dos evangelistas.

Santo Agostinho não concorda que esses sofrimentos físicos sejam

apenas reflexos de sofrimentos morais e vê, num verdadeiro lago de enxo

fre, vermes e verdadeiras serpentes saciando-se em todas as partes do corpo

dos condenados, associando suas picadas às do fogo. Ele pretende mais,

segundo um versículo de Marcos, que esse fogo estranho, embora material

como o nosso e atuando sobre corpos materiais, os conservará como o sal

conserva a carne das vítimas. Os condenados sentirão a tortura desse fogo

que queima sem consumir, penetrando-lhes a pele; serão embebidos dele

e saturados em todos os seus membros, na medula dos ossos, na pupila

dos olhos e nas fibras mais ocultas e sensíveis do seu ser. A cratera de um

vulcão, se aí pudessem submergir, ser-lhes-ia lugar de refrigério e repouso.

Assim falam com toda a segurança os teólogos mais tímidos, discre

tos e comedidos; não negam que haja no inferno outros suplícios corpo

rais, mas dizem que para afirmá-lo lhes falta suficiente conhecimento, pelo

menos tão positivo como o que lhes foi dado sobre o terrível suplício do

fogo e dos vermes. Há, contudo, teólogos mais ousados ou mais esclareci

dos que dão do inferno descrições mais detalhadas, variadas e completas. E

embora não se saiba em que lugar do Espaço está situado esse inferno, há

santos que o viram. Eles não foram lá com a lira na mão, como Orfeu,41

ou de espada em punho, como Ulisses,42 mas transportados em Espírito.

Santa Teresa43 é desse número. De acordo com a narrativa da santa,

haveria cidades no inferno; ela aí viu, pelo menos, uma espécie de viela

longa e estreita como essas que existem em velhas cidades; percorreu-a

horrorizada, caminhando sobre terreno lodoso e fétido, no qual pululavam

monstruosos répteis. Foi, porém, detida em sua marcha por uma muralha

que interceptava a viela; abrigou-se num nicho da muralha, sem saber ex

plicar a ocorrência. Era, diz ela, o lugar que lhe destinavam se abusasse, em

vida, das graças concedidas por Deus em sua cela de Ávila.

Apesar da facilidade maravilhosa que tivera em penetrar esse nicho

de pedra, não podia sentar-se, ou deitar-se, nem se manter de pé. Tam

pouco podia sair. Essas paredes horríveis, abaixando-se sobre ela, envol

viam-na, apertavam-na como se fossem animadas de movimento próprio.

Parecia-lhe que a afogavam, estrangulando-a, ao mesmo tempo que a esfo

lavam viva e a retalhavam em pedaços. Ao sentir queimar-se, experimen

tou, igualmente, toda sorte de angústias. Sem esperança de socorro, tudo

era trevas à sua volta, embora percebesse não sem pavor, através dessas

trevas, a hedionda viela em que se achava, com a sua imunda vizinhança.

Este espetáculo era-lhe tão intolerável quanto os apertos da prisão.44

Esse não passava, certamente, de um pequeno recanto do inferno.

Outros viajantes espirituais foram mais favorecidos. Viram grandes cidades

no inferno completamente tomadas pelo fogo: Babilônia e Nínive, a pró

pria Roma, com seus palácios e templos incendiados e seus habitantes acor

rentados. Viram também traficantes em suas bancas, sacerdotes reunidos

com cortesãos em salas de festim, chumbados às suas cadeiras e levando aos

lábios, em gritos desesperados, rubras taças chamejantes; criados genuflexos

em cloacas45 ferventes, braços distendidos, e príncipes de cujas mãos escor

ria em lava devoradora o ouro derretido. Outros viram no inferno planícies

sem-fim, cultivadas por camponeses famintos, que, nada colhendo desses

campos fumegantes, dessas sementes estéreis, se entredevoravam, dispersan

do-se em seguida, tão numerosos como antes, magros, vorazes e em bando,

indo procurar ao longe, em vão, terras mais felizes, sendo logo substituí

dos por outras colônias errantes de condenados. Há também os que viram

no inferno montanhas repletas de precipícios, florestas que gemiam, poços

secos, fontes alimentadas de lágrimas, rios de sangue, turbilhões de neve

em desertos de gelo, barcas tripuladas por desesperados, singrando mares

onde a terra nunca surgia. Em suma, viram tudo o que viam os pagãos: um

lúgubre reflexo da Terra, com suas misérias grandemente aumentadas, seus

sofrimentos naturais eternizados, e até calabouços, patíbulos e instrumentos

de tortura forjados por nossas próprias mãos.

Há, realmente, demônios que, para melhor atormentarem os ho

mens em seus corpos, também tomam corpos. Uns têm asas de morcegos,

chifres, couraças de escama, patas armadas de garras, dentes pontiagudos,

a manejarem espadas, tenazes, pinças, grelhas, serras, foles, tudo ardente,

não exercendo outro ofício por toda a eternidade, em relação à carne hu

mana, senão o de carniceiros e cozinheiros; outros, transformados em leões

ou víboras enormes, arrastam suas presas para cavernas isoladas; alguns se

transformam em corvos para arrancar os olhos de certos culpados, enquan

to outros se convertem em dragões volantes, prontos a se lançarem sobre

o dorso das vítimas, arrebatando-as assustadiças, ensanguentadas, aos gri

tos, através de espaços tenebrosos, para arremessá-las por fim em tanques

de enxofre. Aqui, nuvens de gafanhotos, de escorpiões gigantescos, cuja

vista produz náuseas e calafrios e cujo contato provoca convulsões; além,

monstros policéfalos, escancarando goelas vorazes, a sacudirem sobre suas

cabeças disformes as suas crinas de serpentes venenosas, triturando os con

denados com sangrentas mandíbulas para vomitá-los mastigados, porém

vivos, porque são imortais.

Estes demônios em forma humana, que lembram tão visivelmente

os deuses do Amenti46 e do Tártaro, bem como os ídolos adorados pelos

fenícios, moabitas e outros gentios vizinhos da Judeia, não agem ao acaso,

tendo cada um a sua função, o seu papel. O mal que fizeram no inferno

guarda estreita relação com o mal que inspiraram e levaram os homens a

46 N.E.: Nome dado pelos egípcios ao lugar em que, depois da morte, as almas se reuniam para serem

julgadas por Osíris, protetor dos mortos.

praticar na Terra.47 Os condenados são punidos em todos os seus órgãos e

sentidos, porque também ofenderam a Deus por todos os órgãos e sentidos.

Os delinquentes da gula são castigados pelos demônios da glutonaria, os

preguiçosos pelos da preguiça, os luxuriosos pelos da devassidão, e assim

por diante, numa variedade tão grande como a dos pecados. Mesmo quei

mando sentirão frio; mesmo congelados sentirão calor, sempre ávidos de

movimento e de repouso, sempre sedentos e famintos, mil vezes mais fati

gados que escravo ao fim da jornada, mais doentes que os moribundos, mais

alquebrados e cobertos de chagas que os mártires, e isso para todo o sempre!

Nenhum demônio se esquiva, nem se esquivará jamais ao desem

penho sinistro da sua tarefa, perfeitamente disciplinados e fiéis quanto à

execução das vingativas ordens que receberam. Sem isso, aliás, que seria o

inferno? Os condenados repousariam se os algozes discutissem, polemizas

sem ou se enfadassem. Mas nada de repouso para uns, nada de disputas

para outros. Por piores que sejam e por maior a sua quantidade, eles se en

tendem de um extremo a outro do abismo e jamais se viu sobre a Terra sú

ditos mais dóceis aos seus príncipes, exércitos mais obedientes aos chefes,

comunidades monásticas mais humildes e submissas aos seus superiores.48

Quase nada se conhece da ralé de demônios, desses vis Espíritos

que compõem as legiões de vampiros, sapos, escorpiões, corvos, hidras,

salamandras e outros animais imundos que constituem a fauna das re

giões infernais. Conhecem-se, porém, os nomes de muitos dos príncipes

que comandam tais legiões, entre os quais Belfegor, o demônio da luxú

ria; Abadon ou Apolion, do homicídio; Belzebu, dos desejos impuros, ou

senhor das moscas responsáveis pela corrupção; Mamon, o da avareza;

Moloc, Belial, Baalgad, Astarot e muitos outros, sem falar do seu chefe

supremo, o sombrio arcanjo que no céu se chamava Lúcifer e no inferno

se chama Satanás.”

47 Nota de Allan Kardec: Singular punição, na verdade, esta de poder continuar em maior escala a prática de mal menor feito na Terra. Seria mais racional que os próprios malfeitores sofressem as consequências desse mal, em vez de se darem ao prazer de fazê-lo aos outros.

48 Nota de Allan Kardec: Esses mesmos demônios, rebeldes a Deus quanto ao bem, são de uma doci

lidade exemplar quanto à prática do mal. Nenhum deles recua ou diminui o fervor durante toda a

eternidade. Que estranha metamorfose operou-se neles, que haviam sido criados puros e perfeitos

como os anjos! Não é de admirar vê-los dar exemplos de harmonia, de concórdia inalterável, quan

do os homens nem sequer sabem viver em paz e se estraçalham na Terra? Vendo-se o requinte dos

castigos reservados aos condenados e comparando a situação deles à dos demônios, não é caso de

perguntar quais os mais dignos de lástima, se as vítimas ou os algozes?

Eis em resumo a ideia que nos dão do inferno, sob o ponto de vista

da sua natureza física e também das penas físicas que aí sofrem. Compulsai

os escritos dos pais da Igreja e dos antigos doutores; interrogai as lendas

piedosas; observai as esculturas e painéis das nossas igrejas; atentai no que

dizem dos púlpitos e sabereis ainda mais.

13. O autor acompanha esse quadro das seguintes reflexões, cujo

alcance todos compreenderão:

“A ressurreição dos corpos é um milagre, mas Deus faz ainda um

segundo milagre, dando a esses corpos mortais, já uma vez usados pelas

passageiras provas da vida e já uma vez aniquilados, a virtude de subsisti

rem sem se dissolverem numa fornalha, onde se volatilizariam os próprios

metais. Que se diga que a alma é o seu próprio algoz, que Deus não a per

segue e apenas a abandona no estado infeliz por ela escolhido — embora

esse abandono eterno de um ser extraviado e sofredor pareça incompatível

com a Bondade divina — isso se pode até conceber; entretanto, o que se

diz da alma e das penas espirituais, não se pode de modo algum dizer dos

corpos e das penas corporais, para a perpetuação das quais já não basta que

Deus se conserve impassível, mas, ao contrário, que intervenha e atue, sem

o que todos os corpos sucumbiriam.

Os teólogos supõem, portanto, que Deus opera efetivamente, após

a ressurreição dos corpos, esse segundo milagre de que falamos. Que em

primeiro lugar Ele tira dos sepulcros que os devoravam os nossos corpos de

barro; retira-os tais como aí baixaram, com suas enfermidades originais e

as degradações sucessivas da idade, das moléstias e dos vícios; restitui-nos a

esse estado, decrépitos, friorentos, gotosos, cheios de necessidades, sensíveis

a uma picada de abelha, cobertos pelas feridas que a vida e a morte nos im

puseram, e está feito o primeiro milagre; depois, a esses corpos raquíticos,

prontos a voltarem ao pó de onde saíram, Deus outorga propriedades que

nunca tiveram, completando o segundo milagre – a imortalidade, esse dom

que, em sua cólera (dizei antes em sua misericórdia), Ele havia retirado de

Adão ao sair do Éden. Adão, quando imortal, era invulnerável, e deixando

de ser invulnerável tornou-se mortal. A morte seguia de perto a dor.

“A ressurreição não nos restabelece, pois, nem nas condições físicas

do homem inocente, nem nas do culpado, sendo antes uma ressurreição

das nossas misérias, mas com um acréscimo de misérias novas, infinita

mente mais horrorosas. É, de algum modo, uma verdadeira criação, e a

mais maliciosa que a imaginação porventura ousou conceber. Deus muda

de parecer e, para ajuntar aos tormentos espirituais dos pecadores tormen

tos carnais que possam durar eternamente, transforma de súbito, por efeito

do seu poder, as leis e propriedades por Ele mesmo estabelecidas desde o

começo dos tempos aos compostos materiais, ressuscita carnes enfermas

e corrompidas e, reunindo por um nó indestrutível esses elementos que

tendem por si mesmos a separar-se, mantém e perpetua, contra a ordem

natural, essa podridão viva, lançando-a ao fogo, não para purificá-la, mas

para conservá-la tal qual é, sensível, sofredora, em chamas, horrível e, tal

como a quer, imortal.

Por esse milagre Deus se transforma num dos algozes do inferno,

pois se os condenados não podem atribuir seus males espirituais senão a

si mesmos, em compensação só a Deus poderão imputar os outros. Era

pouco demais, após a morte, abandoná-los à tristeza, ao arrependimento e

a todas as angústias de uma alma que sente haver perdido o bem supremo.

Segundo os teólogos, Deus irá buscá-las nessa noite, no fundo desse abismo,

chamando-as momentaneamente à vida, não para as consolar, mas para as

revestir de um corpo horrendo, chamejante, imperecível, mais empestado

que a túnica de Dejanira,49 para, em seguida, abandoná-las para sempre.

Ainda assim esse abandono não será absoluto, visto como o céu e a

Terra não subsistem senão por ato permanente da vontade divina, sempre

ativa, e considerando-se que tudo se dissiparia se Ele deixasse de os sustentar.

Deus terá, portanto, sem cessar, esses condenados à mão, para impedir que

o fogo se extinga em seus corpos e os consuma, querendo que contribuam

perenemente por seus suplícios eternos para a edificação dos escolhidos.”

14. Dissemos, e com razão, que o inferno dos cristãos havia supe

rado o dos pagãos. De fato, no Tártaro veem-se culpados torturados pelo

remorso, ante suas vítimas e seus crimes, acabrunhados por aqueles que

espezinharam na vida terrestre; vemo-los fugirem à luz que os penetra, pro

curando em vão escaparem aos olhares que os perseguem; aí o orgulho é

abatido e humilhado; todos trazem o estigma do seu passado, todos são pu

nidos pelas próprias faltas, a tal ponto que, para alguns, basta entregá-los a

si mesmos sem ser preciso aumentar-lhes os castigos. Contudo, são sombras,

isto é, almas com corpos fluídicos, imagens da sua vida terrestre; lá não se vê os

49 N.E.: Esposa de Hércules , de cuja morte foi a causadora fazendo-o vestir a túnica envenenada que lhe fora entregue pelo centauro Nesso.

homens retomarem o corpo carnal para sofrer materialmente, nem o fogo a

penetrar-lhes a pele, saturando-os até a medula dos ossos. Tampouco se vê

o requinte das torturas que constituem o fundo do inferno cristão. Juízes

inflexíveis, porém justos, proferem a sentença de acordo com o delito, ao

passo que no império de Satã todos são confundidos nas mesmas torturas,

com a materialidade por base, e banida toda e qualquer equidade.

Hoje não se nega a existência, no próprio seio da Igreja, de muitos

homens sensatos que não admitem essas coisas à risca, vendo nelas simples

alegorias cujo sentido convém interpretar. Estas opiniões, no entanto, são

individuais e não fazem lei, de modo que a crença no inferno material,

com todas as suas consequências, ainda constitui um artigo de fé.

15. É de perguntar-se como alguns homens foram capazes de ver

essas coisas em estado de êxtase, quando elas de fato não existem. Não cabe

aqui explicar a origem das imagens fantásticas, tantas vezes reproduzidas

com todas as aparências de realidade. Diremos apenas ser preciso conside

rar, em princípio, que o êxtase é a menos segura de todas as revelações50

porque o estado de superexcitação nem sempre implica um desprendimen

to tão completo da alma que se imponha à crença absoluta, denunciando

muitas vezes o reflexo de preocupações da véspera.

As ideias com que o Espírito se nutre e das quais o cérebro, ou

melhor, o envoltório perispiritual que a este corresponde, conserva a for

ma ou a estampa, se reproduzem amplificadas como em uma miragem,

sob formas vaporosas que se cruzam, se confundem e compõem um todo

extravagante. Os extáticos de todos os cultos sempre viram coisas relacio

nadas com a fé que possuíam. Nada há, pois, de extraordinário que Santa

Teresa e outros, tanto quanto ela saturados de ideias infernais pelas des

crições, verbais ou escritas, hajam tido visões, que não são, propriamen

te falando, mais que reproduções por efeito de um pesadelo. Um pagão

fanatizado teria antes visto o Tártaro e as Fúrias, ou Júpiter, no Olimpo,

empunhando o raio.

O purgatório

1. O Evangelho não faz menção alguma do purgatório, que só foi ad

mitido pela Igreja no ano 593. É incontestavelmente um dogma mais racional

e mais conforme à vontade de Deus do que o do inferno, porque estabelece

penas menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de mediana gravidade.

O princípio do purgatório funda-se, pois, na equidade, porque,

comparado à justiça humana, é a detenção temporária a par da condenação

perpétua. Que diríamos de um país que só tivesse a pena de morte para os

crimes hediondos e os delitos mais simples? Sem o purgatório, só há para

as almas duas alternativas extremas: a felicidade absoluta ou o suplício eter

no. Nessa hipótese, que seria das almas somente culpadas de ligeiras faltas?

Ou compartilhariam da felicidade dos eleitos, ainda quando imperfeitas, ou

sofreriam o castigo imposto aos maiores criminosos, mesmo quando não

houvessem praticado muito mal, o que não seria nem justo, nem racional.

2. A noção de purgatório, entretanto, deveria ser necessariamente in

completa, porque apenas conhecendo a penalidade do fogo os homens fizeram

dele um inferno menos tenebroso, visto que as almas aí também ardem, embo

ra em fogo mais brando. Sendo o dogma das penas eternas incompatível com

o progresso, as almas do purgatório não se livram dele por efeito do seu adian

tamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em

sua intenção. Se o primeiro pensamento foi bom, o mesmo não se pode dizer

das consequências que dele decorrem, pelos abusos a que deram causa. As pre

ces pagas transformaram o purgatório em mina mais rendosa que o inferno.51

51 Nota de Allan Kardec: O purgatório deu origem ao comércio escandaloso das indulgências, por in

termédio do qual se vendia a entrada no céu. Este abuso foi a causa principal da Reforma, levando

Lutero a rejeitar o purgatório.

3. O local do purgatório e a natureza das penas aí sofridas nunca fo

ram determinados e definidos claramente. Estava reservado à Nova Reve

lação o preenchimento dessa lacuna, ao nos explicar as causas das misérias

da vida terrena, das quais só a pluralidade das existências poderia mostrar--nos a justiça. Essas misérias decorrem necessariamente das imperfeições

da alma, pois se ela fosse perfeita não cometeria faltas nem teria de sofrer--lhe as consequências.

O homem que na Terra fosse sóbrio e moderado em tudo, por exem

plo, não padeceria enfermidades oriundas dos excessos. Na maior parte das

vezes ele é infeliz por sua própria culpa; porém, se é imperfeito, é porque

já o era antes de vir à Terra, expiando não somente faltas atuais, mas faltas

anteriores não reparadas. Sofre em uma vida de provações o que fez so

frer a outrem em anterior existência. As vicissitudes que experimenta são,

ao mesmo tempo, uma correção temporária e uma advertência quanto às

imperfeições que lhe cumpre eliminar de si, a fim de evitar males futu

ros e progredir para o bem. São para a alma lições da experiência, rudes

às vezes, mas tanto mais proveitosas para o porvir quanto profundas as

impressões que deixam. Essas vicissitudes provocam lutas incessantes que

desenvolvem suas forças e suas faculdades intelectuais e morais. Por essas

lutas a alma se retempera no bem, triunfando sempre que tiver coragem

para mantê-las até o fim. O prêmio da vitória está na vida espiritual, onde

a alma entra radiosa e triunfante, como o soldado que sai da refrega para

receber a palma gloriosa.

4. Cada existência é uma oportunidade para a alma dar um passo à

frente. Depende da sua vontade a maior ou menor extensão desse passo,

seja franqueando muitos degraus, seja permanecendo no mesmo ponto.

Neste último caso, de nada lhe aproveita o sofrimento; e, porque cedo ou

tarde se impõe sempre o pagamento de suas dívidas, terá de recomeçar

nova existência em condições ainda mais penosas, porque outra mancha

virá juntar-se a uma mancha não apagada.

É, pois, nas sucessivas encarnações que a alma se despoja pouco a

pouco das suas imperfeições, que se purga, até que esteja bastante pura para

poder deixar os mundos de expiação, por mundos mais venturosos e, mais

tarde, para fruir em outros a suprema felicidade. Assim, o purgatório não

constitui uma ideia vaga e incerta. É uma realidade material que vemos,

tocamos e sofremos; existe nos mundos de expiação, e a Terra é um desses

mundos; nela os homens expiam o passado e o presente, em proveito do

futuro. Contrariamente, porém, à ideia que deles se faz, depende de cada

um prolongar ou abreviar a sua permanência, segundo o grau de adianta

mento e pureza atingido pelo próprio esforço sobre si mesmo. Daí só se

sai por mérito próprio, e não por conclusão de tempo ou pelos méritos

alheios, consoante estas palavras do Cristo: A cada um segundo as suas obras,

palavras que resumem integralmente a Justiça de Deus.

5. Aquele, pois, que sofre nesta vida deve convencer-se de que assim

sucede porque não se depurou suficientemente em sua existência anterior

e que, se não o fizer nesta, deverá sofrer ainda mais na seguinte. Isto é ao

mesmo tempo equitativo e lógico. Sendo o sofrimento inerente à imperfei

ção, tanto mais tempo se sofrerá quanto mais imperfeito se for, da mesma

forma que uma enfermidade persistirá por mais tempo quanto maior for

a demora em tratá-la. É por isso que, enquanto o homem for orgulhoso e

egoísta, sofrerá as consequências do orgulho e do egoísmo.

6. Devido às suas imperfeições, o Espírito culpado sofre primei

ro na vida espiritual, sendo-lhe depois concedida a vida corpórea como

meio de reparação. É por isso que nessa nova existência ele se achará em

relação com as pessoas a quem ofendeu, ou em meios semelhantes àque

les em que praticou o mal, ou ainda em situações opostas à sua vida pre

cedente, como na miséria ou numa condição humilhante, por exemplo,

se foi mau rico ou orgulhoso.

A expiação no mundo dos Espíritos e na Terra não constitui du

plo castigo para o Espírito, mas um complemento, um desdobramento

do trabalho efetivo com vistas a lhe facilitar o progresso. Depende dele

aproveitá-lo. Não será preferível que o Espírito volte à Terra, com a pos

sibilidade de alcançar o céu, a ser condenado sem remissão se a deixar

definitivamente? A concessão dessa liberdade é uma prova da sabedoria,

da bondade e da Justiça de Deus, que quer que o homem deva tudo aos

próprios esforços e seja o responsável pelo seu futuro. Se for infeliz por mais

ou menos tempo, não poderá queixar-se senão de si mesmo, visto que a

rota do progresso lhe estará sempre aberta.

7. Considerando-se como é grande o sofrimento de certos Espíritos

culpados no mundo invisível, quão terrível e penosa é a situação de outros,

agravada ainda mais pela impotência de preverem o termo desses sofrimen

tos, poder-se-ia dizer que se acham no inferno, desde que tal vocábulo não

implicasse a ideia de um castigo eterno e material. Graças, porém, à revela

ção dos Espíritos e aos exemplos que nos oferecem, sabemos que a duração

da expiação está subordinada ao melhoramento do culpado.

8. O Espiritismo não vem, pois, negar as penas futuras; vem, ao

contrário, confirmá-las. O que ele destrói é o inferno localizado com suas

fornalhas e penas irremissíveis. Também não nega o purgatório, pois prova

que nele nos achamos. Ao defini-lo precisamente e ao explicar a causa das

misérias terrenas, conduz à crença aqueles mesmos que o negam. Repele

as preces pelos mortos? Ao contrário, visto que os Espíritos sofredores as

solicitam; eleva-as a um dever de caridade e demonstra a sua eficácia para

os conduzir ao bem e, por esse meio, abreviar os seus tormentos.52 Falando

à inteligência, tem levado a fé a muitos incrédulos, incutindo a prece no

ânimo dos que a escarneciam. O que o Espiritismo afirma é que o valor da

prece está no pensamento, e não nas palavras; que as melhores preces são

as do coração, e não as dos lábios; aquelas que cada um faz pessoalmente, e

não as que se mandam dizer por dinheiro. Quem, pois, ousaria censurá-lo?

9. Seja qual for a duração do castigo e onde quer que ocorra, na

vida espiritual ou na Terra, terá sempre um termo, próximo ou remoto.

Na realidade não há para o Espírito mais que duas alternativas, a saber:

punição temporária e proporcional à culpa, e recompensa graduada segundo

o mérito. O Espiritismo repele a terceira alternativa, a da condenação eter

na. O inferno reduz-se a figura simbólica dos maiores sofrimentos, cujo

termo é desconhecido. O purgatório, sim, é a realidade.

A palavra purgatório sugere a ideia de um lugar circunscrito, apli

cando-se, por isso mesmo e mais naturalmente à Terra, considerada como

local de expiação, do que ao Espaço infinito onde erram os Espíritos so

fredores, sobretudo porque a natureza da expiação terrena tem todas as

características da verdadeira expiação.

Quando os homens se melhorarem, não fornecerão ao mundo in

visível senão Espíritos bons, de modo que estes, ao encarnarem, só for

necerão à humanidade corpórea elementos aperfeiçoados. Então a Terra

deixará de ser um mundo de expiação e os homens não sofrerão mais as

misérias decorrentes das suas imperfeições. É por esta transformação, que

neste momento se opera, que a Terra se elevará na hierarquia dos mundos.

(Veja-se O evangelho segundo o espiritismo, cap. III.)

10. Por que, então, o Cristo não falou do purgatório? É que, não

existindo a ideia, não havia palavra que a representasse. Ele se serviu da pa

lavra inferno, a única usada, como termo genérico, para designar sem dis

tinção as penas futuras. Se houvesse colocado, ao lado da palavra inferno,

uma equivalente a purgatório, não poderia precisar-lhe o verdadeiro senti

do sem ferir uma questão reservada ao futuro; teria, enfim, de consagrar a

existência de dois lugares especiais de castigo. O inferno, em sua concepção

genérica, despertando a ideia de punição, encerrava, implicitamente, a do

purgatório, que não passa de um modo de penalidade.

Estava reservado ao futuro esclarecer os homens sobre a natureza das

penas e, por isso mesmo, reduzir o inferno ao seu justo valor. E já que a

Igreja, após seis séculos, houve por bem suprir o silêncio de Jesus quanto

ao purgatório, decretando-lhe a existência, é porque julgou que o Mestre

não havia dito tudo. E por que não haveria de dar-se sobre outros pontos

o com que este se deu?

67

Doutrina das penas eternas

• Origem da doutrina das penas eternas • Argumentos a

favor das penas eternas • Impossibilidade material das penas

eternas • A doutrina das penas eternas fez sua época • Ezequiel

contra a eternidade das penas e o pecado original

Origem da doutrina das penas eternas

1. A crença na eternidade das penas perde diariamente tanto ter

reno que, sem ser profeta, é possível prever-se para breve o seu fim. Tem

sido combatida por meio de argumentos tão poderosos e tão categóricos

que, de agora em diante, nos parece quase supérfluo ocuparmo-nos de tal

doutrina, deixando que se extinga por si mesma. Entretanto, não se pode

contestar que, mesmo caduca, ainda constitui o argumento principal uti

lizado pelos adversários das ideias novas, o ponto que defendem com

mais obstinação, por ser um dos lados mais vulneráveis que ela apresenta,

e porque preveem as consequências dessa queda. Por este lado, a questão

merece sério exame.

2. A doutrina das penas eternas teve a sua razão de ser, como a do

inferno material, enquanto o temor podia constituir um freio para os ho

mens pouco adiantados intelectual e moralmente. Impossibilitados que

estavam de captarem as nuanças tantas vezes delicadas do bem e do mal,

bem como o valor relativo das circunstâncias atenuantes e agravantes, os

homens não se impressionariam, a não ser pouco ou mesmo nada, com

a ideia das penas morais; tampouco compreenderiam a temporalidade

dessas penas e a justiça decorrente das suas gradações e proporções.

3. Quanto mais próximo do estado primitivo, mais material é o

homem. O senso moral é o que mais tardiamente se desenvolve nele, ra

zão pela qual não pode fazer de Deus, dos seus atributos e da vida futura,

senão uma ideia muito vaga e imperfeita. Assimilando-o à sua própria

natureza, Deus não passa para ele de um soberano absoluto, tanto mais

terrível quanto invisível, como um rei despótico que, fechado no seu pa

lácio, jamais se mostrasse aos súditos. Sem compreenderem o seu poder

moral, só o aceitam pela força material, e não o veem senão armado com

o raio, ou no meio de relâmpagos e tempestades, semeando de passagem

a ruína e a desolação, tal como fazem os guerreiros invencíveis. Um Deus

de mansuetude e misericórdia não seria um Deus, mas um ser fraco a

quem seria impossível obedecer. A vingança implacável, os castigos ter

ríveis, eternos, nada tinham de incompatíveis com a ideia que se fazia

de Deus, nada que lhes repugnassem à razão. Como eles mesmos fossem

implacáveis nos seus ressentimentos, cruéis com os inimigos e inexorá

veis com os vencidos, Deus, que lhes era superior, deveria ser ainda mais

terrível.

Para tais homens havia necessidade de crenças religiosas compa

tíveis com a sua natureza ainda rústica. Uma religião exclusivamente

espiritual, toda amor e caridade, não podia aliar-se à brutalidade dos

costumes e das paixões, de modo que não se deve censurar a legislação

draconiana53 de Moisés, que apenas podia conter seu povo indócil, nem

o fato de haver feito de Deus um Deus vingativo. A época assim o exigia,

sem o que a doutrina de Jesus não teria encontrado eco e até mesmo se

anularia.

4. À medida que o Espírito se desenvolvia, o véu material pouco

a pouco se dissipava e os homens se tornavam mais aptos para compre

ender as coisas espirituais, o que só aconteceu lenta e gradualmente. Por

ocasião de sua vinda, Jesus já pôde proclamar um Deus clemente, falan

do de seu reino, que não é deste mundo, e dizer aos homens: “Amai-vos

uns aos outros e fazei o bem aos que vos odeiam”, enquanto os antigos

diziam: “Olho por olho, dente por dente.”

Ora, quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus? Seriam

almas novamente criadas e encarnadas? Se assim fosse, teria Deus criado

almas mais adiantadas no tempo de Jesus do que no tempo de Moisés?

Mas então em que se teriam tornado estas últimas? Consumir-se-iam por

toda a eternidade no embrutecimento? O simples bom senso repele tal

suposição. Não; essas almas eram as mesmas que viviam sob o império

das leis mosaicas e que tinham adquirido, em várias existências sucessi

vas, desenvolvimento suficiente à compreensão de uma doutrina mais

elevada, assim como hoje se encontram mais adiantadas para receber um

ensino ainda mais completo.

5. Todavia, o Cristo não pôde revelar aos seus contemporâneos to

dos os mistérios do futuro. Ele próprio o disse: “Muitas coisas ainda vos

diria se as pudésseis compreender, e é por isso que vos falo em parábolas.”

Mas o Cristo foi muito explícito sobretudo no que diz respeito à moral,

porque, tocando na corda sensível da vida material, sabia fazer-se com

preender. Quanto aos outros pontos, limitou-se a semear sob a forma

alegórica os germes que deveriam ser desenvolvidos mais tarde.

A doutrina das penas e recompensas futuras pertence a esta última

ordem de ideias. Sobretudo em relação às penas, Ele não poderia romper

bruscamente com as ideias preconcebidas. Vindo traçar aos homens no

vos deveres, substituir o ódio e a vingança pelo amor do próximo e pela

caridade, o egoísmo pela abnegação, já era muito; além disso, não podia

racionalmente enfraquecer o temor do castigo reservado aos prevaricado

res, sem enfraquecer ao mesmo tempo a ideia do dever.

Se prometia o reino dos céus aos bons, esse reino estaria interdito

aos maus; para onde iriam estes? Precisava de uma compensação capaz

de impressionar inteligências ainda muito rudimentares, de modo que

pudessem identificar-se com a vida espiritual, visto que Jesus se dirigia ao

povo, à parte menos esclarecida da sociedade, para a qual havia necessi

dade de imagens de algum modo palpáveis, e não de ideias sutis. Foi esta

a razão por que Jesus não entrou em minúcias supérfluas a este respeito;

naquela época, bastava-lhe opor uma punição à recompensa.

6. Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os

ameaçou de serem lançados na geena. Ora, que vem a ser a geena? Um

lugar nos arredores de Jerusalém, um monturo onde se despejavam as

imundícies da cidade. Dever-se-ia interpretar isso também ao pé da letra?

Entretanto, era uma dessas figuras enérgicas de que Ele se servia para

impressionar as massas. O mesmo se dá com o fogo eterno. E se tal

não tivesse sido o seu pensamento, Ele estaria em contradição consigo

mesmo ao exaltar a clemência e a misericórdia de Deus, pois clemên

cia e inexorabilidade são sentimentos antagônicos que se anulam. Seria,

pois, equivocar-se singularmente sobre o sentido das palavras de Jesus,

atribuindo-lhes a sanção do dogma das penas eternas, quando todo o seu

ensino vem proclamar a mansidão do Criador.

No Pai-nosso Jesus nos ensina a dizer: “Perdoai, Senhor, as nossas

faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Se o culpado

não devesse esperar algum perdão, seria inútil pedi-lo. Esse perdão, po

rém, é incondicional? É uma graça, é uma remissão pura e simples da

pena em que se incorreu? Não; a medida desse perdão subordina-se ao

modo pelo qual se haja perdoado, o que equivale dizer que não seremos

perdoados se, por nosso lado, não perdoarmos aos outros. Ao fazer do

esquecimento das ofensas uma condição absoluta, Deus não podia exigir

do homem fraco o que Ele, onipotente, não fizesse. O Pai-nosso é um

protesto cotidiano contra a eterna vingança de Deus.

7. Para homens que só possuíam da espiritualidade da alma uma

ideia confusa, o fogo material nada tinha que chocasse, até porque já

fazia parte da crença comum, haurida no inferno dos pagãos, quase uni

versalmente espalhada. Do mesmo modo, a eternidade das penas nada

apresentava que pudesse repugnar a homens desde muitos séculos sub

metidos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus, portanto,

o fogo eterno não passaria de simples figura, pouco lhe importando que

essa figura fosse tomada ao pé da letra, desde que servisse de freio às pai

xões humanas. Além disso, Ele sabia que o tempo e o progresso se incum

biriam de explicar o sentido alegórico, considerando-se ainda, segundo a

sua predição, que o Espírito de Verdade viria esclarecer os homens sobre

todas as coisas.

O caráter essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrepen

dimento. Ora, Jesus nunca disse que o arrependimento não encontraria

graça diante do Pai. Ao contrário, sempre que se lhe apresentou opor

tunidade, Ele no-lo mostrou como um Deus clemente, misericordioso,

pronto a receber o filho pródigo que voltasse ao lar paterno; inflexível,

sim, para o pecador obstinado, porém sempre disposto a trocar o castigo

pelo perdão do culpado sinceramente arrependido. Este não é, por certo,

o caráter de um Deus sem piedade. Também convém assinalar que Jesus

nunca pronunciou contra quem quer que fosse, mesmo contra os maio

res culpados, a condenação irremissível.

8. Todas as religiões primitivas, refletindo o caráter dos povos, ti

veram deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos. O Jeová

dos hebreus facultava-lhes mil modos de exterminar os inimigos; recom

pensava-os com a vitória ou punia-os com a derrota. A ideia que faziam

de Deus os levava a honrá-lo ou apaziguá-lo com o sangue de animais ou

de homens, e daí os sacrifícios sangrentos que representavam papel tão

importante em todas as religiões da antiguidade. Os judeus já tinham

abolido os sacrifícios humanos; os cristãos, apesar dos ensinamentos do

Cristo, por muito tempo julgaram honrar o Criador, entregando, aos mi

lhares, às chamas e às torturas, os que denominavam hereges, o que não

deixava de ser, sob outra forma, verdadeiros sacrifícios humanos, visto

que os promoviam para maior glória de Deus, e com acompanhamento

de cerimônias religiosas. Hoje, ainda invocam o Deus dos exércitos antes

do combate e o glorificam após a vitória, muitas vezes pelas causas mais

injustas e anticristãs.

9. Como o homem é vagaroso em desfazer-se dos seus hábitos, pre

conceitos e ideias primitivas! Quarenta séculos nos separam de Moisés,

e a nossa geração cristã ainda vê traços de antigos usos bárbaros, se não

consagrados, ao menos aprovados pela religião atual! Foi preciso a po

derosa opinião dos não-ortodoxos, dos que são considerados heréticos,

para acabar com a fogueira e fazer que se compreendesse a verdadeira

grandeza de Deus. À em falta de fogueiras, porém, prevalecem ainda as

perseguições materiais e morais, tão radicada está no homem a ideia de

um Deus cruel. Nutrido por sentimentos que lhe são apregoados desde a

infância, poderá o homem estranhar que o Deus que lhe apresentam, li

sonjeado por atos bárbaros, condene a torturas eternas e veja sem piedade

o sofrimento dos culpados?

Sim, foram justamente os filósofos, os ímpios como querem al

guns, que se escandalizaram vendo o nome de Deus profanado por atos

indignos da sua magnanimidade. Foram eles que o mostraram aos ho

mens na plenitude da sua grandeza, despojando-o das paixões e baixezas

humanas, atribuídas por uma crença menos esclarecida. Neste ponto a

religião ganhou em dignidade o que tem perdido em prestígio exterior,

porque se ainda existem homens apegados à forma, bem maior é o núme

ro dos sinceramente religiosos pelo sentimento e pelo coração.

Ao lado destes, porém, quantos se detiveram na superfície e foram

levados, sem mais reflexão, a negarem toda a Providência! Por não ter

sido capaz de conciliar as crenças religiosas com o progresso da razão

humana, a religião levou muita gente ao deísmo e à incredulidade abso

luta, sem esquecermos o panteísmo, isto é, o homem fazendo-se deus ele

próprio, à falta de um ser mais perfeito.

Argumentos a favor das penas eternas

10. Voltemos ao dogma das penas eternas, que tem, como prin

cipal argumento invocado em seu favor, o seguinte: “É ponto pacífico

entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcional à qualidade do

ofendido. O crime perpetrado contra um soberano, por exemplo, sendo

considerado mais grave do que o cometido contra qualquer súdito é, por

isso mesmo, punido com maior severidade. E sendo Deus muito mais

que um soberano, pois é infinito, a ofensa a Ele deve ser infinita, como

infinito deve ser o respectivo castigo, isto é, eterno.”

rEfutAção – Toda refutação é um raciocínio que deve ter seu pon

to de partida, uma base sobre a qual se apoie, premissas, enfim. Tomemos

essas premissas aos próprios atributos de Deus: — único, eterno, imutá

vel, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas

as perfeições.

É impossível conceber Deus de outra maneira, visto que, sem a

infinita perfeição, poder-se-ia conceber outro ser que lhe fosse superior.

Para que seja único acima de todos os seres, é absolutamente necessário

que ninguém possa excedê-lo ou sequer igualá-lo no que quer que seja.

Logo, é preciso que seja infinito em tudo.

Por serem infinitos, os atributos divinos não podem sofrer aumen

to nem diminuição, sem o que não seriam infinitos nem Deus seria per

feito. Se se tirasse a menor parcela de um só dos seus atributos, já não

haveria Deus, visto que poderia coexistir um ser mais perfeito do que

Ele. O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência

de outra qualidade contrária que pudesse diminuí-la e anulá-la. Um ser

infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade, nem o ser

infinitamente mau pode ter a menor parcela de bondade. Assim também

um objeto não seria absolutamente negro com a mais leve nuança de

branco e vice-versa. Estabelecido este ponto de partida, oporemos aos

argumentos citados os seguintes:

11. Só um ser infinito pode fazer algo infinito. Sendo limitado nas

virtudes, nos conhecimentos, no poderio, nas aptidões e na existência

terrena, o homem não pode produzir senão coisas limitadas. Se pudesse

ser infinito no mal que faz, ele o seria igualmente no bem, igualando-se,

então, a Deus. Se o homem, porém, fosse infinito no bem não praticaria

o mal, já que o bem absoluto é a exclusão de todo o mal.

Admitindo-se que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser

absoluta, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria infinitamente

vingativo; e sendo Deus infinitamente vingativo não pode ser infinita

mente bom e misericordioso, visto que um desses atributos é a negação

do outro. Se não for infinitamente bom não é perfeito; e se não for per

feito deixa de ser Deus.

Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é mi

sericordioso; e se não é misericordioso, deixa de ser infinitamente bom.

Por que, então, Deus outorgaria aos homens uma lei de perdão, se Ele

próprio não perdoasse? Resultaria daí que o homem que perdoa aos seus

inimigos e lhes retribui o mal com o bem seria melhor que Deus, surdo

ao arrependimento dos que o ofendem, negando-lhes por todo o sempre

o mais ligeiro consolo.

Achando-se em toda parte e tudo vendo, Deus deve ver também

as torturas dos condenados; e se Ele se mantém insensível aos gemidos

deles por toda a eternidade, será eternamente impiedoso. Logo, se não

tem piedade, não é infinitamente bom.

12. A isto replicam que o pecador que se arrepende antes de morrer

tem a misericórdia de Deus, e que mesmo o maior culpado pode receber

essa graça. Quanto a isto não há dúvida, e compreende-se que Deus só

perdoe ao arrependido, mantendo-se inflexível para com os obstinados;

mas se Ele é todo misericordioso para a alma que se arrepende antes de

deixar o corpo, por que deixará de sê-lo para a que se arrepende depois da

morte? Por que o arrependimento só seria eficaz durante a vida, que não

passa de um breve instante, e não na eternidade, que não tem fim? Se a

bondade e a misericórdia divinas fossem circunscritas a um dado tempo,

teriam limites e Deus não seria infinitamente bom.

13. Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é inexorá

vel de forma alguma, nem tão complacente a ponto de deixar impunes

todas as faltas; ao contrário, leva em conta rigorosamente o bem e o mal,

recompensando um e punindo o outro equitativa e proporcionalmente,

sem se enganar jamais na sua aplicação.

Se, por uma falta passageira, resultante sempre da natureza imper

feita do homem e muitas vezes do meio em que vive, a alma pode ser

punida eternamente, sem esperança de clemência ou de perdão, não há

proporção entre a falta e o castigo e, portanto, não há justiça. Recon

ciliando-se com Deus, arrependendo-se e pedindo para reparar o mal

praticado, o culpado estará retornando ao bem, aos bons sentimentos.

Se, porém, o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem em nada lhe apro

veita, e um bem não considerado significa injustiça. Entre os homens,

o condenado que se corrige tem a pena comutada e, algumas vezes, até

perdoada. Não haveria, nesse caso, mais equidade na justiça humana do

que na divina?

Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil. Nada

tendo de esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no mal, de

modo que Deus não só o condena a sofrer perpetuamente, mas ainda a

permanecer no mal por toda a eternidade. Nisso não há nem bondade

nem justiça.

14. Sendo infinito em tudo, Deus deve conhecer tudo, tanto o pas

sado quanto o futuro; deve saber, ao criar uma alma, se ela virá a falir de

forma tão grave a ponto de ser condenada eternamente. Se não o souber,

a sua sabedoria não é infinita; logo, Ele deixa de ser Deus. Sabendo-o,

cria voluntariamente um ser votado desde a formação a torturas sem-fim

e, nesse caso, deixa de ser bom. Uma vez, porém, que Deus pode estender

a sua misericórdia ao pecador arrependido e tirá-lo do inferno, deixam de

existir penas eternas, e o juízo dos homens está revogado.

15. Por conseguinte, a doutrina das penas eternas absolutas conduz

forçosamente à negação, ou, pelo menos, ao enfraquecimento de alguns

atributos de Deus, sendo, portanto, inconciliável com a perfeição infi

nita. Estamos, assim, diante de um dilema: ou Deus é perfeito e não há

penas eternas ou há penas eternas e Deus não é perfeito.

16. Também se invoca em favor do dogma da eternidade das penas

o seguinte argumento: “A recompensa conferida aos bons, sendo eterna,

deve ter por corolário a eterna punição. É justo proporcionar a punição

à recompensa.”

rEfutAção – Deus criou a alma para fazê-la feliz ou infeliz? Evi

dentemente, a felicidade da criatura deve ser o objetivo do Criador, pois,

de outro modo, Ele não seria bom. A alma alcança a felicidade pelo pró

prio mérito que, uma vez adquirido, não mais o perde. O contrário seria

a sua degenerescência. A felicidade eterna é, pois, a consequência da sua

imortalidade.

Antes, porém, de chegar à perfeição, tem lutas a sustentar, com

bates a travar com as más paixões. Não tendo sido criada perfeita, mas

suscetível de o ser, a fim de que tenha o mérito de suas obras, a alma pode

cair em faltas. Suas quedas são a consequência da sua natural fraqueza. E

se devesse ser punida eternamente em virtude de uma queda, não seria o

caso de perguntar por que Deus não a criou mais forte? A punição que

ela sofre é uma advertência do mal que praticou, devendo ter por fim

reconduzi-la ao bom caminho. Se a pena fosse irremissível, o desejo de

melhorar seria supérfluo; nem mesmo o fim da Criação seria alcançado,

porque haveria seres predestinados à felicidade e outros à desgraça. Se

uma alma culpada se arrepende, pode regenerar-se, e podendo regenerar--se pode aspirar à felicidade. Ora, Deus seria justo se lhe recusasse os

meios para isso?

Sendo o bem o fim supremo da Criação, a felicidade, que é o seu

prêmio, deve ser eterna, como temporário deve ser o castigo, que é o

meio de alcançá-la. Mesmo entre os homens, a mais vulgar noção de

justiça prescreve que não se pode castigar perpetuamente quem se mostra

desejoso de praticar o bem.

17. Um último argumento a favor das penas eternas é este: “O

temor das penas eternas é um freio; se fosse anulado, o homem, por nada

temer, entregar-se-ia a todos os excessos.”

rEfutAção – Esse raciocínio seria justo se a não-eternidade das

penas provocasse a supressão de toda sanção penal. A felicidade ou infe

licidade futura é consequência rigorosa da Justiça de Deus, visto que a

identidade de condições para o homem bom e para o perverso seria a ne

gação da justiça. Mas pelo fato de não ser eterno, nem por isso o castigo

deixa de ser menos penoso. Ele se torna tanto mais temível quanto mais

nele se crê, e tanto mais aceitável quando mais racional. Uma penalidade

em que não se crê não pode ser um freio e a eternidade das penas está

nesse caso.

A crença nas penas eternas, como já dissemos, teve a sua utilidade,

a sua razão de ser em certa época; hoje, não somente deixa de impressio

nar os ânimos, como até produz descrentes. Antes de proclamá-la como

uma necessidade, seria preciso demonstrar a sua realidade. Além disso,

seria preciso observar a sua eficácia junto àqueles que a preconizam e

se esforçam por demonstrá-la. Infelizmente, entre esses, muitos provam

pelos atos que nada temem das penas eternas. Ora, se ela é impotente

para reprimir o mal entre aqueles mesmos que dizem acreditar nela, que

domínio poderá exercer sobre os descrentes e refratários?

Impossibilidade material das penas eternas

18. Até aqui, só temos combatido o dogma das penas eternas com

o raciocínio. Vamos demonstrá-lo agora em contradição com os fatos

positivos que observamos e provar, desse modo, a sua impossibilidade.

Segundo esse dogma, a sorte das almas após a morte está fixada

de forma irrevogável e, por conseguinte, vetado definitivamente o seu

progresso. Ora, a alma progride ou não? Eis a questão. Se progride, a

eternidade das penas é impossível.

Pode-se duvidar desse progresso, quando se vê a enorme variedade

de aptidões morais e intelectuais existentes na Terra, desde o selvagem

até o homem civilizado? Quando se vê a diferença apresentada por um

mesmo povo de um século a outro? Se admitirmos que não são mais as

mesmas almas, é preciso então admitir que Deus criou almas em todos os

graus de adiantamento, segundo os tempos e lugares, favorecendo umas e

destinando outras à perpétua inferioridade, o que seria incompatível com

a justiça, que deve ser igual para todas as criaturas.

19. É incontestável que a alma atrasada moral e intelectualmente,

como a dos povos bárbaros, não pode ter os mesmos elementos de felici

dade, as mesmas aptidões para gozar dos esplendores do infinito, como

a alma cujas faculdades estão amplamente desenvolvidas. Se, portanto,

estas almas não progredirem, não poderão, em condições mais favoráveis,

gozar na eternidade senão de uma felicidade muito limitada. Para es

tar de acordo com a rigorosa justiça, chegaremos, pois, à conclusão de

que as almas mais adiantadas são as mesmas que antes se apresentavam

como atrasadas e que depois progrediram. Mas aqui nos deparamos com

a questão da pluralidade das existências, único meio racional para resolver

a dificuldade. Não obstante, vamos deixá-la de lado e considerar a alma

sob o ponto de vista de uma única existência.

20. Imaginemos um rapaz de 20 anos, como tantos que existem,

ignorante, viciado por índole, negando sua alma e Deus, entregue à de

sordem e cometendo toda sorte de malvadeza. Encontrando-se depois

num meio favorável, esse rapaz instrui-se, corrige-se gradualmente e aca

ba por tornar-se crente e piedoso. Não é esse um exemplo palpável do

progresso da alma durante a vida, exemplo que se reproduz todos os dias?

Esse homem morre em idade avançada, como um santo, e certamente

a sua salvação está assegurada. Qual, no entanto, seria a sua sorte se

um acidente o levasse à morte 40 ou 50 anos mais cedo? Ele estava nas

condições exigidas para ser condenado e, se o fosse, todo progresso se

lhe tornaria impossível. Eis, pois, segundo a doutrina das penas eternas,

um homem salvo somente pela circunstância de ter vivido mais tempo,

circunstância, aliás, muito frágil, visto que um acidente qualquer poderia

interromper bem mais cedo a sua vida. Desde que sua alma pôde pro

gredir em dado tempo, por que razão não mais poderia progredir depois

da morte, se uma causa alheia à sua vontade a tivesse impedido de fazê--lo durante a vida? Por que Deus lhe recusaria tais meios? Neste caso, o

arrependimento veio, embora tardio. Mas se desde o momento da morte

se impusesse a ele uma condenação irrevogável, esse arrependimento se

ria infrutífero por toda a eternidade e sua aptidão para progredir estaria

anulada para sempre.

21. O dogma da eternidade absoluta das penas é, portanto, incom

patível com o progresso das almas, ao qual opõe uma barreira insuperá

vel. Esses dois princípios anulam-se mutuamente, isto é, a condição da

existência de um implica forçosamente o aniquilamento do outro. Qual

dos dois existe de fato? A lei do progresso é clara: não é uma teoria, mas

um fato confirmado pela experiência; é uma Lei da natureza, Lei divina,

imprescritível. E, pois, já que esta lei existe e não pode conciliar-se com

a outra, é porque a outra não existe. Se o dogma das penas eternas fosse

uma verdade, Santo Agostinho, Paulo e tantos outros jamais teriam visto

o céu, caso morressem antes de realizar o progresso que lhes trouxe a

conversão.

A este último argumento, respondem que a conversão desses santos

personagens não é um resultado do progresso da alma, mas da graça que

lhes foi concedida e pela qual foram tocados. Porém, isto é simples jogo

de palavras. Se esses santos praticaram o mal e depois o bem, é que me

lhoraram; logo, progrediram. Por que Deus lhes teria concedido como

especial favor a graça de se corrigirem? Sim, por que a eles e não a outros?

Sempre a doutrina dos privilégios, incompatível com a Justiça de Deus e

com o amor que Ele dispensa igualmente a todas as criaturas.

Segundo a Doutrina Espírita, de acordo mesmo com as palavras

do Evangelho, com a lógica e com a mais rigorosa justiça, o homem é

filho de suas obras, durante esta vida e depois da morte, nada devendo

ao favoritismo: Deus o recompensa pelos esforços que faz e o castiga pela

negligência, por tanto tempo quanto nela persistir.

A doutrina das penas eternas fez sua época

22. A crença na eternidade das penas materiais prevaleceu como

crença salutar enquanto os homens não tiveram ao seu alcance a com

preensão do poder moral. É o que acontece com as crianças durante

certo tempo, contidas pela ameaça de seres quiméricos com os quais são

intimidadas. Chegadas, porém, ao período do raciocínio, repelem por si

mesmas essas quimeras da infância, tornando-se absurdo querer governá--las por tais meios. Se os que as dirigem persistirem em afirmar-lhes que

tais fábulas são verdadeiras e que, portanto, devem ser tomadas ao pé da

letra, por certo perderão a sua confiança. É isso que se dá hoje com a hu

manidade, saindo da infância e abandonando, por assim dizer, as fraldas

que a envolviam. O homem não é mais esse instrumento passivo vergado

à força material, nem aquele crédulo de outrora, que aceitava tudo de

olhos fechados.

23. A crença é um ato de entendimento e, por isso mesmo, não

pode ser imposta. Se, durante certo período da humanidade, o dogma

das penas eternas se manteve inofensivo, salutar mesmo, chegou o mo

mento em que se torna perigoso. Com efeito, a partir do momento em

que é imposto como verdade absoluta, quando a própria razão o repele,

podem acontecer duas coisas: ou o homem quer acreditar e procura uma

crença mais racional, se afastando dos que o professam, ou, então, descrê

absolutamente de tudo. Quem quer que estude o assunto, calmamente,

verá que, em nossos dias, o dogma da eternidade das penas tem feito mais

ateus e materialistas do que todos os filósofos.

As ideias seguem um curso incessantemente progressivo, de modo

que não se pode governar os homens desviando-se desse curso. Preten

der contê-los, retroceder ou simplesmente parar enquanto ele avança, é

condenar-se. Seguir ou deixar de seguir essa evolução é uma questão de

vida ou de morte para as religiões como para os governos. Esse fatalismo

é um bem ou um mal? Certamente é um mal para os que, vivendo do

passado, o veem aniquilar-se; mas para os que vivem pelo futuro é uma

lei do progresso, ou seja, uma Lei de Deus. E contra uma Lei divina é

inútil toda revolta, impossível toda luta.

Por que, então, querer a todo custo uma crença que cai em desu

so e que, afinal, causa mais danos que benefícios à religião? Ah! é triste

dizê-lo, mas uma questão material domina aqui a questão religiosa. Essa

crença tem sido grandemente explorada pela ideia de que com dinheiro

se abrem as portas do céu e se fecham as do inferno. As quantias ar

recadadas por estes meios, outrora e ainda hoje, são incalculáveis; é o

imposto adiantado que se paga pelo temor da eternidade. E, sendo ele

facultativo, a renda é sempre proporcional à crença; se a crença deixar

de existir, nula será a renda. A criança cede de boa vontade o seu pedaço

de bolo a quem lhe promete afugentar o lobisomem; contudo, se já não

acreditar em lobisomem, guardará o bolo.

24. A Nova Revelação, dando noções mais sensatas da vida futura

e provando que cada um de nós pode alcançar a salvação pelas próprias

obras, deve encontrar grande oposição, tanto mais viva por estancar uma

das mais rendosas fontes de receita. Assim tem ocorrido, sempre que

uma nova descoberta ou invento abala costumes inveterados e preesta

belecidos. Quem vive de velhos e custosos processos nunca deixa de lhes

enaltecer a superioridade e excelência e de desacreditar os novos, mais

econômicos. Acreditar-se-ia, por exemplo, que a imprensa, apesar dos

benefícios prestados à humanidade, tenha sido aclamada pela numerosa

classe dos copistas? Não; por certo eles a detestavam. Deu-se a mesma

coisa com o invento de máquinas, com as estradas de ferro e com cente

nas de outras coisas.

Aos olhos dos incrédulos, o dogma das penas eternas é uma ques

tão fútil da qual se riem; para o filósofo, esse dogma tem uma gravidade

social pelos abusos que provoca. O homem verdadeiramente religioso

tem interesse em destruir tais abusos e, consequentemente, suas causas,

em benefício da própria dignidade da religião.

Ezequiel contra a eternidade das

penas e o pecado original

25. Aos que pretendem encontrar na Bíblia a justificação da eter

nidade das penas, pode-se opor os textos contrários, que a tal respeito

não permitem nenhuma dúvida. As seguintes palavras de Ezequiel são

a mais explícita negação, não somente das penas irremissíveis, mas da

responsabilidade que a falta do pai do gênero humano teria acarretado à

sua raça:

1. O Senhor novamente me falou e disse: 2. Por que vos servis desta parábola,

consagrada proverbialmente em Israel: Os pais, dizeis, comeram uvas verdes,

e os dentes dos filhos ficaram estragados? 3. Juro por mim mesmo — disse o

Senhor Deus — que essa parábola não passará mais entre vós, como provérbio

em Israel; 4. Pois todas as almas me pertencem; a do filho está comigo como a

do pai; a alma que tiver pecado morrerá ela própria.

5. Se um homem for justo, se proceder segundo a equidade e a justiça; 7. Se não

magoar nem oprimir ninguém; se entregar ao seu devedor o penhor que este lhe

houver dado; se não tomar nada do bem de outrem por violência; se der o seu

pão a quem tem fome; se vestir os que estão nus; 8. Se não se prestar à usura e

não receber mais do que tem dado; se desviar sua mão da iniquidade e promover

um juízo conciliatório entre dois homens que se altercam; 9. Se caminhar segun

do os meus preceitos e observar as minhas ordens para agir conforme a verdade,

esse homem é justo e viverá mui certamente — disse o Senhor Deus.

54 N.T.: Todas as citações bíblicas encontradas nesta obra foram extraídas da versão francesa de

Lemaistre de Sacy.

Doutrina das penas eternas

10. Se esse homem tem um filho que seja ladrão e derrame sangue, ou que

cometa algumas destas faltas; 13. Esse filho morrerá mui certamente, pois tem

praticado todas essas ações detestáveis, e seu sangue permanecerá sobre ele.

14. Se esse homem tem um filho que, vendo todos os crimes cometidos por seu

pai, se aterrorize e evite imitá-lo; 17. Este não morrerá por causa da iniquidade

de seu pai, mas viverá mui certamente. 18. Seu pai, que tinha oprimido os ou

tros por calúnias e que tinha praticado ações criminosas no meio do seu povo,

morreu por causa da sua própria iniquidade.

19. Se dizes: Por que o filho não leva a iniquidade do pai? É porque o filho tem

agido segundo a equidade e a justiça; tem guardado todos os meus preceitos e os

tem praticado; por isso viverá mui certamente.

20. A alma que tem pecado morrerá ela mesma: o filho não sofrerá pela iniquida

de do pai e o pai não sofrerá pela iniquidade do filho; a justiça do justo cairá sobre

ele mesmo, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.

21. Se o ímpio fez penitência de todos os pecados que tem cometido, se ob

servou todos os meus preceitos, se procede segundo a equidade e a justiça, ele

viverá certamente e não morrerá. 22. Eu não me lembrarei mais de todas as ini

quidades que ele haja cometido; viverá nas obras de justiça que houver praticado.

23. Porventura desejo a morte do ímpio? — disse o Senhor Deus. — Não; pre

firo que ele se converta, que se desgarre do mau caminho e que viva. (EzEquiEl,

18:1 a 5; 7 a 10; 13 e 14; 17 a 23.)

Dizei-lhes estas palavras: Juro por mim mesmo — disse o Senhor Deus — que

não quero a morte do ímpio, mas sim que ele se converta, que deixe o mau ca

minho e que viva. (EzEquiEl, 33:11.)

As penas futuras segundo o Espiritismo

A carne é fraca55

Há tendências viciosas que são evidentemente inerentes ao Espíri

to, porque se prendem mais ao moral do que ao físico. Outras parecem

mais dependentes do organismo e, por esse motivo, os que a possuem são

julgados menos responsáveis: tais a predisposição à cólera, à preguiça, à

sensualidade etc.

Hoje, está plenamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas

que os órgãos cerebrais correspondentes às diversas aptidões devem o

seu desenvolvimento à atividade do Espírito, sendo, pois, esse desenvol

vimento um efeito, e não uma causa. Um homem não é músico porque

tenha a bossa da música, mas tem a bossa da música porque o seu Espírito

é músico.

Se a atividade do Espírito reage sobre o cérebro, deve reagir tam

bém sobre as outras partes do organismo. O Espírito é, desse modo, o

artífice do próprio corpo, que ele modela, por assim dizer, à feição das

suas necessidades e à manifestação das suas tendências. Dessa forma, a

perfeição das raças adiantadas deixa de ser produto de criações distintas

para ser o resultado do trabalho do Espírito, que aperfeiçoa o seu instru

mento material à medida que suas faculdades aumentam.

Por uma consequência natural desse princípio, as disposições mo

rais do Espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior

ou menor atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante

de bílis ou de quaisquer outros fluidos. É assim, por exemplo, que o

glutão enche a boca de saliva diante de um prato apetitoso. Não é o

alimento em si que excita o órgão do paladar, visto que não tem contato

com ele; é, pois, o Espírito, cuja sensibilidade foi despertada, que atua

sobre aquele órgão pelo pensamento, pois a visão da mesma iguaria não

produz nenhum efeito sobre outra pessoa. É ainda pela mesma razão que

a pessoa sensível derrama lágrimas facilmente. Não é a abundância das

lágrimas que dá sensibilidade ao Espírito, mas a sensibilidade do Espírito

é que provoca a secreção abundante de lágrimas. Sob a influência da sen

sibilidade, o organismo se adaptou a essa disposição normal do Espírito,

como a do glutão se adaptou à disposição do seu Espírito.

Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um Espírito

irascível deve estimular um temperamento bilioso; assim, um homem

não é colérico porque é bilioso, mas é bilioso porque é colérico. O mes

mo se dá em relação a todas as outras disposições instintivas: um Espírito

indolente e fraco deixará o organismo em estado de atonia relativo ao seu

caráter, ao passo que, ativo e enérgico, dará ao sangue e aos nervos qua

lidades completamente diferentes. A ação do Espírito sobre o físico é tão

evidente que não raro vemos graves desordens orgânicas se produzirem

por efeito de violentas comoções morais. A expressão vulgar: a emoção

transtornou-lhe o sangue, não é tão destituída de sentido quanto se po

deria supor. Ora, que poderia transtornar o sangue, senão as disposições

morais do Espírito?

Pode-se, pois, admitir, ao menos em parte, que o temperamento é

determinado pela natureza do Espírito, que é causa, e não efeito. Dize

mos em parte porque há casos em que o físico influi evidentemente sobre

o moral, tais como um estado mórbido ou anormal determinado por uma

causa externa, acidental, independente do Espírito, como a temperatu

ra, o clima, os defeitos físicos congênitos, um mal-estar passageiro etc.

Nesses casos, o moral do Espírito pode ser afetado em suas manifestações

pelo estado patológico do indivíduo, sem que a sua natureza intrínseca

seja modificada.

Desculpar-se de seus erros por fraqueza da carne não passa de so

fisma para escapar à responsabilidade. A carne só é fraca porque o Espírito

é fraco, o que inverte a questão e deixa ao Espírito a responsabilidade de

todos os seus atos. A carne, que não tem nem pensamento nem vontade,

não pode prevalecer jamais sobre o Espírito, que é o ser pensante e dotado

de vontade. É o Espírito quem dá à carne as qualidades correspondentes

ao seu instinto, tal como o artista que imprime à sua obra material a mar

ca do seu gênio. Liberto dos instintos da bestialidade, o Espírito modela

um corpo que não é mais um tirano de suas aspirações para a espirituali

zação do seu ser, e é então que o homem passa a comer para viver, porque

viver é uma necessidade, não vivendo mais para comer.

A responsabilidade moral dos atos da vida fica, portanto, intacta;

mas a razão nos diz que as consequências dessa responsabilidade devem

ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito: quanto

mais esclarecido ele for, menos desculpável será, considerando-se que

com a inteligência e o senso moral nascem as noções do bem e do mal,

do justo e do injusto.

Essa lei explica o insucesso da Medicina em certos casos. Desde

que o temperamento é um efeito, e não uma causa, todos os esforços

para modificá-lo são necessariamente anulados pelas disposições morais

do Espírito, que opõe uma resistência inconsciente e neutraliza a ação

terapêutica. É, pois, sobre a causa primordial que se deve atuar.

Dai, se puderdes, coragem ao medroso, e vereis para logo cessados

os efeitos fisiológicos do medo. Isto prova uma vez mais a necessidade,

para a arte de curar, de levar em conta a ação do elemento espiritual sobre

o organismo. (Revista espírita, março de 1869.)

Princípios da Doutrina Espírita

sobre as penas futuras

No que respeita às penas futuras, assim como sucede nos seus de

mais pontos, a Doutrina Espírita não se baseia sobre uma teoria precon

cebida. Não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ela se

apoia nas observações, e é isso que faz a sua autoridade. Ninguém jamais

imaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tal ou qual

situação; são elas, essas mesmas almas que partiram da Terra, que hoje

nos vêm iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua posição

feliz ou desventurada, suas impressões e a transformação por que passa

ram pela morte do corpo. Numa palavra, vêm completar os ensinamen

tos do Cristo sobre este ponto.

Não se trata aqui das revelações de um único Espírito, que poderia

ver as coisas do seu ponto de vista, sob um só aspecto, ou ser ainda do

minado pelos preconceitos da vida terrena; tampouco se trata de uma re

velação feita exclusivamente a um indivíduo que pudesse deixar-se levar

pelas aparências, ou de uma visão extática, que se presta a ilusões e que

não passa, muitas vezes, de reflexo de uma imaginação exaltada.56

Trata-se, sim, de inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de

todas as categorias, desde os mais elevados até os mais inferiores da es

cala, por meio de outros tantos intermediários disseminados em todos

os pontos da Terra, de sorte que a revelação não é privilégio de pessoa

alguma, pois todos podem ver e observar e ninguém é obrigado a crer

pela crença dos outros.

Código penal da vida futura

O Espiritismo não vem, pois, com a sua autoridade particular, for

mular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma,

deduzida da observação dos fatos, pode resumir-se nos seguintes pontos:

1o) A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências

de todas as imperfeições de que não se libertou durante a vida corpórea.

O seu estado, feliz ou infeliz, é inerente ao seu grau de depuração ou de

imperfeição.

2o) A felicidade perfeita é inerente à perfeição, isto é, à completa

depuração do Espírito. Toda imperfeição é, ao mesmo tempo, causa de

sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda qualidade

adquirida é fonte de gozo e de atenuação dos sofrimentos.

3o) Não há uma única imperfeição da alma que não acarrete conse

quências funestas e inevitáveis, como não há uma só qualidade boa que não

seja fonte de um gozo. A soma das penas é assim proporcional à soma das

imperfeições, como a dos gozos é proporcional à soma das qualidades. A

alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que só

tem três ou quatro; quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais

que metade ou um quarto, sofrerá menos; e quando extintas por comple

to, não sofrerá mais e será perfeitamente feliz. O mesmo se dá na Terra:

quem tem muitas moléstias sofre mais do que quem tem apenas uma ou

nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez qualidades tem mais

gozos do que outra menos rica de boas qualidades.

4o) Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibili

dade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem

de mau, conforme sua vontade e seus esforços, resulta que o futuro é

aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos. Ele

os recebe em seu seio à medida que alcançam a perfeição, deixando assim

a cada um o mérito das suas obras.

5o) Sendo o sofrimento inerente à imperfeição, como o gozo à per

feição, a alma traz em si mesma o próprio castigo ou prêmio, onde quer

que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito. O inferno está

por toda parte em que haja almas sofredoras, como o céu se acha por toda

parte onde existam almas felizes.

6o) O bem e o mal que fazemos resultam das qualidades que pos

suímos. Não fazer o bem quando podemos é, portanto, o resultado de

uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito

deve sofrer não somente pelo mal que fez, como por todo o bem que

poderia ter feito, mas não fez na vida terrena.

7o) O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua

atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal, melhor

compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.

8o) Sendo infinita a Justiça de Deus, o bem e o mal são rigoro

samente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento

mau que não tenha consequências fatais, como não há uma única ação

meritória, um só bom impulso da alma que se perca, mesmo para os mais

perversos, visto que tais ações constituem um começo de progresso.

9o) Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída

que deverá ser paga; se não o for em uma existência, sê-lo-á na seguinte

ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele

que se quita numa existência não terá necessidade de pagar uma segunda

vez.

10o) O Espírito sofre, quer no mundo corpóreo, quer no espiritual,

a consequência das suas imperfeições. Todas as misérias, todas as vicissi

tudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições,

são expiações de faltas cometidas na presente ou em anteriores existên

cias. Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode--se julgar a natureza das faltas cometidas em anterior existência, bem

como das imperfeições que lhes deram causa.

11o) A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta,

podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, confor

me as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, nas quais foi cometida.

12o) Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e

duração do castigo; a única lei geral é que toda falta terá punição e todo

ato meritório será recompensado, segundo o seu valor.

13o) A duração do castigo está subordinada à melhoria do Espírito

culpado. Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita.

O que Deus exige para pôr termo aos sofrimentos é um melhoramento

sério, efetivo, sincero, de volta ao bem.

Deste modo, o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, po

dendo prolongar os sofrimentos pela persistência no mal, ou suavizá-los

e abreviá-los pela prática do bem. Uma condenação por tempo prede

terminado teria o duplo inconveniente de fazer o Espírito continuar so

frendo inutilmente depois de melhorado, ou de libertá-lo do sofrimento

quando ainda permanecesse no mal. Deus, que é justo, só pune o mal

quando existe, e deixa de o punir quando não existe mais.57 Ou, se quiser

mos, sendo o mal moral a própria causa de sofrimento, este persistirá so

mente enquanto aquele subsistir, ou diminuirá de intensidade à medida

que o mal for desaparecendo.

14o) Como a duração do castigo depende da melhoria do Espírito,

o culpado que nunca melhorasse sofreria sempre e, para ele, a pena seria

eterna.

15o) Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não

entreverem o termo da situação em que se acham e acreditarem que so

frerão para sempre, o que faz que tais castigos lhes pareçam eterno.58

16o) O arrependimento é o primeiro passo para a regeneração, mas

não é suficiente, sendo necessárias ainda a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessá

rias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependi

mento suaviza as dores da expiação, abrindo pela esperança o caminho da

reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe

a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, e não uma anulação das

faltas cometidas.

17o) O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer

tempo; se for tardio, o culpado sofrerá por muito mais tempo.

A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que são a con

sequência da falta cometida, seja na vida atual, seja na vida espiritual

após a morte, ou ainda em nova existência corpórea, até que os últimos

vestígios da falta tenham desaparecido.

A reparação consiste em fazer o bem a quem se havia feito o mal.

Quem não repara os seus erros nesta vida, por fraqueza ou má vontade,

achar-se-á numa existência posterior em contato com as mesmas pessoas

a quem prejudicou, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo

a demonstrar-lhes o seu devotamento e fazer-lhes tanto bem quanto mal

lhes tenha feito.

Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo. Em tais

casos a reparação se opera fazendo-se o que se deveria fazer e não foi

feito; cumprindo os deveres desprezados, as missões não executadas; pra

ticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se

humilde se foi orgulhoso, amável se foi austero, caridoso se foi egoísta,

benevolente se foi perverso, laborioso se foi ocioso, útil se foi inútil, mo

derado se foi dissoluto, exemplar se foi mau etc. É assim que o Espírito

progride, aproveitando-se do próprio passado.59

58 Nota de Allan Kardec: Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se: o limite das neves perpétuas; o eterno gelo dos polos; também se diz: o secretário perpétuo da Academia, o que não significa que o seja para sempre, mas unicamente por tempo ilimitado. Eterno e perpétuo se empregam, pois, no sentido de indeterminado. Nesta acepção, pode-se dizer que as penas são eternas, para exprimir que não têm duração limitada. São eternas para o Espírito que não lhes vê o termo.

18o) Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes,

cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem

suas faltas pelas tribulações da vida, e se depurando das imperfeições até

que mereçam encarnar em mundos mais adiantados moral e fisicamente.

Se se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é, sem dú

vida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos

imperfeitos desencarnados, à espera de novas existências que lhes permi

tam reparar o mal que fizeram e os auxiliem a progredir.

19o) Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, seu progresso

por vezes é lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode

persistir anos e séculos; entretanto, chega por fim um momento em que a

sua teimosia se modifica pelo sofrimento e, a despeito da sua bazófia, re

conhece o poder superior que o domina. Então, desde que se manifestam

os primeiros clarões de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperan

ça. Nenhum Espírito está condenado a não progredir, seja quando for; de

outro modo, estaria fatalmente destinado à eterna inferioridade e esca

paria da lei do progresso, que rege providencialmente todas as criaturas.

20o) Sejam quais forem a inferioridade e a perversidade dos Espíri

tos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo da guarda que por eles

vela, que lhes espreitam os movimentos da alma e se esforçam por sus

citar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e de reparar em nova

existência o mal que praticaram. Contudo, a interferência desse guia

protetor faz-se quase sempre de maneira oculta, sem exercer qualquer

pressão, pois o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade,

e não por um constrangimento qualquer. Agirá bem ou mal em virtude

do seu livre-arbítrio, mas sem ser fatalmente impelido num sentido ou

em outro. Se persistir no mal, sofrerá as consequências por tanto tempo

considerar como a verdadeira lei de reabilitação moral dos Espíritos. Entretanto, até agora é uma

doutrina que religião alguma proclamou. Algumas pessoas a repelem porque acham mais cômodo

se quitarem das más ações por um simples arrependimento, mediante algumas fórmulas que não

custam mais que palavras. Crendo-se quites com isso, só mais tarde verão que não bastava apenas o

arrependimento. Nós poderíamos lhes perguntar se esse princípio não é consagrado pela lei huma

na e se a Justiça divina pode ser inferior à dos homens. E mais, se essas leis se dariam por desafrontadas, desde que o indivíduo que as transgredisse, por abuso de confiança, se limitasse a dizer que as respeita infinitamente. Por que recuariam diante da obrigação que todo homem honesto se impõe como dever, segundo o grau de suas forças? Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das massas, será um outro freio aos seus desmandos, e bem mais poderoso que o inferno e as penas eternas, porque interessa à vida em sua plena atualidade, podendo o homem compreender a procedência das circunstâncias que a tornam penosa ou a sua verdadeira situação.

quanto durar essa persistência; desde, porém, que dê um passo em dire

ção ao bem, sentirá imediatamente os seus efeitos benéficos.

obsErvAção – Seria erro supor que, em virtude da lei de progresso, a certeza

de atingir mais cedo ou mais tarde a perfeição e a felicidade pode estimular o

homem a perseverar no mal, contanto que se arrependa depois: primeiro porque

o Espírito inferior não divisa o termo da sua situação; e segundo porque, sendo

ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que depende de si

fazê-la cessar; que será tanto mais infeliz quanto maior for o tempo em que per

severar no mal; finalmente, que o sofrimento nunca cessará se ele próprio não

lhe der fim. Seria, pois, um cálculo equivocado, cujas consequências o Espírito

seria o primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se

verifica, precisamente, essa hipótese, já que lhe é interdita para sempre toda ideia

de esperança, não tendo, pois, o homem qualquer interesse em converter-se ao

bem, para ele sem proveito.

Diante dessa lei cai a objeção tirada da presciência divina. De fato Deus sabe,

ao criar uma alma, se ela tomará ou não o bom caminho, pois que dispõe do

seu livre-arbítrio; sabe que será punida se fizer o mal; mas sabe também que

tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro e de levá-la ao

bom caminho, onde entrará mais cedo ou mais tarde. Segundo a doutrina das

penas eternas, Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente

condenada a torturas sem-fim.

21o) Cada criatura só é responsável pelas próprias faltas. Ninguém

sofre por erros alheios, a não ser que os tenha gerado, quer provocando--os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo. Assim,

por exemplo, o suicida é sempre punido; mas aquele que maldosamente

impele alguém ao desespero e o leva a suicidar-se, esse sofre ainda maior

pena.

22o) Embora a diversidade de punições seja infinita, existem algu

mas que são inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas consequên

cias, salvo pormenores, são mais ou menos idênticas.

A punição mais imediata, sobretudo aos que se acham apegados

à vida material com prejuízo do progresso espiritual, consiste na lenti

dão do desprendimento da alma, nas angústias que acompanham a mor

te e o despertar na outra vida e na consequente perturbação que pode

estender-se por meses e anos. Naqueles, ao contrário, que têm pura a

consciência, e que desde a vida material já se haviam identificado com a

vida espiritual e desligado das coisas materiais, a separação é rápida e sem

abalos, o despertar é pacífico e a turbação por que passam é quase nula.

23o) Um fenômeno muito frequente entre os Espíritos de certa

inferioridade moral consiste em se acreditarem ainda vivos, podendo esta

ilusão se prolongar por muitos anos, durante os quais eles experimenta

rão todas as necessidades, todos os tormentos e todas as perplexidades da

vida.

24o) Para o criminoso, a presença incessante de suas vítimas e das

circunstâncias do crime é um suplício cruel.

25o) Alguns Espíritos estão mergulhados em densas trevas; outros

se encontram em absoluto isolamento no Espaço, atormentados pela ig

norância de sua posição, como da sorte que os aguarda. Os mais culpa

dos sofrem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um

termo. Muitos são privados de ver os seres amados, e todos, geralmente,

suportam com intensidade relativa os males, as dores e as privações que

causaram aos outros, até que o arrependimento e o desejo de reparação

lhes suavize os tormentos e os faça entrever a possibilidade de, por eles

mesmos, pôr um termo a essa situação.

26o) Para o orgulhoso é um suplício ver colocados acima dele,

cheios de glória e cercados de todas as atenções, os que na Terra havia

desprezado, enquanto ele é relegado aos últimos lugares. O hipócrita vê

desvendados, penetrados e lidos por todo o mundo os seus mais secretos

pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular. O sensual é presa

de todas as tentações, de todos os desejos, sem poder saciá-los; o avarento

vê o seu ouro dilapidado e não pode retê-lo. O egoísta se vê desampa

rado por todos e sofre as consequências da sua atitude terrena: terá sede

e fome, mas ninguém lhe dará de beber, nem de comer; nenhuma mão

amiga virá apertar a sua, nenhuma voz compassiva virá consolá-lo, pois

só pensou em si durante a vida, de modo que ninguém agora pensa nele nem

o lamenta após a morte.

27o) O único meio de evitar ou atenuar as consequências futuras de

uma falta é desfazer-se o mais possível dos seus defeitos na vida presente,

reparando aqui mesmo o mal praticado para não ter de repará-lo mais

tarde e de maneira mais terrível. Quanto mais demorarmos em combater

os nossos defeitos, tanto mais rigorosas e penosas serão as consequências

e a reparação que tivermos de fazer.

28o) A situação do Espírito, desde a sua entrada no mundo espiri

tual, não é outra senão a que ele mesmo preparou para si na vida corpó

rea. Mais tarde lhe será concedida outra encarnação para novas provas de

expiação e reparação, com maior ou menor proveito, o que vai depender

do seu livre-arbítrio; se não souber aproveitá-la, terá de recomeçar ou

tras, cada vez em condições mais penosas, de sorte que se pode dizer que

aquele que muito sofre na Terra, tinha muito a expiar; e os que gozam uma

felicidade aparente, a despeito dos seus vícios e inutilidades, haverão de

pagá-la muito caro numa existência posterior. Foi nesse sentido que Jesus

falou: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.” (O evange

lho segundo o espiritismo, cap. V.)

29o) Certamente a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega.

O culpado que ela perdoou não fica dispensado de reparar suas faltas e,

enquanto não houver satisfeito à justiça, sofre as consequências dos seus

erros. Por infinita misericórdia devemos entender que Deus não é inexo

rável, pois deixa sempre aberto ao culpado o caminho da redenção.

30o) Por serem temporárias e subordinadas ao arrependimento e à

reparação, que dependem da vontade humana, as penas constituem, ao

mesmo tempo, castigos e remédios que auxiliam a curar as chagas do mal.

Os Espíritos em prova não são, pois, quais galés, condenados a trabalhos

forçados, devendo, ao contrário, ser vistos como doentes de hospital.

Como estes, padecem de enfermidades que muitas vezes resultam da pró

pria incúria, reclamando meios curativos mais ou menos dolorosos. A

cura será tanto mais rápida quanto mais estritamente observadas forem

as prescrições do médico assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido

de si mesmos, deixarem que a enfermidade se prolongue, o médico nada

terá a ver com isso.

31o) Às penas que o Espírito sofre na vida espiritual vêm somar-se

as da vida corpórea, que são consequentes às imperfeições do homem,

às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à expiação de faltas

presentes e passadas. É na vida corpórea que o Espírito repara o mal pra

ticado em existências anteriores, pondo em prática resoluções tomadas

na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas

que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser, quando na verdade

são justas, já que foram determinadas no passado e servem para o nosso

adiantamento.60

32o) Deus, pergunta-se, não daria maior prova de amor por suas

criaturas se as tivesse criado infalíveis e, por conseguinte, isentas das vi

cissitudes inerentes à imperfeição? Para tanto, seria preciso que Ele crias

se seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em conhecimentos,

quer em moralidade. É fora de dúvida que Deus poderia fazê-lo, e se não

o fez é que em sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral.

Os homens são imperfeitos e, como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou

menos penosas. Esse é um fato que temos de aceitar, já que existe. Con

cluir por isso que Deus não é bom nem justo, seria revoltar-se contra a

sua Lei.

Haveria injustiça se Ele houvesse criado seres privilegiados, mais

ou menos favorecidos, fruindo gozos sem qualquer esforço, que outros

não atingem senão pelo trabalho ou que jamais pudessem atingir. Ao

contrário, a Justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside

à criação de todos os Espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e

ninguém se distingue em sua formação por ser mais favorecido do que

outro; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que

chegam ao fim têm passado, como os demais, pelas fases da inferioridade

e respectivas provas.

Admitindo-se isso, nada mais justo que a liberdade de ação conce

dida a cada um. O caminho da felicidade se abre para todos, o objetivo

de todos é o mesmo, as condições para atingi-lo são as mesmas, e a lei,

gravada em todas as consciências, é ensinada a todos. Deus fez da felici

dade o prêmio do trabalho, e não do favoritismo, para que cada um tivesse

seu mérito. Todos são livres para trabalhar ou nada fazer em favor do seu

progresso; aquele que trabalha muito e depressa recebe a recompensa

mais cedo; quem se desgarra ou perde tempo no caminho retarda a che

gada e não pode queixar-se senão de si mesmo. O bem e o mal são vo

luntários e facultativos; sendo livre, o homem não é fatalmente impelido

nem para um, nem para outro.

60 Nota de Allan Kardec: Veja-se Primeira Parte, cap. V, O purgatório, item 3 e seguintes e, mais adiante,

na Segunda Parte, cap. OITO, Expiações terrestres. Veja-se também O evangelho segundo o espiritismo,

cap. CINCO, Bem-aventurados os aflitos.

33o) Apesar da diversidade de gêneros e graus de sofrimentos dos

Espíritos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três prin

cípios:

1. O sofrimento é inerente à imperfeição.

2. Toda imperfeição, assim como toda falta que dela resulta, traz

consigo o próprio castigo em suas consequências naturais e inevitáveis.

Assim a doença decorre dos excessos e o tédio da ociosidade, sem que

haja necessidade de uma condenação especial para cada falta ou indiví

duo.

3. Como todo homem pode libertar-se das imperfeições, desde que

o queira, pode igualmente anular os males consequentes e assegurar a sua

felicidade futura.

A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra — tal é

a lei da Justiça divina.

Os anjos segundo a Igreja

1. Todas as religiões têm tido anjos sob vários nomes, isto é, seres

superiores à humanidade, intermediários entre Deus e os homens. Por

negar toda a existência espiritual fora da vida orgânica, o materialismo

naturalmente classificou os anjos entre as ficções e alegorias. A crença nos

anjos é parte essencial dos dogmas da Igreja. Eis como ela os define:61

2. “Acreditamos firmemente”, diz um concílio geral e ecumênico,62

“que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, que no começo dos

tempos tirou conjuntamente do nada as duas criaturas, a espiritual e a cor

pórea, a angélica e a mundana, tendo formado depois, como elo entre as

duas, a natureza humana, composta de corpo e espírito.”

Tal é, segundo a lei, o plano divino na obra da Criação, plano

majestoso e completo como convinha à Eterna sabedoria. Assim conce

bido, ele oferece aos nossos pensamentos o ser em todos os graus e con

dições. Na esfera mais elevada aparecem a existência e a vida puramente

espirituais; na última ordem, a existência e a vida puramente materiais e,

nas esferas intermediárias, uma união maravilhosa das duas substâncias,

uma vida ao mesmo tempo comum ao espírito inteligente e ao corpo

organizado.

Nossa alma é de natureza simples e indivisível, porém limitada em

suas faculdades. A ideia que temos da perfeição nos faz compreender

que pode haver outros seres simples quanto ela, e superiores por suas

qualidades e privilégios. A alma é grande e nobre, mas está associada à

matéria, servida por órgãos frágeis, limitada no poder e na ação. Por que

não haveria outras naturezas ainda mais nobres, libertas dessa escravidão

e desses entraves, dotadas de uma força maior e de uma atividade in

comparável? Antes que Deus houvesse colocado o homem na Terra para

conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, não teria já chamado outras criaturas, a fim

de compor-lhe a corte celeste e adorá-lo na mansão de sua glória? Deus,

enfim, recebe das mãos do homem os tributos de honra e homenagem

deste universo; é, portanto, de admirar que receba das mãos dos anjos

o incenso e as orações do homem? Se, pois, os anjos não existissem, a

grande obra da Criação não teria o acabamento e a perfeição que lhe são

peculiares; este mundo, que atesta a sua onipotência, não seria mais a

obra-prima da sabedoria. Nesse caso a nossa razão, embora fraca, poderia

facilmente conceber um Deus mais completo e consumado.

