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Caráter da revelação espírita

1. Pode o Espiritismo ser considerado uma revelação? Neste caso,

qual o seu caráter? Em que se funda a sua autenticidade? A quem e de que

maneira foi ela feita? É a Doutrina Espírita uma revelação, no sentido teo

lógico da palavra, ou por outra, é, no seu todo, o produto do ensino oculto

vindo do Alto? É absoluta ou suscetível de modificações? Trazendo aos ho

mens a verdade integral, a revelação não teria por efeito impedi-los de fazer

uso das suas faculdades, pois que lhes pouparia o trabalho da investigação?

Qual a autoridade do ensino dos Espíritos, se eles não são infalíveis e supe

riores à humanidade? Qual a utilidade da moral que pregam, se essa moral

não é diversa da do Cristo, já conhecida? Quais as verdades novas que eles

nos trazem? Precisará o homem de uma revelação? E não poderá achar em

si mesmo e em sua consciência tudo quanto é mister para se conduzir na

vida? Tais as questões que importa nos fixemos.

2. Definamos primeiro o sentido da palavra revelação. Revelar, do

latim revelāre, cuja raiz, vēlum, véu, significa literalmente sair de sob o véu

— e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou des

conhecida. Em sua acepção vulgar mais genérica, essa palavra se emprega

a respeito de qualquer coisa ignota que é divulgada, de qualquer ideia

nova que nos põe ao corrente do que não sabíamos.

Deste ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os

mistérios da natureza são revelações e pode dizer-se que há para a huma

nidade uma revelação incessante. A Astronomia revelou o mundo astral,

que não conhecíamos; a Geologia revelou a formação da Terra; a Química,

a lei das afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo etc.; Copérnico,

Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier foram reveladores.

3. A característica essencial de qualquer revelação tem que ser a verda

de. Revelar um segredo é tornar conhecido um fato; se é falso, já não é um

fato e, por consequência, não existe revelação. Toda revelação desmentida

por fatos deixa de o ser, se for atribuída a Deus. Não podendo Deus mentir,

nem se enganar, ela não pode emanar dele: deve ser considerada produto

de uma concepção humana.

4. Qual o papel do professor diante dos seus discípulos, senão o de

um revelador? O professor lhes ensina o que eles não sabem, o que não

teriam tempo, nem possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a

Ciência é obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que

trazem, cada qual, o seu contingente de observações aproveitáveis àqueles

que vêm depois. O ensino é, portanto, na realidade, a revelação de certas

verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que

as conhecem a outros que as ignoram e que, se assim não fora, as teriam

ignorado sempre.

5. Mas o professor não ensina senão o que aprendeu: é um revelador

de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que descobriu por si mes

mo: é o revelador primitivo; traz a luz que pouco a pouco se vulgariza. Que

seria da humanidade sem a revelação dos homens de gênio, que aparecem

de tempos a tempos?

Mas quem são esses homens de gênio? E por que são homens de

gênio? Donde vieram? Que é feito deles? Notemos que na sua maioria traz,

ao nascer, faculdades transcendentes e alguns conhecimentos inatos, que

com pouco trabalho desenvolvem. Pertencem realmente à humanidade,

pois nascem, vivem e morrem como nós. Onde, porém, adquiriram esses

conhecimentos que não puderam aprender durante a vida? Dir-se-á, com

os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quanti

dade e de melhor qualidade? Neste caso, não teriam mais mérito que um

legume maior e mais saboroso do que outro.

Dir-se-á, como certos espiritualistas, que Deus lhes deu uma alma

mais favorecida que a do comum dos homens? Suposição igualmente iló

gica, pois que tacharia Deus de parcial. A única solução racional do pro

blema está na preexistência da alma e na pluralidade das vidas. O homem

de gênio é um Espírito que tem vivido mais tempo; que, por conseguinte,

adquiriu e progrediu mais do que aqueles que estão menos adiantados. En

carnando, traz o que sabe e, como sabe muito mais do que os outros e não

precisa aprender, é chamado homem de gênio. Mas seu saber é fruto de um

trabalho anterior e não resultado de um privilégio. Antes de renascer, era

ele, pois, Espírito adiantado: reencarna para fazer que os outros aproveitem

do que já sabe, ou para adquirir mais do que possui.

Os homens progridem incontestavelmente por si mesmos e pelos

esforços da sua inteligência; mas, entregues às próprias forças, só muito

lentamente progrediriam, se não fossem auxiliados por outros mais adian

tados, como o estudante o é pelos professores. Todos os povos tiveram

homens de gênio, surgidos em diversas épocas, para dar-lhes impulso e

tirá-los da inércia.

6. Desde que se admite a solicitude de Deus para com as suas cria

turas, por que não se há de admitir que Espíritos capazes, por sua energia

e superioridade de conhecimento, de fazerem que a humanidade avance,

encarnem pela vontade de Deus, com o fim de ativarem o progresso em

determinado sentido? Por que não admitir que eles recebam missões, como

um embaixador as recebe do seu soberano? Tal o papel dos grandes gênios.

Que vêm eles fazer, senão ensinar aos homens verdades que estes ignoram

e ainda ignorariam durante largos períodos, a fim de lhes dar um ponto de

apoio mediante o qual possam elevar-se mais rapidamente? Esses gênios,

que aparecem através dos séculos como estrelas brilhantes, deixando longo

traço luminoso sobre a humanidade, são missionários ou, se o quiserem,

messias. O que de novo ensinam aos homens, quer na ordem física, quer

na filosófica, são revelações.

Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, pode, com

mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que constituem ele

mentos essenciais do progresso. Tais são os filósofos cujas ideias atravessam

os séculos.

7. No sentido especial da fé religiosa, a revelação se diz mais particu

larmente das coisas espirituais que o homem não pode descobrir por meio

da inteligência, nem com o auxílio dos sentidos; e esse conhecimento lhe

dão Deus ou seus mensageiros, quer por meio da palavra direta, quer pela

inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens predispostos,

designados sob o nome de profetas ou messias, isto é, enviados ou missioná

rios, incumbidos de transmiti-la aos homens. Considerada debaixo deste

ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta e é aceita sem

verificação, sem exame, nem discussão.

8. Todas as religiões tiveram seus reveladores e estes, embora longe

estivessem de conhecer toda a verdade, tinham uma razão de ser provi

dencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao

caráter particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente

superiores.

Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram de agitar os es

píritos e, por isso mesmo, de semear os germens do progresso, que mais

tarde haviam de desabrochar, ou desabrochariam um dia sob o sol do

Cristianismo.

É, pois, injusto se lhes lance anátema em nome da ortodoxia, por

que dia virá em que todas essas crenças, tão diversas na forma, mas que

repousam realmente sobre um mesmo princípio fundamental — Deus e a

imortalidade da alma, se fundirão numa grande e vasta unidade, logo que

a razão triunfe dos preconceitos.

Infelizmente, as religiões hão sido sempre instrumentos de domina

ção; o papel de profeta há tentado as ambições secundárias, e tem-se visto

surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias, que, valendo-se

do prestígio deste nome, têm explorado a credulidade em proveito do seu

orgulho, da sua ganância, ou da sua indolência, achando mais cômodo

viver à custa dos iludidos. A religião cristã não pôde evitar esses parasitas.

9. Haverá revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão

que não ousaríamos resolver, nem afirmativamente, nem negativamente,

de maneira absoluta. O fato não é radicalmente impossível, porém, nada

nos dá dele prova certa. O que não padece dúvida é que os Espíritos mais

próximos de Deus pela perfeição se imbuem do seu pensamento e podem

transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hie

rárquica a que pertencem e o grau a que chegaram de saber, esses podem

tirar dos seus próprios conhecimentos as instruções que ministram, ou

recebê-las de Espíritos mais elevados, mesmo dos mensageiros diretos de

Deus, os quais, falando em nome de Deus, têm sido às vezes tomados pelo

próprio Deus.

As comunicações deste gênero nada têm de estranho para quem

conhece os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as

relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser

transmitidas por diversos meios: pela simples inspiração, pela audição da

palavra, pela visibilidade dos Espíritos instrutores, nas visões e aparições,

quer em sonho, quer em estado de vigília, do que há muitos exemplos na

Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos.

É, pois, rigorosamente exato dizer-se que quase todos os reveladores

são médiuns inspirados, audientes ou videntes. Daí, entretanto, não se

deve concluir que todos os médiuns sejam reveladores, nem, ainda menos,

intermediários diretos da divindade ou dos seus mensageiros.

10. Só os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão

de transmiti-la; mas sabe-se hoje que nem todos os Espíritos são perfeitos

e que existem muitos que se apresentem sob falsas aparências, o que levou

João a dizer: “Não acrediteis em todos os Espíritos; vede antes se os Espíri

tos são de Deus.” (1a Epístola, 4:1.)

Pode, pois, haver revelações sérias e verdadeiras como as há apócrifas

e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade.

Toda revelação eivada de erros ou sujeita a modificação não pode emanar de

Deus. É assim que a Lei do Decálogo tem todos os caracteres de sua ori

gem, enquanto as outras leis moisaicas, fundamentalmente transitórias,

muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política

do legislador hebreu. Com o abrandarem-se os costumes do povo, essas leis

por si mesmas caíram em desuso, ao passo que o Decálogo ficou sempre

de pé, como farol da humanidade. O Cristo fez dele a base do seu edifício,

abolindo as outras leis. Se estas fossem obra de Deus, seriam conservadas

intactas. O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que muda

ram a face ao mundo e nisso está a prova da sua missão divina. Uma obra

puramente humana careceria de tal poder.

11. Importante revelação se opera na época atual e mostra a possibili

dade de nos comunicarmos com os seres do mundo espiritual. Não é novo,

sem dúvida, esse conhecimento; mas ficara até os nossos dias, de certo

modo, como letra morta, isto é, sem proveito para a humanidade. A igno

rância das leis que regem essas relações estava abafada sob a superstição; o

homem era incapaz de tirar daí qualquer dedução salutar; estava reservado

à nossa época desembaraçá-las dos acessórios ridículos, compreender-lhes

o alcance e fazer surgir delas a luz destinada a clarear o caminho do futuro.