Em cada página dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testa

mentos se faz menção dessas inteligências sublimes, seja em invocações

piedosas, seja em referências históricas. A sua intervenção aparece cla

ramente na vida dos patriarcas e dos profetas. Deus se serve de tal mi

nistério, ora para transmitir a sua vontade, ora para anunciar futuros

acontecimentos, fazendo dos anjos, quase sempre, órgãos de sua justiça

e misericórdia. A presença deles ressalta das circunstâncias que acompa

nharam o nascimento, a vida e a paixão do Salvador; a sua lembrança é

inseparável da dos grandes homens, como dos fatos mais importantes da

antiguidade religiosa. A crença nos anjos existe até no seio do politeísmo

e nas fábulas da mitologia, porque essa crença é tão antiga e universal

quanto o mundo. O culto que os pagãos prestavam aos gênios bons e

maus não passava de falsa aplicação da verdade, de um resquício degene

rado do dogma primitivo.

As palavras do santo concílio de Latrão contêm uma distinção fun

damental entre os anjos e os homens, ensinando-nos que os primeiros

são Espíritos puros, ao passo que os segundos se compõem de um corpo

e de uma alma, isto é, que a natureza angélica subsiste por si mesma não

só sem mistura como dissociada da matéria, por mais vaporosa e sutil que

se suponha, ao passo que a nossa alma, igualmente espiritual, associa-se

ao corpo de modo a formar com ele uma só e mesma pessoa, sendo tal e

essencialmente o seu destino.

Enquanto perdure essa ligação tão íntima da alma com o corpo, as

duas substâncias têm vida comum e se exercem recíproca influência; daí

não poder a alma libertar-se completamente das imperfeições de tal con

dição: as ideias lhe chegam pelos sentidos, pela comparação dos objetos

externos e sempre debaixo de imagens mais ou menos aparentes. Eis por

que a alma não pode contemplar-se a si mesma, nem conceber Deus e os

anjos sem atribuir-lhes forma visível e palpável. O mesmo sucede com os

anjos, que para se manifestarem aos santos e aos profetas deverão revestir

formas visíveis e palpáveis. Essas formas, porém, não passavam de corpos

aéreos que faziam mover-se e identificar-se com eles, ou de atributos sim

bólicos condizentes com a missão de que estavam encarregados.

Seu ser e movimentos não são localizados nem circunscritos a um

ponto fixo e limitado do Espaço. Não sendo ligados a corpo algum, não

podem ser tolhidos nem limitados por outros corpos, como sucede com

o homem, e não ocupam qualquer espaço no vácuo; mas assim como

a nossa alma está toda inteira no nosso corpo e em cada uma de suas

partes, assim também os anjos estão, e quase que simultaneamente, em

todos os pontos e partes do mundo. Mais rápidos que o pensamento,

podem agir em toda parte num piscar de olhos, operando por si mesmos

e sem outros obstáculos aos seus desígnios senão os da vontade de Deus

e os da liberdade humana.

Enquanto somos condenados a ver as coisas externas gradativa

mente e numa certa medida; enquanto as verdades sobrenaturais nos

aparecem como enigmas num espelho, conforme a expressão do apóstolo

Paulo, os anjos veem sem esforço o que lhes importa saber, e estão sem

pre em relação imediata com o objeto de seus pensamentos. Seus conhe

cimentos não resultam da indução nem do raciocínio, mas dessa intuição

clara e profunda que abrange de uma só vez o gênero e as espécies deles

derivados, os princípios e as consequências daí decorrentes. A distância

das épocas, a diferença de lugares e a multiplicidade de objetos não são

capazes de produzir nenhuma confusão em seus espíritos.

Sendo infinita, a essência divina é incompreensível; tem mistérios e

profundezas que os anjos não podem penetrar. Os desígnios particulares

da Providência lhes são ocultos, porém ela lhos desvenda quando, em

certas circunstâncias, eles são encarregados de os anunciarem aos ho

mens. As comunicações de Deus com os anjos e destes entre si não se

fazem como entre nós por meio de sons articulados e de outros sinais

ostensivos. As inteligências puras não necessitam de olhos para ver, nem

de ouvidos para ouvir; nem mesmo possuem órgão vocal para manifestar

seus pensamentos. Esse instrumento usual de nossas relações não lhes é

necessário, pois comunicam seus sentimentos de modo peculiar, que só

eles entendem, isto é, todo espiritual. Basta-lhes querer para se compre

enderem.

Só Deus conhece o número dos anjos. Este número não é, certa

mente, infinito, nem poderia sê-lo; porém, segundo os autores sagrados

e os santos doutores, é bastante considerável, verdadeiramente prodigio

so. Se é natural proporcionar o número dos habitantes de uma cidade à

sua grandeza e extensão, e sendo a Terra apenas um átomo comparada

ao firmamento e às imensas regiões do Espaço, forçoso é admitir que o

número dos habitantes do ar e do céu é muito superior ao dos homens.

Os pais da Igreja e os teólogos ensinam geralmente que os anjos

se dividem em três grandes hierarquias ou principados, subdividindo-se

cada hierarquia, por sua vez, em três companhias ou coros.

Os da primeira e mais alta hierarquia são designados de acordo

com as funções que exercem no céu. Uns são chamados serafins, por se

rem como que abrasados perante Deus pelos ardores da caridade; outros

são conhecidos como querubins, por refletirem a luminosidade da divina

Sabedoria; e finalmente os tronos, porque proclamam a grandeza do Cria

dor, cujo brilho fazem resplandecer.

Os anjos da segunda hierarquia recebem nomes condizentes com

as atividades que lhes são atribuídas no governo geral do universo, e são:

as dominações, que determinam aos anjos de classes inferiores suas mis

sões e deveres; as virtudes, que promovem os prodígios reclamados pelos

grandes interesses da Igreja e do gênero humano; e as potências, que pro

tegem por sua força e vigilância as leis que regem o mundo físico e moral.

Os da terceira hierarquia têm por missão a direção das sociedades

e das pessoas, e são: os principados, encarregados de reinos, províncias e

dioceses; os arcanjos, que transmitem as mensagens de alta importância,

e os anjos da guarda, que acompanham as criaturas a fim de velarem pela

sua segurança e santificação.”

Refutação

3. O princípio geral resultante dessa doutrina é que os anjos são

seres puramente espirituais, anteriores e superiores à humanidade, cria

turas privilegiadas e predestinadas à felicidade suprema e eterna desde a

sua formação e dotadas, por sua própria natureza, de todas as virtudes e

conhecimentos, sem que nada tenham feito para adquiri-las. Estão, por

assim dizer, no primeiro plano da obra da Criação. No último plano a

vida é toda material, e entre os dois existe a humanidade, isto é, as almas,

seres espirituais inferiores aos anjos e ligados a corpos materiais.

Várias dificuldades capitais resultam desse sistema. Em primeiro

lugar, que vida é essa puramente material? Trata-se da matéria bruta?

Mas a matéria bruta é inanimada e não tem vida por si mesma. Porven

tura querem se referir aos animais e às plantas? Seria então admitir uma

quarta ordem na Criação, pois não se pode negar, no animal inteligente,

a existência de algo que a planta não possui, e nesta, de alguma coisa que

não existe na pedra. Quanto à alma humana, que estabelece a transição,

essa fica unida diretamente a um corpo, ou seja, à matéria bruta, porque

sem alma o corpo não passa de um punhado de terra.

Essa divisão peca evidentemente por falta de clareza e não condiz

com a observação; assemelha-se à teoria dos quatro elementos, que não

resistiu aos progressos da Ciência. Admitamos, entretanto, estes três ter

mos: a criatura espiritual, a criatura humana e a criatura corpórea. Esse

é, dizem, o plano divino, plano majestoso e completo como convém à

eterna Sabedoria. Notemos, antes de tudo, que não há ligação alguma

necessária entre esses três termos; são três criações distintas e formadas

sucessivamente, ao passo que tudo se encadeia na natureza, tudo nos

mostra uma lei de unidade admirável, cujos elementos, nada mais sendo

que transformações uns dos outros, estão ligados entre si. Essa teoria,

embora verdadeira em relação à existência dos três termos, não deixa de

ser incompleta, pois lhe faltam os pontos de contato desses termos, como

é fácil demonstrar.

4. Diz a Igreja que esses três pontos culminantes da Criação são

necessários à harmonia do conjunto; que, se faltasse um só deles, a obra

estaria incompleta e não corresponderia ao que se espera da Sabedoria

eterna. Entretanto, um dos dogmas fundamentais da religião diz que a

Terra, os animais, as plantas, o Sol, as estrelas e até a luz foram criados

do nada, há seis mil anos. Antes dessa época não havia, portanto, nem

criatura humana nem corpórea, o que equivale dizer que no decurso da

eternidade a obra divina permanecia imperfeita. A criação do universo

há seis mil anos é artigo de fé tão importante que até poucos anos atrás

a Ciência ainda era anatematizada por destruir a cronologia bíblica, ao

provar, com as suas investigações, a ancianidade da Terra e de seus habi

tantes.

Apesar disso, o concílio de Latrão, concílio ecumênico que dita lei

em matéria de doutrina, diz: “Acreditamos firmemente num Deus único

e verdadeiro, eterno e infinito, que no começo dos tempos tirou conjunta

mente do nada as duas criaturas, a espiritual e a corpórea.” Por começo dos

tempos só podemos compreender a eternidade transcorrida, visto que o

tempo é infinito como o Espaço, sem começo nem fim. Esta expressão,

começo dos tempos, é antes uma figura que implica a ideia de uma ante

rioridade ilimitada. O concílio de Latrão acredita, pois, firmemente, que

as criaturas espirituais e as corpóreas foram simultaneamente formadas e

tiradas em conjunto do nada, numa época indeterminada no passado. A

que fica reduzido, assim, o texto bíblico, que data a criação de seis mil

dos nossos anos? Mesmo admitindo que seja o começo do universo visí

vel, esse não é seguramente o começo dos tempos. — E agora? Devemos

crer no concílio ou na Bíblia?

5. O mesmo concílio formula uma estranha proposição: “Nossa

alma”, diz, “igualmente espiritual, é associada ao corpo de maneira a não

formar com ele senão uma pessoa, e tal é, essencialmente, o seu destino”.

Ora, se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo, esta união

constitui o seu estado normal, seu objetivo, o fim, visto que tal é o seu

destino. Entretanto, a alma é imortal e o corpo não; sua união com o cor

po só se realiza uma vez, segundo a Igreja, e ainda que durasse um século,

nada seria em relação à eternidade. E sendo apenas de algumas horas

para muitos, que utilidade teria para a alma uma união tão efêmera? Mas

mesmo que essa união se prolongue tanto quanto se pode prolongar uma

existência terrena, ainda assim se poderá afirmar que o seu destino é estar

essencialmente ligada ao corpo? Não; essa união não passa, na realidade,

de mero acidente, de um estágio na vida da alma, e nunca do seu estado

essencial.

Se o destino essencial da alma é estar ligada a um corpo material;

se, por sua natureza e segundo o fim providencial da sua criação, essa

união é necessária às manifestações das suas faculdades, forçoso é con

cluir que a alma, sem o corpo, é um ser incompleto. Ora, para que a alma

cumpra os seus desígnios, é preciso que, depois de deixar um corpo ela

tome outro, o que nos conduz forçosamente à pluralidade das existên

cias, ou, em outras palavras, à reencarnação, à perpetuidade. É realmente

muito estranho que um concílio, tido por uma das luzes da Igreja, tenha

a tal ponto identificado os seres espiritual e material, de modo a não

poderem existir um sem o outro, visto que a condição essencial de sua

criação é estarem unidos.

6. O quadro hierárquico dos anjos nos mostra que várias ordens

têm, nas suas atribuições, o governo do mundo físico e da humanidade,

para cujo fim foram criados. Mas, segundo o Gênesis, o mundo físico e a

humanidade não existem senão há seis mil anos; e o que faziam, pois, tais

anjos, anteriormente a essa era, durante a eternidade, quando não existia

o objetivo das suas ocupações? Os anjos não foram criados desde toda a

eternidade? Assim deve ser, já que servem à glorificação do Altíssimo. Se

Deus os tivesse criado numa época qualquer determinada, teria ficado até

então, isto é, durante uma eternidade, sem adoradores.

7. Diz ainda o concílio: “Enquanto dura esta união tão íntima da

alma com o corpo.” Há, por conseguinte, um momento em que a união

se desfaz? Esta proposição contradiz a que sustenta a essencialidade des

sa união. E diz mais o concílio: “As ideias lhes chegam pelos sentidos,

pela comparação dos objetos exteriores.” Eis aí uma doutrina filosófica

em parte verdadeira, mas não em sentido absoluto. Segundo o eminente

teólogo, receber as ideias pelos sentidos é uma condição inerente à na

tureza da alma; mas ele esquece as ideias inatas, as faculdades por vezes

tão transcendentes, a intuição das coisas que a criança traz ao nascer e

que não resultam de nenhuma instrução. Por meio de quais sentidos

esses jovens pastores, naturais calculistas que causam admiração aos sá

bios, adquirem ideias necessárias à resolução quase instantânea dos mais

complicados problemas? Outro tanto se pode dizer de certos músicos,

pintores e linguistas precoces.

“Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do ra

ciocínio.” Eles sabem porque são anjos, sem necessidade de aprendê-los,

pois assim foram criados por Deus; a alma, ao contrário, deve aprender.

Mas se a alma só recebe as ideias por meio dos órgãos corpóreos, que

ideias pode ter a alma de uma criança morta ao fim de alguns dias de

vida, se admitirmos com a Igreja que essa alma não renasce?

8. Aqui se apresenta uma questão vital, a de saber se a alma pode

adquirir conhecimentos após a morte do corpo. Se, uma vez liberta do

corpo, ela não pode adquirir novos conhecimentos, a alma da criança,

do selvagem, do imbecil, do idiota, do ignorante permanecerá tal qual

era no momento da morte, condenada à nulidade por toda a eternidade.

Mas se, ao contrário, ela adquire novos conhecimentos depois da vida

atual, é que pode progredir.

Sem o progresso posterior da alma, chega-se a consequências ab

surdas; com o progresso, chega-se à negação de todos os dogmas funda

dos sobre o estacionamento, a sorte irrevogável, as penas eternas etc. E se

a alma progride, qual o limite desse progresso? Não há razão alguma para

não atingir o grau dos anjos ou dos Espíritos puros. Ora, com tal pos

sibilidade, não se justificaria a criação de seres especiais e privilegiados,

isentos de qualquer labor, gozando a felicidade eterna sem nada terem

feito para conquistá-la, ao passo que outros seres menos favorecidos só

obtêm essa felicidade suprema à custa de longos e cruéis sofrimentos e

rudes provas. É fora de dúvida que Deus poderia ter assim determinado,

mas, admitindo-se o infinito de suas perfeições, sem as quais Ele não se

ria Deus há que se admitir também que Ele nada fez de inútil, nada que

desminta a soberana justiça e a soberana bondade.

9. “Considerando-se que a majestade de um rei pode ser medida

pelo número de seus súditos, servos e oficiais, que haverá de mais apro

priado para nos dar ideia da majestade do Rei dos reis do que essa multi

dão inumerável de anjos que povoam o céu e a Terra, mar e abismos, e a

dignidade dos que permanecem continuamente prostrados ou de pé diante

do seu trono?”

Não será rebaixar a Divindade confrontar a sua glória com o fausto

dos soberanos da Terra? Essa ideia, inculcada no espírito das massas ig

norantes, falseia a opinião que se faz da sua verdadeira grandeza. Sempre

Deus reduzido às mesquinhas proporções da humanidade. Atribuir-lhe,

como necessidade, milhões de adoradores, continuamente prostrados ou

de pé diante do seu trono é emprestar-lhe vaidade e fraqueza próprias

dos orgulhosos déspotas do Oriente! O que engrandece os soberanos

verdadeiramente grandes? É o número e o brilho dos cortesãos? Não; é a

bondade, é a justiça, é o título merecido de pais do seu povo. Pergunta

reis se haverá algo mais apropriado a dar-nos a ideia da grandeza e ma

jestade de Deus do que a multidão de anjos que lhe compõem a corte...

Sim, certamente que há, e essa coisa melhor consiste em representá-lo às

suas criaturas soberanamente bom, justo e misericordioso, e não como

um Deus encolerizado, ciumento, vingativo, inexorável, exterminador,

parcial, criando para sua própria glória esses seres privilegiados, favore

cidos com todos os dons e nascidos para a felicidade eterna, enquanto

a outros impõe condições penosas para alcançá-la, punindo, além disso,

erros momentâneos com eternos suplícios...

10. A respeito da união da alma com o corpo, o Espiritismo profes

sa uma doutrina infinitamente mais espiritualista, para não dizer menos

materialista, tendo ainda a seu favor a conformidade com a observação e

o destino da alma. Ele nos ensina que a alma é independente do corpo,

constituindo este apenas um envoltório temporário; a espiritualidade é a

sua essência, e a sua vida normal é a vida espiritual. O corpo não passa de

um instrumento para o exercício de suas faculdades nas relações com o

mundo material; separada do corpo, a alma goza dessas faculdades com

mais ampla liberdade.

11. Embora a união da alma com o corpo seja necessária aos seus

primeiros progressos, só se verifica no período que podemos classificar

como da sua infância e adolescência; quando, porém, a alma atinge certo

grau de perfeição e desmaterialização, essa união não é mais necessária,

passando o progresso a fazer-se na sua vida de Espírito. Além disso, por

mais numerosas que sejam as existências corpóreas, elas são forçosamente

limitadas à existência do corpo, e a sua soma total não compreende, em

todos os casos, senão uma parte imperceptível da vida espiritual, que é

ilimitada.

Os anjos segundo o Espiritismo

12. Não se pode pôr em dúvida a existência de seres dotados de

todas as qualidades atribuídas aos anjos. Neste ponto, a revelação espírita

confirma a crença de todos os povos, fazendo-nos conhecer, ao mesmo

tempo, a origem e a natureza de tais seres.

As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes, isto é, sem

conhecimento nem consciência do bem e do mal, porém aptos para ad

quirir o que lhes falta. O trabalho é o meio de aquisição, e o fim, que é

a perfeição, é o mesmo para todos. Alcançam-no mais ou menos rapi

damente em virtude do livre-arbítrio e na razão direta dos seus esforços;

todos têm os mesmos degraus a transpor, o mesmo trabalho a concluir.

Deus não contempla melhor uns que outros, já que todos são seus filhos

e porque, sendo justo, não tem preferência por criatura alguma. Ele lhes

diz: “Eis a lei que deve constituir a vossa regra de conduta; só ela pode

vos levar ao fim; tudo que lhe for conforme é o bem; tudo que lhe for

contrário é o mal. Tendes inteira liberdade de observar ou infringir esta

lei, e assim sereis os árbitros da vossa própria sorte.” Conseguintemente,

Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem; foi o próprio

homem que criou esse mal ao transgredir as leis divinas, porquanto, se as

observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho.

13. Nas primeiras fases de sua existência, a alma é qual criança,

isto é, inexperiente e, portanto, falível. Deus não lhe dá essa experiência,

mas dá-lhe meios de adquiri-la. Cada passo em falso na senda do mal é

um atraso para a alma que, sofrendo-lhe as consequências, aprende à sua

custa o que deve evitar. É assim que, pouco a pouco, se desenvolve, aper

feiçoa e avança na hierarquia espiritual, até chegar ao estado de Espírito

puro ou anjo. Os anjos são, pois, as almas dos homens chegados ao grau

de perfeição que a criatura comporta, gozando, em sua plenitude, da fe

licidade prometida. Antes, porém, de atingir o grau supremo, desfrutam

de uma felicidade relativa ao seu adiantamento, felicidade que consiste,

não na ociosidade, mas nas funções que apraz a Deus confiar-lhes, e por

cujo desempenho se sentem felizes, visto que tais ocupações representam

para eles um meio de progresso. (Veja-se a Primeira Parte desta obra, cap.

TRÊS, O céu.)

14. A humanidade não se restringe à Terra: habita os inúmeros

mundos que circulam no Espaço, já habitou os desaparecidos e habitará

os que se formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade, Deus jamais

cessa de criá-la. Muito antes que a Terra existisse e por mais remota que

imaginemos a sua criação, já havia outros mundos, nos quais Espíritos

encarnados percorreram as mesmas fases que ora percorremos, atingindo

seu fim antes mesmo que tivéssemos saído das mãos do Criador. Há, por

tanto, desde toda a eternidade, Espíritos puros ou anjos; como, porém,

sua existência humana se passou num pretérito remotíssimo, para nós é

como se tivessem sido sempre anjos desde todos os tempos.

15. Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação. Deus nun

ca esteve inativo e sempre contou com o auxílio de Espíritos puros, ex

perimentados e esclarecidos, para transmissão de suas ordens e direção

do universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos detalhes.

Não teve, portanto, necessidade de criar seres privilegiados, isentos de

obrigações; todos, antigos e novos, conquistaram suas posições na luta

e por mérito próprio; todos, enfim, são filhos de suas obras. E assim se

cumpre a soberana Justiça de Deus.

M

Os demônios

Origem da crença nos demônios

1. Em todos os tempos os demônios representaram papel de desta

que nas diversas teogonias. Embora bastante desacreditados no conceito

geral, a importância que ainda hoje se atribui a eles confere certa gravi

dade à questão, por tocar o próprio fundo das crenças religiosas. Eis por

que é útil examiná-la, com os desdobramentos que o assunto comporta.

A crença num poder superior é instintiva no homem.

Encontramo--la, sob diferentes formas, em todas as épocas do mundo.

Se, no entanto, ainda hoje se discute sobre a natureza e os atributos

desse poder, apesar do grau de cultura atingido pelo homem, quão mais imperfeitas não deve

riam ser as noções que eles tinham a respeito na infância da humanidade!

2. O quadro com que nos apresentam a infância dos povos primi

tivos, extasiados ante as belezas da natureza e admirando nela a bondade

do Criador é, sem dúvida, muito poético, mas pouco real. De fato, quan

to mais se aproxima do estado de natureza, mais o homem se escraviza ao

instinto, como acontece ainda hoje entre os povos bárbaros e selvagens.

O que mais o preocupa, ou melhor, o que o preocupa exclusivamente é a

satisfação das necessidades materiais, até porque não tem outras. O único

sentido que pode torná-lo acessível aos gozos puramente morais não se

desenvolve senão lentamente, gradualmente. A alma tem também a sua

infância, a sua adolescência e virilidade, como o corpo humano; mas para

alcançar a virilidade que a tornará capaz de compreender as coisas abstra

tas, quantas evoluções não tem ela de experimentar na humanidade! Por

quantas existências não deve passar!

Sem remontarmos aos tempos primitivos, olhemos à nossa volta a

gente do campo e perscrutemos os sentimentos de admiração que nela

despertam o esplendor do sol nascente, a abóbada estrelada do firmamen

to, o gorjeio dos pássaros, o murmúrio das ondas cristalinas, as campinas

cobertas de flores. Para tais pessoas o Sol nasce por hábito e, contanto que

forneça suficiente calor para sazonar as colheitas, sem as queimar, nada

mais exigem dele; se olham o céu, é para saber se o tempo será bom ou

não no dia seguinte; tanto faz que os pássaros cantem ou deixem de cantar,

desde que não lhes destruam a lavoura; preferem o cacarejar das galinhas

e o grunhido dos porcos ao canto do rouxinol; o que desejam dos regatos

cristalinos, ou lamacentos, é que não sequem nem inundem; dos prados,

que produzam boa erva, com ou sem flores. É tudo o que desejam; dizemos

mais: é tudo o que assimilam da natureza, apesar de já muito distanciados

dos homens primitivos.

3. Se nos reportarmos a estes últimos, então, vê-los-emos preocupa

dos exclusivamente com a satisfação das necessidades materiais, resumindo

o bem e o mal neste mundo à satisfação ou prejuízo dessas necessidades.

Acreditam num poder extra-humano; entretanto, como o prejuízo mate

rial é o que mais de perto os incomoda, atribuem-no a esse poder, do qual

fazem, aliás, uma ideia muito vaga. Incapazes de conceber qualquer coisa

fora do mundo visível e tangível, eles o imaginam e o identificam nos seres

e coisas que o prejudicam. Os animais nocivos não passam para eles de

representantes naturais e diretos desse poder. Pela mesma razão, veem nas

coisas úteis a personificação do bem, o que explica o culto prestado a certas

plantas, a certos animais e mesmo a objetos inanimados. Mas o homem

é geralmente mais sensível ao mal que ao bem; este lhe parece natural, ao

passo que o mal o afeta com mais intensidade. É por isso que nos cultos

primitivos as cerimônias em homenagem ao poder maléfico sempre foram

mais numerosas, visto que o temor suplantava o reconhecimento.

Durante muito tempo o homem não compreendeu senão o bem

e o mal físicos. Só mais tarde os sentimentos morais vieram marcar o

progresso da inteligência humana, fazendo-lhe entrever na espiritualidade

um poder extra-humano fora do mundo visível e das coisas materiais. Tal

progresso foi obra de algumas inteligências de escol, mas que não pude

ram exceder certos limites.

4. Como se vê, havia uma luta incessante entre o bem e o mal e este

muitas vezes triunfava sobre aquele. Por outro lado, não se podendo racio

nalmente admitir que o mal fosse obra de um poder benfazejo, concluiu-se

pela existência de dois poderes rivais no governo do mundo. Daí nasceu a

doutrina dos dois princípios, o do bem e o do mal, doutrina lógica, aliás,

numa certa época, porque o homem ainda não era capaz de conceber ou

tra, nem de penetrar a essência do Ser Supremo. Como, então, haveria

de compreender que o mal não passa de estado transitório do qual pode

resultar o bem, conduzindo-o à felicidade pelo sofrimento e auxiliando-lhe

o progresso? Os limites do seu horizonte moral não lhe permitiam ver coisa

alguma fora da vida presente, nem no passado nem no futuro; também não

podia compreender que já houvesse progredido, que progrediria ainda in

dividualmente e, muito menos, que as vicissitudes da vida resultavam das

imperfeições do ser espiritual que nele reside, o qual preexiste e sobrevive

ao corpo, depurando-se numa série de existências até atingir a perfeição.

Ora, para compreender o bem que pode resultar do mal, é preciso levar em

conta não uma, mas várias existências; é necessário abranger o conjunto,

pois só então se tornam claras as verdadeiras causas e seus efeitos.

5. Durante muitos séculos e sob vários nomes, o duplo princípio do

bem e do mal foi a base de todas as crenças religiosas. Foi personificado em

Oromase e Arimane entre os persas, em Jeová e Satã entre os hebreus. Toda

via, como todo soberano deve ter ministros, as religiões geralmente admi

tiram poderes secundários ou gênios bons e maus. Os pagãos fizeram deles

individualidades com a denominação genérica de deuses e deram-lhes atri

buições especiais para o bem e para o mal, para os vícios e para as virtudes.

Os cristãos e os muçulmanos herdaram dos hebreus os anjos e os demônios.

6. A doutrina dos demônios tem, pois, sua origem na antiga crença

dos dois princípios, do bem e do mal. Não nos compete examiná-la aqui

senão do ponto de vista cristão, para ver se está de acordo com as noções

mais exatas que possuímos hoje dos atributos da Divindade. Esses atri

butos são o ponto de partida, a base de todas as doutrinas religiosas; os

dogmas, os cultos, as cerimônias, os usos e a moral, tudo é relativo à ideia

mais ou menos justa, mais ou menos elevada que se forma de Deus, desde

o fetichismo até o Cristianismo. Se a essência íntima de Deus continua a

ser um mistério para a nossa inteligência, compreendemo-la, no entanto,

melhor que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo.

De fato, o Cristianismo nos ensina racionalmente que Deus é único,

eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em

todas as perfeições, razão pela qual dissemos em outro lugar (Primeira Parte,

cap. SEIS, Doutrina das penas eternas), que “se se tirasse a menor parcela de

um só dos atributos de Deus, não haveria mais Deus, visto que poderia

coexistir um ser mais perfeito”. Esses atributos, na sua plenitude absoluta,

são, pois, o critério de todas as religiões, a medida da verdade de cada um

dos princípios que ensinam. E, para que qualquer desses princípios seja

verdadeiro, é indispensável que não encerrem um atentado às perfeições

divinas. Vejamos se assim é, realmente, na doutrina vulgar dos demônios.

Os demônios segundo a Igreja

7. Segundo a Igreja, Satã, o chefe ou o rei dos demônios, não é uma

personificação alegórica do mal, mas um ser real, a praticar exclusivamente

o mal, enquanto Deus pratica exclusivamente o bem. Tomemo-lo, pois,

qual no-lo representam.

Satanás existe de toda a eternidade, como Deus, ou ser-lhe-á pos

terior? Se existe de toda a eternidade é incriado e, por conseguinte, igual

a Deus. Logo, Deus deixará de ser único, pois haverá um deus do bem e

um deus do mal. Mas e se lhe for posterior? Neste caso passa a ser uma

criatura de Deus. Visto que só pratica o mal, que é incapaz de fazer o bem

e de arrepender-se, Deus teria criado um ser votado exclusivamente, eter

namente ao mal. Não sendo o mal obra de Deus, seria contudo de uma das

suas criaturas, e nem por isso deixava Deus de ser o autor, e então Ele não

seria infinitamente bom. O mesmo se dá em relação a todos os seres maus

chamados demônios.

8. Tal foi, por muito tempo, a crença sobre este ponto. Hoje dizem:63

“Deus, que é a bondade e a santidade por excelência, não os havia

criado perversos e maus. Sua mão paternal, que se apraz imprimir em todas

63 Nota de Allan Kardec: As citações seguintes são extraídas da pastoral de monsenhor Gousset, cardeal--arcebispo de Reims, para a quaresma de 1865. Graças ao mérito pessoal e à posição do autor, podemos considerá-las a última expressão da Igreja sobre a doutrina dos demônios.

as suas obras a marca de suas perfeições infinitas, cumulara-os de magnífi

cos predicados. Às qualidades eminentíssimas de sua natureza, Ele juntara

as liberalidades da sua graça; em tudo os fizera iguais aos Espíritos sublimes

de glória e felicidade; subdivididos por todas as suas ordens e ocupando to

das as classes, eles tinham o mesmo fim e idênticos destinos. Seu chefe foi

o mais belo dos arcanjos. Eles poderiam até ter alcançado a confirmação de

justos para todo o sempre, e serem admitidos ao gozo da bem-aventurança

dos céus. Este último favor, que deverá ser o complemento de todos os ou

tros, constituía o prêmio da sua docilidade, mas dele se tornaram indignos

por meio de uma revolta audaciosa e insensata.

Qual foi o escolho da sua perseverança? Que verdade desconhe

ceram? Que ato de fé e adoração recusaram a Deus? A Igreja e os anais

das Santas Escrituras não o dizem positivamente, mas parece certo que não

aquiesceram à mediação do Filho de Deus, nem à exaltação da natureza

humana em Jesus Cristo.

O Verbo divino, criador de todas as coisas, é também o único me

diador e salvador, na Terra como no Céu. O fim sobrenatural não foi dado

aos anjos e aos homens senão como previsão de sua encarnação e de seus

méritos, pois não há proporção alguma entre a obra dos Espíritos mais

eminentes e a recompensa, senão o próprio Deus. Nenhuma criatura po

deria alcançar tal fim, sem esta maravilhosa e sublime intervenção da cari

dade. Ora, para preencher a distância infinita que separa a essência divina

das obras feitas por suas mãos, seria preciso que reunisse à sua pessoa os

dois extremos, e que associasse à sua divindade a natureza do anjo ou a do

homem. E Ele preferiu a natureza humana.

Concebido desde toda a eternidade, esse plano foi manifestado nos

anjos muito antes da sua execução: o Homem-Deus foi-lhes mostrado

como aquele que, futuramente, deveria confirmá-los na graça e guiá-los

à glória, sob a condição de o adorarem na Terra durante a sua missão, e

para todo o sempre no céu. Revelação inesperada, visão encantadora para

os corações generosos e gratos, mas — profundo mistério! — arrasador

para os Espíritos soberbos. Esse fim sobrenatural, essa glória imensa que

lhes propunham não seria unicamente a recompensa de seus méritos pes

soais! Nunca poderiam atribuir a si próprios os títulos dessa glória! Um

mediador entre Deus e eles! Que injúria à sua dignidade! E a preferência

espontânea pela natureza humana? Que injustiça, que afronta aos seus

direitos! E chegarão eles um dia a ver esta humanidade, que lhes é tão

inferior, deificada pela união com o Verbo, sentada à direita de Deus em

trono resplandecente? Consentirão enfim que ela ofereça a Deus, eterna

mente, a homenagem da sua adoração?

Lúcifer e a terça parte dos anjos sucumbiram a tais pensamentos

de inveja e de orgulho. São Miguel e com ele muitos outros exclamaram:

‘Quem é semelhante a Deus? Ele é o dono de seus dons, o soberano Se

nhor de todas as coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro, que será imolado

para a salvação do mundo’. Mas o chefe dos rebeldes, esquecido de que

devia ao Criador a sua nobreza e as suas prerrogativas, e dando ouvidos

apenas à sua temeridade, disse: ‘Sou eu mesmo quem subirá ao céu; fixarei

residência acima dos astros; sentar-me-ei sobre o monte da aliança, nos

flancos do Aquilão; dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante

ao Altíssimo’. Os que partilharam de tais sentimentos acolheram essas

palavras com murmúrios de aprovação, havendo partidários em todas as

hierarquias. A sua multidão, contudo, não os preserva do castigo.”

9. Esta doutrina suscita várias objeções:

1a) Se Satã e os demônios eram anjos, eles eram perfeitos. Como,

sendo perfeitos, puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade de

Deus, em cuja presença se encontravam? Se ao menos tivessem conquis

tado tal eminência gradualmente, depois de haver percorrido a escala da

perfeição, poderíamos até conceber um triste retrocesso; contudo, o que

torna a coisa mais incompreensível é o modo pelo qual no-los apresentam,

isto é, criados perfeitos desde a origem.

A consequência dessa teoria é esta: Deus quis criar seres perfeitos,

já que os favorecera com todos os dons, mas se enganou; logo, segundo a

Igreja, Deus não é infalível.

2a) Visto que nem a Igreja e nem os anais da história sagrada explicam

a causa da rebelião dos anjos contra Deus e apenas dão como quase certa

que se deveu à relutância no reconhecimento da futura missão do Cristo,

perguntamos que valor pode ter o quadro tão preciso e detalhado da cena

64 Nota de Allan Kardec: Esta doutrina monstruosa é confirmada por Moisés, quando diz (Gênesis, 6:6 e 7): “Ele se arrependeu de haver criado o homem na Terra e, sendo tocado pela mais íntima dor, disse: ‘Exterminarei o homem da face da Terra; exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde os que rastejam sobre a terra até os pássaros do céu, porque me arrependo de os ter criado’.” Ora, um Deus que se arrepende do que fez não é perfeito nem infalível; por conseguinte, não é Deus. E são estas as palavras que a Igreja proclama como santas verdades. Também não se percebe o que poderia haver de comum entre os animais e a perversidade dos homens, para que merecessem tal extermínio.

que então aconteceu? A que fonte recorreram para colher palavras tão claras

e até simples colóquios? De duas uma: ou a cena é verdadeira ou não é. No

primeiro caso, não havendo dúvida alguma, por que a Igreja não decide a

questão? Se a Igreja e a História se calam, se somente a causa parece certa, é

que não passa de hipótese e a cena descritiva é mero fruto da imaginação.65

3a) As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância admirá

vel num arcanjo que, por sua própria natureza e pelo grau alcançado, não

deve participar, quanto à organização do universo, dos erros e prejuízos

que os homens têm professado, até serem esclarecidos pela Ciência. Como,

pois, poderia dizer que fixaria residência acima dos astros, dominando as

mais elevadas nuvens? É sempre a velha crença da Terra como centro do

universo, do céu como que formado de nuvens estendendo-se às estrelas,

e da limitada região destas, que a Astronomia nos mostra disseminadas

ao infinito no espaço infinito. Como hoje já se sabe que as nuvens não se

elevam a mais de duas léguas da superfície terrena, seria preciso, para dizer

que Lúcifer dominará as nuvens mais elevadas, referindo-se a montanhas,

que a cena se passasse na superfície da Terra e que nela se localizasse a mo

rada dos anjos. Por outro lado, se tal morada se localiza em região superior,

é inútil dizer que ela se elevará acima das nuvens. Atribuir aos anjos uma

linguagem marcada pela ignorância é confessar que os homens contempo

râneos são mais sábios do que os anjos. A Igreja sempre tem se equivocado

ao não levar em conta os progressos da Ciência.

10. A resposta à primeira objeção acha-se na seguinte passagem:

“A Escritura e a tradição denominam céu o lugar no qual se haviam

colocado os anjos, no momento da sua criação. Mas esse não era o céu

visão beatífica, onde Deus se mostra face a face aos

seus eleitos, que o contemplam claramente e sem esforço, porque aí não

há mais possibilidade nem perigo de pecado; a tentação e a dúvida são aí

desconhecidas; a justiça, a paz e a alegria reinam imutáveis; a santidade e

a glória são imperecíveis. Era, portanto, outra região celeste, uma esfera

luminosa e afortunada, em que essas nobres criaturas, largamente favoreci

das pelas comunicações divinas, deveriam recebê-las e a elas aderir com fé

e humildade, antes de serem admitidas a ver claramente a sua realidade na

essência do próprio Deus.”

Do que acaba de ser dito podemos deduzir que os anjos decaídos

pertenciam a uma categoria menos elevada, menos perfeita, não havendo

ainda alcançado o lugar supremo em que o erro é impossível. Tudo bem,

mas, então, há manifesta contradição, visto que o texto também sustenta

que “Deus os criara em tudo semelhantes aos Espíritos sublimes que, subdivi

didos em todas as ordens e misturados em todas as classes, tinham o mesmo

fim e o mesmo destino, sendo o seu chefe o mais belo dos arcanjos”. Ora,

se foram feitos em tudo semelhantes aos outros, não lhes seriam inferiores

em natureza, e se estavam misturados em todas as classes, não podiam per

manecer em um lugar especial. A objeção, portanto, subsiste inteiramente.

11. E ainda há outra objeção, incontestavelmente mais grave e mais

séria. Dizem: “Este plano (a mediação do Cristo), concebido desde toda

a eternidade, foi revelado aos anjos muito antes da sua execução.” Deus

sabia, pois, e de toda a eternidade, que os anjos, assim como os homens, te

riam necessidade dessa mediação. Sabia, também, que alguns anjos viriam

a falir; que essa queda lhes acarretaria a eterna condenação, sem esperança

de retorno; que eles seriam destinados a tentar os homens e que os que se

deixassem seduzir teriam a mesma sorte. Ora, se Deus sabia de tudo isso,

então condenou alguns anjos à maldição eterna desde a sua criação, bem

como a maior parte do gênero humano. Com tal doutrina, é impossível

conciliar a criação dos anjos e do gênero humano com a soberana bondade

de Deus. Se Ele nada sabia, não era onisciente nem onipotente. Num e

noutro caso temos a negação de dois atributos sem a plenitude dos quais

Deus não seria Deus.

12. Admitindo a falibilidade dos anjos, como a dos homens, a punição

é consequência justa e natural da falta; mas se admitirmos ao mesmo tempo

a possibilidade do resgate, a regeneração, a graça, após o arrependimento e a

expiação, tudo se esclarece e se conforma com a bondade de Deus. De fato,

Ele sabia que errariam, que seriam punidos, mas sabia também que tal casti

go temporário seria um meio de lhes fazer compreender o erro, revertendo,

portanto, em benefício deles. Cumpriam-se, assim, estas palavras do profeta

Ezequiel: “Deus não quer a morte, mas a salvação do pecador.”66 O que seria

a negação da bondade de Deus é a inutilidade do arrependimento e a impos

sibilidade de regeneração. Nesta hipótese, seria rigorosamente exato dizer-se

que “esses anjos, desde a sua criação, visto que Deus não o podia ignorar,

foram votados ao mal por toda a eternidade e predestinados a se tornarem

demônios, a fim de arrastarem os homens ao mal”.

13. Vejamos agora qual a sorte de tais anjos e o que fazem:

“Tão logo se manifestou a revolta na linguagem dos Espíritos, isto é,

nos arroubos dos seus pensamentos, foram eles banidos da mansão celestial

e precipitados no abismo.

Por estas palavras, entendemos que foram arremessados a um lugar

de suplícios no qual sofrem a pena do fogo, conforme o texto do Evan

gelho, tal como saiu da boca do Salvador: ‘Ide malditos, ao fogo eterno

preparado pelo demônio e seus anjos’. Pedro diz expressamente que Deus

os prendeu às cadeias e torturas infernais, embora nem todos lá estejam

eternamente, visto como só no fim do mundo serão para sempre enclausu

rados com os réprobos. Presentemente, Deus ainda permite que ocupem

lugar nesta criação, à qual pertencem, na ordem das coisas atinentes à sua

existência, nas relações enfim que deviam ter com o homem, e das quais

fazem o mais pernicioso abuso. Enquanto uns ficam na tenebrosa mora

da, servindo de instrumento da Justiça divina contra as almas infelizes que

seduziram, uma infinidade de outros formam legiões invisíveis sob o co

mando de seus chefes, residindo nas camadas inferiores da nossa atmosfera

e percorrendo todas as partes do globo. Envolvem-se em tudo o que aqui

se passa, tomando mesmo parte muito ativa nos acontecimentos terrenos.”

Quanto ao que diz respeito às palavras do Cristo sobre o suplício

do fogo eterno, veja-se a nossa explanação no capítulo QUATRO, intitulado

O inferno.

14. Conforme esta doutrina, apenas uma parte dos demônios está

no inferno; a outra vagueia em liberdade, envolvendo-se em tudo o que

66 Nota de Allan Kardec: Veja-se a Primeira Parte, cap. SEIS, item 25, citação de Ezequiel.

aqui se passa, dando-se ao prazer de praticar o mal e isso até o fim do mun

do, cuja época indeterminada não chegará tão cedo. Por que, pois, essa di

ferença? Serão os últimos menos culpados? Certo que não, a menos que se

revezem nos seus papéis, como se pode deduzir desta passagem: “Enquanto

uns ficam na tenebrosa morada, servindo de instrumento da Justiça divina

contra as almas infelizes que seduziram.”

Suas ocupações consistem, pois, em atormentar as almas que seduzi

ram. Assim, não se encarregam de punir as que são culpadas de faltas livres

e voluntariamente cometidas, mas das que eles próprios provocaram. São

ao mesmo tempo a causa do erro e o instrumento do castigo. O que causa

mais admiração, contudo, e que a justiça humana, por mais imperfeita

que seja, jamais admitiria, é o fato de a vítima, ao sucumbir por fraqueza

e em circunstâncias alheias à sua vontade, ser punida tão severamente

quanto o agente provocador, que emprega astúcia e artifício, e até com

mais severidade, porque vai ao inferno ao deixar a Terra para daí não sair

nunca mais, sofrendo eternamente, sem trégua nem compaixão, enquan

to o causador da sua primeira falta, o agente provocador, permanece em

liberdade até o fim do mundo! Ora, porventura a Justiça de Deus seria

menos perfeita que a dos homens?

15. Isto, porém, ainda não é tudo: “Deus permite que eles ocupem

lugar nesta criação, nas relações que deviam ter com os homens e das quais

abusam da maneira mais perniciosa.” Deus podia ignorar o abuso que fa

riam da liberdade que Ele próprio lhes daria? Então, por que a concedeu?

Mas nesse caso é com conhecimento de causa que Deus abandona suas

criaturas à mercê delas mesmas, sabendo, já que é onipotente, que vão

sucumbir e que terão a sorte dos demônios. Não serão elas por si mesmas

bastante fracas para falirem, sem a provocação de um inimigo tanto mais

perigoso porque invisível? Se ao menos o castigo fosse temporário e o cul

pado pudesse remir-se pela reparação!... Mas não: a condenação é irrevogá

vel, eterna! Arrependimento, regeneração, lamentos, tudo supérfluo!

Os demônios não passam, portanto, de agentes provocadores, pre

destinados a recrutar almas para o inferno, e isto com a permissão de Deus,

que antevia, ao criar essas almas, a sorte que lhes estava reservada. Que se

diria na Terra de um juiz que recorresse a tal expediente para lotar as pri

sões? Estranha ideia que nos dão da Divindade, de um Deus cujos atribu

tos essenciais são: justiça e bondade soberanas! E dizer-se que é em nome

de Jesus, daquele que só pregou amor, perdão e caridade, que tais doutrinas

são ensinadas! Houve um tempo em que essas anomalias passavam desper

cebidas, porque não eram compreendidas nem sentidas; o homem, curva

do ao jugo do despotismo, submetia-se à fé cega, abdicava da razão. Hoje,

porém, que a hora da emancipação já soou, esse homem compreende a

justiça e a deseja tanto na vida quanto na morte. É por isso que exclama:

“Não é, não pode ser assim, ou Deus não é Deus!”

16. O castigo segue por toda parte os seres decaídos: o inferno está ne

les e com eles; nem paz nem repouso. As próprias doçuras da esperança foram

transformadas para eles em amarguras. A esperança lhes é odiosa. A mão de

Deus os feriu no ato mesmo de pecarem, e sua vontade obstinou-se no mal.

Tornados perversos, teimam em o ser e sê-lo-ão para sempre.

Esses seres decaídos são, depois do pecado, o que é o homem depois

da morte. A reabilitação deles torna-se também impossível; a sua perda é,

a partir de então, irreparável, mantendo-se eles no seu orgulho perante

Deus, no seu ódio contra o Cristo, na sua inveja contra a humanidade.

Não tendo podido conquistar a glória celeste, pela ambição desme

dida, esforçam-se por implantar seu império na Terra, banindo dela o reino

de Deus. O Verbo encarnado cumpriu, apesar disso, os seus desígnios para

salvação e glória da Humanidade. Também por isso procuram por todos

os meios promover a perda das almas resgatadas pelo Cristo: a astúcia e a

importunação, a mentira e a sedução, tudo põem em jogo para arrastá-las

ao mal e à ruína completa.

Com tais inimigos, a vida do homem é uma luta sem tréguas, desde

o berço até o túmulo, visto que são poderosos e infatigáveis.

Efetivamente, esses inimigos são os mesmos que, depois de terem in

troduzido o mal no mundo, chegaram a cobri-lo com as espessas trevas do

erro e do vício; os mesmos que, por longos séculos, se fizeram adorar como

deuses e que reinaram em absoluto sobre os povos da Antiguidade; os mes

mos, enfim, que ainda hoje exercem influência tirânica nas regiões idólatras,

fomentando a desordem e o escândalo até no seio das sociedades cristãs.

Para compreender todos os recursos de que dispõem a serviço da

malvadez, basta notar que nada perderam das prodigiosas faculdades que são

o apanágio da natureza angélica. Por certo, o futuro e sobretudo a ordem

natural têm mistérios que Deus reservou para si e que eles não podem

penetrar; mas a sua inteligência é bem superior à nossa, porque percebem,

num simples piscar de olhos, os efeitos nas causas e vice-versa. Essa percep

ção lhes permite predizer acontecimentos futuros que escapam às nossas

conjeturas. A distância e a variedade dos lugares desaparecem ante a sua

agilidade. Mais rápidos que o raio e o pensamento, acham-se quase instan

taneamente sobre diversos pontos do globo, e são capazes de descrever, a

distância, os acontecimentos na mesma hora em que ocorrem.

As leis gerais pelas quais Deus rege e governa o universo não lhes são

acessíveis, razão por que não podem derrogá-las e, por conseguinte, predi

zer ou operar verdadeiros milagres; possuem, no entanto, a arte de imitar

e falsificar, dentro de certos limites, as obras divinas; sabem quais os fenô

menos resultantes da combinação dos elementos, predizendo com maior

ou menor êxito os que sobrevêm naturalmente, assim como os que eles

mesmos podem produzir. Daí os numerosos oráculos, as extraordinárias

profecias que os livros sagrados e profanos recolheram, e que têm servido

de base e de alimento para todas as superstições.

A substância simples e imaterial que os compõe escapa às nossas

vistas; permanecem ao nosso lado sem que os vejamos; tocam a nossa alma

sem nos tocar o ouvido. Acreditamos obedecer aos nossos pensamentos,

quando, na verdade, sofremos as suas tentações e a sua funesta influência.

As nossas disposições, ao contrário, lhes são conhecidas pelas impressões

que delas transparecem em nós, e nos atacam geralmente pelo lado mais

fraco. Para nos seduzirem com mais segurança costumam apresentar-nos

ideias e sugestões de acordo com as nossas inclinações. Modificam a ação

segundo as circunstâncias e os traços característicos de cada temperamen

to. Contudo, suas armas favoritas são a hipocrisia e a mentira.

17. Dizem que o castigo os segue por toda parte; que eles não têm

paz nem repouso. Isto não invalida de modo algum a observação que fi

zemos sobre o privilégio dos que estão fora do inferno, privilégio tanto

mais injustificado, porquanto, estando fora dele, podem fazer muito mais

mal. Com toda certeza eles não são felizes como os anjos bons, mas não se

deve levar em consideração a sua relativa liberdade? Se não têm a felicidade

moral que a virtude confere, são incontestavelmente mais felizes que os

seus comparsas que padecem nas chamas. Depois, para os maus, há sempre

um certo gozo na liberdade que desfrutam para praticar o mal. Perguntai

ao criminoso o que prefere: se ficar na prisão, ou percorrer livremente os

campos, agindo à vontade? Pois o caso é exatamente o mesmo.

O remorso, afirmam, os persegue sem tréguas nem piedade. Mas es

quecem que o remorso é o precursor imediato do arrependimento, quando

não é o próprio arrependimento. Dizem: “Tornados perversos, obstinam-se

na perversidade e serão malvados para sempre.” Mas desde que se obstinam

em ser perversos é que não têm remorsos; se tivessem o menor sentimento

de pesar, renunciariam ao mal e pediriam perdão. Logo, o remorso não

constitui para eles nenhum castigo.

18. “Eles são, depois do pecado, o que é o homem depois da mor

te. A reabilitação dos que caíram torna-se, portanto, impossível.” Ora, de

onde provém essa impossibilidade? Não se compreende que seja a con

sequência de sua similitude com o homem depois da morte, proposição

que, aliás, não é muito clara. Porventura essa impossibilidade proviria da

própria vontade dos demônios? Ou da vontade de Deus? No primeiro caso

a pertinácia denota uma extrema perversidade, um endurecimento abso

luto no mal, não se compreendendo que seres tão profundamente perver

sos pudessem algum dia ter sido anjos de virtude e que, durante o tempo

indefinido que passaram entre estes últimos, não tenham deixado perceber

nem um sinal de sua maldade natural. No segundo caso, ainda menos se

compreende que Deus inflija como castigo a impossibilidade da reparação,

após uma primeira falta. O Evangelho nada diz de semelhante.

19. E acrescentam: “A sua perda é desde então irreparável, man

tendo-se eles no seu orgulho perante Deus.” Aliás, de que lhes serviria

não manterem tal orgulho, uma vez que todo arrependimento é inútil? Se

ao menos tivessem uma esperança de reabilitação, fosse qual fosse o seu

preço, o bem teria um objetivo para eles. Assim não acontece, porém; se

perseveram no mal é porque lhes trancaram a porta da esperança. Mas por

que Deus lhes trancaria essa porta? Para se vingar da ofensa decorrente da

sua insubmissão. E assim, para saciar o seu ressentimento contra alguns

culpados, Deus prefere não somente vê-los sofrer, mas agravar o mal com

mal maior; impelir à perdição eterna todas as criaturas do gênero humano,

quando por um simples ato de clemência podia evitar tão grande desastre,

aliás previsto, de toda a eternidade!

Trata-se, neste caso, de um ato de clemência, de uma graça pura

e simples que pudesse transformar-se em estímulo ao mal? Não; mas de

um perdão condicional, subordinado a sincero retorno ao bem. Em vez

de uma palavra de esperança e misericórdia, é como se Deus dissesse:

Pereça toda a raça humana antes que minha vingança! E com semelhante

doutrina muita gente ainda se admira de que haja incrédulos e ateus! É

assim que Jesus nos representa seu Pai? Ele que nos deu a lei expressa do

esquecimento e do perdão das ofensas, que nos mandou pagar o mal com

o bem, que prescreveu o amor aos inimigos como a primeira das virtudes

que nos conduzem ao céu, pretenderia desse modo que os homens fossem

melhores, mais justos e mais indulgentes que o próprio Deus?

Os demônios segundo o Espiritismo

20. Segundo o Espiritismo, nem os anjos nem os demônios são se

res à parte, já que a criação de seres inteligentes é uma só. Unidos a corpos

materiais, esses seres constituem a Humanidade que povoa a Terra e as

outras esferas habitadas; uma vez libertos do corpo material, constituem o

mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam os espaços. Deus os criou

perfectíveis e deu-lhes por meta a perfeição, com a felicidade que dela re

sulta, mas não lhes deu a perfeição. Quis que a obtivessem por seu próprio

esforço, a fim de que tivessem o mérito. Desde o momento da sua criação

que os seres progridem, quer encarnados, quer no estado espiritual. Che

gados ao apogeu, tornam-se Espíritos puros ou anjos segundo a expressão

vulgar, de sorte que, a partir do embrião do ser inteligente até o anjo, há

uma cadeia ininterrupta na qual cada um dos elos assinala um grau de

progresso.

Disso resulta que há Espíritos em todos os graus de adiantamento,

moral e intelectual, conforme a posição em que se acham na escala do

progresso. Por conseguinte, em todos os graus existe saber e ignorância,

bondade e maldade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda pro

fundamente propensos ao mal e que nele se comprazem. A estes se pode

denominar demônios, caso se queira, pois são capazes de todos os malefícios

atribuídos aos últimos. O Espiritismo não lhes dá tal nome porque o ter

mo demônio se prende à ideia de uma criação distinta do gênero humano,

como seres de natureza essencialmente perversa, votados ao mal eterna

mente e incapazes de progredir para o bem.

21. Segundo a doutrina da Igreja os demônios foram criados bons

e se tornaram maus por sua desobediência: são anjos decaídos, colocados

primitivamente por Deus no topo da escala, de onde caíram. Segundo o

Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos, mas que se melhoram;

ainda estão na base da escala, mas subirão um dia.

Os Espíritos que, por apatia, negligência, obstinação ou má vontade

persistirem em ficar, por mais tempo, nas classes inferiores, sofrem as con

sequências dessa atitude, e o hábito do mal lhes dificulta a regeneração. Um

dia, porém, chega-lhes a fadiga dessa vida penosa e das suas respectivas con

sequências; comparam a sua situação à dos Espíritos bons e compreendem

que o seu interesse está no bem, procurando então se melhorarem, mas por

ato de espontânea vontade, sem que haja nisto o menor constrangimento.

Submetidos à lei geral do progresso, em virtude da sua aptidão para progredir,

ainda assim não progridem contra a vontade. Deus lhes fornece constante

mente esses meios, mas eles são livres para os aceitar ou recusar. Se o pro

gresso fosse obrigatório não haveria mérito e Deus quer que todos tenham

o mérito de suas obras. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilé

gio, mas o primeiro lugar é franqueado a todos, à custa do esforço próprio.

Os anjos mais elevados conquistaram a sua graduação, passando, como os

demais, pela rota comum.

22. Chegados a certo grau de pureza, os Espíritos têm missões ade

quadas ao seu progresso; desempenham assim todas as funções atribuídas

aos anjos de diferentes categorias. E como Deus criou de toda a eternidade,

segue-se que de toda a eternidade houve número suficiente para satisfazer a

todas as necessidades do governo do universo. Deste modo, uma só espécie

de seres inteligentes, submetida à lei do progresso, satisfaz todos os fins da

Criação. Esta unidade na Criação, aliada à ideia de uma origem comum,

tendo o mesmo ponto de partida e a mesma rota a percorrer, elevando-se

a criatura pelo próprio mérito, corresponde melhor à Justiça de Deus do

que a criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dotes

naturais, que seriam outros tantos privilégios.

23. A doutrina comum sobre a natureza dos anjos, dos demônios

e das almas humanas, não admitindo a lei do progresso, mas vendo toda

via seres de diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas

criações especiais. Chega assim a fazer de Deus um pai parcial, tudo con

cedendo a alguns de seus filhos, e impondo a outros o mais rude trabalho.

Não é de admirar que por muito tempo os homens nada tenham visto de

chocante nessas preferências, já que eles procediam do mesmo modo em

relação aos próprios filhos, ao estabelecerem direitos de primogenitura e

outros privilégios de nascimento. Podiam tais homens pensar que erravam

mais do que Deus?

Hoje, porém, alargou-se o círculo das ideias; o homem vê mais claro

e tem noções mais exatas da justiça. Desejando-a para si e nem sempre a

encontrando na Terra, quer pelo menos encontrá-la mais perfeita no céu.

É por isso que toda e qualquer doutrina, na qual a Justiça divina não lhes

apareça na plenitude integral da sua pureza, repugna-lhes à razão.

Intervenção dos demônios

nas modernas manifestações

1. Os fenômenos espíritas modernos têm atraído a atenção sobre

fatos análogos ocorridos em todos os tempos, e nunca a História foi tão

compulsada neste sentido como ultimamente. Pela semelhança dos efeitos,

concluiu-se pela identidade da causa. Como sempre acontece relativamente

a fatos extraordinários que o senso comum desconhece, o vulgo viu nos

fenômenos espíritas uma causa sobrenatural e a superstição os exagerou,

ajuntando-lhes absurdas crendices. Provém daí uma infinidade de lendas

que, na sua maioria, são uma mistura de poucas verdades e muitas mentiras.

2. As doutrinas sobre o demônio, que por tanto tempo prevalece

ram, haviam de tal maneira exagerado o seu poder que fizeram, por assim

dizer, que Deus fosse esquecido; por toda parte surgia o dedo de Satanás,

bastando para tanto que o fato observado ultrapassasse os limites do po

der humano. Até as coisas melhores, as descobertas mais úteis, sobretudo

as que pudessem tirar o homem da ignorância e alargar o círculo de suas

ideias, foram consideradas muitas vezes como obras diabólicas. Os fenô

menos espíritas de nossos dias, mais generalizados e mais bem observados

à luz da razão e com o auxílio da Ciência, confirmaram, é verdade, a in

tervenção de inteligências ocultas, mas agindo dentro de leis naturais e

revelando, por sua ação, uma nova força e leis até então desconhecidas. A

questão reduz-se, portanto, em saber de que ordem são essas inteligências.

Enquanto não se possuía do mundo espiritual senão noções incertas e

sistemáticas, os equívocos eram possíveis; mas hoje, que observações rigorosas

e estudos experimentais esclareceram a natureza, a origem e o destino dos

Espíritos, bem como o seu modo de ação e o papel que desempenham no

universo, a questão se resolve por fatos. Sabemos, agora, que essas inteligên

cias ocultas são as almas dos que viveram na Terra. Sabemos também que as

diversas categorias de Espíritos bons e maus não constituem seres de espécies

diferentes, assinalando apenas os seus diversos graus de adiantamento. Segundo

a posição que ocupam em virtude do desenvolvimento intelectual e moral,

os seres que se manifestam apresentam os mais vivos contrastes, o que não os

impede de terem saído da grande família humana, do mesmo modo que o

selvagem, o bárbaro e o homem civilizado.

3. Sobre este ponto, como sobre muitos outros, a Igreja mantém

suas velhas crenças a respeito do demônio. Diz ela: “Temos princípios que

não variam há dezoito séculos porque são imutáveis.” O seu erro consiste

justamente em não levar em conta o progresso das ideias; é supor Deus

muito pouco sábio para não proporcionar a revelação ao desenvolvimento

das inteligências; é, em suma, falar aos contemporâneos a mesma lingua

gem do passado. Se, a despeito do progresso da Humanidade, a religião

persiste em agarrar-se aos velhos erros do passado, tanto em matéria espi

ritual como em assuntos científicos, mais dia menos dia será ultrapassada

pela incredulidade.

4. Eis como a Igreja explica a intervenção exclusiva dos demônios

nas manifestações modernas.67

“Nas suas intervenções exteriores os demônios procuram dissimular

a sua presença, a fim de afastar suspeitas. Sempre astutos e pérfidos, sedu

zem o homem com ciladas antes de algemá-lo na opressão do servilismo.

Aqui, lhe aguçam a curiosidade com fenômenos e brincadeiras pueris; além,

despertam-lhe a admiração e subjugam-no pelo encanto do maravilhoso.

Se o sobrenatural aparece, se o seu poder os desmascara, então se acalmam,

extinguem quaisquer apreensões, solicitam confiança e provocam familiari

dade. Ora se apresentam como divindades e bons gênios, ora assimilam os

nomes e até os traços de homens que deixaram a Terra. Com o auxílio de

tais fraudes dignas da antiga serpente, falam e são ouvidos; dogmatizam e

são acreditados; misturam com suas mentiras algumas verdades e inculcam o

erro debaixo de todas as formas. É nisso que consiste as pretensas revelações

de além-túmulo. E é para a obtenção de tal resultado que a madeira e a pe

dra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos, os pés das mesas e as mãos

das crianças se tornam oráculos; é por isso que a pitonisa profetiza em delírio

e que o ignorante, num sono misterioso, torna-se de repente um doutor da

Ciência. Enganar e perverter, tal é, em toda parte e de todos os tempos, o

objetivo final dessas estranhas manifestações.

Os resultados surpreendentes dessas práticas ou atos, em sua maioria

fantásticos e ridículos, não podendo proceder da sua virtude intrínseca,

nem da ordem estabelecida por Deus, só podem ser atribuídos ao concur

so das potências ocultas. Tais são, notadamente, os fenômenos extraordi

nários obtidos em nossos dias pelos processos aparentemente inofensivos

do magnetismo e das mesas falantes. Por meio dessas operações da magia

moderna, vemos a reprodução entre nós das evocações e dos oráculos, as

consultas aos mortos, as curas e sortilégios que ilustraram os templos dos

ídolos e os antros das sibilas. Como outrora, interroga-se a madeira e ela

responde; manda-se e ela obedece, e isto em todas as línguas e sobre todos

os assuntos; achamo-nos em presença de seres invisíveis a usurparem os no

mes dos mortos, e cujas pretensas revelações têm o cunho da contradição e

da mentira; formas inconsistentes e leves, dotadas de força sobre-humana,

aparecem e desaparecem de repente.

Quais são os agentes secretos desses fenômenos, os verdadeiros atores

dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam esses papéis indignos,

nem se prestariam a todos os caprichos da curiosidade. As almas dos mor

tos, que Deus proíbe evocar, permanecem no lugar que a sua justiça lhes

designa, e não podem, sem a sua permissão, colocar-se às ordens dos vivos.

Assim, os seres misteriosos que atendem ao primeiro chamado do herege,

do ímpio ou do crente, o que importa dizer da inocência ou do crime,

não são enviados de Deus, nem apóstolos da verdade e da salvação, mas

promotores do erro e agentes do inferno. Apesar do cuidado com que se

ocultam sob os mais veneráveis nomes, eles se traem pela nulidade de suas

doutrinas, pela baixeza dos atos e pela incoerência das palavras. Procuram

apagar do símbolo religioso os dogmas do pecado original, da ressurreição

do corpo, da eternidade das penas, como de toda a revelação divina, a fim

de subtrair às leis a sua verdadeira sanção e abrir ao vício todas as barreiras.

Se as suas sugestões pudessem prevalecer, acabariam por formar uma reli

gião cômoda para uso do socialismo e de todos a quem importuna a noção

do dever e da consciência. A incredulidade do nosso século facilitou-lhes o

caminho. Possam assim as sociedades cristãs, por uma sincera dedicação à

fé católica, escapar ao perigo desta nova e terrível invasão!”

5. Toda essa teoria resulta do princípio de que os anjos e os demô

nios são seres distintos das almas humanas, sendo estas antes o produto

de uma criação especial, aliás inferiores aos demônios em inteligência, em

conhecimento e em toda espécie de faculdade. Ela conclui pela intervenção

exclusiva dos anjos maus, tanto nas antigas como nas modernas manifesta

ções atribuídas aos Espíritos dos mortos.

A possibilidade das almas se comunicarem com os vivos é uma ques

tão de fato, é o resultado de observações e experiências que não vêm ao caso

discutir aqui. Contudo, admitamos como hipótese a doutrina citada, e ve

jamos se ela não se destrói por si mesma com os seus próprios argumentos.

6. Das três categorias de anjos segundo a Igreja, a primeira ocupa-se

exclusivamente do Céu; a segunda do governo do universo; e a terceira, da

Terra. É nesta última que se encontram os anjos da guarda, encarregados

da proteção de cada indivíduo. Somente uma parte dos anjos desta última

categoria é que tomou parte na revolta e foi transformada em demônios.

Ora, se Deus lhes permitiu induzir os homens em erro, por meio de suges

tões ocultas e manifestações ostensivas, por que razão lhes teria Ele, já que

é soberanamente justo e bom, concedido o imenso poder e a liberdade de

que desfrutam, sem pelo menos atenuar os males de tão odiosa concessão,

permitindo também a manifestação dos anjos bons?

Admitamos que Deus tenha concedido igual poder aos anjos bons

e maus, o que já seria um favor exorbitante em proveito destes últimos;

neste caso o homem teria, pelo menos, a liberdade de escolha. Contudo,

ao dar aos anjos maus o monopólio da tentação, com poderes amplos de

simular o bem para melhor seduzir e, ao mesmo tempo, vedando toda e

qualquer intervenção dos bons, é como se Deus estendesse aos homens

uma armadilha, aproveitando-se da sua inexperiência e boa-fé. Dizemos

mais: é supor da parte de Deus um abuso de confiança pela fé que nos

merece. A razão se recusa a admitir tanta parcialidade em proveito do mal.

Vejamos, porém, os fatos.

7. Concedem-se aos demônios faculdades transcendentes; eles nada

perderam de sua natureza angélica. Possuem o saber, a perspicácia, a pre

vidência e a clarividência dos anjos, além de astúcia, sagacidade e manha

Intervenção dos demônios nas modernas manifestações

no mais alto grau. O objetivo que os move é desviar os homens do bem e,

sobretudo, afastá-los de Deus e arrastá-los ao inferno, do qual são prove

dores e recrutadores.

Compreende-se assim que eles se dirijam de preferência aos que es

tão no bom caminho e nele persistem; compreende-se o emprego das se

duções e simulacros do bem para atraí-los e perdê-los; mas o que não se

compreende é que se dirijam aos que já lhes pertencem de corpo e alma,

para os reconduzir a Deus e ao caminho do bem. Ora, quem mais estará

nas garras do demônio do que aquele que blasfema contra Deus e o renega,

mergulhado no vício e na desordem das paixões? Esse já não estará no ca

minho do inferno? Porventura se compreenderá que, seguro de sua presa,

o demônio a exorte a rogar a Deus, a submeter-se à sua vontade, a renun

ciar ao mal? Como se haverá de compreender que exalte aos seus olhos a

vida deliciosa dos Espíritos bons e que lhe descreva com horror a posição

dos maus? Acaso já se viu negociante elogiar a mercadoria do vizinho em

prejuízo da sua, aconselhando seus fregueses a comprar a do outro? Um

recrutador de soldados falar mal da vida militar e louvar o repouso da vida

doméstica? Poderá dizer aos recrutas que terão vida de trabalhos e prova

ções com dez probabilidades contra uma de morrerem ou, pelo menos, de

perderem os braços e as pernas durante os exercícios militares?

Entretanto, é justamente este o papel estúpido que atribuem ao de

mônio, visto ser fato notório que as instruções emanadas do mundo invisí

vel têm regenerado incrédulos e ateus, insuflando-lhes na alma um fervor e

uma crença nunca vistos. Ainda sob influência dessas manifestações têm-se

visto incrédulos e ateus orando a Deus diariamente, o que jamais haviam

feito; pessoas viciosas trabalhando com ardor para se tornarem melhores.

Ora, atribuir ao demônio tão benéfica propaganda e salutar resultado, é

conferir-lhe diploma de tolo. Não se trata aqui de mera suposição, mas de

fato experimental contra o qual não há argumento possível, salvo se con

cluirmos que o demônio é um desastrado de primeira ordem, ou que não é

tão astuto e mau como se pretende e, por conseguinte, tão temível quanto

dizem, já que trabalha contra seus próprios interesses; ou, então, que nem

todas as manifestações partem dele.

8. “Eles apregoam o erro sob todas as formas, e é para obter esse

resultado que a madeira, a pedra, as florestas, as fontes, os santuários dos

ídolos, os pés das mesas e as mãos das crianças se tornam oráculos.”

Sendo assim, que valor terão estas palavras do Evangelho: “Nos úl

timos dias, diz o Senhor, derramarei do meu Espírito sobre toda a carne;

vossos filhos e filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos velhos

sonharão; o meu Espírito será derramado sobre os meus servidores e servi

doras, e eles profetizarão?” (Atos dos Apóstolos, 2:17 e 18.) Não estará

nessas palavras a predição tácita da mediunidade dos nossos dias, conce

dida a todos, mesmo às crianças? Porventura os apóstolos anatematizaram

essa faculdade? Não; eles a apregoam como graça divina, e não como obra

do demônio. Terão os teólogos de hoje mais autoridade que os apóstolos?

Por que não ver antes o dedo de Deus na realização daquelas palavras?

9. “Por meio dessas operações da magia moderna vemos reproduzi

rem-se entre nós as evocações e os oráculos, as consultas aos mortos, as curas

e os sortilégios que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas.”

Que há de comum entre as operações da magia e as evocações es

píritas? Houve tempo em que se podia crer na eficácia de tais operações,

mas hoje elas são ridículas. Ninguém as toma a sério, e o Espiritismo as

condena. Na época em que florescera a magia, era imperfeita a noção que

se tinha sobre a natureza dos Espíritos, geralmente tidos por seres dotados

de poder sobre-humano. Ninguém os evocava senão para obter, mesmo

à custa da própria alma, os favores da sorte e da fortuna, a descoberta de

tesouros, a revelação do futuro ou os filtros.68 A magia com seus sinais, fór

mulas e práticas cabalísticas tinha a fama de fornecer segredos para operar

prodígios, constranger Espíritos a ficarem às ordens dos homens e satisfa

zer-lhes os desejos. Hoje sabemos que os Espíritos são as almas dos mortos

e não os evocamos senão para receber conselhos dos bons, moralizar os

maus e continuar as relações com os seres que nos são caros. Eis o que diz

o Espiritismo a tal respeito:

10. Não há nenhum meio de se obrigar um Espírito a atender a uma

evocação contra a sua vontade, desde que ele seja, do ponto de vista moral,

igual ou superior à pessoa que o evoca, caso em que esta não terá nenhuma

autoridade sobre ele. Porém, se o Espírito lhe for inferior, o evocador pode

consegui-lo, desde que seja para o bem do Espírito evocado, porque, nesse

caso, outros Espíritos o ajudarão. (O livro dos médiuns, Segunda parte, cap.

VINTE E CINCO, item 282, pergunta 10.)

Para as evocações, a mais essencial de todas as disposições é o recolhi

mento, quando se pretende lidar com Espíritos sérios. Com fé e com o desejo

do bem, tem-se mais força para evocar os Espíritos superiores. Elevando sua

alma por alguns instantes de recolhimento, no momento da evocação, o

evocador se identifica com os Espíritos bons e os predispõe a virem. (O livro

dos médiuns, Segunda parte, cap. VINTE E CINCO, item 282, pergunta 12.)

Nenhum objeto, medalha ou talismã tem a propriedade de atrair ou

repelir Espíritos, pois a matéria não exerce qualquer ação sobre eles. Jamais

um Espírito bom aconselhará tais absurdos. A virtude dos talismãs nunca

existiu, a não ser na imaginação das pessoas demasiado crédulas. (O livro

dos médiuns, Segunda parte, cap. VINTE E CINCO, item 282, pergunta 17.)

Não há nenhuma fórmula sacramental para a evocação dos Espíri

tos. Quem quer que pretenda indicar alguma pode ser tachado, sem receio,

de impostor, visto que a forma não tem nenhum valor para os Espíritos.

Contudo, a evocação deve sempre ser feita em nome de Deus. (O livro dos

médiuns, Segunda parte, cap. DEZESSETE, item 203.)

Os Espíritos que marcam encontros em lugares lúgubres e em horas

inconvenientes são Espíritos que se divertem à custa dos que lhes dão ou

vidos. É sempre inútil e quase sempre perigoso ceder a tais sugestões. Inútil

porque nada absolutamente se ganha em ser mistificado; perigoso, não

pelo mal que os Espíritos possam fazer, mas pela influência que isso pode

ter sobre cérebros fracos. (O livro dos médiuns, Segunda parte, cap. VINTE E QUATRO,

item 282, pergunta 18.)

Não há dias nem horas especialmente mais favoráveis às evocações.

Para os Espíritos, isso é completamente indiferente, como tudo o que é

material e seria superstição acreditar-se na influência dos dias e das horas.

Os momentos mais propícios são aqueles em que o evocador possa estar

menos distraído pelas suas ocupações habituais; aqueles em que se ache

mais calmo de corpo e de espírito. (O livro dos médiuns, Segunda parte,

cap. VINTE E CINCO, item 282, pergunta 19.)

A crítica malévola apraz-se em representar as comunicações espí

ritas revestidas das práticas ridículas e supersticiosas da magia e da ne

cromancia. Entretanto, se os que falam do Espiritismo, sem conhecê-lo,

procurassem estudá-lo, poupariam trabalhos de imaginação e alegações

que só servem para demonstrar a sua ignorância e má vontade. Para co

nhecimento das pessoas estranhas à ciência espírita, diremos que não há

horas mais apropriadas, umas que outras, como não há dias nem lugares,

para comunicar com os Espíritos; que não há fórmulas nem palavras sa

cramentais ou cabalísticas para evocá-los; que não há necessidade alguma

de preparo ou iniciação; que é inútil o emprego de qualquer sinal ou obje

to material para atraí-los ou repeli-los, bastando para tanto o pensamento;

e, finalmente, que os médiuns recebem deles as comunicações sem sair

do seu estado normal, tão simples e naturalmente como se tais comuni

cações fossem ditadas por uma pessoa viva. Só o charlatanismo poderia

emprestar às comunicações espíritas formas excêntricas e adicionar-lhes

acessórios ridículos. (O que é o espiritismo, cap. DOIS, item 49.)

Em princípio, o futuro é oculto ao homem e somente em casos raros

e excepcionais Deus permite que seja revelado. Se o homem conhecesse o

futuro negligenciaria o presente e não agiria com a mesma liberdade, por

que seria dominado pela ideia de que, se uma coisa tem que acontecer, não

adianta ocupar-se com ela, ou então tentaria impedir que acontecesse. Deus

não quis que assim fosse, a fim de que cada um concorra para a realização

das coisas, até daquelas a que desejaria opor-se. Deus permite a revelação

quando esse conhecimento prévio deve facilitar a realização de alguma coi

sa, em vez de dificultá-la, induzindo o homem a agir de modo diverso do

que faria, caso não tivesse esse conhecimento. (O livro dos espíritos, Livro TRES,

cap. DEZ, questões 868 a 870.)

Os Espíritos não podem guiar os homens nas descobertas, nem nas

pesquisas científicas. A ciência é obra do gênio. Só deve ser adquirida pelo

trabalho, pois é somente pelo trabalho que o homem se adianta no seu

caminho. Que mérito teria ele, se não lhe bastasse senão interrogar os Es

píritos para tudo saber? A esse preço, qualquer imbecil poderia tornar-se

sábio. O mesmo se dá com as invenções e descobertas industriais.

Quando chega o tempo de uma descoberta, os Espíritos encarre

gados de dirigir sua marcha procuram o homem capaz de levá-la a bom

termo e lhe inspiram as ideias necessárias, mas de maneira a lhe deixarem

todo o mérito, pois é preciso que ele elabore essas ideias e as ponha em

execução. O mesmo se dá com todos os grandes trabalhos da inteligência

humana. Os Espíritos deixam cada homem na sua própria esfera; aquele

que só é capaz de cavar a terra não será feito depositário dos segredos de

Deus; mas sabem tirar da obscuridade aquele que seja capaz de lhes secun

dar os desígnios. Não vos deixeis, pois, arrastar pela curiosidade ou pela

ambição, por um caminho que não corresponda aos fins do Espiritismo e que

vos conduziria às mais ridículas mistificações. (O livro dos médiuns, Segun

da parte, cap. DEZESSEIS, item 294, perguntas 28 e 29.)

Os Espíritos não podem concorrer para a descoberta de tesouros

ocultos. Os superiores não se ocupam com essas coisas; mas os Espíritos

zombeteiros muitas vezes indicam tesouros que não existem, ou se com

prazem em apontá-los num lugar, quando se acham em lugar oposto. Isto

tem a sua utilidade: mostrar que a verdadeira riqueza está no trabalho. Se a

Providência destina tesouros ocultos a alguém, esse os achará naturalmen

te; de outra forma, não. (O livro dos médiuns, Segunda parte, cap. VINTE E SIS,

item 295, pergunta 30.)

Esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos, que são os agen

tes e os meios de ação do mundo invisível, e que constituem uma das forças

e uma das potências da natureza, o Espiritismo nos dá a chave de uma infi

nidade de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio e que,

à falta de explicação, passaram por prodígio nos tempos antigos. Do mes

mo modo que o magnetismo, ele nos revela uma lei, se não desconhecida,

pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, de uma lei que não se

conhecia, embora se conhecessem os seus efeitos, visto que estes sempre se

produziram em todos os tempos, tendo a ignorância da lei gerado a supers

tição. Conhecida essa lei, o maravilhoso desaparece e os fenômenos entram

na ordem das coisas naturais. Eis por que os espíritas, ao fazerem que uma

mesa se mova, ou que os mortos escrevam, não operam maior milagre do

que opera o médico que restitui a vida ao moribundo, ou o físico que faz

cair o raio. Aquele que pretendesse, com o auxílio desta ciência, fazer mi

lagres, ou seria ignorante do assunto, ou trapaceiro. (O livro dos médiuns,

Primeira parte, cap. DOIS, item 15, parágrafo final.)

Certas pessoas fazem uma ideia muito falsa das evocações; algumas

creem que elas consistem em fazer que os mortos saiam do túmulo com

todo o seu aparato lúgubre. Somente nos romances, nos contos fantásticos

de almas do outro mundo e no teatro é que se veem os mortos aparecerem

descarnados, saindo dos sepulcros envoltos em mortalhas e fazendo choca

lhar os ossos. O Espiritismo, que nunca fez milagres, também não produz

esse, pois que jamais fez reviver um corpo morto. Quando o corpo baixa

à sepultura, não sairá mais dela; porém, o ser espiritual, fluídico e inteli

gente aí não permanece com o seu envoltório grosseiro. Separa-se dele no

momento da morte, nada mais havendo de comum entre eles. (O que é o

espiritismo, cap. DOIS, item 48.)

11. Estendemo-nos um tanto sobre estas citações para mostrar que

os princípios do Espiritismo não têm relação alguma com os da magia.

Assim, nada de Espíritos às ordens dos homens; nada de meios para os

constranger; nada de sinais ou fórmulas cabalísticas; nada de descobertas

de tesouros ou processos para enriquecer; nada de milagres ou prodígios,

adivinhações e aparições fantásticas; nada, finalmente, que constitua o ob

jetivo e os elementos essenciais da magia. O Espiritismo não só reprova tais

coisas como demonstra a impossibilidade e ineficácia delas. Não há, pois,

qualquer analogia entre os processos e fins da magia e os do Espiritismo.

Querer confundi-los só pode atestar ignorância ou má-fé; e como os prin

cípios do Espiritismo nada têm de secreto, estando formulados em termos

claros e sem equívoco, tal erro jamais poderia prevalecer.

Quanto às curas, reconhecidas como reais na pastoral precitada, o

exemplo foi mal escolhido para afastar as pessoas das relações com os Espí

ritos. Essas curas constituem outros tantos benefícios que tocam de perto

as pessoas e que todas podem apreciar. Pouca gente estará disposta a re

nunciar a elas, sobretudo depois de haver esgotado outros recursos antes

de recorrer ao diabo. Ora, se o diabo cura, forçoso é confessar que pratica

uma boa ação.

12. “Quais são os agentes secretos de tais fenômenos, os verdadeiros

autores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam desempenhar es

ses papéis indignos, nem se prestariam a todos os caprichos da curiosidade.”

O autor quer falar das manifestações físicas dos Espíritos, no nú

mero das quais existem algumas que são evidentemente pouco dignas de

Espíritos superiores. Nós lhe pediremos, contudo, que substitua o vocábulo

anjo pela expressão Espíritos puros ou Espíritos superiores, pois assim teremos

exatamente o que diz o Espiritismo. Mas não se poderia considerar indignas

dos Espíritos bons uma infinidade de comunicações dadas pela escrita, pela

palavra, pela audição ou por quaisquer outros meios, pois que tais comuni

cações seriam e são dignas dos homens mais eminentes da Terra. O mesmo

se pode dizer quanto às curas, aparições e um sem-número de fatos que os

livros santos citam em profusão como obra de anjos ou de santos. Se, pois,

69 Nota de Allan Kardec: Querendo convencer as pessoas curadas pelos Espíritos de que o foram pelo diabo, grande número delas se desligou radicalmente da Igreja, sem que até então jamais pensassem fazê-lo.

os anjos e os santos produziram outrora fenômenos semelhantes, por que

não os produzirão hoje? Por que os mesmos fatos seriam hoje obra do de

mônio, nas mãos de certas pessoas, enquanto nas mãos de outros são repu

tados santos milagres? Sustentar semelhante tese é renunciar a toda lógica.

O autor da pastoral incorre em erro quando afirma que tais fenô

menos são inexplicáveis. Ao contrário, hoje esses fenômenos são perfeita

mente explicados, tanto que não se consideram mais como maravilhosos e

sobrenaturais. Porém, mesmo que não fossem explicados, atribuí-los hoje

ao diabo seria tão ilógico quanto conferir a este, em outros tempos, as

honras de todos os fenômenos naturais cuja causa então se desconhecia.

Por papéis indignos devemos entender os que visam o mal e o ridículo,

a menos que queiramos qualificar como indigna a obra salutar dos Espíritos

bons, que promovem o bem, encaminhando os homens para Deus, pela vir

tude. Ora, o Espiritismo diz expressamente que os papéis indignos não cabem

aos Espíritos superiores, como se deduz dos seguintes preceitos:

13. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos por sua linguagem: a dos

Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica,

isenta de contradições; nela transpira a sabedoria, a benevolência, a modés

tia e a mais pura moral; é concisa e sem palavras inúteis. Na dos Espíritos

inferiores, ignorantes ou orgulhosos, o vácuo das ideias é quase sempre

preenchido pela abundância de palavras. Todo pensamento evidentemente

falso, toda máxima contrária à sã moral, todo conselho ridículo, toda ex

pressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, toda manifestação

de malevolência, de presunção ou arrogância, são sinais incontestáveis da

inferioridade de um Espírito.

Qual é o homem de boa-fé que poderia ver nestes preceitos um papel

indigno atribuído aos Espíritos elevados? Não apenas o Espiritismo não

confunde os Espíritos, como constata, pela observação dos fatos, que os

Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes, limitado o seu horizon

te e restrita a sua perspicácia, ao passo que a Igreja atribui aos demônios

uma inteligência idêntica à dos anjos. Constata, também, que os Espíritos

inferiores fazem das coisas uma ideia falsa e incompleta, que são incapazes

de resolver certas questões e, por conseguinte, de fazer tudo quanto se

atribui aos demônios.

14. “As almas dos mortos, que Deus proíbe evocar, permanecem

no lugar designado pela sua justiça, e não podem, sem a sua permissão,

colocar-se à disposição dos vivos.”

O Espiritismo diz também que as almas não podem manifestar-se

sem a permissão de Deus. É, contudo, bem mais rigoroso do que a religião

oficial, pois afirma que nenhum Espírito, bom ou mau, pode comunicar--se sem essa permissão, enquanto a Igreja atribui aos demônios o poder de

dispensá-la. Vai ainda mais longe o Espiritismo, ao dizer que os Espíritos,

mesmo com essa permissão, não se põem à disposição dos vivos quando aten

dem ao chamado que lhes é feito.

O Espírito evocado vem voluntariamente ou é constrangido a ma

nifestar-se? — Ele obedece à vontade de Deus, isto é, à lei geral que rege o

universo; julga da utilidade ou inutilidade da sua manifestação. Ainda aí

exerce o livre-arbítrio. O Espírito superior vem sempre que chamado com

um fim útil; não se nega a responder, senão a pessoas pouco sérias ou que

tratam essas coisas como brincadeira. (O livro dos médiuns, Segunda parte,

cap. XXV, item 282, pergunta 8.)

O Espírito evocado pode negar-se a atender ao chamado que lhe é

dirigido? — Perfeitamente. Onde estaria o seu livre-arbítrio, se assim não

fosse? Pensais que todos os seres do universo estão às vossas ordens? Vós

mesmos vos considerais obrigados a responder a todos os que vos pronun

ciam os nomes? Quando digo que o Espírito pode recusar-se, refiro-me ao

pedido do evocador, visto que um Espírito inferior pode ser constrangido

a vir, por um Espírito superior. (O livro dos médiuns, Segunda parte, cap.

VINTE E CINCO, item 282, pergunta 9.)

Os espíritas estão de tal forma convencidos de que não têm nenhum

poder direto sobre os Espíritos, e de nada poderem obter deles sem a

permissão de Deus, que dizem, quando evocam: Rogo a Deus Todo-Poderoso

que permita a um Espírito bom vir comunicar-se comigo; rogo também ao meu

anjo da guarda que me assista e afaste os Espíritos maus. E em se tratando da

evocação de um Espírito determinado: Rogamos a Deus Todo-Poderoso per

mitir que tal Espírito se comunique conosco. (O livro dos médiuns, Segunda

parte, cap. OITO, item 203.)

15. As acusações da Igreja contra a prática das evocações não atin

gem, portanto, o Espiritismo, mas as práticas da magia, com a qual este

nada tem de comum. O Espiritismo condena, tanto quanto a Igreja, as

referidas práticas, ao mesmo tempo que não confere aos Espíritos bons

um papel indigno deles; enfim, nada pergunta ou pretende obter sem a

permissão de Deus.

Certamente pode haver quem abuse das evocações, quem delas faça

um jogo, quem lhes desnature o caráter providencial em proveito de inte

resses pessoais, ou ainda quem, por ignorância, leviandade, orgulho ou am

bição se afaste dos verdadeiros princípios da Doutrina; porém, o verdadeiro

Espiritismo, o Espiritismo sério os condena, tanto quanto a verdadeira re

ligião condena os falsos devotos e os excessos do fanatismo. Portanto, não

é lógico nem racional imputar ao Espiritismo abusos que ele é o primeiro

a condenar, bem como os erros daqueles que não o compreendem. Antes

de formular qualquer acusação, convém saber se é justa. Assim diremos:

a censura da Igreja recai nos charlatães, nos especuladores, nos praticantes

de magia e sortilégio, e com razão. Quando a crítica religiosa ou cética

castiga os abusos e estigmatiza o charlatanismo, não faz mais que realçar

a pureza da sã doutrina, auxiliando-a no expurgo de maus elementos e

facilitando-nos a tarefa. O erro da crítica está em confundir o bem e o mal,

o que muitas vezes sucede pela má-fé de alguns e pela ignorância do maior

número, mas a distinção que uma tal crítica não faz, outros a fazem. Seja

como for, a censura aplicada ao mal, e à qual todo espírita sincero e reto se

associa, essa não prejudica nem afeta a Doutrina Espírita.

16. “Assim, os seres misteriosos que atendem ao primeiro apelo do

herético, do ímpio e do crente, o que importa dizer, da inocência ou do crime,

não são nem enviados de Deus, nem apóstolos da verdade, mas promotores

do erro e agentes do inferno.”

Segundo tais palavras, Deus não permite ao ímpio nem ao criminoso

que os Espíritos bons venham desviá-los do erro para os salvar da perdição

eterna! Só lhes envia os agentes do inferno, para mergulhá-los ainda mais

no lodaçal! E, o que é pior, segundo a Igreja, Deus não envia à inocência

senão seres perversos para seduzi-la! Não se encontraria então, entre os an

jos, essas criaturas privilegiadas de Deus, um ser bastante compassivo que

venha em socorro dessas almas perdidas? Para que servem, pois, as brilhan

tes qualidades de que são dotados? Apenas para seu gozo pessoal? Serão eles

realmente bons, quando, extasiados pelas delícias da contemplação, veem

tantas almas no caminho do inferno sem que procurem desviá-las? Não

será isso a imagem do rico egoísta que, impiedoso na farta opulência, deixa

morrer de fome o mendigo que lhe bate à porta? É muito mais ainda: é o

próprio egoísmo transformado em virtude e colocado aos pés do Criador!

Admirai-vos de que os Espíritos bons socorram o herege e o ímpio,

certamente porque vos esquecestes destas palavras do Cristo: “Não é o

homem sadio que precisa de médico.” Então não tendes um ponto de

vista mais elevado que o dos fariseus daquele tempo? E vós mesmos, acaso

vos recusareis a mostrar o bom caminho ao descrente que vos chamas

se? Pois bem: os Espíritos bons fazem o que faríeis; dirigem-se ao ímpio

para dar-lhe bons conselhos. Oh! em vez de condenardes as comunicações

de além-túmulo, deveríeis, ao contrário, bendizer os desígnios do Senhor,

admirando-lhe a onipotência e a bondade infinitas.

17. Dirão que há anjos da guarda; mas quando não podem insinuar--se pela voz misteriosa da consciência ou da inspiração, por que não empre

garem meios de ação mais diretos e materiais, capazes de ferir os sentidos,

uma vez que tais meios existem? Já que tudo provém de Deus e nada ocorre

sem a sua permissão, podemos admitir que Ele faculte tais meios aos Espí

ritos maus e os recuse aos bons? Nesse caso, é preciso confessar que Deus

dispensa mais poderes ao demônio, para perder os homens, do que aos

anjos da guarda para salvá-los!

Pois bem! o que os anjos da guarda, segundo a Igreja, não podem

fazer, os demônios fazem por eles. Por meio dessas mesmas comunicações,

ditas infernais, eles reconduzem a Deus os que o renegavam e ao bem os

que estavam mergulhados no mal. Esses demônios fazem mais: dão-nos

o estranho espetáculo de milhões de homens acreditando em Deus pela

intercessão da sua potência diabólica, ao passo que a Igreja era impotente

para convertê-los. Homens que jamais oraram, fazem-no hoje com fer

vor, graças às instruções desses demônios! Quantos orgulhosos, egoístas e

devassos se tornaram humildes, caridosos e menos sensuais! E ainda dizem

que isso é obra do demônio! Se assim for, é preciso convir que o demônio

tem prestado a essa gente melhor serviço e guarda que os próprios anjos. É

necessário, porém, formar bem triste opinião do senso humano dos nos

sos tempos, para crer que os homens aceitem cegamente tais ideias. Uma

religião que faz de semelhante doutrina a sua pedra angular, que se declara

minada em suas bases se lhe tirarmos os demônios, o seu inferno, as suas penas

eternas e o seu Deus impiedoso, é uma religião que se suicida.

18. Dizem que Deus enviou o Cristo, seu filho, para salvar os ho

mens, provando assim o seu amor pelas criaturas. Não há dúvida de que

Jesus é o Messias divino enviado aos homens para ensinar-lhes a verdade e

mostrar-lhes o caminho da salvação. Mas contai — e somente após a sua

vinda — quantos não puderam ouvir-lhe a palavra de verdade, quantos

morreram e morrerão sem conhecê-la, e quantos, finalmente, dos que a

conhecem, a põem em prática! Por que então Deus, sempre solícito na

salvação de suas criaturas, não lhes enviaria outros mensageiros que, che

gando a todos os recantos da Terra, entre grandes e pequenos, ignorantes e

sábios, incrédulos e crentes, ensinassem a verdade aos que a desconhecem,

tornando-a compreensível aos que não a compreendem e suprindo, pelo

ensinamento direto e múltiplo, a deficiência na propagação do Evangelho,

de modo a abreviar o advento do reino de Deus? Ora, quando esses men

sageiros, a exemplo de Jesus, chegam em hostes inumeráveis, abrindo os

olhos aos cegos, convertendo os ímpios, curando os enfermos e consolando

os aflitos, que fazeis vós, como o recebeis? Ah! vós os repudiais, repeli o

bem que fazem e clamais que são demônios! Outra não era a linguagem

dos fariseus em relação a Jesus, porque eles também diziam que o Cristo fa

zia o bem pelo poder do diabo. Que lhes respondeu o Mestre? “Reconhecei

a árvore por seu fruto; uma árvore má não pode dar bons frutos.”

Para os fariseus, os frutos produzidos por Jesus eram maus, porque Ele

vinha destruir o abuso e proclamar a liberdade que lhes arruinaria a autori

dade. Se em vez disso Jesus tivesse vindo lisonjear-lhes o orgulho, sancionar

os seus erros e sustentar-lhes o poder, então, sim, Ele seria o esperado Messias

dos judeus. Mas o Cristo era só, pobre e fraco: decretaram-lhe a morte jul

gando extinguir-lhe a palavra; mas a sua palavra sobreviveu-lhe, porque era

divina. Todavia, só lentamente ela se foi propagando pelo mundo, de modo

que, passados dezoito séculos, apenas a décima parte do gênero humano a

conhece, sem falar dos numerosos cismas que rebentaram no seio da cris

tandade. Diante desse quadro, Deus, em sua misericórdia, envia agora os

Espíritos para confirmá-la, completá-la, pô-la ao alcance de todos e difundi--la por toda a Terra. Os Espíritos, contudo, não estão encarnados num só

homem, cuja voz seria limitada: eles são inumeráveis, andam por toda parte

e ninguém os pode deter, sendo esta a razão por que o seu ensino se espalha

com a rapidez do relâmpago. E, porque falam ao coração e à razão, são com

preendidos pelos mais humildes.

19. “Não é indigno de mensageiros celestes” — dizeis — “que suas

instruções sejam transmitidas por meio tão vulgar qual o das mesas falan

tes? Não é ultrajá-los supor que se divertem com frivolidades, deixando

a mansão de luz em que residem para se porem à disposição do primeiro

curioso que aparece?”

Jesus não deixou a morada do Pai para nascer num estábulo? E quem

vos disse que o Espiritismo já atribuiu práticas triviais aos Espíritos superio

res? Não; o Espiritismo afirma justamente o contrário, isto é, que as coisas

vulgares são próprias de Espíritos vulgares. Não obstante, dessas vulgarida

des resulta um benefício, qual o de abalar muitas imaginações, provando a

existência do mundo espiritual e demonstrando que esse mundo era muito

diferente do que se julgava. Era apenas o princípio, e esse princípio era

tão simples como tudo que começa, mas nem por germinar de minúscula

semente a árvore deixa um dia de estender ao longe a sua ramagem.

Quem acreditaria que da misérrima manjedoura de Belém pudesse

sair a palavra que havia de transformar o mundo? Sim! O Cristo é bem

o Messias divino. A sua palavra é bem a palavra da verdade, e a religião

fundada nessa verdade se torna inabalável, desde que siga e pratique os

sublimes ensinamentos que ela contém e não faça do Deus justo e bom,

que nela reconhecemos, um Deus parcial, vingativo e cruel.

É proibido evocar os mortos?

1. A Igreja não nega de modo algum a realidade das manifestações

espíritas. Ao contrário, como vimos nas citações precedentes, ela as ad

mite totalmente, atribuindo-as, no entanto, à exclusiva intervenção dos

demônios. É um erro invocar-se os Evangelhos, como fazem algumas

pessoas, para justificar a sua interdição, visto que os Evangelhos nada

dizem a tal respeito. O supremo argumento que prevalece é a suposta

proibição de Moisés.

Eis em que termos se refere ao assunto a mesma pastoral que citamos

nos capítulos anteriores:

“Não é permitido entreter relações com os Espíritos, seja diretamen

te, seja por intermédio dos que os invocam e interrogam. A lei mosaica

punia com a morte essas práticas detestáveis, em uso entre os gentios. Diz

o Levítico: Não procureis os mágicos, nem desejeis saber coisa alguma dos

adivinhos, a fim de não vos contaminardes com eles. (19:31.) Se um ho

mem ou uma mulher tiver um Espírito de Píton ou de adivinhação, que

sejam punidos com a morte; sejam apedrejados e sobre eles recaia seu san

gue. (20:27.) O Deuteronômio diz: Nunca exista entre vós quem consulte

adivinhos, quem observe sonhos e agouros, quem use de malefícios,

sortilégios, encantamentos, ou consulte o Espírito de Píton, nem quem

pratique a adivinhação ou interrogue os mortos para saber a verdade.

O Senhor abomina todas essas coisas e destruirá, à vossa entrada, as nações

que cometem tais crimes”. (18:10 a 12.)

2. É útil, para melhor compreensão do verdadeiro sentido das pa

lavras de Moisés, reproduzir por completo o texto um tanto abreviado

dessas citações:

“Não vos desvieis do vosso Deus para procurar mágicos, nem con

sulteis os adivinhos, a fim de não vos contaminardes ao dirigir-vos a eles.

Eu sou o Senhor vosso Deus.” (lEvítico, 19:31.) “Sejam punidos de mor

te o homem ou a mulher que tiver Espírito de Píton ou de adivinho. Eles

serão apedrejados e o seu sangue recairá sobre eles.” (lEvítico, 20:27.)

“Quando houverdes entrado na terra que o Senhor vosso Deus vos dará,

tomai cuidado em não imitar as abominações de tais povos. Que não haja

ninguém entre vós que pretenda purificar filho ou filha passando-os pelo

fogo; que consulte os adivinhos ou observem sonhos e augúrios; que use

de malefícios, sortilégios e encantamentos; ou que consulte os que têm o

Espírito de Píton e se propõem adivinhar, interrogando os mortos para

saber a verdade. O Senhor abominará todas essas coisas e exterminará to

dos esses povos, à vossa entrada, por causa dos crimes que têm cometido.”

(dEutEronômio, 18:9 a 12.)

3. Se a lei de Moisés deve ser tão rigorosamente observada neste

ponto, deve sê-lo igualmente em todos os outros. Por que seria ela boa no

tocante às evocações e má em outras de suas partes? É preciso ser conse

quente. Desde que se reconhece que a lei mosaica não está mais de acordo

com a nossa época e costumes em certos casos, não há razão para que tam

bém não o esteja em relação à proibição de que tratamos.

É preciso que se leve em conta os motivos que justificavam essa proi

bição e que hoje não existem mais. O legislador hebreu queria que o seu

povo abandonasse todos os costumes adquiridos no Egito, onde as evoca

ções estavam em uso e facilitavam abusos, como o provam estas palavras

de Isaías: “O Espírito do Egito se aniquilará por si mesmo e eu precipitarei

seu conselho; eles consultarão seus ídolos, seus adivinhos, seus pítons e

seus mágicos”. (19:3.)

Além disso, os israelitas não deviam contrair nenhuma aliança

com as nações estrangeiras. Iam encontrar as mesmas práticas entre esses

povos a que se dirigiam e que deviam combater. Moisés viu-se obrigado,

por razões políticas, a inspirar no povo hebreu aversão a todos os costu

mes que pudessem ter semelhanças e pontos de contato com o inimigo.

Para justificar essa aversão, era preciso que apresentasse tais práticas

como reprovadas pelo próprio Deus, e daí estas palavras: “O Senhor

abomina todas essas coisas e destruirá, à vossa chegada, as nações que

cometem tais crimes”.

4. A proibição de Moisés tinha a sua razão de ser, porque a evocação

dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou pie

dade para com eles, sendo antes um meio de adivinhações, tal como nos

augúrios e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Es

sas práticas, ao que parece, também eram objeto de negócio, e Moisés, por

mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares,

como atestam as seguintes passagens do mesmo profeta:

“Quando vos disserem: Consultai os mágicos e adivinhos que bal

buciam encantamentos, respondei: Cada povo não consulta o seu Deus?

E aos mortos se fala do que compete aos vivos?” (isAíAs, 8:19.) “Sou eu

quem aponta a falsidade dos prodígios mágicos; quem enlouquece os que

se propõem adivinhar; quem transtorna o espírito dos sábios e confunde a

sua ciência vã.” (44:25.)

“Que esses adivinhos, que estudam o céu, contemplam os astros e

contam os meses para fazer predições, dizendo revelar-vos o futuro, ve

nham agora vos salvar. Eles se tornaram como a palha, e o fogo os devorou;

não poderão livrar suas almas do fogo ardente; não restarão das chamas que

soltarem, nem carvões que possam aquecer, nem fogo ao qual se possam

sentar. Eis a que ficarão reduzidas todas essas coisas das quais vos tendes

ocupado com tanto afinco: os traficantes que convosco traficam desde a in

fância foram-se, cada qual para seu lado, sem que um só deles se encontre

que vos tire os vossos males.” (47:13 a 15.)

Nesse livro Isaías dirige-se aos babilônios sob a figura alegórica

da “virgem filha da Babilônia, filha de caldeus”. (Versículo 1.) Diz ele que

os adivinhos não impedirão a ruína da monarquia. No capítulo seguinte

ele se dirige diretamente aos israelitas:

“Vinde aqui vós outros, filhos de uma agoureira, raça de um homem

adúltero e de uma mulher prostituída. — De quem vos rides vós? Contra

quem abristes a boca e mostrastes ferinas línguas? Não sois vós filhos per

versos de bastarda raça — vós que procurais conforto em vossos deuses de

baixo de todas as frontes, sacrificando-lhes os tenros filhinhos nas torrentes,

sob os rochedos sobranceiros? Depositastes a vossa confiança nas pedras da

torrente, espalhastes e bebestes licores em sua honra, oferecestes sacrifícios.

Depois disso, como não se acender a minha indignação?” (57:3 a 6.)

Estas palavras não deixam qualquer equívoco e provam claramente

que nesse tempo as evocações tinham por fim a adivinhação, ao mesmo

tempo que constituíam comércio, associadas às práticas da magia e do

sortilégio, acompanhadas até de sacrifícios humanos. Moisés tinha razão,

portanto, ao proibir tais coisas e afirmar que Deus as abominava. Essas

práticas supersticiosas perpetuaram-se até a Idade Média, mas hoje a ra

zão predomina e o Espiritismo veio mostrar o fim exclusivamente moral,

consolador e religioso das relações de além-túmulo.

Uma vez, porém, que os espíritas “não sacrificam criancinhas nem

fazem libações para honrar deuses”; já que não interrogam astros, mortos e

adivinhos para conhecerem o futuro que Deus, em sua sabedoria, ocultou

aos homens; desde que repudiam traficar com a faculdade de comunicar

com os Espíritos; e considerando-se que não os move a curiosidade nem a

cupidez, mas um sentimento de piedade, um desejo de instruir-se e melho

rar-se, aliviando as almas sofredoras, a proibição de Moisés não se aplica a

eles. Se os que invocam a lei de Moisés contra os espíritas se tivessem dado

ao trabalho de aprofundar o sentido das palavras bíblicas, teriam reconhe

cido que não existe qualquer analogia entre o que se passava entre os he

breus naquela época e os princípios do Espiritismo. Mais ainda: saberiam

que o Espiritismo condena tudo que motivou a interdição de Moisés. Na

verdade, os seus adversários, na ânsia de encontrar argumentos com que

rebatam as novas ideias, nem sequer se dão conta de que tais argumentos

são negativos, por serem completamente falsos.

A lei civil contemporânea pune todos os abusos que Moisés tinha em

vista reprimir. Contudo, se o profeta pronunciou a pena máxima contra

os delinquentes, é que lhe faltavam meios mais brandos para governar um

povo tão indisciplinado, sendo esta a razão por que a pena de morte era

tão utilizada na sua legislação. Aliás, não havia muito a escolher quanto aos

meios de repressão. Sem prisões nem casas de correção no deserto, Moisés

não podia graduar a penalidade como se faz em nossos dias; além disso,

o seu povo não se aterrorizaria com penas puramente disciplinares. Não

têm, pois, razão os que se apoiam na severidade do castigo para provar o

grau de culpabilidade da evocação dos mortos. Conviria, por respeito à lei

de Moisés, manter a pena capital em todos os casos em que ele a aplicava?

Por que, então, reviver com tanta insistência este artigo, silenciando ao

mesmo tempo o princípio do capítulo que proíbe aos sacerdotes a posse de

bens terrenos e partilhar de qualquer herança, porque o Senhor é a sua própria

herança? (dEutEronômio, 18:1 e 2.)

5. Há duas partes distintas na lei de Moisés: a Lei de Deus propria

mente dita, promulgada no monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, apro

priada aos costumes e ao caráter do povo. A primeira é invariável, ao passo

que a segunda se modifica com o tempo, não passando pela cabeça de

ninguém que possamos ser governados pelos mesmos meios por que o fo

ram os judeus no deserto; do mesmo modo, os decretos de Carlos Magno

não podem aplicar-se à França do nosso século. Quem pensaria hoje, por

exemplo, em reviver este artigo da lei mosaica: “Se um boi chifrar um ho

mem ou uma mulher, que venham a morrer em consequência, o boi será

apedrejado até a morte e ninguém deverá comer de sua carne; mas o dono

do boi será julgado inocente”. (Êxodo, 21:28 e seguintes.)

Esse artigo, que nos parece tão absurdo, não tinha, no entanto, outro

objetivo senão o de punir o boi e inocentar o dono, equivalendo simples

mente à confiscação do animal, causa do acidente, para obrigar o proprietá

rio a maior vigilância. A perda do boi era a punição para o seu proprietário,

que devia ser bem sensível para um povo de pastores, a ponto de dispensar

outra qualquer. Entretanto, ninguém devia aproveitar-se dessa perda, razão

por que Moisés proibiu que se comesse a carne do animal. Outros artigos,

porém, prescrevem o caso em que o dono do boi é responsável.

Tudo tinha sua razão de ser na legislação de Moisés, porque tudo

nela estava previsto em seus mínimos detalhes, mas a forma, bem como o

fundo, adaptavam-se às circunstâncias ocasionais. Se Moisés voltasse em

nossos dias para legislar sobre uma nação civilizada da Europa, decerto não

lhe daria um código igual ao dos hebreus.

6. A esta objeção, respondem que todas as leis de Moisés foram ditadas

em nome de Deus, assim como a do Sinai, mas, julgando-as todas de fonte di

vina, por que os mandamentos se limitam ao Decálogo? Qual a razão de ser da

diferença? Se todas emanam de Deus não devem ser igualmente obrigatórias?

E por que não conservam a circuncisão, à qual Jesus se submeteu e não aboliu?

Esquecem que todos os legisladores antigos, para darem mais autoridade às

suas leis, atribuíam a todas uma origem divina. Moisés, mais que nenhum ou

tro, necessitava desse recurso, tendo em vista o caráter do seu povo. Se, apesar

de tudo isso, ele teve dificuldade em se fazer obedecer, que não sucederia se as

leis fossem promulgadas em seu próprio nome!

Não veio Jesus modificar a lei mosaica, fazendo da sua lei o código

dos cristãos? Não disse Ele: “Sabeis o que foi dito aos antigos, tal e tal coisa,

e Eu vos digo tal outra coisa?”. Entretanto, Jesus não proscreveu, antes

sancionou a lei do Sinai, da qual toda a sua doutrina moral é um desdo

bramento. Ora, Jesus nunca se referiu, em parte alguma dos Evangelhos, à

proibição de evocar os mortos, quando este era um assunto bastante grave

para ser omitido nas suas prédicas, principalmente se levarmos em conta

que Ele tratou de outros assuntos secundários.

7. Finalmente, convém saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da

evangélica; em outras palavras, se é mais judia que cristã. Convém também

notar que, de todas as religiões, a judia é justamente a que faz menos opo

sição ao Espiritismo, visto não invocar a lei de Moisés contra as relações

com os mortos, como fazem as seitas cristãs.

8. Outra contradição: se Moisés proibiu evocar o Espírito dos mor

tos, é que estes podiam vir, pois do contrário seria inútil a proibição. Ora,

se os mortos podiam vir naqueles tempos, também o podem hoje, e se são

Espíritos de mortos os que vêm, é que não são exclusivamente demônios.

Aliás, Moisés não fala de modo algum nestes últimos.

É, pois, evidente que não se pode aceitar logicamente a lei de Moisés

nessa circunstância, pelo duplo motivo de que ela não rege o Cristianismo,

nem é apropriada aos costumes da nossa época. Mesmo supondo que ela

tenha toda a autoridade que alguns lhe atribuem, não poderá, como vimos,

aplicar-se ao Espiritismo.

É verdade que Moisés engloba, na sua proibição, a interrogação dos

mortos, porém de modo secundário, como acessório às práticas da feiti

çaria. O próprio vocábulo interrogar, junto aos de adivinho e agoureiro,

prova que entre os hebreus as evocações eram um meio de adivinhar. En

tretanto, os espíritas não evocam os mortos para obter revelações ilícitas,

mas para receber sábios conselhos e proporcionar alívio aos que sofrem.

Certamente, se os hebreus não se tivessem servido das comunicações de

além-túmulo com essa finalidade, Moisés, longe de as proibir, tê-las-ia es

timulado, porque teriam tornado mais dócil e mais obediente o seu povo.

9. Se alguns críticos brincalhões ou mal-intencionados apresentam

as reuniões espíritas como assembleias de feiticeiros e necromantes, e os

médiuns como ledores de sorte; se alguns charlatães associam o nome do

Espiritismo a práticas ridículas que este desaprova, muita gente, em com

pensação, faz justiça e testemunha o caráter essencialmente moral e grave

das reuniões sérias. Além disso, a Doutrina, exposta em livros ao alcance

de todos, protesta bem alto contra os abusos de todos os gêneros, para que

a calúnia recaia sobre quem merece.

10. Dizem que a evocação é uma falta de respeito pelos mortos, cujas

cinzas não devem ser perturbadas. Mas quem é que diz isso? São os anta

gonistas de dois campos opostos, que se dão as mãos, isto é, os incrédulos,

que não creem nas almas, e os crentes, que pretendem que só os demônios, e

não as almas, é que podem vir.

Quando a evocação é feita religiosamente e com recolhimento;

quando os Espíritos são chamados, não por curiosidade, mas por um

sentimento de afeição e simpatia, com desejo sincero de instrução e pro

gresso, não vemos nada que denote falta de respeito em apelar-se para

as pessoas mortas, como se fazia quando estavam entre nós. Há, porém,

outra resposta categórica a essa objeção: é que os Espíritos se apresentam

espontaneamente, sem constrangimento, muitas vezes mesmo sem que

sejam chamados. Eles também dão testemunho da satisfação que expe

rimentam por comunicar-se com os homens, e se queixam às vezes do

esquecimento a que são relegados. Se os Espíritos se perturbassem ou se

agastassem com os nossos chamados, certamente o diriam ou não aten

deriam ao chamado. Já que são livres, quando se manifestam, é porque

isso lhes convém.

11. Alegam ainda outra razão: “As almas permanecem na morada

que a Justiça divina lhes assinala, o que significa dizer no inferno ou no

paraíso”. Assim, as que estão no inferno, de lá não podem sair, embora

tal prerrogativa seja concedida aos demônios. As do paraíso, inteiramente

entregues à sua beatitude, estão muito superiores aos mortais para deles

se ocuparem e são bastante felizes para não voltarem a esta terra de misé

rias, no interesse de parentes e amigos que aqui deixaram. Tais almas se

assemelham a certos milionários que, não querendo perturbar a digestão,

desviam a vista dos pobres. Mas se fosse assim elas se mostrariam pouco

dignas da felicidade suprema, que seria, por sua vez, o prêmio do egoísmo!

Restam ainda as almas do purgatório. Estas, porém, sofredoras como

devem ser, devem cuidar, antes de qualquer outra coisa, da própria salva

ção. Deste modo, não podendo nem as almas do céu, nem as do inferno,

nem as do purgatório corresponder ao nosso apelo, somente o diabo se

apresenta em seu lugar. Ora, se as almas não podem vir, não há de que

temer pela perturbação do seu repouso.

12. Mas aqui se apresenta outra dificuldade. Se as almas bem-aven

turadas não podem deixar a mansão gloriosa para socorrer os mortais, por

que a Igreja invoca a assistência dos santos, que devem gozar ainda de maior

soma de beatitude? Por que aconselha aos fiéis invocá-los em casos de mo

léstia, de aflição, de flagelos? Por que razão e segundo essa mesma Igreja os

santos aparecem aos homens e fazem milagres? Se estes podem deixar o céu

para baixar à Terra, por que os Espíritos menos elevados não o podem fazer?

13. Até se compreende que os incrédulos neguem a manifestação

das almas, visto que não acreditam nelas. Todavia, o que mais se estra

nha é ver obstinar-se contra os meios de provar a sua existência, esforçando-se

por demonstrar a impossibilidade desses meios, aqueles mesmos cujas crenças

repousam na existência e no futuro das almas! Parece que seria mais natu

ral, ao contrário, acolherem com alegria e como benefício da Providência

os meios de confundir os céticos com provas irrecusáveis, pois que são os

negadores da própria religião. Os que têm interesse na existência da alma

deploram constantemente a invasão da incredulidade que dizima o reba

nho de fiéis; entretanto, quando se lhes apresenta o meio mais poderoso

de combatê-la, recusam-no com tanta ou mais tenacidade que os próprios

incrédulos. Depois, quando as provas avultam de modo a não deixar dú

vidas, eis que procuram como recurso de supremo argumento a interdi

ção do assunto, buscando, para justificá-la, um artigo da lei mosaica, do

qual até então ninguém pensara, emprestando-lhe, à força, um sentido e

aplicação inexistentes. E tão felizes se julgam com a descoberta, que não

percebem que esse artigo é ainda uma justificativa da Doutrina Espírita.

14. Todas as razões alegadas para condenar as relações com os Espí

ritos não resistem a um exame sério. Pelo ardor com que se combate essas

relações é fácil deduzir o grande interesse ligado ao assunto. Daí a insistên

cia. Ao ver esta cruzada de todos os cultos contra as manifestações espíritas,

dir-se-ia que estão com medo delas. O verdadeiro motivo bem poderia ser o

receio de que os Espíritos muito esclarecidos viessem instruir os homens

sobre pontos que se pretende deixar na sombra, dando-lhes conhecimento,

ao mesmo tempo, da certeza de um outro mundo, bem como das verda

deiras condições para neles serem felizes ou infelizes. A mesma razão que leva

alguém a dizer a uma criança: “Não vá lá, que há lobisomens”, leva outra

pessoa a dizer ao homem: “Não chameis os Espíritos; são o diabo”. Entre

tanto, por mais que façam, proibindo os homens de evocar os Espíritos,

jamais impedirão que estes venham aos homens para levantar a lâmpada de

sob o alqueire. Ora, o culto que estiver com a verdade nada terá que temer

da luz, pois a luz faz brilhar a verdade e o demônio não pode prevalecer

contra a verdade.

15. Repelir as comunicações de além-túmulo é rejeitar o meio mais

poderoso de instruir-se, seja pela iniciação nos conhecimentos da vida fu

tura, seja pelos exemplos que tais comunicações nos fornecem. A experiên

cia nos ensina, além disso, o bem que podemos fazer, desviando do mal os

Espíritos imperfeitos, ajudando os que sofrem a se desprenderem da matéria

e a se aperfeiçoarem. Interdizer as comunicações é, portanto, privar as almas

sofredoras da assistência que lhes podemos e devemos dispensar. As seguin

tes palavras de um Espírito resumem admiravelmente as consequências da

evocação, quando praticada com fim caritativo:

“Todo Espírito sofredor e angustiado vos contará a causa da sua

queda, os arrastamentos a que sucumbiu; falará sobre as suas esperanças,

combates, terrores, remorsos, dores e desesperos; mostrará Deus justa

mente irritado a punir o culpado com toda a severidade da sua justiça. Ao

ouvi-lo, sereis movidos de compaixão por ele e de temor por vós mesmos.

E se o seguirdes nos seus queixumes, vereis então que Deus jamais o perde

de vista, esperando o pecador arrependido e estendendo-lhe os braços

logo que procure regenerar-se. Vereis os progressos do culpado, para os

quais tereis a felicidade e a glória de contribuir, com a solicitude e o ca

rinho do cirurgião acompanhando a cicatrização da ferida que ele cuida

diariamente.” (Bordeaux, 1861.)

A passagem

1. A confiança na vida futura não exclui os temores quanto à pas

sagem desta para a outra vida. Muitas pessoas não temem a morte em si

mesma, mas o momento da transição. Sofre-se ou não nessa passagem? É

por isso que se inquietam, e com razão, visto que ninguém foge à lei fatal

dessa transição. Podemos dispensar-nos de uma viagem neste mundo, me

nos essa. Ricos e pobres, todos devem fazê-la, e, por mais dolorosa que seja,

nem posição nem fortuna poderiam suavizá-la.

2. Vendo-se a calma de alguns moribundos e a agonia e as con

vulsões terríveis de outros, pode-se previamente julgar que as sensações

experimentadas nem sempre são as mesmas. Quem, no entanto, poderá

esclarecer-nos a tal respeito? Quem nos descreverá o fenômeno fisiológico

da separação entre a alma e o corpo? Quem nos contará as impressões des

se instante supremo, quando a Ciência e a Religião se calam? E se calam

porque lhes falta o conhecimento das leis que regem as relações do Espíri

to com a matéria. Uma se detém no limiar da vida espiritual e a outra nos

limites da vida material. O Espiritismo é o traço de união entre as duas,

e só ele pode dizer-nos como se opera a transição, quer pelas noções mais

positivas que ele nos oferece da natureza da alma, quer pela descrição dos

que deixaram este mundo. O conhecimento do laço fluídico que une a

alma ao corpo é a chave desse e de muitos outros fenômenos.

3. A insensibilidade da matéria inerte é um fato, e só a alma expe

rimenta sensações de dor e prazer. Durante a vida, toda desagregação da

matéria repercute na alma, que por este motivo recebe uma impressão mais

ou menos dolorosa. É a alma quem sofre, e não o corpo; este não passa de

um instrumento da dor: a alma é o paciente. Após a morte, estando a alma

separada do corpo, este pode ser impunemente mutilado que nada sentirá.

Em compensação a alma, quando isolada do corpo, nada experimentará da

destruição orgânica deste último. A alma tem sensações próprias cuja fonte

não reside na matéria tangível. O perispírito é o envoltório fluídico da alma

e não se separa dela nem antes nem depois da morte. Ele não forma com

ela mais que uma só entidade, de modo que não se pode conceber uma sem

o outro. Durante a vida, o fluido perispirítico penetra o corpo em todas as

suas partes e serve de veículo às sensações físicas da alma. É também por

seu intermédio que a alma atua sobre o corpo e lhe dirige os movimentos.

4. A extinção da vida orgânica resulta na separação da alma em

consequência da ruptura do laço fluídico que a une ao corpo. Essa sepa

ração, contudo, nunca é brusca; o fluido perispirítico só pouco a pouco

se desprende de todos os órgãos, de sorte que a separação só é completa

e absoluta quando não reste mais nem um átomo do perispírito ligado à

molécula do corpo. A sensação dolorosa que a alma experimenta no momento

da morte é diretamente proporcional à soma dos pontos de contato existentes

entre o corpo e o perispírito e, por conseguinte, também à maior ou menor di

ficuldade que apresenta o rompimento. Assim, não há razão para dissimular

que, conforme as circunstâncias, a morte pode ser mais ou menos penosa.

São essas diferentes circunstâncias que nos cumpre examinar.

5. Estabeleçamos em primeiro lugar, e como princípio, os quatro

seguintes casos, que podemos considerar como situações extremas, dentro

de cujos limites há uma infinidade de variantes:

1o) Se no momento em que se extingue a vida orgânica o desprendi

mento do perispírito fosse completo, a alma não sentiria absolutamente nada.

2o) Se nesse momento a coesão dos dois elementos estiver no auge

de sua força, produz-se uma espécie de ruptura que reage dolorosamente

sobre a alma.

3o) Se a coesão for fraca, a separação torna-se fácil e opera-se sem abalo.

4o) Se após a cessação completa da vida orgânica existirem ainda

numerosos pontos de contato entre o corpo e o perispírito, a alma poderá

ressentir-se dos efeitos da decomposição do corpo até que esse laço se

desfaça inteiramente.

Daí resulta que o sofrimento que acompanha a morte está subordi

nado à força adesiva que une o corpo ao perispírito; que tudo o que puder

atenuar essa força e acelerar a rapidez do desprendimento, torna a passagem

menos penosa; e, finalmente, que se o desprendimento se operar sem difi

culdade, a alma não experimentará nenhuma sensação desagradável.

6. Na passagem da vida corpórea para a espiritual produz-se ain

da um outro fenômeno de importância capital — a perturbação. Nesse

instante a alma experimenta um torpor que paralisa momentaneamente

as suas faculdades, neutralizando, ao menos em parte, as sensações. É

como se estivesse num estado de catalepsia, de modo que a alma quase

nunca testemunha conscientemente o derradeiro suspiro. Dizemos quase

nunca porque há casos em que a alma pode contemplar conscientemente

o desprendimento, como em breve veremos. A perturbação pode, pois,

ser considerada o estado normal no instante da morte; sua duração é in

determinada, variando de algumas horas a alguns anos. À proporção que

se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável à de um homem

que desperta de profundo sono; as ideias são confusas, vagas, incertas; vê

como que através de um nevoeiro, aclarando-se a vista pouco a pouco e

lhe despertando a memória e o conhecimento de si mesma. Esse despertar,

contudo, é bem diverso, conforme os indivíduos; nuns é calmo e cheio de

sensações deliciosas; noutros é repleto de terrores e de ansiedades, qual se

fora horrível pesadelo.

7. O último suspiro quase nunca é doloroso, porque, ordinaria

mente, ocorre em momento de inconsciência, mas a alma sofre antes

dele a desagregação da matéria, durante as convulsões da agonia e, de

pois, as angústias da perturbação. É bom destacar logo que esse estado

não é geral, porquanto, como já dissemos, a intensidade e duração do

sofrimento estão na razão direta da afinidade existente entre corpo e pe

rispírito. Assim, quanto maior for essa afinidade, tanto mais penosos e

prolongados serão os esforços da alma para desprender-se. Há pessoas

nas quais a coesão é tão fraca que o desprendimento se opera por si mes

mo, com a maior naturalidade. O Espírito se separa do corpo como um

fruto maduro que se desprende do seu caule. É o caso das mortes calmas

e de despertar pacífico.

8. O estado moral da alma é a causa principal da maior ou menor

facilidade de desprendimento. A afinidade entre o corpo e o perispírito é

proporcional ao apego à matéria, atingindo o seu máximo no homem cujas

preocupações se concentram exclusivamente na vida terrena e nos gozos

materiais. Tal afinidade é quase nula naqueles cujas almas, já depuradas,

identificam-se por antecipação com a vida espiritual. E uma vez que a len

tidão e a dificuldade do desprendimento estão na razão do grau de pureza

e desmaterialização da alma, depende de cada um de nós tornar fácil ou

penoso, agradável ou doloroso, esse desprendimento.

Estabelecido isto, quer como teoria, quer como resultado de obser

vações, resta-nos examinar a influência do gênero de morte sobre as sensa

ções da alma no último momento de sua vida na Terra.

9. Na morte natural — a que resulta da extinção das forças vitais por

velhice ou doença — o desprendimento opera-se gradualmente. Para o

homem cuja alma se desmaterializou e cujos pensamentos se elevam acima

das coisas terrenas, o desprendimento quase se completa antes da morte

real, isto é, enquanto o corpo ainda tem vida orgânica, o Espírito já penetra

a vida espiritual, apenas ligado por elo tão frágil que se rompe com a última

pancada do coração. Nesta situação o Espírito pode já ter recuperado a sua

lucidez, de forma a tornar-se testemunha consciente da extinção da vida

do corpo, do qual se sente feliz por tê-lo deixado. Para esse a perturbação

é quase nula, ou antes, não passa de ligeiro sono calmo, do qual desperta

com indizível impressão de esperança e felicidade.

No homem material e sensual, que mais viveu para o corpo do que

para as coisas espirituais, para quem a vida espiritual nada representa e nem

sequer lhe toca o pensamento, tudo contribui para estreitar os laços mate

riais e, quando a morte se aproxima, o desprendimento, embora se opere

gradualmente, demanda contínuos esforços. As convulsões da agonia são

indícios da luta do Espírito, que às vezes procura romper os elos resistentes,

e de outras se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arrebata com

violência, molécula por molécula.

10. Quanto menos o Espírito divisa além da vida corpórea, tanto

mais se apega a ela; sente que a vida lhe escapa e quer retê-la a todo custo;

em vez de se abandonar ao movimento que o empolga, resiste com todas as

forças e pode mesmo prolongar a luta por dias, semanas e meses inteiros. É

claro que, nesse momento, o Espírito não goza de toda a lucidez, visto que

a perturbação se antecipou bastante à morte; mas nem por isso sofre menos,

e o vácuo em que se acha, bem como a incerteza do que lhe sucederá, agra

vam-lhe as angústias. Quando a morte chega, nem tudo está terminado; a

perturbação continua, ele sente que vive, mas não define se material, se espi

ritualmente; luta ainda, até que as últimas ligações do perispírito se tenham

completamente rompido. A morte pôs termo à moléstia efetiva, porém, não

lhe sustou as consequências e, enquanto existirem pontos de contato entre o

corpo e o perispírito, o Espírito ressente-se e sofre com as suas impressões.

11. Bem diferente é a situação do Espírito desmaterializado, mesmo

nas enfermidades mais cruéis. Os laços fluídicos que o prendem ao corpo,

por serem muito frágeis, rompem-se suavemente; depois, a confiança do

futuro entrevisto em pensamento ou na realidade, como sucede algumas

vezes, faz que ele encare a morte como uma libertação e os seus males como

prova, advindo-lhe daí uma calma moral e uma resignação que lhe ameni

zam o sofrimento. Após a morte, rotos os laços, nenhuma reação dolorosa

o afeta; sente-se livre ao despertar, disposto, aliviado de um grande peso e

muito feliz por não sofrer mais.

12. Na morte violenta as condições não são exatamente as mes

mas. Como não houve nenhuma desagregação parcial capaz de levar a

uma separação antecipada entre o corpo e o perispírito, a vida orgânica

é subitamente aniquilada no auge da sua exuberância. Nestas condições,

o desprendimento só começa depois da morte e não pode completar-se

rapidamente. O Espírito, colhido de improviso, fica como que aturdido;

sente, pensa e acredita-se vivo, prolongando-se esta ilusão até que com

preenda a sua posição. Este estado intermediário entre a vida corpórea e a

espiritual é um dos mais interessantes para ser estudado, porque apresenta

o espetáculo singular de um Espírito, que julga material o seu corpo fluídi

co, experimentando ao mesmo tempo todas as sensações da vida orgânica.

Esse caso também oferece uma série infinita de modalidades que variam

segundo os conhecimentos e progressos morais do Espírito. Para aqueles

cuja alma está depurada, a situação dura pouco, porque neles já havia um

desprendimento antecipado, cujo termo a morte mais súbita não fez mais

que apressar. Em outros, a situação se prolonga por anos inteiros. Tal situa

ção é muito frequente, mesmo nos casos de morte comum que, nada tendo

de penosa para Espíritos adiantados, se torna horrível para os atrasados. É

principalmente nos casos de suicídio que essa situação é mais aflitiva. Preso

ao corpo por todas as suas fibras, o perispírito faz repercutir na alma todas

as sensações daquele, com atrozes sofrimentos.

13. O estado do Espírito por ocasião da morte pode resumir-se as

sim: o sofrimento é tanto maior, quanto mais lento for o desprendimen

to do perispírito; a rapidez desse desprendimento está na razão direta do

adiantamento moral do Espírito; para o Espírito desmaterializado, de cons

ciência pura, a morte é um sono de alguns instantes, isento de todo sofri

mento, cujo despertar é suavíssimo.

14. Para que alguém possa trabalhar pela sua depuração, reprimir

as más tendências, dominar as paixões, é preciso que renuncie às vanta

gens imediatas em prol do futuro, visto como, para identificar-se com a

vida espiritual, encaminhando para ela todas as aspirações e preferi-la

à vida terrena, não basta crer, mas compreender. É preciso considerá-la

também sob um ponto de vista que satisfaça ao mesmo tempo à razão,

à lógica, ao bom senso e à ideia que fazemos da grandeza, da bondade e

da Justiça de Deus. Sob esse aspecto o Espiritismo, pela fé inabalável que

proporciona, é, dentre todas as doutrinas filosóficas, a que exerce a mais

poderosa influência.

O espírita sério não se limita a crer, porque compreende, e compreende

porque raciocina. A vida futura é uma realidade que se desdobra incessan

temente a seus olhos, realidade que ele toca e vê, por assim dizer, a cada

passo, de modo que a dúvida não tem guarida na sua alma. A vida corpó

rea, tão limitada, se apaga diante da vida espiritual, que é a verdadeira vida.

Daí a pouca importância que atribui aos incidentes da jornada e a resig

nação nas vicissitudes que enfrenta, cujas causas e utilidade compreende

perfeitamente. Sua alma se eleva pelas relações que mantém com o mundo

invisível; os laços fluídicos que o ligam à matéria enfraquecem-se, operan

do-se por antecipação um desprendimento parcial que facilita a passagem

para a outra vida. A perturbação, inseparável da transição, é de curta du

ração, porque, uma vez franqueado o passo, ele logo se reconhece, nada

estranhando e se dando conta imediatamente da nova situação em que se

encontra.

15. O Espiritismo, certamente, não é indispensável para que se che

gue a esse resultado; por isso não tem a pretensão de ser o meio exclusivo,

a garantia única de salvação para as almas. Contudo, pelos conhecimentos

que fornece, pelos sentimentos que inspira e pelas condições em que co

loca o Espírito, fazendo-lhe compreender a necessidade de melhorar-se,

facilita enormemente a salvação. Além disso, ele dá a cada um os meios de

auxiliar o desprendimento dos outros Espíritos no momento de deixarem o

envoltório material, abreviando-lhes a duração da perturbação pela evo

cação e pela prece. Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual,

provoca-se a desagregação mais rápida do fluido perispirítico; pela evoca

ção conduzida com sabedoria e prudência, com palavras de benevolência

e de estímulo, combate-se o entorpecimento do Espírito, ajudando-o a

reconhecer-se mais cedo e, se é sofredor, incutindo-lhe o arrependimento,

que é o único meio de abreviar os seus sofrimentos.

Espíritos felizes

• Sanson • Jobard • Samuel Philippe • Van Durst • Sixdeniers • Dr.

Demeure • Viúva Foulon (Wollis, quando solteira) • Um

médico russo • Bernardin • Condessa Paula • Jean

Reynaud • Antoine Costeau • Emma Livry • Dr. Vignal • Victor

Lebufle • Anaïs Gourdon • Maurice Gontran

Sanson

Antigo membro da Sociedade Espírita de Paris, o Sr. Sanson fa

leceu a 21 de abril de 1862, depois de um ano de cruéis sofrimentos.

Prevendo a morte, havia dirigido ao presidente da Sociedade uma carta

com a seguinte passagem:

“Caso minha alma se separe do corpo de um momento para outro,

venho reiterar-vos um pedido que vos fiz há cerca de um ano, no sentido

de evocardes o meu Espírito o mais breve possível e sempre que julgardes

conveniente, a fim de poder, como membro bastante inútil da nossa So

ciedade, prestar-lhe para alguma coisa depois de morto, esclarecendo fase

por fase as circunstâncias decorrentes do que o vulgo chama morte, e que

para nós outros, os espíritas, não passa de uma transformação, segundo os

desígnios insondáveis de Deus, mas sempre útil ao fim que Ele se propõe.

Além deste pedido, que é uma autorização para me honrardes com essa

autópsia espiritual, talvez de pouca utilidade em razão do meu quase nulo

adiantamento, e que a vossa sabedoria não consentirá ir além de um certo

número de ensaios, ouso pedir pessoalmente a vós, bem como a todos os

colegas, que supliquem ao Todo-Poderoso a assistência dos Espíritos bons,

com os seus conselhos benevolentes, e a São Luís, nosso presidente espiri

tual, em particular, que me guie na escolha e sobre a época de uma nova

encarnação, ideia que há muito tempo me preocupa. Temo confiar demais

nas minhas forças espirituais, rogando a Deus, muito cedo e presunço

samente, um estado corpóreo no qual eu não possa justificar a Bondade

divina, e que, em vez de servir ao meu adiantamento, prolongue a minha

estação na Terra ou em qualquer outra parte, caso venha a fracassar.”

Para satisfazer-lhe o desejo, evocando-o o mais breve possível após a

morte, dirigimo-nos com alguns membros da Sociedade à câmara mortuária,

onde, em presença do seu corpo, se passou o seguinte colóquio, uma hora

antes do respectivo enterro. O nosso objetivo era duplo: íamos cumprir

a última vontade do morto e observar, ainda uma vez, a situação de uma

alma em momento tão imediato à morte, sem falar que se tratava de um

homem eminentemente esclarecido, inteligente e profundamente convicto

das verdades espíritas. Íamos, enfim, constatar a influência de tais crenças

sobre o estado do Espírito, de modo a captarmos suas primeiras impressões.

E não nos iludimos na expectativa, porquanto o Sr. Sanson descreveu com

perfeita lucidez o instante da transição, vendo-se morrer e renascer, o que

é uma circunstância pouco comum e só devida à elevação do seu Espírito.

(Câmara mortuária, 23 de abril de 1862.)

1. EvocAção – Atendo ao vosso chamado para cumprir a minha

promessa.

2. Meu caro Sr. Sanson, cumprimos com satisfação o dever de vos evocar

o mais cedo possível depois da vossa morte, como era do vosso desejo. – R. É

uma graça especial que Deus me concede para que possa manifestar-me;

agradeço a vossa boa vontade, mas estou fraco e trêmulo.

3. Fostes tão sofredor que podemos, penso eu, perguntar como vos achais

agora. Sentis ainda as vossas dores? Comparando a situação de hoje com a de dois

dias atrás, que sensações experimentais? – R. A minha situação é bem afortu

nada, pois nada mais sinto das antigas dores. Acho-me regenerado, renova

do, como se diz entre vós. A passagem da vida terrena para a dos Espíritos

deixou-me a princípio num estado incompreensível, porque, algumas vezes,

ficamos privados de lucidez por muitos dias. No entanto, antes de morrer,

pedi a Deus para permitir-me falar aos que estimo, e Deus me ouviu.

4. Ao fim de quanto tempo recobrastes a lucidez das ideias? – R. Ao fim de

oito horas. Deus, repito, deu-me uma prova de sua bondade, julgando-me

mais digno do que eu o merecia, de modo que não sei como lhe agradecer.

5. Estais bem certo de não pertencerdes mais ao nosso mundo? Em caso

afirmativo, como constatais a vossa situação? – R. Oh! certamente, eu não

sou mais desse mundo, porém estarei sempre ao vosso lado para vos pro

teger e sustentar, a fim de pregardes a caridade e a abnegação, que foram

os guias da minha vida. Depois, ensinarei a verdadeira fé, a fé espírita,

que deve elevar a crença do bom e do justo; estou forte, bastante forte,

transformado, em suma. Em mim não reconhecereis mais o velho enfermo

que tudo devia esquecer, fugindo de todo prazer e alegria. Sou Espírito e a

minha pátria é o Espaço, o meu futuro é Deus, que irradia na imensidade.

Gostaria de falar a meus filhos, ensinar aquilo mesmo que sempre desde

nharam acreditar.

6. Que efeito vos causa a visão do vosso corpo aqui ao lado? – R. Meu

corpo! pobre e mísero despojo... deves voltar ao pó, enquanto eu guardo

a lembrança de todos os que me estimaram. Vejo essa pobre carne de

formada, habitação do meu Espírito, provação de tantos anos! Obrigado,

meu pobre corpo! depuraste o meu Espírito! O meu sofrimento, dez vezes

bendito, deu-me um lugar bem merecido, visto que tão depressa posso

comunicar-me convosco.

7. Conservastes as ideias até o último instante? – R. Sim. O meu

Espírito conservou as suas faculdades; embora não visse, eu pressentia.

Toda a minha existência se desdobrou na memória e o meu último pen

samento, a última prece, foi para que pudesse comunicar-me convosco,

como o faço agora; em seguida pedi a Deus que vos protegesse, a fim de

que o sonho da minha vida fosse realizado.

8. Tivestes consciência do momento em que o corpo exalou o último sus

piro? Que se passou convosco nesse momento? – R. A vida se parte e a vista, ou

melhor, a vista do Espírito se extingue; encontra-se o vácuo, o desconhecido,

e arrastada por não sei que poder, a gente se encontra num mundo de ale

gria e grandeza! Eu não sentia mais, nada compreendia e, no entanto, uma

felicidade inefável enchia todo o meu ser; estava livre da opressão e da dor.

9. Tendes ciência... do que pretendo ler sobre o vosso túmulo?

Apenas pronunciadas as primeiras palavras sobre o assunto, o Espírito respondeu

antes que eu terminasse. E fez mais: respondeu, sem interrogação alguma, a certa

controvérsia suscitada entre os assistentes, sobre se seria oportuno ler esta comuni

cação no cemitério, achando-se presentes pessoas que poderiam não compartilhar

das nossas opiniões. – R. Oh! sim, meu amigo; e sei, porque tanto vos via ontem como

hoje; minha satisfação é grande!... Obrigado! obrigado! Falai para que me

compreendam e vos estimem; nada tendes a temer, pois que se respeita a

morte... falai, pois, para que os incrédulos tenham fé. Adeus; falai; cora

gem e confiança... e tomara que meus filhos possam converter-se a uma

crença tão venerada!

J. Sanson

Durante a cerimônia do cemitério, ele ditou as palavras seguintes:

“Não vos deixeis atemorizar pela morte, meus amigos: ela é uma etapa da

vida, se bem souberdes viver; é uma felicidade, se bem a merecerdes e me

lhor cumprirdes as vossas provações. Repito: coragem e boa vontade! Não

deis aos bens terrenos mais que medíocre valor, e sereis recompensados.

Não se pode gozar muito, sem tirar o bem-estar dos outros e sem fazer moral

mente um grande, um imenso mal. Que a terra me seja leve!”

(Sociedade Espírita de Paris, 25 de abril de 1862.)

1. EvocAção – R. Estou perto de vós, meus amigos.

2. Ficamos muito felizes pela entrevista que tivemos no dia do vosso

enterro e, já que o permitis, ficaremos ainda mais felizes em completá-la

para nossa instrução. – R. Estou pronto, e sinto-me feliz por pensardes

em mim.

3. Tudo quanto possa esclarecer-nos sobre as condições do mundo

invisível e nos leve a compreendê-lo, será para nós da mais alta importân

cia, visto que é a ideia falsa que se faz do mundo invisível que, na maio

ria das vezes, conduz à incredulidade. Não vos surpreendam, portanto,

as perguntas que porventura vos fizermos. – R. Não me surpreenderei e

espero as vossas perguntas.

4. Descrevestes com luminosa clareza a passagem para a outra vida;

dissestes que, no momento de o corpo exalar o último suspiro, a vida se parte e

a vista se extingue. Esse momento é seguido de alguma sensação penosa, doloro

sa? – R. Sem dúvida que sim, pois a vida não passa de uma série contínua

de dores, sendo a morte o seu complemento. Daí uma ruptura violenta,

como se o Espírito tivesse de fazer um esforço sobre-humano para escapar--se do seu envoltório, esforço que absorve todo o ser, fazendo-lhe perder o

conhecimento do seu destino.

Esta regra não se aplica a todos os casos, pois a experiência tem provado que mui

tos Espíritos perdem a consciência antes de expirar, e que o desprendimento se

opera sem esforço nos que atingiram certo grau de desmaterialização.

5. Sabeis se há Espíritos para os quais o momento extremo seja mais do

loroso? Será mais doloroso para o materialista, por exemplo, isto é, para aquele

que acredita que tudo se acaba para ele? – R. Sem dúvida, porque o Espírito

preparado já esqueceu, ou melhor, já se habituou com ele e a calma com

que encara a morte o impede de sofrer duplamente, porque sabe o que o

aguarda. O sofrimento moral é mais forte e a sua ausência, por ocasião da

morte, constitui por si um grande alívio. Aquele que não crê assemelha-se

ao condenado à pena de morte, cujo pensamento só divisa o cutelo e o

desconhecido. Há similitude entre essa morte e a do ateu.

6. Haverá materialistas bastante endurecidos para acreditarem seria

mente, nesse momento supremo, que vão ser mergulhados no nada? – R. Sim,

eles acreditam no nada até a última hora, porém, no momento da separa

ção, o Espírito recua, a dúvida o empolga e tortura; pergunta-se a si mesmo

o que vai ser, quer captar alguma coisa e não consegue. O desprendimento

não pode completar-se sem esta impressão.

Em outra ocasião, um Espírito nos fez a seguinte descrição da morte de um in

crédulo: “O incrédulo endurecido experimenta nos últimos instantes as angústias

desses pesadelos terríveis em que se vê à beira de um abismo, prestes a precipitar--se nele; quer fugir e não pode; procura agarrar-se a qualquer coisa, mas não

encontra apoio e sente deslizar para as profundezas; quer clamar, gritar e nem

sequer um som conseguem articular; é então que os vemos a se contorcerem,

crisparem as mãos, darem gritos sufocados, sintomas certos do pesadelo de que

são vítimas. No pesadelo ordinário, do sonho, o despertar vos tira a inquietação e

vos sentis aliviados pela compreensão de que sonháveis; mas o pesadelo da morte

muitas vezes se prolonga por longo tempo, por anos mesmo, e o que torna a sen

sação ainda mais penosa para o Espírito são as trevas em que se encontra imerso.”

7. Dissestes que no momento de expirar nada víeis, porém pressentíeis.

Compreende-se que nada vísseis corporalmente, mas antes que a vida se extin

guisse já não entrevíeis as claridades do mundo espiritual? – R. Foi o que eu

disse precedentemente: o instante da morte dá clarividência ao Espírito; os

olhos não veem mais, porém o Espírito, que possui uma vista bem mais

profunda, descobre instantaneamente um mundo desconhecido, e a verda

de, brilhando de súbito, lhe dá momentaneamente uma imensa alegria ou

uma mágoa inexprimível, conforme o estado de consciência e a lembrança

da vida passada.

Trata-se do instante que precede a morte, isto é, daquele em que o Espírito perde

a consciência, o que explica o emprego da palavra momentaneamente, pois as im

pressões agradáveis ou penosas, quaisquer que sejam, continuam após o despertar.

8. Podeis dizer-nos o que vos impressionou, o que vistes no momento

em que os vossos olhos se abriram à luz? Podeis descrever-nos, se for possível,

o aspecto das coisas com que vos deparastes? – R. Quando pude voltar a

mim e ver o que tinha diante dos olhos, fiquei como que ofuscado, sem

poder compreender, porque a lucidez não volta repentinamente. Deus,

porém, que me deu uma prova exuberante da sua bondade, permitiu

que eu recuperasse as faculdades. Vi-me então cercado de numerosos e

fiéis amigos. Todos os Espíritos protetores que nos assistem rodeavam--me sorrindo; uma felicidade sem par irradiava-lhes do semblante e

também eu, forte e animado, podia sem esforço percorrer os espaços.

O que eu vi não tem nome na linguagem humana. Voltarei depois

para falar-vos mais amplamente das minhas venturas, sem, contudo,

ultrapassar o limite traçado por Deus. Sabei que a felicidade, tal como

a entendeis, é uma ficção. Vivei sabiamente, santamente, no espírito

de caridade e de amor, e tereis feito jus a impressões que o maior dos

poetas seria incapaz de descrever.

Os contos de fadas estão cheios de coisas absurdas. Entretanto, não seriam, em

alguns pontos, a descrição do que se passa no mundo dos Espíritos? O relato do

Sr. Sanson não se assemelha ao de um homem que, adormecido numa choupana,

desperta em palácio esplêndido, em meio a uma corte brilhante?

9. Sob que aspecto os Espíritos se vos apresentaram? Sob a forma hu

mana? – R. Sim, meu caro amigo; os Espíritos nos ensinam aí na Terra

que conservam no Além a forma transitória que possuíam nesse mundo,

e é verdade. Mas que diferença entre a máquina informe, que aí se arrasta

penosamente com o seu cortejo de misérias, e a fluidez maravilhosa do

corpo espiritual! A fealdade não mais existe, porque os traços perderam a

dureza da expressão que forma o caráter distintivo da raça humana. Deus

beatificou esses corpos graciosos que se movem com todas as elegâncias

da forma; a linguagem tem modulações intraduzíveis para vós e o olhar a

profundeza de uma estrela. Tentai, pelo pensamento, imaginar o que Deus

pode fazer na sua onipotência, Ele, o arquiteto dos arquitetos, e tereis feito

uma pálida ideia da forma dos Espíritos.

10. Quanto a vós, como vedes? Reconheceis em vós uma forma limitada,

circunscrita, embora fluídica? Sentis em vós mesmos uma cabeça, um tronco,

braços, pernas? – R. O Espírito, conservando a sua forma humana ideali

zada, divinizada, pode, sem sombra de dúvida, possuir todos os membros

de que falais. Sinto perfeitamente as pernas e os dedos, pois podemos, à

vontade, aparecer-vos e apertar-vos as mãos. Estou perto de vós e já apertei

a mão de todos os meus amigos, sem que disso se apercebessem. Nossa

fluidez nos faculta estar em toda parte sem ocupar o espaço ou produ

zir quaisquer sensações, se assim o desejarmos. Neste momento, tendes as

mãos cruzadas e tenho as minhas nas vossas. Digo-vos, por exemplo, que

vos estimo, porém meu corpo não ocupa qualquer espaço, a luz o atravessa

e o que chamaríeis milagre, se acaso vísseis, não passa para o Espírito de

ação contínua de todos os instantes.

“A vista dos Espíritos não tem a menor relação com a vista humana,

do mesmo modo que seu corpo não tem quaisquer semelhanças reais; para

eles, tudo se transforma na essência, como no conjunto. Repito-vos que o

Espírito tem uma perspicácia divina que abrange tudo, visto que pode adi

vinhar até o vosso pensamento; também pode tomar a forma que melhor

lhe convenha para tornar-se conhecido. Nesse aspecto porém, o Espírito

superior que concluiu suas provas prefere a forma que o conduziu para

perto de Deus.”

11. Os Espíritos não têm sexo; entretanto, como até poucos dias atrás éreis

um homem, desejamos saber se no vosso novo estado tendes mais da natureza

masculina ou da feminina? E o mesmo que se dá convosco poder-se-á aplicar ao

Espírito desencarnado há muito tempo? – R. Não temos motivo para ser de

natureza masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus os

criou como quis e, tendo que lhes dar a encarnação sobre a Terra, segundo

seus maravilhosos desígnios, subordinou-os às leis de reprodução das espé

cies por meio das condições peculiares ao macho e à fêmea. Contudo, deveis

sentir, mesmo sem maiores explicações, que os Espíritos não podem ter sexo.

Sempre foi dito que os Espíritos não têm sexo, sendo este apenas necessário à re

produção dos corpos. Como não se reproduzem, o sexo lhes seria completamente

inútil. A nossa pergunta não visava confirmar o fato, mas saber, visto que o Sr.

Sanson desencarnara recentemente, as impressões que guardava do seu estado

terreno. Os Espíritos depurados compreendem perfeitamente a sua natureza, po

rém, entre os inferiores, não desmaterializados, muitos acreditam que ainda estão

na Terra e conservam as mesmas paixões e os mesmos desejos. Assim, pensam

eles que continuam a ser os mesmos que foram, isto é, homem ou mulher, o

que tem levado alguns à suposição de que realmente têm sexo. As contradições

a tal respeito provêm dos diferentes graus de adiantamento dos Espíritos que se

manifestam. O erro não é deles, mas de quem os interroga sem se dar ao trabalho

de aprofundar as questões.

12. Como considerais a nossa sessão? O seu aspecto é o mesmo de quando

éreis vivo? As pessoas têm para vós a mesma aparência? Será tudo tão claro e

tão nítido como antes? – R. Muito mais claro, porquanto posso ler o pensa

mento de todos vós. Sinto-me muito feliz pela benéfica impressão que me

causa a boa vontade de todos os Espíritos aqui reunidos. Desejo que essa

mesma compreensão possa existir não só em Paris, na reunião de todos os

grupos, mas também em toda a França, onde há grupos que se dispersam e

se invejam reciprocamente, dominados por Espíritos turbulentos que se com

prazem na desordem, quando o Espiritismo deve incutir o esquecimento

completo e absoluto do eu.

13. Dissestes que podeis ler no nosso pensamento. Seríeis capaz de ex

plicar-nos como se opera essa transmissão de pensamento? – R. Isto não é

fácil. Para vos descrever, para vos explicar esse estranho prodígio da nossa

visão, seria preciso lançar mão de todo um arsenal de agentes novos que,

aliás, teria pouca valia para vós, uma vez que tendes as faculdades limitadas

pela matéria. Paciência! tornai-vos bons e tudo conseguireis. Atualmente

só podeis ter o que Deus vos concede, mas com a esperança de progredir

continuamente; mais tarde sereis como nós. Tratai de morrer bem para

saberdes muito. A curiosidade, estímulo do homem que pensa, conduzir--vos-á tranquilamente para a morte, reservando-vos a satisfação de todas

as curiosidades passadas, presentes e futuras. Enquanto esperais, direi para

responder, ainda que mal, à vossa pergunta: o ar que vos envolve, impalpá

vel como nós, reproduz fielmente o vosso pensamento; o sopro que exalais

é, a bem dizer, a página escrita dos vossos pensamentos, páginas lidas e

comentadas pelos Espíritos que constantemente se acercam de vós. São eles

os mensageiros de uma telegrafia divina à qual nada escapa.

A morte do justo

Em seguida à primeira evocação do Sr. Sanson, feita na Sociedade de

Paris, um Espírito transmitiu, sob o título acima, a comunicação seguinte:

“Foi a de um justo a morte desse homem de quem neste momento

vos ocupais, isto é, esperançosa e calma. Como o dia sucede naturalmente

à aurora, a vida espiritual sucedeu para ele à vida terrena, sem rompimento

nem abalo, e o seu último suspiro foi exalado num verdadeiro hino de

reconhecimento e de amor. Quão poucos os que atravessam assim a rude

transição! E como são poucos os que após a confusão e o desespero da vida

concebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o homem saudá

vel, quando mutilado por uma bala, continua a sentir dor nos membros

que foram amputados, também a alma do homem que morre sem fé e

sem esperança, separada do corpo, se despedaça e se precipita no Espaço,

inconsciente de si mesma.

Orai por essas almas perturbadas; orai por todos os sofredores, pois

a caridade não se restringe à humanidade visível: ela também socorre e

consola os seres que povoam o Espaço. Tivestes a prova evidente disto na

súbita conversão desse Espírito tocado pelas preces espíritas sobre o túmulo

do homem de bem que vindes interrogar e que deseja fazer-vos progredir

no bom caminho.71 O amor não tem limites; enche o Espaço e dá e recebe

mutuamente as suas divinas consolações. O mar se desdobra numa perspec

tiva infinita, cujo espetáculo deslumbra o espírito, parecendo confundir-se

no seu limite com os céus. São duas grandezas que se extremam. Pois bem:

assim é o amor; mais profundo que as ondas, mais infinito que o Espaço,

deve reunir todos vós, encarnados e desencarnados, na santa comunhão da

caridade, operando a admirável fusão do que é finito e do que é eterno.”

Georges

Jobard

(Diretor do Museu da Indústria de Bruxelas, nascido em

Baissey [Haute-Marne] e falecido em Bruxelas, de apoplexia

fulminante, no dia 27 de outubro de 1861, com 69 anos.)

O Sr. Jobard era presidente honorário da Sociedade Espírita de Paris.

Pensávamos em evocá-lo na sessão de 8 de novembro, quando, antecipan

do-se ao nosso desejo, deu espontaneamente a seguinte comunicação:

“Aqui estou, eu a quem íeis evocar, manifestando-me por este médium

que até agora tenho solicitado sem sucesso. Desejo, antes de tudo, descrever

as minhas impressões por ocasião do meu desprendimento: senti um abalo

indescritível; lembrei-me instantaneamente do meu nascimento, da minha

juventude, da minha velhice; toda a minha vida se retratou nitidamente na

minha memória. Eu sentia apenas o piedoso desejo de me achar nas regiões

reveladas pela nossa crença. Depois, o tumulto serenou. Eu estava livre e

meu corpo jazia inerte. Ah! meus caros amigos, que prazer se experimenta

sem o peso do corpo! Que encanto poder abranger o Espaço! Não creiais,

no entanto, que de repente eu tenha me tornado um eleito do Senhor! Não,

eu estou entre os Espíritos que, tendo aprendido um pouco, muito devem

aprender ainda. Não tardou muito que me lembrasse de vós, irmãos de exílio,

e asseguro-vos toda a minha simpatia, todos os meus votos vos cercam.

Quereis saber quais foram os Espíritos que me receberam? Quais as

minhas impressões? Pois bem, meus amigos, foram todos os que evocamos,

71 Nota de Allan Kardec: Alusão ao Espírito Bernard, que se manifestou espontaneamente no dia das

exéquias do Sr. Sanson. (Veja-se a Revista espírita de maio de 1862.)

todos os irmãos que compartilharam dos nossos trabalhos. Eu vi o esplen

dor, mas não posso descrevê-lo. Apliquei-me a discernir o que era verdadei

ro nas comunicações, pronto a rejeitar tudo que fosse errôneo, pronto a ser

o cavaleiro da verdade no outro mundo, tal como o fui no vosso.”

Jobard

1. Quando vivíeis na Terra, recomendastes que vos evocássemos. É o que

ora fazemos, não só para satisfazer àquele desejo, mas para testemunhar-vos

ainda uma vez a nossa sincera e viva simpatia, instruindo-nos ao mesmo tem

po, visto que ninguém melhor do que vós pode dar-nos esclarecimentos precisos

sobre esse mundo em que hoje vos encontrais. Ficaremos muito satisfeitos se

vos dignardes responder às nossas perguntas. – R. No momento o que mais

importa é a vossa instrução. Quanto à vossa simpatia, entrevejo-a e tenho

a prova dela tão só pelo que ouço, o que já constitui um grande progresso.

2. Para fixarmos ideias e não divagar, perguntaríamos inicialmente em

que lugar vos achais aqui, e como vos veríamos caso isto nos fosse permitido? – R. Estou junto do médium, com a aparência do mesmo Jobard que se

sentava à vossa mesa, visto que os vossos olhos mortais, ainda vendados,

não podem ver os Espíritos senão sob a sua forma mortal.

3. Poderíeis tornar-vos visível? Em caso contrário, qual a dificuldade? – R.

A disposição que vos é própria. Um médium vidente me veria, os outros não.

4. O vosso lugar aqui é o mesmo de quando assistíeis encarnado às nos

sas sessões e que vos reservamos? Aqueles, pois, que vos viram em tais condições

poderão supor que aí estais tal qual éreis então, visto que não envergais o corpo

material de antes, mas o corpo fluídico de agora, que tem a mesma forma da

quele. Se não vos vemos com os olhos do corpo, vemos-vos com o pensamento; se

não podeis comunicar pela palavra, podeis fazê-lo pela escrita, com o auxílio de

um médium. Assim, as nossas relações não se romperam de forma alguma com

a vossa morte e podemos conversar convosco tão fácil e completamente como

outrora. É assim mesmo que se passam as coisas? – R. Sim, e já sabeis disso

há muito tempo. Ocuparei este lugar muitas vezes, mesmo sem o saberdes,

porque o meu Espírito habitará entre vós.

Chamamos a atenção para esta última frase: “O meu Espírito habitará entre

vós.” Nas atuais circunstâncias, isto não é uma simples figura, mas a realidade.

Pelo conhecimento que o Espiritismo nos faculta sobre a natureza dos Espíritos,

sabemos que qualquer um pode achar-se entre nós, não só pelo pensamento, mas

pessoalmente, com o auxílio de seu corpo etéreo, que o torna uma individualidade

distinta. Por conseguinte, um Espírito tanto pode habitar entre nós depois de

morto como quando vivo, ou, por outra, melhor ainda depois de morto, uma

vez que pode ir e vir quando bem lhe aprouver. Temos assim uma imensidade de

comensais invisíveis, indiferentes uns, outros atraídos por afeição. É sobretudo a

estes últimos que se aplica esta sentença: “Eles habitam entre nós”, que se poderá

interpretar assim: Eles nos assistem, inspiram e protegem.

5. Não faz muito tempo que vínheis sentar nesse mesmo lugar. As condi

ções nas quais o fazeis agora vos parecem estranhas? Que efeito essa modificação

produziu em vós? – R. Essas condições atuais não me parecem estranhas,

porque o meu Espírito desencarnado goza de lucidez suficiente para não

deixar insolúveis quaisquer questões que considere.

6. Lembrai-vos de haver estado nas mesmas condições anteriormente à

última existência? Alguma coisa teria mudado? – R. Recordo-me das exis

tências anteriores e sinto que melhorei. Agora vejo e compreendo em toda

a extensão o que estou vendo, ao passo que, perturbado nas precedentes

existências, só atinava com as faltas terrenas.

7. Lembrai-vos da penúltima encarnação, da que precedeu a existência do

Sr. Jobard? – R. Na minha penúltima existência fui um operário mecânico

atormentado pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar a minha arte. Como

Jobard, realizei os sonhos do pobre operário, e dou graças a Deus cuja bondade

infinita fez germinar a semente que Ele havia depositado em meu cérebro.

8. Já vos comunicastes em outra parte? – R. Pouco me tenho comuni

cado. Em muitos lugares um Espírito tomou o meu nome; algumas vezes

eu estava perto dele sem que pudesse comunicar-me diretamente. Minha

morte é tão recente que participo ainda de certas influências terrestres. É

preciso que haja perfeita simpatia para poder exprimir o meu pensamen

to. Logo poderei agir indistintamente em relação aos médiuns, mas por

enquanto, repito, não posso fazê-lo. Quando morre um homem um tanto

conhecido, é chamado de todos os lados e inúmeros Espíritos se dão pressa

de apossar-se da sua individualidade. Foi o que aconteceu comigo em mui

tas circunstâncias. Asseguro-vos que poucos Espíritos podem comunicar-se

logo após o desprendimento, mesmo por um médium de sua preferência.

9. Vedes os Espíritos que aqui estão conosco? – R. Vejo, principalmente

Lázaro e Erasto; depois, mais afastado, o Espírito de Verdade pairando no

espaço; e vejo também uma multidão de Espíritos que vos cercam, solícitos

e benévolos. Sede felizes, amigos, pois benéficas influências vos defendem

das calamidades do erro.

10. Quando encarnado compartilháveis da opinião emitida sobre a for

mação da Terra pela incrustação de quatro planetas que se teriam unido. Con

servais a mesma opinião? – R. É um erro. As novas descobertas geológicas

provam as convulsões da Terra e sua formação gradual e sucessiva. A Terra,

como os outros planetas, teve sua vida própria, e Deus não precisou lançar

mão da grande desordem que seria essa agregação de planetas. A água e o

fogo são os únicos elementos orgânicos da Terra.

11. Admitíeis também que os homens pudessem cair em estado cata

léptico por tempo ilimitado, e que o gênero humano tivesse assim aparecido

na Terra? – R. Ilusão da minha imaginação, que ultrapassava sempre o

seu fim. A catalepsia pode ser longa, mas não indeterminada. Tradições,

lendas exageradas pela imaginação oriental. Meus amigos, muito tenho

sofrido com as ilusões que alimentaram o meu espírito; não vos iludais a

tal respeito. Muito aprendi e posso hoje dizer-vos que a minha inteligên

cia, apta para assimilar diversos e vastos estudos, havia guardado de minha

última encarnação o amor pelo maravilhoso e pelo místico, hauridos nas

imaginações populares. Por ora pouco me tenho ocupado com as ques

tões puramente intelectuais, no sentido em que as julgais. E como poderia

fazê-lo, deslumbrado e aturdido pelo maravilhoso espetáculo que me cerca?

Só o vínculo com o Espiritismo, tão poderoso, ó homens, que não podeis

compreender, é capaz de atrair-me a esta terra que abandono, não direi com

alegria, pois que isto seria uma impiedade, mas com o profundo reconheci

mento da libertação.

Quando a Sociedade abriu uma subscrição em favor dos operários de Lyon, em

fevereiro de 1862, um de seus membros subscreveu 50 francos, sendo 25 por si e

25 em nome do Sr. Jobard, que, então, deu a tal respeito a comunicação seguinte:

“Sinto-me honrado e agradecido por não ter sido olvidado entre os

meus irmãos espíritas. Agradeço ao coração generoso que vos trouxe o óbo

lo que eu daria se habitasse ainda o vosso mundo. Naquele em que agora

me encontro não temos necessidade de dinheiro, de modo que me foi pre

ciso recorrer à bolsa da amizade para provar materialmente que também a

mim me comoveu o infortúnio dos irmãos de Lyon. Bravos trabalhadores,

que ardentemente cultivais a vinha do Senhor, muito deveis convencer--vos de que a caridade não é uma palavra vã, pois grandes e pequenos vos

demonstraram simpatia e fraternidade. Estais na grande via humanitária

do progresso. Que Deus vos possa conservar nela, e que possais ser mais

felizes. Os Espíritos amigos vos sustentarão e triunfareis!

“Começo a viver espiritualmente, mais calmo, menos perturbado

pelas evocações constantes que de todo lado choviam sobre mim. A moda

também atua sobre os Espíritos; quando a moda Jobard for substituída por

outra e eu tiver caído no esquecimento humano, então pedirei aos meus

amigos sérios que me evoquem. Aprofundaremos então questões tratadas

superficialmente, e o vosso Jobard, completamente transfigurado, poderá

ser útil, como deseja de todo o coração.”

Jobard

Passados os primeiros tempos consagrados a tranquilizar os seus

amigos, o Sr. Jobard tomou lugar entre os Espíritos que trabalham ativa

mente pela renovação social, enquanto espera o seu próximo retorno entre

os vivos, para agir de forma mais direta nesse movimento. Desde então, ele

tem dado à Sociedade de Paris, onde continua como cooperador, comuni

cações de incontestável superioridade, sem se afastar da originalidade e do

espirituoso bom humor que constituíam o fundo do seu caráter, a ponto

de se fazer reconhecer mesmo antes de assinar o nome.

Samuel Philippe

Samuel Philippe era um homem de bem na verdadeira acepção da

palavra. Ninguém se lembrava de o ter visto cometer uma ação má ou er

rar voluntariamente no que quer que fosse. De um devotamento extremo

pelos amigos, estava sempre pronto a prestar favores aos outros, ainda que

contrários ao seu próprio interesse. Trabalhos, fadigas, sacrifícios, nada o

impedia de ser útil, e ele o fazia sem afetação, naturalmente, admirando--se quando lhe atribuíam mérito por estes predicados. Jamais desprezou os

que lhe fizeram mal; antes se dava pressa em servi-los como se lhe houves

sem feito bem semelhante. Quando lidava com ingratos, dizia: “Não é a

mim, mas a eles que se deve lastimar.” Embora muito inteligente e dotado

de natural vivacidade, teve na Terra uma vida obscura, laboriosa e cheia

de rudes provações. Era uma dessas naturezas de escol que florescem nas

sombras, das quais o mundo não fala e cujo brilho não se reflete na Terra.

Adquirira, pelo conhecimento do Espiritismo, uma fé ardente na vida fu

tura e uma grande resignação para todos os males da existência terrena.

Faleceu em dezembro de 1862, com a idade de 50 anos, em consequência

de dolorosa moléstia, tendo sua morte sensibilizado bastante a família e os

amigos. Nós o evocamos vários meses depois:

P. Lembrai-vos com clareza dos vossos últimos instantes na Terra? – R.

Perfeitamente. Essa lembrança me veio pouco a pouco, porquanto, naque

le momento, minhas ideias ainda eram confusas.

P. Poderíeis, a bem da nossa instrução e do interesse que nos inspira a

vossa vida exemplar, descrever como ocorreu a vossa passagem da vida corpórea

para a vida espiritual, assim como a situação em que vos encontrais no mundo

espiritual? – R. De bom grado, pois esta narrativa não aproveitará somente

a vós, mas também a mim. Ao dirigir meus pensamentos para a Terra, a

comparação faz-me apreciar melhor ainda a bondade do Criador.

Sabeis de quantas tribulações foi cheia a minha vida; entretanto, ja

mais me faltou coragem na adversidade, e hoje dou graças a Deus! Quantas

coisas eu teria perdido se tivesse cedido ao desânimo! Tremo só ao pensar

que tudo quanto sofri se anularia caso desfalecesse, tendo de recomeçar

novamente as provações! Ah! meus amigos, compenetrai-vos firmemente

desta verdade, pois nela reside a vossa felicidade futura. Não é, por certo,

comprar caro essa felicidade por alguns anos de sofrimento! Se soubésseis

o que são alguns anos comparados ao infinito!

Se de fato a minha existência teve algum mérito aos vossos olhos,

outro tanto não diríeis das que a precederam. Somente à custa de grande

esforço sobre mim mesmo me tornei o que ora sou. Para apagar os últimos

traços das faltas anteriores, era-me preciso sofrer as últimas provas que

voluntariamente aceitei. Foi na firmeza das minhas resoluções que hauri

resignação, a fim de sofrer sem me queixar. Hoje bendigo essas provações;

graças a elas rompi com o passado, simples recordação agora que me per

mite contemplar com legítima satisfação o caminho percorrido.

Oh! vós que me fizestes padecer na Terra; que fostes cruéis e malévo

los para comigo, que me humilhastes e me afligistes; vós cuja má-fé tantas

vezes me levou a duras privações, não somente vos perdoo, mas até vos

agradeço. Querendo prejudicar-me, não suspeitáveis do bem que esse mal

me proporcionaria. A vós, portanto, devo grande parte da felicidade de

que gozo, visto que me facultastes ocasião para perdoar e pagar o mal com

o bem. Deus vos colocou em meu caminho para testar a minha paciência

e exercitar-me na prática da mais difícil caridade: a de amar os inimigos.

Não vos impacienteis com esta divagação, pois logo responderei à

vossa pergunta. Embora sofresse cruelmente com a moléstia que me vi

timou, quase não tive agonia; a morte me sobreveio como um sono, sem

lutas nem abalos. Sem temor pelo futuro, não me apeguei à vida e não tive,

por conseguinte, de me debater nos últimos momentos. A separação com

pletou-se sem dor, nem esforço, sem que eu mesmo me apercebesse. Igno

ro quanto tempo durou o sono, que foi curto aliás. Meu calmo despertar

contrastava com meu estado precedente; não sentia mais dores e exultava

de alegria; queria levantar-me, caminhar, mas um torpor nada desagradá

vel, que chegava mesmo a ter um certo charme, me prendia, e eu me aban

donava a ele prazerosamente, sem compreender a minha situação, embora

não duvidasse já ter deixado a Terra. Tudo o que me cercava assemelhava-se

a um sonho. Vi minha mulher e alguns amigos ajoelhados no meu quarto,

chorando, e considerei que me julgavam morto. Quis então desenganá-los,

mas não consegui articular uma palavra, concluindo daí que sonhava. O

fato de me ver cercado de pessoas caras, falecidas há muito tempo, e ainda

de outras que à primeira vista não podia reconhecer, fortalecia em mim

essa ideia de um sonho, em que tais seres velassem por mim.

Esse estado foi alternado com momentos de lucidez e de sonolência,

durante os quais eu recobrava e perdia a consciência do meu eu. Pouco a

pouco as minhas ideias adquiriram mais clareza; a luz que eu entrevia por

entre denso nevoeiro fez-se mais brilhante; então comecei a reconhecer--me e compreendi que não mais pertencia à Terra. Certamente, se eu não

conhecesse o Espiritismo, a ilusão perduraria por muito mais tempo. Os

meus despojos mortais ainda estavam por enterrar e eu já o olhava com

piedade, felicitando-me por me ter desembaraçado dele. Sentia-me tão fe

liz por estar livre! Respirava livremente como quem sai de uma atmosfera

repugnante; indizível sensação de bem-estar penetrava todo o meu ser; a

presença dos que amara alegrava-me sem me surpreender, antes me pare

cendo natural, como se os encontrasse depois de longa viagem. Uma coisa

me admirou logo: nós nos compreendíamos sem articular uma palavra!

Os nossos pensamentos transmitiam-se somente pelo olhar, como que por

efeito de uma penetração fluídica.

Entretanto, eu não estava completamente livre das preocupações

terrenas; a lembrança do que padecera me ocorria de vez em quando à

memória, como para realçar ainda mais a nova situação. Eu havia so

frido corporalmente, sobretudo moralmente, fui alvo da malevolência,

dessas infinitas preocupações mais acerbas talvez que as desgraças reais,

porque degeneram em perpétua ansiedade. Mal se desvaneciam tais im

pressões e eu já interrogava a mim mesmo se de fato me libertara delas,

parecendo-me ouvir ainda algumas vozes desagradáveis. Reconsiderando

as dificuldades que tantas vezes me atormentavam, eu tremia e procurava,

por assim dizer, reconhecer-me, assegurar-me de que não era joguete de

um sonho. E quando cheguei à conclusão, à realidade dessa nova situação,

foi como se me aliviasse de um peso enorme.

É bem verdade, dizia a mim mesmo, que me libertei desses cui

dados que fazem o tormento da vida! Graças a Deus! Assemelhava-me a

um pobre, repentinamente enriquecido, duvidando da realidade da sua

fortuna e alimentando por algum tempo as apreensões da pobreza. Ah! se

os homens compreendessem a vida futura, quanta força, quanta coragem

esta convicção não lhes daria na adversidade! Que não fariam, enquanto

estão na Terra, para garantir a felicidade que Deus reserva aos filhos dóceis

e submissos! Logo veriam que os gozos tão ambicionados e invejados se

tornarão mesquinhos em relação aos que eles desprezam!

P. Esse mundo tão novo para vós, perto do qual o nosso vale tão pouco,

bem como os numerosos amigos que nele reencontrastes, vos fizeram esquecer a

família e os amigos encarnados? – R. Se eu os tivesse esquecido seria indigno

da felicidade de que desfruto. Deus não recompensa o egoísmo, pune-o. O

mundo em que estou pode fazer com que desdenhe a Terra, mas não os Es

píritos nela encarnados. Somente entre os homens é que a prosperidade faz

esquecer os companheiros de infortúnio. Muitas vezes venho visitar os que

me são caros; sinto-me feliz pela recordação que guardaram de mim; assisto

às suas diversões e, atraído por seus pensamentos, gozo se gozam ou sofro

se sofrem. O meu sofrimento é, porém, relativo e não se pode comparar ao

sofrimento humano, uma vez que compreendo o alcance, a necessidade e

o caráter transitório das provações. Regozijo-me em pensar que um dia eles

virão a esta mansão afortunada onde a dor não existe. Para torná-los dignos

dela é que me esforço por sugerir-lhes bons pensamentos e sobretudo a

resignação que tive, consoante a vontade de Deus. O meu grande pesar é vê--los retardar esse momento por falta de coragem, queixumes, dúvida quanto

ao futuro e principalmente por um ato reprovável qualquer. Procuro, então,

desviá-los do mau caminho e, se o consigo, é uma felicidade não só para

mim, como para outros Espíritos; quando, ao contrário, os meus propósitos

fracassam, exclamo com pesar: Mais um momento de atraso. Consolo-me,

no entanto, com a ideia de que nada se perde irremissivelmente.