12. O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo invisível que nos

cerca e no meio do qual vivíamos sem o suspeitarmos, assim como as leis

que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos

seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da

morte, é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.

13. Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa

ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da

revelação divina, porque foi providencial o seu aparecimento e não o resul

tado da iniciativa, nem de um desígnio premeditado do homem; porque os

pontos fundamentais da Doutrina provêm do ensino que deram os Espíri

tos encarregados por Deus de esclarecer os homens acerca de coisas que eles

ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa

conhecer, hoje que estão aptos a compreendê-las. Participa da revelação

científica, por não ser esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas sim

ministrado a todos do mesmo modo; por não serem os que o transmitem e

os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho da observação e da

pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não

lhes é interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque

a Doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega, porque é

deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espí

ritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que o

homem estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as ilações e

aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divi

na a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do

trabalho do homem.

14. Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da

mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental.

Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhe

cidas; o Espiritismo os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos

às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz-lhes as consequências e

busca as aplicações úteis. Não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; as

sim, não apresentou como hipóteses a existência e a intervenção dos Espí

ritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios

da Doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos, quando essa existência

ressaltou evidente pela observação dos fatos, procedendo de igual maneira

quanto aos outros princípios. Não foram os fatos que vieram a posteriori

confirmar a teoria: a teoria é que veio subsequentemente explicar e resumir

os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma

ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram

progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o mé

todo experimental; até então acreditou-se que esse método também só era

aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.

15. Citemos um exemplo: Passa-se no mundo dos Espíritos um fato

muito singular, de que seguramente ninguém houvera suspeitado: o de

haver Espíritos que se não consideram mortos. Pois bem, os Espíritos su

periores, que conhecem perfeitamente esse fato, não vieram dizer anteci

padamente: “Há Espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que con

servam seus gostos, costumes e instintos.” Provocaram a manifestação de

Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo-se visto Espíri

tos incertos quanto ao seu estado, ou afirmando ainda serem deste mundo,

julgando-se aplicados às suas ocupações ordinárias, deduziu-se a regra. A

multiplicidade de fatos análogos demonstrou que o caso não era excepcio

nal, que constituía uma das fases da vida espírita; pode-se então estudar

todas as variedades e as causas de tão singular ilusão, reconhecer que tal

situação é sobretudo própria de Espíritos pouco adiantados moralmente e

peculiar a certos gêneros de morte; que é temporária, podendo, todavia,

durar semanas, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação.

O mesmo se deu com relação a todos os outros princípios da Doutrina.

16. Assim como a Ciência propriamente dita tem por objeto o

estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é

o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último

princípio é uma das forças da natureza, a reagir incessantemente sobre o

princípio material e reciprocamente, segue-se que o conhecimento de um

não pode estar completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a

Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha

na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao

Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. O estudo das

leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria

é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das

descobertas científicas, teria abortado, como tudo quanto surge antes do

tempo.

17. Todas as ciências se encadeiam e sucedem numa ordem racional;

nascem umas das outras, à proporção que acham ponto de apoio nas ideias

e conhecimentos anteriores. A Astronomia, uma das primeiras cultivadas,

conservou os erros da infância, até o momento em que a Física veio reve

lar a lei das forças dos agentes naturais; a Química, nada podendo sem a

Física, teve de acompanhá-la de perto, para depois marcharem ambas de

acordo, amparando-se uma à outra. A Anatomia, a Fisiologia, a Zoologia,

a Botânica, a Mineralogia, só se tornaram ciências sérias com o auxílio das

luzes que lhes trouxeram a Física e a Química. À Geologia nascida ontem,

sem a Astronomia, a Física, a Química e todas as outras, teriam faltado

elementos de vitalidade; ela só podia vir depois daquelas.

18. A Ciência moderna refutou os quatro elementos primitivos2 dos

antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um só

elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria,

por si só, é inerte; carecendo de vida, de pensamento, de sentimento, pre

cisa estar unida ao princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu, nem

inventou este princípio; mas foi o primeiro a demonstrá-lo por provas in

concussas; estudou-o, analisou-o e tornou-lhe evidente a ação. Ao elemento

material, juntou ele o elemento espiritual. Elemento material e elemento espi

ritual, esses os dois princípios, as duas forças vivas da natureza. Pela união

indissolúvel deles, facilmente se explica uma multidão de fatos até então

inexplicáveis.3

O Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos

constitutivos do universo, toca forçosamente na maior parte das ciências;

só podia, portanto, vir depois da elaboração delas; nasceu pela força mes

ma das coisas, pela impossibilidade de tudo se explicar com o auxílio ape

nas das leis da matéria.

19. Acusam-no de parentesco com a magia e a feitiçaria; porém, es

quecem que a Astronomia tem por irmã mais velha a Astrologia judiciária,

ainda não muito distante de nós; que a Química é filha da Alquimia, com

a qual nenhum homem sensato ousaria hoje ocupar-se. Ninguém nega,

entretanto, que na Astrologia e na Alquimia estivesse o gérmen das ver

dades de que saíram as ciências atuais. Apesar das suas ridículas fórmu

las, a Alquimia encaminhou a descoberta dos corpos simples e da lei das

afinidades. A Astrologia se apoiava na posição e no movimento dos astros,

que ela estudara; mas, na ignorância das verdadeiras leis que regem o me

canismo do universo, os astros eram, para o vulgo, seres misteriosos aos

quais a superstição atribuía uma influência moral e um sentido revelador.

Quando Galileu, Newton e Kepler tornaram conhecidas essas leis, quan

do o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um

olhar que algumas criaturas acharam indiscreto, os planetas apareceram

como simples mundos semelhantes ao nosso e todo o castelo do maravi

lhoso desmoronou.

O mesmo se dá com o Espiritismo, relativamente à magia e à fei

tiçaria, que se apoiavam também na manifestação dos Espíritos, como a

Astrologia no movimento dos astros; mas, ignorantes das leis que regem

o mundo espiritual, a magia e a feitiçaria misturavam nessas relações espi

rituais práticas e crenças ridículas, com as quais o moderno Espiritismo,

fruto da experiência e da observação, acabou. Certamente, a distância que

separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior do que a que existe

entre a Astronomia e a Astrologia, a Química e a Alquimia. Confundi-las

é provar que de nenhuma se sabe patavina.

20. O simples fato de poder o homem comunicar-se com os seres do

mundo espiritual traz consequências incalculáveis da mais alta gravidade; é

todo um mundo novo que se nos revela e que tem tanto mais importância,

quanto a ele hão de voltar todos os homens, sem exceção.

O conhecimento de tal fato não pode deixar de acarretar, genera

lizando-se, profunda modificação nos costumes, caráter, hábitos, assim

como nas crenças que tão grande influência exerceram sobre as relações

sociais. É uma revolução completa a operar-se nas ideias, revolução tanto

maior, tanto mais poderosa, quanto não se circunscreve a um povo, nem a

uma casta, visto que atinge simultaneamente, pelo coração, todas as clas

ses, todas as nacionalidades, todos os cultos.

Razão há, pois, para que o Espiritismo seja considerado a terceira das

grandes revelações. Vejamos em que essas revelações diferem e qual o laço

que as liga entre si.

21. Moisés, como profeta, revelou aos homens a existência de um

Deus único, Soberano Senhor e Criador de todas as coisas; promulgou a lei

do Sinai e lançou as bases da verdadeira fé. Como homem, foi o legislador

do povo pelo qual essa primitiva fé, purificando-se, havia de espalhar-se

por sobre a Terra.

22. O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino e rejei

tando o que era transitório, puramente disciplinar e de concepção huma

na, acrescentou a revelação da vida futura, de que Moisés não falara, assim

como a das penas e recompensas que aguardam o homem depois da morte.

(Vede: Revista espírita, de março e de setembro de 1861.)

23. A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de

fonte primária, de pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista

inteiramente novo sob que considera Ele a Divindade. Esta já não é o Deus

terrível, ciumento, vingativo, de Moisés; o Deus cruel e implacável, que

rega a terra com o sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio

dos povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos, e que castiga

aqueles que poupam as vítimas; o Deus que Jesus nos revela não é mais o

Deus injusto, que pune um povo inteiro pela falta do seu chefe, que se vin

ga do culpado na pessoa do inocente, que fere os filhos pelas faltas dos pais;

mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, cheio de mansidão e

misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido e dá a cada um segundo as

suas obras. Já não é o Deus de um único povo privilegiado, o Deus dos exér

citos, presidindo aos combates para sustentar a sua própria causa contra o

Deus dos outros povos; mas o Pai comum do gênero humano, que estende

a sua proteção por sobre todos os seus filhos e os chama todos a si; já não

é o Deus que recompensa e pune só pelos bens da Terra, que faz consistir

a glória e a felicidade na escravidão dos povos rivais e na multiplicidade da

progenitura, mas sim um Deus que diz aos homens: “A vossa verdadeira

pátria não é neste mundo, mas no reino celestial, lá onde os humildes de

coração serão elevados e os orgulhosos serão humilhados.” Já não é o Deus

que faz da vingança uma virtude e ordena se retribua olho por olho, dente

por dente; mas o Deus de misericórdia, que diz: “Perdoai as ofensas, se

quereis ser perdoados; fazei o bem em troca do mal; não façais aos outros o

que não quereis vos façam.” Já não é o Deus mesquinho e meticuloso, que

impõe, sob as mais rigorosas penas, o modo como quer ser adorado, que se

ofende pela inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande, que vê o

pensamento e que se não honra com a forma. Enfim, já não é o Deus que

quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.

24. Sendo Deus o eixo de todas as crenças religiosas e o objetivo de

todos os cultos, o caráter de todas as religiões é conforme à ideia que elas dão

de Deus. As religiões que fazem de Deus um ser vingativo e cruel julgam

honrá-lo com atos de crueldade, com fogueiras e torturas; as que têm um

Deus parcial e cioso são intolerantes e mais ou menos meticulosas na for

ma, por crerem-no mais ou menos contaminado das fraquezas e ninharias

humanas.