Van Durst

(Antigo funcionário falecido em Antuérpia, em 1863, com 80 anos.)

Pouco tempo depois de sua morte, tendo um médium perguntado

ao seu guia espiritual se poderia evocá-lo, foi-lhe respondido: “Este Es

pírito se refaz lentamente da perturbação em que se encontra e, embora

possa responder-vos imediatamente, tal comunicação lhe custaria muitos

dissabores. Peço-vos que espereis mais uns quatro dias, pois até lá ele saberá

das boas intenções manifestadas a seu respeito e virá até vós com reconhe

cimento e na condição de amigo.”

Quatro dias mais tarde o Espírito ditou a seguinte comunicação:

“Meu amigo, minha vida teve pouco peso na balança da eternidade

e, no entanto, estou bem longe de ser infeliz. A minha condição humilde

e relativamente feliz é de quem não fez o mal, sem que por isso visasse à

perfeição. Se pode haver pessoas felizes numa esfera limitada, eu sou des

se número. Só lamento não ter conhecido o que hoje conheceis; minha

provação teria sido menos longa e menos dolorosa. De fato ela foi grande;

viver e não viver, estar rudemente preso ao corpo sem poder servir-se dele,

ver os que nos foram caros, sentindo extinguir-se o pensamento que a eles

nos prende. Oh! que momento cruel esse em que o aturdimento nos em

polga e constrange, para desfazer-se em trevas logo após! Sentir tudo, para

estar um momento depois aniquilado! Querer ter a consciência do seu eu,

sem encontrá-la; não existir e sentir que se existe!

“Perturbação profunda! Depois, transcorrido um tempo incalculável

de angústias contidas, sem forças para senti-las, depois desse tempo que

parece interminável, renasce lentamente a existência, o despertar em um

novo mundo! Nada de corpo material, nada de vida terrestre! Vida, sim,

mas imortal! Não mais homens carnais, mas formas diáfanas, Espíritos que

deslizam, que surgem de todos os lados, que vos cercam e que não podeis

abranger com a vista, porque é no infinito que flutuam! Ter o Espaço dian

te de si e poder transpô-lo à vontade! Comunicar-se pelo pensamento com

tudo que vos envolve! Que vida nova, meu amigo, brilhante e cheia de

ventura! Salve, oh! salve, eternidade que me conténs em teu seio!... Adeus,

Terra que por tanto tempo me retiveste afastado do elemento natural da

minha alma! Não, eu nada mais queria de ti, porque és a terra do exílio, e a

maior das felicidades que dispensas nada vale! Se eu soubesse o que sabeis,

como me teria sido mais fácil a iniciação na vida espiritual! Saberia antes de

morrer o que só mais tarde tive que aprender, no momento da separação,

de forma a desprender-me facilmente. Vós outros estais no caminho, mas

jamais, jamais ireis tão longe! Dizei-o a meu filho tantas vezes quantas fo

rem necessárias para que se instrua e creia, porque, então, ao chegar aqui,

não ficaremos separados.

“Amigos, adeus a todos, adeus; espero por vós. Enquanto estiverdes

na Terra virei muitas vezes instruir-me convosco, uma vez que sei menos

ainda que muitos dentre vós. Aqui onde estou, sem velhice que me enfra

queça e sem entraves de qualquer espécie, aprenderei mais depressa. Aqui

se vive intensamente, caminhando com desassombro, tendo ante os olhos

horizontes tão belos que nos sentimos ansiosos por abrangê-los. Adeus,

vou deixá-los; adeus.”

Sixdeniers

(Homem de bem, morto por acidente e conhecido

do médium, quando encarnado.)

(Bordeaux, 11 de fevereiro de 1861)

P. Podeis dar-nos alguns detalhes sobre a vossa morte? – R. Depois de

afogar-me, sim.

P. E por que não antes? – R. Porque já os conheceis. (De fato, o

médium os conhecia.)

P. Quereis então descrever as vossas sensações depois da morte? – R. Fiquei

muito tempo sem me reconhecer, mas com a graça de Deus e o auxílio dos

que me cercavam, quando a luz se fez, inundou-me. Esperai e encontrareis

sempre mais do que pensais. Nada existe aqui de material; tudo fere os sen

tidos ocultos sem auxílio da vista ou do tato. Compreendeis o que digo? É

uma surpresa espiritual que ultrapassa o vosso entendimento, porque não

há palavras que a expliquem. Só a alma pode percebê-la. O meu despertar

foi bem feliz. A vida é um desses sonhos que, apesar da ideia grosseira ligada

a essa palavra, só pode ser qualificada de medonho pesadelo. Imaginai que

estais encerrado em calabouço infecto, onde o vosso corpo, corroído pelos

vermes até a medula dos ossos, é suspenso sobre uma fornalha ardente; que

a vossa boca ressequida não encontra sequer o ar para refrescá-la; que o

vosso Espírito aterrorizado só vê ao seu redor monstros prestes a devorá-lo;

imaginai, enfim, tudo quanto um sonho fantástico pode engendrar de he

diondo, de mais terrível, e transportai-vos depois e repentinamente a deli

cioso Éden. Despertai cercado de todos os que amastes e chorastes; vede,

rodeando-vos, semblantes adorados a sorrirem de felicidade; respirai os mais

suaves perfumes; refrescai a garganta ressequida na fonte de água viva; senti

o corpo pairando no Espaço infinito que o suporta e balança, qual a flor

que se destaca da fronde aos impulsos da brisa; julgai-vos envolto no amor

de Deus qual recém-nascido aconchegado pelo amor materno e não fareis

senão ideia imperfeita dessa transição. Procurei explicar-vos a felicidade da

vida que aguarda o homem depois da morte do corpo, mas não consegui.

Será possível explicar o infinito àquele que tem os olhos fechados à luz e que

não pode sair do estreito círculo em que se acha encerrado? Para explicar--vos a eterna felicidade, dir-vos-ei apenas isto: amai, pois só o amor permite

que ela seja pressentida, e quem diz amor diz ausência de egoísmo.

P. A vossa posição foi feliz tão logo entrastes no mundo dos Espíritos? –

R. Não; tive de pagar a dívida humana. Meu coração pressentira o futuro

do Espírito, mas faltava-me a fé. Tive que expiar a indiferença para com o

Criador, porém a sua misericórdia levou-me em conta o bem insignificante

que pude fazer, as dores que resignado padeci, apesar dos sofrimentos, e a

sua justiça, cuja balança os homens jamais compreenderão, pesou o bem

com tanta bondade e amor, que o mal prontamente se extinguiu.

P. Podereis dar-nos notícias da vossa filha? (morta quatro ou cinco anos

antes.) – R. Está em missão na Terra.

P. Ela se sente feliz como encarnada? Receio fazer perguntas indiscre

tas. – R. Sei. Será que eu não veria o vosso pensamento como um quadro

ante meus olhos? Não; minha filha não é feliz como criatura, antes, pelo

contrário, deverá provar todas as misérias terrenas, pregando pelo exemplo

as grandes virtudes que alardeais, mas não praticais. Terá a minha ajuda:

velarei por ela. No entanto, não lhe será penoso superar os obstáculos,

pois está na Terra em missão, e não em expiação. Tranquilizai-vos por ela, e

obrigado pela lembrança.

Nesse momento, o médium sentiu dificuldade para escrever e disse:

P. Se for um Espírito sofredor que me atrapalha, peço-lhe que

escreva seu nome. – R. Uma infeliz.

P. Não queres dizer o teu nome? – R. Valéria.

P. Poderás dizer-me o motivo do teu sofrimento? – R. Não.

P. Estás arrependida das tuas faltas? – R. Bem vês que sim.

P. Quem te trouxe aqui? – R. Sixdeniers.

P. Com que objetivo? – R. A fim de me ajudares.

P. Foste tu que há pouco me impediste de escrever? – R. Sixdeniers me

colocou em seu lugar.

P. Que relação há entre vós? – R. Ele me guia.

P. Pedi a ele que nos acompanhe na prece. (Depois da prece, Sixdeniers

retoma a palavra, dizendo: – Obrigado por ela. Já compreendestes. Não

vos esquecerei; pensai nela.)

P. [A Sixdeniers.] Tendes muitos Espíritos sofredores a guiar? – R. Não;

entretanto, tão logo regeneramos algum, buscamos outro e assim por dian

te, sem ter, com isso, de abandonar os primeiros.

P. Como podeis dar conta de uma vigilância que deverá multiplicar-se

ao infinito no decurso dos séculos? – R. Os que regeneramos purificam-se e

progridem. Assim, não nos dão mais trabalho; além disso, nós também

progredimos e, à proporção que subimos, as faculdades e os poderes se

dilatam, na razão direta da nossa pureza.

obsErvAção – Pelo que vemos, os Espíritos inferiores são assistidos por Espíritos

bons com a missão de os guiar, tarefa essa que não é exclusivamente delegada

aos encarnados, os quais nem por isso ficam desobrigados de auxiliá-la, visto que

também isso constitui para eles meio de progresso. Nem sempre é com boa inten

ção que um Espírito inferior interrompe uma boa comunicação, como no caso

presente, mas é certo que o fazem algumas vezes com a permissão dos Espíritos

bons, seja como prova, seja com o intuito de obter daquele a quem se dirige o

auxílio necessário ao seu progresso. É verdade que a persistência, em tais casos,

pode degenerar em obsessão, porém, quanto maior for a tenacidade, tanto mais

provará a necessidade de assistência. É, pois, um erro repelirmos tais Espíritos, que

devemos encarar quais mendigos a pedirem esmola. Digamos antes: é um Espírito

infeliz que os bons me enviam para o educar. Se o conseguirmos, teremos a alegria

de haver encaminhado uma alma ao bem, abreviando-lhe os sofrimentos. Muitas

vezes essa tarefa é penosa e melhor seria, por certo, receber continuamente belas

comunicações e não conversar senão com Espíritos selecionados; mas não é bus

cando a nossa própria satisfação, nem repudiando as ocasiões que se nos oferecem

para praticar o bem, que havemos de atrair a proteção dos Espíritos bons.

Dr. Demeure72(Falecido em Albi [Tarn], em 25 de janeiro de 1865.)

O Dr. Demeure era um médico homeopata muito distinto. Seu cará

ter, assim como o saber, haviam-lhe conquistado a estima e a veneração dos

seus concidadãos. Sua bondade e caridade eram inesgotáveis e, a despeito

da idade avançada, não se afadigava quando se tratava de socorrer doentes

pobres. O preço das visitas era o que menos o preocupava e de preferência

sacrificava as suas comodidades ao pobre, dizendo que os ricos, em sua falta,

bem podiam recorrer a outro médico. Aos primeiros, não só dava os remé

dios gratuitamente, como muitas vezes provia às suas necessidades materiais,

no caso de serem mais úteis que o próprio medicamento. Dele se pode dizer

que foi o Cura d’Ars da Medicina. Demeure abraçou com ardor a Doutrina

Espírita, na qual encontrou a chave dos mais graves problemas, cuja solução

pedira inutilmente à Ciência e a todas as filosofias. Seu espírito profundo e

investigador fez-lhe compreender subitamente todo o alcance do Espiritis

mo, de modo que ele se tornou um de seus mais dedicados propagadores.

Relações de mútua e viva simpatia se haviam estabelecido entre nós

por meio da correspondência. Soubemos da sua morte no dia 30 de janei

ro, e o nosso primeiro pensamento foi evocá-lo. Eis a comunicação que ele

nos deu naquele mesmo dia:

“Aqui estou. Ainda vivo, assumi o compromisso de manifestar-me

desde que me fosse possível, a fim de apertar a mão do meu caro mestre e

amigo Allan Kardec.

“A morte dera à minha alma esse pesado sono que se chama letargia;

mas o pensamento velava. Sacudi esse torpor funesto, que prolonga a per

turbação que se segue à morte, despertei e, de um salto, fiz a viagem.

“Como estou feliz! Já não sou velho nem enfermo; meu corpo era

apenas um disfarce imposto; sou jovem e belo, belo dessa eterna juventude

dos Espíritos, cujas rugas não mais sulcam o rosto, cujos cabelos não em

branquecem sob a ação do tempo. Sou leve como o pássaro que em voo

rápido atravessa o horizonte do vosso céu nebuloso; admiro, contemplo,

bendigo, amo e me inclino, átomo que sou, ante a grandeza, a sabedoria,

a ciência de nosso Criador, ante a grandeza das maravilhas que me cercam.

“Sou feliz; estou na glória! Oh! quem poderia jamais descrever as

esplêndidas belezas da terra dos eleitos: os céus, os mundos, os sóis, seu

papel no grande concerto da harmonia universal? Pois bem! eu tentarei

meu mestre! Vou fazer o seu estudo e virei depor junto a vós a homenagem

de meus trabalhos de Espírito, que antecipadamente vos dedico. Até logo.”

Demeure

As duas comunicações seguintes, dadas em 1o e 2 de fevereiro, são relativas

à doença de que fomos acometidos na ocasião. Embora sejam pessoais, nós

as publicamos porque provam que o Dr. Demeure é tão bom como Espírito

quanto o fora como homem.

“Meu bom amigo, tende confiança em nós e muita coragem. Esta

crise, não obstante fatigante e dolorosa, não será longa e, com os cuidados

prescritos, podereis, conforme os vossos desejos, completar a obra, de que

a vossa existência foi o principal objetivo. No entanto, sou aquele que está

sempre junto de vós, com o Espírito de Verdade que me permite tomar a

palavra, como o último de vossos amigos vindos entre os Espíritos! Eles

me dão as honras das boas-vindas. Caro mestre, como estou feliz por ter

morrido a tempo para estar com eles neste momento! Se tivesse morrido

mais cedo, talvez vos pudesse ter evitado esta crise que eu não previa; ha

via pouquíssimo tempo que estava desencarnado para me ocupar de outra

coisa que não fosse o espiritual. Mas agora velarei por vós, caro mestre.

Aqui estou para, feliz como Espírito, ao vosso lado, prestar serviços. Co

nheceis o provérbio: ‘Ajuda-te, e o céu te ajudará’. Ajudai, pois, os Espí

ritos bons nos cuidados que vos dispensam, submetendo-vos estritamente

às suas prescrições. Faz muito calor aqui; este carvão é fatigante. Enquanto

estiveres doente, não o queimeis; ele continua a aumentar a vossa opressão;

os gases que dele se desprendem são deletérios.”

Vosso amigo, Demeure

“Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho dizer-lhe que esta

va ao seu lado quando lhe ocorreu o acidente, que poderia ter sido funesto

sem uma intervenção eficaz, para a qual tive a felicidade de contribuir. Se

gundo minhas próprias observações e informações que colhi em boa fonte,

para mim é evidente que, quanto mais cedo se der a sua desencarnação,

tanto mais cedo se dará a sua reencarnação, a fim de poder completar a sua

obra. Contudo, é preciso que ele dê, antes de partir, uma última demão

nas obras que devem completar a teoria doutrinária, da qual é o iniciador;

e ele se tornará culpado de homicídio voluntário se, por excesso de tra

balho, contribuir para a falência de seu organismo, que o ameaça de uma

súbita partida para os nossos mundos. Não se deve temer dizer-lhe toda a

verdade, para que se previna e siga rigorosamente as nossas prescrições.”

Demeure

A comunicação seguinte foi obtida em Montauban, no dia 26 de

janeiro, no círculo dos amigos espíritas que ele tinha naquela cidade:

“Antoine Demeure. Não estou morto para vós, meus bons amigos,

mas para aqueles que não conhecem a santa doutrina que reúne os que

se amaram e tiveram na Terra os mesmos pensamentos e os mesmos sen

timentos de amor e caridade. Sou feliz; mais feliz do que podia esperar,

porquanto gozo de rara lucidez entre os Espíritos desprendidos da matéria

há tão pouco tempo. Tende coragem, meus bons amigos; doravante estarei

junto a vós e não deixarei de vos instruir sobre muitas coisas que ignora

mos quando ligados à nossa pobre matéria, que nos oculta tantas magni

ficências e tantos prazeres. Orai pelos que estão privados dessa felicidade,

pois não sabem o mal que fazem a si mesmos.

“Hoje não me demorarei muito, mas vos direi que não me acho

completamente estranho neste mundo dos invisíveis. A mim parece que

sempre o habitei. Aqui estou feliz porque vejo os meus amigos e posso

comunicar-me com eles sempre que o deseje. Não choreis, meus amigos;

faríeis que lamentasse vos haver conhecido. Deixai correr o tempo e Deus

vos conduzirá a esta morada, onde todos devemos nos reunir. Boa noite,

meus amigos: que Deus vos console; aqui estou junto de vós.”

Demeure

Outra carta de Montauban contém o relato seguinte:

“Tínhamos ocultado à Sra. G..., médium vidente e sonâmbula muito

lúcida, a morte do Dr. Demeure, a fim de poupar a sua extrema sensibilidade,

e o bom doutor, por certo nos penetrando o pensamento, evitara manifestar--se a ela. No dia 10 de fevereiro último estávamos reunidos a convite dos

nossos guias que, diziam, queriam aliviar a Sra. G... de uma entorse da qual

muito sofria desde a véspera. Não sabíamos mais que isto e estávamos longe

de aguardar a surpresa que nos reservavam. Tão logo caiu em sonambulismo,

a dama soltou gritos lancinantes, mostrando o pé. Eis o que se passava:

“A Sra. G... via um Espírito curvado sobre sua perna, mas cuja fisiono

mia ficava oculta; realizava fricções e massagens, exercendo de vez em quanto

uma tração longitudinal sobre a parte doente, absolutamente como teria feito

um médico. A manobra era tão dolorosa que a paciente por vezes vociferava,

fazendo movimentos desordenados. Mas a crise não durou muito; ao cabo

de dez minutos toda a marca de entorse havia desaparecido, assim como o

edema, retomando o pé a sua aparência normal. A Sra. G... estava curada.

“Entretanto, o Espírito continuava incógnito para a médium, persis

tindo em não mostrar as suas feições; dava mesmo a impressão de querer

fugir, quando, de um salto só, nossa doente, que não podia dar um passo,

se lança no meio do quarto para pegar e apertar a mão de seu médico espiri

tual. Dessa vez o Espírito virou-se para ela, deixando sua mão na dela. Neste

momento a Sra. G... solta um grito e cai desfalecida no assoalho: acabava de

reconhecer o Dr. Demeure no Espírito curador. Durante a síncope recebeu

os cuidados diligentes de vários Espíritos simpáticos. Enfim, readquirida a

lucidez sonambúlica, conversou com os Espíritos, trocando com eles calo

rosos apertos de mão, notadamente com o Espírito do doutor, que respon

dia a seus testemunhos de afeição penetrando-a de um fluido reparador.

“Não é uma cena impressionante e dramática? Dir-se-ia que todas as

personagens representavam seu papel na vida humana. Não é uma prova

entre mil de que os Espíritos são seres perfeitamente reais, tendo um corpo

e agindo como faziam na Terra? Estávamos felizes por encontrar nosso

amigo espiritualizado, com seu excelente coração e sua delicada solicitude.

Durante a vida ele tinha sido médico da médium; conhecia sua extrema

sensibilidade e a tinha conduzido como se fora a própria filha. Esta prova

de identidade, dada àqueles a quem o Espírito amava, não é admirável e

capaz de fazer encarar a vida futura sob seu aspecto mais consolador?”

obsErvAção – A situação do Dr. Demeure, como Espírito, é bem a que podia dei

xar pressentir sua vida tão dignamente e utilmente empregada. Mas um outro fato

não menos instrutivo ressalta de suas comunicações: é a atividade que ele demons

tra, quase imediatamente depois da morte, para ser útil. Por sua alta inteligência

e por suas qualidades morais, pertence à ordem dos Espíritos muito adiantados;

ele é muito feliz, mas sua felicidade não está na inação. Há poucos dias, cuidava

dos doentes como médico e, tão logo desencarnado, desvela-se em vir cuidá-los

como Espírito. Algumas pessoas perguntarão: Que se ganha em estar no outro

mundo, se ali não se goza de repouso? A isto lhes perguntaremos, para começar, se

nada significa não mais ter preocupações, nem necessidades, nem as enfermidades

da vida, ser livre e poder, sem afadigar-se, percorrer o Espaço com a rapidez do

pensamento, ter com os amigos a qualquer hora, seja qual for a distância em que

se encontrem? Depois acrescentamos: Quando estiverdes no outro mundo, nada

vos forçará a fazer seja o que for; sereis perfeitamente livres para ficar numa ociosi

dade beata, tanto tempo quanto quiserdes; mas logo vos cansareis dessa felicidade

egoísta e pedireis uma ocupação. Então vos será respondido: se vos aborreceis por

nada fazerdes, buscai vós mesmos algo fazer; as ocasiões de ser útil não faltam no

mundo dos Espíritos, como não faltam entre os homens. É assim que a atividade

espiritual não é um constrangimento; é uma necessidade, uma satisfação para os

Espíritos que procuram as ocupações segundo seus gostos e aptidões, e escolhem

de preferência as que possam contribuir para o seu adiantamento.

Viúva Foulon

(Wollis, quando solteira)

A Sra. Foulon, falecida em Antibes a 3 de fevereiro de 1865, resi

diu por muito tempo no Havre, onde conquistou a reputação de hábil

miniaturista. De notável talento, aproveitou-o primeiro como simples

amadora, mas, quando lhe sobrevieram as necessidades, fez da sua arte

proveitosa fonte de receita. O que sobretudo a fazia amada e estimada, o

que tornava sua memória cara a todos os que a conheceram, é a amenida

de de seu caráter; são suas qualidades privadas, cuja extensão só podiam

apreciar os que conheciam sua vida íntima. Porque, como todos aqueles

nos quais é inato o sentimento do bem, ela não os ostentava e nem mesmo

suspeitava deles. Se há alguém sobre quem o egoísmo não tinha domínio,

era ela, sem dúvida; talvez jamais o sentimento de abnegação pessoal fosse

levado mais longe. Sempre pronta a sacrificar o repouso, a saúde e os in

teresses por aqueles a quem podia ser útil, sua vida foi uma longa série de

dedicações, assim como foi, desde a juventude, um longo rosário de rudes

e cruéis provas, diante das quais sua coragem, resignação e perseverança

jamais faliram. Reveses da fortuna só lhe deixaram o talento como único

recurso; foi somente com os pincéis, dando lições ou fazendo retratos, que

educou uma numerosa família e assegurou honrosa posição a todos os seus

filhos. É preciso ter conhecido sua vida íntima para saber tudo o que su

portou de fadigas e privações, todas as dificuldades contra as quais teve de

lutar para atingir o seu objetivo. Mas ah! sua vista fatigada pelo trabalho

cativante da miniatura, extinguia-se dia a dia; mais algum tempo e a ce

gueira, já muito avançada, teria sido completa.

Quando a Sra. Foulon tomou conhecimento da Doutrina Espírita,

alguns anos atrás, para ela foi como um rastro de luz. Pareceu-lhe que um

véu se levantava de sobre algo que não lhe era desconhecido, mas de que

tinha apenas vaga intuição. Então o estudou com ardor, mas ao mesmo

tempo com essa lucidez de espírito, essa justeza de apreciação que era pecu

liar à sua alta inteligência. É preciso conhecer todas as perplexidades de sua

vida, perplexidades que tinham sempre por móvel, não ela própria, mas

os seres que lhe eram caros, para compreender todas as consolações que

hauriu nesta sublime revelação, que lhe dava uma fé inabalável no futuro

e lhe mostrava a nulidade das coisas terrenas. Sua morte foi digna da sua

vida. Viu sua chegada sem nenhum temor penoso; para ela era a libertação

dos laços terrenos, que devia abrir-lhe essa vida espiritual bem-aventurada,

com a qual se havia identificado pelo estudo do Espiritismo.

Morreu com calma, porque tinha consciência de ter cumprido a mis

são que havia aceitado ao vir à Terra, de ter cumprido escrupulosamente

seus deveres de esposa e de mãe de família. Porque também tinha, durante a

vida, abjurado todo ressentimento contra aqueles dos quais podia lastimar--se e que a tinham pago com ingratidão; que sempre havia pago o mal com

o bem, perdoando-os ao deixar a vida, confiando na bondade e na Justiça

de Deus. Enfim, morreu com a serenidade que dá uma consciência pura, e

a certeza de estar menos separada de seus filhos que durante a vida corpórea,

já que poderá, de agora em diante, estar com eles em Espírito, ajudá-los

com seus conselhos e cobri-los com a sua proteção, seja qual for o ponto do

globo em que se encontrem.

Logo que soubemos da morte da Sra. Foulon, nosso primeiro desejo

foi o de evocá-la. As relações de amizade e simpatia, que a Doutrina Espí

rita estabelecera entre nós, explicam algumas das suas palavras e justificam

a familiaridade da linguagem.

(Paris, 6 de fevereiro de 1865, três dias após a morte.)

“Estava certa de que havíeis de evocar-me logo depois da minha

morte e pronta me achava para vos responder, pois não conheci a pertur

bação. Só os que têm medo são envolvidos por suas trevas espessas.

“Pois bem, meu amigo, agora estou feliz. Estes pobres olhos que se

haviam enfraquecido e só me deixavam a lembrança dos prismas que ti

nham colorido minha juventude com seu brilho cintilante, abriram-se aqui

e reencontram os esplêndidos horizontes que alguns de vossos grandes artis

tas idealizam em suas vagas reproduções, mas cuja realidade majestosa, se

vera e, contudo, cheia de encantos, é moldada na mais completa realidade.

“Apenas há três dias estou morta, e sinto que sou artista. Minhas

aspirações para o ideal da beleza na arte mais não eram que a intuição de

uma faculdade que eu tinha estudado e adquirido em outras existências e

que se desenvolveram na última. Que devo fazer, porém, para reproduzir

uma obra-prima digna da cena que comove o Espírito, quando se chega

na região da luz? Pincéis! pincéis! Provarei ao mundo que a arte espírita é

o coroamento da arte pagã, da arte cristã que periclita, e que só ao Espi

ritismo está reservada a glória de fazê-la reviver com todo o seu brilho no

vosso mundo deserdado.

“Basta para a artista. Agora é a vez da amiga.

“Por que, boa amiga (Sra. Allan Kardec), vos afetar assim pela mi

nha morte? Sobretudo vós, que conheceis as decepções e as amarguras

de minha vida, deveríeis, ao contrário, alegrar-vos por ver que agora não

mais devo beber a taça amarga das dores terrenas, que esvaziei até o fim.

Crede-me: os mortos são mais felizes que os vivos; pranteá-los é duvidar

da veracidade do Espiritismo. Tende certeza de que me vereis novamente;

parti primeiro, porque minha tarefa na Terra havia terminado; cada um

tem a sua a cumprir aí e, quando a vossa estiver acabada, vireis repou

sar um pouco junto a mim, para recomeçar em seguida, se necessário,

levando-se em conta que não está na natureza ficar inativo. Cada um tem

suas tendências e a elas obedece; é uma lei suprema que prova o poder do

livre-arbítrio. Assim, boa amiga, indulgência e caridade, pois todos neces

sitamos, reciprocamente, seja no mundo visível, seja no invisível. Com

esta divisa, tudo vai bem.

“Não me mandastes parar; sabeis que converso longamente pela

primeira vez! Mas eu vos deixo; é a vez do meu excelente amigo, Sr.

Kardec. Quero agradecer-lhe as afetuosas palavras que dirigiu à amiga

que o precedeu no túmulo; porque nós quase partimos juntos para o

mundo onde me encontro, meu amigo! (Alusão à moléstia de que falara

o Dr. Demeure.) Que diria então a companheira dos vossos dias, se os

Espíritos bons nisto não tivessem posto boa ordem? Teria chorado e

gemido, o que até certo ponto compreendo. Mas também é preciso que

ela vele para que não vos exponhais novamente a novo perigo, antes

que tenhais acabado o vosso trabalho de iniciação espírita, sem o que

vos arriscais a chegar cedo demais entre nós e, como Moisés, só ver a

Terra Prometida de longe. Mantende-vos em guarda, pois é uma amiga

quem vos previne.

“Agora vou embora. Volto para junto de meus caros filhos; depois

vou ver, além dos mares, se minha ovelha viajante finalmente chegou ao

porto, ou se é joguete da tempestade. (Refere-se a uma das filhas que resi

dia na América.) Que os Espíritos bons a protejam; vou juntar-me a eles

para isto. Voltarei a conversar convosco, pois, como lembrais, sou uma

faladora infatigável. Adeus, bons e caros amigos. Até breve!”

Viúva Foulon(8 de fevereiro de 1865.)

P. Cara Sra. Foulon, estou muito contente com a comunicação que destes

outro dia, e com a promessa de continuar nossas conversas. Reconheci-vos per

feitamente na comunicação; ali faláveis de coisas ignoradas do médium, e que

não podiam vir senão de vós; depois, vossa linguagem afetuosa a nosso respeito

é bem a de vossa alma amorosa. Mas há em vossa linguagem uma segurança,

um aprumo, uma firmeza que não conhecia em vossa vida. Sabeis que a este

respeito eu me permiti fazer-vos mais de uma advertência em certas e determi

nadas circunstâncias.

R. É verdade e, porém, desde que me vi gravemente doente, recobrei

a firmeza de espírito, perdida pelos desgostos e vicissitudes que por vezes

me tinham tornado medrosa quando encarnada. Disse de mim para mim:

tu és espírita; esquece a Terra; prepara-te para a transformação de teu ser

e antevê, pelo pensamento, a senda luminosa que tua alma deve seguir ao

deixar o corpo, e que a conduzirá, feliz e liberta, às esferas celestes onde

viverás de agora em diante. Dir-me-eis que era um tanto presunçoso da

minha parte contar com a felicidade perfeita ao deixar a Terra; mas eu ti

nha sofrido tanto que devia ter expiado minhas faltas desta existência e das

precedentes. Esta intuição não me havia enganado; foi ela quem me deu

coragem, calma e firmeza nos últimos instantes. Essa firmeza naturalmente

aumentou quando vi, depois de morta, a realização das minhas esperanças.

P. Tende a bondade de descrever agora vossa passagem, o despertar e as

primeiras impressões sentidas.

R. Sofri, mas o meu Espírito foi mais forte do que o sofrimento

material, que o desprendimento o fazia experimentar. Encontrei-me, após

o último suspiro, em estado de síncope, sem a menor consciência de minha

situação, não pensando em nada e numa vaga sonolência, que não era o

sono do corpo nem o despertar da alma. Fiquei assim bastante tempo; de

pois, como se saísse de um longo desfalecimento, despertei pouco a pouco

entre irmãos que não conhecia. Eles me dispensaram cuidados e atenções;

mostraram-me um ponto no Espaço que parecia uma estrela brilhante e

me disseram: “É para lá que vais conosco; não pertences mais à Terra.”

Então recobrei a memória; apoiei-me neles e, como um grupo gracioso

que se lança para esferas desconhecidas, mas com a certeza de lá encontrar

a felicidade, subimos, subimos, à proporção que a estrela crescia. Era um

mundo feliz, um mundo superior, no qual a vossa boa amiga vai, enfim,

encontrar o repouso. Quero dizer o repouso em relação às fadigas corpo

rais que suportei e às vicissitudes da vida terrena, mas não a indolência do

Espírito, porque a atividade do Espírito é um prazer.

P. Deixastes definitivamente a Terra?

R. Deixo aqui muitos seres que me são caros para abandoná-la defi

nitivamente. A ela voltarei, portanto, mas como Espírito, pois tenho uma

missão a cumprir junto aos meus netos. Aliás, sabeis perfeitamente que

nenhum obstáculo se opõe a que os Espíritos que estacionam nos mundos

superiores à Terra venham visitá-la.

P. Parece que a posição em que estais pode enfraquecer vossas relações

com os que deixastes aqui.

R. Não, meu amigo; o amor aproxima as almas. Crede-me, pode-se

estar na Terra mais próximo dos que atingiram a perfeição do que daqueles

que por sua inferioridade e egoísmo gravitam ao redor da esfera terrestre.

A caridade e o amor são dois motores de poderosa atração. São o laço que

cimenta a união das almas ligadas entre si, laços persistentes, apesar da dis

tância e dos lugares. A distância só existe para os corpos materiais, nunca

para os Espíritos.

P. Que ideia fazeis agora de meus trabalhos sobre o Espiritismo?

P. Acho que estais encarregado de cuidar de almas e que o fardo é

difícil de suportar; mas vejo o objetivo e sei que o atingireis. Ajudar-vos-ei,

se possível, com meus conselhos de Espírito, a fim de que possais superar

as dificuldades que vos serão suscitadas, induzindo-vos a tomar certas me

didas adequadas a ativar, enquanto viverdes, o movimento renovador ao

qual o Espiritismo conduz. Vosso amigo Demeure, unido ao Espírito de

Verdade, vos prestará um concurso mais útil ainda; ele é mais sábio e mais

ponderado do que eu; mas como sei que a assistência dos Espíritos bons

vos fortalece e sustenta em vosso labor, crede que o meu concurso vos será

assegurado sempre e em toda parte.

P. Poder-se-ia deduzir de algumas de vossas palavras que não me dareis

uma cooperação muito ativa na propagação do Espiritismo?

R. Enganai-vos. Mas vejo tantos outros Espíritos mais capazes do

que eu para tratar desta importante questão, que um invencível sentimento

de timidez me impede, agora, de vos responder conforme o vosso desejo.

Talvez isto aconteça; terei mais coragem e ousadia, mas antes é preciso que

os conheça melhor. Morri há somente quatro dias; ainda estou sob o efeito

do deslumbramento que me rodeia. Não compreendeis, meu amigo? Não

consigo expressar as novas sensações que experimento. Tive de violentar--me para subtrair-me da fascinação que sobre o meu ser exercem as maravi

lhas que admiro. Não posso senão bendizer e adorar a Deus em suas obras.

Mas isso passará: os Espíritos me asseguram que logo estarei acostumada

com todas essas magnificências, e que então poderei, com minha lucidez de

Espírito, tratar de todas as questões relativas à renovação terrestre. Depois

pensai, sobretudo neste momento, que tenho uma família para consolar.

Adeus e até breve. De vossa boa amiga, que vos ama e sempre vos amará,

pois é a vós, mestre, que ela deve a única consolação durável e verdadeira

que experimentou na Terra.

Viúva Foulon

A comunicação seguinte foi destinada a seus filhos em data de 9 de

fevereiro de 1865:

“Meus amantíssimos filhos. Deus tirou-me de junto de vós, mas a

recompensa que se dignou conceder-me é bem maior que o pouco que fiz

na Terra. Resignai-vos, queridos filhos, às vontades do Altíssimo; tirai, de

tudo quanto vos permitiu receberdes, a força para suportar as provações da

vida. Tende firme no coração a crença que tanto me facilitou a passagem

da vida terrena para aquela que nos aguarda quando saímos desse mundo.

Depois da morte, Deus estendeu sobre mim, tal como já o havia feito na

Terra, o manto da sua misericórdia infinita. Agradecei-lhe por todos os

bens que vos concede. Abençoai-o, meus filhos, bendizei-o sempre, a todo

instante. Não percais nunca de vista o objetivo que vos foi indicado, nem

o caminho que tendes de trilhar. Meditai sobre a aplicação do tempo que

Deus vos concede na Terra. Aí sereis felizes, meus bem-amados, felizes uns

pelos outros, desde que a união reine entre vós. Felizes ainda com vossos

filhos, se os educardes no bom caminho, naquele que Deus permitiu que

vos fosse revelado. Não me podeis ver, é certo; mas convém que saibais que

os elos que aí nos ligavam não se romperam pela morte do corpo, já que

não era o envoltório, mas o Espírito que nos unia. É assim que me será

possível, pela bondade do Todo-Poderoso, vos guiar e encorajar na vossa

jornada, a fim de que mais tarde nos possamos juntar novamente.

“Caros filhos, cultivai carinhosamente esta crença sublime; belos

dias serão reservados a vós, que credes. Já vos disseram isso, porém a mim

não estava reservado ver esses dias aí na Terra. Será do Alto, pois, que julga

rei os belos tempos prometidos pelo Deus de bondade, justiça e misericór

dia. Não choreis, meus filhos. Que estas comunicações possam fortalecer

a vossa fé, o amor a Deus, esse Deus que tantos benefícios nos dispensou,

que tantas e tantas vezes socorreu vossa mãe. Orai sempre: a prece fortale

ce. Conformai-vos com as prescrições que segui com tanto ardor, quando

vivia encarnada entre vós. Voltarei, meus filhos, mas antes é preciso conso

lar minha pobre filha, que ainda precisa tanto de mim. Adeus, até breve.

Crede na bondade do Todo-Poderoso. Oro por vós. Adeus.”

Viúva Foulon

obsErvAção – Todo espírita sério e esclarecido facilmente tirará destas comuni

cações os ensinamentos que delas ressaltam. Só chamaremos a atenção para dois

pontos. O primeiro é que este exemplo mostra a possibilidade de não mais se

encarnar na Terra e passar daqui a um mundo superior, sem ser por isto separado

dos seres afeiçoados que aqui deixamos. Aqueles, pois, que temem a reencarnação,

por causa das misérias da vida, podem destas se libertar, fazendo o que é preciso,

isto é, trabalhando pelo seu melhoramento. Quem não quiser vegetar nas classes

inferiores, deve instruir-se e trabalhar para subir de grau.

O segundo ponto é a confirmação desta verdade: depois da morte estamos menos

separados dos seres que nos são caros do que durante a vida. Há alguns dias apenas

a Sra. Foulon, retida pela idade e pela enfermidade numa pequena cidade do Sul,

não tinha a seu lado senão uma parte da família. Como a maioria dos filhos e dos

amigos estava longe, obstáculos materiais se opunham a que os pudesse ver tão

frequentemente quanto uns e outros teriam desejado. O grande afastamento tor

nava mesmo a correspondência rara e difícil para alguns. Tão logo desembaraçada

de seu pesado envoltório vai ao encontro de cada um e, sem afadigar-se, transpõe

distâncias com a rapidez da eletricidade, os vê, assiste às suas reuniões íntimas,

envolve-os com a sua proteção e pode, por meio da mediunidade, entreter-se com

eles a cada instante, como quando viva. E dizer que a este pensamento consolador

há gente que prefira a ideia de uma eterna separação!

Um médico russo

O Sr. P..., de Moscou, era um médico tão eminente pelo saber

como pelas qualidades morais. Quem o evocou apenas o conhecia pela

fama que o seu nome inspirava, não tendo tido com ele senão relações

indiretas. A comunicação original foi dada em idioma russo.

P. (Depois da evocação.) Estais presente? – R. Sim. No dia da mi

nha morte vos persegui com a minha presença, mas resististes a todas as

tentativas que fiz para escreverdes. As palavras que dissestes a meu res

peito levaram-me a vos reconhecer, e daí o desejo de conversar convosco

para vos ser útil.

P. Por que sofrestes tanto, já que éreis tão bom? – R. Foi uma graça do Se

nhor, que dessa maneira quis que eu sentisse duplamente o preço da minha

libertação e, ao mesmo tempo, progredisse na Terra tanto quanto possível.

P. A ideia da morte vos causou terror? – R. Não; eu tinha bastante fé

em Deus para que assim não sucedesse.

P. O desprendimento foi doloroso? – R. Não. O que denominais de

últimos momentos nada é. Senti apenas um rápido abalo, para em seguida

encontrar-me feliz por me haver libertado da mísera carcaça.

P. E que aconteceu depois? – R. Vi inúmeros amigos aproximando--se de mim, sobretudo os que tive a satisfação de ajudar, dando-me

todos as boas-vindas.

P. Que região habitais? Algum planeta? – R. Tudo que não seja planeta

constitui o que chamais Espaço. É aí que me encontro. Mas quantas gra

dações existem nessa imensidade, das quais o homem não pode fazer ideia!

Quantos degraus nessa escada de Jacó que vai da Terra ao Céu, isto é, do

aviltamento da encarnação em mundo inferior, como o vosso, até a depu

ração completa da alma! Aqui onde ora me encontro só se chega depois de

uma série enorme de provas, ou seja, depois de muitas encarnações.

P. Sendo assim, deveis ter tido muitas existências? – R. Como poderia

ser de outro modo? Não há exceções na ordem imutável estabelecida por

Deus. A recompensa só pode vir depois da luta vencida. Quanto maior

a recompensa, maior a luta, mas a vida humana é tão curta que a luta

apenas se trava por intervalos, que são as diferentes existências sucessivas.

Ora, se me encontro num lugar elevado, é porque o alcancei depois de

uma série de combates, nos quais Deus me permitiu que saísse vitorioso

algumas vezes.

P. Em que consiste a vossa felicidade? – R. Isso é mais difícil de vos

fazer compreender. A felicidade que desfruto é uma espécie de contenta

mento extremo de mim mesmo, não pelos meus méritos, o que seria or

gulho e marca de Espíritos atrasados, mas um contentamento, por assim

dizer, imerso no amor de Deus, no reconhecimento da sua bondade infi

nita. Em suma, é a alegria que nos infunde o bem, de poder dizer: talvez

eu tenha contribuído para o progresso de algumas criaturas que se eleva

ram ao Senhor. Ficamos como que identificados com o bem-estar, que é

uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina. Temos o dom de

ver os Espíritos mais adiantados, de compreender-lhes a missão, que tam

bém alcançaremos o nível deles; entrevemos, no infinito incomensurável,

a região em que mais resplandece o fogo divino, a ponto de deslumbrar--nos, mesmo através do véu que as envolve. Mas que digo? Compreendeis

as minhas palavras? Acreditais que esse fogo a que me refiro é comparável

ao Sol, por exemplo? Não, não. É uma coisa impossível de dizer ao ho

mem, uma vez que as palavras só exprimem para ele os objetos, as coisas

físicas ou metafísicas que conhece de memória ou intuitivamente. Já que

o homem não pode guardar na memória o que absolutamente desconhe

ce, não dispõe de termos que possam levar a essa compreensão. Ficai,

porém, ciente de que já é uma grande ventura pensar na possibilidade de

progredir infinitamente.

P. Dissestes que queríeis ser útil a mim. Em que, por favor? – R. Pos

so ajudar nos vossos desfalecimentos, fortalecer-vos nos momentos de

desânimo, consolar nas vossas aflições. Se a vossa fé se abalar e alguma

comoção vos perturbar, evocai-me, porque Deus me lembrará do com

promisso de vos reconduzir a Ele. Se vos sentirdes prestes a sucumbir sob

o peso das más tendências de que vos reconheceis culpados, chamai-me

ainda, porque eu vos ajudarei a carregar a vossa cruz, como outrora Jesus

foi auxiliado a carregar a sua, aquela que tão solenemente devia procla

mar a verdade e a caridade. Se vacilardes ao peso dos próprios dissabores

e o desespero se apoderar de vós, ainda uma vez chamai-me para que

venha arrancar-vos do abismo, falando-vos espiritualmente, lembrando

deveres impostos, não por considerações sociais ou materiais, mas pelo

amor que vos transfundirei na alma, amor que Deus me concedeu em

favor dos que por Ele podem salvar-se.

Por certo tendes amigos na Terra, os quais, compartilhando das vos

sas angústias, talvez já vos tenham socorrido alguma vez. Não os procurais

nos momentos de aflição, levando a eles os vossos lamentos e lágrimas, e

deles recebendo conselhos, apoio e carícias como provas de afeição? Pois

bem! Ficai certo de que no Espaço também podeis ter amigos úteis e pres

timosos. É uma consolação poder dizer: quando eu morrer, meus amigos

da Terra estarão à minha cabeceira, orando e chorando por mim, enquanto

no limiar da vida meus amigos do Espaço irão conduzir-me jubilosamente

ao lugar determinado pelos meus méritos e virtudes.

P. Por que faço jus a essa proteção que quereis dispensar-me? – R. É

porque me afeiçoei a vós desde o dia da minha morte. Eu vos vi como

espírita, bom médium e adepto sincero. E como dentre tantos que aí

deixei, fostes vós que vi primeiramente, logo me propus contribuir para

o vosso progresso. O proveito não é apenas vosso, mas também dos

que deveis instruir no conhecimento da verdade. Como vedes, Deus

vos ama a ponto de vos fazer missionário. Ao vosso derredor, todos vão

partilhando pouco a pouco das vossas crenças. Os mais rebeldes não

deixam de vos ouvir e um dia vereis que vos aceitam. Jamais desanimeis;

caminhai sempre, apesar dos pedregulhos. Tomai-me por apoio nos mo

mentos de desânimo.

P. Não me julgo digno de tão grande favor. –R. Certamente estais bem

longe da perfeição. Não obstante, o vosso ardor em propagar as sãs doutri

nas; o cuidado em manter a fé dos que vos ouvem; os conselhos que dais

sobre a prática da caridade, da bondade e da benevolência, mesmo para os

que se conduzem mal convosco; vossa resistência em não se encolerizar,

quando seria tão fácil despejar sobre os outros o vosso rancor; tudo isso

atenua a maldade que ainda possuís. Convém que o diga: o perdão das

ofensas é um dos mais poderosos atenuantes do mal. Deus vos cumula

de graças pela faculdade que vos concedeu, e que deveis desenvolver pelo

esforço próprio, a fim de cooperardes na salvação do próximo. Vou deixar--vos, porém contai sempre comigo. Tratai de moderar as ideias terrenas,

vivendo o mais possível com os amigos do Espaço.

P...

(Bordeaux, abril de 1862.)

Sou um Espírito esquecido há muitos séculos. Na Terra vivi no

opróbrio e na miséria, trabalhando incessantemente para dar à família

um pedaço de pão. Amava, porém, o verdadeiro Senhor, e quando o que

me oprimia na Terra sobrecarregava o fardo das minhas dores, eu dizia:

“Meu Deus, dai-me a força de suportar-lhe o peso sem queixumes.”

Expiava, meus amigos. No entanto, ao sair da rude provação, o Senhor

recebeu-me na sua santa paz e o meu mais caro voto foi reunir-vos a

todos, irmãos e filhos, dizendo: “Por mais cara que a julgueis, a felici

dade que vos espera há de suplantar o seu preço.” Filho de numerosa

família, jamais tive posição e servi a quem melhor podia auxiliar-me

a suportar a existência. Nascido em época de servidão cruel, suportei

todas as injustiças, todos os trabalhos penosos, todos os dissabores que

os subalternos do Senhor me impuseram. Vi minha mulher ser ultrajada

e as filhas raptadas e repudiadas em seguida, tudo sem poder queixar--me; vi levarem meus filhos às guerras de pilhagens e de crimes, para os

enforcarem depois por faltas não cometidas. Ah! se soubésseis, pobres

amigos, o que padeci na minha longa existência! Eu esperava, contudo,

e o Senhor concedeu-me essa felicidade que não existe na Terra. A todos

vós, portanto, coragem, paciência e resignação. Tu, meu filho, guarda o

que te dei e que é um ensinamento prático. Quem aconselha é sempre

mais acatado quando pode dizer: Suportei mais que vós, e suportei sem

me queixar.

P. Em que época vivestes? – R. De 1400 a 1460.

P. E tiveste outra existência depois? – R. Vivi ainda entre vós como

missionário da fé, porém da fé pura, verdadeira, provinda de Deus, e não

da fé manipulada pelos homens.

P. E agora, como Espírito, ainda tendes ocupações? – R. Acreditaríeis

então que os Espíritos ficassem inativos? A inação, a inutilidade ser-nos-ia

um suplício. A minha missão consiste em guiar centros espíritas, aos quais

inspiro bons pensamentos, ao mesmo tempo que me esforço por neutrali

zar os que são sugeridos pelos Espíritos maus.

Bernardin

Condessa Paula

Bela, jovem, rica e de família ilustre, a condessa Paula era também per

feito modelo de qualidades intelectuais e morais. Faleceu em 1851, com 36

anos. Seu necrológio é daqueles que podem resumir-se nestas palavras, repeti

das em todas as bocas: “Por que Deus retira tão cedo essas pessoas da Terra?”

Felizes os que assim fazem abençoada a sua memória! Ela era boa, meiga e in

dulgente, sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal, em vez de aumentá-lo.

Jamais a maledicência lhe maculara os lábios. Sem arrogância nem austerida

de, era, ao contrário, com benevolência e delicada familiaridade que tratava

os que lhe eram inferiores, sem quaisquer aparências de superioridade ou de

humilhante proteção. Compreendendo que as pessoas que vivem do trabalho

não são rendeiros e que, por conseguinte, precisam do dinheiro que se lhes

deve, seja pela sua condição, seja para se manterem, jamais reteve o paga

mento de um salário. A simples ideia de que alguém pudesse experimentar

uma privação, por sua causa, ser-lhe-ia um remorso de consciência. Ela não

pertencia ao número dos que sempre encontram dinheiro para satisfazer as

fantasias, sem pagarem as próprias dívidas; não podia compreender que hou

vesse prazer para o rico em ter dívidas, e se julgaria humilhada se lhe dissessem

que seus fornecedores eram constrangidos a fazer-lhe adiantamentos. Por isso,

só houve pesares por ocasião da sua morte e nenhuma reclamação.

A sua beneficência era inesgotável, mas não essa beneficência con

vencional que se ostenta à luz do dia. Exercia a caridade do coração, e

não a que busca os aplausos do mundo. Só Deus sabe as lágrimas que ela

enxugou e os desesperos que acalmou, pois tais virtudes só tinham por

testemunhas os infelizes que assistia. Sabia, como ninguém, descobrir os

infortúnios ocultos, que são os mais dolorosos, socorrendo-os com aquela

delicadeza que eleva o moral em vez de o rebaixar.

Sua posição na sociedade e as altas funções do marido obrigavam-na

a lidar com onerosos encargos domésticos, aos quais não podia eximir-se.

Satisfazendo plenamente às exigências de sua posição, ela o fazia, contu

do, sem avareza e com método, evitando desperdícios e superfluidades, a

tal ponto que lhe bastava a metade do que a outrem seria preciso para se

desincumbir da mesma tarefa.

E desse modo ela podia reservar uma parte maior da sua fortuna para

assistir os necessitados, já que as economias que fazia na administração da

casa lhe permitiam destinar parte dessa fortuna exclusivamente para tal

fim, que considerava sagrado. Encontrara, assim, meios de conciliar os seus

deveres para com a sociedade e para com os infortúnios.73 Um dos seus

parentes, iniciado no Espiritismo, evocou-a doze anos depois de falecida,

obtendo a seguinte comunicação em resposta a diversas perguntas:74

“Tendes razão, meu amigo, em pensar que sou feliz. Realmente sou

feliz, muito mais do que a linguagem pode exprimir, embora ainda esteja

longe de atingir o último grau. Estive na Terra entre os felizes, pois não me

lembro de aí haver experimentado um só desgosto real. Juventude, saúde,

fortuna, consideração, eu tinha tudo o que entre vós constitui a felicidade.

O que é, no entanto, essa felicidade, comparada à que desfruto aqui? O

que são essas festas esplêndidas, em que na Terra se exibem as mais belas

joias, comparadas a estas assembleias de Espíritos resplendentes de brilho

que as vossas vistas não suportariam, brilho que é atributo da sua pureza?

Que são os vossos palácios e salões dourados comparados a estas moradas

aéreas, vastas regiões do Espaço matizadas de cores que ofuscariam o pró

prio arco-íris? A que se reduzem os vossos passeios nos parques, compara

dos aos percursos da imensidade, mais rápidos que o relâmpago? E que di

zer desses horizontes nebulosos e limitados, comparados ao espetáculo de

mundos a se moverem no universo infinito ao influxo do Altíssimo? Como

são monótonos os vossos concertos mais harmoniosos em relação à suave

melodia que faz vibrar os fluidos do éter e todas as fibras da alma! E como

são tristes e insípidas as vossas maiores alegrias comparadas à sensação ine

fável de felicidade que nos satura todo o ser como um eflúvio benéfico, sem

mescla de inquietação, de apreensão, de sofrimento?! Aqui tudo transpira

amor, confiança, sinceridade; por toda parte corações amantes, amigos por

toda parte! Em parte alguma invejosos e ciumentos! É este o mundo em

que me encontro, meu amigo, e ao qual chegareis infalivelmente, se seguir

des o reto caminho da vida.

“Entretanto, a felicidade uniforme logo fatigaria; não acrediteis,

pois, que a nossa seja isenta de peripécias: nem concerto perene, nem festa

interminável, nem beatífica contemplação por toda a eternidade, mas o

movimento, a vida, a atividade. As ocupações, embora livres de fadiga,

apresentam incessante variedade de aspectos e emoções pelos mil e um

incidentes que se lhes associam. Cada qual tem sua missão a cumprir, pro

tegidos a velar, amigos terrenos a visitar, mecanismos da natureza a dirigir,

almas sofredoras a consolar; é um vaivém contínuo, não de uma rua a ou

tra, porém de um a outro mundo; reunimo-nos, separamo-nos para nova

mente nos juntarmos; encontramo-nos aqui e ali, conversamos sobre o que

fizemos, felicitamo-nos pelos êxitos obtidos; ajustamo-nos, assistimo-nos

mutuamente nos casos difíceis. Finalmente, asseguro-vos que ninguém

tem tempo para enfadar-se por um segundo que seja.

“Neste momento, a Terra é a nossa grande preocupação. Quanto mo

vimento entre os Espíritos! Quão numerosas são as falanges que aí afluem,

a fim de lhe auxiliarem o progresso e a evolução! Dir-se-ia uma nuvem de

trabalhadores ocupados em destrinçar uma floresta, sob as ordens de chefes

experimentados; uns abatem troncos seculares e lhes arrancam as raízes

profundas; outros desbravam o terreno, cultivam terra e edificam a nova

cidade sobre as ruínas carcomidas do Velho Mundo. Durante esse tempo,

os chefes se reúnem e transmitem suas ordens por intermédio de mensagei

ros, em todas as direções. A Terra deve regenerar-se em dado tempo, pois

é preciso que os desígnios da Providência se realizem. É por isso que cada

um toma parte na grande obra. Não me julgueis simples expectadora desta

grande empresa; eu teria vergonha de permanecer inativa, quando tanta

gente nela trabalha. Importante missão me foi confiada e me esforço por

cumpri-la da melhor forma possível.

“Não foi sem luta que alcancei a posição que ora ocupo na vida espi

ritual; e ficai certo de que a minha última existência, por mais meritória que

vos pareça, não era por si só bastante para tanto. Durante várias existências

passei por provas de trabalho e miséria que voluntariamente havia escolhido

para fortalecer e depurar a minha alma; tive a felicidade de sair vitoriosa

dessas provas, mas restava uma, de todas a mais perigosa: a da fortuna e do

bem-estar material, um bem-estar sem sombras de desgosto. Nisso consistia

o perigo. Antes de o tentar eu quis sentir-me bastante forte para não su

cumbir. Deus levou em conta as minhas boas intenções e concedeu-me a

graça do seu auxílio. Muitos outros Espíritos, seduzidos pelas aparências,

apressam-se por escolher essa prova, mas, fracos para afrontar-lhe os peri

gos, deixam que as seduções do mundo triunfem sobre a sua inexperiência.

“Trabalhadores! Estou nas vossas fileiras: eu, a dama nobre, ganhei

o pão, assim como vós, com o suor do meu rosto; passei privações, sofri

reveses e foi isso que me retemperou as forças da alma; do contrário eu

teria falido na última prova, o que me teria deixado para trás na minha

carreira. Como eu, também tereis a vossa prova da riqueza, mas não vos

apresseis em pedi-la cedo demais. E vós, que sois ricos, tende sempre em

mente que a verdadeira fortuna, a fortuna imperecível, não existe na Terra;

procurai antes saber o preço pelo qual podeis alcançar os benefícios do

Todo-Poderoso.”

Paula, na Terra Condessa de...

Jean Reynaud

(Sociedade Espírita de Paris – Comunicação espontânea.)

“Meus amigos, como é magnífica esta nova vida! Semelhante a lu

minosa torrente, arrasta no seu curso imenso as almas sequiosas do infi

nito! Após a ruptura dos laços carnais, meus olhos abarcaram os novos

horizontes que me cercam e pude fruir das esplêndidas maravilhas do in

finito! Passei das sombras da matéria à aurora deslumbrante que anuncia

o Todo-Poderoso. Estou salvo, não pelo mérito de minhas obras, mas pelo

conhecimento do princípio eterno, que me fez evitar as máculas impres

sas pela ignorância na própria humanidade. Minha morte foi abençoada;

meus biógrafos a julgaram prematura. Ah! os cegos! Lamentarão alguns

escritos nascidos da poeira e não compreenderão o quanto é útil, para a

santa causa do Espiritismo, o pouco ruído que se faz em torno do meu

túmulo recém-fechado. Minha obra estava terminada; meus antecessores

abriram o caminho; eu havia alcançado este ponto culminante em que o

homem deu o que tinha de melhor e onde não faz mais que recomeçar.

Minha morte desperta a atração dos letrados sobre a minha obra capital,

que interessa à grande questão espírita, que eles fingem desconhecer, mas

que muito em breve os empolgará. Glória a Deus! Ajudado pelos Espíritos

superiores, que protegem a nova doutrina, serei um dos batedores que

assinalam a vossa estrada.”

Jean Reynaud

(Paris; reunião familiar. Outra comunicação espontânea.)

O Espírito responde a uma reflexão sobre sua morte inesperada, em

idade pouco avançada, o que surpreendeu a muita gente:

“Quem me diz que a minha morte não foi um benefício para o

Espiritismo, para o seu futuro, para as suas consequências? Notastes, meu

amigo, a marcha que segue o progresso, o caminho que toma a fé espírita?

Deus, primeiramente, deu provas materiais: dança das mesas, batidas e

toda sorte de fenômenos; era para chamar a atenção; era um preâmbulo

divertido. Para crer, os homens necessitam de provas palpáveis. Agora a

coisa é completamente diferente. Após os fatos materiais, Deus fala à in

teligência, ao bom senso, à razão fria; já não se trata de manifestações de

força, mas de coisas racionais, que devem convencer e até congraçar os

incrédulos mais obstinados. E isto é apenas o começo. Notai bem o que

vos digo: toda uma série de fatos inteligentes, irrefutáveis vão seguir-se,

e o número dos adeptos da fé espírita, já tão grande, vai aumentar ainda

mais. Deus vai conquistar as inteligências de escol, as sumidades do espí

rito, do talento e do saber. Será um raio luminoso a espalhar-se por toda

a Terra, como um fluido magnético irresistível, impelindo os mais recal

citrantes à busca do infinito, ao estudo dessa admirável ciência, que nos

ensina máximas tão sublimes. Todos vão agrupar-se em torno de vós e,

abstração feita do diploma de gênio que lhes havia sido dado, vão fazer-se

humildes e pequenos, para que aprendam e se convençam. Depois, mais

tarde, quando estiverem bem instruídos e bem convencidos, servir-se-ão

de sua autoridade e da fama de seus nomes para levar mais longe ainda,

aos seus últimos limites, a meta a que todos vos propusestes: a regeneração

da espécie humana pelo conhecimento raciocinado e aprofundado das

existências passadas e futuras. Eis a minha sincera opinião sobre o estado

atual do Espiritismo.”

(Bordeaux)

EvocAção – Atendo com prazer ao vosso apelo, senhora. Sim, ten

des razão: a bem dizer, a perturbação espiritual não existiu para mim (isso

correspondia ao pensamento do médium). Exilado voluntariamente em

vossa Terra, onde deveria lançar a primeira semente séria das grandes ver

dades, que atualmente envolvem o mundo, sempre tive consciência da pá

tria e logo me reconheci em meio aos meus irmãos.

P. Agradeço-vos por terdes vindo. Mas não acreditava que meu desejo de

conversar tivesse alguma influência sobre vós. Deve haver, necessariamente, tão

grande diferença entre nós, que só penso nisto com respeito.

R. Obrigado, minha filha, por este bom pensamento. Mas deveis

saber também, seja qual for a distância que entre nós se possa estabelecer

quanto às provas acabadas, mais ou menos prontamente, mais ou menos

felizes, que há sempre um laço poderoso a nos unir: a simpatia; e este laço

vós o apertastes pelo vosso pensamento constante.

P. Apesar de muitos Espíritos terem explicado suas primeiras sensações ao

despertar, teríeis a bondade de me dizer o que experimentastes ao vos reconhe

cer, e como se operou a separação entre o Espírito e o corpo?

R. Do mesmo modo que para todas as pessoas. Senti o momento

da separação aproximar-se; contudo, mais feliz que muitos, não me cau

sou angústia, posto que lhe conhecia os resultados, embora fossem ainda

maiores do que eu pensava. O corpo é um entrave às faculdades espirituais

e, sejam quais forem as luzes que se tenha conservado, são sempre mais

ou menos abafadas pelo contato da matéria. Adormeci esperando um des

pertar feliz; o sono foi curto, a admiração imensa! Desdobrados aos meus

olhos, os esplendores celestes brilhavam com toda a sua magnificência.

Meu olhar maravilhado mergulhava nas imensidades desses mundos, cuja

existência e habitabilidade eu afirmara. Era uma miragem que me con

firmava a verdade de meus sentimentos. Por mais seguro que se julgue o

homem ao falar, às vezes tem no fundo do coração momentos de dúvida,

de incerteza; desconfia, se não da verdade que proclama, pelo menos dos

meios imperfeitos que emprega para a demonstrar. Convencido da verda

de que queria que admitissem, muitas vezes tive de combater contra mim

mesmo, contra o desânimo de ver, de tocar, por assim dizer, a verdade, e de

não poder torná-la palpável aos que teriam tanta necessidade de nela crer

para marchar com segurança na estrada que devem seguir.

P. Em vida professáveis o Espiritismo?

R. Entre professar e praticar há grande diferença. Muita gente pro

fessa uma doutrina que não pratica; eu praticava e não professava. Assim

como todo homem que segue as leis do Cristo é cristão, ainda que não as

conhecesse, também todo homem pode ser espírita, contanto que creia em

sua alma imortal, em suas preexistências, em sua marcha progressiva inces

sante, em suas provas terrestres e nas abluções necessárias para se depurar.

Eu acreditava nisto; era, pois, espírita. Compreendi a erraticidade, este laço

intermediário entre as encarnações, esse purgatório onde o Espírito culpa

do se despoja de suas vestes sujas para se revestir de uma outra, em que o

Espírito em progresso tece com cuidado a túnica que vai usar novamente e

que deseja conservar pura. Como vos disse, compreendi e, sem professar,

continuei a praticar.

obsErvAção – Estas três comunicações foram obtidas por três médiuns diferen

tes, completamente estranhos entre si. Não temos nenhuma prova material da

identidade do Espírito que se manifestou, porém, pela analogia dos pensamentos,

pela forma da linguagem, podemos admitir, ao menos, a presunção de identidade.

A expressão tece com cuidado a túnica que vai usar novamente é uma encantadora

figura que pinta a solicitude com a qual o Espírito em progresso prepara a nova

existência que o deve fazer progredir. Os Espíritos atrasados são menos cautelosos

e, por vezes, fazem escolhas infelizes que os forçam a recomeçar.

Antoine Costeau

Membro da Sociedade Espírita de Paris, sepultado em 12 de setem

bro de 1863 no cemitério de Montmartre, em vala comum. Era um ho

mem de coração que o Espiritismo reconduzia a Deus. Sua fé no futuro

era completa, sincera e profunda. Simples calceteiro,75 praticava a caridade

por pensamentos, palavras e obras, consoante os parcos recursos de que

dispunha, pois sempre achava meios de assistir os que tinham menos do

que ele. Se a Sociedade de Paris não lhe adquiriu uma sepultura particular,

foi porque lhe pareceu dever antes empregar mais utilmente o dinheiro em

benefício dos vivos do que em vãs satisfações do amor-próprio, além de

que nós, os espíritas, sabemos melhor que ninguém que a vala comum é,

tanto quanto os mais suntuosos mausoléus, uma porta aberta para o céu.

O Sr. Canu, secretário da Sociedade, outrora profundo materialista,

pronunciou sobre o túmulo a seguinte alocução:

“Caro irmão Costeau, há apenas alguns anos, muitos de nós, e con

fesso que eu era o primeiro, não teríamos visto ante esta cova aberta senão

o fim das misérias humanas e, depois, o nada, o terrível nada, isto é, nada

de alma para merecer ou expiar e, consequentemente, nada de Deus para

recompensar, castigar ou perdoar. Hoje, graças à nossa divina doutrina,

aqui vemos o fim das provas, e para vós, caro irmão, cujos despojos mortais

restituímos à Terra, o triunfo de vossos labores e o começo da merecida

recompensa pela vossa coragem, pela vossa resignação, pela vossa caridade,

numa palavra, pelas vossas virtudes e, acima de tudo, vemos a glorificação

de um Deus sábio, Todo-Poderoso, justo e bom. Levai, pois, caro irmão,

nossas ações de graças aos pés do Eterno, que se dignou dissipar à nossa

volta as trevas do erro e da incredulidade, porque, ainda pouco tempo

atrás, nesta circunstância, nós vos teríamos dito, com a fronte abatida e o

coração desalentado: Adeus, amigo, para sempre. Hoje vos dizemos, com a

fronte erguida e radiante de esperança, o coração cheio de coragem e amor:

Caro irmão, até mais ver; orai por nós.”76

Um dos médiuns da Sociedade obteve ali mesmo sobre a sepultura,

ainda entreaberta, a seguinte comunicação, ouvida por todos os presentes,

inclusive os coveiros, de cabeça descoberta e com profunda emoção. Era,

realmente, um espetáculo novo e surpreendente esse de ouvir palavras de

um morto, recolhidas do seio do próprio túmulo:

“Obrigado, meus amigos, obrigado. Minha sepultura ainda não está

fechada e, no entanto, mais um segundo e a terra vai cobrir meus despojos.

Mas vós o sabeis, sob esta poeira minha alma não será enterrada: vai planar

no Espaço para subir a Deus! Assim, como é consolador poder dizer ainda,

apesar do invólucro partido: Oh! não, não estou morto! Vivo a verdadeira

vida, a vida eterna!

“O enterro do pobre não tem grandes cortejos. Orgulhosas mani

festações não correm sobre o seu túmulo; e, contudo, amigos, crede-me,

imensa multidão aqui não falta e os Espíritos bons seguiram convosco e

com essas mulheres piedosas o corpo que aí jaz estendido! Pelo menos to

dos acreditais e amais o bom Deus!

“Oh! certo que não! Não morremos só porque o nosso corpo se ani

quila, esposa bem-amada! Doravante estarei sempre ao teu lado, para te

76 Nota de Allan Kardec: Para mais detalhes, e outros discursos, veja-se a Revista espírita de

outubro de 1863.

consolar e te ajudar a suportar a prova. A vida será rude para ti, mas com

a ideia da eternidade e do amor de Deus plenificando o teu coração, como

te serão leves os sofrimentos! Parentes que amparais minha bem-amada

companheira, amai-a, respeitai-a; sede para ela irmãos e irmãs. Não vos

esqueçais de que na Terra todos vos deveis assistência, se quiserdes entrar

na morada do Senhor.

“E vós, espíritas, irmãos amigos, obrigado por terdes vindo dizer--me adeus até esta morada de pó e lama; mas sabeis, sabeis perfeitamente

que minha alma vive para a imortalidade e que irá algumas vezes vos pedir

preces, que não me serão recusadas, para me ajudar a marchar nesta via

magnífica que me abristes durante a vida. Adeus a todos que aqui estais;

poderemos nos rever noutro lugar que não neste túmulo. As almas me

chamam a conferenciar. Orai pelos que sofrem. Até mais ver.”

Costeau

Três dias mais tarde, evocado num grupo particular, o Espírito

Costeau ditou a seguinte comunicação, por outro médium:

“A morte é a vida. Não faço mais que repetir o que já disseram, mas

para vós não há outra expressão senão esta, a despeito do que afirmam

os materialistas, os que preferem ficar cegos. Oh! meus amigos, que belo

espetáculo sobre a Terra, o de ver tremular os estandartes do Espiritismo!

Ciência profunda, imensa, da qual apenas soletrais as primeiras palavras!

Quantas claridades ela traz aos homens de boa vontade, aos que rompe

ram as terríveis cadeias do orgulho, para proclamar bem alto a sua crença

em Deus! Orai, homens, rendei graças por tantos benefícios. Pobre hu

manidade! Ah! se te fora dado compreender!... Mas não, que o tempo

não é chegado ainda, no qual a misericórdia do Senhor deve estender-se

por sobre todos os homens, a fim de lhe reconhecerem as vontades e a

elas se submeterem.

“É por teus raios luminosos, ciência bendita, que eles lá chegarão e

compreenderão. Ao teu calor benéfico aquecerão os corações, tonificando--os no fogo divino, portador de consolações, como de fé. Aos teus raios

vivificantes, o mestre e o operário virão confundir-se e identificar-se, compe

netrados dessa caridade fraterna preconizada pelo divino Messias.

“Oh! meus irmãos, pensai na felicidade imensa que possuís como

primeiros iniciados na obra da regeneração. Honra vos seja feita, amigos!

Prossegui e um dia, como eu, vendo a pátria dos Espíritos, exclamareis:

A morte é a vida; ou antes um sonho, espécie de pesadelo que dura o es

paço de um minuto e do qual despertamos para nos vermos rodeados de

amigos que nos felicitam, contentes por nos abraçarem. Tão grande foi a

minha ventura, que eu não podia compreender que Deus me destinasse

tantas graças em troca do pouco que fiz. Parecia-me sonhar, e como outro

ra me acontecia sonhar que estava morto, temi por instantes ser obrigado

a voltar ao infeliz corpo, mas não tardou que me desse conta da realidade

e rendesse graças a Deus. Eu bendizia o mestre que tão bem soube incutir--me os deveres de homem que crê na vida futura. Sim, eu o bendizia e lhe

agradecia, pois O livro dos espíritos despertara em minha alma os impulsos

de amor ao Criador.

“Obrigado, meus bons amigos, porque me atraístes para junto de

vós. Dizei aos nossos irmãos que estou muitas vezes com o nosso Sanson.

Até outro dia e coragem, porque o triunfo vos espera. Felizes os que hou

verem tomado parte no combate!”

Daí por diante, o Sr. Costeau manifestou-se constantemente, na

Sociedade de Paris e em outras reuniões, dando sempre provas dessa

elevação de pensamentos que caracteriza os Espíritos adiantados.

Emma Livry

A Srta. Emma Livry morreu na flor da idade, após cruéis sofrimen

tos, em consequência de um acidente causado por fogo. Alguém se propu

sera solicitar a sua evocação na Sociedade Espírita de Paris, quando ela se

apresentou espontaneamente a 31 de julho de 1863, pouco tempo depois

de haver morrido.

“Eis-me aqui ainda no cenário do mundo, eu que me julgava se

pultada para sempre no véu da inocência e da juventude. Na minha fé

católica, pensei que o fogo da Terra me salvaria do fogo do inferno e, se

não ousava entrever os esplendores do paraíso, minha alma trêmula se

refugiava na expiação do purgatório, enquanto eu orava, sofria e chora

va. Mas quem dava ao ânimo abatido a força de suportar as angústias?

Quem, nas longas noites de insônia e de febre dolorosa, se inclinava

sobre o leito de martírios? Quem me refrescava os lábios sedentos? Éreis

vós, meu anjo da guarda, cuja auréola branca me cercava; e éreis vós

outros, Espíritos caros e amigos, que vínheis murmurar ao meu ouvido

palavras de esperança e de amor.

“A chama que consumia meu pobre corpo também me despojou das

suas cadeias e, assim, morri vivendo já a verdadeira vida. Não experimentei

a perturbação; entrei serena e recolhida no dia radioso que envolve os que,

depois de muito terem sofrido, souberam esperar um pouco. Minha mãe,

minha querida mãe foi a última vibração terrestre que me repercutiu na

alma. Como gostaria que ela se tornasse espírita! Despedi-me da Terra qual

fruto maduro que se destacasse da árvore antes do tempo. Eu não tinha

sido tocada pelo demônio do orgulho, que fere as almas desditosas, arras

tadas pelos sucessos embriagadores e brilhantes da juventude.

“Bendigo, pois, o fogo, o sofrimento, a prova, que não passavam

de expiação. Semelhante a esses brancos e leves fios do outono, flutuo na

torrente luminosa, e não são mais as estrelas de diamante que brilham na

minha fronte, mas as estrelas de ouro do bom Deus.”

Emma Livry

No dia 30 de julho de 1863 o mesmo Espírito deu espontaneamente

a seguinte comunicação, a partir de outro Centro Espírita do Havre:

“Deus recompensa na outra vida os que sofrem na Terra. Ele é todo

justiça e misericórdia para os que sofrem nesse mundo. Concede-lhes uma

felicidade tão pura e tão perfeita que não se deveria temer os sofrimen

tos nem a morte, se fosse possível às pobres criaturas humanas sondar os

seus misteriosos desígnios. Mas a Terra é um lugar de provas imensas,

quase sempre repletas de dores atrozes. Resignai-vos, se elas vos ferirem;

inclinai-vos diante da suprema bondade do Todo-Poderoso, se Ele vos

sobrecarregar de pesados fardos. E, quando vos chamar a si, depois de

cruéis sofrimentos, vereis na outra vida, que é a vida verdadeira, quão

insignificantes eram as provas e dores que sofrestes na Terra. Só então

sereis capaz de julgar a recompensa que Deus vos reserva, caso a queixa e

o murmúrio não tenham penetrado os vossos corações. Bem jovem ainda

deixei a Terra; Deus houve por bem me perdoar e me dar a vida dos que

respeitaram suas vontades. Adorai sempre a Deus; amai-o de todo o cora

ção; orai sempre, orai firmemente, Ele é o vosso amparo na Terra, a vossa

esperança, a vossa salvação.”

Emma Livry

Dr. Vignal

Antigo membro da Sociedade de Paris, falecido em 27 de março

de 1865. Na véspera do enterro, um sonâmbulo lúcido e ótimo vidente,

a quem se solicitara que se transportasse para junto dele e narrasse o que

visse, respondeu o seguinte:

“Vejo um cadáver no qual se opera um trabalho extraordinário. Dir--se-ia uma massa que se agita e como algo que faz esforços para se libertar

dela, mas que tem dificuldade em vencer a resistência. Não distingo forma

de Espírito bem determinada.”

Foi evocado na Sociedade de Paris no dia 31 de março.

P. Caro Sr. Vignal, todos os vossos antigos colegas da Sociedade de Paris

guardaram de vós a melhor lembrança, e eu, particularmente, a das boas re

lações, aliás nunca interrompidas. Chamando-vos ao nosso meio, tivemos por

objetivo, antes de tudo, dar-vos um testemunho de simpatia. Ficaremos muito

felizes se quiserdes ou se puderdes palestrar conosco.

R. Caro amigo e digno mestre, vossa boa lembrança e vossos teste

munhos de simpatia me sensibilizam bastante. Se hoje posso vir até vós e

assistir, livre e desprendido, a esta reunião de todos os nossos bons amigos

e irmãos espíritas, é graças ao vosso bom pensamento e à assistência que

vossas preces me trouxeram. Como dizia com justeza o meu jovem secretá

rio, eu estava muito impaciente para me comunicar; desde o começo desta

noite empreguei todas as minhas forças espirituais para dominar este de

sejo. Vossas conversas e as graves questões que discutistes interessaram-me

vivamente e tornaram minha espera menos penosa. Perdoai, caro amigo,

mas precisava manifestar o meu reconhecimento.

P. Inicialmente, dizei como vos encontrais no mundo dos Espíritos. Ao

mesmo tempo, tende a bondade de descrever o trabalho da separação, as sen

sações desse momento, bem como o tempo necessário para recobrardes a razão.

R. Estou tão feliz quanto se pode ser, quando vemos se confirmarem

plenamente todos os pensamentos secretos que se pode ter emitido sobre

uma doutrina consoladora e reparadora. Sou feliz, sim, porque agora vejo

sem qualquer obstáculo desdobrar-se à minha frente o futuro da ciência e

da filosofia espíritas.

Afastemos, porém, essas digressões inoportunas. Virei novamente

vos entreter a respeito, sabendo que minha presença vos dará tanto prazer

quanto eu mesmo experimento em vos visitar. O desligamento foi muito

rápido; mais rápido do que meu pouco mérito permitia esperar. Fui auxi

liado poderosamente por vosso concurso, e vosso sonâmbulo vos deu uma

ideia muito clara do fenômeno da separação, para que eu insista na mesma

tecla. Era uma sorte de oscilação intermitente, uma espécie de arrebata

mento em dois sentidos opostos. O Espírito triunfou, já que estou aqui. Só

deixei o corpo completamente quando ele baixou à Terra. Vim convosco.

P. Que pensais do serviço prestado nos vossos funerais? Julguei um dever

estar presente. Naquele momento estáveis bastante desprendido para vê-lo,

e as preces que eu disse em vossa intenção (não ostensivas, naturalmente)

chegaram até vós?

R. Sim. Como vos disse, vossa assistência foi de grande importân

cia, e voltei a vós, abandonando completamente minha velha crisálida.

Como bem o sabeis, as coisas materiais pouco me tocam. Eu só pensava

na alma e em Deus.

P. Creio que vos lembrais do estudo que fizemos a vosso respeito em

1860, isto é, cinco anos atrás.77 Nessa ocasião, quando ainda estáveis entre nós,

o vosso Espírito desprendeu-se para vir conversar conosco. Podeis descrever-nos

da melhor forma possível a diferença existente entre o vosso desprendimento

atual e o de então?

R. Sim, certamente; eu me lembro. Mas que diferença entre o meu

estado de então e o de hoje! Naquele tempo, a matéria ainda me constrin

gia com a sua malha inflexível. Eu queria me desligar de maneira mais ab

soluta e não podia. Hoje sou livre. Um vasto campo, o do desconhecido,

abre-se à minha frente e, com a vossa ajuda e a dos Espíritos bons, aos quais

me recomendo, espero avançar e me compenetrar o mais rapidamente pos

sível dos sentimentos que devo experimentar e dos atos que preciso realizar

para suportar as provações e merecer a recompensa. Que majestade! Que

grandeza! É quase um sentimento de temor que predomina, porquanto,

fracos como somos, queremos fixar as sublimes claridades.

P. Para nós será um prazer continuarmos esta conversa, sempre que

o quiserdes.

R. Respondi sucintamente e sem sequência às vossas diversas per

guntas. Não exijais ainda muito do vosso fiel discípulo, pois não estou

77 Nota de Allan Kardec: Veja-se a Revista espírita de março de 1860.

inteiramente livre. Conversar, conversar ainda seria a minha felicidade;

meu guia modera meu entusiasmo e já pude apreciar bastante a sua

bondade e a sua justiça, para me submeter inteiramente à decisão dele,

por mais pesar que eu sinta em ser interrompido. Consolo-me pensan

do que poderei vir muitas vezes assistir incógnito às vossas reuniões.

Falarei convosco algumas vezes; amo-vos e quero prová-lo. Entretan

to, outros Espíritos mais adiantados reclamam prioridade; devo, pois,

curvar-me àqueles que me permitiram dar livre curso à torrente das

ideias acumuladas.

Deixo-vos, amigos, e devo agradecer duplamente, não só a vós, es

píritas, que me chamastes, mas também ao Espírito que permitiu que eu

tomasse o seu lugar e que, em vida, usava o ilustre nome de Pascal.

Aquele que foi e será sempre o mais devotado de vossos adeptos.

Dr. Vignal

Victor Lebufle

Humilde trabalhador do porto do Havre, falecido aos 20 anos. Mo

rava com a mãe, modesta mercadora, a quem prodigalizava os mais ternos

e afetuosos cuidados, sustentando-a com o produto do seu rude trabalho.

Nunca o viram frequentar cabarés nem se entregar aos excessos tão comuns

da sua profissão, por não querer desviar a menor parcela de salário do fim

piedoso que lhe destinava. Consagrava à mãe todo o lazer de que dispunha,

a fim de poupá-la de fadigas. Afetado há muito tempo de enfermidade

da qual sabia que havia de morrer, ocultava-lhe os sofrimentos para não

a inquietar e para que ela não quisesse privá-lo da sua parte de labor. Na

idade das paixões, eram precisos a esse moço grande cabedal de qualidades

morais e poderosa força de vontade para resistir às perniciosas tentações

do meio em que vivia. Sinceramente piedoso, a sua morte foi motivo de

edificação para muita gente.

Na véspera de morrer, exigiu que sua mãe fosse repousar um pou

co, alegando que ele mesmo também precisava dormir. Já no leito, a mãe

teve uma visão; achava-se, disse, em plena escuridão, quando viu um ponto

luminoso que crescia pouco a pouco, até que o quarto ficou iluminado

por brilhante claridade, da qual se destacava radiante a figura do filho,

elevando-se no Espaço infinito. Compreendeu, então, que seu fim estava

próximo e, de fato, no dia seguinte, aquela alma bem formada deixava a

Terra, enquanto seus lábios murmuravam uma prece.

Uma família espírita, conhecedora da sua bela conduta, interessan

do-se por sua mãe, que ficara sozinha, teve a ideia de o evocar pouco

tempo após a morte, mas ele se manifestou espontaneamente, dando a

seguinte comunicação:

“Desejais saber como estou agora: feliz, felicíssimo! Devem ser le

vados em conta os sofrimentos e angústias, que são a fonte das bênçãos e

da felicidade de além-túmulo. A felicidade! Ah! não compreendeis o que

significa essa palavra. Quão longe estão as venturas terrenas das que experi

mentamos ao regressar para Jesus, com a consciência pura, com a confiança

do servo cumpridor do seu dever e que espera cheio de alegria a aprovação

daquele que é tudo!

“Ah! meus amigos, a vida é penosa e difícil, quando não se tem em

vista o seu fim; mas eu vos digo, em verdade, que quando vierdes para junto

de nós, se seguirdes a Lei de Deus, sereis recompensados além, mas muito

além dos sofrimentos e méritos que porventura julgardes ter adquirido para

a outra vida. Sede bons e caridosos, dessa caridade tão desconhecida entre

os homens, que se chama benevolência. Socorrei os vossos semelhantes;

fazei por eles mais que por vós mesmos, uma vez que ignorais a miséria

alheia e conheceis a vossa. Socorrei minha pobre mãe, único pesar que me

vem da Terra. Ela deve passar por outras provas antes de chegar ao céu.

Adeus, vou vê-la.”

Victor

o guiA do médium – Nem sempre os sofrimentos amargados na

Terra constituem uma punição. Os Espíritos que, pela vontade de Deus,

baixam à Terra para cumprirem uma missão, são, tal como este, felizes em

provar males que para outros seriam uma expiação. O sono os revigora

perante o Altíssimo, dando-lhes a força de tudo suportarem para sua maior

glória. A missão deste Espírito, em sua última existência, não era das mais

importantes, porém, por mais obscura que fosse nem por isso tinha menos

mérito, visto que ele não podia ser estimulado pelo orgulho. Aquele jovem

tinha, antes de tudo, um dever de gratidão a cumprir para com aquela que

foi sua mãe; depois, deveria demonstrar que nos piores ambientes podem

encontrar-se almas puras, de sentimentos nobres e elevados, capazes de

resistir a todas as tentações. Isso é uma prova de que as qualidades morais

têm causas anteriores, e de que tal exemplo não foi em vão.

Anaïs Gourdon

Jovem mulher, notável pela doçura de caráter e pelas mais eminentes

qualidades morais, falecida em novembro de 1860. Pertencia a uma famí

lia de trabalhadores das minas de carvão nos arredores de Saint-Étienne,

circunstância importante para que melhor se possa apreciar a sua evocação.

Evocada a pedido do pai e do marido.

EvocAção – R. Eis-me aqui.

P. Vosso marido e vosso pai pediram-me que vos chamasse e se sentirão

felizes em obter uma comunicação vossa.

R. Também estou muito feliz em poder dá-la.

P. Por que fostes arrancada tão cedo ao convívio da família?

R. Porque as minhas provas terrestres chegaram ao fim.

P. Ides vê-los algumas vezes?

R. Oh! Estou incessantemente junto deles.

P. Sois feliz como Espírito?

R. Sou feliz. Amo e espero; os céus não constituem terror para

mim e aguardo, confiante e com amor, que as brancas asas me condu

zam até eles.

P. Que entendeis por essas asas?

R. Entendo tornar-me Espírito puro e resplandecer como os mensa

geiros celestes, que me deslumbram.

As asas dos anjos, arcanjos e serafins, que são Espíritos puros, não passam, evidente

mente, de um atributo imaginado pelos homens para descrever a rapidez com a qual

se transportam, uma vez que a sua natureza etérea os dispensa de qualquer sustentácu

lo para percorrer os espaços. Contudo, podem aparecer aos homens com esse acessório

e, assim, corresponderem ao pensamento destes, do mesmo modo que outros Espí

ritos tomam a aparência que tinham na Terra, para se fazerem mais bem conhecidos.

P. Vossos parentes podem fazer algo que vos seja agradável?

R. Podem; esses entes queridos não devem mais me entristecer

com a visão de seus pesares, pois sabem que não estou perdida para eles.

Que meu pensamento lhes seja suave, leve e perfumado em sua lem

brança. Transitei na vida como uma flor, e nada de triste deve subsistir

de minha rápida passagem.

P. Como se explica que a vossa linguagem seja tão poética e tão pouco

relacionada com a posição que tínheis na Terra?

R. Porque é minha alma que fala. Sim, eu tinha conhecimentos ad

quiridos e, muitas vezes, Deus permite que Espíritos delicados se encarnem

entre os homens mais rudes para lhes fazerem pressentir as delicadezas que

atingirão e que mais tarde compreenderão.

Sem esta explicação, tão lógica e tão conforme à solicitude de Deus para com as suas

criaturas, dificilmente nos daríamos conta do que, à primeira vista, poderia parecer

uma anomalia. Com efeito, que há de mais gracioso e poético que a linguagem do

Espírito dessa jovem senhora, educada em meio aos mais rudes trabalhos? Dá-se o

contrário muitas vezes; são Espíritos inferiores, encarnados entre homens mais adian

tados, mas com objetivo oposto. É em vista de seu próprio adiantamento que Deus os

põe em contato com um mundo esclarecido e, algumas vezes, para servirem também

de prova a esse mesmo mundo. Que outra filosofia pode resolver tais problemas?

Maurice Gontran

Maurice Gontran era filho único. Faleceu aos 18 anos, vitimado por

uma afecção pulmonar. Inteligência rara, razão precoce, grande amor ao es

tudo, caráter doce, terno e simpático, possuía todas as qualidades que fazem

prever brilhante futuro. Com grande êxito terminara muito cedo os primei

ros estudos, matriculando-se em seguida na Escola Politécnica. A sua morte

causou aos pais uma dessas dores que deixam traços profundos e dolorosos,

visto que, tendo sido sempre de compleição muito delicada, lhe atribuíam o

fim prematuro ao trabalho de estudos a que fora submetido. E por isso di

ziam: “De que lhe serve agora tudo o que aprendeu? Teria sido melhor que se

conservasse ignorante, pois não precisava da ciência para viver. Não fossem

os estudos e estaria, sem dúvida, entre nós, para consolo da nossa velhice.”

Se houvessem conhecido o Espiritismo, por certo teriam raciocinado

de outra forma. Nele encontraram, mais tarde, a verdadeira consolação.

O ditado seguinte foi dado pelo rapaz a um dos seus amigos, alguns

meses depois da morte:

P. Meu caro Maurice, a terna afeição que dedicáveis a vossos pais

leva-me à convicção de que desejais reconfortar-lhes o ânimo, caso esteja

ao vosso alcance fazê-lo. O pesar, para não dizer desespero, em que a vossa

morte os mergulhou, altera-lhes visivelmente a saúde, fazendo que encarem

a vida com desgosto. Algumas palavras de consolo poderão certamente fazer

renascer-lhes a esperança.

R. Meu velho amigo, esperava com impaciência esta ocasião, que

ora me ofereceis, de comunicar-me. A dor de meus pais me aflige, porém,

ela se acalmará quando tiverem certeza de que não estou perdido para eles;

aproximai-vos deles a fim de os convencer desta verdade, o que certamente

conseguireis. Era preciso este acontecimento para infundir-lhes uma cren

ça que lhes trará felicidade, impedindo-os de murmurar contra os desíg

nios da Providência. Como sabeis, meu pai era muito descrente acerca da

vida futura. Deus concedeu-lhe este desgosto para arrancá-lo do seu erro. Aqui

nos reencontraremos, neste mundo onde não se conhecem desgostos da

vida, e no qual os precedi; afirmai-lhes categoricamente que a satisfação

de tornarem a ver-me ser-lhes-á recusada como castigo à falta de confian

ça na bondade do Criador. Até mesmo qualquer comunicação com eles,

durante o tempo que ficarem na Terra, me será interdita. O desespero é

uma revolta contra a vontade do Todo-Poderoso, sempre punido com o

prolongamento da causa que o produziu, até que haja completa submissão.

O desespero é verdadeiro suicídio por minar as forças do corpo, e quem

abrevia os seus dias, no intuito de escapar mais cedo aos tentáculos da dor,

faz jus às mais cruéis decepções; deve-se, ao contrário, avigorar o corpo a

fim de suportar mais facilmente o peso das provações.

Meus queridos e bondosos pais, é a vós que me dirijo neste mo

mento. Desde que abandonei os despojos mortais jamais deixei de estar

ao vosso lado. Aí estou muito mais vezes do que quando estava na Terra.

Consolai-vos, pois, porque eu não estou morto; estou mais vivo que vós.

Apenas o corpo morreu; o Espírito, porém, vive sempre. Ele é livre, feliz,

isento de enfermidades e de dores. Em vez de vos afligirdes, regozijai-vos

por saber que estou livre de cuidados e apreensões, em lugar onde o cora

ção se satura de energia puríssima, sem a sombra de um só desgosto.

Oh! meus amigos, não deploreis os que morrem prematuramente,

porque isto é uma graça que Deus lhes concede, poupando-os às tribula

ções da vida terrena. A minha existência na Terra não devia prolongar-se

por muito tempo desta vez, visto ter adquirido o necessário para preen

cher, no Espaço, uma missão mais importante. Se tivesse vivido por mais

tempo, a que perigos e seduções não iria expor-me? E poderias acaso julgar

da minha fortaleza para não sucumbir nessa luta que atrasaria a minha

evolução de vários séculos? Por que, pois, lastimar o que me é vantajoso?

Neste caso, uma dor inconsolável acusaria falta de fé só legitimável pela

ideia do nada. Oh! sim, os que assim descreem são dignos de lástima, pois

para eles não pode haver consolação possível; os entes caros lhes parecem

irremediavelmente perdidos, visto acreditarem que o túmulo lhes leva a

última esperança!

P. Vossa morte foi dolorosa?

R. Não, meu amigo, apenas sofri, antes da morte, os efeitos da mo

léstia que me consumiu, mas esse sofrimento diminuía à proporção que o

último instante se aproximava. Certo dia tive um sonho delicioso! Sonhei

que estava curado, que não mais sofria e respirava a longos haustos, pra

zerosamente, um ar balsâmico e puro; uma força desconhecida me trans

portava através do espaço. Brilhante luz resplandecia em torno de mim,

mas sem cansar-me a vista! Vi meu avô, não mais esquálido e alquebrado,

porém com aspecto juvenil e agradável; estendia-me os braços e me es

treitava afetuosamente ao coração. Acompanhavam-no inúmeras pessoas,

de semblantes risonhos, acolhendo-me todos com benevolência e doçura;

parecia reconhecê-los e, feliz por tornar a vê-los, trocávamos felicitações

e testemunhos de amizade. Pois bem! o que eu pensava ser um sonho era

pura realidade, porque de tal sonho não devia despertar na Terra: só acor

daria no mundo espiritual.

P. A vossa moléstia não foi provocada pela grande assiduidade ao estudo?

R. Oh! não, ficai bem certos disso. O tempo que eu deveria passar na

Terra estava contado, de modo que coisa alguma poderia aí reter-me. Meu

Espírito já o sabia nos momentos de desprendimento e me considerava feliz

com a ideia da libertação, que se aproximava. Mas o tempo que passei entre

vós não foi inútil, e hoje me felicito de não o ter perdido. Os estudos sérios

fortificaram minha alma e aumentaram meus conhecimentos e, se em virtu

de da minha curta existência não pude dar-lhes aplicação, nem por isso dei

xarei de o fazer mais tarde e com maior proveito. Adeus, caro amigo: parto

para junto de meus pais; vou prepará-los para receberem esta comunicação.

Maurice.

Espíritos em condições

medianas

Joseph Bré

(Falecido em 1840, evocado em Bordeaux, por sua neta, em 1862.)

O homem honesto segundo Deus ou segundo os homens.

1. Caro avô, podeis dizer-me como vos encontrais entre os Espíritos,

dando-me alguns pormenores instrutivos para o nosso progresso? – R. Tudo que

quiseres, minha cara filha. Eu expio a minha falta de fé; porém, grande é

a bondade de Deus, que leva em conta as circunstâncias. Sofro, mas não

como poderias imaginar: é o desgosto de não ter aproveitado melhor o

meu tempo na Terra.

2. Como? Pois não vivestes sempre honestamente? – R. Sim, no juízo

dos homens; mas há um abismo entre a honestidade perante os homens e a

honestidade perante Deus. E já que desejas instruir-te, procurarei demons

trar-te a diferença. Aí entre vós, é considerado honesto aquele que respeita

as leis do seu país, respeito elástico para muitos. Honesto é aquele que não

prejudica o próximo ostensivamente, embora lhe arranque muitas vezes a

felicidade e a honra, já que o código penal e a opinião pública não atingem

o culpado hipócrita. Quando se consegue gravar na lápide tumular um

epitáfio de virtude, muitos julgam terem pago sua dívida à humanidade!

Erro terrível! Para ser honesto perante Deus, não basta ter respeitado as leis

dos homens; é preciso antes de tudo ter respeitado as leis divinas. Honesto

aos olhos de Deus será aquele que, possuído de abnegação e amor, consagre

a existência ao bem, ao progresso de seus semelhantes; aquele que, anima

do de um zelo sem limites, for ativo na vida; ativo no cumprimento dos

deveres materiais que lhe são impostos, ensinando e exemplificando aos

outros o amor ao trabalho; ativo nas boas ações, sem esquecer a condição

de servo ao qual o Senhor pedirá contas, um dia, do emprego do seu tem

po; ativo, finalmente, na prática do amor de Deus e do próximo.

Assim, o homem honesto perante Deus deve evitar com cuidado as

palavras mordazes, veneno oculto sob flores, que destrói reputações e aca

brunha o homem, muitas vezes cobrindo-o de ridículo. O homem hones

to, segundo Deus, deve ter sempre fechado o coração ao mais leve germe

de orgulho, de inveja e de ambição; deve ser paciente e benévolo para com

os que o agridem; deve perdoar do fundo da alma, sem esforços e sobretu

do sem ostentação, a quem quer que o ofenda; deve, enfim, pôr em prática

este preceito tão conciso e tão grande dos deveres do homem: amar a Deus

sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Eis aí, querida filha, em termos aproximados, o que deve ser o homem

honesto perante Deus. Pois bem: eu o teria sido? Não. Confesso sem corar

que faltei a muitos desses deveres; que não tive a atividade necessária; que o

esquecimento de Deus impeliu-me a outras faltas, as quais, por não serem

alcançadas pelas leis humanas, nem por isso deixam de ser atentatórias à Lei

de Deus. Quando compreendi tudo isso sofri bastante, e assim é que hoje

espero mais consolado a misericórdia desse Deus de bondade, que vê o meu

arrependimento. Transmite, cara filha, repete tudo o que te disse aos que tive

rem a consciência sobrecarregada, para que reparem suas faltas à custa de boas

obras, a fim de que a Misericórdia Divina se estenda por sobre eles. Seus olhos

paternais lhes calcularão as provações e sua mão potente lhes apagará as faltas.

Hélène Michel

Jovem de 25 anos, falecida subitamente no lar, sem sofrimentos, sem

causa previamente conhecida. Era rica, um tanto frívola e, em consequência

da leviandade de seu caráter, ocupava-se mais com as futilidades da vida do

que com as coisas sérias. Não obstante, possuía um coração bondoso e era

dócil, afetuosa e caridosa. Evocada três dias após a morte por pessoas conhe

cidas, exprimiu-se assim:

“Não sei onde estou... que turbação me cerca!... Chamaste-me, e eu

vim. Não compreendo por que não estou em minha casa... lamentam a

minha ausência, quando lá estou, sem poder fazer-me reconhecida... Meu

corpo não me pertence mais; e, contudo, eu lhe sinto a algidez... Quanto

mais quero deixá-lo, mais a ele me sinto presa... Sou como duas persona

lidades... Oh! quando compreenderei o que se passa comigo? Preciso ir à

minha casa novamente... que poderá acontecer a meu outro ‘eu’ na minha

ausência? Adeus.”

O sentimento da dualidade que ainda não está destruído por uma completa

separação é aqui evidente. Caráter volúvel, permitindo-lhe a posição e a fortuna

a satisfação de todos os caprichos, deveria igualmente favorecer suas tendências à

leviandade. Não é de admirar, portanto, que o seu desprendimento tenha sido len

to, a ponto de, três dias após a morte, sentir-se ainda ligada ao envoltório corpó

reo. Mas como não possuísse vícios sérios e fosse de boa índole, essa situação nada

tinha de penosa e não deveria prolongar-se por muito tempo. Evocada novamente

alguns dias depois, suas ideias já estavam bastante modificadas. Eis o que disse:

“Obrigada por haverdes orado por mim. Reconheço a bondade de

Deus, que me poupou dos sofrimentos e apreensões consequentes ao des

ligamento do meu Espírito. Minha pobre mãe terá muita dificuldade em

resignar-se; mas será confortada, e o que a seus olhos constitui terrível

desgraça, era indispensável, a fim de que as coisas do céu se lhe tornassem

no que devem ser: tudo. Estarei ao seu lado até o fim da sua provação ter

rena, ajudando-a a suportá-la. Não sou infeliz, porém, muito tenho ainda

a fazer para alcançar a mansão dos bem-aventurados. Pedirei a Deus que

me permita voltar a essa Terra, a fim de reparar o tempo que aí perdi nesta

última existência. Que a fé vos sustente, meus amigos; confiai na sua eficá

cia, sobretudo quando partida do coração. Deus é bom.”

P. Levastes muito tempo para reconhecer-vos? – R. Compreendi a

morte no mesmo dia em que orastes por mim.

P. Era doloroso o estado de perturbação? – R. Não, eu não sofria; acre

ditava sonhar e aguardava o despertar. Minha vida não foi isenta de dores,

mas todo ser encarnado nesse mundo deve sofrer. Resignei-me à vonta

de de Deus e isso me foi levado em conta. Sou grata pelas vossas preces

que me auxiliaram no reconhecimento de mim mesma. Obrigado; voltarei

sempre com prazer. Adeus.

Hélène

Marquês de Saint-Paul

(Falecido em 1860 e evocado, a pedido de uma irmã sua,

membro da Sociedade de Paris, em 16 de maio de 1861.)

1. EvocAção – R. Eis-me aqui.

2. Vossa irmã nos pediu que vos evocássemos, pois, embora seja médium,

não se acha ainda bastante segura para tanto. – R. Tentarei responder da

melhor forma possível.

3. Primeiramente ela deseja saber se sois feliz. – R. Estou na erra

ticidade, estado transitório que não proporciona nem felicidade nem

castigo absolutos.

4. Demorastes muito a vos reconhecer? – R. Estive muito tempo per

turbado e só voltei a mim para bendizer da piedade dos que, lembrando-se

de mim, por mim oraram.

4-a. Podeis avaliar o tempo dessa perturbação? – R. Não.

5. Quais os parentes que reconhecestes primeiro? – R. Reconheci minha

mãe e meu pai, os quais me receberam ao despertar. Foram eles que me

iniciaram na nova vida em que me encontro.

6. Como explicais as conversas que, nos últimos dias da moléstia que

vos acometeu, parecíeis manter com pessoas caras que já haviam deixado a

Terra? – R. Pelo conhecimento antecipado da revelação do mundo que

viria habitar. Vidente antes de morrer, meus olhos só se turbaram no mo

mento da separação definitiva do corpo, porque os laços carnais eram

ainda muito vigorosos.

7. Como explicar que recordáveis de preferência os acontecimentos da

infância? – R. Ao fato de o princípio se identificar mais com o fim do que

com o meio da vida.

7-a. Que entendeis por isso? – R. Que os moribundos lembram e

veem, como reflexo consolador, a pureza infantil dos primeiros anos.

É provavelmente por motivo providencial semelhante, que os idosos, à proporção

que se aproximam do termo da vida, têm, por vezes, nítida lembrança dos mais

ínfimos episódios da infância.

8. Por que, quando vos referíeis ao corpo, faláveis sempre na terceira pes

soa? — R. Porque era vidente, como vo-lo disse, e sentia claramente as dife

renças entre o físico e o moral. Essas diferenças, mescladas entre si pelo fluido

vital, tornam-se muito distintas aos olhos dos moribundos e clarividentes.

Eis aí uma particularidade singular da morte deste senhor. Nos seus últimos mo

mentos, ele dizia sempre: “Ele tem sede, é preciso dar-lhe de beber; ele tem frio, é

preciso aquecê-lo; ele sofre em tal ou qual região etc.” E quando lhe diziam: “Mas

não sois vós que tendes sede?” — respondia: “Não, é ele.” Aqui se distinguem

perfeitamente as duas existências; o eu pensante está no Espírito, e não no corpo;

o Espírito, já em parte desprendido, considerava o corpo outra individualidade,

que a bem dizer não lhe pertencia; era, portanto, ao seu corpo que se devia dar de

beber, e não a ele Espírito. Este fenômeno também se nota em alguns sonâmbulos.

9. O que dissestes sobre a erraticidade do vosso Espírito e sua respecti

va perturbação, levaria a duvidar da vossa felicidade, ao contrário do que se

poderia esperar das vossas qualidades. Ademais, há Espíritos errantes felizes e

infelizes. – R. Estou num estado transitório; aqui as virtudes humanas pas

sam a ter o seu justo valor. Sem dúvida, meu estado é cem vezes preferível

ao da minha encarnação terrena, mas porque sempre alimentei aspirações

ao verdadeiro bem e ao belo, minha alma não ficará satisfeita senão quando

se elevar aos pés do Criador.

Dr. Cardon, médico

O Dr. Cardon havia passado boa parte da sua vida na marinha mer

cante, como médico de navio baleeiro, adquirindo em tal ambiente ideias

um tanto materialistas. Retirado para o vilarejo de J..., ali exercia a modesta

profissão de médico rural. Desde algum tempo adquirira a certeza de que

sofria uma hipertrofia do coração e, sabendo que tal doença era incurável, a

ideia da morte o mergulhava em sombria melancolia, da qual nada o podia

distrair. Com cerca de dois meses de antecedência, predisse o seu fim em

dia fixo; quando se viu perto de morrer, reuniu a família para lhe dar o úl

timo adeus. Sua esposa, sua mãe, seus três filhos e outros parentes estavam

em volta do leito. No momento em que a esposa tentava erguê-lo, ele se

prostrou, tornou-se de um azul lívido, os olhos se fecharam e o deram por

morto; a esposa colocou-se à frente para ocultar o espetáculo aos filhos.

Após alguns minutos abriu os olhos; seu rosto, por assim dizer iluminado,

tomou uma expressão de radiosa beatitude e ele exclamou: “Oh! meus fi

lhos, como é belo! Como é sublime! Oh! a morte! Que benefício! Que coi

sa suave! Eu estava morto e senti minha alma elevar-se bem alto; mas Deus

me permitiu voltar para vos dizer: não temais; a morte é a libertação... Não

vos posso descrever a magnificência do que vi e as impressões de que me

senti dominado! Mas não o compreenderíeis... Oh! meus filhos, conduzi--vos sempre de maneira a merecer essa inefável felicidade, reservada aos

homens de bem; vivei segundo a caridade; se tiverdes alguma coisa, dai

àqueles a quem falta o necessário... Querida esposa, deixo-te numa posição

nada feliz; devem-nos dinheiro, mas eu te suplico, não atormentes os que

nos devem; se estiverem em dificuldades, espera que possam pagar, e aos

que não puderem, faze o sacrifício: Deus te recompensará. E tu, meu filho,

trabalha para sustentar tua mãe; sê sempre um homem honesto e guarda-te

de fazer algo que possa desonrar nossa família. Toma esta cruz que vem de

minha mãe; não a deixes e que ela te lembre sempre meus últimos conse

lhos... Meus filhos, ajudai-vos e sustentai-vos mutuamente; que a boa har

monia reine entre vós; não sede vãos, nem orgulhosos; perdoai aos vossos

inimigos, se quiserdes que Deus vos perdoe.” Depois, tendo feito os filhos

se aproximarem, estendeu as mãos para eles e acrescentou: “Meus filhos, eu

vos abençoo.” E, desta vez, seus olhos se fecharam para sempre, enquanto

o rosto conservava uma expressão tão imponente que, até o momento em

que foi enterrado, uma multidão o veio contemplar com admiração.

Esses interessantes detalhes nos foram transmitidos por um amigo

da família, levando-nos a pensar que uma evocação poderia ser instrutiva

para todos e, ao mesmo tempo, para o Espírito há pouco desencarnado.

1. EvocAção – R. Estou ao vosso lado.

2. Contaram-nos os vossos últimos instantes, os quais nos encheram

de admiração. Teríeis a bondade de descrever, o melhor possível, o que vistes

no intervalo do que se poderia chamar vossas duas mortes? – R. Poderíeis

compreender o que vi? Não sei, pois não encontraria expressões capazes de

tornar compreensível o que vi durante os poucos instantes em que me foi

possível deixar meus restos mortais.

3. Sabeis do lugar em que estivestes? É longe da Terra, em outro planeta

ou no Espaço? – R. O Espírito não conhece o valor das distâncias, tal como

as considerais. Levado não sei por que agente maravilhoso, vi o esplendor

de um céu como só nossos sonhos poderiam realizá-lo. Essa excursão atra

vés do infinito se fez de modo tão rápido que não posso precisar os instan

tes gastos por meu Espírito.

4. Atualmente desfrutais da felicidade que vislumbrastes? – R. Não; bem

queria poder fruí-la, mas Deus assim não me pode recompensar. Muitas ve

zes revoltei-me contra os abençoados pensamentos ditados pelo coração, e a

morte me parecia uma injustiça. Médico incrédulo, tinha adquirido na arte

de curar uma aversão contra a segunda natureza, que é o nosso movimento

inteligente, divino; a imortalidade da alma era uma ficção própria para se

duzir as naturezas pouco elevadas; a despeito disto, o vazio me aterrorizava,

pois maldizia muitas vezes esse agente misterioso que fere sempre e sempre.

A filosofia me desviara, sem me dar a compreender toda a grandeza do Eter

no, que sabe repartir a dor e a alegria para o ensino da humanidade.

5. Quando de vossa verdadeira morte, logo vos reconhecestes? – R. Não;

reconheci-me durante a transição feita por meu Espírito para percorrer

lugares etéreos; mas após a morte real, não; foram necessários alguns dias

para o meu despertar.

Deus me concedera uma graça, em razão do que vos vou explicar.

Minha incredulidade inicial não mais existia; antes da morte eu já tinha

acreditado, porquanto, depois de ter cientificamente sondado a matéria

pesada que me fazia definhar, eu só encontrara razões divinas. Elas me ti

nham inspirado, consolado, e minha coragem era mais forte que a dor. Eu

bendizia o que havia amaldiçoado; o fim me parecia a libertação. O pen

samento de Deus é grande como o mundo! Oh! que suprema consolação

na prece que dá enternecimentos inefáveis; ela é o elemento mais seguro

de nossa natureza imaterial; por ela compreendi, acreditei firmemente, so

beranamente, e é por isto que Deus, exagerando minhas abençoadas ações,

houve por bem recompensar-me antes que se findasse a minha encarnação.

6. Poder-se-ia dizer que da primeira vez estáveis morto? – R. Sim e não.

Tendo deixado o corpo, naturalmente a carne se extinguia; mas o Espírito,

ao retomar a posse de minha morada terrena, fez voltasse ao corpo a vida

que tinha sofrido uma transição, um sono.

7. Nesse momento sentíeis os laços que vos prendiam ao corpo? – R. Sem

dúvida. O Espírito tem um laço difícil de desatar, fazendo-se necessário um

último estremecimento da carne para que retorne à sua vida natural.

8. Como se explica, durante a vossa morte aparente e no curso de alguns

minutos, que o vosso Espírito pudesse desprender-se instantaneamente e sem di

ficuldade, ao passo que a morte real foi seguida por uma perturbação de alguns

dias? No primeiro caso, subsistindo mais que no segundo os laços entre a alma e

o corpo, parece-nos que o desprendimento deveria ser mais lento; e deu-se justa

mente o contrário. – R. Muitas vezes fizestes a evocação de um Espírito en

carnado e recebestes respostas reais. Eu estava na situação desses Espíritos.

Deus me chamava e seus servidores me tinham dito: “Vem...”. Obedeci e

agradeço a Ele pela graça especial que se dignou fazer-me. Pude ver a infi

nitude de sua grandeza e dela me dar conta. Agradeço a vós por me terdes

permitido, antes da morte real, ensinar aos meus, a fim de que tenham boas

e justas encarnações.

9. De onde provinham as belas e boas palavras que, por ocasião do vosso

retorno à vida, dirigistes à família? – R. Eram o reflexo do que tinha visto e

ouvido. Os Espíritos bons inspiravam-me a voz e davam vida ao meu rosto.

10. Que impressões julgais que a vossa revelação tenha causado nos

assistentes e, de modo especial, nos vossos filhos? – R. Extraordinária, pro

funda; a morte não é mentirosa e os filhos, por mais ingratos que possam

ser, inclinam-se ante a partida dos que se vão. Se se pudesse perscrutar os

seus corações junto a um túmulo entreaberto, só se sentiriam batidas de

sentimentos verdadeiros, profundamente tocados pela mão secreta dos

Espíritos que a todos ditam os pensamentos. Tremei, se estiverdes em

dúvida; a morte é a reparação, a Justiça de Deus; e eu vo-lo asseguro,

apesar dos incrédulos, que meus amigos e minha família acreditarão nas

palavras que minha boca pronunciou antes de morrer. Eu era o intérprete

de um outro mundo.

11. Dissestes que não desfrutais da felicidade que entrevistes. Sois in

feliz? – R. Não, pois acreditava antes de morrer, e isto na alma e na cons

ciência. A dor acabrunha nesse mundo, mas fortalece sob o ponto de vista

do futuro espiritual. Notai que Deus soube levar em conta as minhas

preces e a minha crença absoluta nele; estou no caminho da perfeição e

chegarei ao fim que me foi permitido entrever. Orai, meus amigos, por

esse mundo invisível que preside aos vossos destinos; este intercâmbio

fraterno é caridade; é uma alavanca poderosa, que põe em comunicação

os Espíritos de todos os mundos.

12. Gostaríeis de dirigir algumas palavras à vossa esposa e aos vossos

filhos? – R. Rogo a todos os meus que creiam em Deus, poderoso, justo,

imutável; na prece que consola e alivia; na caridade, que é o ato mais puro

da encarnação humana; que se lembrem que do pouco também se pode

dar, pois o óbolo do pobre é o mais meritório perante Deus, que sabe que

um pobre dá muito dando pouco. É preciso que o rico dê bastante para

merecer tanto quanto aquele. O futuro é a caridade, a benevolência em

todas as ações; é crer que todos os Espíritos são irmãos, jamais se preocu

pando com as mil e uma vaidades pueris da Terra.

Família bem-amada, tereis rudes provas; mas sabei suportá-las cora

josamente, pensando que Deus vos vê. Dizei sempre esta prece: “Deus de

amor e de bondade, que dás tudo e sempre, concede-nos essa força que não

recua ante nenhum sofrimento; torna-nos bons, mansos e caridosos, pe

quenos pela fortuna, grandes pelo coração. Que nosso Espírito seja espírita

na Terra, para melhor te compreender e amar.”

Que teu nome, ó meu Deus, emblema de liberdade, seja o objetivo

consolador de todos os oprimidos, de todos os que têm necessidade de

amar, de perdoar e crer.

Cardon

Eric Stanislas

(Comunicação espontânea – Sociedade

Espírita de Paris, agosto de 1863.)

“Como nos enchem de felicidade as emoções vivamente sentidas por

valorosos corações! Ó suaves pensamentos, que vindes abrir o caminho da

salvação a tudo que vive, a tudo que respira material e espiritualmente!

Que o vosso bálsamo consolador não deixe de derramar-se profusamente

sobre vós e sobre nós! Que expressão escolher para traduzir a felicidade

dos irmãos desencarnados, ao contemplarem o amor que une a todos? Ah!

irmãos, quanto bem por toda parte, quantos sentimentos suaves, elevados

e simples como vós, como a vossa doutrina, sois chamados a implantar ao

longo da estrada a percorrer! Mas também quanto vos será concedido antes

mesmo de terdes adquirido direitos!

“Assisti a tudo quanto se passou esta noite; ouvi, compreendi e

vou procurar, por minha vez, cumprir o meu dever e instruir a classe

dos Espíritos imperfeitos. Ouvi: eu estava longe de ser feliz; mergulhado

na imensidade, no infinito, os meus sofrimentos eram tão intensos que

difícil me era compreendê-los. Entretanto, bendito seja Deus, que me

permitiu vir a um santuário, que não pode ser franqueado aos maus im

punemente. Amigos, quanto vos sou reconhecido, quantas forças recobrei

entre vós!

“Ó homens de bem, reuni-vos constantemente; estudai, já que não

podeis duvidar dos frutos das reuniões sérias. Os Espíritos que têm muito

ainda a aprender, os que ficam voluntariamente inativos, preguiçosos e

esquecidos dos seus deveres, podem encontrar-se entre vós, em virtude de

circunstâncias fortuitas ou não; e então, fortalecidos pelos exemplos que

vos derdes, podem ser fortemente tocados, o que quase sempre acontece

e, reconhecendo-se, divisarem a meta a alcançar, procurando, ao mesmo

tempo, os meios de fugir ao penoso estado em que se encontram.

“É com grande satisfação que me faço intérprete das almas sofredo

ras, porquanto é a homens de coração que me dirijo, na certeza de não ser

repelido. Ainda uma vez aceitai, pois, homens generosos a expressão do

meu reconhecimento particular, bem como a gratidão de todos aqueles a

quem tanto bem tendes feito, talvez sem o saberdes.”

Eric Stanislas

o guiA do médium – Este é um Espírito que sofreu por muito

tempo, transviado do bom caminho. Agora compreendeu os seus erros,

arrependeu-se e, finalmente, volveu os olhos para o Deus que havia ne

gado. Sua posição não é a de um ser feliz, mas ele aspira à felicidade e

não sofre mais. Deus permitiu que vos escutasse para que desça depois a

uma esfera inferior, a fim de instruir e estimular o progresso de Espíritos

que, como ele, transgrediram as Leis do Eterno. É a reparação que lhe

compete. Afinal, como tem força de vontade, acabará conquistando a

Anna Belleville

Jovem mulher falecida aos 35 anos, após longa e cruel enfermidade.

Vivaz, espirituosa, dotada de rara inteligência, grande retidão de julgamento

e eminentes qualidades morais, esposa e mãe de família devotada, ela possuía,

além disso, uma integridade de caráter pouco comum e uma fecundidade de

recursos que jamais a pegavam desprevenida nas circunstâncias mais críticas

da vida. Sem guardar ressentimento das pessoas de quem podia queixar-se,

estava sempre pronta a prestar-lhes serviço. Intimamente ligados à sua pessoa

desde longos anos, pudemos acompanhar todas as fases da sua existência,

bem como todas as peripécias do seu fim. Um acidente provocou a moléstia

que devia matá-la, depois de retê-la acamada durante três anos, presa dos

mais cruéis sofrimentos, que, aliás, suportou até o fim com uma coragem

heroica, sem que a graça natural do seu espírito jamais a abandonasse.

Acreditava firmemente na alma e na vida futura, mas pouco se preocu

pava com isso; todos os seus pensamentos se voltavam para o presente, que

tinha em grande conta, embora não tivesse medo da morte e fosse indiferen

te aos gozos materiais. A sua vida era simples e ela abria mão, sem qualquer

sacrifício, do que não podia obter; entretanto, possuía inato o sentimento do

bem e do belo, que apreciava até nas coisas mais insignificantes. Queria viver,

menos para si que para os filhos, avaliando a falta que lhes faria, e era isso que

a prendia à vida. Conhecia o Espiritismo sem o ter estudado a fundo; inte

ressava-se por ele, mas nunca pôde fixar as ideias sobre o futuro; este era para

ela uma realidade, conquanto não lhe deixasse no espírito uma impressão

profunda. O bem que fazia resultava de um impulso natural, espontâneo, e

não inspirado pela ideia de recompensas ou de penas futuras.

Já de algum tempo seu estado era desesperador, sendo iminente o de

senlace, circunstância que ela própria não ignorava. Certo dia, achando-se

ausente o marido, sentiu-se desfalecer e compreendeu que sua hora havia

chegado; a vista se turvou, a perturbação a invadiu e passou a experimentar

todas as angústias da separação. Lamentava, porém, ter de morrer antes

da volta do esposo. Fazendo supremo esforço sobre si mesma, murmurou:

“Não, não quero morrer!” Então sentiu renascer-lhe a vida e recobrou o

pleno uso das suas faculdades. Quando o marido voltou, disse-lhe: “Eu ia

morrer, mas quis aguardar a tua vinda, visto ter algumas recomendações a

fazer-te.” Assim se prolongou a luta entre a vida e a morte por três meses,

tempo que mais não foi que dolorosa agonia.

EvocAção no diA sEguintE Ao dA mortE – Meus bons amigos,

obrigado por vos preocupardes comigo. Aliás, fostes para mim como bons

parentes. Pois bem, regozijai-vos porque sou feliz. Confortai meu pobre

marido e velai por meus filhos. Segui para junto deles tão logo desencarnei.

P. Parece que a vossa perturbação não foi longa, uma vez que nos respon

deis com lucidez. – R. Ah! meus amigos, eu sofri tanto... e vós bem sabeis

que sofria com resignação. Pois bem! A minha provação terminou. Não

direi que esteja completamente libertada, não; entretanto, não sofro mais,

o que para mim é um grande alívio! Desta vez estou radicalmente curada,

porém, preciso ainda do concurso das vossas preces para vir mais tarde

colaborar convosco.

P. Qual poderia ter sido a causa dos vossos longos sofrimentos? – R. Um

passado terrível, meu amigo.

P. Podeis revelar-nos esse passado? – R. Oh! deixai que o esqueça um

pouco... paguei-o tão caro...

Um mês depois da morte – P. Agora que deveis estar completamen

te desprendida e que melhor nos reconheceis, gostaríamos de ter convosco uma

conversa mais explícita. Poderíeis dizer-nos qual a causa da vossa longa agonia?

Estivestes durante três meses entre a vida e a morte. – R. Obrigado, meus

bons amigos, pela vossa lembrança e pelas vossas preces! Como me foram

salutares e como contribuíram para a minha libertação! Tenho ainda neces

sidade de ser confortada; continuai a orar por mim. Compreendeis o valor

da prece. Não são fórmulas banais as que dizeis, como as murmuradas por

tantos outros que não se dão conta do efeito que uma boa prece produz.

Sofri muito, porém os meus sofrimentos foram largamente compensados,

sendo-me permitido estar muitas vezes perto dos filhos queridos, que deixei

com tanto pesar!

Prolonguei por mim mesma esses sofrimentos. O desejo ardente

de viver, por amor aos filhos, fazia com que me agarrasse de alguma sorte

à matéria e, ao contrário dos outros, eu não queria abandonar o pobre

corpo com o qual era forçoso romper, se bem que ele fosse para mim o

instrumento de tantas torturas. Eis aí a verdadeira causa da minha longa

agonia. Quanto à moléstia e aos sofrimentos que padeci, eram expiação

do passado, uma dívida a mais que paguei.

Ah! meus amigos, se eu vos tivesse ouvido, quanta mudança na mi

nha vida atual! Que alívio experimentaria nos últimos momentos, e quão

fácil teria sido a separação se, em vez de a contrariar, eu me tivesse aban

donado confiantemente à vontade de Deus, à corrente que me arrastava!

Mas, em lugar de contemplar o futuro que me aguardava, eu apenas via o

presente que ia deixar!

Quando voltar à Terra, garanto que serei espírita. Que ciência su

blime! Assisto constantemente às vossas reuniões e aos conselhos que vos

são transmitidos. Se os tivesse compreendido quando estava na Terra,

meus sofrimentos teriam sido atenuados. Mas a ocasião não havia chega

do. Hoje compreendo a bondade de Deus e sua justiça, embora não me

encontre suficientemente adiantada para despreocupar-me das coisas da

vida; meus filhos principalmente me atraem, não mais para mimá-los,

porém para velar por eles, incutindo-lhes o caminho que o Espiritismo

traça neste momento. Sim, meus bons amigos, tenho ainda graves preo

cupações, sobretudo aquela da qual depende o futuro dos meus filhos.

P. Podereis dar-nos algumas explicações sobre o passado que deplorais? – R. Ah! meus bons amigos, estou pronta a confessar-me. Eu tinha des

prezado o sofrimento alheio, vendo sem piedade os sofrimentos da minha

mãe, a quem chamava doente imaginária. Por não vê-la acamada, supu

nha que não sofresse e zombava da sua dor. Eis como Deus castiga.

Seis meses depois da morte – P. Agora que um tempo bastante longo se

passou desde que deixastes o envoltório terreno, tende a bondade de descrever--nos a vossa posição e ocupações no mundo espiritual. – R. Durante a minha

vida na Terra eu era o que vulgarmente se chama uma pessoa boa; antes

de tudo, porém, prezava o meu bem-estar; compassiva por natureza, talvez

não fosse capaz de um sacrifício penoso para minorar um infortúnio. Hoje,

tudo mudou, e embora seja sempre a mesma, o eu de outrora se modificou.

Ganhei com a modificação e vejo que não há nem categorias nem con

dições além do mérito pessoal, no mundo dos invisíveis, onde um povo

caridoso e bom está acima do rico orgulhoso, que humilhava com a sua

esmola. Velo especialmente pelos que se afligem com tormentos familiares,

com a perda de parentes ou de fortuna. A minha missão é reanimá-los e

consolá-los, pelo que me sinto feliz.

Anna

Importante questão decorre dos fatos mencionados. Ei-la:

Poderá uma pessoa, por esforço da própria vontade, retardar o momen

to em que a alma se separa do corpo? – Resposta do Espírito São Luís: Se

essa questão fosse resolvida afirmativamente, sem restrições, poderia re

dundar em consequências falsas. Certamente, em dadas condições, um Es

pírito encarnado pode prolongar a existência corpórea a fim de terminar

instruções indispensáveis, ou, ao menos, por ele tidas como tais; isto lhe

pode ser permitido, como no caso que examinamos, além de muitos outros

exemplos. De qualquer modo, esta dilação da vida não deixa de ser breve,

visto não ser permitido ao homem inverter a ordem das leis naturais, nem

provocar um retorno real à vida, desde que ela tenha atingido o seu termo.

É apenas uma prorrogação momentânea. Entretanto, a despeito da possi

bilidade do fato, não se deve concluir pela sua generalidade, nem acreditar

que dependa de cada qual prolongar por este modo a sua existência. Como

provação para o Espírito ou no interesse de missão a concluir, os órgãos de

pauperados podem receber um suplemento de fluido vital que lhes permi

ta prolongar de alguns instantes a manifestação material do pensamento.

Os casos semelhantes constituem antes exceção, e não regra. Tampouco se

deve ver nesse fato uma derrogação de Deus à imutabilidade de suas leis,

mas apenas uma consequência do livre-arbítrio da alma humana que, no

último instante, tem consciência de sua missão e quer, apesar da morte,

concluir o que não pôde até então. Às vezes, pode ser também uma espécie

de punição infligida ao Espírito que duvida do futuro, esse prolongamento

de vitalidade com o qual tem necessariamente de sofrer.

São Luís

Poder-se-ia ainda admirar a rapidez relativa com que se desprendeu este Espírito,

tendo em vista o seu apego à vida corpórea. Deve-se, porém, considerar que tal

apego nada tinha de sensual nem material; tinha até mesmo o seu lado moral, já

que era motivado pelas necessidades dos filhos ainda pequenos. Era, além disso,

um Espírito adiantado em inteligência e moralidade; um grau a mais e se poderia

considerá-lo na classe dos Espíritos felizes. Não havia, portanto, nos laços perispi

ríticos, a tenacidade resultante da identificação com a matéria; pode-se dizer que

a vida, debilitada por longa enfermidade, apenas se prendia por um fio, e eram

esses fios que ele queria impedir que se rompessem. Contudo, a sua resistência foi

232

Espíritos em condições medianas

punida com a dilação dos sofrimentos inerentes à própria natureza da doença, e

não com a dificuldade do desprendimento. É por isso que, concluído este, a per

turbação foi breve.

Um fato igualmente importante decorre desta evocação, bem como da maior par

te das que foram feitas em épocas diversas, mais ou menos distantes da morte: é

a transformação gradual das ideias do Espírito, cujo progresso se traduz, não por

melhores sentimentos, mas por uma apreciação mais justa das coisas. O progresso

da alma na vida espiritual é, portanto, um fato demonstrado pela experiência.

A vida corpórea é a demonstração prática desse progresso, das suas resoluções, o

crisol em que ele se depura. Desde que a alma progride depois da morte, a sua

sorte não pode ser irrevogavelmente fixada, visto que a fixação definitiva da sorte

é, como já dissemos em outra parte deste livro, a negação do progresso. E, não

podendo coexistir simultaneamente as duas coisas, resta a que tem a seu favor a

sanção dos fatos e da razão.

233

Espíritos sofredores

O castigo

(Exposição geral do estado dos culpados por ocasião

de sua entrada no mundo dos Espíritos, ditada à

Sociedade Espírita de Paris, em outubro de 1860.)

Os Espíritos endurecidos, egoístas e maus são atormentados, logo

depois da morte, por uma dúvida cruel acerca do seu destino, no presen

te e no futuro. Olham em torno de si e nada veem que possa aproveitar

ao exercício da sua maldade, o que lhes causa desespero, uma vez que o

insulamento e a inércia são intoleráveis aos Espíritos maus. Não elevam

o olhar aos lugares habitados pelos Espíritos puros. Considerando o am

biente que os cerca, e compreendendo o abatimento dos Espíritos fracos e

punidos, agarram-se a eles como a uma presa, servindo-se, para tanto, da

lembrança de suas faltas passadas, que eles põem continuamente em ação

pelos seus gestos ridículos.

Não lhes bastando essa zombaria, atiram-se à Terra quais abutres

famintos, procurando entre os homens uma alma que lhes dê fácil aces

so às tentações. Apoderam-se das que encontram, exaltam-lhe a cobiça e

procuram extinguir-lhe a fé em Deus, até que finalmente, senhores de uma

consciência e vendo segura a presa, estendem a tudo que se lhe aproxime

a fatalidade do seu contágio. O Espírito mau, no exercício da sua cólera, é

quase feliz, sofrendo apenas nos momentos em que deixa de agir, ou nos

casos em que o bem triunfa do mal.

Os séculos, porém, vão passando e, de repente, o Espírito mau

pressente que as trevas acabarão por envolvê-lo; seu círculo de ação se res

tringe e a consciência, muda até então, faz-lhe sentir os afiados espinhos

do remorso. Inerte, arrastado no turbilhão, ele vagueia, como dizem as

Escrituras, sentindo a pele arrepiar-se de terror. Não tarda, então, que

um grande vácuo se faça nele e em torno dele: chega o momento em

que deve expiar; a reencarnação aí se apresenta ameaçadora... e ele vê,

como num espelho, as provações terríveis que o aguardam; gostaria de

recuar, mas avança e, precipitado no abismo da vida, rola em sobressalto,

até que o véu da ignorância lhe recaia sobre os olhos. Vive, age, é ainda

culpado, sentindo em si não sei que lembrança inquieta, pressentimen

tos que o fazem tremer, sem, contudo, recuar da senda do mal. Por fim,

extenuado de forças e de crimes, vai morrer. Estendido num catre (ou

num leito, que importa?!), o homem culpado sente, sob aparente imobi

lidade, revolver-se e viver dentro de si mesmo um mundo de esquecidas

sensações. Sob as pálpebras fechadas, ele vê um clarão que desponta,

ouve estranhos sons; a alma, prestes a deixar o corpo, agita-se impacien

te, enquanto as mãos crispadas tentam agarrar os lençóis; gostaria de

falar, de gritar aos que o cercam: — Retenham-me! Eu vejo o castigo! —

Impossível! A morte se estampa em seus lábios esmaecidos, enquanto os

assistentes dizem: Descansa em paz!

E, contudo, ele ouve, flutuando em torno do corpo que não queria

abandonar. Uma força misteriosa o atrai; vê e reconhece finalmente o que

já vira. Desvairado, lança-se no espaço onde desejaria ocultar-se, mas não

encontra abrigo nem repouso! Outros Espíritos retribuem-lhe o mal que

fez; castigado, confuso e escarnecido, vagueia por sua vez e errará até que

a divina luz o penetre e esclareça, mostrando-lhe o Deus vingador, o Deus

triunfante de todo o mal, que ele não poderá apaziguar senão à força de

expiação e gemidos.

Georges

Nunca se traçou quadro mais terrível e verdadeiro sobre a sorte que aguarda o

mau. Depois disto, será ainda necessário lançar mão do recurso da fantasmagoria

das chamas e das torturas físicas?

Novel

(O Espírito dirige-se ao médium, que o conhecera em vida.)

“Vou contar-te o meu sofrimento quando morri. Meu Espírito, pre

so ao corpo por laços materiais, teve grande dificuldade em desembaraçar--se, o que já foi, por si, uma rude angústia. A vida que deixava aos 24

anos era ainda tão vigorosa que eu não podia crer na sua perda. Por isso

procurava o corpo, estava espantado, apavorado por me ver perdido num

turbilhão de sombras. Por fim, a consciência do meu estado e a revelação

das faltas que havia cometido em todas as minhas encarnações, me feriram

subitamente, enquanto uma luz implacável iluminava os mais secretos re

cônditos da alma, que se sentia desnuda e logo tomada de acabrunhante

vergonha. Procurava fugir a essa influência interessando-me pelos novos

objetos que me cercavam, mas que, no entanto, já conhecia. Os Espíritos

luminosos, flutuando no éter, davam-me a ideia de uma felicidade a que

eu não podia aspirar; formas sombrias e desoladas, ora mergulhadas em

tedioso desespero, ora irônicas ou furiosas, deslizavam em torno de mim

ou por sobre a terra a que me chumbava. Eu via os humanos se agitarem,

cuja ignorância invejava; toda uma ordem de sensações desconhecidas, ou,

antes, reencontradas, invadiram-me simultaneamente. Como que arrastado

por força irresistível, procurando fugir à dor intensa que me devastava,

franqueava as distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as

belezas naturais e tampouco os esplendores celestes pudessem acalmar um

instante sequer a dor acerba da consciência, nem o pavor que me causava

a revelação da eternidade.

“Um mortal é capaz de pressentir as torturas materiais pelos arrepios

da carne, mas as vossas frágeis dores, amenizadas pela esperança, atenua

das por distrações ou mortas pelo esquecimento, não vos darão nunca a

ideia das angústias de uma alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem

arrependimento. Decorrido um tempo cuja duração não posso apreciar,

invejando os eleitos cujos esplendores entrevia, detestando os Espíritos

maus que me perseguiam com as suas zombarias, desprezando os homens

cujas torpezas eu via, passei de profundo abatimento a uma revolta insen

sata. Finalmente me evocaste e, pela primeira vez, um sentimento suave e

terno me acalmou; ouvi os ensinos que te dão os teus guias, a verdade se me

impôs e orei; Deus me ouviu e se me revelou por sua clemência, como já se

havia revelado a mim por sua justiça.”

Novel

Auguste Michel

(Le Havre, março de 1863.)

Era um rapaz rico, boêmio, gozando larga e exclusivamente a vida

material. Apesar de inteligente, o indiferentismo pelas coisas sérias era--lhe o traço característico. Sem maldade, antes bom que mau, era esti

mado por seus companheiros de folias, sendo apontado na sociedade

por suas qualidades de homem mundano. Não fez o bem, mas tam

bém não praticou o mal. Faleceu em consequência de uma queda da

carruagem em que passeava. Evocado alguns dias depois da morte por

um médium, que indiretamente o conhecia, deu sucessivamente as se

guintes comunicações:

8 dE mArço dE 1863 – Mal acabo de desprender-me do corpo, de

modo que dificilmente vos posso falar. A queda terrível que me ocasio

nou a morte perturbou profundamente o meu Espírito. Inquieta-me a

incerteza cruel sobre o meu futuro. O doloroso sofrimento que meu cor

po experimentou nada significa se comparado à perturbação em que me

encontro. Orai para que Deus me perdoe. Oh! quanta dor! Misericórdia,

meu Deus! Adeus.

18 dE mArço – Já estive convosco, mas apenas pude falar com mui

ta dificuldade. Mesmo agora, mal me posso comunicar convosco. Sois o

único médium ao qual posso pedir preces para que a bondade de Deus

me tire da perturbação em que me encontro. Por que sofrer ainda, quando

o corpo não sofre mais? Por que esta dor horrenda, esta angústia terrí

vel? Orai, oh! orai para que Deus me conceda repouso... Oh! que cruel

incerteza! Ainda estou ligado ao corpo. Apenas com dificuldade posso ver

onde me encontro; meu corpo lá está, e por que também lá permaneço

sempre? Vinde orar sobre ele para que eu me livre dessa prisão cruel...

Deus me perdoará, espero. Vejo os Espíritos que estão junto de vós e por

eles posso vos falar. Orai por mim.

6 dE Abril – Sou eu quem vem pedir que oreis por mim. Será preci

so irdes ao lugar em que jaz meu corpo, a fim de implorar ao Todo-Poderoso

que me acalme os sofrimentos! Sofro! Oh! como sofro! Ide a esse lugar e

dirigi ao Senhor uma prece para que me perdoe. Vejo que poderei ficar

mais tranquilo, mas volto incessantemente ao lugar em que depositaram o

que me pertencia.

O médium não deu importância ao pedido que lhe fazia o Espírito, para orar so

bre o túmulo em que se achava o seu corpo. Todavia, indo aí, mais tarde, lá mesmo

recebeu a seguinte comunicação:

11 dE mAio – Aqui vos esperava. Aguardava que viésseis ao lugar

em que meu Espírito parece preso ao seu envoltório, a fim de implorar ao

Deus de misericórdia a bondade de acalmar os meus sofrimentos. Podeis

beneficiar-me com as vossas preces, não o esqueçais, eu vo-lo suplico. Vejo

quanto a minha vida foi contrária ao que deveria ter sido; vejo as faltas

cometidas. Fui no mundo um ser inútil; não fiz uso algum proveitoso das

minhas faculdades; a fortuna serviu apenas à satisfação das paixões, aos

meus caprichos de luxo e à minha vaidade; não pensei senão nos gozos do

corpo, desprezando os da alma e a própria alma. Será que a misericórdia

de Deus descerá até mim, pobre Espírito que sofre as consequências das

suas faltas terrenas? Orai para que Ele me perdoe, libertando-me das dores

que ainda sinto. Agradeço-vos por terdes vindo aqui orar por mim.

8 dE junho – Posso falar e agradeço a Deus, que mo permitiu fazer.

Compreendi minhas faltas e espero que Deus me perdoe. Trilhai sempre os

caminhos da vida de acordo com a crença que vos anima, porque ela vos

reserva no futuro um repouso que ainda não tenho. Obrigado pelas vossas

preces. Até logo.

A insistência do Espírito, para que se orasse sobre o seu túmulo, é uma particula

ridade notável, mas que tinha sua razão de ser se levarmos em conta a tenacidade

dos laços que o prendiam ao corpo, e quão longo e difícil era o desprendimento,

em consequência da materialidade da sua existência. Compreende-se que, mais

próxima do corpo, a prece pudesse exercer uma espécie de ação magnética mais po

derosa no sentido de auxiliar o desprendimento. O costume quase universal de orar

junto aos cadáveres não provirá da intuição inconsciente de um tal efeito? Nesse

caso, a eficácia da prece teria, ao mesmo tempo, um resultado moral e material.

Exprobrações de um boêmio

(Bordeaux, 19 de abril de 1862.)

30 dE julho – Presentemente sou menos infeliz, visto não mais sen

tir a pesada cadeia que me prendia ao corpo. Estou livre, enfim, mas ainda

não expiei e é preciso que repare o tempo perdido se eu não quiser pro

longar os sofrimentos. Espero que Deus, tendo em conta a sinceridade do

meu arrependimento, me conceda a graça do seu perdão. Pedi ainda por

mim, eu vo-lo suplico. Homens, meus irmãos, como vivi só para mim,

agora expio e sofro! Que Deus vos conceda a graça de evitardes os espinhos

que ora me laceram. Prossegui no caminho largo do Senhor e orai por

mim, pois abusei dos bens que Deus empresta às suas criaturas!

Quem sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons sen

timentos que Deus lhe dá, assemelha-se ao animal que muitas vezes

se maltrata. O homem deve utilizar-se sobriamente dos bens de que é

depositário, habituando-se a visar a eternidade que o espera, abrindo

mão, por consequência, dos gozos materiais. A sua alimentação deve

ter por exclusivo fim a vitalidade; o luxo deve apenas restringir-se às

necessidades da sua posição; os gostos, os pendores, mesmo os naturais,

devem ser regidos pela mais pura razão, sem o que o homem se mate

rializa em vez de se depurar. As paixões humanas são estreitos grilhões

que se enroscam na carne e, assim, não lhes deis abrigo. Vivei, mas não

agi como os boêmios, pois não sabeis o seu preço quando regressais à

pátria verdadeira! As paixões terrenas vos despojam antes mesmo de vos

deixarem, de modo a chegardes nus, completamente nus, ante o Senhor.

Ah! cobri-vos de boas obras; elas vos ajudarão a franquear o espaço entre

vós e a eternidade. Manto brilhante, elas escondem as vossas torpezas

humanas. Envolvei-vos na caridade e no amor, vestes divinas que nin

guém pode remover.

instruçõEs do guiA do médium – Este Espírito está no bom cami

nho, porquanto, além do arrependimento, aduz conselhos tendentes a evitar

os perigos da estrada por ele trilhada. Reconhecer os erros já é um mérito e

um passo efetivo para o bem; é por isso que a sua situação, embora não seja

feliz, tampouco é a de um Espírito sofredor. Está arrependido. Resta-lhe,

contudo, a reparação, que ele levará a efeito em outra existência de prova

ções. Mas, antes de lá chegar, sabeis qual a situação desses homens de vida

sensual que não deram ao espírito outra atividade além da invenção de novos

prazeres? A influência da matéria os segue além do túmulo, sem que a morte

lhes ponha termo aos apetites que a sua vista, tão limitada como quando na

Terra, procura em vão os meios de os saciar. Por não terem nunca procurado

alimento espiritual, a alma erra no vácuo, sem direção, sem esperança, presa

dessa ansiedade de quem não tem diante de si mais que um deserto sem

limites. A nulidade de suas ocupações intelectuais durante a vida corpórea

acarreta naturalmente a nulidade do trabalho espiritual depois da morte; não

podendo mais saciar o corpo, nada restará para satisfazer o Espírito. Daí, um

tédio mortal cujo termo não preveem e ao qual prefeririam o nada. Mas o

nada não existe... Puderam matar o corpo, mas não podem aniquilar o Espí

rito. É preciso, pois, que vivam nessas torturas morais até que, vencidos pelo

cansaço, se decidam a volver os olhos para Deus.

Lisbeth

Um Espírito sofredor se inscreve com o nome de Lisbeth.

1. Podeis dar-nos algumas informações a respeito da vossa posição, assim

como da causa dos vossos sofrimentos? – R. Sede humilde de coração, submis

so à vontade de Deus, paciente na provação, caridoso para com o pobre,

consolador do fraco, sensível a todos sofrimentos e não sofrereis as torturas

que me consomem.

2. Pareceis sentir as falhas opostas às qualidades que acabais de assinalar.

O arrependimento poderá dar-vos algum alívio? – R. Não; o arrependimento

é inútil, quando resulta apenas do sofrimento. O arrependimento profícuo

tem por base a mágoa de haver ofendido a Deus e o consequente desejo

de reparação. Ainda não sou capaz de tanto, infelizmente. Recomendai-me

às preces de quantos se interessem pelos sofrimentos alheios, porque delas

tenho necessidade.

Isto é uma grande verdade. Às vezes o sofrimento provoca um brado de arrependi

mento, mas que não expressa com sinceridade o pesar de haver praticado o mal, por

quanto, se o Espírito deixasse de sofrer, reincidiria nas mesmas faltas. É por isso que

o arrependimento nem sempre acarreta a imediata libertação do Espírito; apenas o

predispõe para ela, eis tudo. É-lhe preciso, além disso, provar a sinceridade e firmeza

de suas resoluções, por meio de novas provações reparadoras do mal praticado.

Meditando-se cuidadosamente sobre todos os exemplos que citamos, encontrar--se-á nas palavras dos Espíritos, mesmo dos mais inferiores, profundos ensinamen

tos, visto que eles nos fornecem os mais íntimos pormenores da vida espiritual.

Enquanto o homem superficial só verá nesses exemplos narrativas pitorescas, o

homem sério e refletido encontrará neles abundante manancial de estudos.

3. Farei o que desejais. Podereis dar-nos alguns pormenores da vossa

última existência corpórea? Daí pode resultar algum ensinamento útil para nós

e assim tornareis proveitoso o vosso arrependimento.

O Espírito vacila na resposta, não só desta pergunta, como de algumas das que

se seguem.

R. Nasci num meio elevado. Possuía tudo que os homens julgam a

fonte da felicidade. Rica, tornei-me egoísta; bela, fui vaidosa, insensível,

hipócrita; nobre, era ambiciosa. Esmaguei sob os pés todos os que não se

dobravam diante de mim, esquecida de que a cólera do Senhor também

esmaga, cedo ou tarde, as mais altivas frontes.

4. Em que época vivestes? – R. Há 150 anos, na Prússia.

5. Desde então não progredistes como Espírito? – R. Não; a matéria se

revoltava sempre, e tu não podes avaliar a influência que ela ainda exerce

sobre mim, a despeito da separação do corpo. O orgulho me prende a

fortes cadeias, cujos anéis comprimem cada vez mais o mísero que lhe

hipoteca o coração. O orgulho, hidra de cem cabeças a se renovarem

incessantemente, modulando silvos envenenados que chegam a parecer

celeste harmonia! Orgulho! Esse demônio multiforme que se amolda a

todas as aberrações do Espírito, que se oculta em todos os refolhos do

coração, que penetra as veias; que absorve e arrasta às trevas da eterna

geena!... Oh! sim... eterna!

Provavelmente, o Espírito diz não ter feito progresso algum, por ser a sua

situação sempre penosa; mas a maneira pela qual descreve o orgulho e lhe

deplora as consequências é, incontestavelmente, um progresso. Certamente,

quando encarnado e mesmo logo após a morte, ele não poderia raciocinar

assim. Compreende o mal, o que já é alguma coisa; a coragem e o propósito de

evitá-lo lhe sobrevirão mais tarde.

6. Deus, a bondade por excelência, não condenaria suas criaturas a pe

nas eternas. Confiai na sua misericórdia. – R. Dizem que isto pode ter um

termo, mas onde e quando? Há muito que o procuro e só vejo sofrimento,

sempre, sempre, sempre!

7. Como viestes hoje aqui? – R. Conduzida por um Espírito que me

acompanha muitas vezes.

7-a. Desde quando vedes esse Espírito? – R. Não faz muito tempo.

7-b. E desde quando tendes consciência das faltas que cometestes? – R.

[Depois de longa reflexão.] Sim, tens razão; só então pude vê-lo.

8. Compreendeis agora a relação existente entre o arrependimen

to e o auxílio prestado por vosso Espírito protetor? Tomai como origem

desse apoio o amor de Deus, cujo objetivo será o seu perdão e misericór

dia infinitos. – R. Oh! como desejaria que assim fosse! Creio poder

prometê-lo no nome sacratíssimo daquele que jamais foi surdo à voz

dos filhos aflitos.

8-a. Pedi de coração e sereis ouvida. – R. Não posso; tenho medo.

9. Então oremos juntos; Ele nos atenderá. [Depois da prece] Ainda

estais aí? – R. Sim. Obrigada! Não me esqueçais.

10. Vinde aqui vos inscrever todos os dias. – R. Sim, sim, virei sempre.

o guiA do médium – Nunca esqueçais os ensinos que colheis nos

sofrimentos dos vossos protegidos e, sobretudo, nas suas causas, visto se

rem lição que a todos aproveita, no sentido de se preservarem dos mesmos

perigos e de idênticos castigos. Depurai os corações, sede humildes, amai--vos e ajudai-vos sem esquecerdes jamais a fonte de todas as graças, fonte

inesgotável na qual podem todos saciar-se à vontade; fonte de água viva

que sacia e alimenta igualmente, fonte de vida e felicidade eterna. Ide a ela,

meus amigos, e bebei com fé. Mergulhai nela as vossas redes, que sairão de

suas ondas carregadas de bênçãos. Adverti vossos irmãos dos perigos em

que podem incorrer. Difundi as bênçãos do Senhor, que se reproduzem

incessantes; quanto mais as propagardes, tanto mais se multiplicarão. A

tarefa está em vossas mãos, porquanto, dizendo aos vossos irmãos: aí estão

os perigos, lá os escolhos; vinde conosco a fim de os evitar; imitai a nós que

damos o exemplo, espalharei as bênçãos do Senhor sobre os que vos ouvi

rem. Que os vossos esforços sejam abençoados. O Senhor ama os corações

puros; fazei por merecer o seu amor.

Saint Paulin

Príncipe Ouran

(Bordeaux, 1862.)

Um Espírito sofredor apresentou-se dando o nome de Ouran,

príncipe russo de outros tempos:

P. Quereis dar-nos alguns detalhes sobre a vossa situação? – R. Oh!

bem-aventurados os humildes de coração, porque deles é o reino dos

céus! Orai por mim. Bem-aventurados os humildes de coração que esco

lhem uma posição modesta a fim de cumprirem a provação. Vós todos,

a quem devora a inveja, não sabeis o estado a que ficou reduzido um

desses que na Terra são considerados felizes; não avaliais o fogo que o

abrasa nem os sacrifícios impostos pela riqueza, quando por ela se quer

obter a salvação eterna! Que o Senhor me permita, a mim déspota or

gulhoso, expiar os crimes oriundos do meu orgulho entre aqueles mes

mos a quem oprimi com a tirania! Orgulho! repita-se constantemente

a palavra para que não esqueçais nunca que ele é a fonte de todos os

sofrimentos que nos acabrunham. Sim, eu abusei do poder e dos favores

de que dispunha; fui duro e cruel para com os inferiores, os quais tive

ram de curvar-se a todos os meus caprichos, satisfazer a todas as minhas

depravações. Quis a nobreza, a fortuna, as honras e sucumbi sob peso

superior às próprias forças.

Os Espíritos que sucumbem são geralmente levados a alegar um compromisso

superior às próprias forças, o que é ainda um resquício de orgulho e um meio de

se desculparem para consigo mesmos, por não se conformarem com a própria

fraqueza. Deus não dá a ninguém mais do que possa suportar, nem exige da árvore

jovem os frutos dados pelo tronco desenvolvido. Deus dá a liberdade aos Espíri

tos; o que lhes falta é vontade, e esta depende deles exclusivamente. Com força

de vontade não há tendências viciosas que não se possam vencer; mas quando um

vício nos apraz, é natural que não façamos esforços para domá-lo. Assim, somente a

nós devemos atribuir as respectivas consequências.

P. Tendes consciência das vossas faltas, e isto já é um passo para a regene

ração. – R. Esta consciência é ainda um sofrimento. Para muitos Espíritos

o sofrimento é um efeito quase material, porquanto, presos à humanidade

da sua última existência, não se dão conta das sensações morais. Liberto da

matéria, o sentimento moral aumentou-se, para mim, de tudo quanto as

cruéis sensações físicas tinham de horrível.

P. Divisais um termo aos vossos sofrimentos? – R. Sei que não serão eternos,

mas não lhes entrevejo o fim; é preciso, antes, que eu recomece a provação.

P. Esperais recomeçá-la em breve? – R. Não sei ainda.

P. Lembrai-vos dos vossos antecedentes? Faço-vos esta pergunta no intuito

de me instruir. – R. Vossos guias estão aqui e sabem do que precisais. Vivi

no tempo de Marco Aurélio. Poderoso então, sucumbi ao orgulho, causa

de todas as quedas. Depois de uma erraticidade de séculos, quis experi

mentar uma existência obscura. Pobre estudante, mendiguei o pão, mas o

orgulho possuía-me sempre. O Espírito ganhara em ciência, mas não em

virtude. Sábio e ambicioso, vendi a alma a quem pagasse mais, servindo

a todas as vinganças, a todos os ódios. Sentia-me culpado, mas a sede das

honras e das riquezas abafava os gritos da minha consciência. A expiação

foi longa e cruel. Eu quis, enfim, na minha última encarnação, experimen

tar uma vida de luxo e de poder, no intuito de dominar os tropeços, sem

atender a conselhos. Era ainda o orgulho levando-me a confiar mais em

mim do que no conselho dos protetores amigos que sempre velam por nós.

Ora, já sabeis do resultado desta última tentativa.

Hoje, enfim, compreendo e aguardo a misericórdia do Senhor.

Deponho a seus pés o meu arrasado orgulho e peço-lhe que me sobre

carregue com o mais pesado tributo de humildade, pois com o auxílio

da sua graça o peso me parecerá mais leve. Orai comigo e por mim;

orai também para que esse fogo diabólico não devore os instintos que

vos encaminham para Deus. Irmãos de sofrimentos: tomara que o meu

exemplo vos possa ser proveitoso e não esqueçais nunca que o orgulho é o

inimigo da felicidade. É dele que derivam todos os males que acometem

a humanidade e a perseguem até nas regiões celestes.

o guiA do médium – É natural que alimenteis dúvidas sobre a

identidade deste Espírito, por vos parecer a sua linguagem em desacordo

com o estado de sofrimento em que se acha, acusando inferioridade. Não

temais, porque recebestes uma comunicação séria. Por mais sofredor que

seja, a cultura deste Espírito é tamanha que o leva a exprimir-se de tal

maneira. O que lhe faltava era apenas a humildade, sem a qual nenhum

Espírito pode chegar a Deus. Só agora ele conquistou essa humildade, e

esperamos que, com perseverança, saia triunfante de uma nova provação.

Nosso Pai celestial é justíssimo na sua sabedoria e leva em conta os

esforços da criatura para domar os maus instintos. Cada vitória sobre nós

mesmos é um degrau franqueado nessa escada que tem uma extremidade

na Terra e outra aos pés do Juiz Supremo. Subi por esses degraus resoluta

mente; a vossa ascensão é tanto mais suave quanto mais firme a vontade.

Olhai sempre para cima a fim de vos encorajardes, porque ai daquele que

se detém e olha para trás. Depressa o atinge a vertigem, espanta-se com o vá

cuo que o cerca, desanima e diz: para que mais caminhar, se andei tão pouco

e tanto me falta ainda? Não, meus amigos, não olheis para trás. O orgulho

está arraigado no homem. Pois bem! aproveitai-o na força e na coragem de

terminar a vossa subida. Empregai-o ainda em dominar as fraquezas e galgai

o topo da montanha eterna.

Pascal Lavic

(Le Havre, 9 de agosto de 1863.)

Este Espírito manifestou-se espontaneamente, embora o médium

não o conhecesse em vida nem mesmo de nome:

“Creio na bondade de Deus, que, na sua misericórdia, se compade

cerá do meu Espírito. Tenho sofrido muito, muito. Morri no mar. Meu

Espírito, ligado ao corpo, vagou por muito tempo sobre as ondas. Deus...

A comunicação foi interrompida, e no dia seguinte o Espírito

prosseguiu.

“...houve por bem permitir que as preces dos que ficaram na Terra

me tirassem do estado de perturbação e incerteza em que me achava imer

so. Esperaram-me por muito tempo e puderam enfim achar meu corpo.

Este repousa atualmente, ao passo que o Espírito, desprendido com difi

culdade, vê as faltas cometidas. Consumada a provação, Deus julga com

justiça e a sua bondade se estende aos arrependidos.

“Por muito tempo o corpo e o Espírito erraram juntos, sendo essa

a minha expiação. Segui o caminho reto, se quiserdes que Deus facilite

o desprendimento do vosso Espírito. Vivei no seu amor, orai, e a morte,

que tantos temem, vos será suavizada pelo conhecimento da vida que vos

espera. Sucumbi no mar, e por muito tempo me esperaram. Não poder

desligar-me do corpo era para mim terrível provação; por isso necessito das

preces de quem, como vós, possui a crença salvadora e pode pedir por mim

ao Deus de justiça. Arrependo-me e espero ser perdoado. O meu corpo foi

encontrado no dia 6 de agosto. Eu era um pobre marinheiro e há muito

tempo que morri. Orai por mim.”

Pascal Lavic

P. Onde foi achado o vosso corpo? – R. Não muito longe de vós.

O Journal du Havre, de 11 de agosto de 1863, continha o seguinte artigo, do qual

o médium não tinha o menor conhecimento:

“Noticiamos que a 6 do corrente mês se encontrara um resto de

cadáver entre Bléville e La Hève. A cabeça, os braços e o busto tinham de

saparecido, porém, apesar disso, a sua identidade pôde ser constatada pelos

sapatos ainda presos aos pés. Foi reconhecido o corpo do pescador Lavic,

arrebatado do navio L’ Alerte por forte rajada de vento. Lavic tinha 49 anos

e era natural de Calais. Foi a viúva que lhe reconheceu a identidade.”

A 12 de agosto, como se tratasse desse acontecimento no Centro em que o Espí

rito se manifestara pela primeira vez, este houve por bem dar, espontaneamente,

a seguinte comunicação:

“Sou realmente Pascal Lavic, que tem necessidade das vossas preces.

Podeis beneficiar-me, dado que a provação que experimentei foi terrível.

O meu Espírito só conseguiu desligar-se do corpo depois que reconheci as

minhas faltas, e mesmo assim de forma parcial, de modo que eu o acom

panhava no oceano que o tragara. Orai, pois, para que Deus me perdoe e

me conceda repouso. Que este desastrado fim de uma infeliz vida terrena

vos sirva de grande ensinamento! Deveis ter sempre em vista a vida futura,

não deixando jamais de implorar a Deus a sua misericórdia. É preciso que

Ele se compadeça de mim.”

Pascal Lavic

Um médium do Havre evocou o Espírito de uma pessoa de suas

relações, que respondeu: “Quero comunicar-me, mas não consigo ven

cer o obstáculo entre nós. Sou forçado a deixar que se aproximem estes

infelizes e sofredores.” Logo depois, o médium transmite a seguinte

comunicação espontânea:

“Estou num terrível abismo! Ajudai-me... Oh! meu Deus! Quem me

tirará desse abismo? Quem socorrerá com mãos piedosas o infeliz tragado

pelas ondas? A noite é tão escura que tenho medo. Por toda parte o maru

lho das vagas, e nem uma palavra amiga que me console e ajude neste mo

mento supremo. Entretanto, esta noite profunda é bem a morte com seus

horrores, e eu não quero morrer!... Oh! meu Deus! Não é a morte futura,

é a passada!... Estou separado para sempre dos que me são caros... Vejo o

meu corpo, e o que há pouco sentia era apenas a lembrança da angustiosa

separação... Tende piedade de mim, vós que conheceis o meu sofrimento;

orai por mim, pois não quero mais sentir as lacerações da agonia, como

tem acontecido desde a noite fatal!... É essa, no entanto, a punição, bem

a pressinto... Orai, eu vos suplico!... Oh! o mar... o frio... vou ser tragado

pelas ondas... Socorro! Tende piedade; não me repilais!... Nós nos salvare

mos os dois sobre esta tábua!... Oh! afogo-me; as águas vão tragar-me, sem

que aos parentes reste o consolo de me tornarem a ver... Mas não! Que

vejo! Meu corpo a balançar-se pelas ondas... As preces de minha mãe serão

ouvidas. Pobre mãe! Se pudesse imaginar o filho tão miserável como de

fato o é, pediria mais; acredita, porém, que a causa da morte me santificou

o passado e chora-me como mártir, e não como infeliz castigado!... Oh!

vós que o sabeis, sereis implacáveis? Não; por certo intercedereis por mim.

François Bertin

O médium desconhecia por completo esse nome, não lhe sugerindo

nem mesmo uma vaga lembrança, pelo que supôs fosse de algum desditoso

náufrago que se viesse manifestar espontaneamente a ele, como sucedia

tantas vezes. Mais tarde soube que se tratava, de fato, do nome de uma

das vítimas da grande catástrofe marítima ocorrida nessas paragens a 2 de

dezembro de 1863. A comunicação fora dada a 8 do mesmo mês, seis

dias, portanto, depois do sinistro. O indivíduo perecera fazendo tentativas

extraordinárias para salvar a equipagem e no momento em que se julgava

ao abrigo da morte. Não tendo qualquer parentesco com o médium, nem

mesmo conhecimento, por que se teria manifestado a este em vez de o

fazer a qualquer membro da família? É que os Espíritos não encontram

em todas as pessoas as condições fluídicas imprescindíveis à manifes

tação. Este, na perturbação em que estava, nem mesmo tinha a liberdade

de escolha, sendo conduzido por instinto e por atração para este médium,

dotado, ao que parece, de aptidão especial para as comunicações deste gê

nero. Também é de supor que pressentisse uma simpatia particular, como

outros a encontraram em idênticas circunstâncias. A família, estranha ao

Espiritismo, talvez até mesmo hostil a esta crença, não teria acolhido a

manifestação, como o fez esse médium.

Embora a morte tivesse ocorrido há alguns dias, o Espírito experi

mentava ainda todas as suas angústias. Era evidente, portanto, que não

tinha consciência da situação; acreditava-se vivo, lutando contra as ondas,

mas ao mesmo tempo se referindo ao corpo como se dele estivesse sepa

rado; grita por socorro, diz que não quer morrer e fala logo após da causa

da morte, reconhecendo nela um castigo. Toda essa incoerência denota a

confusão das ideias, fato comum em quase todas as mortes violentas.

Dois meses mais tarde, a 2 de fevereiro de 1864, o Espírito de

novo se comunica espontaneamente pelo mesmo médium, ditando-lhe

o que se segue:

“A piedade que tivestes dos meus tão horríveis sofrimentos ali

viou-me. Compreendo a esperança, entrevejo o perdão, mas só depois

da reparação da falta cometida. Sofro continuamente e, se por alguns

momentos Deus permite que eu entreveja o fim da minha desventura,

devo-o às preces de almas caridosas apiedadas da minha situação. Oh!

esperança, raio celeste, como és bendita quando te sinto despontar-me

na alma!... Mas oh! o abismo se abre, o terror e o sofrimento absorvem o

pensamento de misericórdia. A noite, sempre a noite!... a água, o bramir

das ondas que me tragaram, não passam de pálida imagem do horror em

que se envolve o meu pobre Espírito... Fico mais calmo quando posso

permanecer junto de vós, pois assim como a confidência de um segredo

ao peito amigo nos alivia, assim também a vossa piedade, motivada pela

confidência da minha penúria, acalma o sofrimento e dá repouso ao meu

Espírito... As vossas preces me fazem bem; não mas recuseis. Não que

ro cair nesse horrendo sonho que se transforma em realidade quando o

vejo... Tomai o lápis com mais frequência. Faz-me tanto bem quando me

comunico convosco!”

Alguns dias depois, este Espírito foi evocado numa reunião espírita

em Paris, sendo-lhe dirigidas as seguintes perguntas, por ele englobadas

numa única comunicação e mediante outro médium, na forma abaixo:

P. Quem vos levou a comunicar espontaneamente pelo outro médium?

Há quanto tempo havíeis morrido quando vos manifestastes?

P. Quando vos comunicastes parecíeis duvidar ainda do vosso estado,

experimentando, ao mesmo tempo, todas as angústias de uma morte terrível.

Tendes agora melhor compreensão dessa situação?

P. Dissestes positivamente que a vossa morte era uma expiação. Podereis

dizer-nos o motivo dessa afirmativa? Isso servirá de ensinamento para nós e de

alívio para vós. Por uma confissão sincera atraireis a misericórdia de Deus, a

qual solicitaremos em nossas preces.

R. À primeira vista parece impossível que uma criatura possa sofrer

tão cruelmente. Deus! Como é penoso se ver constantemente envolto nas

vagas em fúria, provando sem cessar esse suplício, esse frio glacial que sobe

ao estômago e constringe! Mas de que serve entreter-vos com tais coisas?

Não devo começar por obedecer às leis da gratidão, agradecendo-vos a vós

todos que vos interessastes pelos meus tormentos? Perguntastes se me ma

nifestei muito tempo depois da morte?

Não posso responder facilmente. Pensai e avaliai em que horrível

situação estou ainda. Creio que fui trazido para junto do médium por

força estranha à minha vontade e, coisa impossível, servia-me do seu braço

com a mesma facilidade com que neste momento me sirvo do vosso, convicto

de que ele me pertence. Agora experimento mesmo um grande prazer,

como que um alívio particular que, oh! logo vai cessar. Mas meu Deus!

terei forças para fazer a confissão que me cumpre? Contudo, depois de

ser muito animado, o Espírito acrescentou: eu era muito culpado, e o que

mais me tortura é ter sido considerado mártir, quando em verdade não o

fui... Na precedente existência eu mandara ensacar várias vítimas ainda

vivas e depois as atirei no mar. Orai por mim!

comEntário dE são luís sobrE EstA comunicAção – Esta confis

são trará grande alívio ao Espírito, que realmente foi bem culpado! Hon

rosa, porém, foi a existência que acaba de deixar; era amado e estimado de

seus chefes. Tudo isso era fruto do seu arrependimento e das boas resolu

ções que tomou antes de voltar à Terra, onde desejara ser humano, tanto

quanto fora cruel no passado. O devotamento de que deu provas era uma

reparação, sendo-lhe porém preciso resgatar as faltas passadas por uma ex

piação final: a da morte cruel que padeceu. Ele mesmo quis depurar-se

pelo sofrimento das torturas que infligira a outrem; mas reparai que uma

ideia o persegue: o pesar de ser tido como mártir. Essa humildade será leva

da em consideração. Enfim, ele deixou o caminho da expiação para entrar

no da reabilitação. Podeis sustentá-lo com as vossas preces, levando-o a

trilhar com passo mais firme e resoluto.

François Riquier

François Riquier era um velho celibatário, avarento e muito popu

lar, falecido em C..., em 1857, legando aos parentes colaterais considerá

vel fortuna. Em outros tempos havia sido locador de uma inquilina, que

mais tarde o esquecera completamente, ignorando até se ainda vivia ou

não. Em 1862, uma filha dessa senhora, sujeita a crises de catalepsia se

guidas de sono magnético espontâneo e também excelente médium escre

vente, viu, num desses sonos, o Sr. Riquier, o qual, assegurava, pretendia

dirigir-se à sua mãe. Alguns dias mais tarde, uma vez que se manifestara

espontaneamente confirmando aquela intenção, mantiveram com ele a

seguinte comunicação:

P. Que pretendeis de nós? – R. Meu dinheiro, do qual os miseráveis se

apossaram, a fim de o repartirem! Venderam minhas fazendas, minhas ca

sas, tudo, para se locupletarem. Dilapidaram meus bens, como se não mais

me pertencessem. Que me seja feita justiça, já que a mim não me ouvem e

não quero presenciar tais infâmias. Dizem que eu era usurário, e guardam

meu dinheiro! Por que não restituem o que me pertence? Porventura acha

rão que foi mal ganho?

P. Mas estais morto, meu caro senhor, e não tendes necessidade alguma

de dinheiro. Pedi a Deus para vos conceder uma nova existência de pobreza,

a fim de expiardes a usura desta última. – R. Não, eu não poderei viver na

pobreza. Preciso do meu dinheiro, sem o qual não posso viver. Além disso,

não preciso de outra existência, já que estou vivo atualmente.

P. [Foi-lhe feita a seguinte pergunta, no intuito de chamá-lo à realida

de.] Sofreis? – R. Oh! sim. Sofro torturas piores que a mais cruel enfermida

de, pois é minha alma quem as padece. Tenho sempre presente na mente a

iniquidade de uma vida que foi para muitos motivo de escândalo. Sei perfei

tamente que sou um miserável, indigno de piedade, mas o meu sofrimento

é tão grande que é preciso que me auxiliem a sair desta situação deplorável.

P. Oraremos por vós. – R. Obrigado! Orai para que eu esqueça

os meus bens terrenos, sem o que não poderei arrepender-me jamais.

Adeus e obrigado.

François Riquier

Rue de la Charité, no 14

É bastante curioso ver-se este Espírito indicar seu endereço como se ainda estivesse

vivo. A senhora, que o ignorava, apressou-se em verificá-lo e ficou muito surpresa

por ver que era justamente a última casa que Riquier habitara. Assim, passados

cinco anos, ele não se considerava morto, experimentando ainda a ansiedade, bem

cruel para um avarento, de ver os bens partilhados pelos herdeiros. A evocação,

sem dúvida provocada por algum Espírito bom, teve por fim fazer-lhe compreen

der o seu estado e predispô-lo ao arrependimento.

Claire(Sociedade Espírita de Paris, 1861.)

O Espírito que ditou as comunicações seguintes pertenceu a uma

senhora que o médium conhecera na Terra, cujo caráter e conduta justifi

cam plenamente os tormentos que lhe sobrevieram. Além do mais, ela era

dominada por um sentimento exagerado de orgulho e egoísmo pessoais,

sentimento que se evidencia principalmente na terceira das mensagens, ao

pretender que o médium apenas se ocupe com ela. Essas comunicações

foram obtidas em diferentes épocas, sendo que as três últimas já deno

tam sensível progresso nas disposições do Espírito, graças ao cuidado do

médium, que empreendera a sua educação moral.

UM – Eis-me aqui, eu, a infeliz Claire. Que queres tu que te diga? A

resignação e a esperança não passam de palavras para os que sabem que,

inumeráveis como os calhaus da praia, os sofrimentos lhe perdurarão na

sucessão interminável dos séculos. Dizes que posso suavizá-los... Que vaga

palavra! Onde encontrar coragem e esperança para tanto? Procura, pois,

inteligência obtusa, o que seja um dia que jamais se acaba. Será um dia,

um ano ou um século... que sei eu? Se as horas não o dividem, as estações

não variam; eterno e lento como a água que brota do rochedo, este dia exe

crável, maldito, pesa sobre mim como avalancha de chumbo... Eu sofro!...

Em torno de mim, apenas sombras silenciosas e indiferentes... Eu sofro!

Contudo, sei que acima desta miséria reina o Deus Pai, para o qual

tudo se encaminha. Quero pensar nele, quero implorar-lhe misericórdia.

Debato-me e me arrasto como o estropiado que rasteja ao longo do ca

minho. Não sei que poder me atrai para ti; talvez sejas a salvação. Tu me

deixas mais calma, mais reanimada, qual anciã enregelada que se aquecesse

sob um raio de sol. Gélida, minha alma se reanima à tua aproximação.

DOIS – A minha desgraça aumenta dia a dia, à medida que se desenvolve

em mim o conhecimento da eternidade. Ó miséria! Malditas sejam as ho

ras de egoísmo e de esquecimento, nas quais, esquecida de toda a caridade,

de todo o afeto, eu só pensava no meu bem-estar! Malditos interesses hu

manos, inúteis preocupações materiais que me cegaram e perderam! Agora

o remorso do tempo perdido. Que te direi, a ti que me ouves? Olha, vela

constantemente, ama aos outros mais que a ti mesma, não te retardes nos

caminhos da ociosidade nem engordes o corpo em detrimento da alma.

Vela, conforme pregava o Salvador a seus discípulos. Não me agradeças

estes conselhos, porque se o meu Espírito os concebe, o coração nunca os

ouviu. Qual o cão escorraçado rastejando de medo, assim me humilho

sem conhecer ainda o voluntário amor. A sua divina aurora tarda muito a

despontar! Ora por minha alma ressequida e tão miserável!

TRES – Já que me esqueceste, venho até aqui te procurar. Acreditas que

preces isoladas e a simples pronúncia do meu nome bastarão ao apaziguamen

to das minhas penas? Não, cem vezes não. Errante, sem repouso, sem asilo,

sem esperança, eu urro de dor, sentindo o aguilhão eterno do castigo a enter

rar-me na alma revoltada. Dou risadas quando ouço os vossos lamentos, assim

como quando vos vejo abatidos. Que são as vossas pálidas misérias, as vossas

lágrimas, os vossos tormentos que o sono interrompe? Será que eu durmo

aqui? Quero, ouviste? quero que, deixando as tuas lucubrações filosóficas, te

ocupes de mim, além de fazeres com que outros mais também se ocupem. Não

encontro expressões para descrever a angústia desse tempo que se escoa, sem

que as horas lhe assinalem períodos. Vejo apenas um tênue raio de esperança, e

esta esperança foste tu que ma deste. Não me abandones, pois.

QUATRO– o Espírito são luís – Este quadro é de todo verdadeiro e em

nada exagerado. Perguntar-se-á talvez o que fez essa mulher para ser tão

miserável assim. Terá cometido algum crime horrível? Roubou? Assassi

nou? Não; ela nada fez que afrontasse a justiça dos homens. Ao contrário,

divertia-se com o que chamais felicidade terrena; beleza, fortuna, prazeres,

adulações, tudo lhe sorria, nada lhe faltava, a ponto de dizerem os que a

viam: Que mulher feliz! E lhe invejavam a sorte. Mas o que fez ela? Foi

egoísta; possuía tudo, exceto um bom coração. Não violou a lei dos ho

mens, mas a de Deus, visto como esqueceu a primeira das virtudes — a ca

ridade. Não tendo amado senão a si mesma, agora não encontra ninguém

que a ame; nada deu, de modo que nada lhe dão; está isolada, abandonada,

perdida no espaço, onde ninguém pensa nela nem dela se ocupa. É isto

que constitui o seu tormento. Tendo apenas procurado os gozos munda

nos que hoje não mais existem, o vácuo se fez em torno dela, e como vê

apenas o nada, este lhe parece eterno. Ela não sofre torturas físicas, pois os

demônios não vêm atormentá-la, o que aliás é desnecessário, visto que se

atormenta a si mesma. Isto faz que sofra ainda mais, pois se os demônios

a atormentassem ao menos estariam pensando nela. O egoísmo foi a sua

alegria na Terra e a persegue ainda; é o verme que lhe corrói o coração, seu

verdadeiro demônio.

CINCO – Falar-vos-ei da importante diferença existente entre a moral divi

na e a moral humana. A primeira assiste a mulher adúltera no seu abando

no e diz aos pecadores: “Arrependei-vos e vos será aberto o reino dos céus.”