25. Toda a doutrina do Cristo se funda no caráter que Ele atribui

à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e mi

sericordioso, Ele fez do amor de Deus e da caridade para com o próximo

a condição indeclinável da salvação, dizendo: Amai a Deus sobre todas as

coisas e o vosso próximo como a vós mesmos; nisto estão toda a lei e os profetas;

não existe outra lei. Sobre esta crença, assentou Ele o princípio da igualdade

dos homens perante Deus e o da fraternidade universal. Mas era possível

amar o Deus de Moisés? Não; só se podia temê-lo.

A revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, de par com a da

imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as rela

ções mútuas dos homens, impunha-lhes novas obrigações, fazia-os encarar

a vida presente sob outro aspecto e tinha, por isso mesmo, de reagir contra

os costumes e as relações sociais.

É esse incontestavelmente, por suas consequências, o ponto capital

da revelação do Cristo, cuja importância não foi compreendida suficiente

mente e, contrista dizê-lo, é também o ponto de que mais a humanidade se

tem afastado, que mais há desconhecido na interpretação dos seus ensinos.

26. Entretanto, o Cristo acrescenta: “Muitas das coisas que vos

digo ainda não as compreendeis e muitas outras teria a dizer, que não

compreenderíeis; por isso é que vos falo por parábolas; mais tarde, po

rém, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá

todas as coisas e vo-las explicará todas.” (João, 14 e 16; MatEus, 17.)

Se o Cristo não disse tudo quanto poderia dizer, é que julgou con

veniente deixar certas verdades na sombra, até que os homens chegassem

ao estado de compreendê-las. Como Ele próprio o confessou, seu ensino

era incompleto, pois anunciava a vinda daquele que o completaria; previra,

pois, que suas palavras não seriam bem interpretadas, e que os homens se

desviariam do seu ensino; em suma, que desfariam o que Ele fez, uma vez

que todas as coisas hão de ser restabelecidas: ora, só se restabelece aquilo

que foi desfeito.

27. Por que chama Ele ao novo messias Consolador? Este nome,

significativo e sem ambiguidade, encerra toda uma revelação. Assim, Ele

previra que os homens teriam necessidade de consolações, o que implica a

insuficiência daquelas que eles achariam na crença que iam fundar. Talvez

nunca o Cristo fosse tão claro, tão explícito, como nestas últimas palavras,

às quais poucas pessoas deram atenção bastante, provavelmente porque

evitaram esclarecê-las e aprofundar-lhes o sentido profético.

28. Se o Cristo não pôde desenvolver o seu ensino de maneira com

pleta, é que faltavam aos homens conhecimentos que eles só podiam ad

quirir com o tempo e sem os quais não o compreenderiam; há muitas coi

sas que teriam parecido absurdas no estado dos conhecimentos de então.

Completar o seu ensino deve entender-se no sentido de explicar e desenvol

ver, não no de ajuntar-lhe verdades novas, porque tudo nele se encontra

em estado de gérmen, faltando-lhe só a chave para se apreender o sentido

das palavras.

29. Mas quem toma a liberdade de interpretar as Escrituras Sagra

das? Quem tem esse direito? Quem possui as necessárias luzes, senão os

teólogos? Quem o ousa? Primeiro, a Ciência, que a ninguém pede per

missão para dar a conhecer as leis da natureza e que salta sobre os erros e

os preconceitos. — Quem tem esse direito? Neste século4 de emancipação

intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a to

dos e as Escrituras não são mais a arca santa5 na qual ninguém se atreveria

a tocar com a ponta do dedo, sem correr o risco de ser fulminado. Quanto

às luzes especiais, necessárias, sem contestar as dos teólogos, por mais escla

recidos que fossem os da Idade Média, e, em particular, os Pais da Igreja,

eles, contudo, não o eram bastante para não condenarem como heresia o

movimento da Terra e a crença nos antípodas. Mesmo sem ir tão longe, os

teólogos dos nossos dias não lançaram anátema à teoria dos períodos de

formação da Terra?

Os homens só puderam explicar as Escrituras com o auxílio do que

sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da na

de muito boa-fé, se enganaram sobre o sentido de certas palavras e fatos

do Evangelho. Querendo a todo custo encontrar nele a confirmação de

uma ideia preconcebida, giraram sempre no mesmo círculo, sem aban

donar o seu ponto de vista, de modo que só viam o que queriam ver. Por

muito instruídos que fossem, os teólogos não podiam compreender causas

dependentes de leis que lhes eram desconhecidas.

Mas quem julgará as interpretações diversas e muitas vezes contradi

tórias, dadas fora do campo da Teologia? O futuro, a lógica e o bom senso.

Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida que novos fatos e novas

leis se forem revelando, saberão separar da realidade os sistemas utópicos.

Ora, as ciências tornam conhecidas algumas leis; o Espiritismo revela ou

tras; todas são indispensáveis à inteligência dos Textos Sagrados de todas as

religiões, desde Confúcio e Buda até o Cristianismo. Quanto à Teologia,

essa não poderá judiciosamente alegar contradições da Ciência, visto como

também ela nem sempre está de acordo consigo mesma.

30. O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como

este partiu das de Moisés, é consequência direta da sua Doutrina. À ideia

vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência do mundo invisível

que nos rodeia e povoa o espaço, e com isso precisa a crença, dá-lhe um

corpo, uma consistência, uma realidade à ideia. Define os laços que unem

a alma ao corpo e levanta o véu que ocultava aos homens os mistérios do

nascimento e da morte. Pelo Espiritismo, o homem sabe donde vem, para

onde vai, por que está na Terra, por que sofre temporariamente e vê por

toda parte a Justiça de Deus. Sabe que a alma progride incessantemente,

através de uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfei

ção que a aproxima de Deus. Sabe que todas as almas, tendo um mesmo

ponto de origem, são criadas iguais, com idêntica aptidão para progredir,

em virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que

não há entre elas diferença, senão quanto ao progresso realizado; que todas

têm o mesmo destino e alcançarão a mesma meta, mais ou menos rapida

mente, pelo trabalho e boa vontade.

Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas

do que outras; que Deus a nenhuma criou privilegiada e dispensada do

trabalho imposto às outras para progredirem; que não há seres perpetua

mente votados ao mal e ao sofrimento; que os que se designam pelo nome

de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o

mal no Espaço, como o praticavam na Terra, mas que se adiantarão e

aperfeiçoarão; que os anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na

Criação, mas Espíritos que chegaram à meta, depois de terem percorrido a

estrada do progresso; que, por essa forma, não há criações múltiplas, nem

diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a Criação

deriva da grande lei de unidade que rege o universo e que todos os seres

gravitam para um fim comum que é a perfeição, sem que uns sejam favo

recidos à custa de outros, visto serem todos filhos das suas próprias obras.

31. Pelas relações que hoje pode estabelecer com aqueles que deixa

ram a Terra, possui o homem não só a prova material da existência e da

individualidade da alma, como também compreende a solidariedade que

liga os vivos aos mortos deste mundo e os deste mundo aos dos outros

planetas. Conhece a situação deles no mundo dos Espíritos, acompanha-os

em suas migrações, aprecia-lhes as alegrias e as penas; sabe a razão por que

são felizes ou infelizes e a sorte que lhes está reservada, conforme o bem ou

o mal que fizeram. Essas relações iniciam o homem na vida futura, que ele

pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro

já não é uma vaga esperança: é um fato positivo, uma certeza matemática.

Desde então, a morte nada mais tem de aterrador, por lhe ser a libertação,

a porta da verdadeira vida.

32. Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a feli

cidade e a desdita, na vida espiritual, são inerentes ao grau de perfeição e

de imperfeição; que cada qual sofre as consequências diretas e naturais de

suas faltas, ou, por outra, que é punido no que pecou; que essas consequ

ências duram tanto quanto a causa que as produziu; que, por conseguinte,

o culpado sofreria eternamente se persistisse no mal, mas que o sofrimento

cessa com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um

o seu aperfeiçoamento, todos podem, em virtude do livre-arbítrio, prolon

gar ou abreviar seus sofrimentos, como o doente sofre, pelos seus excessos,

enquanto não lhes põe termo.

33. Se a razão repele, como incompatível com a bondade de Deus,

a ideia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas, muitas vezes infligi

das por uma única falta; a dos suplícios do inferno, que não podem ser

minorados nem sequer pelo arrependimento mais ardente e mais sincero,

a mesma razão se inclina diante dessa justiça distributiva e imparcial, quetureza, mais tarde reveladas pela Ciência. Eis por que os próprios teólogos,

leva tudo em conta, que nunca fecha a porta ao arrependimento e estende

constantemente a mão ao náufrago, em vez de o empurrar para o abismo.

34. A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo estabeleceu

no Evangelho, sem todavia defini-lo como a muitos outros, é uma das

mais importantes leis reveladas pelo Espiritismo, pois que lhe demonstra a

realidade e a necessidade para o progresso. Com esta lei, o homem explica

todas as aparentes anomalias da vida humana; as diferenças de posição

social; as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis à

alma as existências breves; a desigualdade de aptidões intelectuais e morais,

pela ancianidade do Espírito que mais ou menos aprendeu e progrediu, e

traz, nascendo, o que adquiriu em suas existências anteriores (Item 5).

35. Com a doutrina da criação da alma no instante do nascimento,

vem-se a cair no sistema das criações privilegiadas; os homens são estra

nhos uns aos outros e nada os liga; os laços de família são puramente car

nais; não são de nenhum modo solidários com um passado em que não

existiam; com a doutrina do nada após a morte, todas as relações cessam

com a vida; os seres humanos não são solidários no futuro. Pela reencar

nação, são solidários no passado e no futuro e, como as suas relações se

perpetuam, tanto no mundo espiritual como no corporal, a fraternidade

tem por base as próprias leis da natureza; o bem tem um objetivo e o mal

consequências inevitáveis.

36. Com a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raças e

de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, ca

pitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou

mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão

e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum

há que prime, em lógica, ao fato material da reencarnação. Se, pois, a reen

carnação funda numa lei da natureza o princípio da fraternidade universal,

também funda na mesma Lei o da igualdade dos direitos sociais e, por

conseguinte, o da liberdade.6

37. Tirai ao homem o Espírito livre e independente, sobrevivente

à matéria, e fareis dele uma simples máquina organizada, sem finalidade,

nem responsabilidade; sem outro freio além da lei civil e própria a ser explo

rada como um animal inteligente. Nada esperando depois da morte, nada

obsta a que aumente os gozos do presente; se sofre, só tem a perspectiva do

desespero e o nada como refúgio. Com a certeza do futuro, de encontrar

de novo aqueles a quem amou e com o temor de tornar a ver aqueles a quem

ofendeu, todas as suas ideias mudam. O Espiritismo, ainda que só fizesse

forrar o homem à dúvida relativamente à vida futura, teria feito mais pelo

seu aperfeiçoamento moral do que todas as leis disciplinares, que o detêm

algumas vezes, mas que o não transformam.

38. Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não

seria somente inconciliável com a Justiça de Deus, que tornaria todos os

homens responsáveis pela falta de um só, seria também um contrassen

so, e tanto menos justificável quanto, segundo essa doutrina, a alma não

existia na época a que se pretende fazer que a sua responsabilidade re

monte. Com a preexistência, o homem traz, ao renascer, o gérmen das

suas imperfeições, dos defeitos de que se não corrigiu e que se traduzem

pelos instintos naturais e pelos pendores para tal ou tal vício. É esse o seu

verdadeiro pecado original, cujas consequências naturalmente sofre, mas

com a diferença capital de que sofre a pena das suas próprias faltas, e não

das de outrem; e com a outra diferença, ao mesmo tempo consoladora,

animadora e soberanamente equitativa, de que cada existência lhe oferece

os meios de se redimir pela reparação e de progredir, quer despojando-se

de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos e, assim,

até que, suficientemente purificado, não necessite mais da vida corporal e

possa viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada.

Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente traz, ao renas

cer, qualidades naturais, como o que progrediu intelectualmente traz ideias

inatas; identificado com o bem, pratica-o sem esforço, sem cálculo e, por

assim dizer, sem pensar. Aquele que é obrigado a combater as suas más

tendências vive ainda em luta; o primeiro já venceu, o segundo procura

vencer. Existe, pois, a virtude original, como existe o saber original, e o

pecado ou, antes, o vício original.

39. O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos flui

dos espirituais e a ação deles sobre a matéria. Demonstrou a existência

do perispírito, suspeitado desde a antiguidade e designado por Paulo sob

o nome de corpo espiritual, isto é, corpo fluídico da alma, depois da des

truição do corpo tangível. Sabe-se hoje que esse invólucro é inseparável da

alma, forma um dos elementos constitutivos do ser humano, é o veículo da

transmissão do pensamento e, durante a vida do corpo, serve de laço entre

o Espírito e a matéria. O perispírito representa importantíssimo papel no

organismo e numa multidão de afecções, que se ligam à Fisiologia, assim

como à Psicologia.

40. O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais

e dos atributos fisiológicos da alma abre novos horizontes à Ciência e dá

a chave de uma multidão de fenômenos incompreendidos até então, por

falta de conhecimento da lei que os rege — fenômenos negados pelo mate

rialismo, por se prenderem à espiritualidade, e qualificados como milagres

ou sortilégios por outras crenças. Tais são, entre muitos, os fenômenos da

vista dupla, da visão a distância, do sonambulismo natural e artificial, dos

efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressenti

mentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão do pensamen

to, da fascinação, das curas instantâneas, das obsessões e possessões etc.

Demonstrando que esses fenômenos repousam em leis naturais, como os

fenômenos elétricos, e em que condições normais se podem reproduzir, o

Espiritismo derroca o império do maravilhoso e do sobrenatural e, con

seguintemente, a fonte da maior parte das superstições. Se faz se creia na

possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quiméricas,

também impede que se creia em muitas outras, das quais o Espiritismo

demonstra a impossibilidade e a irracionalidade.

41. O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, ao

contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza,

que revela, tudo quanto o Cristo disse e fez; elucida os pontos obscuros

do ensino cristão, de tal sorte que aqueles para quem eram ininteligíveis

certas partes do Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem e

admitem, sem dificuldade, com o auxílio desta doutrina, veem melhor o

seu alcance e podem distinguir entre a realidade e a alegoria; o Cristo lhes

parece maior: já não é simplesmente um filósofo, é um Messias divino.

42. Demais, se se considerar o poder moralizador do Espiritismo,

pela finalidade que assina a todas as ações da vida, por tornar quase tangí

veis as consequências do bem e do mal, pela força moral, a coragem e as

consolações que dá nas aflições, mediante inalterável confiança no futuro,

pela ideia de ter cada um perto de si os seres a quem amou, a certeza de os

rever, a possibilidade de confabular com eles; enfim, pela certeza de que

tudo quanto se fez, quanto se adquiriu em inteligência, sabedoria, mora

lidade, até a última hora da vida, não fica perdido, que tudo aproveita ao

adiantamento do Espírito, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas

as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é

o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a

promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é

ele o verdadeiro Consolador.7

43. Se a estes resultados adicionarmos a rapidez prodigiosa da pro

pagação do Espiritismo, apesar de tudo quanto fazem por abatê-lo, não se

poderá negar que a sua vinda seja providencial, visto como ele triunfa de

todas as forças e de toda a má vontade dos homens. A facilidade com que

é aceito por grande número de pessoas, sem constrangimento, apenas pelo

poder das ideias, prova que ele corresponde a uma necessidade, qual a de

crer o homem em alguma coisa para encher o vácuo aberto pela increduli

dade e que, portanto, veio no momento preciso.

44. São em grande número os aflitos; não é, pois, de admirar que

tanta gente acolha uma doutrina que consola, de preferência às que deses

peram, porque aos deserdados, mais do que aos felizes do mundo, é que o

Espiritismo se dirige. O doente vê chegar o médico com maior satisfação

do que aquele que está bem de saúde; ora, os aflitos são os doentes e o

Consolador é o médico.

Vós que combateis o Espiritismo, se quereis que o abandonemos

para vos seguir, dai-nos mais e melhor do que ele; curai com maior se

gurança as feridas da alma. Dai mais consolações, mais satisfações ao

coração, esperanças mais legítimas, maiores certezas; fazei do futuro um

quadro mais racional, mais sedutor; porém, não julgueis vencê-lo com a

perspectiva do nada, com a alternativa das chamas do inferno, ou com a

inútil contemplação perpétua.

45. A primeira revelação teve a sua personificação em Moisés, a se

gunda no Cristo, a terceira não a tem em indivíduo algum. As duas pri

meiras foram individuais, a terceira foi coletiva; aí está um caráter essencial

de grande importância. Ela é coletiva no sentido de não ser feita ou dada

como privilégio a pessoa alguma; ninguém, por consequência, pode in

culcar-se como seu profeta exclusivo; foi espalhada simultaneamente, por

sobre a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e condições, desde a

mais baixa até a mais alta da escala, conforme esta predição registrada pelo

autor dos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, disse o Senhor, derramarei

o meu espírito sobre toda a carne; os vossos filhos e filhas profetizarão, os man

cebos terão visões, e os velhos, sonhos.” (atos, 2:17 e 18.) Ela não proveio de

nenhum culto especial, a fim de servir um dia a todos de ponto de ligação.8

46. As duas primeiras revelações, sendo fruto do ensino pessoal,

ficaram forçosamente localizadas, isto é, apareceram num só ponto, em

torno do qual a ideia se propagou pouco a pouco; mas, foram preci

sos muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem

mesmo o invadirem inteiramente. A terceira tem isto de particular: não

estando personificada em um só indivíduo, surgiu simultaneamente em

milhares de pontos diferentes, que se tornaram centros ou focos de ir

radiação. Multiplicando-se esses centros, seus raios se reúnem pouco a

pouco, como os círculos formados por uma multidão de pedras lançadas

na água, de tal sorte que, em dado tempo, acabarão por cobrir toda a

superfície do globo.

Essa uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se ela tivesse

surgido num só ponto, se fosse obra exclusiva de um homem, houvera

formado seitas em torno dela; e talvez decorresse meio século sem que ela

atingisse os limites do país onde começara, ao passo que, após dez anos, já

estendeu raízes de um polo a outro.

47. Esta circunstância, inaudita na história das doutrinas, lhe dá for

ça excepcional e irresistível poder de ação; de fato, se a perseguirem num

ponto, em determinado país, será materialmente impossível que a persi

gam em toda parte e em todos os países. Em contraposição a um lugar

onde lhe embaracem a marcha, haverá mil outros em que florescerá. Ainda

mais: se a ferirem num indivíduo, não poderão feri-la nos Espíritos, que

são a fonte donde ela promana. Ora, como os Espíritos estão em toda parte

e existirão sempre, se, por um acaso impossível, conseguissem sufocar a

Doutrina Espírita em todo o globo, ela reapareceria pouco tempo depois,

porque repousa sobre um fato que está na natureza e não se podem suprimir

as leis da natureza. Eis aí o de que se devem persuadir aqueles que sonham

com o aniquilamento do Espiritismo. (Revista espírita, fevereiro de 1865:

Perpetuidade do Espiritismo.)

48. Entretanto, disseminados os centros, poderiam ainda permane

cer por muito tempo isolados uns dos outros, confinados como estão al

guns em países longínquos. Faltava entre eles uma ligação, que os pusesse

em comunhão de ideias com seus irmãos em crença, informando-os do

que se fazia algures. Esse traço de união, que na antiguidade teria faltado

ao Espiritismo, hoje existe nas publicações que vão a toda parte, conden

sando, sob uma forma única, concisa e metódica, o ensino dado universal

mente sob formas múltiplas e nas diversas línguas.9

49. As duas primeiras revelações só podiam resultar de um ensino

direto; como os homens não estivessem ainda bastante adiantados a fim de

concorrerem para a sua elaboração, elas tinham que ser impostas pela fé,

sob a autoridade da palavra do Mestre.