Finalmente, a moral divina aceita todo arrependimento, todas as faltas

confessadas, ao passo que a moral humana rejeita aquele e sorri aos pecados

ocultos que, diz, são em parte perdoados. A uma cabe a graça do perdão,

e a outra a hipocrisia. Escolhei, Espíritos ávidos da verdade! Escolhei entre

os céus abertos ao arrependimento e a tolerância que admite o mal, mas

que repele as paixões e os soluços das faltas claramente confessadas, só para

não ferir o seu egoísmo e os seus preconceitos. Arrependei-vos todos vós

que pecais; renunciai ao mal e principalmente à hipocrisia, que esconde as

torpezas, esta máscara risonha e mentirosa das conveniências.

SEIS– Agora estou calma e resignada à expiação das minhas faltas. O

mal não está fora de mim, reside em mim; sou eu, portanto, que me devo

transformar, e não as coisas exteriores. Trazemos conosco o nosso céu e o

nosso inferno; as nossas faltas, gravadas na consciência, são lidas corrente

mente no dia da ressurreição. E uma vez que o estado da alma nos abate ou

eleva, somos nós os juízes de nós mesmos. Explico-me: um Espírito impuro

e sobrecarregado de culpas não pode conceber nem desejar uma elevação que

não seria capaz de suportar. Crede-o bem: assim como as diferentes espécies

de seres vivem, cada qual, na esfera que lhes é própria, assim os Espíritos,

segundo o grau de adiantamento, se movem no meio adequado às suas

faculdades e não concebem outro meio senão quando o progresso, instru

mento de lenta transformação das almas, lhes subtrai as baixas tendências,

despojando-os da crisálida do pecado, a fim de que possam voar antes de

se lançarem, rápidos como flechas, para o fim único e almejado — Deus!

Ah! rastejo ainda, mas não odeio mais, e já concebo a inefável felicidade do

amor divino. Orai, pois, sempre por mim, que espero e aguardo.

Na comunicação seguinte, Claire fala de seu marido, que muito a martirizara na

Terra, e da posição em que hoje se encontra no mundo espiritual. Esse quadro,

que ela por si não pôde completar, foi concluído pelo guia espiritual do médium.

SETE – Venho a ti, que por tanto tempo me deixas no esquecimento.

Tenho, porém, adquirido paciência e não mais me desespero. Queres saber

a situação do pobre Félix? Erra nas trevas, vítima da profunda nudez de sua

alma. Superficial e leviano, aviltado pelo prazer, nunca soube o que eram o

amor e a amizade. Nem mesmo a paixão esclareceu suas sombrias luzes. Seu

estado presente é comparável ao da criança inapta para as funções da vida e

privada de todo o amparo dos que a assistem. Félix vaga aterroriza-do nesse

mundo estranho onde tudo fulgura ao brilho desse Deus que ele negou...

OITO – o guiA do médium – Claire não pode continuar a análise dos

sofrimentos do marido, sem também compartilhá-los. Falarei em seu lugar:

Félix — superficial nas ideias como nos sentimentos; violento por

fraqueza; devasso por frivolidade — entrou no mundo dos Espíritos tão

nu quanto ao moral, como quanto ao físico. Ao reencarnar nada adquiriu

e, por conseguinte, tem de recomeçar toda a obra. Qual homem ao despertar

de prolongado sonho e que reconhece a profunda agitação dos seus nervos,

esse pobre ser, saindo da perturbação, reconhecerá que viveu de quimeras,

que lhe desvirtuaram a existência. Então, maldirá do materialismo que lhe

dera o vácuo pela realidade; maldirá o positivismo que lhe fizera tomar por

desvarios as ideias sobre a vida futura, como por loucura a sua aspiração, e

como por fraqueza a crença em Deus. O infeliz, ao despertar, verá que esses

nomes que ele escarneceu são a fórmula da verdade, e que, ao contrário da

fábula, a caça da presa foi menos proveitosa que a da sombra.

Georges

Estudo sobrE As comunicAçõEs dE clAirE – Estas comunicações

são instrutivas por nos mostrarem uma das feições mais comuns da vida

— a do egoísmo. Delas não resultam esses grandes crimes que assustam

mesmo os homens mais perversos, mas a condição de uma turba enorme

que vive neste mundo, honrada e venerada, somente por ter um certo ver

niz e não cair no opróbrio da repressão das leis sociais. Essa gente não vai

encontrar castigos excepcionais no mundo dos Espíritos, mas uma situação

simples, natural, consequência da sua maneira de viver e do estado de sua

alma. O isolamento, o abandono, o desamparo, eis a punição daquele que

só viveu para si. Como vimos, Claire era um Espírito muito inteligente,

mas de coração árido. A posição social, a fortuna, os dotes físicos que pos

suíra na Terra, atraíam-lhe homenagens gratas à sua vaidade, o que lhe

bastava; hoje, onde se encontra, só vê indiferença e vacuidade em torno de

si, punição mais pungente do que a dor que inspira piedade e compaixão:

mas é também um meio de obrigá-la a despertar o interesse de outrem a

seu respeito, pela sua sorte.

A sexta mensagem encerra uma ideia perfeitamente verdadeira, ao

explicar a obstinação de certos Espíritos na prática do mal. É mesmo de

admirar como alguns deles são insensíveis à ideia e até ao espetáculo da felici

dade de que gozam os Espíritos bons. É exatamente a situação dos homens

degradados que se comprazem na depravação e nas práticas grosseiras e

sensuais. Esses homens estão, por assim dizer, no seu ambiente; não con

cebem os prazeres delicados, preferindo farrapos andrajosos a vestes lim

pas e brilhantes, as festas de Baco aos prazeres das boas companhias, por

se acharem assim bem mais à vontade. Esses Espíritos estão de tal modo

identificados com esse gênero de vida, que isso se torna para eles uma se

gunda natureza; julgam-se mesmo incapazes de se elevarem acima da esfera

que lhes é própria, razão por que aí permanecem até que radical transfor

mação do ser lhes abra a inteligência, lhes desenvolva o senso moral e os

torne acessíveis a sensações mais sutis.

Esses Espíritos, quando desencarnados, não podem de uma hora

para outra adquirir a delicadeza dos sentimentos e, durante um tempo

mais ou menos longo, ocuparão as camadas inferiores do mundo espiri

tual, tal como acontece na Terra; assim permanecerão enquanto se mos

trarem rebeldes ao progresso; porém, com o tempo, a experiência e as

tribulações e misérias das sucessivas encarnações, chegará o momento de

conceberem algo de melhor do que até então possuíam. Suas aspirações

se elevam, começam a compreender o que lhes falta e se esforçam por

regenerar-se. Uma vez nesse caminho, a marcha é rápida, porque expe

rimentam uma satisfação que lhes parece bem superior, em comparação

com as outras, que não passam de grosseiras sensações, acabando por

inspirar-lhes repugnância.

P. [ A são luís] – Que devemos entender por trevas em que se acham

mergulhadas certas almas sofredoras? Serão aquelas tantas vezes referidas nas

Escrituras? – R. Sim, são as trevas designadas por Jesus e pelos profetas,

ao se referirem ao castigo dos maus. Isso, porém, não passava de alegoria

destinada a ferir os sentidos materializados dos seus contemporâneos, os

quais jamais poderiam compreender a punição de maneira espiritual. Cer

tos Espíritos estão imersos em trevas, devendo-se, contudo, entender por

isso uma verdadeira noite da alma comparável à obscuridade intelectual do

idiota. Não é uma loucura da alma, porém uma inconsciência de si mesma

e do que a rodeia, a qual se produz quer na presença, quer na ausência da

luz material. É, principalmente, a punição dos que duvidaram do seu des

tino. Já que acreditaram no nada, as aparências desse nada os supliciam,

até que a alma, caindo em si, quebra as malhas da inervação que a pros

trava e envolvia, tal como o homem oprimido por penoso sonhar luta em

dado momento, com todo o vigor das suas faculdades, contra os terrores

que de começo o dominaram. Esta momentânea redução da alma a um

nada fictício e consciente de sua existência é um sofrimento mais cruel do

que se pode imaginar, em razão da aparência de repouso que a acomete; é

esse repouso forçado, essa nulidade do ser, essa incerteza que lhe fazem o

suplício. O aborrecimento que a invade é o mais terrível dos castigos, visto

não perceber coisa alguma em torno de si, nem coisas, nem seres; para ela

são verdadeiras trevas.

São Luís

[clAirE] – Eis-me aqui. Também posso responder à pergunta relati

va às trevas, pois vaguei e sofri por muito tempo nesses limbos onde tudo é

soluço e misérias. Sim, existem as trevas visíveis de que falam as Escrituras,

e os infelizes que deixam a vida, ignorantes ou culpados, são imersos na fria

região, inconscientes de si mesmos e do seu destino. Acreditando na pere

nidade dessa situação, a sua linguagem é ainda a da vida que os seduziu,

e admiram-se e espantam-se da profunda solidão; são, portanto, lugares

de trevas, povoados e ao mesmo tempo desertos, espaços em que erram

obscuros Espíritos lastimosos, sem consolo, sem afeições, sem socorro de

espécie alguma. A quem se dirigirem, se sentem a eternidade, esmagadora,

sobre eles? Tremem e lamentam os interesses mesquinhos que lhes mediam

as horas; deploram a ausência das noites que, muitas vezes, lhes traziam

num sonho feliz o esquecimento dos pesares. Para o Espírito, as trevas são

a ignorância, o vácuo, o horror ao desconhecido... Não posso continuar...

Claire

Ainda sobre este ponto obtivemos a seguinte explicação:

“Por sua natureza, o perispírito possui uma propriedade luminosa

que se desenvolve sob o influxo da atividade e das qualidades da alma. Po

der-se-ia dizer que essas qualidades estão para o fluido perispirítico como

a fricção para o fósforo. A intensidade da luz é diretamente proporcional

à pureza do Espírito, de sorte que as menores imperfeições morais a ate

nuam e enfraquecem. A luz irradiada por um Espírito será tanto mais viva

quanto maior for o seu adiantamento. Sendo o Espírito, de algum modo,

o seu próprio farol, verá mais ou menos segundo a intensidade da luz que

produz, de onde se conclui que os Espíritos que não a produzem acham-se

na obscuridade.”

Esta teoria é perfeitamente exata quanto à irradiação de fluidos lu

minosos pelos Espíritos superiores e é confirmada pela observação, em

bora não pareça ser a verdadeira causa, ou, pelo menos, a única causa do

fenômeno; primeiro, porque nem todos os Espíritos inferiores estão em

trevas; segundo porque um mesmo Espírito pode achar-se alternadamente

na luz e na obscuridade; e terceiro porque a luz também é castigo para

os Espíritos muito imperfeitos. Se a obscuridade em que estão imersos

certos Espíritos fosse inerente às suas personalidades, essa obscuridade

seria permanente e geral para todos os Espíritos maus, o que, aliás, não

acontece, visto que Espíritos da mais requintada perversidade veem per

feitamente, ao passo que outros, que assim não podem ser qualificados,

jazem, temporariamente, em trevas profundas. Tudo indica, portanto, que

além da luz que lhes é própria, os Espíritos recebem uma luz exterior que

lhes falta segundo as circunstâncias. Conclusão: a obscuridade depende de

uma causa ou de uma vontade estranha, constituindo punição especial da

Soberana Justiça, para casos determinados.

P. [ A são luís] – Qual a causa de a educação moral dos Espíritos de

sencarnados ser mais fácil que a dos encarnados? As relações que o Espiritismo

estabelece entre homens e Espíritos levam a crer que estes últimos se corrigem

mais rapidamente sob a influência dos conselhos salutares do que os encarna

dos, como se vê na cura das obsessões.

R. [sociEdAdE dE pAris] – Em virtude de sua própria natureza, o

encarnado está numa luta incessante devido aos elementos contrários de

que se compõe e que devem conduzi-lo ao seu fim providencial, reagindo

um sobre o outro. A matéria sofre facilmente o predomínio de um fluido

exterior; se, com todo o poder moral de que é capaz, a alma não reagir,

deixar-se-á dominar por intermédio do seu corpo, seguindo o impulso

das influências perversas que a rodeiam, e isso com facilidade tanto maior

quanto os invisíveis, que a subjugavam, atacam de preferência os pontos

mais vulneráveis, as tendências para a paixão dominante.

Não ocorre a mesma coisa com o Espírito desencarnado, porquanto,

embora sob a influência semimaterial, não se compara por seu estado ao

encarnado. O respeito humano, tão preponderante no homem, não existe

para aquele, e só este pensamento é bastante para compeli-lo a não resistir

longamente às razões que o próprio interesse lhe aponta como boas. Ele

pode lutar, e o faz geralmente com mais violência do que o encarnado,

visto ser mais livre. Nenhuma cogitação de interesse material, nem de po

sição social, se antepõe ao seu raciocínio. Luta por amor do mal, mas cedo

adquire a convicção da sua impotência, em face da superioridade moral

que o domina. A perspectiva de um futuro melhor lhe é mais acessível, por

se reconhecer na mesma vida em que se deve completar esse futuro; e essa

visão não se turva no turbilhão dos prazeres humanos. Em uma palavra, a

independência da carne é que facilita a conversão, principalmente quando

se tem adquirido certo desenvolvimento pelas provações cumpridas. Um

Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível ao raciocínio, o que

não se dá com o que já tem experiência da vida. Ademais, no encarnado

como no desencarnado, é sobre a alma, é sobre o sentimento que se deve

agir. Qualquer ação material pode sustar momentaneamente os sofrimen

tos do homem vicioso, mas é incapaz de destruir o princípio mórbido que

reside na alma. Todo e qualquer ato que não vise a aperfeiçoar a alma, não

poderá desviá-la do mal.

São Luíz.

Suicidas

O suicida da Samaritana

No dia 7 de abril de 1858, por volta das 7 horas da noite, um homem

de cerca de 50 anos e decentemente trajado apresentou-se no estabelecimen

to da Samaritana, em Paris, e mandou que lhe preparassem um banho. De

corridas cerca de duas horas, o empregado de serviço, admirado do silêncio

do freguês, resolveu entrar no seu gabinete, a fim de verificar o que ocorria.

Deparou-se, então, com um quadro horrível: o infeliz degolara-se com uma

navalha e todo o seu sangue misturava-se à água da banheira. E como a identi

dade do suicida não pôde ser apurada, o cadáver foi removido para o necrotério.

Evocado na Sociedade de Paris seis dias após a morte, o Espírito

desse homem deu as seguintes respostas:

1. EvocAção – [Resposta do guia do médium] – Esperai... ele está aqui.

2. Onde vos achais agora? – R. Não sei... dizei-mo.

3. Estais numa reunião de pessoas que estudam o Espiritismo e que são

benévolas para convosco. – R. Dizei-me se vivo... Este caixão me sufoca.

Embora separada do corpo, sua alma ainda está completamente imersa no que

se poderia chamar o turbilhão da matéria corpórea; as ideias terrenas estão ainda

vivas, a ponto de se acreditar encarnado.

4. Quem vos impeliu a vir aqui? – R. Senti-me aliviado.

5. Qual o motivo que vos arrastou ao suicídio? – R. Morto? Eu? Não...

pois habito meu corpo... Não sabeis como sofro!... Sufoco-me... Ah! se

mão compassiva me aniquilasse de vez!

6. Por que não deixastes indícios que pudessem tornar-vos reconhe

cível? – R. Estou abandonado; fugi ao sofrimento para entregar-me à

tortura.

7. Tendes agora os mesmos motivos para ficar incógnito? – R. Sim; não

revolvais com ferro candente a ferida que sangra.

8. Podereis dar-nos o vosso nome, idade, profissão e domicílio? – R.

Absolutamente não.

9. Tínheis família, mulher, filhos? – R. Estava abandonado, nin

guém me amava.

10. E que fizestes para que ninguém vos amasse? – R. Quantos o são

como eu!... Um homem pode viver abandonado no seio da família, quan

do ninguém o ama.

11. No momento de praticardes o suicídio não experimentastes qualquer

hesitação? – R. Ansiava pela morte... Esperava repousar.

12. Como é que a ideia do futuro não vos fez renunciar a tal projeto? – R. Já não acreditava nele. Era um desiludido. O futuro é a esperança.

13. Que reflexões vos ocorreram ao sentirdes a extinção da vida? – R.

Não refleti, senti... Mas minha vida não se extinguiu... minha alma está

ligada ao corpo... sinto os vermes a me corroerem.

14. Que sensação experimentastes no momento decisivo da morte? – R.

Pois ela se completou?

15. Foi doloroso o momento em que a vida se vos extinguiu? – R. Menos

doloroso que depois. Só o corpo sofreu.

16. [Ao Espírito são luís] – Que quer dizer o Espírito afirmando

que o momento da morte foi menos doloroso que depois? – R. O Espírito des

carregou o fardo que o oprimia; ele ressentia a volúpia da dor.

17. Tal estado é sempre consequência do suicídio? – R. Sim. O Espírito

do suicida fica ligado ao corpo até o termo dessa vida. A morte natural é a

libertação da vida: o suicídio a rompe por completo.

18. Dar-se-á a mesma coisa nas mortes acidentais, embora involuntá

rias, mas que abreviam a existência? – R. Não. Que entendeis por suicídio?

O Espírito só responde por seus atos.

Esta dúvida da morte é muito comum nas pessoas recentemente desencarnadas,

e principalmente naquelas que, durante a vida, não elevaram a alma acima da

matéria. É um fenômeno que parece singular à primeira vista, mas que se explica

naturalmente. Se perguntarmos a um indivíduo sonambulizado se ele dorme, ele

responderá quase sempre que não, e essa resposta é lógica: o interlocutor é que

faz mal a pergunta, servindo-se de um termo impróprio. Na linguagem comum,

a ideia do sono prende-se à suspensão de todas as faculdades sensitivas. Ora, o

sonâmbulo pensa, vê, sente e tem consciência da sua liberdade; logo, não se crê

adormecido, e de fato não dorme, na acepção vulgar da palavra. Eis a razão por

que responde não, até que se familiariza com essa maneira de apreender o fato.

O mesmo acontece com o homem que acaba de morrer; para ele a morte era o

aniquilamento do ser e, tal como o sonâmbulo, ele vê, sente, fala, e assim não se

considera morto, afirmando isto até que adquira a intuição do seu novo estado.

Essa ilusão é sempre mais ou menos dolorosa, uma vez que nunca é completa e

dá ao Espírito certa ansiedade. No exemplo acima ela constitui verdadeiro suplí

cio pela sensação dos vermes que corroem o corpo, sem falarmos da sua duração,

que deverá equivaler ao tempo de vida abreviada. Este estado é comum nos

suicidas, posto que nem sempre se apresente em idênticas condições, variando

de duração e intensidade conforme as circunstâncias atenuantes ou agravantes

da falta. A sensação dos vermes e da decomposição do corpo não é exclusiva dos

suicidas; também é frequente nos que viveram mais da vida material que da vida

espiritual. Em princípio, toda falta é passível de penalidades; contudo, não há

regra absoluta e uniforme nos meios de punição.

O pai e o conscrito

No começo da guerra da Itália, em 1859, um negociante de Paris,

pai de família, gozando da estima geral por parte dos seus vizinhos, tinha

um filho que fora sorteado para o serviço militar. Impossibilitado, pela sua

posição, de o eximir de tal serviço, ocorreu-lhe a ideia de suicidar-se, a fim

de o isentar do mesmo, como filho único de viúva. Um ano mais tarde, foi

evocado na Sociedade de Paris, a pedido de pessoa que o conhecera e que

desejava certificar-se da sua sorte no mundo espiritual.

[A são luís] – Podereis dizer-nos se é possível evocar o Espírito a

que nos referimos há pouco? – R. Sim, e ele ficará muito satisfeito, pois se

sentirá mais aliviado.

1. EvocAção – R. Oh! obrigado! Sofro muito, mas... é justo. Creio,

contudo, que Ele me perdoará.

O Espírito escreve com grande dificuldade; as letras são irregulares e malformadas;

depois da palavra mas, ele para e, procurando em vão escrever, apenas consegue

fazer alguns pontos e traços indecifráveis. É evidente que foi a palavra Deus que

ele não conseguiu escrever.

2. Tende a bondade de preencher a lacuna com a palavra que deixastes

de escrever. – R. Sou indigno de escrevê-la.

3. Dissestes que sofreis; compreendeis que fizestes muito mal em vos suici

dar. Mas o motivo que vos levou a esse ato não mereceu qualquer indulgência? – R. A punição será menos longa, mas nem por isso a ação deixa de ser má.

4. Podereis descrever-nos essa punição? – R. Sofro duplamente, na

alma e no corpo; e sofro neste último, embora não o possua mais, como o

amputado sofre a falta do membro ausente.

5. O vosso suicídio teve por causa unicamente a isenção do vosso filho ou

concorrem para ele outras razões? – R. Fui completamente guiado pelo amor

paterno, porém mal inspirado. Em atenção a isso, a minha pena será abreviada.

6. Podeis precisar a duração dos vossos sofrimentos? – R. Não lhes

entrevejo o termo, mas tenho certeza de que ele existe, o que já é um

alívio para mim.

7. Há pouco não vos foi possível escrever a palavra Deus; entretanto, te

mos visto Espíritos muito sofredores fazê-lo. Será isso uma consequência da vos

sa punição? – R. Poderei fazê-lo com grandes esforços de arrependimento.

8. Pois bem! Fazei então esses esforços para escrevê-lo, pois estamos certos

de que sereis aliviado. (O Espírito acabou por traçar esta frase com letras

grossas, irregulares e trêmulas: “Deus é muito bom”.)

9. Estamos satisfeitos pela boa vontade com que correspondestes à nossa

evocação, e vamos pedir a Deus para que estenda sobre vós a sua misericórdia. – R. Sim, por favor.

10. [A são luís] – Podereis dar-nos a vossa apreciação pessoal sobre

esse suicídio? – R. Esse Espírito sofre justamente, pois lhe faltou a confiança

em Deus, falta que é sempre punível. A punição seria terrível e mais dura

doura, se não tivesse a atenuá-la o motivo louvável de evitar que o filho se

expusesse à morte na guerra. Deus, que é justo e vê o fundo dos corações,

não o pune senão de acordo com suas obras.

obsErvAção – À primeira vista, como ato de abnegação, poder-se-ia considerar

desculpável esse suicídio. Efetivamente assim é, mas não de modo absoluto. Como

disse o Espírito São Luís, faltou a esse homem confiança em Deus. A sua ação

talvez haja impedido a realização dos destinos do filho; além disso, o pai não tinha

certeza de que o filho sucumbiria na guerra e a carreira militar talvez lhe fornecesse

ocasião de adiantar-se. Sua intenção, sem dúvida, era boa, e por isso lhe será levada

em conta; a intenção atenua o mal e merece indulgência, mas o mal é sempre o

mal. Se assim não fora, poder-se-ia, com base no raciocínio, desculpar todos os

crimes e até matar a pretexto de prestar serviços. A mãe que mata o filho, crente

de o enviar ao céu, seria menos culpada por tê-lo feito com boa intenção? Com tal

sistema, estariam justificados todos os crimes cometidos pelo fanatismo cego das

guerras de religião.

Em princípio, o homem não tem o direito de dispor da vida, porque ela vos

foi dada visando a deveres a cumprir na Terra, razão por que não deve abreviá-la

voluntariamente, sob pretexto algum. Como, porém, o homem dispõe do livre--arbítrio, ninguém pode impedi-lo de cometer o suicídio, embora, se o fizer, terá

de arcar com todas as consequências. O suicídio mais severamente punido é o re

sultante do desespero, com vistas a livrar-se o homem das misérias da vida, misé

rias que são ao mesmo tempo provas e expiações. Fugir delas é recuar ante a tarefa

aceita e, às vezes, ante a missão que se deveria cumprir. O suicídio não consiste

apenas no ato voluntário que produz a morte instantânea, mas em tudo quanto

se faça conscientemente para apressar a extinção das forças vitais. Não se pode

tachar de suicida o devotamento daquele que se expõe a uma morte iminente

para salvar o semelhante; primeiro porque no caso não há intenção premeditada

de se tirar a vida, e, segundo, porque não há perigo do qual a Providência não nos

possa livrar se a hora de partir não houver chegado. A morte em tais circunstân

cias é sacrifício meritório, por constituir-se em ato de abnegação em proveito de

outrem.

François-Simon Louvet

(Do Havre.)

A seguinte comunicação foi dada espontaneamente, em uma reunião

espírita no Havre, a 12 de fevereiro de 1863:

“Tereis piedade de um pobre miserável que sofre desde muito tempo

de cruéis torturas? Oh! o vácuo... o espaço... caio, caio... Socorro!... Meu

Deus, eu tive uma existência tão miserável!... Era um pobre coitado; sofri

tanta fome na velhice! Foi por isso que me habituei a beber, a ter vergo

nha e desgosto de tudo... Quis morrer e atirei-me... Oh! meu Deus! Que

momento! E para que tal desejo, quando o termo da vida já estava tão

próximo? Orai, para que eu não veja incessantemente este vácuo debaixo de

mim... Vou despedaçar-me de encontro a essas pedras!... Eu vo-lo suplico,

a vós que conheceis as misérias dos que não mais pertencem a esse mundo.

Não me conheceis, mas eu sofro tanto... Para que mais provas? Sofro! Não

será isso o bastante? Se eu tivesse fome, em vez deste sofrimento mais ter

rível e aliás imperceptível para vós, não vacilaríeis em aliviar-me com uma

migalha de pão. Pois eu vos peço que oreis por mim... Não posso permane

cer por mais tempo neste estado... Perguntai a qualquer desses felizes que

aqui estão e sabereis quem fui. Orai por mim.”

François-Simon Louvet

o guiA do médium – “Esse que acaba de se dirigir a vós, meu filho, foi

um pobre infeliz que teve na Terra a prova da miséria; vencido pelo desgosto,

faltou-lhe a coragem e, em vez de olhar para o céu como devia, entregou-se à

embriaguez; desceu aos últimos limites do desespero, pondo termo à sua triste

provação: atirou-se da Torre Francisco I, no dia 22 de julho de 1857. Tende

piedade de sua pobre alma, que não é adiantada, mas que tem conhecimento

suficiente da vida futura para sofrer e desejar uma nova provação. Rogai a

Deus que lhe conceda essa graça, e com isso tereis feito obra meritória.”

Buscando-se informes a respeito, encontrou-se no Journal du Havre,

de 23 de julho de 1857, a seguinte notícia local:

“Ontem, às quatro horas da tarde, os transeuntes do cais foram do

lorosamente impressionados por um horrível acidente: um homem atirou--se da torre, vindo despedaçar-se sobre as pedras. Era um velho puxador

de sirga, cujo pendor à embriaguez o arrastara ao suicídio. Chamava-se

François-Victor-Simon Louvet. O corpo foi transportado para a casa de

uma de suas filhas. Tinha 67 anos.”

Esse homem morrera há seis anos; entretanto, ele se via ainda a cair da torre,

despedaçando-se nas pedras... Aterra-o o vácuo, horroriza-o a perspectiva da

queda... e isso há seis anos! Quanto tempo durará tal estado? Ele não o sabe e

essa incerteza lhe aumenta as angústias. Isso não equivale ao inferno com suas

chamas? Quem revelou e inventou tais castigos? Pois são as próprias vítimas

que os vêm descrever, como outros vêm falar de suas alegrias. E, muitas vezes, o

fazem espontaneamente, sem que neles se pense, o que exclui toda hipótese de

sermos joguete da própria imaginação.

Mãe e filho

Em março de 1865, o Sr. C..., negociante em pequena cidade dos

arredores de Paris, tinha em sua casa, gravemente enfermo, o mais velho de

seus filhos, que contava 21 anos. Prevendo a morte, o rapaz chamou sua

mãe e teve forças ainda para abraçá-la. Esta, vertendo copiosas lágrimas,

disse: “Vai, meu filho, antes de mim, que não tardarei a seguir-te.” Dito

isto, retirou-se escondendo o rosto entre as mãos. As pessoas presentes

a essa cena desoladora consideravam simples explosão de dor as palavras

da Sra. C..., que o tempo se encarregaria de acalmar. Morto o doente,

procuraram-na por toda a casa e foram encontrá-la enforcada no celeiro.

O enterro da mãe foi realizado com o do filho.

EvocAção do filho vários diAs dEpois dA mortE – P. Sabeis do

suicídio de vossa mãe, em consequência do desespero que lhe causou a vossa

perda? – R. Sim, e não fosse o pesar causado por essa fatal resolução da

parte dela e me julgaria completamente feliz. Pobre, excelente mãe! Não

pôde suportar a prova dessa separação momentânea, e tomou, para se

unir ao filho, o caminho que dele mais deveria afastá-la. E por quanto

tempo! Assim, retardou indefinidamente uma reunião que tão pronta teria

sido se sua alma se conformasse submissa às vontades do Senhor, se fosse

resignada, humilde, arrependida diante da provação que devia sofrer e que

haveria de depurá-la! Orai! Oh! orai por ela!... e sobretudo não a imiteis,

mães que vos comoveis com a narrativa da sua morte. Não acrediteis que

ela amasse mais que as outras mães, a esse filho que era a sua alegria, o

seu orgulho; não, ela não amava mais: apenas lhe faltaram coragem e

resignação. Mães que me ouvis, quando a agonia embaciar o olhar dos

vossos filhos, lembrai-vos de que, como o Cristo, eles sobem ao cimo do

Calvário, de onde deverão alçar-se à glória eterna.

Benjamin C...

EvocAção dA mãE – Quero ver meu filho! Tendes o poder de mo

devolver? Cruéis!... Eles mo tomaram para o levarem à luz, e a mim me

deixaram em trevas. Quero-o... quero-o porque me pertence!... De nada

vale então o amor materno? Pois quê! Tê-lo carregado no ventre por

nove meses; tê-lo amamentado; nutrido a carne da sua carne, sangue

do seu sangue; guiado os seus primeiros passos; ensinado a balbuciar o

sagrado nome de Deus e o doce nome de mãe; ter feito dele um homem

cheio de atividade, de inteligência, de honestidade, de amor filial, para

perdê-lo quando realizava as esperanças concebidas a seu respeito, quan

do brilhante futuro o aguardava! Não, Deus não é justo; não é o Deus

das mães, pois não lhes compreende a dor e o desespero... E quando me

dava a morte para não me separar de meu filho, eis que novamente mo

roubam!... Meu filho! meu filho, onde estás?

EvocAdor – Pobre mãe, compartilhamos da vossa dor. Buscastes,

no entanto, um triste recurso para vos reunirdes ao vosso filho. O sui

cídio é um crime aos olhos de Deus, e devíeis saber que Ele pune toda

infração das suas leis. Não poder ver o vosso filho é a vossa punição.

mãE – Não; eu julgava Deus melhor que os homens; não acredita

va no seu inferno, mas na reunião eterna das almas que se amaram como

nós nos amávamos... Enganei-me... Deus não é justo nem bom, pois

que não compreendeu a grandeza da minha dor, nem do meu amor!...

Oh! quem devolverá meu filho? Tê-lo-ei perdido para sempre? Piedade!

Piedade, meu Deus!

EvocAdor – Vamos, acalmai o vosso desespero; considerai que,

se há um meio de rever vosso filho, não é blasfemando de Deus, como

ora o fazeis. Com isso, em vez de atrairdes a sua misericórdia, fazeis jus

a maior severidade.

mãE – Disseram-me que não mais o veria, e compreendi que o

haviam levado ao paraíso. E eu, estarei acaso no inferno?... no inferno das

mães?... Ele existe, vejo-o constantemente.

EvocAdor – Vosso filho não está perdido para sempre; por cer

to tornareis a vê-lo, mas é preciso merecê-lo pela submissão à vontade

de Deus, ao passo que a revolta poderá retardar indefinidamente esse

momento. Ouvi-me: Deus é infinitamente bom, mas é também infi

nitamente justo. Assim, ninguém é punido sem motivo, e se sobre a

Terra Ele vos infligiu grandes dores, é porque as merecestes. A morte

do vosso filho era uma prova à vossa resignação; infelizmente, a ela su

cumbistes quando em vida, e eis que após a morte de novo sucumbis.

Como pretendeis que Deus recompense os filhos rebeldes? Ele, porém,

não é inexorável, e o arrependimento do culpado é sempre acolhido. Se

tivésseis aceito a provação com humildade; se houvésseis esperado com

paciência o momento da vossa desencarnação, ao entrardes no mundo

espiritual, onde vos achais, teríeis imediatamente avistado vosso filho, o

qual vos receberia de braços abertos. Teríeis tido a satisfação de vê-lo ra

diante depois da ausência. Mas o que fizestes e ainda agora fazeis, coloca

entre vós e ele uma barreira. Não o julgueis perdido nas profundezas do

espaço; não, ele se encontra mais perto de vós do que supondes; apenas

um véu impenetrável o subtrai à vossa vista. Ele vos vê e ama sempre,

deplorando a triste condição em que caístes pela falta de confiança em

Deus, aguardando ansioso o momento feliz em que se vos poderá tornar

visível. De vós, somente, depende abreviar ou retardar esse momento.

Orai a Deus e dizei comigo: “Meu Deus, perdoai-me por ter duvida

do da vossa justiça e da vossa bondade; se me punistes, reconheço que

o mereci. Dignai-vos aceitar meu arrependimento e submissão à vossa

santa vontade.”

mãE – Que luz de esperança acabais de fazer despontar em minha

alma! É qual relâmpago na noite escura que me cerca. Obrigada, vou

orar... Adeus.

C...

A morte, mesmo pelo suicídio, não produziu neste Espírito a ilusão de se julgar

ainda vivo. Ele tem perfeita consciência do seu estado; é que para outros o cas

tigo consiste naquela ilusão, pelos laços que o prendem ao corpo. Esta mulher

quis deixar a Terra para seguir o filho na outra vida: era, pois, necessário que

soubesse aí estar realmente para ser punida, não revendo o filho, como desejava.

Não vê-lo corporalmente era a sua punição, sem falar no conhecimento exato

da situação em que se encontrava. Assim é que cada falta é punida de acordo

com as circunstâncias que a determinam, de modo que não há punições unifor

mes e constantes para as faltas do mesmo gênero.

Duplo suicídio, por amor e por dever

É de um jornal de 13 de junho de 1862 a seguinte narrativa:

“A Srta. Palmira, modista, residia com os pais. Era dotada de um

físico encantador, ao qual se aliava um caráter muito amável. Por isso,

era muito assediada com propostas de casamento. Entre os aspirantes à

sua mão, havia preferido o Sr. B..., que por ela nutria viva paixão. Em

bora o amasse muito, mas premida pelo respeito filial, julgou-se no dever

de ceder à vontade dos pais, de desposar o Sr. D..., cuja posição social

lhes parecia mais vantajosa que a do rival. O casamento foi celebrado há

quatro anos.

Os Srs. B... e D... eram amigos íntimos. Conquanto não tivessem

nenhum interesse comum, não deixaram de se ver. O amor recíproco do

Sr. B... e de Palmira, transformada na Sra. D..., não havia diminuído e,

como se esforçassem por reprimi-lo, ele aumentava cada vez mais, em

razão da própria violência que lhe faziam. Para tentar apagá-lo, B... de

cidiu casar-se. Desposou uma jovem de excelentes qualidades e fez todo

o possível para amá-la. Mas não tardou a perceber que esse meio heroico

era impotente para o curar. Todavia, durante quatro anos, nem B... nem

a Sra. D... faltaram aos seus deveres. Impossível descrever o que eles so

freram, porquanto D..., que estimava verdadeiramente o seu amigo, o

atraía sempre para a sua casa e, quando ele queria retirar-se, insistia para

que ficasse.

Os dois amantes, aproximados um dia por circunstâncias fortuitas

e independentes da própria vontade, deram-se ciência do mal que os

torturava e acharam que a morte era, no caso, o único remédio aos males

que experimentavam. Combinaram que se suicidariam juntamente, no

dia seguinte, em que o Sr. D... estaria ausente de casa por tempo mais

prolongado. Feitos os últimos preparativos, escreveram longa e tocante

carta, explicando a causa da sua resolução: não faltar a seus deveres con

jugais. Essa carta terminava pedindo que lhes perdoassem e, mais, para

serem enterrados na mesma sepultura.

De regresso a casa, o Sr. D... encontrou-os asfixiados. Respeitou--lhes os últimos desejos, providenciando para que os corpos não fossem

separados no cemitério.”

Sendo esta ocorrência submetida à Sociedade de Paris, como as

sunto de estudo, um Espírito respondeu:

“Os dois amantes que se suicidaram não vos podem responder ain

da. Eu os vejo. Estão mergulhados na perturbação e assustados pela pers

pectiva da eternidade. As consequências morais da falta cometida lhes

pesarão por migrações sucessivas, durante as quais suas almas separadas se

buscarão incessantemente, sofrendo o duplo suplício de se pressentirem

e de se desejarem em vão. Terminada a expiação, ficarão reunidos para

sempre, no seio do amor eterno. Dentro de oito dias, na próxima sessão,

podereis evocá-los. Eles aqui virão sem se avistarem; uma noite profunda

os oculta do outro por muito tempo.”

1. EvocAção dA mulhEr – Vedes o vosso amante, com o qual vos sui

cidastes? – R. Nada vejo, nem mesmo os Espíritos que comigo erram nes

te mundo. Que noite! Que noite! E que espesso véu sobre o meu rosto!

2. Que sensação experimentastes ao despertar no outro mundo? – R.

Estranha. Tinha frio e queimava; o gelo corria-me nas veias e o fogo

estava em meu rosto! Coisa singular! Mistura inaudita! Gelo e fogo pare

cendo consumir-me! Pensei que ia sucumbir mais uma vez.

3. Experimentais qualquer dor física? – R. Todo o meu sofrimento

reside aqui, aqui...

3-a. Que quereis dizer por aqui, aqui? – R. Aqui no meu cérebro;

aqui no meu coração.

Se pudéssemos avistar o Espírito, provavelmente o veríamos levar a mão à cabeça

e ao coração.

4. Credes que ficareis sempre nesta situação? – R. Oh! sempre, sem

pre! Ouço às vezes risos infernais, vozes assustadoras que bradam estas

palavras: “Sempre assim!”

5. Pois bem: podemos, com segurança, dizer-vos que nem sempre será

assim. Pelo arrependimento obtereis o perdão. – R. Que dizeis? Não com

preendo.

6. Repito que os vossos sofrimentos terão um termo, que o podereis

abreviar pelo vosso arrependimento e nós vos ajudaremos pela prece. – R.

Só ouvi uma palavra e sons vagos. Essa palavra é graça! Foi da graça que

citado, muito mais completo naquele mensário, contempla outros desdobramentos interessantes,

que Allan Kardec julgou por bem não transcrever em O céu e o inferno

quisestes falar? Falastes em graça, mas sem dúvida o fizestes à alma que

por aqui passou junto de mim, pobre criança que chora e espera.

Uma dama da sociedade, presente à reunião, declarou que fizera uma prece pela

infeliz, o que sem dúvida a comoveu, e que, de fato, mentalmente, havia implora

do em seu favor a graça de Deus.

7. Dissestes que estais nas trevas. Não nos vedes? – R. É-me permitido

ouvir algumas palavras que pronunciais, mas só vejo um crepe negro sobre

o qual se desenha, em certas horas, um semblante que chora.

8. Se não vedes o vosso amado, não sentis ao menos a sua presença junto

de vós, já que ele está aqui? – R. Ah! não me faleis dele; por ora devo es

quecê-lo, se quiser que do crepe se apague a imagem que aí vejo esboçada.

9. Que imagem é esta? – R. A de um homem que sofre, cuja existência

moral na Terra aniquilei por muito tempo.

Lendo-se esta narrativa, ficamos logo predispostos a encontrar circunstâncias ate

nuantes para o suicídio, a encará-lo até como um ato heroico, visto ter sido provo

cado pelo sentimento do dever. No entanto, vemos que foi julgado diversamente,

e que a pena dos culpados será longa e terrível, porque se refugiaram voluntaria

mente na morte para evitar a luta. A intenção de não faltar ao dever era nobre, sem

dúvida, e lhes será levada em conta mais tarde; porém, o verdadeiro mérito teria

consistido em vencer o arrastamento, ao passo que eles agiram como o desertor,

que se esquiva no momento do perigo.

Como se vê, a pena dos dois culpados consistirá em se buscarem por muito

tempo sem se encontrarem, seja no mundo dos Espíritos, seja em outras encarnações

terrenas; pena que ora é agravada pela ideia de que o seu estado atual deve durar

sempre. Fazendo parte do castigo um tal pensamento, não lhes foi permitido ou

vir as palavras de esperança que lhes dirigimos. Aos que acharem essa pena muito

terrível e muito longa, principalmente porque não deve cessar senão depois de

várias encarnações, diremos que sua duração não é absoluta e que dependerá

da maneira pela qual suportarão as provas futuras, no que poderemos ajudá-los

por meio de preces. Como todos os Espíritos culpados, serão os árbitros de seu

próprio destino. Isto não é melhor que a condenação eterna, sem esperança, a

que são irremediavelmente condenados, segundo a doutrina da Igreja, que os

considera de tal modo votados ao inferno que lhes recusou as últimas preces, sem

dúvida, por não terem utilidade?

Luís e a pespontadeira de botinas

Havia sete ou oito meses que Luís G..., oficial sapateiro, namorava

a jovem Victorine R..., pespontadeira de botinas, com a qual deveria

casar-se em breve, já tendo mesmo ocorrido os proclamas do casamento.

Estando as coisas neste pé, consideravam-se quase definitivamente liga

dos e, como medida de economia, o sapateiro vinha diariamente à casa

da noiva para almoçar e jantar.

Um dia, ao jantar, sobreveio uma controvérsia a propósito de uma

futilidade qualquer e, obstinando-se os dois nas opiniões, foram as coisas

a ponto de Luís abandonar a mesa, jurando não mais voltar à casa da

noiva.

Não obstante, no dia seguinte veio pedir perdão. Como se sabe,

a noite é boa conselheira, mas a moça, prejulgando talvez pela cena da

véspera o que poderia acontecer quando não mais tivesse tempo de re

mediar o mal, recusou-se à reconciliação, de modo que nem protestos,

nem lágrimas, nem desesperos puderam demovê-la. Muitos dias ainda se

passaram, esperando Luís que a sua amada fosse mais razoável, até que

resolveu fazer uma última tentativa: — Chegando à casa da moça, bateu

de forma a ser reconhecido, mas a porta permaneceu fechada; recusaram

abrir-lha. Novas súplicas do repelido, novos protestos, nada foi capaz de

tocar o coração da sua pretendida. “Adeus, pois, cruel!” — exclamou o

pobre moço — “Adeus para sempre. Trata de procurar um marido que

te ame tanto quanto eu.” Ao mesmo tempo a moça ouvia um gemido

abafado e logo após o baque como que de um corpo escorregando pela

porta. Pelo silêncio que se seguiu, a moça julgou que Luís se assentara à

soleira da porta e prometeu a si mesma não sair enquanto ele ali se con

servasse.

Decorrido um quarto de hora um locatário, passando pela calça

da e levando luz, soltou um grito de espanto e pediu socorro. Depressa

acorre a vizinhança, e Victorine, abrindo então a porta, deu um grito de

horror, ao reconhecer o noivo, pálido e inanimado, estendido sobre as la

jes da calçada. Cada qual se apressou em socorrê-lo, mas logo se percebeu

que tudo seria inútil, já que ele deixara de existir. O desgraçado moço

enterrara uma faca na região do coração e a lâmina ficara-lhe cravada na

ferida aberta, por onde o sangue se escoou.

(Sociedade Espírita de Paris, agosto de 1858.)

1. [Ao Espírito são luís] – A moça, causadora involuntária da

morte do amante, tem alguma responsabilidade por isso? – R. Sim, porque

não o amava.

2. Então, para prevenir a desgraça, deveria desposá-lo a despeito da

repugnância que lhe causava? – R. Ela procurava uma ocasião para livrar--se dele, e assim fez no começo da união o que viria a fazer mais tarde.

3. Neste caso, a sua responsabilidade decorre de haver alimentado sen

timentos dos quais não participava e que resultaram no suicídio do rapaz? – R. Sim, exatamente.

4. Mas então essa responsabilidade deve ser proporcional à falta, e não

tão grande como se houvesse provocado o suicídio consciente e voluntaria

mente. – R. É evidente!

5. O suicídio de Luís encontra desculpa no desvario que lhe acarretou

a obstinação de Victorine? – R. Sim, pois o suicídio oriundo do amor, é

menos criminoso aos olhos de Deus do que o suicídio de quem procura

libertar-se da vida por motivos de covardia.

Ao Espírito Luís G..., evocado mais tarde, foram feitas as seguintes

perguntas:

1. Que pensais da ação que praticastes? – R. Victorine era uma in

grata, e eu fiz mal em suicidar-me por sua causa, pois ela não o merecia.

2. Então ela não vos amava? – R. Não. A princípio iludia-se, mas a

desavença que tivemos abriu-lhe os olhos, e ela até se deu por feliz achan

do um pretexto para se desembaraçar de mim.

3. E o vosso amor por ela era sincero? – R. Paixão somente, creia. Se

o amor fosse puro eu me teria poupado de lhe causar um desgosto.

4. E se acaso ela adivinhasse a vossa intenção, persistiria na sua re

cusa? – R. Não sei; creio que não, porque ela não é má. Contudo, ainda

assim não seria feliz, e foi melhor para ela que as coisas se passassem de

tal forma.

5. Chegando-lhe à porta, já tínheis a intenção de vos matar, caso ela

vos recusasse? – R. Não; eu não pensava nisso; não contava com a sua obs

tinação. Foi somente diante da teimosia dela que perdi a razão.

6. Parece que não deplorais o suicídio senão pelo fato de Victorine não

o merecer... É realmente o vosso único pesar? – R. Neste momento, sim; es

tou ainda perturbado; parece que ainda estou à sua porta e experimento

uma sensação que não posso definir.

7. Chegareis a compreendê-la mais tarde? – R. Sim, quando estiver

livre desta perturbação. Fiz mal; deveria deixá-la em paz... Fui fraco e so

fro as consequências da minha fraqueza. A paixão cega o homem a ponto

de praticar loucuras; infelizmente, ele só o compreende tarde demais.

8. Dizeis que tendes um desgosto... Qual é? – R. Fiz mal em abreviar

a vida. Não deveria fazê-lo. Era preferível suportar tudo aquilo a morrer

antes do tempo. Sou, portanto, infeliz; sofro; e é sempre ela que me faz

sofrer. Parece-me estar sempre à sua porta; ingrata!... mas... não falemos

nem pensemos mais nisso, que me incomoda bastante. Adeus.

Ainda aí se vê a confirmação da justiça que preside à distribuição das penas, con

forme o grau de responsabilidade dos culpados. Na circunstância presente, cabe

à moça a maior responsabilidade, por haver entretido em Luís, por brincadeira,

um amor que não sentia. Quanto ao rapaz, ele já é punido pelo sofrimento de

que deu mostras, mas a sua pena é leve, porque apenas cedeu a um impulso ir

refletido, em momento de exaltação, e não a fria premeditação dos suicidas que

buscam escapar das provas da vida.

Um ateu

O Sr. J.-B. D... era um homem instruído, mas saturado de ideias

materialistas, não acreditando em Deus nem na alma. Foi evocado na

Sociedade Espírita de Paris, dois anos depois de desencarnado, a pedido

de um de seus parentes.

1. EvocAção – R. Sofro. Sou um réprobo.

2. Fomos levados a evocar-vos em nome de parentes que desejam

conhecer vossa sorte. Poderíeis dizer-nos se a nossa evocação vos é penosa ou

agradável? – R. Penosa.

3. A vossa morte foi voluntária? – R. Sim.

O Espírito escreve com extrema dificuldade. A letra é grossa, irregular, trêmula e

quase ilegível. Ao começar a escrever encoleriza-se, quebra o lápis e rasga o papel.

4. Tende calma, que nós todos pediremos a Deus por vós. – R. Sou

forçado a crer em Deus.

5. Que motivo poderia ter-vos levado ao suicídio? – R. O tédio de

uma vida sem esperança.

Concebe-se o suicídio quando a vida é sem esperança; procura-se então lhe fugir

a qualquer preço. Com o Espiritismo, ao contrário, o futuro se nos desdobra e

a esperança se fortalece. O suicídio deixa de ter objetivo, uma vez que apenas

nos isenta do mal para nos arrastar a uma vida cem vezes pior. Eis por que o

Espiritismo tem arrancado tanta gente de uma morte voluntária. São grande

mente culpados os que se esforçam por acreditar, por meio de sofismas científicos

e a pretexto de uma falsa razão, nessa ideia desesperadora, fonte de tantos males e

crimes, de que tudo acaba com a vida! Serão responsáveis não só pelos próprios

erros, como por todos os males a que deram causa.

6. Quisestes escapar às vicissitudes da vida... Ganhastes alguma coisa

com isso? Sois agora mais feliz? – R. Por que não existe o nada?

7. Tende a bondade de nos descrever do melhor modo possível a vossa

atual situação. – R. Sofro pelo constrangimento em que estou de crer em

tudo quanto negava. Meu Espírito está como num braseiro, horrivel

mente atormentado.

8. De onde provinham as vossas ideias materialistas de outrora? – R.

Em outra existência eu fora mau e por isso condenei-me na presente vida

a sofrer os tormentos da incerteza. Foi assim que me suicidei.

Aqui há toda uma ordem de ideias. Muitas vezes nos perguntamos como pode

haver materialistas, quando, tendo eles passado pelo mundo espiritual, deveriam

ter do mesmo a intuição. Ora, é precisamente essa intuição que é recusada a al

guns Espíritos que, conservando o orgulho, não se arrependeram das suas faltas.

Para esses tais, a prova consiste na aquisição, durante a vida corpórea e à custa

do próprio raciocínio, da prova da existência de Deus e da vida futura que têm,

por assim dizer, incessantemente sob os olhos. Muitas vezes, porém, a presunção

de nada admitir, acima de si, os empolga e absorve. Assim, sofrem eles a pena até

que, domado o orgulho, se rendem à evidência.

9. Quando vos afogastes, que ideias tínheis das consequências? Que

reflexões fizestes nesse momento? – R. Nenhuma; era o nada para mim.

Depois é que vi que teria de sofrer mais ainda, visto não ter cumprido

toda a sentença.

10. Estais bem convencido agora da existência de Deus, da alma e da

vida futura? – R. Ah! Tudo isso me atormenta bastante!

11. Tornastes a ver o vosso irmão? – R. Oh! não.

12. E por que não? – R. Para que confundir os nossos tormentos?

Oh! a gente se reúne na ventura e se exila na desgraça.

13. Gostaríeis de ver o vosso irmão, que poderíamos atrair para junto

de vós? – R. Não, não; não o mereço.

14. Por que vos opondes a que o chamemos? – R. Porque ele também

não é feliz.

15. Receais a sua presença e, no entanto, ela só poderia ser benéfica

para vós. – R. Não; mais tarde...

16. Desejais mandar um recado para os vossos parentes? – R. Que

orem por mim.

17. Parece que no círculo das vossas relações há quem partilhe das

vossas opiniões. Quereis que lhes digamos algo a respeito? – R. Oh! os infe

lizes! O que lhes posso desejar é que eles creiam em outra existência. Se

pudessem avaliar a minha triste posição, muito refletiriam.

Evocação de um irmão do precedente, que professava as mesmas teorias, mas

que não se suicidou. Apesar de infeliz, apresenta-se mais calmo; a sua escrita é

clara e legível.

18. EvocAção – R. Que o quadro dos nossos sofrimentos vos pos

sa servir de lição, convencendo-vos da realidade de uma outra existência,

na qual se expiam as faltas resultantes da incredulidade.

19. Vós, e vosso irmão que acabamos de evocar, vos vedes reciproca

mente? – R. Não; ele me foge.

Poder-se-ia perguntar como é que os Espíritos podem fugir um do outro no

mundo espiritual, uma vez que aí não existem obstáculos materiais nem refú

gios impenetráveis à vista. Tudo é relativo nesse mundo e conforme a natureza

fluídica dos seres que o habitam. Só os Espíritos superiores têm percepções in

definidas, que nos inferiores são limitadas. Para estes, os obstáculos fluídicos

equivalem a obstáculos materiais. Os Espíritos ocultam-se às vistas uns dos ou

tros por efeito da sua vontade, que atua sobre o envoltório perispirítico e sobre

os fluidos ambientes. A Providência, porém, que vela por todos os seus filhos

e por cada um em particular, lhes concede ou nega essa faculdade, conforme as

suas disposições morais, o que constitui, segundo as circunstâncias, um castigo

ou uma recompensa.

20. Estais mais calmo do que vosso irmão. Poderíeis dar-nos uma des

crição mais precisa dos vossos sofrimentos? – R. Não sofreis aí na Terra no

vosso orgulho, no vosso amor-próprio, quando obrigados a reconhecer

os vossos erros? O vosso espírito não se revolta com a ideia de vos hu

milhardes a quem vos demonstre o vosso erro? Pois bem! Julgai quanto

deve sofrer o Espírito que, durante toda uma existência, se convenceu

de que nada existia além dele, e que a sua razão sempre prevalecia so

bre os demais. Encontrando-se de súbito diante da estrondosa verdade,

sente-se aniquilado, humilhado. A isso vem ainda juntar-se o remorso

de haver esquecido por tanto tempo a existência de um Deus tão bom,

tão indulgente. A situação é insuportável; não há calma nem repouso;

só se encontra um pouco de tranquilidade no momento em que a graça

divina, isto é, o amor de Deus, nos toca, pois o orgulho se apossa de tal

modo de nosso pobre espírito que ele fica como que embotado, a ponto

de ser preciso ainda muito tempo para que nos despojemos completa

mente dessa roupagem fatal. Somente a prece dos nossos irmãos pode

ajudar-nos nesses transes.

21. Quereis falar dos irmãos encarnados ou dos Espíritos? – R. De

ambos.

22. Enquanto nos entretínhamos com o vosso irmão, uma das pessoas

aqui presentes orou por ele. Essa prece lhe foi proveitosa? – R. Ela não se

perderá. Se ele agora recusa a graça, assim não agirá quando estiver em

condições de recorrer a essa divina panaceia.80

Aqui entrevemos um outro gênero de castigo, mas que não é o mesmo em todos

os incrédulos. Para este Espírito, é independente do sofrimento a necessidade

de reconhecer as verdades que repudiara quando encarnado. Suas ideias naturais

denotam certo progresso, em comparação às de outros Espíritos que persistem

na negação de Deus. Já é alguma coisa confessar o próprio erro, porque é pre

missa de humildade. Na sua próxima encarnação, é mais que provável que a

incredulidade ceda lugar ao sentimento inato da fé.

Transmitimos o resultado destas evocações à pessoa que no-las ha

via solicitado, recebendo, por nossa vez, a seguinte resposta:

“Não podeis imaginar, meu caro senhor, o grande benefício advin

do da evocação de meu sogro e de meu tio. Reconhecemo-los perfeita

mente. A letra do primeiro, sobretudo, apresenta notável analogia com

a que ele tinha em vida, tanto mais quanto, durante os últimos meses

que passou conosco, essa letra era sofreada e indecifrável. Aí se verifi

cam a mesma forma de “pernas”, da rubrica e de certas letras. Quanto

às palavras, às expressões e ao estilo, a semelhança é ainda mais frisante;

para nós a analogia é perfeita, apenas com maior conhecimento de Deus,

da alma e da eternidade que ele tão formalmente negava outrora. Esta

mos perfeitamente convictos da sua identidade. Deus será glorificado

pela maior firmeza das nossas crenças no Espiritismo, e os nossos irmãos

encarnados e desencarnados se tornarão melhores. A identidade de seu

irmão também não é menos evidente; a despeito da enorme diferença

entre o ateu e o crente, reconhecemos-lhe o caráter, o estilo e a forma

peculiar das frases. Uma palavra, sobretudo, nos chamou a atenção: pa

naceia, por quem tinha predileção e que a todo instante repetia.

Mostrei essas duas evocações a várias pessoas, que também se admi

raram da sua veracidade, mas os incrédulos, os que partilham as mesmas

opiniões dos meus parentes, desejariam respostas ainda mais categóricas.

Queriam, por exemplo, que o Sr. D... indicasse o lugar em que foi enter

rado, onde se afogou, como foi encontrado etc. A fim de os satisfazer e

convencer, não poderíeis fazer nova evocação, perguntando onde e como

se suicidou, quanto tempo esteve submerso, em que lugar acharam o

cadáver, onde foi inumado, de que modo, se civil ou religiosamente, foi

sepultado? Dignai-vos, caro senhor, responder categoricamente a essas

perguntas, pois são essenciais para os que ainda duvidam. Estou conven

cido de que darão, nesse caso, imensos resultados. Dou-me pressa a fim

de que esta carta vos seja entregue na sexta-feira de manhã, de modo a

poder fazer-se a evocação na sessão da Sociedade desse mesmo dia... etc.”

Reproduzimos esta carta pelo fato da confirmação da identidade e

aqui lhe anexamos a nossa resposta para ensino das pessoas não familia

rizadas com as comunicações de além-túmulo.

“As perguntas que nos pediram para novamente endereçar ao

Espírito de vosso sogro são, incontestavelmente, ditadas por intenção

louvável, qual a de convencer incrédulos, considerando-se que não vos

move qualquer sentimento de dúvida ou curiosidade. Todavia, um co

nhecimento mais aprofundado vos faria julgar supérfluas essas perguntas.

Em primeiro lugar, solicitando-me conseguir resposta categórica, mos

trais ignorar a circunstância de não podermos governar os Espíritos ao

nosso bel-prazer. Eles nos respondem como e quando querem, e também

como podem. Sua liberdade de ação é maior ainda do que quando encar

nados, possuindo meios mais eficazes de escaparem ao constrangimento

moral que por acaso queiramos exercer sobre eles. As melhores provas

de identidade são as que eles dão espontaneamente, por si mesmos, ou

então as oriundas das próprias circunstâncias, sendo quase sempre inútil

provocá-las. Segundo afirmais, o vosso parente provou a sua identidade

de modo incontestável; por conseguinte, é mais que provável a sua recusa

em responder a perguntas que, com toda razão, podem por ele ser con

sideradas supérfluas, visando satisfazer à curiosidade de pessoas que lhe

são indiferentes. Ele poderia responder como têm feito tantos outros em

casos semelhantes: ‘Para que perguntais coisas que já sabeis?’.

A isto acrescentarei que o estado de perturbação e de sofrimentos

em que ele se encontra deve agravar-se com as investigações desse gênero.

É exatamente como se alguém quisesse constranger um doente, que mal

consegue falar, a contar detalhes de sua vida, faltando-se assim às consi

derações devidas ao seu próprio estado.

Quanto ao resultado que esperais, ficai certo de que seria nulo. As

provas de identidade fornecidas são bem mais valiosas por terem sido es

pontâneas, e não de antemão premeditadas. Ora, se os incrédulos não se

deram por satisfeitos, muito menos se contentariam com interrogativas

preestabelecidas, de cuja conivência poderiam suspeitar. Há pessoas a

quem coisa alguma pode convencer. Mesmo que vissem o vosso parente,

com os próprios olhos, continuariam a supor-se vítimas de uma aluci

nação.

Duas palavras ainda, senhor, quanto ao pedido que me fizestes de

promover essa evocação no mesmo dia do recebimento de vossa carta.

As evocações não se fazem assim de improviso e a toque de caixa. Os

Espíritos nem sempre correspondem ao nosso apelo; é preciso que quei

ram e, também, que possam fazê-lo. É preciso ainda que encontrem um

médium que lhes convenha, com as aptidões especiais necessárias e que

esse médium esteja disponível em dado momento. É preciso, enfim, que

o meio lhes seja simpático etc. São circunstâncias que nem sempre po

dem ser satisfeitas, importando muito conhecê-las quando se quer fazer

a coisa com seriedade.”

Félicien

Era um homem rico, instruído, poeta espirituoso, de caráter bom,

obsequioso e ameno, e muito honrado. Falsas especulações compromete

ram-lhe a fortuna e, não lhe sendo possível repará-la em virtude da idade,

cedeu ao desânimo, enforcando-se, em dezembro de 1864, no seu quarto

de dormir. Não era materialista nem ateu, mas um homem de gênio um

tanto superficial, pouco se importando com a vida futura. Conhecendo--o intimamente, nós o evocamos quatro meses após o suicídio, inspira

dos pela simpatia que ele nos despertava.

EvocAção – Lamento a Terra, na qual tive decepções, porém me

nores do que as com que me deparei aqui. Eu, que sonhava maravilhas,

estou abaixo da realidade do meu ideal. O mundo dos Espíritos é bastan

te promíscuo, e para torná-lo suportável haveria necessidade de uma boa

triagem. É incrível! Que esboço de costumes espíritas se poderia fazer

aqui! O próprio Balzac,81 se estivesse em ação, não faria tal esboço senão

de modo rústico. Não o divisei, porém... Onde estarão esses grandes

Espíritos que tão energicamente verberaram os vícios da humanidade?

Deveriam, como eu, habitar por aqui antes de se alçarem a regiões mais

elevadas. Apraz-me observar este curioso pandemônio, e assim fico por

aqui.

Embora o Espírito nos declare que se acha numa sociedade bastante promíscua

e, por conseguinte, composta de Espíritos inferiores, a sua linguagem nos sur

preendeu, considerando-se o gênero de morte, ao qual, aliás, não faz qualquer

referência, o que nos deixava alguma dúvida quanto à sua identidade. A não ser

isso, tudo o mais refletiu seu caráter.

P. Poderíeis dizer-nos como morrestes? – R. Como morri? Pela morte

que escolhi, a que mais me agradou. Por muito tempo meditei nessa

81 N.E.: Honoré de Balzac (1799-1850): Escritor francês considerado o fundador do Realismo na

literatura moderna.

escolha com o intuito de me desembaraçar da vida. Apesar disso, confes

so que não ganhei grande coisa; libertei-me dos cuidados materiais, para

encontrá-los mais graves e penosos na condição de Espírito, e cujo termo

nem sequer prevejo.

P. [ Ao guiA do médium] – Será mesmo o Espírito Félicien que se

comunica conosco? Esta linguagem, quase despreocupada, causa admiração

em se tratando de um suicida. – R. Sim. Entretanto, por um sentimento

justificável na sua posição, ele não queria revelar ao médium o seu gênero

de morte. Foi por isso que dissimulou a frase, acabando, no entanto, por

confessá-lo diante da pergunta direta que lhe fizestes, embora não sem

angústias. O suicídio o faz sofrer terrivelmente, e por isso desvia, o mais

possível, tudo o que lhe recorde o seu fim funesto.

P. [ Ao Espírito] – A vossa desencarnação nos comoveu bastante, em

virtude de lhe prevermos as tristes consequências, além da estima e intimi

dade das nossas relações. Pessoalmente, não me esqueci do quanto éreis ob

sequioso e bom para comigo. Seria feliz se pudesse testemunhar-vos a minha

gratidão, fazendo algo de útil em vosso benefício. – R. Entretanto, eu não

podia livrar-me de outro modo dos embaraços da minha posição mate

rial. Agora, só tenho necessidade de preces; orai, principalmente, para

que me veja livre desses horríveis companheiros que aqui estão junto de

mim, obsidiando-me com gritos, sorrisos e motejos infernais. Chamam--me covarde, e com razão, porque é covardia renunciar à vida. É a quarta

vez que sucumbo a essa provação, não obstante a formal promessa de não

falir... Fatalidade!... Ah! orai... Que suplício o meu! Quanto sou infeliz!

Orando, fazeis por mim mais do que fiz por vós quando estava na Terra;

mas a prova, ante a qual fracassei tantas vezes, aí está traçada indelével,

diante de mim! É preciso tentá-la novamente dentro de algum tempo...

Terei forças? Ah! recomeçar a vida tantas vezes! Lutar por tanto tempo

para sucumbir aos acontecimentos, é desesperador, mesmo aqui! É por

isso que preciso de força. Dizem que podemos consegui-la pela prece...

Orai por mim, que eu quero orar também.

Este caso particular de suicídio, se bem que realizado em circunstâncias vulgares,

apresenta uma feição especial. Ele nos mostra um Espírito que sucumbiu várias

vezes à provação, que se renova a cada existência e que se repetirá até que ele tenha

forças para resistir. É a confirmação do fato de não haver proveito no sofrimento,

sempre que deixamos de atingir o fim da encarnação, sendo preciso recomeçá-la

até que saiamos vitoriosos da luta.

Ao Espírito féliciEn – Ouvi, eu vo-lo peço, ouvi e meditai sobre

o que vos tenho a dizer e refleti sobre as minhas palavras. O que deno

minais fatalidade é apenas a vossa fraqueza, pois se a fatalidade existisse

o homem não seria responsável por seus atos. O homem é sempre livre,

e nesta liberdade está o seu maior e mais belo privilégio. Deus não quis

fazer dele uma máquina obediente e cega e, se essa liberdade o torna falí

vel, também o torna perfectível, e somente pela perfeição poderá atingir

a suprema felicidade. Somente o orgulho pode levar o homem a atribuir

ao destino as suas desventuras na Terra, quando, na maioria das vezes,

resulta da sua própria incúria. Tendes disso um exemplo bem evidente

na vossa última encarnação, pois tínheis tudo o que se fazia preciso à

felicidade humana, segundo os valores do mundo: espírito, talento, for

tuna, merecida consideração; nada de vícios ruinosos, mas, ao contrário,

apreciáveis qualidades... Como, no entanto, a vossa posição ficou tão

comprometida? Unicamente pela vossa imprevidência. Haveis de convir

que, agindo com mais prudência, contentando-vos com o muito que já

vos coubera, em vez de procurar aumentá-lo sem necessidade, não vos

teríeis arruinado. Não havia nisso nenhuma fatalidade, já que podíeis ter

evitado tal acontecimento.

A vossa provação consistia numa sucessão de circunstâncias que

vos deveriam dar, não a necessidade, mas a tentação do suicídio. Infeliz

mente, apesar do vosso talento e instrução, não soubestes dominar essas

circunstâncias e sofreis agora as consequências da vossa fraqueza. Essa

prova, tal como pressentis com razão, deve repetir-se ainda; na vossa

próxima existência tereis de enfrentar acontecimentos que vos sugerirão

de novo a ideia do suicídio, e assim acontecerá sempre até que tenhais

triunfado completamente.

Longe de acusar a sorte, que é a vossa própria obra, admirai a

bondade de Deus, que, em vez de condenar irremissivelmente pela pri

meira falta, oferece sempre os meios de repará-la. Sofrereis, pois, não

eternamente, mas por tanto tempo quanto o exigir a reparação das faltas.

Depende de vós, quando no plano espiritual e na condição de Espíri

to, tomar a resolução bastante enérgica de manifestar a Deus um sin

cero arrependimento, solicitando com a mesma insistência o apoio dos

Espíritos bons. Voltareis então à Terra, blindado na resistência a todas as

tentações. Uma vez alcançada essa vitória, marchareis na via da felicidade

com mais rapidez, visto que sob outros aspectos o vosso progresso já é

considerável. Como vedes, há ainda um passo a ser dado, para o qual vos

auxiliaremos com as nossas preces. Estas, contudo, serão inúteis se não

nos secundardes com os vossos esforços.

R. Oh! obrigado! Oh! obrigado por tão belas palavras. Tenho muita

necessidade delas, visto que sou mais infeliz do que queria demonstrar. Vou

aproveitá-las, garanto, no preparo da próxima encarnação, durante a qual

farei todo o possível para não sucumbir. Espero sair logo do ignóbil meio

a que fui relegado.

Félicien

Antoine Bell

Era caixa de uma casa bancária do Canadá e suicidou-se no dia

28 de fevereiro de 1865. Um dos nossos correspondentes, médico e far

macêutico residente na mesma cidade, nos deu a propósito as seguintes

informações:

“Conhecia-o havia perto de 20 anos, como homem pacato e chefe

de numerosa família. De algum tempo para cá imaginou ter comprado

um tóxico na minha farmácia, servindo-se dele para envenenar alguém.

Muitas vezes vinha suplicar-me para lhe dizer a época de tal compra,

tomado então de alucinações terríveis. Perdia o sono, lamentava-se, batia

no peito. A família vivia em constante ansiedade, sobretudo no perío

do em que dava expediente no banco, onde, aliás, escriturava os seus

livros com muita regularidade, sem que jamais cometesse um só erro.

Habitualmente dizia sentir dentro de si um ser que o fazia desempenhar

com acerto e ordem a sua contabilidade. Quando parecia convencer-se

da extravagância das suas ideias, exclamava: “Não, não, quereis enganar--me... lembro-me... é a verdade.”

Antoine Bell foi evocado em Paris no dia 17 de abril de 1865, a

pedido do amigo.

1. EvocAção – R. Que quereis de mim? Submeter-me a um inter

rogatório? É inútil, confessarei tudo.

2. Bem longe de nós a ideia de vos atormentar com perguntas indis

cretas. Desejamos saber apenas a vossa posição nesse mundo, bem como se

poderemos vos ser útil em alguma coisa. – R. Ah! se for possível, ser-vos-ei

extremamente grato. Tenho horror ao meu crime e sou muito infeliz!

3. Temos a esperança de que as nossas preces atenuarão as vossas penas.

Tudo indica que vos achais em boas condições, uma vez que o arrependimen

to assedia o vosso coração, o que constitui um começo de reabilitação. Deus,

que é infinitamente misericordioso, sempre se compadece do pecador arrepen

dido. Orai conosco. [Faz-se a prece pelos suicidas, a qual se encontra em

O evangelho segundo o espiritismo.] Agora, tende a bondade de nos dizer de

quais crimes vos reconheceis culpado. Ser-vos-á levada em conta essa confis

são, se a fizerdes com humildade. – R. Deixai primeiro que vos agradeça

a esperança que fizestes raiar no meu coração. Oh! já faz bastante tempo

que vivia numa cidade à beira do Mediterrâneo, cujas águas lambiam as

suas muralhas. Amava, então, uma bela moça que me correspondia ao

afeto; contudo, pelo fato de ser pobre, fui repelido por sua família. Cer

to dia ela me participou que desposaria o filho de um negociante, cujas

transações se estendiam para além de dois mares, e assim fui repudiado.

Louco de dor, resolvi acabar com a própria vida, não sem antes assassinar

o detestado rival, saciando assim o meu desejo de vingança. Entretanto,

os meios violentos me repugnavam, de modo que eu tremia à só ideia de

praticar esse crime, porém o meu ciúme foi mais forte do que eu. Na vés

pera do casamento, o meu rival morria envenenado, pelo meio que me

pareceu mais fácil. Eis como se explicam as reminiscências do passado...

Sim, eu já reencarnei, e é preciso que reencarne ainda... Oh! meu Deus,

tende piedade da minha fraqueza e das minhas lágrimas.

4. Deploramos essa infelicidade que retardou vosso progresso e sincera

mente vos lamentamos. Contudo, se vos arrependerdes, Deus se compadecerá

de vós. Dizei-nos se chegastes a executar o vosso projeto de suicídio. – R. Não;

e confesso, para vergonha minha, que a esperança despontou novamente

no meu coração, com o desejo de me aproveitar do crime já cometido.

Mas os remorsos me traíram e acabei por expiar, no último suplício,

aquele meu desvario: enforquei-me.

5. Na vossa última encarnação tínheis consciência do mal praticado

na existência anterior? – R. Somente nos últimos anos, e eis como. Eu

era bom por natureza, e depois de submetido, como todos os homicidas,

ao tormento da visão contínua da vítima, que me perseguia qual vivo

remorso, dela me libertei depois de muitos anos, pelo arrependimento

e pela prece. Recomecei outra existência — a última — que atravessei

calmo e tímido. Tinha em mim como que vaga intuição da minha inata

fraqueza, bem como da falta anterior, cuja lembrança guardava em es

tado latente. Mas um Espírito obsessor e vingativo, que não era outro

senão o pai da minha vítima, facilmente se apoderou de mim, fazendo

reviver em meu coração, como se fosse num espelho mágico, as terríveis

lembranças do passado.

Ora influenciado por ele, ora por meu guia, que me protegia, eu era

o envenenador e ao mesmo tempo o pai de família a ganhar pelo trabalho

o sustento dos filhos. Fascinado por esse demônio obsessor, deixei-me

arrastar ao suicídio. Sou muito culpado, é verdade, porém menos do que

se o tivesse deliberado por mim mesmo. Os suicidas da minha categoria,

incapazes por sua fraqueza de resistir aos Espíritos obsessores, são menos

culpados e menos punidos do que os que tiram a vida por efeito exclusivo

da própria vontade. Orai comigo para que o Espírito que tão fatalmente

me influenciou renuncie à sua vingança, e orai por mim para que adquira

a energia, a força necessária para não ceder à prova do suicídio voluntário

a que serei submetido, dizem-me, na próxima encarnação.

6. Ao guiA do médium – Um Espírito obsessor pode, realmente,

levar o obsidiado ao suicídio? – R. Certamente, pois a obsessão, que por

si mesma já é um gênero de provação, pode manifestar-se de todas as for

mas. Mas isto não quer dizer isenção de culpabilidade. O homem dispõe

sempre do seu livre-arbítrio e, por conseguinte, é livre para ceder ou re

sistir às sugestões a que o submetem. Quando sucumbe, o faz sempre por

assentimento da sua vontade. Ademais, o Espírito tem razão ao dizer que

a ação instigada por outro é menos repreensível e menos punível do que

quando cometida voluntariamente. Contudo, nem por isso se inocenta

de culpa, visto como, afastando-se do caminho reto, mostra que o bem

ainda não está fortemente enraizado nele.

7. Apesar da prece e do arrependimento terem libertado esse Espírito

da visão tormentosa da sua vítima, nem por isso ele deixou de ser perseguido

pela vingança de um obsessor na sua última encarnação. Como se explica

esse fato? – R. Como sabeis, o arrependimento não passa de uma preli

minar indispensável à reabilitação, mas não basta para libertar o culpado

de todas as penas. Deus não se contenta com promessas, sendo preciso a

prova, por atos, do retorno ao bom caminho. É por isso que o Espírito é

submetido a novas provações que o fortalecem, resultando-lhe um me

recimento ainda maior quando delas sai triunfante. Os Espíritos maus

só o perseguem enquanto não o encontram bastante forte para resistir-lhes.

Encontrando resistência, eles o abandonam, certos da inutilidade dos

seus esforços.

Estes dois últimos exemplos mostram a repetição da mesma prova em sucessivas

encarnações e por tanto tempo quanto forem necessárias. Antoine Bell personi

fica o homem perseguido pela lembrança de um crime cometido em existência

anterior, qual um remorso e um aviso. Por aí já se vê que todas as existências são

solidárias entre si; que a justiça e a bondade divinas se ostentam na faculdade

conferida ao homem de progredir gradualmente, sem jamais privá-lo do resgate

das faltas; que o culpado é punido pela própria falta, sendo essa punição, em vez

de uma vingança de Deus, o meio empregado para fazê-lo progredir.

Criminosos arrependidos

• Verger • Lemaire • Benoist • O Espírito de

Castelnaudary • Jacques Latour

Verger

(Assassino do Arcebispo de Paris.)

No dia 3 de janeiro de 1857, monsenhor Sibour, arcebispo de

Paris, ao sair da igreja de Saint-Étienne-du-Mont, foi mortalmente

ferido por um jovem padre chamado Verger. O culpado foi condena

do à morte e executado no dia 30 de janeiro. Até o último instante

não demonstrou qualquer sentimento de pesar, de arrependimento

ou de sensibilidade. Evocado no mesmo dia da execução, deu as se

guintes respostas:

1. EvocAção – R. Ainda estou preso ao corpo.

2. Então a vossa alma ainda não se desligou completamente do corpo? – R. Não... tenho medo... não sei... Esperai que me reconheça. Não estou

morto, não é mesmo?

3. Estais arrependido do que fizestes? – R. Fiz mal em matar, mas a isso

fui levado pelo meu caráter, que não podia tolerar humilhações... Evocar--me-eis de outra vez.

4. Por que vos retirais? – R. Ficaria aterrorizado se o visse, pelo receio

de que me fizesse a mesma coisa.

5. Mas nada tendes a temer, uma vez que a vossa alma está separada do

corpo. Afastai toda inquietação, que não é razoável agora. – R. Que quereis?

Acaso sois senhor de vossas impressões? Não sei onde estou... estarei louco?

6. Tratai de vos acalmar. – R. Não posso, porque estou louco... Espe

rai!... Vou recobrar toda a minha lucidez.

7. Se orásseis, talvez pudésseis concentrar os vossos pensamentos. – R.

Tenho medo... não me atrevo a orar.

8. Orai, pois é grande a misericórdia de Deus! Oraremos convosco. – R.

Sim, a misericórdia de Deus é infinita; sempre acreditei nela.

9. Compreendeis melhor, agora, a vossa situação? – R. Ela é tão extra

ordinária que ainda não posso compreendê-la.

10. Vedes a vossa vítima? – R. Parece-me ouvir uma voz semelhante à

sua, dizendo-me: “Não mais te quero.” Será, talvez, efeito da minha ima

ginação? Estou louco, vo-lo asseguro, pois vejo meu corpo de um lado e

a cabeça de outro... e, contudo, vejo-me no Espaço, entre a Terra e o que

denominais céu... Sinto como o frio de uma faca, prestes a me decepar

o pescoço... mas isso é o medo da morte... Também me parece ver uma

multidão de Espíritos à minha volta, olhando-me compadecidos... falam

comigo, mas não os compreendo.

11. Haverá, entretanto, entre esses Espíritos, um cuja presença vos

humilhe por causa do vosso crime? – R. Apenas um me apavora: o daquele

a quem matei.

12. Lembrai-vos das existências anteriores? – R. Não; tudo é vago...

creio sonhar. Ainda uma vez, preciso tornar a mim.

13. [trÊs diAs dEpois] – Reconhecei-vos melhor agora? – R. Sei que

já não pertenço a esse mundo, e não o deploro. Lamento o que fiz, porém

meu Espírito está mais livre. Sei, além disso, que há uma série de existên

cias que nos dão conhecimentos úteis, a fim de nos tornarmos tão perfeitos

quanto possível à criatura humana.

14. Sois punido pelo crime que cometestes? – R. Sim; é lamentável o

que fiz e isso me faz sofrer.

15. De que maneira sois punido? – R. Sou punido porque tenho cons

ciência da minha falta, e para ela peço perdão a Deus; sou punido porque

reconheço a minha descrença em Deus, e porque sei que não devemos

abreviar os dias de vida de nossos irmãos; sou punido pelo remorso de

ter adiado o meu progresso, enveredando por caminho errado, sem ouvir

o grito da própria consciência que me dizia não ser pelo assassínio que

alcançaria o meu objetivo. Deixei-me dominar pela inveja e pelo orgulho;

enganei-me e me arrependo, pois o homem deve esforçar-se sempre por

dominar as más paixões, o que deixei de fazer.

16. Que sensação experimentais quando vos evocamos? – R. De prazer

e de temor, visto que não sou mau.

17. Em que consiste esse prazer e esse temor? – R. Prazer de con

versar com os homens e poder em parte reparar minhas faltas, confes

sando-as; e temor que não posso definir, uma espécie de vergonha por

ter sido assassino.

18. Desejais reencarnar na Terra? – R. Sim, eu o peço; desejo achar--me constantemente exposto ao assassínio, provando-lhe o temor.

Monsenhor Sibour foi evocado e disse que perdoava ao assassino e orava para que

ele se arrependesse. Disse ainda que, se estivesse presente à evocação de Verger, não

se lhe teria mostrado para não lhe aumentar os sofrimentos. O temor de vê-lo, que

o assassino experimentava, já era um castigo para o ex-padre.

P. O homem que mata sabe que, ao escolher nova existência, nela se

tornará um assassino? – R. Não; ele sabe que, escolhendo uma vida de luta,

tem probabilidade de matar um semelhante, ignorando porém se o fará,

pois está quase sempre em luta consigo mesmo.

A situação de Verger, ao morrer, é a de quase todos que perecem de morte violenta.

Como a separação da alma não se opera de maneira brusca, eles ficam como que

aturdidos, sem saber se estão mortos ou vivos. A visão do arcebispo foi-lhe poupa

da, por não ser necessária ao seu remorso, ao passo que outros, em circunstâncias

idênticas, são constantemente atormentados pelo olhar das suas vítimas.

Como se não bastasse a enormidade do crime, Verger acrescentava a agra

vante de não se ter arrependido ainda em vida e, portanto, nas condições

exigidas para a eterna condenação. Entretanto, tão logo deixou a Terra, o

arrependimento invadiu-lhe a alma e, repudiando o passado, deseja sincera

mente repará-lo. A isso não o impele o excesso de sofrimento, até porque nem

mesmo teve tempo para sofrer, mas o grito dessa consciência que desprezou

em vida, e que ora se lhe faz ouvir. Por que, então, não lhe levar em conta esse

arrependimento? Por que estaria salvo do inferno, caso se arrependesse alguns

dias antes, e não depois da morte? E por que Deus, misericordioso para com

o penitente antes da morte, seria impiedoso depois, só porque se passaram

algumas horas?

Causa admiração a rápida mudança algumas vezes operada nas ideias de um crimi

noso que, impenitente e endurecido até o momento de deixar a vida, compreende

a iniquidade de sua conduta e se arrepende, tão logo se veja no outro mundo.

Contudo, esse resultado está longe de ser geral, pois se a regra fosse esta, não

haveria Espíritos maus. Como quase sempre o arrependimento é tardio, o castigo

se prolonga por tempo muito mais dilatado.

A obstinação no mal, durante a vida, provém às vezes do orgulho de quem recusa

submeter-se e confessar os próprios erros, visto que o homem está sujeito à in

fluência da matéria e fascinado pelo véu que lhe é lançado sobre as percepções

espirituais. Roto esse véu, súbita luz o ilumina e ele volta à realidade. O pronto

retorno a melhores sentimentos é sempre o indício de um progresso moral realiza

do, que apenas aguarda uma circunstância favorável para se revelar, ao passo que a

persistência mais ou menos longa do mal, depois da morte, é, incontestavelmente,

a prova de atraso do Espírito, no qual os instintos materiais sufocam o germe do

bem, de modo a lhe serem precisas novas provações para se corrigir.

Lemaire

(Condenado à pena de morte pelo júri do Aisne, e executado a

31 de dezembro de 1857. Evocado em 29 de janeiro de 1858.)

1. EvocAção – R. Aqui estou.

2. Vendo-nos, que sensação experimentais? – R. A vergonha.

3. Guardastes a consciência até o último momento? – R. Sim.

4. Após a execução tivestes imediata noção dessa nova existência? – R. Eu

estava imerso em grande perturbação, da qual, aliás, ainda não me libertei.

Senti uma dor imensa, parecendo-me ser o coração quem a sofria. Vi rolar

não sei quê aos pés da guilhotina; vi o sangue que corria e mais pungente se

tornou a minha dor.

4-a. Era uma dor puramente física, análoga à que resultaria de um gra

ve ferimento, da amputação de um membro, por exemplo? – R. Não; imaginai

antes um remorso, uma grande dor moral.

4-b. Quando começastes a sentir essa dor? – R. Desde que fiquei livre.

5. Quem sentia a dor física do suplício: o corpo ou o Espírito? – R. A

dor moral estava em meu Espírito; o corpo sentia a dor física; mas o Espírito

desligado ainda se ressentia da dor física.

6. Vistes o corpo mutilado? – R. Vi qualquer coisa disforme, à qual

me parecia integrado; entretanto, reconhecia-me intacto, ou seja, eu

era eu mesmo.

6-a. Que impressão vos causou essa visão? – R. Eu sentia muito a

minha dor; eu estava perdido nela.

7. Será verdade que o corpo vive ainda alguns instantes depois da de

capitação, e que o supliciado tem consciência das suas ideias? – R. O Espírito

retira-se pouco a pouco; quanto mais o retêm os laços materiais, menos

rápida é a separação.

8. Dizem que se há notado movimentos e expressão de cólera na fisiono

mia de alguns supliciados, como se eles quisessem falar; será isso efeito de con

trações nervosas ou um ato da vontade? – R. Da vontade, pois que o Espírito

ainda não se retirou do corpo.

9. Qual o primeiro sentimento que experimentastes ao entrar na vossa

nova existência? – R. Um sofrimento intolerável, uma espécie de remorso

pungente cuja causa ignorava.

10. Acaso vos achastes reunido aos vossos cúmplices, executados

convosco? – R. Infelizmente, sim, para desgraça nossa, pois essa visão

recíproca é um suplício contínuo, censurando-nos uns aos outros os

crimes cometidos.

11. Tendes encontrado as vossas vítimas? – R. Vejo-as... são felizes...

seus olhares me perseguem... sinto que penetram todo o meu ser e em vão

tento fugir-lhes.

11-a. Que impressão vos causam esses olhares? – R. Vergonha e remorso.

Eu os provoquei voluntariamente e ainda os abomino.

11-b. E qual a impressão que causais a eles? – R. Piedade.

12. Terão ódio e desejo de vingança? – R. Não; seus olhares lembram--me a minha expiação. Não podeis avaliar o suplício terrível de tudo devermos

àqueles a quem odiamos.

13. Lamentais a perda da vida terrena? – R. Só lamento os meus crimes.

Se o fato ainda dependesse de mim, não mais sucumbiria.

14. O pendor para o mal estava na vossa natureza, ou fostes ain

da influenciado pelo meio em que vivestes? – R. Sim, estava na minha

própria natureza, visto ser eu um Espírito inferior. Quis elevar-me ra

pidamente, mas pedi mais do que podiam comportar as minhas forças.

Acreditando-me forte, escolhi uma rude prova e acabei por ceder às

tentações do mal.

15. Se tivésseis recebido bons princípios de educação, ter-vos-íeis

desviado da senda criminosa? – R. Sim; mas eu havia escolhido a con

dição em que nasci.

15-a. Acaso não vos teríeis tornado um homem de bem? – R. Um ho

mem fraco é incapaz, tanto para o bem como para o mal. Talvez pudesse

corrigir na vida o mal peculiar à minha natureza, mas nunca me elevar à

prática do bem.