Contudo, notam-se entre as duas bem sensível diferença, devida ao

progresso dos costumes e das ideias, se bem que feitas ao mesmo povo e no

mesmo meio, mas com dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés

é absoluta, despótica; não admite discussão e se impõe ao povo pela força.

A de Jesus é essencialmente conselheira; é livremente aceita e só se impõe

pela persuasão; foi controvertida desde o tempo do seu fundador, que não

desdenhava de discutir com os seus adversários.

50. A terceira revelação, vinda numa época de emancipação e ma

dureza intelectual, em que a inteligência, já desenvolvida, não se resigna

a representar papel passivo; em que o homem nada aceita às cegas, mas

quer ver aonde o conduzem, quer saber o porquê e o como de cada coisa

— tinha ela que ser ao mesmo tempo o produto de um ensino e o fruto

do trabalho, da pesquisa e do livre-exame. Os Espíritos não ensinam senão

justamente o que é mister para guiar o homem no caminho da verdade, mas

abstêm-se de revelar o que ele homem pode descobrir por si mesmo, deixan

do-lhe o cuidado de discutir, verificar e submeter tudo ao cadinho da

razão, deixando mesmo, muitas vezes, que adquira experiência à sua cus

ta. Fornecem-lhe o princípio, os materiais; cabe ao homem aproveitá-los

e pô-los em prática (Item 15).

51. Tendo sido os elementos da revelação espírita ministrados simul

taneamente em muitos pontos, a homens de todas as condições sociais e de

diversos graus de instrução, é claro que as observações não podiam ser feitas

em toda parte com o mesmo resultado; que as consequências a tirar, a de

dução das leis que regem esta ordem de fenômenos, em suma, a conclusão

sobre que haviam de firmar-se as ideias não podiam sair senão do conjunto

e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado, circunscrito dentro de

um círculo restrito, não vendo as mais das vezes senão uma ordem particu

lar de fatos, não raro contraditórios na aparência, geralmente provindos de

uma mesma categoria de Espíritos e, ao demais, embaraçados por influên

cias locais e pelo espírito de partido, se achava na impossibilidade material

de abranger tudo o que ocorre e, por isso mesmo, incapaz de conjugar as

observações isoladas a um princípio comum. Apreciando cada qual os fatos

sob o ponto de vista dos seus conhecimentos e crenças anteriores, ou da

opinião particular dos Espíritos que se manifestassem, bem cedo teriam sur

gido tantas teorias e sistemas, quantos fossem os centros, todos incompletos

por falta de elementos de comparação e exame. Numa palavra, cada qual se

teria imobilizado na sua revelação parcial, julgando possuir toda a verdade,

ignorando que em cem outros lugares se obtinha mais ou melhor.

52. Além disso, convém notar que em parte alguma o ensino es

pírita foi dado integralmente; ele diz respeito a tão grande número de

observações, a assuntos tão diferentes, exigindo conhecimentos e aptidões

mediúnicas especiais, que impossível era acharem-se reunidas num mesmo

ponto todas as condições necessárias. Tendo o ensino que ser coletivo e não

individual, os Espíritos dividiram o trabalho, disseminando os assuntos de

estudo e observação como, em algumas fábricas, a confecção de cada parte

de um mesmo objeto é repartida por diversos operários.

A revelação fez-se assim parcialmente em diversos lugares e por uma

multidão de intermediários e é dessa maneira que ela prossegue ainda, pois

que nem tudo foi revelado. Cada centro encontra nos outros centros o

complemento do que obtém, e foi o conjunto, a coordenação de todos os

ensinos parciais que constituíram a Doutrina Espírita.

Era, pois, necessário grupar os fatos espalhados, para se lhes apreen

der a correlação, reunir os documentos diversos, as instruções dadas pelos

Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os assuntos, para as com

parar, analisar, estudar-lhes as analogias e as diferenças. Vindo as comu

nicações de Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, era

preciso apreciar o grau de confiança que a razão permitia conceder-lhes,

distinguir as ideias sistemáticas individuais ou isoladas das que tinham a

sanção do ensino geral dos Espíritos; as utopias, das ideias práticas; afastar

as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e da

lógica, utilizar igualmente os erros, as informações fornecidas pelos Espí

ritos, mesmo os da mais baixa categoria, para conhecimento do estado do

mundo invisível e formar com isso um todo homogêneo.

Era preciso, numa palavra, um centro de elaboração, independente

de qualquer ideia preconcebida, de todo preconceito de seita, resolvido a

aceitar a verdade tornada evidente, embora contrária às opiniões pessoais.

Este centro se formou por si mesmo, pela força das coisas e sem desígnio

premeditado.10

10 Nota de Allan Kardec: O livro dos espíritos, a primeira obra que levou o Espiritismo a ser considerado

de um ponto de vista filosófico, pela dedução das consequências morais dos fatos; que considerou

todas as partes da Doutrina, tocando nas questões mais importantes que ela suscita, foi, desde o seu aparecimento, o ponto de união para o qual convergiram espontaneamente os trabalhos individuais.

É notório que da publicação desse livro data a era do Espiritismo filosófico, que até então era conser

vado no domínio das experiências curiosas. Se esse livro conquistou as simpatias da maioria é que

exprimia os sentimentos dela, correspondia às suas aspirações e encerrava também a confirmação e

a explicação racional do que cada um obtinha em particular. Se ele estivesse em desacordo com o

ensino geral dos Espíritos, teria caído no descrédito e no esquecimento. Ora, qual foi aquele ponto de convergência? Decerto não foi o homem, que nada vale por si mesmo, que morre e desaparece; mas, a ideia, que não fenece quando emanada de uma fonte superior ao homem.

53. De todas essas coisas, originou-se dupla corrente de ideias: umas,

dirigindo-se das extremidades para o centro; as outras, encaminhando-se

do centro para a circunferência. Desse modo, a doutrina caminhou rapida

mente para a unidade, malgrado a diversidade das fontes donde promanou;

os sistemas divergentes ruíram pouco a pouco, devido ao isolamento em

que ficaram, diante da ascensão da opinião da maioria, na qual não encon

traram repercussão simpática. Desde então, uma comunhão de ideias se

estabeleceu entre os diversos centros parciais. Falando a mesma linguagem

espiritual, eles se entendem e estimam, de um extremo a outro do mundo.

Sentiram-se assim mais fortes os espíritas, lutaram com mais cora

gem, caminharam com passo mais firme, desde que não mais se viram

isolados, desde que perceberam um ponto de apoio, um laço a prendê-los à

grande família. Não mais lhes pareceram singulares, anormais, nem contra

ditórios os fenômenos que presenciavam, desde que puderam conjugá-los

a leis gerais de harmonia, perceber num piscar de olhos toda a obra e des

cobrir um fim grandioso e humanitário em todo o conjunto.11

Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência,

monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, em que

se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos nascidos da Doutrina,

dos resultados morais, das dedicações, dos desfalecimentos — arquivos preciosos para a posteri

dade, que poderá julgar os homens e as coisas por meio de documentos autênticos. Em presença

desses testemunhos irrecusáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações, as

difamações da inveja e do ciúme?

que se estabeleceu entre os espíritas, pela conformidade de suas crenças, são os pedidos de preces

que nos chegam dos mais distantes países, desde o Peru até as extremidades da Ásia, feitos por pes

soas de religiões e nacionalidades diversas e as quais nunca vimos. Não é isso um prelúdio da grande unificação que se prepara? Não é a prova de que por toda parte o Espiritismo lança raízes fortes?

Digno de nota é que, de todos os grupos que se têm formado com a intenção premeditada de cindir,

proclamando princípios divergentes, e de tantos outros que, apoiando-se em razões de amor-pró

prio ou de outras quaisquer, para não parecer que se submetem à lei comum, e por considerarem-se

fortes o bastante para caminhar sozinhos, julgando-se possuidores de luzes suficientes para pres

cindirem de conselhos, nenhum chegou a constituir uma ideia que fosse preponderante e viável.

Todos se extinguiram e/ou vegetaram na sombra. Nem de outro modo poderia ser, dado que, para

se exalçarem, em vez de se esforçarem por proporcionar maior soma de satisfações, esses grupos

discordantes rejeitavam princípios da Doutrina, precisamente os mais atraentes há nela: o que de

mais consolador, de encorajador e de mais racional ela contém. Se tivessem compreendido a força

dos elementos morais que lhe constituíram a unidade, não se teriam embalado com ilusões quimé

ricas. Ao contrário, tomando como se fosse o universo o pequeno círculo que constituíam, não viram

nos seus novos adeptos mais do que uma camarilha facilmente derrubável por outra contrária. Era

equivocar-se de modo singular no tocante aos caracteres essenciais da Doutrina Espírita, e seme

lhante erro só decepções podia acarretar. Em lugar de romperem a unidade, quebraram o único laço

que lhes podia dar força e vida. (Veja-se: Revista espírita, abril de 1866: O Espiritismo sem os Espíritos.

Mas como se há de saber se um princípio é ensinado por toda par

te, ou se apenas exprime uma opinião pessoal? Não estando os grupos

isolados em condições de saber o que se dizia alhures, necessário se fazia

que um centro reunisse todas as instruções, para proceder a uma espécie

de apuro das vozes e transmitir a todos a opinião da maioria.12

54. Nenhuma ciência existe que haja saído prontinha do cérebro

de um homem. Todas, sem exceção, são fruto de observações sucessivas,

apoiadas em observações precedentes, como sobre um ponto conhecido

para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam com

relação ao Espiritismo, daí o ser gradativo o ensino que ministram, pois

eles não enfrentam as questões, senão à medida que os princípios sobre

que hajam de apoiar-se estejam suficientemente elaborados e amadureci

da a opinião para os assimilar. É mesmo de notar-se que, de todas as vezes

que os centros particulares têm querido tratar de questões prematuras,

não obtiveram mais do que respostas contraditórias, nada concludentes.

Quando, ao contrário, chega o momento oportuno, o ensino se genera

liza e se unifica na quase universalidade dos centros.

Há, todavia, capital diferença entre a marcha do Espiritismo e a

das ciências; a de que estas não atingiram o ponto que alcançaram, senão

após longos intervalos, ao passo que alguns anos bastaram ao Espiri

tismo, quando não a galgar o ponto culminante, pelo menos a reco

lher uma soma de observações bem grande para formar uma doutrina.

Decorre esse fato de ser inumerável a multidão de Espíritos que, por

vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente, trazendo cada um

o contingente de seus conhecimentos. Resultou daí que todas as partes

da Doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente durante vários

séculos, o foram quase ao mesmo tempo, em alguns anos apenas, e que

bastou reuni-las para que estruturassem um todo.

Quis Deus fosse assim, primeiro, para que o edifício mais rapi

damente chegasse à conclusão; em seguida, para que se pudesse, por

meio da comparação, conseguir uma verificação, a bem dizer imediata e

Não confiando a um único Espírito o encargo de promulgar a dou

trina, quis Deus, também, que, assim o mais pequenino, como o maior,

tanto entre os Espíritos, quanto entre os homens, trouxesse sua pedra

para o edifício, a fim de estabelecer entre eles um laço de solidariedade

cooperativa, que faltou a todas as doutrinas decorrentes de um tronco

único.

Por outro lado, dispondo todo Espírito, como todo homem,

apenas de limitada soma de conhecimentos, não estavam eles aptos,

individualmente, a tratar ex professo13 das inúmeras questões que o Espi

ritismo abrange. Essa ainda uma razão por que, em cumprimento dos de

sígnios do Criador, não podia a doutrina ser obra nem de um só Espírito,

nem de um só médium. Tinha que emergir da coletividade dos trabalhos,

comprovados uns pelos outros.14

55. Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das condi

ções mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, a Dou

trina tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva,

como todas as ciências de observação. Pela sua substância, alia-se à Ciên

cia que, sendo a exposição das leis da natureza, com relação a certa ordem

de fatos, não pode ser contrária às Leis de Deus, autor daquelas Leis. As

descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus;

unicamente destroem o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que

formaram de Deus.

O Espiritismo, pois, estabelece como princípio absoluto somente

o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente

da observação. Entendendo-se com todos os ramos da economia social,

aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre

todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que

hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio

da utopia, sem o que o Espiritismo se suicidaria. Deixando de ser o que

causa.

é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par

com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas des

cobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele

se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.15

56. Qual a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, uma vez que

não difere da do Cristo? Precisa o homem de uma revelação? Não pode

achar em si próprio tudo o que lhe é necessário para conduzir-se?

Do ponto de vista moral, é fora de dúvida que Deus outorgou

ao homem um guia, dando-lhe a consciência, que lhe diz: “Não faças a

outrem o que não quererias te fizessem.” A moral natural está positiva

mente inscrita no coração dos homens; porém, sabem todos lê-la nesse

livro? Nunca lhe desprezaram os sábios preceitos? Que fizeram da moral

do Cristo? Como a praticam aqueles mesmos que a ensinam? Não se

tornou ela letra morta, ou bela teoria, boa para os outros, e não para si?

Reprovareis que um pai repita a seus filhos dez vezes, cem vezes as mes

mas instruções, desde que eles não as sigam? Por que haveria Deus de

fazer menos do que um pai de família? Por que não enviaria, de tempos a

tempos, mensageiros especiais aos homens, para lhes lembrar os deveres

e reconduzi-los ao bom caminho, quando deste se afastam; para abrir os

olhos da inteligência aos que os trazem fechados, assim como os homens

mais adiantados enviam missionários aos selvagens e aos bárbaros?

A moral que os Espíritos ensinam é a do Cristo, pela razão de

que não há outra melhor. Mas, então, de que serve o ensino oferecido

por eles, se apenas repisam o que já sabemos? Outro tanto se poderia

dizer da moral do Cristo, que já era ensinada por Sócrates e Platão qui

nhentos anos antes e em termos quase idênticos. O mesmo se poderia

dizer também das de todos os moralistas, que nada mais fazem do que

repetir a mesma moral em todos os tons e sob todas as formas. Pois bem!

os Espíritos vêm, muito simplesmente, aumentar o número dos moralistas,

com a diferença de que, manifestando-se por toda parte, tanto se fazem

ouvir na choupana, como no palácio, assim pelos ignorantes, como pelos instruídos.

O que o ensino dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o

conhecimento dos princípios que regem as relações entre os mortos e os

vivos, princípios que completam as noções vagas que se tinham da alma,

de seu passado e de seu futuro, dando por sanção à doutrina cristã as pró

prias leis da natureza. Com o auxílio das novas luzes que o Espiritismo e

os Espíritos espargem, o homem compreende a solidariedade que o liga

a todos os seres; a caridade e a fraternidade se tornam uma necessidade

social; ele faz por convicção o que fazia unicamente por dever, e o faz

melhor.

Somente quando praticarem a moral do Cristo, poderão os ho

mens dizer que não mais precisam de moralistas encarnados ou desencar

nados. Deus, então, não mais lhos enviará.

57. Uma das questões mais importantes, entre as propostas no co

meço deste capítulo, é a seguinte: Que autoridade tem a revelação espíri

ta, uma vez que emana de seres de limitadas luzes e que não são infalíveis?

A objeção seria ponderosa, se essa revelação consistisse apenas no

ensino dos Espíritos, se deles exclusivamente a devêssemos receber e hou

véssemos de aceitá-la de olhos fechados. Ela perde, porém, todo valor,

desde que o homem concorra para a revelação com o seu raciocínio e

o seu julgamento; desde que os Espíritos se limitam a pôr o homem no

caminho das deduções, que ele pode tirar da observação dos fatos. Ora,

as manifestações, nas suas inumeráveis modalidades, são fatos; o homem

as estuda para lhes deduzir a lei que as rege, auxiliado nesse trabalho por

Espíritos de todas as categorias, que são mais colaboradores do que revela

dores, no sentido usual do termo. Ele lhes submete os dizeres ao controle

da lógica e do bom senso: desta maneira o homem se beneficia dos co

nhecimentos especiais de que os Espíritos dispõem pela posição em que

se acham, sem abdicar do uso da própria razão.

Sendo os Espíritos as almas dos homens, comunicando-nos com

eles não saímos da condição de humanidade, circunstância capital a con

siderar-se. Os homens de gênio, que foram condutores da humanidade,

vieram do mundo dos Espíritos e para lá voltaram ao deixar a Terra. Dado

que os Espíritos podem comunicar-se com os homens, esses mesmos gê

nios podem dar-lhes instruções sob a forma espiritual, como o fizeram

sob a forma corpórea. Podem instruir-nos, depois de terem morrido, tal

qual faziam quando vivos; apenas são invisíveis, em vez de serem visíveis,

essa a única diferença. Não devem ser menores do que eram a experiência

e o saber que possuem e, se a palavra deles, como homens, tinha autori

dade, ela não pode ter diminuído, somente por estarem no mundo dos

Espíritos.

58. Mas nem só os Espíritos superiores se manifestam; fazem-no

igualmente os de todas as categorias e preciso era que assim acontecesse,

para nos iniciarmos no que respeita ao verdadeiro caráter do mundo espi

ritual, apresentando-se-nos este por todas as suas faces. Daí resulta serem

mais íntimas as relações entre o mundo visível e o mundo invisível e mais

evidente a conexidade entre os dois. Vemos assim mais claramente donde

procedemos e para onde iremos. Esse o objetivo essencial das manifesta

ções. Todos os Espíritos, pois, qualquer que seja o grau de elevação em

que se encontrem, alguma coisa nos ensinam; cabe-nos, porém, a nós,

visto que eles são mais ou menos esclarecidos, discernir o que há de bom

ou de mau no que nos digam e tirar, do ensino que nos deem, o proveito

possível. Ora, todos, quaisquer que sejam, nos podem ensinar ou revelar

coisas que ignoramos e que sem eles nunca saberíamos.

59. Os grandes Espíritos encarnados são, sem contradita, indivi

dualidades poderosas, mas de ação restrita e lenta a propagação de seus

ensinamentos. Viesse um só dentre eles, embora fosse Elias ou Moisés,

Sócrates ou Platão, revelar, nos tempos modernos, aos homens, as condi

ções do mundo espiritual, quem provaria a veracidade das suas asserções,

nesta época de ceticismo? Não o tomariam por sonhador ou utopista?

Mesmo que fosse verdade absoluta o que dissesse, séculos se escoariam

antes que as massas humanas lhe aceitassem as ideias. Deus, em sua sabe

doria, não quis que assim acontecesse; quis que o ensino fosse dado pelos

próprios Espíritos, não por encarnados, a fim de que aqueles convences

sem da sua existência a estes últimos e quis que isso ocorresse por toda a

Terra simultaneamente, quer para que o ensino se propagasse com maior

rapidez, quer para que, coincidindo em toda parte, constituísse uma pro

va da verdade, tendo assim cada um o meio de convencer-se a si próprio.

60. Os Espíritos não se manifestam para libertar do estudo e das

pesquisas o homem, nem para lhe transmitir uma ciência pronta. Com

relação ao que o homem pode achar por si mesmo, eles o deixam entregue

às suas próprias forças. Isso sabem-no hoje perfeitamente os espíritas.

De há muito, a experiência há demonstrado ser errôneo atribuir-se aos

Espíritos todo o saber e toda a sabedoria, e que bastaria dirigir-se ao

primeiro Espírito que se apresente para conhecer todas as coisas. Saídos

da humanidade, os Espíritos constituem uma de suas faces. Assim como

na Terra, entre eles há os superiores e os vulgares; muitos deles, pois,

científica e filosoficamente, sabem menos do que certos homens; eles di

zem o que sabem, nem mais, nem menos. Do mesmo modo ocorre com

os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir-nos sobre maior

porção de coisas, dar-nos opiniões mais judiciosas, do que os atrasados.