16. Quando encarnado, acreditáveis em Deus? – R. Não.

16-a. Mas dizem que à ultima hora vos arrependestes. É verdade? – R. Porque acreditei num Deus vingativo, era natural que temesse a

sua justiça.

16-b. E agora o vosso arrependimento é mais sincero? – R. Oh! eu vejo

o que fiz.

16-c. Que pensais de Deus neste momento? – R. Sinto-o, mas não o

compreendo.

17. Achais justo o castigo que vos aplicaram na Terra? – R. Sim.

18. Esperais obter o perdão dos vossos crimes? – R. Não sei.

18-a. Como esperais repará-los? – R. Mediante novas provas, embora

me pareça que existe uma eternidade entre elas e mim.

19. Onde vos achais agora? – R. Carpindo o meu sofrimento.

19-a. Perguntamos qual o lugar em que vos encontrais. – R. Perto

do médium.

20. Já que estais aqui, sob que forma seríeis visto, se nos pudésseis

aparecer? – R. Ver-me-íeis sob a minha forma corpórea: a cabeça sepa

rada do tronco.

20-a. Poderíeis aparecer-nos? – R. Não; deixai-me.

21. Poderíeis dizer-nos como fugistes da prisão de Montdidier? – R.

Nada mais sei... é tão grande o meu sofrimento, que apenas guardo a lem

brança do crime... Deixai-me.

22. Poderíamos concorrer para vos aliviar esse sofrimento? – R. Fazei

votos para que a expiação sobrevenha sem demora.

Benoist

(Bordeaux, março de 1862.)

Um Espírito apresenta-se espontaneamente ao médium, sob o nome

de Benoist, dizendo ter morrido em 1704 e padecer horríveis sofrimentos.

1. Que fostes na Terra? – R. Frade sem fé.

2. A descrença foi a vossa única falta? – R. Basta ela para arrastar

as outras.

3. Podereis dar-nos alguns pormenores sobre a vossa vida? Ser-vos--á levada em conta a sinceridade da confissão. – R. Pobre e indolente,

ordenei-me, não por vocação, mas para ter uma boa posição na vida.

Inteligente, consegui essa posição; influente, abusei do poder; vicioso,

corrompi aqueles que tinha por missão salvar; cruel, persegui os que me

pareciam querer censurar os meus excessos; os pacíficos foram por mim

inquietados. A fome torturou muitas vítimas e amiúde seus gritos eram

extintos pela violência. Agora, sofro todas as torturas do inferno; minhas

vítimas ateiam o fogo que me devora. A luxúria e a fome insaciáveis me

perseguem; a sede me queima os lábios escaldantes, sem que uma gota

d’água lhes caia em refrigério. Tudo se volta contra mim. Oh! orai... Orai

pelo meu Espírito.

4. As preces feitas pelos finados deverão ser-vos atribuídas como aos

outros? – R. Acreditais que sejam edificantes, e, no entanto, elas têm para

mim o valor das que eu fingia fazer. Como receber o salário, se não executei

meu trabalho?

5. Nunca vos arrependestes? – R. Há muito tempo; mas ele só veio pelo

sofrimento. E como fui surdo ao clamor de vítimas inocentes, o Senhor

também é surdo aos meus clamores. Justiça!

6. Já que reconheceis a Justiça do Senhor, confiai na sua bondade e

clamai pelo seu auxílio. – R. Os demônios berram mais forte do que eu;

seus gritos sufocam-me; enchem-me a boca de piche fervente!... Eu o fiz,

grande... (O Espírito não conseguiu escrever a palavra Deus.)

7. Não estais suficientemente liberto das ideias terrenas de modo a

compreender que essas torturas são todas morais? – R. Sofro-as... sinto-as...

vejo os meus carrascos, que têm todos uma cara conhecida, um nome que

repercute em meu cérebro.

8. Mas que poderia impelir-vos à prática de tantas infâmias? – R. Os

vícios de que me achava saturado, a brutalidade das paixões.

9. Nunca implorastes a assistência dos Espíritos bons para vos ajudarem

a sair dessa situação? – R. Apenas vejo os demônios do inferno.

10. Quando encarnado, temíeis esses demônios? – R. Não, absoluta

mente; só acreditava no nada. Os prazeres constituíam o meu culto, não

importa a que preço. As divindades do inferno não me abandonaram.

Como lhes consagrei a vida, elas não me deixarão mais!

11. Não vislumbrais um termo para esses sofrimentos? – R. O infinito

não tem termo.

12. Mas Deus é infinito na sua misericórdia, e tudo pode ter um fim,

desde que Ele o queira. – R. Ah! se Ele o quisesse!

13. Por que viestes inscrever-vos aqui? – R. Nem eu mesmo sei, mas

queria falar e gritar para que me aliviassem.

14. E esses demônios não vos impedem de escrever? – R. Não; mas se

conservam à minha frente e esperam-me. Também por isso, eu desejaria

não terminar.

15. É a primeira vez que escreveis desse modo? – R. Sim.

15-a. E sabíeis que os Espíritos podiam assim aproximar-se dos

homens? – Não.

15-b. Como, pois, o percebestes? – R. Não sei.

16. Que sensações experimentastes ao aproximar-vos de mim? – R. Uma

espécie de entorpecimento dos meus terrores.

17. Como vos destes conta de que estáveis aqui? – R. Como quando

se acorda.

18. Como procedestes para comunicar comigo? – R. Não posso com

preender, mas tu também não sentiste?

19. Não se trata de mim, mas de vós. Procurai assegurar-vos do que

fazeis enquanto eu escrevo. – R. És o meu pensamento, eis tudo.

20. Não tivestes, pois, o desejo de me fazer escrever? – R. Não, sou eu

quem escreve, e tu pensas por mim.

21. Procurai assegurar-vos do vosso estado, porque os Espíritos bons

que nos cercam vos ajudarão. – R. Não, pois os anjos não vêm ao inferno.

Tu não estás só?

21-a. Vede em torno. – R. Sinto que me auxiliam a atuar sobre ti... a tua

mão me obedece... não te toco, aliás, e seguro-te... Como? Não compreendo...

22. Implorai a assistência dos vossos protetores. Vamos rogar juntos. – R.

Queres deixar-me? Fica comigo, porque eles se reapossarão de mim. Por

favor... fica! Não te vás!

23. Não posso demorar-me por mais tempo. Voltai diariamente para

orarmos juntos e os Espíritos bons vos auxiliarão. – R. Sim, desejo o perdão.

Orai por mim, que não posso fazê-lo.

o guiA do médium – Coragem, meu filho, porque lhe será concedi

do o que pedes, embora esteja ainda longe o termo da expiação. As atroci

dades que ele cometeu não têm número nem conta, e maior é a sua culpa

porque possuía inteligência, instrução e luzes para guiar-se. Faliu, portan

to, com conhecimento de causa, razão por que os sofrimentos lhe são mui

to mais terríveis; não obstante, com o auxílio e o concurso da prece, suas

dores serão amenizadas, de modo a que lhes veja o termo, confortado pela

esperança. Deus o vê no caminho do arrependimento, e já lhe concedeu a

graça de poder comunicar-se, a fim de ser encorajado e confortado. Pensa sem

pre nele, pois nós to entregamos para fortalecer-se nas boas resoluções que lhe

poderão advir dos teus conselhos. Ao arrependimento sucederá o desejo da

reparação, e então ele pedirá uma nova existência para praticar o bem como

compensação do mal que fez. Quando Deus estiver satisfeito a seu respeito e

o vir resoluto e firme, far-lhe-á entrever as divinas claridades que o haverão

de conduzir à salvação, recebendo-o no seu seio qual pai ao filho pródigo.

Tem confiança, e nós te ajudaremos a realizar a tua obra.

Paulin

Colocamos este Espírito entre os criminosos, embora não atingido pela justiça hu

mana, porque o crime se contém nos atos, e não no castigo aplicado pelos homens.

O mesmo se dá com o seguinte.

O Espírito de Castelnaudary

Numa pequena casa perto de Castelnaudary ocorriam barulhos es

tranhos e manifestações diversas que levaram a considerá-la como assom

brada por algum gênio mau. Por conta disso, foi exorcizada em 1848 e

nela colocaram grande número de imagens de santos. Então, querendo

habitá-la, o Sr. D... mandou fazer reparos e retirar as imagens. Depois de

alguns anos, ali morreu subitamente. Seu filho, que a ocupa atualmente,

ou pelo menos a ocupava até pouco tempo, recebeu certo dia, ao entrar

num aposento, forte bofetada de mão invisível. Como estivesse comple

tamente só, não duvidou que proviesse de uma fonte oculta. Agora não

quer mais ficar lá e vai deixá-la definitivamente. Há, na região, a tradição

segundo a qual um grande crime fora cometido naquela casa. O Espírito

que deu a bofetada foi evocado na Sociedade de Paris, em 1859, e se ma

nifestou por sinais de tal violência que foram inúteis todos os esforços para

acalmá-lo. Interrogado a respeito, São Luís respondeu: “É um Espírito da

pior espécie, verdadeiro monstro: fizemo-lo comparecer, mas a despeito de

tudo quanto lhe dissemos não foi possível obrigá-lo a escrever. Ele tem o

seu livre-arbítrio, do qual o infeliz tem feito triste uso.”

P. Este Espírito é suscetível de melhora? – R. E por que não? Não o são todos,

este como os outros? É possível, no entanto, que haja alguma dificuldade nisso,

porém a permuta do bem pelo mal acabará por sensibilizá-lo. Orai em primei

ro lugar e, se o evocardes daqui a um mês, vereis a transformação operada.

Novamente evocado mais tarde, o Espírito mostrou-se mais brando

e, pouco a pouco, submisso e arrependido. Explicações posteriores, dadas

por ele e por outros Espíritos, permitiram saber-se que em 1608, quando

habitava aquela casa, assassinara um irmão por motivos de terrível ciú

me, degolando-o durante o sono. Alguns anos mais tarde, também havia

assassinado a esposa. Morreu em 1659, com 80 anos, sem que houves

se respondido por estes crimes, que pouca atenção despertavam naquela

época de confusões. Depois da morte, jamais cessara de praticar o mal,

provocando vários acidentes naquela casa. Um médium vidente que assis

tiu à primeira evocação o viu no momento em que pretendiam forçá-lo

a escrever, sacudindo violentamente o braço do médium. Seu aspecto era

terrível; trajava uma camisa ensanguentada e tinha na mão um punhal.

1. P. [ A são luís] – Tende a bondade de nos descrever o gênero de

suplício deste Espírito. – R. É atroz, porque está condenado a habitar a casa

em que cometeu o crime, sem poder fixar o pensamento em outra coisa

que não no crime, tendo-o sempre diante dos olhos e acreditando na eterni

dade de tal tortura. Vê-se constantemente no momento em que cometeu o

crime; qualquer outra recordação lhe foi retirada e interdita toda comuni

cação com qualquer outro Espírito. Na Terra, só pode permanecer naquela

casa, e no Espaço só lhe restam solidão e trevas. s

2. Haveria um meio de o desalojar dessa casa? Qual seria esse meio? – R. Há um meio muito fácil para nos livrarmos das obsessões de se

melhantes Espíritos: orar por eles. Contudo, é precisamente isso que se

deixa de fazer quase sempre, preferindo-se intimidá-los com exorcismos

que, aliás, os divertem bastante.

3. Incutindo nas pessoas interessadas a ideia de orar pelo obsidiado, e

fazendo-o também nós, conseguiríamos desalojar o Espírito obsessor? – R. Sim,

mas notai que eu disse para orar, e não para mandar orar.

4. O Espírito já se encontra em tal situação há dois séculos. Como apre

ciará todo esse tempo? Como se ainda fosse encarnado? Nesse caso, o tempo lhe

parecerá tão longo, mais longo ou menos longo do que quando estava na Terra? – R. Mais longo: o sono não existe para ele.

5. Disseram-nos que o tempo não existe para os Espíritos e que um século,

para eles, não passa de um ponto na eternidade. Então esse fato não se dá com

todos os Espíritos? – R. Não, por certo. Isto só acontece com os Espíritos que

já atingiram um grau de adiantamento muito elevado; para os inferiores,

porém, o tempo pode ser muito longo, sobretudo quando sofrem.

6. De onde vinha esse Espírito antes da sua encarnação? – R. Tivera

uma existência entre tribos das mais ferozes e selvagens e, precedente

mente, vinha de um planeta inferior à Terra.

7. Esse Espírito é punido agora com toda severidade pelo crime que

cometeu. Se porventura os tivesse cometido, como é de supor, quando vivia

entre os selvagens, seria punido com o mesmo rigor? – R. Com menos rigor,

pois, sendo mais ignorante, não tinha alcance da extensão do delito.

8. O estado em que se vê esse Espírito é o dos seres vulgarmente designa

dos por danados? – R. De modo algum, pois há condições ainda mais hor

rorosas. Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos, mesmo

para crimes semelhantes, variando conforme seja o culpado mais ou menos

acessível ao arrependimento. Para este, a casa em que cometeu aquele crime

é o seu inferno; outros trazem esse inferno em si mesmos, pelas paixões que

os atormentam e que eles não podem saciar.

9. Apesar da sua inferioridade, este Espírito é sensível aos efeitos da

prece; já verificamos a mesma coisa em relação a outros Espíritos igualmente

perversos e da mais grosseira natureza. Como é possível a existência de Espíritos

mais esclarecidos, de inteligência mais desenvolvida, que demonstram completa

ausência de bons sentimentos e até se riem de tudo o que há de mais sagrado,

não se comovendo com coisa alguma nem dando tréguas ao seu cinismo? – R. A

prece só é eficaz para o Espírito que se arrepende; para aqueles que, levados

pelo orgulho, se revoltam contra Deus e persistem no erro, exagerando-os

mesmo, tal como procedem os infelizes, para esses a prece nada adianta,

nem adiantará, senão quando uma fagulha de arrependimento começar a

germinar-lhes na consciência. A ineficácia da prece é também para eles um

castigo; só alivia os que não se acham de todo endurecidos.

10. Quando se vê um Espírito insensível à ação da prece, será motivo

para que se deixe de orar por ele? – R. Não, certamente, pois cedo ou tarde

a prece poderá vencer o seu endurecimento, fazendo que nele brote pensa

mentos salutares.

O mesmo sucede com certos doentes nos quais a ação medicamentosa só se torna

efetiva depois de muito tempo e vice-versa. Compenetrando-se bem de que todos

os Espíritos são perfectíveis, isto é, aptos ao progresso, e que nenhum é fatal e

eternamente votado ao mal, fácil nos será conceber a eficácia da prece em qualquer

circunstância. Por mais ineficaz que ela possa parecer-nos à primeira vista, o certo

é que possui germens em si mesma, bastante benéficos, para bem predisporem o

Espírito, quando não o afetam imediatamente. Seria, pois, erro desanimarmos por

não colher dela imediato resultado.

11. Quando este Espírito reencarnar, qual será a sua categoria? – R.

Depende dele e do arrependimento que então tiver.

Muitos colóquios com este Espírito deram como resultado notável

transformação do seu moral. Eis aqui algumas das suas respostas:

12. [Ao Espírito] – Por que não pudestes escrever da primeira vez que

vos evocamos? – R. Porque não queria.

12-a. Mas por quê? – R. Ignorância e embrutecimento.

13. Agora podeis deixar, a vosso bel-prazer, a casa de Castelnaudary? – R. Tenho essa permissão porque aproveito os vossos bons conselhos.

13-a. Sentis algum alívio? – R. Começo a ter esperança.

14. Se fosse possível vos vermos, qual seria a vossa aparência? – R. Ver--me-íeis com a camisa, mas sem o punhal.

14-a. Por que não mais com o punhal? Que fim lhe destes? – R. Eu o

maldigo agora; por isso, Deus poupou-me da sua visão.

15. Se o filho do Sr. D... (o que recebeu a bofetada) voltasse àquela

casa, que lhe faríeis? Algum mal? – R. Não, porque estou arrependido.

15-a. E se ele pretendesse ainda desafiar-vos? – R. Oh! não me façais

essa pergunta! Eu não me dominaria, isso está acima das minhas forças,

visto que não passo de um miserável.

16. Divisais um termo aos vossos sofrimentos? – R. Oh! ainda não.

Contudo, já é muito saber, graças à vossa intercessão, que eles não

durarão eternamente.

17. Tende a bondade de nos descrever a vossa situação antes de vos

evocarmos pela primeira vez. Haveis de compreender que este pedido tem por

fim sabermos como vos poderemos ser úteis, e não por mera curiosidade. – R.

Como já vos disse, eu não tinha consciência de coisa alguma, além do

meu crime, e não podia abandonar a casa em que o cometi, a não ser para

vagar no Espaço, onde só havia à minha volta solidão e obscuridade; disso

eu não poderia vos dar uma ideia, porque nunca logrei compreender o

que se passava. Desde que me alçava ao Espaço, tudo era negro e vazio;

nem mesmo sei o que era... Hoje o meu remorso é muito maior e, no

entanto, não sou constrangido a permanecer naquela casa fatal, sendo--me permitido vagar na Terra e orientar-me pela observação de quanto aí

vejo, compreendendo melhor, assim, a enormidade dos meus crimes; e se

menos sofro por um lado, por outro aumentam as torturas do remorso...

Mas... ainda bem que tenho esperança.

18. Se tivésseis de reencarnar agora, que existência escolheríeis? – R.

Ainda não meditei suficientemente sobre isso.

19. Durante o vosso longo insulamento, e quase podemos dizer cativeiro,

experimentastes algum remorso? – R. Nenhum, e por isso sofri tão longa

mente. Só quando o senti foi que ele provocou, sem que disso me desse

conta, as circunstâncias determinantes da vossa evocação, à qual devo o

começo da minha libertação. Obrigado, pois, a vós, que tivestes piedade

de mim e me esclarecestes.

Realmente, temos visto avaros sofrerem à vista do ouro, que para eles não passava

de verdadeira quimera; orgulhosos, atormentados pelo ciúme das honrarias pres

tadas a outros que não a eles; homens que dominavam na Terra, humilhados pela

potência invisível, constrangidos à obediência, em presença de subordinados, que

não mais se curvavam diante deles; ateus atônitos pela dúvida, em face da imen

sidade, no mais absoluto insulamento, sem um ser que os esclareça. No mundo

dos Espíritos há compensações para todas as virtudes, mas há também penalidades

para todas as faltas, de modo que os que escaparam às leis dos homens são atingi

dos pela Lei de Deus.

Devemos ainda notar que as mesmas faltas, embora cometidas em circunstâncias

idênticas, são diversamente punidas, conforme o grau de adiantamento intelec

tual do Espírito que as cometeu. Aos Espíritos mais atrasados, de natureza mais

grosseira, tal como este de que acabamos de tratar, são infligidos castigos de al

guma sorte mais materiais que morais, ao passo que se dá exatamente o contrário

para com aqueles cuja inteligência e sensibilidade estejam mais desenvolvidas.

Aos primeiros impõe-se o castigo apropriado à rudeza do seu discernimento,

para compreenderem o erro e dele se libertarem. É assim que a vergonha, por

exemplo, causando pouca ou nenhuma impressão sobre eles, será intolerável

para os outros.

Neste código penal divino, a sabedoria, a bondade e a previdência de Deus

para com as suas criaturas revelam-se até nas mínimas particularidades;

tudo é proporcionado e combinado com admirável solicitude para facilitar

aos culpados os meios de reabilitação. São levadas em consideração as mí

nimas aspirações da alma. Pelos dogmas das penas eternas, ao contrário, no

inferno são confundidos os grandes e os pequenos criminosos, os culpados

de momento e os reincidentes obstinados, os endurecidos e os arrependidos.

Tudo é calculado para os manter no fundo do abismo. Não se lhes oferece

nenhuma tábua de salvação; uma única falta pode precipitar-lhes para sem

pre nesse abismo, não lhes sendo de nenhum proveito qualquer benefício

que hajam feito. De que lado, pois, se encontra a verdadeira justiça, a ver

dadeira bondade?

Esta evocação nada tem de casual; e como deveria ser útil a esse infeliz, visto que

ele já começava a compreender a enormidade do seu crime, os Espíritos que ve

lavam por ele julgaram oportuno que chegara o momento de dar-lhe esse socorro

eficaz, facilitando-lhe então as circunstâncias propícias. É um fato que temos visto

reproduzir-se com muita frequência.

Perguntar-se-á que seria deste Espírito se não fosse evocado, bem como de todos

os sofredores que não o podem ser, assim como daqueles em que não se pensa.

Poderíamos responder que os meios de que Deus dispõe para salvar as criaturas

são inumeráveis, sendo a evocação um dentre esses meios, porém, não o único,

certamente, visto que Ele não esquece nenhuma de suas criaturas. Além disso, as

preces coletivas devem exercer a sua cota de influência sobre os Espíritos acessí

veis ao arrependimento.

Deus não poderia subordinar a sorte dos Espíritos sofredores à boa vontade e

aos conhecimentos dos homens. Desde que estes conseguiram estabelecer rela

ções regulares com o mundo invisível, uma das primeiras consequências do Es

piritismo foi o ensino dos serviços que por meio dessas relações podem prestar

aos seus irmãos desencarnados. Quis Deus, por esse meio, provar a solidariedade

existente entre todos os seres do universo e dar uma Lei da natureza como base

ao princípio da fraternidade. Ao abrir esse novo campo ao exercício da caridade,

Deus mostra aos homens o lado verdadeiramente útil e sério das evocações, até

então desvirtuadas do seu fim providencial pela ignorância e pela superstição. Aos

Espíritos sofredores jamais faltaram socorros em qualquer época, e se as evocações

lhes proporcionam uma nova via de salvação, talvez aproveitem mais ainda aos

encarnados, por lhes proporcionar novos meios de fazer o bem, instruindo-se ao

mesmo tempo sobre as verdadeiras condições da vida futura.

Jacques Latour

(Assassino condenado pelo júri de Foix e

executado em setembro de 1864.)

Numa reunião íntima de cerca de oito pessoas, ocorrida em

Bruxelas no dia 13 de setembro de 1864, e à qual estávamos presente,

foi pedido a um médium que tomasse do lápis para escrever. Logo em

seguida, e sem que houvéssemos feito qualquer evocação especial, o mé

dium foi tomado de extraordinária agitação e começou a traçar caracte

res muito grossos, após o que rasgou o papel e exclamou: “Arrependo--me! arrependo-me! Latour.”

Surpreendidos com a inesperada comunicação, de modo algum pro

vocada, já que ninguém havia pensado nesse infeliz, cuja morte até então

era ignorada por boa parte dos assistentes, dirigimos ao Espírito palavras de

conforto e comiseração, fazendo-lhe em seguida esta pergunta: “Que motivo

vos levou a manifestar-se aqui, e não em outro lugar, uma vez que não vos

evocamos?” O medianeiro, que também era excelente médium psicofônico,

respondeu de viva voz o que lhe transmitia o Espírito:

“Vi que, almas compassivas que sois, teríeis piedade de mim, ao pas

so que outros me evocavam mais por curiosidade que por caridade, ou de

mim se afastavam horrorizados.” Depois começou por uma cena indescri

tível, que não durou menos de meia hora. O médium, associando os gestos

e a expressão da fisionomia à palavra, deixava patente a identificação do

Espírito com a sua pessoa; às vezes, esses gestos de desespero mostravam

tanta aflição, que desenhavam vivamente o seu sofrimento; o tom da voz

era tão compungido, as súplicas tão veementes, que ficávamos profunda

mente comovidos. Alguns estavam mesmo aterrorizados com a supere

xcitação do médium, mas nós sabíamos que a manifestação de um ente

arrependido, que implora piedade, não poderia oferecer nenhum perigo.

Se ele buscou os órgãos do médium, é que melhor desejava tornar clara a

sua situação, a fim de que mais nos interessássemos pela sua sorte, e não

como os Espíritos obsessores e possessores, que visam apoderar-se dos mé

diuns para os dominarem. Tal manifestação lhe fora talvez permitida não

só em benefício próprio, como também para edificação dos circunstantes.

Ei-lo a exclamar: “Oh! sim, piedade... muito necessito dela, pois

não sabeis o que sofro!... Não o sabeis, e não podereis compreendê-lo...

é horrível!... A guilhotina!... Que vale a guilhotina, comparada a este

sofrimento de agora? Nada! É um instante. Este fogo que me devora,

sim, é pior, porque é uma morte contínua, sem tréguas nem repouso...

sem-fim!... E as minhas vítimas ali estão ao redor, a mostrar-me suas feri

das, a perseguir-me com seus olhares... Aí estão e vejo-as todas... todas...

sem poder fugir-lhes! E este mar de sangue?! E este ouro manchado de

sangue?! Tudo aí está... tudo... e sempre ante meus olhos. Não sentis o

cheiro de sangue? Sangue, sempre sangue! E as pobres vítimas a implorar,

e eu a feri-las sempre... sempre... impiedosamente!... O sangue inebria--me... Acreditava que depois da morte tudo estaria terminado, e assim

foi que afrontei o suplício e o próprio Deus, renegando-o!... Entretanto,

quando me julgava aniquilado para sempre, que terrível despertar... Eu

me via cercado de cadáveres, de espectros ameaçadores, os pés atolados

em sangue!... Acreditava-me morto e estou vivo!... Horrendo! horrendo!

Mais horrendo que todos os suplícios da Terra!

“Ah! se todos os homens pudessem saber o que há para além da

vida, saberiam também quanto custam as consequências do mal! Por certo

não haveria mais assassínios, nem criminosos, nem malfeitores! Quisera

que todos os assassinos pudessem ver o que eu vejo e sofro... Oh! en

tão deixariam de sê-lo, porque é horrível este sofrimento! Bem sei que o

mereci, oh! meu Deus, porque também eu não tive compaixão das mi

nhas vítimas; repelia as suas mãos suplicantes quando imploravam que as

poupasse... Sim, fui cruel, matando-as covardemente para roubá-las! Fui

ímpio e fui blasfemo também, renegando o vosso sagrado nome... Quis

enganar-me, porque queria convencer-me de que não existíeis... Meu Deus,

eu sou grande criminoso! Agora o compreendo. Mas... não tereis piedade,

Senhor! Piedade! Eu vo-lo peço, não sejais inexorável; libertai-me destes

olhares odiosos, destes espectros horríveis... deste sangue... das minhas

vítimas, cujos olhares, quais punhaladas, me varam o coração.

“Vós outros que estais aqui, que me ouvis, sede bondosos, almas

caritativas. Sim, eu o vejo, sei que tendes piedade de mim, não é verdade?

Haveis de orar por mim... Oh! eu vo-lo suplico, não me repilais. Pedireis a

Deus que me tire este horrível espetáculo de ante os olhos, e Ele vos ouvirá

porque sois bons... Eu vos imploro, não me repilais, não me repilais como

fiz outrora com os outros. Orai por mim.”

Os assistentes, sensibilizados diante de tanto sofrimento, dirigi

ram-lhe palavras de conforto e consolação. Deus, disseram-lhe, não é

inflexível; apenas exige do culpado um arrependimento sincero, assim

como o desejo de reparar o mal praticado. Uma vez que o vosso coração

não está petrificado e que lhe pedis o perdão dos vossos crimes, a sua

misericórdia baixará sobre vós. É preciso, pois, que persevereis na boa

resolução de reparar o mal que fizestes. Naturalmente não podeis resti

tuir a vida que arrancastes às vossas vítimas, no entanto, se o implorardes

com fervor, Deus permitirá que as encontreis em uma nova existência,

na qual lhes podereis demonstrar tanto devotamento quanto o mal que

lhes fizestes. E quando a reparação lhe parecer suficiente, entrareis na

sua santa graça. Assim, a duração do vosso castigo está nas vossas mãos,

dependendo de vós abreviá-la. Comprometemo-nos a vos auxiliar com as

nossas preces e invocar para vós a assistência dos Espíritos bons. Vamos

pronunciar em vossa intenção a prece que se contém em O evangelho

segundo o espiritismo, referente aos Espíritos sofredores e arrependidos.

Não proferiremos a que se refere aos Espíritos maus, porquanto, desde

que vos arrependeis, que implorais a Deus, que renunciai ao mal, não

passais para nós de um Espírito infeliz, e não mau.

Feita essa prece, o Espírito continua, depois de alguns instantes de calma:

“Obrigado, meu Deus!... Oh! Obrigado! Tivestes piedade de mim...

Eis que se afastam os espectros... Não me abandoneis, enviai-me os vossos

Espíritos bons para me sustentarem... Obrigado.”

Depois desta cena o médium fica alquebrado, abatido, os membros

fatigados por algum tempo. A princípio, apenas tem vaga ideia do que se

passou, mas pouco a pouco vai se lembrando de algumas das palavras que

pronunciou sem querer, reconhecendo que não era ele quem falara.

No dia seguinte, em nova reunião, o Espírito tornou a manifestar--se, recomeçando a cena da véspera, porém, por minutos apenas, e isso

com a mesma gesticulação e a mesma expressão, embora menos violenta.

Depois, tomado de agitação febril e pelo mesmo médium, escreveu as

seguintes palavras:

“Obrigado pelas vossas preces. Já experimento sensível melhora. Foi

tal o fervor com que orei, que Deus me concedeu um momentâneo alí

vio; não obstante, terei ainda de ver as minhas vítimas... Ei-las! Ei-las!...

Vedes este sangue?” (Repetiu-se a prece da véspera. O Espírito continua

dirigindo-se ao médium.)

“Perdoai por ter-me apossado de vós. Obrigado pelo alívio que pro

porcionais aos meus sofrimentos. Perdoai o mal que vos causei, mas tenho

necessidade de me comunicar, e só vós o podeis... Obrigado! Obrigado! Já

sinto algum alívio, embora não tenha atingido o fim das provações. Logo

as minhas vítimas voltarão. Eis a punição a que fiz jus, mas meu Deus, sede

indulgente. Orai todos vós por mim, por piedade.”

Latour

Um membro da Sociedade Espírita de Paris, que tinha orado por este

infeliz, evocando-o, obteve as seguintes comunicações, em diferentes ocasiões:

UM

Fui evocado quase imediatamente depois da minha morte, porém,

não pude manifestar-me logo, de modo que muitos Espíritos levianos to

maram-me o nome e a vez. Aproveitei a estada em Bruxelas do presidente

da Sociedade de Paris e, com a permissão dos Espíritos superiores, pude

então dar a minha comunicação.

Voltarei a manifestar-me naquela Sociedade, a fim de fazer revelações

que serão um começo de reparação das minhas faltas, podendo também

servir de ensinamento a todos os criminosos que me lerem e meditarem na

exposição dos meus sofrimentos.

É somente sobre o Espírito dos homens fracos e das crianças que a

narrativa de penas infernais pode causar pavor. Ora, um grande malfeitor

não é um Espírito pusilânime, e o temor de um policial é para ele mais

real que a descrição dos tormentos do inferno. Eis por que todos os que

me lerem serão tocados pelas minhas palavras e pelos meus sofrimentos,

que não são ficções. Não há um só padre que possa dizer que viu o que

tenho visto, porque tenho assistido às torturas dos danados. Mas quando

eu disser: “Eis o que se passou após a minha morte, a morte do corpo; eis

a minha enorme decepção ao reconhecer-me vivo, ao contrário do que

supunha e tinha tomado pelo termo dos meus suplícios, quando era o

começo de outras torturas, aliás indescritíveis!”, então, mais de um ser se

deterá à borda do abismo em que ia precipitar-se, e cada um dos crimi

nosos, desviados por mim da senda criminosa, concorrerá para o resgate

das minhas faltas. É assim que do mal sai o bem e que a bondade de Deus

se manifesta por toda a parte, na Terra como no Espaço.

Foi-me permitido libertar-me do olhar das minhas vítimas, que se

transformaram nos meus carrascos, a fim de comunicar convosco. Entre

tanto, quando vos deixar tornarei a vê-las e só esta ideia me causa tal so

frimento que eu não poderia descrevê-lo. Sou feliz quando me evocam,

porque assim deixo o meu inferno por alguns instantes. Orai sempre ao

Senhor, para que Ele me liberte do olhar das minhas vítimas. Sim, oremos

juntos, a prece faz tanto bem! Estou mais aliviado; não sinto tão pesado o

fardo que me acabrunha. Vejo um clarão de esperança luzindo-me aos olhos

DOIS

o médium – Em vez de pedir a Deus para vos livrar do olhar das

vossas vítimas, eu vos convido a pedir comigo para que vos dê a força

necessária a fim de suportardes essa tortura expiatória.

lAtour – Preferia livrar-me de tais olhares. Se soubésseis quanto so

fro... O homem mais insensível acabaria se comovendo ao ver impressos na

minha fisionomia, como que a fogo, os sofrimentos de minha alma. Farei,

todavia, o que me aconselhais, pois vejo ser esse um meio de expiar mais

rapidamente as minhas faltas. É qual dolorosa operação que viesse curar

um corpo gravemente adoentado.

Ah! se os culpados da Terra pudessem ver-me! Como ficariam apa

vorados com as consequências de seus crimes, desses crimes que, ignorados

dos homens, são vistos pelos Espíritos! Como a ignorância é fatal para

tantas pessoas! Que responsabilidade assumem os que recusam instrução

às classes pobres da sociedade! Acreditam que com polícia e soldados se

previnem crimes... Que grande erro!

TRES

Os sofrimentos que padeço são terríveis, porém, desde que por mim

orais, sinto-me confortado pelos Espíritos bons, os quais me dizem para ter

esperança. Compreendo a eficácia do remédio heroico que me aconselhastes

e peço ao Senhor que me dê forças para suportar esta dura expiação, igual,

aliás, eu vo-lo garanto, ao mal que pratiquei na Terra. Não quero me des

culpar das minhas atrocidades, mas para nenhuma de minhas vítimas, salvo

alguns instantes que precediam a morte, a dor não existia, e as que tinham

terminado a provação terrena foram receber a recompensa que as aguarda

va. Para mim, entretanto, ao voltar ao mundo dos Espíritos, só houve so

frimentos infernais, excetuados os curtos instantes em que me manifestava.

A despeito dos seus quadros terroristas, os padres só têm uma pá

lida noção dos verdadeiros sofrimentos que a Justiça divina reserva aos

infratores da lei de amor e de caridade. Como insinuar a pessoas sensatas

que uma alma, isto é, uma coisa imaterial, possa sofrer ao contato do

fogo material? É absurdo, e por isso tantos e tantos criminosos se riem

desses painéis fantásticos do inferno. O mesmo, porém, não se dá quanto

à dor moral do condenado, após a morte física. Orai para que o desespe

ro não se aposse de mim.

QUATRO

Sou muito grato pela perspectiva do futuro glorioso que me fazeis

entrever, o qual alcançarei quando estiver depurado. Sofro muito, mas

parece que os sofrimentos diminuem. Não posso acreditar que, no mun

do dos Espíritos, a dor diminua pouco a pouco à força do hábito. O que

compreendo é que as vossas preces salutares me aumentaram as forças:

embora minhas dores sejam as mesmas, sofro menos, visto que a força de que

disponho é maior.

Meu pensamento se reporta à minha última existência, sobre as fal

tas que poderia ter evitado se soubesse orar. Hoje compreendo a eficácia da

prece; compreendo o valor dessas mulheres honestas e piedosas, fracas pela

carne, porém fortes pela fé; compreendo, enfim, esse mistério ignorado

pelos pretensos sábios da Terra. Prece! Palavra que por si só provoca o riso

dos Espíritos fortes. Aqui os espero no mundo espiritual e, quando o véu

que lhes encobre a verdade se romper para eles, então, por sua vez, se

prosternarão aos pés do Eterno, a quem desprezaram, e serão felizes em

se humilhar para que seus pecados e crimes sejam revelados! Só então

haverão de compreender a virtude da prece.

Orar é amar, e amar é orar! E eles amarão o Senhor e lhe dirigirão

preces de reconhecimento e de amor, regenerados pelo sofrimento. E, visto

que devem sofrer, pedirão como eu peço a força necessária ao sofrimento

e à expiação. Quando deixarem de sofrer, hão de orar ainda para agradecer

o perdão merecido por sua submissão e resignação. Oremos, irmão, para

que mais me fortaleça...

Oh! obrigado, irmão, à tua caridade, pois que estou perdoado. Deus

me liberta do olhar das minhas vítimas. Oh! meu Deus! Bendito sejais vós

por toda a eternidade, pela graça que me concedeis! Oh! meu Deus! Sinto a

enormidade dos meus crimes e curvo-me ante a vossa onipotência. Senhor!

Eu vos amo de todo o meu coração e vos suplico a graça de me permitirdes,

quando for da vossa vontade, sofrer novas provações na Terra; voltar a ela

como missionário da paz e da caridade, ensinando as crianças a pronunciar

com respeito o vosso nome. Peço-vos que me seja possível ensinar que vos

amem, a vós, que sois Pai de todas as criaturas. Oh! obrigado, meu Deus.

Sou um Espírito arrependido, e o meu arrependimento é sincero.

Eu vos amo, tanto quanto meu impuro coração pode comportá--lo, com esse pensamento que é pura emanação da vossa divindade.

Oremos, irmão, pois meu coração transborda de reconhecimento. Estou

livre, quebrei os grilhões, não sou mais um réprobo. Sou um Espírito

sofredor, mas arrependido, e gostaria que o meu exemplo pudesse conter

nos umbrais do crime todas as mãos criminosas que vejo prestes a se

levantarem. Oh! para trás, irmãos, recuai, pois as torturas que preparais

para vós mesmos são atrozes! Não acrediteis que o Senhor se deixará tão

prontamente submeter à prece dos seus filhos. São séculos de torturas

que vos esperam.

o guiA do médium – Dizes que não compreendes as palavras do

Espírito. Procura ter uma ideia da sua emoção e do seu reconhecimento

para com o Senhor, coisa que ele não acredita poder testemunhar melhor

do que tentando demover todos esses criminosos por ele vistos, mas que

tu não podes ver. Ele gostaria que as suas palavras chegassem aos ouvidos

deles; mas o que ele não te disse, porque o ignora ainda, é que lhe será

permitido iniciar missões reparadoras. Irá para junto dos que lhe foram

cúmplices, procurando inspirar-lhes arrependimento, implantando em

seus corações o germe do remorso.

Frequentemente se veem na Terra pessoas tidas por honestas se lan

çarem aos pés de um sacerdote para se acusarem de um crime. É o remorso

quem lhes dita a confissão da culpa. E se o véu que te encobre o mundo

invisível se desfizesse, verias muitas vezes o Espírito cúmplice ou instigador

de um crime, tal como o fará Jacques Latour, inspirando o remorso ao

Espírito encarnado, na ânsia de reparar a própria falta.

Teu guia protetor

Mais tarde, o médium de Bruxelas, o mesmo que recebera o primei

ro ditado, obteve o seguinte:

“Nada mais receeis de mim. Estou mais tranquilo, embora ain

da sofra. Vendo o meu arrependimento, Deus teve compaixão de mim.

Agora sofro por causa desse arrependimento, a revelar a enormidade dos

meus crimes. Bem aconselhado na vida, eu não teria jamais praticado

todo esse mal, porém, sem repressão, sem nenhum freio a tolher-me,

obedeci cegamente aos meus instintos. Se todos os homens pensassem

mais em Deus, ou se ao menos nele acreditassem, tais faltas não seriam

cometidas. A justiça dos homens, porém, é falha; por uma falta muitas

vezes passageira o homem é lançado no cárcere, que não deixa de ser um

foco de perdição e de perversão. Daí ele sai completamente corrompido

pelos maus exemplos recebidos. Mesmo que a sua índole seja boa e forte

para não se deixar corromper, ao sair da prisão vai encontrar fechadas

todas as portas, retraídas todas as mãos, indiferentes todos os corações.

Que lhe resta, pois? O desgosto, a miséria, o abandono e o desespero, se

é que o assistem boas resoluções de se corrigir. Então a miséria o leva a

extremos e ele passa também a desprezar os semelhantes, a odiá-los, já

que perde a noção do bem e do mal, por se ver repelido, a despeito das

boas intenções que o animam. Para angariar o necessário, rouba, às vezes

mata, e depois... a guilhotina!

“Meu Deus, ao ser presa novamente das minhas alucinações, sinto

que a vossa mão se estende por sobre mim; sinto que a vossa bondade me

envolve e protege. Obrigado, meu Deus! Na próxima existência empre

garei toda a minha inteligência no socorro aos infelizes que sucumbiram,

a fim de os preservar da queda. E obrigado a vós, que não desdenhais de

comunicar comigo; nada receeis, pois bem vedes que não sou mau. Quan

do pensardes em mim, não figureis o meu retrato pelo que vistes de mim,

mas o de uma alma angustiada que agradece a vossa indulgência. Adeus;

evocai-me ainda e orai a Deus por mim.”

Latour

Estudo sobrE o Espírito jAcquEs lAtour – Não se pode des

conhecer a profundeza e a alta significação de algumas das frases en

cerradas nesta comunicação. Além disso, ela oferece um dos aspectos

do mundo dos Espíritos em castigo, pairando ainda assim sobre ele a

Misericórdia divina. A alegoria mitológica das Eumênides não é tão

ridícula como parece, e os demônios, carrascos oficiais do mundo invi

sível, que as substituem perante as modernas crenças, são menos racio

nais, com seus chifres e forcados, do que estas vítimas que servem elas

próprias ao castigo do culpado.

Admitindo-se a identidade deste Espírito, talvez se estranhe tão rá

pida mudança do seu moral. É o caso da ponderação já feita em outra

ocasião, de que pode um Espírito brutalmente mau ter em si melhores

predicados do que o dominado pelo orgulho, que oculta seus vícios sob

o véu da hipocrisia. Esse pronto retorno a melhores sentimentos indica

uma natureza mais selvagem do que perversa, à qual apenas faltava boa

direção. Comparando a sua linguagem com a de outro criminoso, mencio

nado logo a seguir, sob a epígrafe castigo pela luz, é fácil concluir qual dos

dois está mais adiantado moralmente, apesar da diferença de instrução e

posição social; um obedece ao natural instinto de ferocidade, a uma espécie

de superexcitação, ao passo que o outro imprime na perpetração dos seus

crimes a calma e o sangue-frio peculiares às lentas e obstinadas combina

ções, afrontando ainda depois de morto o castigo, por orgulho. Este sofre e

não o confessa, ao passo que aquele prontamente se submete. Também por

aí podemos prever qual deles sofrerá por mais tempo.

Diz o Espírito Latour: “Sofro por causa desse arrependimento, a

revelar-me a enormidade dos meus crimes.” Aí está um pensamento pro

fundo. O Espírito só compreende a gravidade dos seus malefícios depois

que se arrepende. O arrependimento acarreta o pesar, o remorso, o sen

timento doloroso, que é a transição do mal para o bem, da doença moral

para a saúde moral. É para fugirem a isso que os Espíritos perversos se

revoltam contra a voz da consciência, quais doentes a repelirem o remé

dio que os há de curar. E assim procuram iludir-se, aturdir-se e persistir

no mal. Latour chegou a esse período em que o endurecimento acaba por

ceder. Entra-lhe o remorso pelo coração, o arrependimento o assedia e

compreende a extensão do mal que fez, vê a sua degradação e sofre dela.

Eis por que ele diz: “Sofro por causa desse arrependimento.” Na prece

dente encarnação, ele devia ter sido pior que na última, visto que, se se

tivesse arrependido como agora, a vida subsequente lhe teria sido melhor.

As resoluções que agora toma influirão sobre a sua vida terrestre no fu

turo; e a encarnação que acaba de deixar, por mais criminosa que tenha

sido, marcou para ele uma etapa de progresso. É mais que provável que

antes de iniciá-la ele fosse, na erraticidade, um desses muitos Espíritos

rebeldes, obstinados no mal.

Muitas pessoas têm perguntado qual será o proveito dessas exis

tências passadas, já que delas não nos lembramos e nem temos ideia do

que fomos ou do que fizemos. Ora, esta questão já está resolvida; se o

mal que cometemos fosse apagado da nossa memória, se não nos restasse

nenhum traço dele no coração, tal lembrança seria inútil e com ele não

nos devemos preocupar. Quanto aos vícios de que porventura não esteja

mos inteiramente despojados, nós os conhecemos pelas nossas tendências

atuais, e para elas é que devemos voltar todas as atenções. Basta saber o que

somos, sem que seja necessário saber o que fomos.

Se considerarmos as dificuldades que há na existência para a rea

bilitação do culpado, por maiores que sejam o seu arrependimento e

as reprovações de que se torna objeto, devemos louvar a Deus por ter

lançado um véu sobre o passado. Mesmo que fosse condenado a tempo

ou absolvido, os antecedentes de Latour fariam com que fosse rejeitado

pela sociedade. Quem o acolheria na intimidade, apesar do seu arrepen

dimento? Entretanto, os sentimentos que ora manifesta como Espírito

nos dão a esperança de que venha a ser na próxima encarnação um ho

mem honesto e estimado. Suponhamos que soubessem que esse homem

honesto fora Latour, e a reprovação continuaria a persegui-lo. Esse véu

sobre o passado é que lhe franqueia a porta da reabilitação, porque pode

sem receio e sem pudor ombrear-se com os mais honestos. Quantos

Espíritos não desejariam poder apagar da memória dos homens certas

fases da própria vida?

Qual a doutrina que melhor se concilia com a bondade e a Jus

tiça de Deus? Ademais, esta doutrina não é uma teoria, mas o resulta

do de observações. Não foram os espíritas que a imaginaram, porém

eles viram e observaram as diferentes situações em que muitos Espíritos

se apresentam; procuraram explicá-las, e dessa explicação saiu então a

Doutrina Espírita. Se eles a aceitaram, é porque ela resulta dos fatos, e

ainda por lhes parecer mais racional do que todas as emitidas até hoje

sobre o futuro da alma.

Não se pode recusar a estas comunicações um grande fundo mo

ral. O Espírito poderia ter sido auxiliado nesses raciocínios e, sobretu

do, na escolha das suas expressões, por outros mais adiantados; mas o

fato é que estes apenas influem na forma, e não na essência, e jamais

fazem que o Espírito inferior esteja em contradição consigo mesmo.

Poderiam, assim, ter poetizado em Latour a forma do arrependimen

to, mas não lhe insinuariam tal arrependimento contra sua vontade,

porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio. Em Latour vislumbraram o

germe dos bons sentimentos e por isso o auxiliaram a exprimir-se, con

tribuindo assim para desenvolvê-lo e implorando, ao mesmo tempo,

comiseração em seu favor.

Que há de mais digno, mais moralizador, capaz de impressionar

mais vivamente, do que o espetáculo deste grande criminoso, censuran

do-se a si mesmo o desespero e os remorsos? Desse criminoso que, per

seguido e torturado pelo olhar incessante de suas vítimas, eleva a Deus

o pensamento implorando misericórdia? Não será isso um exemplo

salutar para os culpados? Compreende-se a natureza de suas angústias;

embora simples, elas são racionais, terríveis, desprovidas de encenações

fantasmagóricas.

Poder-se-ia estranhar tão grande transformação num homem como

Latour... Mas por que havia de ser inacessível ao arrependimento? Por que

não possuir também ele a sua corda sensível? O pecador seria, pois, votado

ao mal eternamente? Não lhe chegaria, por fim, um momento em que a luz

se fizesse em sua alma? Era justamente essa hora que chegara para Latour;

e ali está precisamente o lado moral dos seus ditados; é a compreensão

que ele tem do seu estado, são os seus pesares, os seus planos de reparação,

que tornam tais mensagens eminentemente instrutivas. Que haveria de

extraordinário se Latour confessasse um arrependimento sincero antes de

morrer, se dissesse antes da morte o que veio dizer depois? Não há, quanto

a isso, inúmeros exemplos? Aos olhos de muita gente, uma regeneração

antes da morte teria passado por fraqueza; mas essa voz de além-túmulo é

a revelação daquilo mesmo que os aguarda. Latour está absolutamente com

a verdade quando afirma que o seu exemplo é mais eficaz para conduzir os

culpados ao bom caminho do que a perspectiva das chamas do inferno, e

até da guilhotina.

Por que não lhes ministrar no cárcere esses sentimentos? Isso

levaria muitos criminosos a refletirem com sensatez, do que aliás já

temos alguns exemplos. Mas como crer na eficácia das palavras de um

morto, quando se julga que tudo termina com a morte? Entretanto,

dia virá em que será conhecida esta verdade: os mortos podem vir

instruir os vivos.

Há várias outras instruções importantes a tirar dessas comunica

ções; uma delas vem confirmar o princípio de eterna Justiça, segundo

o qual não basta que o culpado se arrependa para fazer jus à classe dos

eleitos. O arrependimento é o primeiro passo para a reabilitação que

atrai a misericórdia divina; é o prelúdio do perdão, o alívio dos sofrimen

tos. Deus, porém, não absolve incondicionalmente; cumpre ao culpado

expiar e, sobretudo, reparar suas faltas. Assim o entende Latour, e para

tanto se predispõe. Se, por outro lado, compararmos este criminoso ao

de Castelnaudary, veremos ainda uma diferença nos castigos. Neste últi

mo o arrependimento foi tardio e, por conseguinte, mais longa a pena.

Além disso, essa pena era quase material, ao passo que para Latour o

sofrimento foi antes moral, porque, como acima dissemos, havia grande

diferença intelectual entre eles. Ao outro, impunha-se alguma coisa que

pudesse ferir-lhe os sentidos obliterados; mas é preciso notar que as penas

morais não serão menos pungentes para quantos estejam em condições

de compreendê-las. Podemos deduzir tudo isso dos clamores do próprio

Latour, que não são de cólera, mas antes a expressão dos remorsos, segui

dos de perto pelo arrependimento e pelo desejo de reparação, com vistas

ao seu progresso.

Espíritos endurecidos

• Lapommeray • Angèle, nulidade sobre a Terra • Um

Espírito aborrecido • A rainha de Oude • Xumène

Lapommeray

(Castigo pela luz.)

Em uma das sessões da Sociedade Espírita de Paris, em que se havia

discutido a perturbação que geralmente acompanha a morte, um Espírito,

ao qual ninguém fizera alusão e muito menos se pretendia evocar, manifes

tou-se espontaneamente por meio da seguinte comunicação, que, embora

não assinada, logo se reconheceu como sendo de um grande criminoso que

a justiça humana acabava de castigar:

“Que entendeis por perturbação? Para que essas palavras sem senti

do? Sois sonhadores e utopistas. Ignorais por completo o assunto de que

vos ocupais. Não senhores, a perturbação não existe, a não ser nos vos

sos cérebros. Estou bem morto, tão morto quanto possível e vejo claro

em mim, em derredor de mim, por toda parte!... A vida é uma lúgubre

comédia! Insensatos os que se retiram da cena antes que o pano caia. A

morte é terror, aspiração ou castigo, conforme a fraqueza ou a força dos

que a temem, afrontam ou imploram. Mas é também para todos amarga

irrisão. A luz ofusca e penetra, qual flecha aguda, a sutileza do meu ser...

Castigaram-me com as trevas do cárcere e acreditavam castigar-me ainda

com as trevas do túmulo, isto é, as sonhadas pelas superstições católicas.

Pois bem! Sois vós que padeceis da obscuridade, enquanto eu, degreda

do social, me coloco em plano superior. Eu quero ser o que sou... Forte

pelo pensamento, desdenhando dos conselhos que zumbem aos meus ou

vidos... Vejo claro... Um crime! Não passa de uma palavra! O crime existe

em toda parte. Quando executado pelas massas, glorificam-no; quando

praticado individualmente, consideram-no infâmia. Absurdo! Não quero

que me deplorem... nada peço... lutarei por mim mesmo, lutarei só contra

esta luz odiosa.”

Aquele que ontem era um homem

Esta comunicação foi analisada na assembleia seguinte, reconhe

cendo-se no próprio cinismo da linguagem um grande ensinamento,

depreendendo-se na situação desse infeliz uma nova fase do castigo que

espera o culpado. Efetivamente, enquanto alguns são imersos em trevas

ou num absoluto insulamento, outros sofrem por longos anos as angústias

da extrema hora ou se acreditam ainda encarnados. Para este, a luz brilha

e o Espírito goza plenamente das suas faculdades, sabendo perfeitamente

que está morto e não se lastimando, antes repelindo qualquer assistência

e afrontando ainda as leis humanas e divinas. Significa dizer que escapará

à punição? De modo algum; é que a Justiça de Deus se cumpre de todas

as formas, e o que causa alegria a uns, é tormento para outros. A luz faz

o suplício desse Espírito, e é ele próprio que o confessa, a despeito do seu

orgulho, quando diz que lutará por si mesmo, só, contra essa luz odiosa. E

ainda nesta frase: “a luz ofusca e penetra, qual flecha aguda, a sutileza do

meu ser”. Essas palavras: sutileza do meu ser são características; reconhece,

assim, que o seu corpo é fluídico e penetrável à luz, à qual não pode esca

par, e essa luz o atravessa qual se fora aguda flecha.

Este Espírito aqui está colocado entre os endurecidos, em razão do

muito tempo que levou antes de manifestar arrependimento. É um exem

plo a mais para provar que o progresso moral nem sempre acompanha o

progresso intelectual. Entretanto, pouco a pouco se foi corrigindo, dan

do mais tarde comunicações instrutivas e sensatas. Hoje, ele poderá ser

colocado entre os Espíritos arrependidos. Convidados a emitirem a sua

apreciação a respeito, os nossos guias espirituais ditaram as três seguintes

comunicações, dignas, aliás, da mais séria atenção:

UM

Sob o ponto de vista das existências, os Espíritos na erraticidade

podem considerar-se inativos e na expectativa; mas, ainda assim, podem

expiar, desde que o orgulho e a tenacidade formidável dos seus erros não os

tolham no momento da progressiva ascensão. Tivestes disso um exemplo

terrível na última comunicação desse criminoso impenitente, debatendo--se contra a Justiça divina que o alcança depois da dos homens. Neste caso

a expiação, ou melhor, o sofrimento fatal que os oprime, em vez de lhes

ser útil, inculcando-lhes a profunda significação de suas penas, exacerba-os

na rebeldia e dá origem às murmurações que a Escritura, em sua poética

linguagem, denomina ranger de dentes. Imagem por excelência é o sinal do

sofredor abatido, porém insubmisso, perdido na própria dor, cuja revolta

é ainda bastante forte para recusar a verdade do castigo e da recompensa.

Os grandes erros perduram no mundo espiritual quase sempre,

assim como as consciências grandemente criminosas. Lutar, apesar de

tudo, e desafiar o infinito, pode comparar-se à cegueira do homem que,

contemplando as estrelas, as tomasse por arabescos de um teto, tal como

acreditavam os gauleses do tempo de Alexandre.82 O infinito moral exis

te! E miserável e mesquinho é quem, a pretexto de continuar as lutas e

imposturas abjetas da Terra, não vê mais longe no outro mundo do que

neste. Para esse a cegueira, o desprezo alheio, o egoístico sentimento da

personalidade são empecilhos ao seu progresso. Homem! É bem verdade

que existe um acordo secreto entre a imortalidade de um nome puro,

legado à Terra, e a imortalidade realmente conservada pelos Espíritos nas

suas sucessivas provações.

Lamennais

DOIS

Precipitar um homem nas trevas ou em ondas de luz não dará o

mesmo resultado? Tanto num caso como em outro, esse homem nada vê

do que o cerca e habituar-se-à mesmo mais facilmente do que a monótona

claridade elétrica, na qual pode estar submerso. Assim, o Espírito que se

manifestou na última sessão exprime bem a verdade quando diz: “Oh! eu

saberei libertar-me dessa odiosa luz.” De fato, essa luz é tanto mais terrível,

horrorosa, quanto ela o penetra completamente e lhe devassa os pensamen

tos mais íntimos. Aí está uma das circunstâncias mais rudes de tal castigo

espiritual. O Espírito se encontra, por assim dizer, enclausurado na casa

de vidro pedida por Sócrates. Disso decorre ainda um ensinamento, visto

como o que seria alegria e consolo para o sábio, transforma-se em punição

infamante e contínua para o perverso, para o criminoso, para o parricida,

sobressaltado em sua própria personalidade.

Meus filhos, calculai o sofrimento, o terror daquele que se comprazia

em toda uma existência sinistra a combinar, a maquinar os mais hediondos

crimes no seu foro íntimo, no qual se refugiava qual um animal na sua ca

verna, e que hoje, expulso desse covil íntimo, não pode fugir à investigação

dos seus contemporâneos. Agora que lhe foi arrancada a máscara da impas

sibilidade, todos os pensamentos se estampam na sua fronte! Sim, e além

de tudo nenhum repouso, nada de asilo para esse terrível criminoso. Todo

pensamento mau — e só Deus sabe se sua alma o exprime — se lhe trai

por fora e por dentro, como que impelido por choque elétrico irresistível.

Procura esquivar-se à multidão, mas a luz odiosa o devassa continuamente.

Quer fugir, e desanda numa carreira infrene, desesperada, através dos es

paços incomensuráveis, e por toda a parte a luz, olhares que o observam! E

corre, e voa novamente em busca da sombra, em busca da noite, e sombra

e noite não mais existem para ele! Chama pela morte... mas a morte não é

mais que palavra sem sentido. E o infeliz foge sempre, a caminho da loucura

espiritual — castigo tremendo, dor horrível, a debater-se consigo para se

desembaraçar de si mesmo, porque tal é a lei suprema para além da Terra,

isto é, o culpado busca por si mesmo o seu mais inexorável castigo.

Quanto tempo durará esse estado? Até o momento em que a sua

vontade, por fim vencida, se curve constrangida pelo remorso, humilhada

a fronte altiva ante os Espíritos de justiça e ante as suas vítimas apazigua

das. Notai, pois, a lógica profunda das leis imutáveis; com isso o Espírito

realizará o que escrevia nessa altiva comunicação, tão clara, tão lúcida e tão

tristemente egoística, comunicação que ele vos deu na sexta-feira passada,

redigindo-a por um ato da sua própria vontade.

Erasto

TRES

A justiça humana não faz distinção de individualidades, quanto aos se

res que castiga. Medindo o crime pelo próprio crime, fere indistintamente os

infratores, e a mesma pena atinge o culpado sem distinção de sexo, qualquer

que seja a sua educação. A Justiça divina, no entanto, procede de outro modo;

suas punições correspondem ao grau de progresso dos seres aos quais elas são apli

cadas. A igualdade de crimes não implica igualdade entre os indivíduos; dois

homens culpados, sob o mesmo ponto de vista, podem estar separados pela

falta de semelhança das provações, imergindo um deles na opacidade intelec

tiva dos primeiros círculos iniciadores, enquanto o outro dispõe, por haver

ultrapassado esses círculos, da lucidez que isenta o Espírito da perturbação.

Nesse caso, não são mais as trevas a puni-lo, mas a agudeza da luz espiritual

que vara a inteligência terrena e lhe faz sentir as dores de uma chaga viva.

Os seres desencarnados que persistem na representação material dos

seus crimes sofrem o choque da eletricidade física: padecem pelos sentidos.

E aqueles que pelo Espírito já estejam desmaterializados sofrem uma dor

muito superior que lhes aniquila, por assim dizer, em seus amargores, a lem

brança dos fatos, subsistindo tão só a noção de suas respectivas causas. As

sim, pode o homem, a despeito da sua criminalidade, possuir um progresso

interno e elevar-se acima da espessa atmosfera das baixas camadas, embora

tivesse, sob o jugo das paixões, procedido como um bruto. A ausência de

ponderação e o desequilíbrio entre o progresso moral e o intelectual produ

zem essas anomalias tão frequentes em épocas de materialismo e transição.

Por conseguinte, a luz que tortura o Espírito culpado é precisamen

te o raio espiritual inundando de claridades os secretos recessos do seu

orgulho e descobrindo-lhe a vacuidade do seu ser fragmentário. Aí estão

os primeiros sintomas, as primeiras angústias da agonia espiritual, e que

prenunciam a dissolução dos elementos intelectuais e materiais que com

põem a primitiva dualidade humana, e que devem desaparecer na unidade

grandiosa do ser acabado.

Jean Reynaud

Obtidas simultaneamente, estas três comunicações se complementam reciprocamen

te. Apresentam o castigo sob um novo prisma, eminentemente filosófico e racional.

É provável que os Espíritos, querendo tratar do assunto de acordo com um exemplo,

tivessem provocado, com esse objetivo, a manifestação do Espírito culpado.

A par deste quadro vivo, baseado sobre um fato, eis, para estabelecer

um paralelo, o painel que um pregador de Montreuil-sur-Mer traçou sobre

o inferno, por ocasião da quaresma de 1864:

“O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra, e

se acaso um dos corpos que lá se queimam, sem se consumirem, fosse lança

do ao nosso planeta, empestá-lo-ia de um extremo a outro! O inferno é vasta

e sombria caverna, eriçada de agudas pontas de lâminas de espadas aceradas,

de lâminas de navalhas afiadíssimas, nas quais são precipitadas as almas dos

condenados.” (Veja-se a Revista espírita do mês de julho de 1864.)

Angèle, nulidade sobre a Terra

(Bordeaux, 1862.)

Com este nome, um Espírito se apresentou espontaneamente ao médium.

1. Arrependei-vos das vossas faltas? – R. Não.

1-a. Então por que me procurais? – R. Para experimentar.

1-b. Porventura não sois feliz? – R. Não.

1-c. Sofreis? – R. Não.

1-d. Que vos falta, pois? – R. A paz.

Alguns Espíritos só consideram sofrimento o que lhes lembra suas dores físicas,

embora admitam ser intolerável o seu estado moral.

2. Como pode faltar-vos a paz na vida espiritual? – R. Uma mágoa

do passado.

2-a. A mágoa do passado é remorso. Estareis, porventura, arrependida? – R. Não; é o temor do futuro que me preocupa.

2-b. Que temeis? – R. O desconhecido.

3. Estais disposta a dizer-me o que fizestes na última encarnação? Isto

talvez me auxilie na vossa orientação. – R. Nada.

4. Qual a vossa posição social? – R. Mediana.

4-a. Fostes casada? – R. Sim; fui esposa e mãe.

4-b. E cumpristes com zelo os deveres decorrentes desse duplo encargo? – R. Não; meu marido e meus filhos me entediavam.

5. E de que modo preenchestes a existência? – R. Divertindo-me quando

solteira e enfadando-me como mulher.

5-a. Quais eram as vossas ocupações? – R. Nenhuma.

5-b. E quem cuidava da vossa casa? – R. A empregada.

6. Não se deve atribuir a essa inércia a causa dos vossos pesares e temores? – R. Talvez tenhais razão.

6-a. Não basta, porém, concordar. Quereis reparar a inutilidade dessa

existência e auxiliar os Espíritos sofredores que vos cercam? – R. Como?

6-b. Ajudando-os a se melhorarem pelos vossos conselhos e pelas vossas

preces. – R. Eu não sei orar.

6-c. Oraremos juntos e aprendereis. Sim? – R. Não.

6-d. Mas por quê? – R. Cansa muito.

instruçõEs do guiA do médium – Damos-te instrução, facultan

do-te o conhecimento prático dos diversos estados de sofrimento, bem

como da situação dos Espíritos condenados à expiação em consequência

das suas faltas.

Angèle era uma dessas criaturas sem iniciativa, cuja existência é tão

inútil aos outros quanto a si mesma. Amando apenas o prazer, incapaz

de procurar no estudo, no cumprimento dos deveres domésticos e sociais

essas satisfações do coração, que fazem o encanto da vida, porque são de to

das as épocas, empregou a juventude tão só em frívolas distrações; e quan

do deveres mais sérios se lhe impuseram, o mundo já se lhe havia feito um

vácuo, porque vazio também estava o seu coração. Sem defeitos sérios, mas

também sem qualidades, ela fez a infelicidade do marido, comprometendo

pela incúria e desleixo o futuro dos próprios filhos. Deturpou-lhes o cora

ção e os sentimentos, quer pelo seu exemplo, quer pelo abandono em que

os deixou, entregues a criados que ela nem sequer se dava ao trabalho de

escolher. A sua existência foi improdutiva e, por isso mesmo, culposa, visto

que o mal procede da negligência do bem. Ficai, pois, bem certos de que não

basta abster-vos de faltas: é preciso praticar as virtudes que lhes são opostas.

Estudai os ensinamentos do Senhor; meditai-os e compenetrai-vos

de que eles, se vos fazem estacar na senda do mal, também vos impõem

voltar atrás, a fim de tomardes o caminho oposto que conduz ao bem. O

mal é a antítese do bem; logo, quem quiser evitar o primeiro deve seguir

o segundo, sem o qual a vida se torna nula, mortas as suas obras, e Deus,

nosso Pai, não é o Deus dos mortos, mas dos vivos.

P. Posso saber qual teria sido a penúltima existência de Angèle? A última

deveria ter sido consequência dela. – R. Ela viveu na indolência beatífica, na

inutilidade da vida monástica. Preguiçosa e egoísta por vocação, quis experi

mentar a vida doméstica, mas seu Espírito pouco progrediu. Sempre repeliu

a voz íntima que lhe apontava o perigo; e, como a propensão era suave, pre

feriu abandonar-se a ela, a fazer um esforço para sustá-la no começo. Hoje,

ainda compreende o perigo dessa neutralidade, mas não se sente com forças

para tentar o menor esforço para superá-la. Orai por ela, procurai despertá-la

e fazer que seus olhos se abram à luz. É um dever, e dever algum se despreza.

O homem foi criado para a atividade; a atividade do Espírito é da

sua própria essência; já a atividade do corpo é uma necessidade. Cumpri,

portanto, as prescrições da existência, como Espírito votado à paz eterna. O

vosso corpo, destinado ao serviço do Espírito, não passa de uma máquina

submissa à inteligência; trabalhai, cultivai, pois, a inteligência, para que dê

salutar impulso ao instrumento que deve auxiliá-lo no cumprimento de sua

missão. Não lhe concedais tréguas nem repouso, e lembrai-vos de que essa

paz a que aspirais só vos será concedida pelo trabalho. Assim, quanto mais

protelardes o trabalho, tanto mais durará para vós a ansiedade de espera.

Trabalhai, trabalhai incessantemente; cumpri todos os deveres sem

exceção, com zelo, coragem e perseverança. A fé vos sustentará. Todo aque

le que desempenha conscientemente o papel mais ingrato e vil da nossa

sociedade é cem vezes mais elevado aos olhos do Altíssimo do que aquele

que, impondo esse papel aos outros, despreza o seu. Tudo é degrau que dá

acesso ao céu: não quebreis a lápide sob os pés e contai com o auxílio de

amigos que vos estendem a mão, verdadeiros sustentáculos de quantos vão

haurir suas forças na crença do Senhor.

Monod

Um Espírito aborrecido

(Bordeaux, 1862.)

Este Espírito apresenta-se espontaneamente ao médium, reclaman

do preces.

1. O que vos leva a pedir preces? – R. Estou farto de vagar sem objetivo.

324

Espíritos endurecidos

1-a. Estais há muito tempo em tal posição? – R. Há mais ou

menos 180 anos.

1-b. Que fizestes na Terra? – R. Nada de bom.

2. Qual a vossa posição entre os Espíritos? – R. Estou entre os entediados.

2-a. Mas isso não forma categoria... – R. Entre nós tudo forma

categoria. Cada sensação encontra suas semelhanças ou suas simpatias

que se reúnem.

3. Por que permanecestes tanto tempo estacionário, sem que fôsseis con

denado a sofrer? – R. É que eu estava condenado ao tédio, que entre nós é

um sofrimento. Tudo o que não é alegria, é dor.

3-a. Fostes, pois, forçado à erraticidade contra a vontade? – R. São coi

sas demasiado sutis para a vossa inteligência material.

3-b. Procurai explicar-me essas coisas; talvez comeceis a beneficiar-vos a

vós mesmos. – R. Eu não conseguiria, por faltar-me termos de comparação.

Uma vida sem proveito na Terra lega ao Espírito que a encarnou a mesma

coisa que o fogo deixa ao papel que consumiu: fagulhas, que lembram às

cinzas ainda compactas a sua proveniência, a causa do seu nascimento, ou,

se o quiseres, da destruição do papel. Essas fagulhas são a lembrança dos

laços terrestres que vinculam o Espírito, até que este disperse as cinzas do

seu corpo. Só então, essência eterizada, o Espírito tem o conhecimento de

si mesmo, desejando o progresso.

4. Qual poderia ter sido a causa desse aborrecimento de que vos quei

xais? – R. Consequência da existência. O tédio é filho da inação. Como eu

não soube utilizar o longo tempo de encarnação, as consequências vieram

refletir-se neste mundo.

5. Os Espíritos errantes que, como vós, foram tomados de tédio não po

dem libertar-se de tal situação, desde que o queiram? – R. Não, nem sempre,

porque o tédio lhes paralisa a vontade. Sofrem as consequências da vida

que levaram; foram inúteis, não tiveram nenhuma iniciativa e assim não

encontram entre si concurso algum. Entregues a si mesmos, nesse estado

permanecem, até que o cansaço, decorrente de tal neutralidade, os agite

em sentido contrário, momento no qual a sua menor vontade vai encon

trar apoio e bons conselhos e secundar-lhes o esforço e a perseverança.

6. Podeis dizer-me algo da vossa existência terrena? – R. Oh! Deveis

compreender que pouco me é dado dizer. O tédio, a inutilidade e a inação

provêm da preguiça que, por sua vez, é mãe da ignorância.

7. Vossas existências anteriores não aproveitaram ao vosso progresso? – R.

Sim, todas, mas muito pouco, visto serem reflexos umas das outras. O pro

gresso existe sempre, porém tão insensível que não chegamos a apreciá-lo.

8. Enquanto esperais uma nova encarnação, poderíeis comparecer mais

algumas vezes entre nós? – R. Evocai-me para me obrigardes a vir, pois com

isso me prestareis um benefício.

9. Podeis dizer-nos por que a vossa caligrafia muda com tanta frequên

cia? – R. Porque questionas muito, e isso me fatiga, quando, na verdade,

preciso de auxílio.

o guiA do médium – É o trabalho intelectual que o fatiga, obrigan

do-nos a prestar-lhe o nosso concurso, a fim de que possa responder às tuas

perguntas. É um ocioso no mundo espiritual, assim como o foi na Terra.

Trouxemo-lo a ti para que tentasses arrancá-lo dessa apatia, desse tédio que

constitui verdadeiro sofrimento, às vezes mais doloroso que os sofrimentos

agudos, por se poder prolongar indefinidamente. Imagina a perspectiva de

um tédio sem-fim. Na maior parte das vezes são os Espíritos dessa catego

ria que buscam as vidas terrestres apenas como passatempo e para interromper

a insuportável monotonia da vida espiritual. É por isso que aí chegam

tantas vezes sem resoluções definidas para o bem, obrigados a recomeçarem

sucessivamente, até atingirem a compreensão do verdadeiro progresso.

A rainha de Oude

(Falecida em 1858, na França.)

1. Quais as vossas sensações ao deixardes o mundo terrestre? – R. É difí

cil dizer, pois ainda me encontro perturbada.

1-a. Sois feliz? – R. Tenho saudades da vida... não sei... experimento

acerba dor, da qual a vida me libertaria... quisera que o corpo se levantasse

do sepulcro.

2. Lamentais o fato de ter sido sepultada entre cristãos, e não no vosso

país? – R. Sim, a terra indiana pesaria menos sobre o meu corpo.

2-a. Que pensais das honras fúnebres prestadas aos vossos despojos? – R.

Não foram grande coisa, pois eu era rainha e nem todos se curvaram diante

de mim... Deixai-me... forçam-me a falar... não quero que saibais o que ora

sou... Ficai sabendo que eu era rainha...

3. Respeitamos a vossa hierarquia e, se insistimos para que nos respon

dais, é com o propósito de nos instruirmos. Acreditais que vosso filho recupere

mais tarde os Estados de seu pai? – R. Certamente. Meu sangue reinará, visto

que é digno disso.

3-a. Atribuís a essa reintegração de vosso filho a mesma importância

que dáveis quando encarnada? – R. Meu sangue não pode misturar-se

com o do povo.

4. Não foi possível consignar na vossa certidão de óbito o lugar do vosso

nascimento; podereis no-lo dizer agora? – R. Sou oriunda dos mais nobres

dos sangues da Índia. Penso que nasci em Delhi.

5. Vós, que vivestes nos esplendores do luxo, cercada de honras, que

pensais hoje de tudo isso? – R. Que tenho direito.

5-a. A vossa hierarquia terrestre concorreu para que tivésseis outra mais

elevada nesse mundo em que ora estais? – R. Continuo a ser rainha... que me

enviem escravas para me servirem!... Mas... não sei... parece-me que pouco

se preocupam comigo aqui... e contudo eu... sou sempre a mesma.

6. Professáveis a religião muçulmana ou a hindu? – R. Muçulmana;

eu, porém, era bastante poderosa para que me ocupasse de Deus.

6-a. Do ponto de vista da felicidade humana, quais as diferenças que

assinalais entre a vossa religião e o Cristianismo? – R. A religião cristã é

absurda; diz que todos somos irmãos.

6-b. Qual a vossa opinião a respeito de Maomé? – R. Não era filho de rei.

6-c. Acreditais que ele houvesse tido uma missão divina? – R. Que

me importa?

6-d. Qual a vossa opinião sobre o Cristo? – R. O filho do carpinteiro

não é digno de ocupar meus pensamentos.

7. Que pensais do uso pelo qual as mulheres muçulmanas se subtraem

aos olhares masculinos? – R. Penso que as mulheres nasceram para dominar:

eu era mulher.

7-a. Alguma vez invejastes a liberdade de que gozam as europeias? – R.

Não. Que poderia importar-me tal liberdade? Servem-nas, acaso, de joelhos?

8. Lembrai-vos de ter tido outras existências na Terra, anteriores a esta

que acabais de deixar? – R. Devo ter sido sempre rainha.

9. Por que atendestes tão prontamente ao nosso apelo? – R. Eu não que

ria vir, mas forçaram-me. Acaso pensarás que eu me dignaria responder-te?

Que és tu a meu lado?

9-a. E quem vos forçou a vir? – R. Nem eu mesma sei... posto que não

deva existir ninguém mais poderoso do que eu.

10. Sob que forma vos apresentais aqui? – R. Sou sempre rainha...

Pensas, porventura, que eu tenha deixado de o ser? És pouco respeitoso...

fica sabendo que não é desse modo que se fala a rainhas.

11. Se nos fosse possível enxergar-vos, nós vos veríamos com os vossos

ornatos e pedrarias? – R. Certamente.

11-a. E como se explica o fato de o vosso Espírito conservar tais aparatos,

sobretudo os ornamentos, visto que já se despojou de tudo isso? – R. É que eles

não me deixaram. Sou tão bela quanto era e não compreendo o juízo que

fazeis de mim! Se bem que nunca me vistes, é verdade.

12. Qual a impressão que vos causa o fato de vos achardes entre nós? – R. Se dependesse de mim, eu não estaria aqui. Tratam-me com tão

pouco respeito...

são luís – Deixai-a, pobre perturbada. Tende compaixão da sua

cegueira. Tomara que ela vos sirva de exemplo. Não sabeis quanto padece

do seu orgulho.

Evocando esta grandeza decaída, agora no túmulo, não esperávamos resposta de

tão grande profundidade, considerando-se o gênero da educação feminina naque

le país. Julgávamos, porém, encontrar nesse Espírito, não diremos filosofia, mas

pelo menos uma noção mais aproximada da realidade e ideias mais sensatas sobre

as vaidades e grandezas terrenas. Longe disso, vimos que o Espírito conservava

todos os preconceitos terrestres na plenitude da sua força; que o orgulho nada

perdeu das suas ilusões; que lutava contra a própria fraqueza e, finalmente, que

muito devia sofrer pela sua impotência.

Xumène

(Bordeaux, 1862.)

Sob este nome, um Espírito se apresenta espontaneamente ao médium, habituado

a este gênero de manifestações, pois sua missão parece ser a de assistir os Espíritos

inferiores que o seu guia espiritual lhe conduz, no duplo propósito da sua própria

instrução e do progresso daqueles.

P. Quem sois? Este nome é de homem ou de mulher? – R. De homem, e

tão infeliz quanto possível. Sofro todos os tormentos do inferno.

P. Mas se o inferno não existe, como podeis sofrer-lhes as torturas? – R.

Pergunta inútil.

P. Compreendo, mas outros precisam de explicações. – R. Isso pouco

me incomoda.

P. O egoísmo não será uma das causas do vosso sofrimento? – R. Talvez.

P. Se quiserdes ser aliviado, começai repudiando as más tendências. – R.

Não te incomodes com o que não é da tua conta; começa orando por mim,

como fazes com os outros, e depois veremos.

P. Se não me auxiliardes com o vosso arrependimento, a prece será de pou

ca eficácia. – R. Mas falando, em vez de orares, menos ainda me adiantarás.

P. Então desejais adiantar-vos? – R. Talvez... não sei. Vejamos o essen

cial, isto é, se a prece alivia os sofrimentos.

P. Unamos então os nossos pensamentos com a firme vontade de obter o

vosso alívio. – R. Tudo bem.

P. [Depois da prece do médium] – Estais satisfeito? – R. Não

como gostaria.

P. Mas o remédio, aplicado pela primeira vez, não pode curar instanta

neamente um mal antigo. – R. É possível...

P. Quereis voltar? – R. Se me chamares.

o guiA dA médium – “Minha filha, terás muito trabalho com este

Espírito endurecido; entretanto, quase que não há mérito em salvar os que

não estão perdidos. Coragem, perseverança, e acabarás triunfando. Não há

culpados que não se possam regenerar por meio da persuasão e do exem

plo, uma vez que os Espíritos mais perversos terminam por corrigir-se com

o tempo. Mesmo que nem sempre se consiga regenerá-los prontamente,

nosso trabalho não se perde. As ideias que lhes transmitimos acabam por

levá-los à reflexão. São como sementes que, cedo ou tarde, haverão de fru

tificar. Não se arrebenta a rocha com a primeira marretada.

“Isto que te digo pode aplicar-se também aos encarnados e tu deves

compreender por que o Espiritismo, mesmo entre os adeptos mais crentes,

não faz imediatamente homens perfeitos. A crença é o primeiro passo; a fé

vem em seguida e a transformação acabará por operar-se. Entretanto, para

que assim suceda, muitos terão que se retemperar no mundo espiritual.”

Entre os Espíritos endurecidos, não há só perversos e maus, sendo grande o nú

mero dos que, sem fazer o mal, estacionam por orgulho, indiferença ou apatia.

Nem por isso estes são menos infelizes, pois tanto mais os aflige a inércia quanto

mais se veem privados das distrações do mundo. A perspectiva do infinito torna

intolerável a posição deles, porém não têm nem força nem vontade para romper

com essa situação. Referimo-nos aos que, no curso das encarnações, levam uma

existência ociosa, inútil a si e ao próximo, acabando muita vez no suicídio, sem

motivos sérios, por desgosto da vida.

Em regra, tais Espíritos são mais difíceis de serem reconduzidos ao bem do que

os francamente maus, visto como estes ao menos dispõem de energia e, uma vez

doutrinados, votam-se ao bem com o mesmo ardor que lhes inspirava o mal. Mui

tas encarnações, sem dúvida, são necessárias aos outros, a fim de que progridam

sensivelmente. Então, pouco a pouco, vencidos pelo tédio, como os outros o serão

pelo sofrimento, procurarão, para se distraírem, uma ocupação qualquer, que mais

tarde venha transformar-se em necessidade.

Expiações terrestres

Marcel, o menino do no 4

Havia num hospital do interior um menino de 8 a 10 anos, cujo es

tado era difícil descrever. Designavam-no pelo no 4. Totalmente contorci

do, seja pela deformidade congênita, seja pela doença, suas pernas, de tão

arqueadas, tocavam-lhe o pescoço, e sua magreza era tal que se percebia

os ossos sob a pele. O corpo era uma chaga só e terríveis os sofrimentos.

Pertencia a uma família israelita de parcos recursos, e sua moléstia já du

rava quatro anos. Não obstante, o enfermo demonstrava uma inteligência

notável, além de candura, paciência e resignação edificantes. O médico

que o assistia, cheio de compaixão pelo pobre quase abandonado, visto

que os parentes pouco o visitavam, tomou por ele certo interesse. Gostava

de conversar com ele, encantado com a sua razão precoce. Não só o trata

va com bondade, como lia para ele quando as ocupações lho permitiam,

admirando-se da justeza do seu critério na apreciação de coisas que, em

sua opinião, pareciam estar acima do discernimento do doente, conside

rando-se a sua pouca idade.

Um dia o menino lhe disse: “Doutor, tenha a bondade de me

dar mais uma vez aquelas pílulas ultimamente receitadas.” “Para quê?”,

replicou-lhe o médico, “se já te ministrei o suficiente, e maior quanti

dade pode fazer-te mal.” “É que eu sofro tanto, que dificilmente posso

orar a Deus para que me dê forças, e não quero incomodar os outros

enfermos que estão ao meu lado. Essas pílulas fazem-me dormir e, ao

menos quando durmo, não incomodo a ninguém.”

Bastam estas palavras para demonstrar a elevação dessa alma en

cerrada num corpo disforme. Onde essa criança teria colhido tais sen

timentos? Certamente não foi no meio em que se educou; além disso,

na idade em que começou a sofrer, não possuía sequer o raciocínio. Tais

sentimentos lhe eram inatos. Mas então com tão nobres instintos, por

que Deus o condenava a uma vida tão miserável e dolorosa, admitindo-se

que tivesse criado a alma ao mesmo tempo que o corpo, instrumento de

tão cruéis sofrimentos? É preciso negar a bondade de Deus, ou admitir a

anterioridade da causa, isto é, a preexistência da alma e a pluralidade das

existências. Os últimos pensamentos desta criança, ao desencarnar, fo

ram para Deus e para o médico caridoso que dela se condoeu. Decorrido

algum tempo, o seu Espírito foi evocado na Sociedade de Paris, onde deu

a seguinte comunicação (1863):

“A vosso chamado, vim fazer que a minha voz se estenda para além

deste círculo, tocando todos os corações. Que seu eco se faça ouvir na

solidão, lembrando-lhes que as agonias da Terra preparam as alegrias do

céu; que o martírio não é mais do que a casca de um fruto delicioso, dando

coragem e resignação. Essa voz lhes dirá que, sobre o catre da miséria, estão

os enviados do Senhor, cuja missão consiste na exemplificação de que não

há dor insuperável, desde que tenhamos o auxílio do Todo-Poderoso e dos

Espíritos bons. Essa voz lhes fará ainda ouvir lamentações de mistura com

preces, para que lhes compreendam a harmonia piedosa, tão diferente da

de coros de lamentações mescladas com blasfêmias.

“Um dos vossos Espíritos bons, grande apóstolo do Espiritismo,

cedeu-me o seu lugar por esta noite.83 Por minha vez, também me

compete dizer algo sobre o progresso da vossa Doutrina, que deve au

xiliar em sua missão os que encarnam entre vós para aprender a sofrer.

83 Nota de Allan Kardec: Santo Agostinho, pelo médium com o qual habitualmente se comunica na

Sociedade de Paris.

O Espiritismo será a pedra de toque; os padecentes terão o exemplo e

a palavra, e então as imprecações se transformarão em gritos de alegria

e lágrimas de contentamento.”

P. Pelo que afirmais, parece que os vossos sofrimentos não eram expiações

de faltas anteriores.

R. Não seriam uma expiação direta, mas asseguro-vos que todo so

frimento tem uma causa justa. Aquele que conheceste tão miserável foi

belo, grande, rico e invejado. Tive bajuladores e cortesãos, fui frívolo e

orgulhoso. Outrora fui bem culpado; reneguei Deus e prejudiquei o pró

ximo, mas expiei cruelmente, primeiro no mundo espiritual e depois na

Terra. Os meus sofrimentos de alguns anos apenas, nesta última encarna

ção, já os havia suportado anteriormente por toda uma existência que se

prolongou até a velhice. Por meu arrependimento, encontrei graça diante

do Senhor, o qual me confiou muitas missões, inclusive a última, que bem

conheceis. E fui eu quem as solicitou, para terminar a minha depuração.

Adeus, amigos, voltarei algumas vezes. A minha missão é de conso

lar, e não de instruir. Há, porém, aqui muitas pessoas cujas feridas jazem

ocultas, e essas sentirão prazer com a minha presença.

Marcel

instrução do guiA do médium – Pobrezinho sofredor, definhado,

ulceroso e disforme! Quantos gemidos exalou nesse asilo de misérias e lágri

mas! E como era resignado... sua alma já entrevia o termo dos sofrimentos,

apesar da tenra idade! No além-túmulo pressentia a recompensa de tantos

gemidos abafados, e esperava! E como orava também por aqueles que não

tinham resignação no sofrimento, pelos que trocavam preces por blasfêmias!

Sua agonia foi lenta, mas a hora da passagem nada apresentou de

terrível. Por certo os membros convulsos se contorciam, oferecendo aos

assistentes o espetáculo de um corpo disforme a revoltar-se contra a morte,

nessa lei da carne que a todo o custo quer viver. Mas um anjo bom pairava

acima do leito do moribundo, cicatrizando-lhe o coração. Depois, esse

anjo arrebatou nas suas asas brancas essa alma tão bela, a escapar-se de tão

horripilante corpo, e foram estas as palavras pronunciadas: “Glória a vós,

Senhor meu Deus!” E a alma subiu ao Todo-Poderoso, feliz, e exclamou:

“Eis-me aqui, Senhor; destes-me por missão exemplificar o sofrimento;

terei suportado dignamente a provação?”

Hoje, o Espírito da pobre criança recobrou as suas proporções habi

tuais, paira no espaço, vai do fraco ao humilde, e a todos diz: “Esperança e

coragem.” Liberto de todas as impurezas da matéria, ele aí está junto de vós,

a falar-vos, a dizer-vos não mais com essa voz fraca e lastimosa, porém agora

firme: “Todos que me observaram, viram que a criança não murmurava; hau

riam nesse exemplo a calma para os seus males e seus corações se tonificaram

na doce confiança em Deus. Eis o fim da minha curta passagem na Terra.”