Pedir o homem conselhos aos Espíritos não é entrar em entendimento com

potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles mesmos a quem

ele se dirigiria neste mundo físico; a seus parentes, seus amigos, ou a indiví

duos mais esclarecidos do que ele. Disto é que importa se convençam todos

e é o que ignoram os que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem ideia

completamente falsa da natureza do mundo dos Espíritos e das relações

com o além-túmulo.

61. Qual, então, a utilidade dessas manifestações, ou, se o prefe

rirem, dessa revelação, uma vez que os Espíritos não sabem mais do que

nós, ou não nos dizem tudo o que sabem?

Primeiramente, como já o declaramos, eles se abstêm de nos dar

o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há coisas cuja

revelação não lhes é permitida, porque o grau do nosso adiantamento

não as comporta. Afora isto, as condições da nova existência em que se

acham lhes dilatam o círculo das percepções: os Espíritos veem o que não

viam quando estavam na Terra; libertos dos entraves da matéria e dos

cuidados da vida corpórea, julgam as coisas de um ponto de vista mais

elevado e, portanto, mais são; a sua perspicácia abrange mais vasto hori

zonte; compreendem seus erros, retificam suas ideias e se desembaraçam

dos prejuízos humanos.

É nisto que consiste a superioridade dos Espíritos com relação à

humanidade corpórea e daí vem a possibilidade de serem seus conselhos,

segundo o grau de adiantamento que alcançaram, mais judiciosos e de

sinteressados do que os dos encarnados. O meio em que se encontram

lhes permite, ademais, iniciar-nos nas coisas, que ignoramos, relativas à

vida futura e que não podemos aprender no meio em que estamos. Até o

presente, o homem apenas formulara hipóteses sobre o seu porvir; tal a

razão por que suas crenças a esse respeito se fracionaram em tão numero

sos e divergentes sistemas, desde o niilismo até as concepções fantásticas

do inferno e do paraíso. Hoje, são as testemunhas oculares, os próprios

atores da vida de além-túmulo que nos vêm dizer o que é essa vida, o que

só eles o podiam fazer. Suas manifestações, conseguintemente, serviram

para dar-nos a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e do qual nem

suspeitávamos e só esse conhecimento seria de capital importância, su

pondo que nada mais pudessem os Espíritos ensinar-nos.

Se fordes a um país que ainda não conheçais, recusareis as informa

ções que vos dê o mais humilde campônio que encontrardes? Deixareis

de interrogá-lo sobre o estado dos caminhos simplesmente por ser ele

um camponês? Certamente não esperareis obter, por seu intermédio, es

clarecimentos de grande alcance, mas, de acordo com o que ele é na sua

esfera, poderá, sobre alguns pontos, informar-vos melhor do que um sá

bio que não conheça o país. Tirareis das suas indicações deduções que ele

próprio não tiraria, sem que por isso deixe de ser um instrumento útil às

vossas observações, embora apenas servisse para vos informar acerca dos

costumes dos camponeses. Outro tanto se dá no que concerne às nossas

relações com os Espíritos, entre os quais o menos qualificado pode servir

para nos ensinar alguma coisa.

62. Uma comparação vulgar tornará ainda melhor compreensível

a situação.

Parte para destino longínquo um navio carregado de emigrantes.

Leva homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficam.

Vem-se a saber que esse navio naufragou. Nenhum vestígio resta dele,

nenhuma notícia chega sobre a sua sorte. Acredita-se que todos os passa

geiros pereceram e o luto penetra em todas as suas famílias. Entretanto,

a equipagem inteira, sem faltar um único homem, foram ter a uma ilha

desconhecida, abundante e fértil, onde todos passam a viver ditosos, sob

um céu clemente. Ninguém, todavia, sabe disso. Ora, um belo dia, outro

navio aporta a essa terra e lá encontra sãos e salvos os náufragos. A feliz

nova se espalha com a rapidez do relâmpago. Exclamam todos: “Não

estão perdidos os nossos amigos!” E rendem graças a Deus. Não podem

ver-se uns aos outros, mas correspondem-se; permutam demonstrações

de afeto e assim a alegria substitui a tristeza.

Tal a imagem da vida terrena e da vida de além-túmulo, antes e

depois da revelação moderna. A última, semelhante ao segundo navio,

nos traz a boa-nova da sobrevivência dos que nos são caros e a certeza de

que a eles nos reuniremos um dia. Deixa de existir a dúvida sobre a sorte

deles e a nossa. O desânimo se desfaz diante da esperança.

Outros resultados fecundam essa revelação. Achando madura a

humanidade para penetrar o mistério do seu destino e contemplar, a

sangue-frio, novas maravilhas, permitiu Deus fosse erguido o véu que

ocultava o mundo invisível ao mundo visível. Nada têm de extra-huma

nas as manifestações; é a humanidade espiritual que vem conversar com a

humanidade corporal e dizer-lhe:

“Nós existimos, logo, o nada não existe; eis o que somos e o que

sereis; o futuro vos pertence, como a nós. Caminhais nas trevas, vimos

clarear-vos o caminho e traçar-vos o roteiro; andais ao acaso, vimos apon

tar-vos a meta. A vida terrena era, para vós, tudo, porque nada víeis além

dela; vimos dizer-vos, mostrando a vida espiritual: a vida terrestre nada é.

A vossa visão se detinha no túmulo, nós vos desvendamos, para lá deste,

um esplêndido horizonte. Não sabíeis por que sofreis na Terra; agora,

no sofrimento, vedes a justiça de Deus. O bem nenhum fruto aparente

produzia para o futuro. Doravante, ele terá uma finalidade e constituirá

uma necessidade; a fraternidade, que não passava de bela teoria, assenta

agora numa lei da natureza. Sob o domínio da crença de que tudo acaba

com a vida, a imensidade é o vazio, o egoísmo reina soberano entre vós

e a vossa palavra de ordem é: ‘Cada um por si.’ Com a certeza do porvir,

os espaços infinitos se povoam ao infinito, em parte alguma há o vazio e

a solidão; a solidariedade liga todos os seres aquém e além da tumba. É o

reino da caridade, sob a divisa: ‘Um por todos e todos por um.’ Enfim,

ao termo da vida, dizíeis eterno adeus aos que vos são caros; agora, dir--lhes-eis: ‘Até breve!’”

Tais são, em resumo, os resultados da revelação nova, que veio

encher o vácuo que a incredulidade cavara, levantar os ânimos abatidos

pela dúvida ou pela perspectiva do nada e imprimir a todas as coisas uma

razão de ser. Carecerá de importância esse resultado, apenas porque os

Espíritos não vêm resolver os problemas da Ciência, dar saber aos igno

rantes e aos preguiçosos os meios de se enriquecerem sem trabalho? Nem

só, entretanto, à vida futura dizem respeito os frutos que o homem deve

colher da nova revelação. Ele os saboreará na Terra, pela transformação

que estas novas crenças hão de necessariamente operar no seu caráter,

nos seus gostos, nas suas tendências e, por conseguinte, nos hábitos e nas

relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incre

dulidade, as novas crenças preparam o do bem, que é o reino de Deus,

anunciado pelo Cristo.

Existência de Deus

1. Sendo Deus a causa primária de todas as coisas, a origem de tudo

o que existe, a base sobre que repousa o edifício da Criação, é também o

ponto que importa consideremos antes de tudo.

2. Constitui princípio elementar que pelos seus efeitos é que se jul

ga de uma causa, mesmo quando ela se conserve oculta.

Se, fendendo os ares, um pássaro é atingido por mortífero grão de

chumbo, deduz-se que hábil atirador o alvejou, ainda que este último não

seja visto. Nem sempre, pois, se faz necessário vejamos uma coisa, para

sabermos que ela existe. Em tudo, observando os efeitos é que se chega ao

conhecimento das causas.

3. Outro princípio igualmente elementar e que, de tão verdadeiro,

passou a axioma é o de que todo efeito inteligente tem que decorrer de

uma causa inteligente.

Se perguntassem qual o construtor de certo mecanismo engenhoso,

que pensaríamos de quem respondesse que ele se fez a si mesmo? Quan

do se contempla uma obra-prima da arte ou da indústria, diz-se que há

de tê-la produzido um homem de gênio, porque só uma alta inteligên

cia poderia concebê-la. Reconhece-se, no entanto, que ela é obra de um

homem, por se verificar que não está acima da capacidade humana; mas

a ninguém acudirá a ideia de dizer que saiu do cérebro de um idiota ou

de um ignorante, nem, ainda menos, que é trabalho de um animal, ou

produto do acaso.

4. Em toda parte se reconhece a presença do homem pelas suas

obras. A existência dos homens antediluvianos não se provaria unicamen

te por meio dos fósseis humanos: provou-a também, e com muita certeza,

a presença, nos terrenos daquela época, de objetos trabalhados pelos ho

mens. Um fragmento de vaso, uma pedra talhada, uma arma, um tijolo

bastarão para lhe atestar a presença. Pela grosseria ou perfeição do traba

lho, reconhecer-se-á o grau de inteligência ou de adiantamento dos que o

executaram. Se, pois, achando-vos numa região habitada exclusivamente

por selvagens, descobrirdes uma estátua digna de Fídias,17 não hesitareis

em dizer que, sendo incapazes de tê-la feito os selvagens, ela é obra de uma

inteligência superior à destes.

5. Pois bem! lançando o olhar em torno de si, sobre as obras da

natureza, notando a providência, a sabedoria, a harmonia que presidem

a essas obras, reconhece o observador não haver nenhuma que não ultra

passe os limites da mais portentosa inteligência humana. Ora, desde que o

homem não as pode produzir, é que elas são produto de uma inteligência

superior à humanidade, a menos se sustente que há efeitos sem causa.