Santo Agostinho

Szymel Slizgol

Era um pobre israelita de Vilna, falecido em maio de 1865. Du

rante 30 anos mendigou com uma bandeja à mão. Por toda a cidade

era bem conhecida aquela voz que dizia: “Lembrai-vos dos pobres, das

viúvas e dos órfãos!” Durante essa longa peregrinação, Slizgol havia jun

tado 90.000 rublos, não guardando para si um só centavo. Aliviava e

curava os enfermos; pagava o ensino de crianças pobres; distribuía aos

necessitados a comida que lhe davam. A noite era destinada ao preparo

do rapé, que vendia a fim de prover às suas necessidades, destinando aos

pobres o que sobrava. Viveu só, no mundo, e, no entanto, o seu enterro

foi acompanhado de grande parte da população de Vilna, cujos arma

zéns cerraram as portas.

(Sociedade Espírita de Paris, 15 de junho de 1865.)

EvocAção – Felicíssimo, chegando, enfim, à plenitude do que mais

ambicionava e que me custou muito caro. Aqui estou, entre vós, desde o iní

cio da noite. Muito grato pelo interesse que vos desperta o Espírito do pobre

mendigo que, com satisfação, vai procurar responder às vossas perguntas.

P. Uma carta de Vilna nos deu conhecimento das particularidades mais

notáveis da vossa existência. Movido pela simpatia que elas nos inspiram, sur

giu o desejo de nos comunicar convosco. Agradecemos a vossa presença e, uma

vez que quereis responder-nos, gostaríamos desde já de vos assegurar que nos

sentiremos muito felizes se, para a nossa instrução, pudermos conhecer a vossa

posição espiritual, bem como as causas que determinaram o gênero de vida que

tivestes na última encarnação.

R. Em primeiro lugar, concedei ao meu Espírito, cônscio da sua

verdadeira posição, o favor de vos transmitir a sua opinião, com respeito

a um pensamento que vos ocorreu quanto à minha personalidade.

E reclamo previamente os vossos conselhos, para o caso de ser falsa

essa minha opinião.

Parece-vos singular que as manifestações públicas tomassem tanto

vulto, para homenagear a memória do homem insignificante que soube

por seu Espírito caridoso atrair tal simpatia. Não me refiro a vós, caro

mestre, nem a ti prezado médium, nem a vós outros, verdadeiros e since

ros espíritas, e sim às pessoas indiferentes à crença, pois nisso nada houve

de extraordinário. A pressão moral exercida pela prática do bem, sobre a

humanidade, é tal que, por mais materializada que esta seja, inclina-se

sempre, venera o bem, a despeito da sua tendência para o mal.

Agora, vamos às perguntas que, da vossa parte, não são ditadas pela

curiosidade, mas simplesmente formuladas no intuito da instrução geral.

Visto que disponho de liberdade, vou dizer-vos, com a maior brevidade

possível, quais as causas determinantes da minha última existência.

Há muitos séculos, eu vivia com o título de rei, ou, pelo menos, de

príncipe soberano. Dentro da esfera do meu poder relativamente limita

do, em confronto com os Estados da atualidade, eu era o senhor absoluto

dos meus vassalos e os governava tiranicamente ou, para falar a palavra

certa, como carrasco. Dotado de caráter impetuoso, violento, além de

avaro e sensual, podeis avaliar qual deveria ter sido a sorte dos pobres

seres que viviam sob o meu jugo. Abusei do poder para oprimir o fraco e

subordinei empregos, trabalhos e dores ao serviço da própria paixão. As

sim, impunha um dízimo ao produto da mendicidade, e ninguém poderia

acumular sem que eu antecipadamente lhe tomasse uma cota avultada

dessas sobras que a piedade humana deixava cair nas sacolas da miséria.

Ainda mais: a fim de que não diminuísse o número de mendigos entre os

meus súditos, proibia aos infelizes darem aos amigos e parentes necessi

tados a parte insignificante do que ainda lhes restava. Numa palavra, fui

tudo quanto se pode imaginar de mais cruel, em relação ao sofrimento e

à miséria alheia. Enfim, acabei por perder o que chamais vida, cercado de

tormentos e horríveis sofrimentos. Minha morte foi um modelo de terror

a quantos, como eu, posto que em menor escala, partilhavam a minha

maneira de ver.

Como Espírito, permaneci na erraticidade durante três séculos e

meio, e quando compreendi, decorrido esse tempo, que o objetivo da

reencarnação era totalmente diverso do que os meus sentidos grosseiros

e obtusos imaginavam, obtive, à força de preces, de resignação e de pesa

res, a permissão de suportar materialmente os mesmos sofrimentos que

infligira aos outros, e mais terríveis ainda do que os por mim ocasiona

dos. Obtida a permissão, Deus concedeu que pelo meu livre-arbítrio eu

aumentasse os meus sofrimentos físicos e morais. Graças à assistência

dos Espíritos bons, persisti na prática do bem, e sou-lhes agradecido por

me terem impedido de sucumbir sob o fardo que tomara. Finalmente,

preenchi uma existência de abnegação e caridade, que por si resgatou as

faltas de outra, cruel e injusta.

Nasci de pais pobres e cedo me tornei órfão. Aprendi a ganhar o pão

numa idade em que muitos consideram incapaz o raciocínio. Vivi sozinho,

sem amor, sem afeições, e desde o começo suportei as mesmas brutalidades

que havia exercido para com os outros. Dizem que as somas por mim es

moladas foram todas destinadas ao alívio dos meus semelhantes; é um fato

incontestável, ao qual, sem orgulho nem afetação, devo acrescentar que

muitíssimas vezes, com sacrifício de privações relativamente imperiosas,

aumentava o benefício que me permitia fazer a caridade pública. Morri cal

mamente, confiando no valor da minha reparação, e sou premiado muito

mais do que poderiam ter cogitado as minhas secretas aspirações. Hoje sou

feliz, muito feliz por poder afirmar-vos que todos quantos se elevam serão

humilhados, e todos quantos se humilham serão elevados.

P. Tende a bondade de dizer-nos em que consistiu a vossa expiação no

mundo espiritual, e quanto tempo durou, a contar da vossa morte até o mo

mento da atenuação por efeito do arrependimento e das boas resoluções que

tomastes. Dizei-nos também o que foi que provocou a mudança das vossas

ideias, no estado espiritual.

R. Essa pergunta desperta-me muitas recordações dolorosas!

Quanto sofri!... Mas não me queixo, apenas recordo!... Quereis saber a

natureza da minha expiação? Ei-la na sua terrível hediondez: Carrasco

que fui de todos os bons sentimentos, fiquei por muito tempo, por longo

tempo preso pelo perispírito ao corpo em decomposição. Até que essa

se completasse, vi-me corroído pelos vermes, o que muito me torturava.

Quando me libertei dos laços que me prendiam ao instrumento do meu

suplício, passei a sofrer mais cruelmente ainda... Depois dos tormentos

físicos, o sofrimento moral muito mais longo. Fui colocado em presença

de todas as minhas vítimas. Periodicamente, constrangido por uma for

ça superior, eu era levado a rever o quadro vivo dos meus crimes. E via

fisicamente, moralmente todas as dores que fizera sofrer aos outros. Oh!

meus amigos, como é terrível a visão constante daqueles a quem fizemos

mal! Entre vós, tendes apenas um fraco exemplo no confronto do acu

sado com a sua vítima. Aí tendes, em resumo, o que sofri durante três

séculos e meio, até que Deus, compadecido da minha dor e tocado pelo

meu arrependimento, solicitado pelos guias que me assistiam, permitisse

a vida de expiação que conheceis.

P. Algum motivo particular vos induziu a escolher a última encarnação

no âmbito da religião israelita?

R. Não escolhi por mim só, mas ouvi o conselho dos meus

guias. A religião de Israel era uma pequena humilhação a mais na

minha prova, posto que em certos países a maioria dos encarnados

menospreza os judeus, e principalmente os judeus que vivem à custa

da mendicância.

P. Com que idade começastes na Terra a vossa obra de expiação? Como

vos ocorreu o pensamento de vos desobrigar das resoluções previamente toma

das? Ao exercerdes tão abnegadamente a caridade, já tínheis a intuição das

causas que vos predispunham a agir assim?

R. Meus pais eram pobres, mas inteligentes e avarentos. Moço ain

da, fui privado da afeição e dos carinhos de minha mãe. Sua perda me

causou fundo pesar, sobretudo porque meu pai, dominado pela avidez de

ganhos, me abandonava por completo. Quanto aos meus irmãos, todos

mais velhos do que eu, não pareciam se dar conta das minhas mágoas.

Foi um outro judeu quem, movido por sentimento mais egoístico do que

caridoso, me recolheu em sua casa e me ensinou a trabalhar. O que isso

lhe custara era largamente compensado pelo meu trabalho, que muitas

vezes excedia às minhas forças. Mais tarde, liberto desse jugo, trabalhei

por minha conta. Entretanto, em toda parte, no trabalho como no repou

so, a saudade de minha mãe me perseguia e, à medida que avançava em

idade, a lembrança desse ser se me gravava cada vez mais profundamente

na memória, lamentando em demasia a perda do seu amor e dos seus

cuidados. Mas não tardou que ficasse completamente só; em alguns me

ses a morte ceifou toda a minha família. Então, começou a manifestar--se o modo pelo qual eu havia de passar o resto da vida. Dois dos meus

irmãos deixaram órfãos, e eu, comovido pela recordação do que como

órfão havia sofrido, quis preservar os pobrezinhos de uma juventude se

melhante à minha. E como o meu trabalho não produzisse o suficiente

para sustentá-los a todos, comecei a pedir esmola, não para mim, mas

para os outros. Deus, porém, houve por bem não permitir que eu visse o

resultado, a consolação dos meus esforços, e foi assim que os pobrezinhos

também me deixaram para sempre.

Eu bem via o que lhes faltava — era a mãe. Resolvi, pois, recorrer à

caridade em prol das viúvas infelizes que, sem poderem trabalhar para si e

seus filhinhos, se impunham privações fatais, que acabavam por conduzi--las ao túmulo, legando ao mundo pobres órfãos abandonados e votados

aos tormentos que eu mesmo suportara. Eu tinha 30 anos quando, cheio

de saúde e de vigor, viram-me pedir para a viúva e para o órfão. Os pri

meiros passos foram muito penosos, cheios de humilhações; quando, po

rém, se certificaram de que eu realmente distribuía aos pobres tudo o que

recebia; quando souberam que, além de distribuir, ainda ajuntava para

eles as sobras do meu trabalho, adquiri certo conceito que não deixava de

me ser gratificante.

Durante os 60 e poucos anos dessa peregrinação, nunca deixei de

atender à tarefa que me impusera. Também jamais a consciência me fez

sentir que causas anteriores à existência constituíssem a razão do meu pro

ceder. Um dia somente, e antes de começar a pedir, ouvi estas palavras:

“Não façais a outrem o que não quiserdes que vos façam.” Surpreendi

do pelos princípios gerais de moralidade contidos nessas poucas palavras,

muitas vezes parecia-me ouvi-las acrescidas com estas outras: “Mas fazei,

ao contrário, o que quiserdes que vos façam.” Amparado pela lembrança

de minha mãe e pelos meus próprios sofrimentos, continuei a trilhar uma

senda que a minha consciência dizia ser boa.

Vou terminar esta longa comunicação, dizendo: Obrigado! Embora

imperfeito ainda, sei, contudo, que o mal só acarreta o mal, e de novo,

como já o fiz, dedicar-me-ei ao bem para alcançar a felicidade.

Szymel Slizgol

Julienne-Marie, a mendiga

Na comuna de Villate, perto de Nozai, (Loire-Inférieure), havia uma

pobre mulher chamada Julienne-Marie, velha, enferma e que vivia da ca

ridade pública. Um dia caiu num charco, de onde foi retirada pelo Sr. A...,

morador da região, que habitualmente lhe prestava socorro. Transportada

ao seu domicílio, morreu pouco depois, em consequência do acidente.

Era opinião geral que ela quisera suicidar-se. No mesmo dia de seu faleci

mento o Sr. A..., que é espírita e médium, sentiu como que um leve conta

to de pessoa que estivesse próxima, sem que procurasse explicar-se a causa

desse fenômeno. Quando soube da morte de Julienne-Marie, veio-lhe o

pensamento de que talvez o seu Espírito tivesse vindo visitá-lo. Seguindo

o conselho de um de seus amigos, membro da Sociedade Espírita de Paris,

ao qual havia contado o que se passara, fez a evocação dessa mulher, com

o objetivo de lhe ser útil, não sem antes se aconselhar com os seus guias

protetores, dos quais recebeu a seguinte resposta:

“Sim, poderás evocá-la, e isto lhe dará prazer, embora seja inútil

o serviço que te propões prestar. Ela é feliz e inteiramente devotada aos

que lhe foram compassivos. És um de seus bons amigos; ela quase não

te deixa e, sem que o percebas, muitas vezes se entretém contigo. Mais

cedo ou mais tarde os serviços prestados serão recompensados, e quando

não o sejam pelo próprio favorecido, sê-lo-ão pelos que por ele se interes

sam, antes e depois de sua morte. Quando o Espírito não teve tempo de

se reconhecer, outros Espíritos simpáticos, em seu nome, testemunham

todo o seu reconhecimento. Eis o que explica o que sentiste no dia de sua

morte. Agora é ela quem te ajuda no bem que queres fazer. Lembra-te do

que disse Jesus: ‘Aquele que se humilhar será exaltado.’ Terás a medida do

serviço que ela te pode prestar, se, contudo, só lhe pedires assistência para

ser útil a teu próximo.”

EvocAção – Bondosa Julienne-Marie, sois feliz; eis tudo quanto eu

queria saber. Isto não me impedirá de pensar em vós muitas vezes e de jamais

vos esquecer em minhas preces.

R. Tem confiança em Deus; inspira aos teus doentes uma fé sincera

e triunfarás quase sempre. Não te ocupes jamais com a recompensa que

disso virá, pois ela ultrapassará a tua expectativa. Deus sabe sempre recom

pensar como merece aquele que se dedica ao alívio dos semelhantes e vota

às suas ações um completo desinteresse. Sem isto, tudo não passa de ilusão e

quimera. Antes de tudo é preciso ter fé, do contrário, nada. Lembra-te des

ta máxima e ficarás admirado dos resultados que obterás. Os dois doentes

que curaste, disso são a prova; nas circunstâncias em que se encontravam,

com os remédios simples terias falhado.

Quando pedires a Deus permissão para que os Espíritos bons

derramem sobre ti seus fluidos benfazejos, se o pedido não te fizer sen

tir um sobressalto involuntário, é que tua prece não foi bastante fervo

rosa para ser ouvida; ela só o será nas condições que te assinalo. É o que

tens experimentado quando dizes do fundo do coração: “Deus Todo--Poderoso, Deus misericordioso, Deus de bondade sem limites, acolhei

a minha prece e permiti que os Espíritos bons me assistam na cura de...;

tende piedade dele, meu Deus, e restitui-lhe a saúde; sem vós nada

posso. Que se faça a vossa vontade.” Fizestes bem em não desprezar os

humildes. A voz do que sofreu e suportou com resignação as misérias

deste mundo é sempre ouvida; e, como vês, um serviço prestado sem

pre recebe a sua recompensa.

Agora, uma palavra a meu respeito; isto te confirmará o que foi dito

acima. O Espiritismo te explica minha linguagem como Espírito. Não pre

ciso entrar em detalhes a respeito. Também creio ser inútil dar-te a conhe

cer a minha existência anterior. A posição em que me conheceste na Terra

deve fazer-te compreender e apreciar minhas outras existências, que nem

sempre foram irrepreensíveis. Votada a uma vida de miséria, enferma e

não podendo trabalhar, mendiguei a vida toda. Não entesourei; na velhice

minhas pequenas economias limitavam-se a uma centena de francos, que

reservava para quando as pernas não me pudessem transportar. Deus jul

gou suficiente a minha provação e expiação, e lhes pôs um termo, livrando--me, sem sofrimento, da vida terrena; porque eu não me suicidei, como

a princípio pensaram. Caí fulminada à beira do charco, no momento em

que dirigia minha última prece a Deus. O declive do terreno foi a causa

da presença do meu corpo na água. Não sofri; estou feliz por ter podido

cumprir minha missão sem entraves e com resignação. Tornei-me útil, na

medida de minhas forças e possibilidades, evitando sempre prejudicar os

meus semelhantes. Hoje recebo a recompensa e dou graças a Deus, nosso

divino Senhor, que, no castigo que inflige, suaviza a amargura fazendo--nos esquecer, durante a vida, as nossas antigas existências, e pondo em

nosso caminho almas caridosas, para nos ajudarem a suportar o fardo de

nossos erros passados. Persevera também e, como eu, serás recompensado.

Agradeço-te as boas preces e o serviço que me prestaste; jamais o esquece

rei. Um dia nos reveremos e muitas coisas te serão explicadas, coisas que,

no momento, seriam supérfluas. Basta saberes que te sou muito devotada,

estou junto de ti muitas vezes e sempre que necessitares de mim, para o

alívio dos que sofrem.

A pobrezinha Julienne-Marie

Tendo sido evocado na Sociedade de Paris, a 10 de junho de 1864,

o Espírito Julienne-Marie ditou a seguinte comunicação:

“Obrigado porque me admitistes em vosso meio, caro presidente;

sentistes bem que minhas existências anteriores foram mais elevadas do

ponto de vista social; e, se voltei para sofrer a prova da pobreza, era para

me punir de um vão orgulho, que me fazia repelir quem fosse pobre

e miserável. Então sofri essa lei justa de talião, que me tornou a mais

horrenda mendiga desta região; porém, como que para me provar a bon

dade de Deus, eu não era repelida por todos; isto era todo o meu receio.

Suportei minha prova sem murmurar, pressentindo uma vida melhor, de

onde não devia mais voltar a esta Terra de exílio e de calamidade. Que

felicidade o dia em que nossa alma, ainda jovem, puder entrar na vida

espiritual para rever os seres amados! Porque eu também amei e sou feliz

por ter encontrado os que me precederam. Obrigado a esse bom Sr. A...;

ele me facultou a expressão do reconhecimento; sem a sua mediunidade

eu não lhe poderia agradecer e provar-lhe que minha alma não esquece

as felizes influências do seu bom coração e recomendar-lhe que propague

sua divina crença. Ele é chamado a recolher as almas transviadas; que se

convença bem do meu apoio. Sim, eu lhe posso retribuir ao cêntuplo

o que ele me fez, instruindo-o na via que seguis. Agradecei ao Senhor

por haver permitido que os Espíritos vos possam dar instruções para

encorajar o pobre em suas penas e deter o rico em seu orgulho. Tratai de

compreender a vergonha que há em repelir um infeliz; que eu vos sirva

de exemplo, a fim de que eviteis, como eu, de ter de expiar as vossas faltas

nessas dolorosas posições sociais, que vos colocam tão baixo a ponto de

serdes considerado escória da sociedade.”

Julienne-Marie

Transmitida esta comunicação ao Sr. A..., ele obteve, por sua vez, a

que se segue, que vem confirmar a anterior:

P. Boa Julienne-Marie, já que quereis ajudar-me com os vossos bons

conselhos, a fim de que eu progrida na senda da nossa divina Doutrina, tende

a bondade de vos comunicardes comigo. Envidarei todos os esforços para tirar

proveito dos vossos ensinamentos.

R. Lembra-te da recomendação que te vou fazer e dela jamais te afas

tes. Sê sempre caridoso, na medida de tuas possibilidades; compreendes a

caridade suficientemente tal qual deve ser praticada em todas as posições

da vida terrena. Não preciso, pois, vir dar-te um ensinamento a respeito;

serás tu mesmo o melhor juiz, seguindo, contudo, a voz da consciência,

que jamais te enganará, quando a escutares sinceramente.

Não te iludas quanto às missões que tens a cumprir na Terra; peque

nos e grandes têm a sua; a minha foi muito penosa, mas eu merecia seme

lhante punição, por minhas existências precedentes, conforme o confessei

ao bom presidente da Sociedade-mãe de Paris, à qual todos vos congregareis

um dia. Esse dia não está tão longe quanto pensas; o Espiritismo marcha a

passos de gigante, a despeito de tudo quanto se tem feito para o entravar.

Marchai, pois, todos sem medo, fervorosos adeptos da Doutrina, e vossos

esforços serão coroados de sucesso. Pouco vos importe o que disserem de

vós. Colocai-vos acima de uma crítica irrisória, que cairá sobre os adversá

rios do Espiritismo.

Os orgulhosos! Eles se julgam fortes e pensam abater-vos facilmente.

Vós, meus bons amigos, ficai tranquilos e não temais vos medir com eles,

pois são mais fáceis de vencer do que imaginais. Muitos dentre eles têm

medo e temem que a verdade, enfim, lhes venha ofuscar os olhos. Esperai;

eles virão, por sua vez, ajudar no coroamento do edifício.

Julienne-Marie

Este caso está cheio de ensinamentos para quem quer que medite as palavras deste

Espírito nestas duas comunicações. Todos os grandes princípios do Espiritismo aí

se acham reunidos. Desde a primeira, o Espírito revela a sua superioridade pela

linguagem; como fada benfeitora, vem proteger aquele que não a rejeitou em seus

farrapos de miséria. É uma aplicação destas máximas do Evangelho: “Os grandes

serão humilhados e os pequenos serão exaltados; bem-aventurados os humildes;

bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados; não desprezeis os pequenos,

pois quem é pequeno neste mundo talvez seja maior do que julgais.”

Max, o mendigo

Num vilarejo da Baviera, lá pelo ano de 1850, morreu um velho

quase centenário conhecido pelo nome de pai Max. Ninguém conhecia ao

certo a sua origem, pois não tinha família. Desde quase meio século, aca

brunhado por enfermidades que o impossibilitavam de ganhar a vida pelo

trabalho, não tinha outros recursos senão a caridade pública, que dissimu

lava indo vender nas fazendas e nos castelos, almanaques e objetos miúdos.

Tinham-lhe dado a alcunha de conde Max e as crianças só o chamavam

senhor conde, com o que sorria sem se melindrar. Por que esse título? Nin

guém saberia dizer; já era hábito. Talvez fosse por causa de sua fisionomia

e de suas maneiras, cuja distinção contrastava com seus andrajos. Vários

anos depois de sua morte, apareceu em sonho à filha do proprietário de um

dos castelos, onde era hospedado na cavalariça, pois não tinha domicílio.

Ele lhe disse: “Obrigado por vos terdes lembrado do pobre Max em vossas

preces, pois foram ouvidas pelo Senhor. Desejais saber quem sou eu, alma

caridosa que vos interessais pelo infeliz mendigo. Vou satisfazer-vos; será

para todos uma grande instrução.” Relatou-lhe, então, o seguinte, mais ou

menos nestes termos:

“Há um século e meio, aproximadamente, eu era um rico e pode

roso senhor desta região, mas frívolo, orgulhoso e envaidecido de minha

nobreza. Minha imensa fortuna só servia aos meus prazeres e mal dava

para os meus gastos, porque eu era jogador, debochado, e passava a vida

em orgias. Meus vassalos, que julgava criados para meu uso como animais

de fazenda, eram oprimidos e maltratados para subvencionar as minhas

prodigalidades. Eu ficava surdo às suas lamentações, como às de todos os

infelizes e, em minha opinião, deviam sentir-se muito honrados de servir

aos meus caprichos. Morri em idade pouco avançada, esgotado pelos

excessos, mas sem ter passado por nenhuma infelicidade verdadeira. Ao

contrário, tudo parecia sorrir-me, de sorte que, aos olhos de todos, eu era

um dos felizardos do mundo. Minha posição me valeu funerais suntuo

sos; os estroinas lamentaram em mim o faustoso senhor, mas nem uma

lágrima caiu em minha tumba, nem uma prece do coração foi dirigida a

Deus em meu benefício e minha memória foi maldita por todos aqueles

cuja miséria eu tinha agravado. Ah! Como é terrível a maldição daqueles

que tornamos infelizes! Ela não cessou de retinir em meus ouvidos du

rante longos anos, que me pareciam uma eternidade! E, à morte de cada

uma de minhas vítimas, era uma nova figura ameaçadora ou irônica que

surgia diante de mim, a me perseguir sem trégua e sem que eu pudesse

encontrar um canto escuro para me subtrair à sua vista. Nem um olhar

amigo! Meus antigos companheiros de devassidão, infelizes como eu, me

fugiam e pareciam dizer com desdém: ‘Não podes mais pagar os nossos

prazeres’. Oh! como eu teria pago caro um instante de repouso, um copo

de água para estancar a sede causticante que me devorava! Mas eu não

possuía mais nada e todo o ouro que havia semeado a mancheias na Terra

não havia produzido uma única bênção! Nem uma só, entendeis, minha

filha?

“Enfim, acabrunhado pela fadiga, esgotado como um viajor exte

nuado que não vê o termo de sua rota, exclamei: ‘Meu Deus, tende pie

dade de mim! Quando terminará esta horrível situação?’ Então uma voz,

a primeira que ouvia desde que deixei a Terra, me disse: ‘Quando quiseres.’

‘Que devo fazer, grande Deus?’ respondi. ‘Dizei, eu me submeto a tudo.’

‘É preciso que te arrependas; que te humilhes ante aqueles a quem humi

lhaste; pedir-lhes que intercedam por ti, porque a prece do ofendido que

perdoa é sempre agradável ao Senhor’. Humilhei-me, pedi aos meus vassalos,

aos meus servos, que estavam à minha frente, cujas fisionomias, cada vez

mais benevolentes, acabaram por desaparecer. Foi então para mim como

uma nova vida; a esperança substituiu o desespero e agradeci a Deus com

todas as forças de minha alma. Em seguida a voz me disse: ‘Príncipe!’ e eu

respondi: ‘Não há aqui outro príncipe, senão o Deus Todo-Poderoso, que

humilha os soberbos. Perdoai-me, Senhor, porque pequei; fazei de mim o

servo de meus servos, se tal for a vossa vontade’.

“Alguns anos mais tarde nasci de novo, mas desta vez numa famí

lia de pobres aldeões. Meus pais morreram quando eu ainda era criança

e fiquei só no mundo sem apoio. Ganhei a vida como pude, ora como

trabalhador braçal, ora como servente de fazenda, mas sempre honesta

mente, porque desta vez acreditava em Deus. Com a idade de 40 anos,

uma moléstia me paralisou todos os membros e vi-me forçado a mendigar

durante mais de 50 anos nestas mesmas terras que outrora tinham sido s

minhas e onde, por amarga ironia, me tinham apelidado de senhor conde;

feliz muitas vezes por encontrar um abrigo na estrebaria do castelo que

fora meu. E no sonho eu me deleitava em percorrer este mesmo castelo,

onde reinara como déspota. Quantas vezes, em meus sonhos, me revi em

meio a minha antiga fortuna! Tais visões me deixavam, ao despertar, um

indefinível sentimento de amargura e de pesar; mas jamais um lamento

escapou de minha boca. E, quando Deus se dignou chamar-me, eu o lou

vei por ter-me dado coragem de sofrer sem murmurar essa longa e penosa

prova, cuja recompensa hoje recebo. E vós, minha filha, eu vos abençoo

por terdes orado por mim.”

Recomendamos este caso aos que advogam que os homens não teriam mais freio

se não tivessem diante de si o espantalho das penas eternas. E perguntamos se a

perspectiva de um castigo como o do pai Max é menos eficaz para deter na via do

mal que as torturas sem-fim, nas quais ninguém mais acredita.

História de um criado

Numa família de alta posição, havia um jovem criado cuja figura

inteligente e fina surpreendia por sua distinção. Nada em suas maneiras

denotava inferioridade; sua dedicação ao serviço dos patrões não tinha essa

obsequiosidade servil, própria das pessoas de tal condição. Voltando àquela

família no ano seguinte, e não mais vendo o rapaz, perguntamos se o ha

viam despedido. “Não”, responderam-me, “foi passar alguns dias em sua

terra e lá morreu. Lamentamos muito, pois era um excelente sujeito e tinha

sentimentos realmente acima de sua posição. Era muito ligado a nós, tendo

nos dado provas de grande afeição e devotamento”.

Mais tarde, veio-nos a ideia de evocar o rapaz. Eis o que ele nos disse:

“Em minha última encarnação eu era, como se diz na Terra, de boa

família, embora arruinada pela prodigalidade de meu pai. Fiquei órfão e

sem recursos ainda muito jovem. O Sr. G... foi o meu benfeitor; educou--me como filho e deu-me uma boa instrução que muito me envaideceu.

Na última existência quis expiar meu orgulho, nascendo em condição ser

vil e aqui encontrei ocasião de provar dedicação ao meu benfeitor. Até lhe

salvei a vida, sem que ele jamais desconfiasse. Era ao mesmo tempo uma

prova, da qual tirei partido, pois tive bastante força para não me deixar

corromper pelo contato com um meio quase sempre vicioso. Apesar dos

maus exemplos, fiquei puro, pelo que dou graças a Deus por ter sido

recompensado pela felicidade de que desfruto.”

P. Em que circunstâncias salvastes a vida do Sr. G...?

R. Num passeio a cavalo, em que eu o seguia só, percebi uma grande

árvore que caía ao seu lado, sem que ele a visse. Adverti-o com um grito

terrível; ele recuou bruscamente, enquanto a árvore tombava aos seus pés.

Sem o movimento que pratiquei, por certo ele teria sido esmagado.

O fato foi relatado ao Sr. G..., que dele se lembrou perfeitamente.

P. Por que morrestes tão jovem?

R. Deus tinha julgado suficiente a minha prova.

P. Como pudestes aproveitar a prova, se não guardáveis lembrança de

vossa precedente existência e da causa que a motivara?

R. Em minha humilde posição, restava-me um instinto de or

gulho, que tive a felicidade de dominar. Isto tornou a prova muito

proveitosa, sem o que teria de recomeçá-la. Em seus momentos de

liberdade, o meu Espírito se lembrava e, ao despertar, ficava um desejo

intuitivo de resistir às minhas tendências, que eu sentia serem más.

Assim, tive mais mérito em lutar do que se me recordasse claramente

do passado. A lembrança perturbadora de minha antiga posição teria

exaltado o meu orgulho, enquanto tive apenas de combater os arrasta

mentos da nova posição.

P. Recebestes uma educação brilhante. Para que vos serviu na última

existência, uma vez que não vos recordáveis dos conhecimentos adquiridos?

R. Tais conhecimentos teriam sido inúteis, mesmo um contrassenso

em minha nova situação. Ficaram latentes e hoje os recupero. Contudo,

não me foram inúteis, pois me desenvolveram a inteligência; instintiva

mente eu tinha o gosto pelas coisas elevadas, o que me inspirava repulsa

pelos exemplos baixos e ignóbeis que tinha sob os olhos. Sem tal educação

eu não teria passado de simples criado.

P. Os exemplos de empregados domésticos que se dedicam aos patrões até

a abnegação têm por causa anteriores relações?

R. Não o duvideis; é, pelo menos, o caso mais comum. Por vezes,

tais empregados são membros da família, ou, como eu, seres agradecidos

que pagam uma dívida de reconhecimento, cuja dedicação lhes auxiliava

o progresso. Não sabeis de todos os efeitos das simpatias e antipatias que

essas relações anteriores produzem no mundo. Não, a morte não inter

rompe tais relações, que, muitas vezes, se perpetuam de um século a outro.

P. Por que tais exemplos de dedicação dos criados são hoje tão raros?

R. Deve-se incriminar o espírito de egoísmo e de orgulho do vos

so século, desenvolvido pela incredulidade e pelas ideias materialistas.

A verdadeira fé desaparece pela cupidez e pelo desejo de ganho e, com

ela, a dedicação. Reconduzindo os homens ao sentimento da verdade, o

Espiritismo fará renascer as virtudes esquecidas.

Nada melhor que este exemplo para ressaltar o benefício do esquecimento das

existências anteriores. Se o Sr. G... se tivesse lembrado de quem fora seu jovem

criado, por certo ficaria muito constrangido e nem mesmo o teria conservado

naquela condição, entravando, assim, a prova, que a ambos foi proveitosa.

Antonio B...

(Enterrado vivo – A pena de talião.)

O Sr. Antonio B..., escritor de mérito, estimado por seus concida

dãos, tendo desempenhado com distinção e integridade funções públicas

na Lombardia, caiu, pelo ano de 1850, em consequência de um ataque de

apoplexia, num estado de morte aparente que, infelizmente, como algu

mas vezes sucede em casos tais, a sua morte foi considerada real, concor

rendo ainda mais para o engano os vestígios da decomposição assinalados

no corpo. Quinze dias depois do enterro, uma circunstância fortuita levou

a família a determinar a exumação. Tratava-se de um medalhão, por acaso

esquecido no caixão. Qual não foi, porém, o espanto dos assistentes quan

do, ao abrir o esquife, notaram que o corpo mudara de posição, voltando--se de bruços e, coisa horrível! uma das mãos havido sido comida em parte

pelo defunto. Ficou, então, patente que o infeliz Antonio B... fora enterra

do vivo, e deveria ter sucumbido sob a ação do desespero e da fome.

Tendo sido evocado na Sociedade Espírita de Paris, em agosto de 1861,

a pedido de um parente, o Espírito Antonio B... deu as seguintes explicações:

1. EvocAção – Que quereis?

2. A pedido de um vosso parente, nós vos evocamos com prazer e ficare

mos contentes se quiserdes responder-nos. – R. Sim, desejo fazê-lo.

3. Lembrai-vos dos incidentes da vossa morte? – R. Ah! Certamente

que me lembro. Mas por que me avivar essa lembrança do castigo?

4. É verdade que fostes enterrado vivo por descuido? – R. Assim

deveria ser, visto que a morte aparente se reveste de todas as características

da morte real; eu estava quase exangue.84 Não se deve, porém, imputar a

ninguém um acontecimento que me estava predestinado desde que nasci.

5. Estas perguntas vos incomodam? Neste caso, podemos interrompê-las. – R. Não. Podeis continuar.

6. Esperávamos que fôsseis feliz, já que deixastes a reputação de um ho

mem de bem. – R. Eu vos agradeço, pois sei que intercedereis por mim. Vou

fazer o possível para vos responder e, se não puder fazê-lo, um dos vossos

guias o fará por mim.

7. Podeis descrever-nos as vossas sensações naquele momento terrí

vel? – R. Oh! Que dolorosa provação o fato de sentir-me encerrado

entre quatro tábuas, tolhido, absolutamente tolhido. Impossível gritar!

A voz, por falta de ar, não tinha eco! Ah! Que tortura a do infeliz que

em vão se esforça para respirar num ambiente limitado! Eu era qual

condenado à boca de um forno, abstração feita do calor. A ninguém

desejo semelhantes torturas. Não, não desejo a ninguém um fim como

o que tive. Oh! cruel punição de cruel e feroz existência! Não saberia

dizer no que então pensava; apenas revendo o passado, vagamente en

trevia o futuro.

8. Dissestes: cruel punição de feroz existência... Como se pode conciliar

esta afirmativa com a vossa reputação ilibada? – R. Que vale uma existência

em face da eternidade? Certamente procurei ser honesto e bom na minha

última encarnação, mas eu aceitara um tal fim antes de reencarnar. Ah! Por

que me interrogar sobre esse passado doloroso que só eu e os Espíritos do

Senhor conhecíamos? Mas visto que assim é preciso, dir-vos-ei que, numa

existência anterior, eu enterrara viva uma mulher, a minha própria esposa,

e por sinal num jazigo subterrâneo. A pena de talião devia ser-me aplicada.

Olho por olho, dente por dente.

9. Agradecemos essas respostas e pedimos a Deus que vos perdoe o passa

do, em atenção ao mérito da vossa última existência. – R. Voltarei mais tarde.

Aliás, o Espírito Erasto completará esta minha comunicação.

instruçõEs do guiA do médium – O que deveis concluir dessa

comunicação é que todas as vossas existências são solidárias entre si;

as tribulações, as vicissitudes e as grandes dores que se abatem sobre os

homens são sempre as consequências de uma vida anterior criminosa

ou mal-empregada. Entretanto, cumpre-me dizer-vos que desfechos se

melhantes como este de Antonio B... são raros, e se esse homem, cuja

última existência foi isenta de censura, acabou morrendo dessa maneira,

foi por tê-lo solicitado ele próprio, a fim de abreviar a sua erraticidade e

alcançar mais rapidamente as esferas superiores. Com efeito, depois de

um período de perturbação e sofrimento moral, com vistas à expiação

do seu crime hediondo, ser-lhe-á perdoado este, e ele se alçará a um

mundo melhor, onde o espera a vítima, que há muito tempo lhe per

doou. Aproveitai este exemplo cruel, queridos espíritas, a fim de supor

tardes com paciência os sofrimentos físicos e morais, bem como todas as

pequenas misérias da Terra.

P. Que proveito a humanidade pode auferir de semelhantes punições? – R. Os castigos não são aplicados para desenvolver a humanidade, mas

para a punição dos culpados. De fato, a humanidade não tem interesse al

gum no sofrimento de um de seus membros. Aqui, a punição foi apropria

da à falta. Por que há loucos, idiotas, paralíticos? Por que alguns morrem

queimados? Por que outros padecem as torturas de longa agonia entre a

vida e a morte? Ah! crede-me; respeitai a vontade soberana e não procureis

sondar a razão dos decretos da Providência. Deus é justo e só faz o bem.

Erasto

Este fato não encerra um ensinamento terrível? Assim, a Justiça de Deus alcança

sempre o culpado e, pelo fato de tardar algumas vezes, nem por isso deixa de

atingi-lo. Não é altamente moralizador saber que, se grandes culpados acabam

pacificamente a existência na abundância dos bens terrestres, cedo ou tarde a hora

da expiação chegará para eles? Penas de tal natureza são compreensíveis, não só

por estarem mais ou menos ao alcance das nossas vistas, mas por serem lógicas.

Cremos, porque a razão admite. Uma existência honrosa não exclui, portanto,

as provações da vida, pois que são escolhidas e aceitas como complemento de

expiação; é o restante do pagamento de uma dívida saldada antes de receber o

preço do progresso realizado.

Considerando-se como eram frequentes nos séculos que passaram, mesmo nas

classes mais elevadas e esclarecidas, os atos de barbaria que hoje nos revoltam,

quantos assassínios eram cometidos nesses tempos de menosprezo pela vida do

semelhante, e como os fracos eram esmagados pelos poderosos sem escrúpulo,

então compreenderemos que muitos dos nossos contemporâneos terão de apagar

máculas passadas e tampouco nos admiraremos do número considerável de pes

soas que sucumbem vitimadas por acidentes isolados ou por catástrofes coletivas.

O despotismo, o fanatismo, a ignorância e os preconceitos da Idade Média e dos

séculos que se seguiram, legaram às gerações futuras uma dívida imensa, que ain

da não foi liquidada. Muitas desgraças só nos parecem imerecidas porque apenas

vemos a hora presente.

Letil

Este industrial, que residiu nos arredores de Paris, morreu em abril

de 1864, de modo impressionante. Incendiando-se uma caldeira de verniz

fervente, foi num abrir e fechar de olhos que o seu corpo se cobriu de ma

téria candente, compreendendo logo que estava perdido. Achando-se na

oficina apenas com um jovem aprendiz, ainda teve ânimo de dirigir-se à

sua casa, distante mais de 200 metros. Quando se lhe pôde prestar os pri

meiros socorros, já as carnes dilaceradas caíam aos pedaços, sendo visíveis

os ossos de uma parte do corpo e da face. Ainda assim, sobreviveu 12 horas

a terríveis sofrimentos, mas conservando toda a presença de espírito até o

último momento, regulando os seus negócios com perfeita lucidez.

Em toda esta cruel agonia não se lhe ouviu um só gemido, um só

queixume, e morreu orando a Deus. Era um homem muito honrado, de

caráter meigo e afetuoso, estimado por quantos o conheciam. Havia abra

çado as ideias espíritas com entusiasmo, porém pouco refletidamente, e

assim foi que, médium, não lhe faltaram inúmeras mistificações, que, no

entanto, em nada lhe abalaram a crença. A confiança no que os Espíritos

lhe diziam, em certas circunstâncias, beirava a ingenuidade.

Evocado na Sociedade de Paris, a 29 de abril de 1864, poucos dias

após a morte e ainda sob a impressão da cena terrível que o vitimou, deu a

seguinte comunicação:

“Profunda tristeza me acabrunha! Aterrado ainda pela minha trági

ca morte, julgo-me sob os ferros de um algoz. Quanto sofri! Oh! quanto

sofri! Estou trêmulo, como que sentindo o cheiro nauseante de carnes

queimadas. Agonia de 12 horas, essa que padeceste, ó Espírito culpado!

Mas ele sofreu sem murmurações e por isso vai receber de Deus o seu

perdão. Ó minha bem-amada, não chores, que em breve estas dores se

acalmarão. Na realidade, eu não sofro mais, porém a lembrança neste caso

vale pela realidade. A noção do Espiritismo me auxilia bastante, e agora

vejo que, sem essa crença consoladora, teria permanecido no delírio da

morte horrível que padeci.

“Há, porém, um Espírito consolador que não me deixa, desde que

exalei o último suspiro. Eu ainda estava vivo e já o tinha a meu lado...

Parecia-me ser um reflexo das minhas dores, a produzir em mim vertigens,

que me fizessem ver fantasmas... Mas não; era o meu anjo da guarda que,

silencioso e mudo, me consolava pelo coração. Logo que me despedi da

Terra, disse-me ele: ‘Vem, meu filho, torna a ver o dia’. Então respirei

mais livremente, julgando sair de medonho pesadelo; perguntei pela es

posa amada, pelo filho corajoso que por mim se devotara, e ele me disse:

‘Estão todos na Terra, e tu, filho, estás entre nós’. Eu procurava o lar, onde,

sempre em companhia do anjo, vi todos banhados de pranto. A tristeza e

o luto haviam invadido aquela habitação outrora tão sossegada. Não pude

tolerar o espetáculo por mais tempo e, muito comovido, disse ao meu guia:

‘Ó meu anjo bom, saiamos daqui!’. ‘Sim, saiamos’, respondeu-me, ‘e pro

curemos repouso.’ Daí para cá tenho sofrido menos e, não fora a visão da

esposa inconsolável e a tristeza dos amigos, seria quase feliz.

“O meu bom guia fez-me ver a causa da morte tão dolorosa que tive,

e eu, a fim de vos instruir, vou confessá-la:

“Há cerca de dois séculos mandei queimar uma jovem donzela,

inocente como se pode ser na sua idade — 12 a 14 anos. Qual a acu

sação que lhe pesava? A cumplicidade em uma conspiração contra a

política clerical. Eu era então italiano e juiz inquisidor; como os algozes

não ousassem tocar o corpo da pobre criança, fui eu mesmo o juiz e o

carrasco. Oh! quanto és grande, Justiça de Deus! A ti submetido, pro

meti a mim mesmo não vacilar no dia do combate, e ainda bem que tive

força para manter o compromisso. Não murmurei, e vós me perdoastes,

oh! Senhor. Quando, porém, se apagará da minha memória a lembrança

da pobre vítima inocente? Essa lembrança é que me faz sofrer! É preciso,

portanto, que ela me perdoe.

“Oh! vós, adeptos da nova doutrina, que frequentemente dizeis não

poder evitar os males aos quais nos expomos em razão do esquecimento do

passado!... Oh! irmãos meus! Bendizei antes a Deus, porque se tal lembran

ça vos acompanhasse na Terra, não mais encontraríeis repouso em vossos

corações. Como poderíeis vós, constantemente assediados pela vergonha

e pelo remorso, fruir um só momento de paz? O esquecimento aí é um

benefício, porque a lembrança aqui é uma tortura. Mais alguns dias e,

como recompensa à resignação com que suportei as minhas dores, Deus

me concederá o esquecimento da falta. Eis a promessa que acaba de fazer--me o meu anjo bom.”

O caráter do Sr. Letil, na última encarnação, prova quanto o seu Espírito se

aperfeiçoou. A conduta que teve seria o resultado do arrependimento e das boas

resoluções previamente tomadas, mas isso por si só não bastava. Era preciso

consolidar essas resoluções com uma grande expiação; era mister que suportasse

como homem o suplício que infligira a outrem e mais ainda: a resignação que,

felizmente, não o abandonou nessa terrível contingência. Por certo o conheci

mento do Espiritismo contribuiu grandemente para sustentar-lhe a coragem,

pela fé sincera que tal conhecimento lhe dera do futuro. Ciente de que as do

res físicas são provas e expiações, submeteu-se a elas com resignação, dizendo:

“Deus é justo; logo, é que eu as mereci.”

Um cientista ambicioso

Embora nunca tivesse provado as pungentes angústias da miséria, a

Sra. B..., de Bordeaux, teve uma vida de martírios físicos, em consequência

das incontáveis doenças graves que a acometeram desde a idade de cinco

meses. Vivendo 70 anos, quase que anualmente batia às portas do túmu

lo. Três vezes envenenada pela terapêutica de uma ciência experimental e

duvidosa, em ensaios feitos sobre o seu organismo e temperamento, arrui

nada tanto pelos remédios quanto pelas doenças, assim viveu entregue a

sofrimentos intoleráveis, que nada podia acalmar. Sua filha, espírita-cristã

e médium, pedia a Deus em suas preces para suavizar-lhe as cruéis prova

ções. Foi porém aconselhada pelo seu guia espiritual a pedir simplesmente

a fortaleza, a calma, a resignação para as suportar, fazendo acompanhar esse

conselho das seguintes instruções:

“Nessa vida tudo tem a sua razão de ser: não há um só dos nossos sofri

mentos que não corresponda aos sofrimentos por nós causados aos outros; não há

um só dos vossos excessos que não tenha por consequência uma privação;

não há uma só lágrima que caia dos vossos olhos, que não seja destinada a

lavar uma falta, um crime qualquer. Suportai, portanto, com confiança e

resignação as vossas dores físicas e morais, por mais cruéis que vos pareçam,

e pensai no trabalhador cuja fadiga afeta os membros, mas que prossegue

no trabalho sem se deter, porque tem diante de si a dourada espiga, outros

tantos frutos da sua perseverança. Assim é a sorte do infeliz que sofre nesse

mundo; a aspiração da felicidade, que deve constituir-se em fruto de sua

paciência, torna-lo-á resistente às dores efêmeras da humanidade. Eis o que

se dá com a tua mãe. Cada dor que ela aceita como expiação corresponde à

extinção de uma nódoa do seu passado, e quanto mais cedo essas nódoas se

extinguirem, tanto mais breve ela será feliz. A falta de resignação esteriliza o

sofrimento, porque então as provas teriam de recomeçar. O de que ela mais

precisa é coragem e resignação, e é justamente o que por ela se deve pedir a

Deus e aos Espíritos bons.

Tua mãe foi outrora uma excelente médica, vivendo num meio em

que se lhe tornava fácil o bem-estar, e no qual foi cumulada de home

nagens. Ambicionando glória e riquezas, e querendo alcançar o apogeu

da Ciência, não por filantropia ou por amor aos semelhantes, mas para

aumentar a reputação e a clientela, não mediu esforços para levar a bom

termo os seus estudos. Porque previa um estudo nas convulsões que pro

vocava, sua genitora era martirizada no leito de sofrimentos, enquanto o

próprio filho era submetido a experiências que deviam dar-lhe a solução

de certos fenômenos; aos velhos abreviava os dias e aos homens vigoro

sos enfraquecia com ensaios tendentes a comprovar a ação de tal ou qual

medicamento. E todas essas experiências eram tentadas sem que o infeliz

paciente delas soubesse ou sequer desconfiasse. A satisfação da cupidez e do

orgulho, a sede de ouro e de celebridade foram os móveis de tal conduta.

Séculos e séculos de provações terríveis foram necessários para domar esse

Espírito ambicioso e cheio de orgulho, até que o arrependimento iniciasse

a obra de regeneração, que deveria preceder a reparação que agora termina,

visto como as provas dessa última encarnação podem dizer-se suaves em

relação às que já suportou. Coragem, pois, porque se o castigo foi longo e

cruel, grande será a recompensa à resignação, à paciência e à humildade.

Coragem, a todos vós que sofreis; considerai a brevidade da exis

tência material e pensai nas alegrias da eternidade. Invocai a esperança,

a dedicada amiga dos sofredores; implorai pela fé, irmã da esperança, fé

que vos mostra o céu, no qual a esperança vos faz penetrar bem antes do

tempo. Atraí também a vós esses amigos que o Senhor vos concede, que

estão ao vosso lado, que vos sustentam e amam, cuja solicitude constante

vos reconduz para junto daquele a quem havíeis ofendido, transgredindo

as suas leis.”

Depois de haver desencarnado, a Sra. B... veio dar, tanto por sua filha como na

Sociedade Espírita de Paris, muitas comunicações, nas quais se refletem as mais

elevadas qualidades, confirmando os seus antecedentes.

Charles de Saint-G..., deficiente mental

(Sociedade Espírita de Paris, 1860.)

Charles de Saint-G... é um deficiente mental de 13 anos, vivo, cujas

faculdades intelectuais são de tal nulidade que nem mesmo reconhece os

pais e apenas é capaz de alimentar-se. Há nele uma supressão completa do

desenvolvimento em todo o sistema orgânico.

1. [A são luís] – Poderíeis dizer-nos se podemos evocar o Espírito dessa

criança? – R. Podeis fazê-lo como se evocásseis um morto.

2. Vossa resposta faz-nos supor que a evocação poderia ser feita em qual

quer momento. – R. Sim; sua alma está atada ao corpo por laços materiais,

mas não espirituais; ela pode sempre se desprender.

3. EvocAção dE chArlEs dE sAint-g... – R. Sou um pobre Espíri

to, preso à Terra como uma ave pelo pé.

4. Em vosso estado atual, como Espírito, tendes consciência de vossa nuli

dade neste mundo? – R. Certamente; sinto bem o meu cativeiro.

5. Quando vosso corpo dorme e vosso Espírito se desprende, tendes as

ideias tão lúcidas quanto se estivésseis em estado normal? – R. Quando meu

corpo infeliz repousa, estou um pouco mais livre para me elevar ao céu,

a que aspiro.

6. Como Espírito, experimentais um pensamento penoso de vosso estado

corpóreo? – R. Sim, pois é uma punição.

354

Expiações terrestres

7. Recordai-vos da vossa precedente existência? – R. Oh, sim! Ela é a

causa de meu exílio atual.

8. Qual foi essa existência? – R. Um jovem libertino ao tempo de

Henrique TERCEIRO.85

9. Dissestes que vossa condição atual é uma punição; então não a

escolhestes? – R. Não.

10. Como pode a vossa existência atual servir ao vosso progresso, conside

rando-se o estado de nulidade em que vos encontrais? – R. Ela não me é nula

perante Deus, que ma impôs.

11. Prevedes a duração da vossa existência atual? – R. Não; mais

alguns anos e retornarei à minha pátria.

12. Desde vossa precedente existência até a encarnação atual, que fizestes

como Espírito? – R. Porque eu era um Espírito leviano, Deus me aprisionou.

13. No estado de vigília tendes consciência do que se passa ao vosso redor,

apesar da imperfeição dos vossos órgãos? – R. Vejo e ouço, mas meu corpo

nada vê nem percebe.

14. Podemos fazer algo que vos seja útil? – R. Nada.

15. [A são luís] – As preces por um Espírito reencarnado podem ter a

mesma eficácia que a dirigida a um errante? – R. As preces são sempre boas

e agradáveis a Deus. Na posição deste pobre Espírito, elas em nada lhe

poderão servir; servirão mais tarde, pois Deus as deixa de reserva.

Esta evocação confirma o que sempre se disse dos deficientes mentais. A nulidade

moral não implica nulidade do Espírito, que, abstração feita dos órgãos, goza de

todas as suas faculdades. A imperfeição dos órgãos é apenas um obstáculo à livre

manifestação dos pensamentos: não os aniquila. É o caso de um homem vigoroso,

cujos membros fossem momentaneamente amarrados.

Instrução de um Espírito sobre os deficientes mentais e os cretinos,

dada na Sociedade de Paris – Os cretinos são seres punidos na Terra pelo

mau uso que fizeram de poderosas faculdades. Sua alma está aprisionada

num corpo, cujos órgãos impotentes não podem exprimir seu pensamen

to. Esse mutismo moral e físico é uma das mais cruéis punições terrestres,

muitas vezes escolhidas pelos Espíritos arrependidos que querem resgatar

na França num dos períodos mais turbulentos da sua história (1574–1589) , caracterizados pela into

lerância religiosa e pelas chamadas guerras de religião que tanto ensanguentaram o país.

suas faltas. Tal prova não é estéril, porque o Espírito não fica estacionário

na sua prisão de carne: os olhos hebetados veem, o cérebro deprimido

compreende, mas nada pode ser traduzido, nem pela palavra, nem pelo

olhar e, salvo o movimento, estão moralmente no estado dos letárgicos

e dos catalépticos, que veem e ouvem o que se passa ao seu redor sem

poderem exprimi-lo. Quando, em sonho, tendes esses terríveis pesadelos,

nos quais quereis fugir de um perigo, quando gritais para pedir socorro,

enquanto a língua fica presa à abóbada palatina e os pés ao solo, experi

mentais por alguns instantes o que o cretino experimenta sempre: paralisia

do corpo ligada à vida do Espírito.

Quase todas as enfermidades têm, assim, sua razão de ser; nada se faz

sem causa, e o que chamais injustiça da sorte é a aplicação da mais alta jus

tiça. A loucura também é uma punição pelo abuso de elevadas faculdades;

o louco tem duas personalidades, a delirante e a que retém a consciência de

seus atos, sem os poder dirigir. Quanto aos cretinos, a vida contemplativa

e isolada de suas almas, sem as distrações do corpo, também pode ser tão

agitada como as existências mais complicadas pelos acontecimentos; al

guns se revoltam contra seu suplício voluntário; lamentam tê-lo escolhido

e sentem um desejo furioso de voltar a uma outra vida, desejo que lhes faz

esquecer a resignação na vida presente e o remorso da vida passada, que

albergam na consciência, porquanto os cretinos e os loucos sabem mais

que vós, ocultando-se na sua incapacidade física uma força moral da qual

não fazeis a menor ideia. Os atos de furor ou de imbecilidade a que seus

corpos se entregam são julgados pelo ser interior, que sofre e se envergo

nha. Assim, ridicularizá-los, injuriá-los, mesmo maltratá-los, como às vezes

se faz com eles, é aumentar-lhes os sofrimentos, porque os faz sentir mais

duramente sua fraqueza e sua abjeção; se pudessem, acusariam de covardia

os que assim agem, pois sabem que suas vítimas não podem se defender.

O cretinismo não é uma Lei de Deus e a Ciência pode fazê-lo desapa

recer, porque é o resultado material da ignorância, da miséria e da imundí

cie. Os novos meios de higiene, que a Ciência, tornada mais prática, pôs ao

alcance de todos, tendem a destruí-lo. Sendo o progresso condição expressa

da humanidade, as provas impostas se modificarão e seguirão a marcha dos

séculos; tornar-se-ão todas morais; e quando a vossa Terra, ainda jovem,

tiver realizado todas as fases de sua existência, tornar-se-á uma morada de

felicidade, como outros planetas mais adiantados.

Pierre Jouty, pai do médium

Houve um tempo em que se pusera em dúvida a alma dos cretinos e se per

guntava se eles, realmente, pertenciam à espécie humana. A maneira por que o

Espiritismo os encara não é de alta moralidade e de grande ensinamento? Não

há matéria para sérias reflexões, ao pensar que esses corpos desgraçados encerram

almas que talvez tenham brilhado no mundo, que são tão lúcidas e tão pensantes

quanto as nossas, sob o espesso envoltório que lhes sufoca as manifestações e que,

um dia, o mesmo pode acontecer conosco, se abusarmos das faculdades que nos

concedeu a Providência?

De outro modo, como poderíamos explicar o cretinismo? Como fazê-lo concordar

com a justiça e a bondade de Deus, sem admitir a pluralidade das existências, isto

é, a reencarnação? Se a alma ainda não viveu, é que foi criada ao mesmo tempo

que o corpo. Nesta hipótese, como justificar a criação de almas tão deserdadas

quanto a dos cretinos, por parte de um Deus justo e bom? Porque aqui não se trata

absolutamente de um desses acidentes — a loucura, por exemplo — que se pode

prevenir ou curar. Esses seres nascem e morrem no mesmo estado. Não possuindo

nenhuma noção do bem e do mal, qual a sua sorte na eternidade? Serão felizes

como os homens inteligentes e trabalhadores? Mas por que este favor, se nada

fizeram de bom? Estarão naquilo a que chamam limbo, isto é, num estado misto,

que nem é felicidade nem infelicidade? Mas por que esta inferioridade eterna? É

sua culpa se Deus os criou cretinos? Desafiamos todos os que repelem a doutrina

da reencarnação a saírem desse impasse. Com a reencarnação, ao contrário, o que

parece uma injustiça torna-se admirável justiça; o que é inexplicável explica-se da

maneira mais racional.

Aliás, não sabemos se os que repelem esta doutrina a tenham combatido com

argumentos mais convincentes que o de sua repugnância pessoal em voltar à

Terra. Respondemos-lhe: para que volteis, Deus não vos pede permissão, assim

como o juiz, que não consulta a vontade do réu para enviá-lo à prisão. Todos

têm a possibilidade de não reencarnar, desde que se aperfeiçoem bastante para

fazerem jus a uma esfera mais elevada. O orgulho e o egoísmo não se compa

decem, porém, com essas esferas felizes, e daí a necessidade de todos se despo

jarem dessas enfermidades morais, para o que é preciso trabalhar se quiserem

alcançar essa meta.

Sabe-se que, em certos países, longe de serem objeto de desprezo, os deficientes

mentais são cercados de todos os cuidados. Tal sentimento não resultará de uma

intuição do verdadeiro estado desses infortunados, tanto mais dignos de atenção

quanto, por se verem repudiados na sociedade, seus Espíritos compreendem tal

contingência? Considera-se mesmo como favor e verdadeira bênção a presença de

um desses seres no seio da família.

Seria isso superstição? Talvez, porque nos ignorantes a superstição se confunde

com as ideias mais santas, por não lhe compreenderem o alcance. Em todos os

casos, porém, é para os parentes ocasião de exercerem a caridade, tanto mais me

ritória quanto mais pesado lhes seja esse encargo, de nenhuma compensação ma

terial. Há maior mérito em cercar de afetuosos cuidados uma criança infeliz do

que cuidar de um filho cujas qualidades ofereçam qualquer compensação. Sendo

a caridade desinteressada uma das virtudes mais agradáveis a Deus, atrai sempre a

sua bênção sobre os que a praticam. Esse sentimento inato e espontâneo vale por

esta prece: “Obrigado, meu Deus, por nos terdes dado como prova um ser fraco a

sustentar, um aflito a consolar.”

Adélaïde-Marguerite Gosse

Era uma humilde e pobre criada que vivia perto de Harfleur, na

Normandia. Aos 11 anos entrou para o serviço de ricos horticultores da

região. Poucos anos depois, uma inundação do rio Sena afogou todos os

animais! Em virtude de outras desgraças que sobrevieram, os patrões da

mocinha caíram na miséria! Solidária com a sorte que os atingira, Adélaïde

abafou a voz do egoísmo e, só ouvindo o generoso coração, obrigou-os a

aceitarem quinhentos francos de suas economias, continuando a servi-los

independentemente de salário. Depois da morte dos patrões, passou a

dedicar-se a uma filha que deixaram, viúva e sem recursos. Trabalhava

nos campos, recolhia o produto e, casando-se, reuniu os seus esforços aos

do marido, para manterem juntos a pobre mulher, a quem continuou a

chamar “sua patroa!”. Esta abnegação sublime durou cerca de meio sé

culo. A Sociedade de Emulação de Rouen não deixou no esquecimento

essa mulher digna de tanto respeito e admiração, outorgando-lhe uma

medalha de honra e uma recompensa em dinheiro; a este testemunho de

estima associaram-se as lojas maçônicas do Havre, oferecendo-lhe uma

pequena soma destinada ao seu bem-estar. Finalmente, a administração

local também se interessou por ela, delicadamente, de modo a não lhe

ferir a suscetibilidade.

Um ataque de paralisia arrebatou da Terra esse anjo de bondade,

instantânea e suavemente. Singelas, porém decentes, foram as últimas

homenagens prestadas à sua memória. O secretário da municipalidade foi

à frente do cortejo fúnebre.

(Sociedade de Paris, 27 de dezembro de 1861.)

EvocAção – Rogamos a Deus Todo-Poderoso que permita ao Espí

rito Marguerite Gosse a graça de comunicar-se conosco. – R. Sim, Deus

me concederá essa graça.

P. Estamos felizes por vos poder testemunhar a nossa admiração pela

vossa conduta na Terra, e esperamos que tanta abnegação tenha recebido a sua

recompensa. – R. Sim, Deus foi bom e misericordioso para com a sua serva.

Tudo quanto fiz e vos parece louvável era natural.

P. Podereis dizer-nos, para edificação nossa, qual a causa da humilde

condição que ocupastes na Terra? – R. Em duas encarnações sucessivas ocupei

posição bastante elevada, sendo-me fácil a prática do bem, que realizava

sem sacrifício, pois que era rica. Pareceu-me, porém, que me adiantava len

tamente, e por isso pedi para voltar nas condições mais humildes possíveis,

nas quais houvesse mesmo de lutar com as privações. Para isso me preparei

durante longo tempo, e Deus manteve-me a coragem, de modo a poder

atingir o fim a que me propusera.

P. Já tornastes a ver os antigos patrões? Dizei-nos qual a vossa posição

perante eles, e se ainda vos considerais subalterna daquela família. – R. Sim, eu

os revi, pois quando cheguei a este mundo eles já me aguardavam. Humil

demente vos confesso que me consideram como lhes sendo muito superior.

P. Tínheis algum motivo particular para vos afeiçoardes a eles, de pre

ferência a outras pessoas? – R. Nenhum motivo obrigatório, visto que em

qualquer parte teria alcançado o meu objetivo. Escolhi-os, no entanto,

para retribuir uma dívida de reconhecimento. É que outrora haviam sido

bons para comigo, prestando-me serviços.

P. Que futuro julgais que vos aguarde? – R. Espero a reencarnação

num orbe em que a dor seja desconhecida. Talvez me julgueis muito pre

sunçosa, porém eu vos falo com a vivacidade própria do meu caráter. Além

disso, submeto-me à vontade de Deus.

P. Gratos por terdes correspondido ao nosso apelo. Estamos certos de que

Deus vos cumulará de benefícios. – R. Obrigada. Que Deus vos abençoe a

todos, a fim de que possais, quando desencarnados, gozar das alegrias tão

puras que me foram concedidas.

Clara Rivier

Clara Rivier era uma menina de dez anos, filha de uma família de

camponeses que residia num vilarejo do sul da França. Havia já quatro

anos que se achava profundamente enferma. Durante toda a sua vida ja

mais soltou um único lamento, nem demonstrou o mais leve sinal de

impaciência. Embora sem instrução, consolava a família aflita, discorren

do sobre a vida futura e a felicidade que ali devia encontrar. Morreu em

setembro de 1862, após quatro dias de torturas e convulsões, durante as

quais não deixou de orar a Deus. Dizia ela: “Não temo a morte, porque

depois uma vida de felicidade me está reservada.” A seu pai, que chorava,

dizia: “Consola-te; virei te visitar. Minha hora está próxima, eu o sinto;

contudo, quando chegar, saberei e te prevenirei antes.” Com efeito, quan

do o momento fatal estava a ponto de realizar-se, chamou todos os seus

e disse: “Não tenho mais que cinco minutos de vida; dai-me as vossas

mãos.” E expirou, conforme anunciara.

Desde então, um Espírito batedor veio visitar a casa dos Rivier: que

bra tudo, bate na mesa como se tivesse uma clava; agita os lençóis e as

cortinas, mexe na louça... Este Espírito apareceu sob a forma de Clara à

irmãzinha desta, que tem apenas cinco anos. Segundo a criança, sua irmã

lhe falou muitas vezes, levando-a a soltar gritos de alegria e dizer: “Mas

vede como Clara está linda!”

1. EvocAção dE clArA riviEr – R. Estou junto a vós, disposta a

responder.

2. De onde vos vem, embora tão jovem e sem instrução, as ideias eleva

das que exprimíeis sobre a vida futura, antes de vossa morte? – R. Do pouco

tempo que devia passar no vosso globo e de minha precedente encarnação.

Eu era médium quando deixei a Terra e médium ao voltar entre vós. Era

uma predestinação; eu sentia e via o que dizia.

3. Como se explica que uma criança de vossa idade não desse um só

gemido durante quatro anos de sofrimentos? – R. Porque o sofrimento físico

era dominado por uma força maior, a do meu anjo da guarda, que eu via

continuamente perto de mim. Ele sabia aliviar tudo o que eu sentia; tornava

minha vontade mais forte que a dor.

4. Como fostes prevenida do instante da morte? – R. Meu anjo da guarda

mo dizia; ele jamais me enganou.

5. Dissestes ao vosso pai: “Consola-te; virei te visitar.” Como é possível

que, animada de tão bons sentimentos para com os familiares, vínheis ator

mentá-los após a morte, fazendo barulho em sua casa? – R. Sem dúvida eu

tive uma prova, ou, antes, uma missão a cumprir. Se venho rever meus

pais, credes que seja por nada? Esses ruídos, essa perturbação, essas lutas

ocasionadas pela minha presença são um aviso. Sou auxiliada por outros

Espíritos, cuja turbulência tem um alcance, como tenho o meu aparecen

do à minha irmã. Graças a nós, muitas convicções vão surgir. Meus pais

tinham uma prova a sofrer; ela logo cessará, mas somente depois de haver

levado a convicção a uma multidão de Espíritos.

6. Assim, não sois vós pessoalmente que causais essa perturbação? – R.

Sou auxiliada por outros Espíritos que servem à prova reservada a meus

queridos pais.

7. Como se explica que vossa irmã vos tenha reconhecido, se não sois vós

que produzis as manifestações? – R. Minha irmã só viu a mim. Ela dispõe

agora de segunda vista e não será a última vez que minha presença virá

consolá-la e encorajá-la.

8. Por que, tão jovem ainda, fostes afligida por tantas enfermidades? – R. Eu tinha faltas anteriores a expiar; tinha abusado da saúde e da bri

lhante posição que desfrutava na precedente encarnação. Então Deus me

disse: “Gozaste intensamente, excessivamente: sofrerás do mesmo modo;

eras orgulhosa: serás humilde; eras vaidosa da tua beleza: serás reduzida a

nada; em vez da vaidade, esforçar-te-ás por adquirir a caridade e a bon

dade.” Fiz segundo a vontade de Deus e meu anjo da guarda me ajudou.

9. Gostaríeis de dizer algo aos vossos pais? – R. A pedido de um mé

dium, meus pais fizeram muita caridade; estavam certos em nem sempre

orar apenas com os lábios: é preciso fazê-lo com a mão e o coração. Dar aos

que sofrem é orar; é ser espírita. O livre-arbítrio foi dado por Deus a todas

as almas, isto é, a faculdade de progredir; a todos deu a mesma aspiração e

é por isso que o sofrimento atinge mais de perto os felizardos da Terra do que

geralmente se pensa. Assim, aproximai as distâncias pela caridade; introduzi

o pobre em vossa casa, encorajai-o, levantai-o, não o humilheis. Se em toda

a parte se soubesse praticar essa grande lei da consciência, não se teria, em

determinadas épocas, essas grandes misérias que desonram os povos civili

zados, e que Deus envia para os castigar e lhes abrir os olhos.

Caros pais, orai a Deus; amai-vos; praticai a lei do Cristo: não fa

zer aos outros o que não gostaríeis que vos fosse feito. Implorai a Deus

que vos prove, mostrando que a sua vontade é santa e grande como Ele.

Preparai-vos para o futuro, armados de coragem e perseverança, porquan

to ainda sois chamados a sofrer. É preciso saber merecer uma boa posição

num mundo melhor, onde a compreensão da Justiça divina se transforma

na punição dos Espíritos maus. Estarei sempre ao vosso lado, caros pais.

Adeus, ou melhor, até logo. Tende resignação, praticai a caridade e o amor

aos semelhantes e um dia sereis felizes.

Clara

Eis um belo pensamento: “O sofrimento atinge mais de perto os felizardos da

Terra do que geralmente se pensa.” É uma alusão aos Espíritos que, de uma

existência a outra, passam de uma posição brilhante a outra humilde e miserável,

pois muitas vezes expiam, num meio ínfimo, o abuso dos dons que Deus lhes

concedera. É uma justiça que todos compreendem.

Outro pensamento não menos profundo é o que atribui as calamidades dos povos à

infração da Lei de Deus, porque Deus castiga os povos como castiga os indivíduos. É

certo que se praticassem a lei de caridade, não haveria guerras, nem grandes misérias.

É à prática dessa lei que conduz o Espiritismo. Será por isso que encontra inimigos tão

obstinados? Porventura as palavras dessa mocinha a seus pais serão as de um demônio?

Françoise Vernhes

Cega de nascença, filha de um caseiro das cercanias de Toulouse,

faleceu em 1855, aos 45 anos. Ocupava-se constantemente com o ensino

do catecismo às crianças, a fim de prepará-las para a primeira comunhão.

Mudado o catecismo, nenhuma dificuldade lhe sobreveio em ensinar o

novo, por conhecê-los ambos de cor. Certa noite de inverno, ao regressar

de longa excursão em companhia de uma tia, era-lhe preciso atravessar

sombria floresta por caminhos precários e lamacentos. Precisavam andar

com cuidado para não se despenharem nos fossos. Querendo a tia conduzi--la pela mão, ela disse: “Não vos incomodeis comigo, não corro risco al

gum, visto como tenho aos ombros uma luz que me guia. Segui-me, pois,

que serei eu a conduzir-vos.” Assim terminaram a jornada sem incidentes:

a cega, que nada via, conduzia a tia, que tinha bons olhos.

(Evocação em Paris, em maio de 1865.)

P. Quereis dizer-nos que luz seria essa a vos guiar naquela noite escura

e só vista por vós? – R. O quê! Então as pessoas como vós, em contínuas

relações com os Espíritos, precisam de explicação sobre tal fato? Quem me

guiava era o meu anjo da guarda.

P. Essa era também a nossa opinião, mas desejávamos vê-la confirmada.

Mas sabíeis naquela ocasião que era o vosso anjo da guarda quem vos condu

zia? – R. Confesso que não, embora acreditasse numa intervenção do céu.

Eu orara por tanto tempo para que o Pai celestial se apiedasse de mim...

É tão cruel a cegueira... Sim, ela é bem cruel, mas também reconheço ser

justa. Aqueles que pecam pelos olhos, por eles devem ser punidos, assim

como todas as outras faculdades do homem, que o levam ao abuso. Não

procureis, portanto, nos inúmeros sofrimentos que afligem a humanidade,

outra causa que não lhes seja a própria e natural: a expiação. Esta, contudo,

só é meritória quando suportada com humildade, podendo ser suavizada

por meio da prece, pela atração de influências espirituais que, protegendo

os réus da penitenciária humana, lhes infundem esperança e conforto.

P. Dedicada ao ensino das crianças pobres, tivestes dificuldade em ad

quirir os conhecimentos do catecismo, quando o mudaram? – R. Em geral, os

cegos têm outros sentidos duplos, se assim se pode dizer. A observação não

é uma das menores faculdades da natureza. A memória lhes é qual armário

onde se colocam, ordenados e para sempre, os ensinos referentes às suas

aptidões e tendências. E porque nada do exterior pode perturbar esta facul

dade, o seu desenvolvimento pode ser notável, pela educação. Tal não era o

meu caso, pois eu não havia recebido educação. Quanto a mim, agradeço

a Deus a concessão de tal faculdade, por me permitir preencher a missão

que levava, junto dessas crianças, e que constituía também uma reparação

do mau exemplo que lhes dera em existência anterior. Tudo é assunto sério

para os espíritas; eles não têm senão que olhar ao derredor deles. Os meus

ensinos lhes seriam mais úteis do que se se deixassem levar pelas sutilezas

filosóficas de certos Espíritos, que se divertem em lisonjear-lhes o orgulho

por meio de frases tão bombásticas quão vazias de sentido.

P. Pela vossa conduta terrena, tivemos uma prova do vosso adiantamento

moral, e agora, pela vossa linguagem, temos a de que esse adiantamento tam

bém é intelectual. – R. Muito me resta por adquirir. Há, porém, muita gen

te que na Terra passa por ignorante, só porque tem a inteligência embotada

pela expiação. Com a morte se rasga o véu, e frequentemente os ignorantes

são mais instruídos do que os desdenhosos da sua ignorância. Crede que

o orgulho é a pedra de toque para o reconhecimento dos homens. Todos

os que possuírem coração acessível à lisonja, e demasiada confiança na sua

ciência, estão no mau caminho; em geral são hipócritas e, portanto, des

confiai deles. Sede humildes tal qual o foi o Cristo e, como Ele, carregai

com amor a vossa cruz, a fim de subirdes ao reino dos céus.

Françoise Vernhes

Anna Bitter

A perda de um filho adorado é motivo de cruciante pesar; ver,

porém, o filho único, alvo de todas as esperanças, depositário de todas

as afeições, definhar a olhos vistos e sem sofrimentos, por causas desco

nhecidas, por um desses caprichos da natureza que zombam da Ciên

cia e, depois de esgotar todos os recursos, não haver por compensação

uma esperança sequer; suportar essa angústia de todos os momentos, por

longos anos, sem lhe prever o termo, é um suplício cruel que a fortuna

agrava em vez de suavizar, dada a impossibilidade de vê-la fruída pelo

ente adorado.

Esta era a situação do pai de Anna Bitter, que por isso se entregou a

um íntimo desespero. Seu caráter se exasperava cada vez mais diante de tal

espetáculo, cujo desfecho só poderia ser fatal, ainda que indeterminado.

Um amigo da família, adepto do Espiritismo, julgou dever interrogar a

respeito o seu protetor espiritual, obtendo a seguinte resposta:

“Muito desejo explicar-te o estranho fenômeno que ora te preocupa,

porque sei que a mim não recorres por curiosidade indiscreta, mas pelo

interesse que te merece aquela pobre criança, e ainda porque, crente na

Justiça divina, só terás a ganhar com isso. Aqueles que são alcançados pela

justiça do Senhor devem curvar a fronte sem maldições nem revoltas, por

que não há castigo sem causa. A pobre criança, cuja sentença de morte fora

suspensa por Deus, em breve deverá regressar ao nosso meio, visto como

mereceu a divina compaixão; quanto ao seu pai, esse homem infeliz, tem

de ser punido na sua única afeição mundana, visto haver zombado da con

fiança e dos sentimentos de quantos o rodeiam. Por momentos o seu sofri

mento tocou o Todo-Poderoso e a morte sustou o golpe sobre o ente que

lhe é tão caro; mas para logo veio a revolta, e o castigo sempre acompanha

a revolta. Felizes os que são punidos nesse mundo! Orai, meus amigos, por

essa pobre criança, cuja juventude vai dificultar-lhe os últimos momentos.

A seiva é tão abundante nesse pobre ser que, apesar do seu enfraquecimen

to orgânico, sua alma terá dificuldade em se desprender. Oh! Orai... Mais

tarde ela também vos auxiliará e consolará, visto que o seu Espírito é mais

adiantado do que o das pessoas que a rodeiam. Para que o seu desprendi

mento seja auxiliado, coube-me, como graça especial do Senhor, o poder

de orientar-vos a respeito.”

Depois de haver expiado o vácuo do insulamento, provocado pela perda da filha,

morreu também o pai de Anna Bitter. A seguir, damos de cada um deles as primei

ras comunicações imediatas às respectivas desencarnações:

A filha – “Obrigado, meu amigo, por vos interessardes por esta po

bre criança, bem como por terdes seguido os conselhos do vosso bom guia.

Sim, graças às vossas preces pude deixar mais facilmente o meu envoltório

terreno, porque meu pai... Ah! esse não orava, maldizia! Entretanto, não

lhe quero mal por isso, pois tudo resultava da grande ternura que nutria

por mim. Rogo a Deus que lhe conceda luzes antes de morrer; e quanto

a mim, o incito e animo; minha missão é suavizar os seus últimos mo

mentos. Por vezes um raio de luz divina parece baixar até ele e o comove,

não passando, contudo, de fugaz clarão, que para logo o deixa entregue às

primeiras ideias. Ele tem consigo um germe de fé, mas tão abafado pelos

interesses mundanos, que só poderá vingar por meio de novas e mais cruéis

provações. Pelo que me dizia respeito, apenas devia suportar um resto de

prova, de expiação, e assim é que ela não foi nem muito dolorosa, nem

muito difícil. A minha singular enfermidade não acarretava sofrimentos;

eu era antes um instrumento da provação de meu pai, o qual, por me ver

em tal estado, sofria mais do que eu mesma. Além disso, eu tinha resig

nação, e ele não. Hoje sou recompensada. Deus concedeu-me a graça de

abreviar minha estada na Terra, pelo que muito lhe agradeço. Feliz entre os

Espíritos bons que me cercam, cumprimos satisfeitos as nossas obrigações,

mesmo porque a inatividade seria um suplício bastante cruel.”

O pai [um mês depois da morte] – P. Evocando-vos, temos por fim nos

informarmos da vossa situação no mundo dos Espíritos e vos ser úteis na medi

da das nossas forças. – R. O mundo dos Espíritos? Não o vejo... O que vejo

são homens conhecidos, que comigo não se preocupam e tampouco me

deploram a sorte, antes me parecendo contentes de se verem livres de mim.

P. Tendes consciência da situação em que vos encontrais? – R. Perfeita

mente. Por algum tempo julguei-me ainda no vosso mundo, mas hoje sei

muito bem que já não lhe pertenço.

P. Por que, então, não podeis divisar outros Espíritos que vos rodeiam? – R. Ignoro-o, embora tudo esteja bem claro em torno de mim.

P. Ainda não vistes a vossa filha? – R. Não, ela está morta; procuro-a,

chamo por ela inutilmente. Que vácuo horrível a sua morte me deixou

na Terra! Morrendo, julgava encontrá-la, mas nada! Sempre isolado!

Ninguém me dirige uma palavra de consolação e de esperança. Adeus;

vou procurar minha filha.

o guiA do médium – Este homem não era ateu nem materialista,

mas daqueles que creem vagamente, sem se preocuparem com Deus e com

o futuro, visto que se deixam absorver pelos interesses terrenos. Profun

damente egoísta, sacrificaria tudo para salvar a filha, mas também sem o

mínimo escrúpulo sacrificaria os interesses de terceiros em seu proveito

pessoal. Não se interessava por ninguém, além da filha. Deus o puniu da

forma como o vistes, arrebatando-lhe da Terra a única consolação; e como

ele não se arrependesse, o sequestro subsiste no mundo espiritual. Não se

interessando por ninguém no planeta, também aqui ninguém se interessa

por ele. Permanece só, abandonado, e nisso consiste a sua punição. Sua

filha, entretanto, está junto dele, embora não a veja; se a visse não seria

punido. Mas que faz ele em tais conjunturas? Dirige-se a Deus? Arrepende--se? Não; murmura sempre, blasfema até, fazendo, em síntese, o que fazia

na Terra. Ajudai-o, pois, pela prece e por meio de bons conselhos, a fim de

que se liberte da sua cegueira.

Joseph Maître, o cego

Joseph Maître pertencia à classe média da sociedade e gozava de modes

ta abastança, ao abrigo de quaisquer privações. Os pais o destinavam à indús

tria e lhe deram boa educação, porém, aos 20 anos, ele perdia a visão. Morreu

em 1845, com cerca de 50 anos. Dez anos antes fora acometido por outra

enfermidade que o deixou completamente surdo, de modo que só com o tato

mantinha relações com o mundo dos encarnados. Não ver, já é um suplício;

não ver e não ouvir é duplo suplício, principalmente para quem, depois de

fruir as faculdades de tais sentidos, tiver de suportar essa dupla privação. Qual

a razão de sorte tão cruel? Por certo não era a sua última existência, cuja

conduta fora sempre exemplar. Sempre foi bom filho, possuidor de caráter

meigo e benévolo e, quando por cúmulo de infelicidade, se viu privado da

audição, aceitou a nova prova com resignação, sem que ninguém jamais o

visse queixar-se de tal situação. Sua conversação denotava perfeita lucidez de

espírito e uma inteligência pouco comum. Uma pessoa que o conhecera, na

presunção de que poderia receber instruções úteis, evocou-lhe o Espírito e

obteve a seguinte mensagem, em resposta às perguntas que lhe dirigira:

(Paris, 1863.)

“Agradeço, meus amigos, por vos terdes lembrado de mim, embora

talvez nem sequer pensásseis em evocar-me, se motivos sérios não vos ani

massem, de modo que atendo ao chamado com prazer, feliz por poder servir

à vossa instrução. Assim, possa o meu exemplo contribuir para tornar mais

patentes as provas, já por si tão numerosas, que os Espíritos vos dão da Justiça

de Deus. Cego e surdo me conhecestes e para logo vos propusestes saber a

causa de tal destino. Eu vo-lo digo: antes de tudo, importa dizer que era a

segunda vez que eu expiava a privação da vista. Na minha precedente existên

cia, em princípios do século VINTE E OITO, fiquei cego aos 30 anos, em decorrência

de excessos de todo o gênero que, arruinando-me a saúde, me enfraquece

ram o organismo. Já era uma punição por abuso dos dons providenciais de

que fora largamente cumulado. Em lugar, porém, de me reconhecer como

causador original dessa enfermidade, julguei por bem acusar a Providência,

na qual, aliás, pouco acreditava. Blasfemei contra Deus, reneguei-o, acusei-o,

acrescentando que, se acaso Ele existisse, devia ser injusto e mau, visto deixar

assim sofrer as criaturas. Entretanto, eu deveria dar-me ainda por feliz, isento

que estava de mendigar o pão, como tantos outros míseros cegos como eu.

Mas eu só pensava em mim, na privação de gozos que me impunham. Do

minado por tais ideias e pela falta de fé, tornei-me rabugento, exigente, insu

portável aos que comigo privavam. Além disso, a vida já não tinha qualquer

objetivo para mim. Não pensava no futuro, que considerava uma quimera.

Depois de esgotar inutilmente todos os recursos da Ciência, e certificando-me

de que a cura era impossível, resolvi antecipar a morte: suicidei-me. Quando

despertei, achava-me imerso nas mesmas trevas da vida! Não tardei, contudo,

a reconhecer que não pertencia mais ao mundo corpóreo. Era um Espírito,

sim, mas cego! A vida de além-túmulo era, pois, uma realidade! Em vão tentei

fugir-lhe para lançar-me no nada. Envolvia-me o vácuo. Se essa vida deveria

ser eterna, pelo que ouvia dizer, eu deveria ficar eternamente nessa situação?

Sempre cego? Ideia horrível! Eu não sofria, mas é impossível descrever os tor

mentos e as angústias que tomaram conta do meu Espírito. Quanto tempo

eles teriam durado? Ignoro-o... Mas como esse tempo me pareceu longo!

“Extenuado, fatigado, pude finalmente analisar-me e compreendi o

ascendente de um poder superior que atuava sobre mim, considerando que

se essa potência podia oprimir-me, também poderia aliviar-me, e implorei

piedade. À medida que orava e meu fervor aumentava, alguém me dizia

que a minha cruel situação teria um termo. Por fim se fez a luz e extremo

foi o meu arroubamento ao entrever as claridades celestes, distinguindo os

Espíritos que me rodeavam, sorrindo, benévolos, bem como os que, radio

sos, flutuavam no espaço. Quis seguir-lhes os passos, mas força invisível

me reteve. Foi então que um deles me disse: ‘O Deus que negaste se com

padeceu do teu arrependimento e permitiu-nos que te déssemos a luz, mas

tu só cedeste pelo sofrimento, pelo cansaço. Se de agora em diante quiseres

participar desta felicidade aqui fruída, é preciso provares a sinceridade do

teu arrependimento e dos teus bons sentimentos, recomeçando a prova ter

restre em condições que te predisponham às mesmas faltas, porque esta nova

provação deverá ser mais rude ainda que a primeira’. Aceitei pressuroso,

prometendo não mais falir.

“Assim voltei à Terra na existência que conheceis. Não me foi di

fícil ser bom, visto que não era mau por natureza. Revoltara-me contra

Deus, e Deus me puniu. Reencarnei trazendo a fé inata, razão por que

não murmurei, antes aceitei a dupla enfermidade, resignado, como expia

ção que era, cuja fonte emanava da Soberana Justiça. O insulamento dos

meus derradeiros anos nada tinha de desesperador, porque acreditava no

futuro e confiava na misericórdia de Deus. Ademais, esse isolamento me

foi proveitoso, porque durante a longa noite silenciosa a minha alma mais

livremente se alçava ao Eterno, entrevendo o infinito pelo pensamento.

Quando, por fim, terminou o exílio, o mundo espiritual só me proporcio

nou esplendores, inefáveis gozos.

“Hoje, analisando o meu passado, julgo-me relativamente muito fe

liz, pelo que dou graças a Deus; quando, porém, olho para o futuro, vejo

a grande distância que ainda me separa da completa felicidade. Expiei,

mas ainda me faltava reparar. A última encarnação só foi proveitosa para

mim. Espero recomeçar brevemente uma existência em que possa ser útil

aos semelhantes, reparando por esse meio a inutilidade anterior. Somente

então me adiantarei no bom caminho, aberto a todos os Espíritos de boa

vontade. Eis a minha história, amigos; e se o meu exemplo puder esclarecer

alguns dos meus irmãos encarnados, de modo a evitar o atoleiro em que

caí, terei por iniciado o resgate da minha falta.”

Joseph