6. A isto opõem alguns o seguinte raciocínio:

As obras ditas da natureza são produzidas por forças materiais que

atuam mecanicamente, em virtude das leis de atração e repulsão; as mo

léculas dos corpos inertes se agregam e desagregam sob o império dessas

leis. As plantas nascem, brotam, crescem e se multiplicam sempre da mes

ma maneira, cada uma na sua espécie, por efeito daquelas mesmas leis;

cada indivíduo se assemelha ao de quem ele proveio; o crescimento, a

floração, a frutificação, a coloração se acham subordinados a causas ma

teriais, tais como o calor, a eletricidade, a luz, a umidade etc. O mesmo

se dá com os animais. Os astros se formam pela atração molecular e se

movem perpetuamente em suas órbitas por efeito da gravitação. Essa re

gularidade mecânica no emprego das forças naturais não acusa a ação de

qualquer inteligência livre. O homem movimenta o braço quando quer e

como quer; aquele, porém, que o movimentasse no mesmo sentido, desde

o nascimento até a morte, seria um autômato. Ora, as forças orgânicas da

natureza são puramente automáticas.

Tudo isso é verdade, mas essas forças são efeitos que hão de ter

uma causa e ninguém pretende que elas constituam a Divindade. Elas

são forças materiais e mecânicas; não são por si mesmas inteligentes,

o que também é verdade; mas são postas em ação, distribuídas, apro

priadas às necessidades de cada coisa por uma inteligência que não é a

dos homens. A aplicação útil dessas forças é um efeito inteligente que

denota uma causa inteligente. Um pêndulo se move com automática re

gularidade e é nessa regularidade que lhe está o mérito. É toda material

a força que o faz mover-se e nada tem de inteligente. Mas que seria esse

pêndulo se uma inteligência não houvesse combinado, calculado, dis

tribuído o emprego daquela força, para fazê-lo andar com precisão? Do

fato de não estar a inteligência no mecanismo do pêndulo e do fato de

que ninguém a vê, seria racional deduzir-se que ela não existe? Julgamo--la pelos seus efeitos.

A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; a engenho

sidade do mecanismo lhe atesta a inteligência e o saber. Quando um reló

gio vos indica a hora que desejais saber, quem se lembrará de dizer: aí está

um relógio bem inteligente?

Outro tanto ocorre com o mecanismo do universo: Deus não se

mostra, mas se revela pelas suas obras.

7. A existência de Deus é, pois, uma realidade comprovada não só

pela revelação, como pela evidência material dos fatos. Os povos selvagens

nenhuma revelação tiveram; entretanto, creem instintivamente na exis

tência de um poder sobre-humano. Eles veem coisas que estão acima das

possibilidades do homem e deduzem que essas coisas provêm de um ente

superior à humanidade. Não demonstram raciocinar com mais lógica do

que os que pretendem que tais coisas se fizeram a si mesmas?

Da natureza divina

8. Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para

compreender Deus, ainda nos falta o sentido, que só se adquire com a comple

ta depuração do Espírito. Mas se o homem não pode penetrar a essência de

Deus, pode ter como premissa a sua existência. O homem pode, então,

pela razão chegar a conhecer-lhe os atributos necessários e concluir que

esses atributos só podem ser divinos, deduzindo daí quem é Deus.

Sem o conhecimento dos atributos de Deus, impossível seria com

preender-se a obra da Criação. Esse é o ponto de partida de todas as cren

ças religiosas e por não se terem reportado aos atributos, como ao farol

capaz de as orientar, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As

que não atribuíram a Deus a onipotência imaginaram muitos deuses; as

que não lhe atribuíram soberana bondade fizeram dele um Deus ciumen

to, colérico, parcial e vingativo.

9. Deus é a suprema e soberana inteligência. É limitada a inteligência

do homem, pois que não pode fazer, nem compreender tudo o que existe.

A de Deus, abrangendo o infinito, tem que ser infinita. Se a supuséssemos

limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inte

ligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria e assim

por diante, até o infinito.

10. Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse

tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não sendo o nada coisa algu

ma, coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido criado por outro

ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe supuséssemos

um começo ou fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes

dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por diante, ao infinito.

11. Deus é imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma esta

bilidade teriam as leis que regem o universo.

12. Deus é imaterial, isto é, a sua natureza difere de tudo o que cha

mamos matéria. De outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às

transformações da matéria.

Deus carece de forma apreciável pelos nossos sentidos, sem o que

seria matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus,

porque o homem, nada mais conhecendo além de si mesmo, toma a si

próprio por termo de comparação para tudo o que não compreende. São

ridículas essas imagens em que Deus é representado pela figura de um

ancião de longas barbas e envolto num manto. Têm o inconveniente de

rebaixar o Ente supremo até as mesquinhas proporções da humanidade.

Daí a lhe emprestarem as paixões humanas e a fazerem-no um Deus colé

rico e ciumento não vai mais que um passo.

13. Deus é onipotente. Se não possuísse o poder supremo, sempre

se poderia conceber uma entidade mais poderosa e assim por diante, até

chegar-se ao ser cuja potencialidade nenhum outro ultrapassasse. Esse en

tão é que seria Deus.

14. Deus é soberanamente justo e bom. A providencial sabedoria

das Leis divinas se revela nas mais pequeninas coisas, como nas maiores,

não permitindo essa sabedoria que se duvide da sua justiça, nem da sua

bondade.

O fato de ser infinita uma qualidade, exclui a possibilidade de

uma qualidade contrária, porque esta a apoucaria ou anularia. Um ser

infinitamente bom não poderia conter a mais insignificante parcela de

malignidade, nem o ser infinitamente mau conter a mais insignificante

parcela de bondade, do mesmo modo que um objeto não pode ser de um

negro absoluto, com a mais ligeira nuança de branco, nem de um branco

absoluto com a menor mancha preta.

Deus, pois, não poderia ser simultaneamente bom e mau, porque

então, não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supre

mo, não seria Deus; todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e

para nenhuma haveria estabilidade. Não poderia Ele, por conseguin

te, deixar de ser ou infinitamente bom ou infinitamente mau. Ora,

como suas obras dão testemunho da sua sabedoria, da sua bondade e

da sua solicitude, concluir-se-á que, não podendo ser ao mesmo tempo

bom e mau sem deixar de ser Deus, Ele necessariamente tem de ser infinitamente bom.

A soberana bondade implica a soberana justiça, porquanto, se Ele

procedesse injustamente ou com parcialidade numa só circunstância que

fosse, ou com relação a uma só de suas criaturas, já não seria soberanamente

justo e, em consequência, já não seria soberanamente bom.

15. Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber-se Deus

sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se

poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que ne

nhum ser possa ultrapassá-lo, faz-se mister que Ele seja infinito em tudo.

Sendo infinitos, os atributos de Deus não são suscetíveis nem de

aumento, nem de diminuição, visto que do contrário não seriam infinitos

e Deus não seria perfeito. Se lhe tirassem a qualquer dos atributos a mais

mínima parcela, já não haveria Deus, pois que poderia existir um ser mais

perfeito.

16. Deus é único. A unicidade de Deus é consequência do fato de

serem infinitas as suas perfeições. Não poderia existir outro Deus, salvo

sob a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, visto que,

se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro,

subordinado ao poder desse outro e, então, não seria Deus. Se houvesse

entre ambos igualdade absoluta, isso equivaleria a existir, por toda eterni

dade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder.

Confundidos quanto à identidade, não haveria, em realidade, mais que

um único Deus. Se cada um tivesse atribuições especiais, um não faria o

que o outro fizesse; mas, então, não existiria igualdade perfeita entre eles,

pois que nenhum possuiria a autoridade soberana.

17. A ignorância do princípio de que são infinitas as perfeições de

Deus foi que gerou o politeísmo, culto adotado por todos os povos pri

mitivos, que davam o atributo de divindade a todo poder que lhes parecia

acima dos poderes inerentes à humanidade. Mais tarde, a razão os levou

a reunir essas diversas potências numa só. Depois, à proporção que os

homens foram compreendendo a essência dos atributos divinos, retiraram

dos símbolos, que haviam criado, a crença que implicava a negação desses

atributos.

18. Em resumo, Deus não pode ser Deus, senão sob a condição de

que nenhum outro o ultrapasse, porquanto o ser que o excedesse no que

quer que fosse, ainda que apenas na grossura de um cabelo, é que seria o

verdadeiro Deus. Para que tal não se dê, indispensável se torna que Ele

seja infinito em tudo.

É assim que, comprovada pelas suas obras a existência de Deus,

por simples dedução lógica se chega a determinar os atributos que o

caracterizam.

19. Deus é, pois, a inteligência suprema e soberana, é único, eterno,

imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas

as perfeições, e não pode ser diverso disso.

Tal o eixo sobre que repousa o edifício universal. Esse o farol cujos

raios se estendem por sobre o universo inteiro, única luz capaz de guiar o

homem na procura da verdade. Orientando-se por essa luz, ele nunca se

transviará. Se, portanto, o homem há errado tantas vezes, é unicamente

por não ter seguido o roteiro que lhe estava indicado.

Tal também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e re

ligiosas. Para apreciá-las, dispõe o homem de uma medida rigorosamente

exata nos atributos de Deus e pode afirmar a si mesmo que toda teoria,

todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática que estiver em contradi

ção com um só que seja desses atributos, que tenda não tanto a anulá-lo, mas

simplesmente a diminuí-lo, não pode estar com a verdade.

Em Filosofia, em Psicologia, em Moral, em Religião, só há de verdadei

ro o que não se afaste, nem um til, das qualidades essenciais da Divindade.

A religião perfeita será aquela de cujos artigos de fé nenhum esteja em

oposição àquelas qualidades; aquela cujos dogmas todos suportem a prova

dessa verificação sem nada sofrerem.

A Providência

20. A providência é a solicitude de Deus para com as suas criaturas.

Ele está em toda parte, tudo vê, a tudo preside, mesmo às menores coisas.

É nisto que consiste a ação providencial.

“Como pode Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo,

imiscuir-se em pormenores ínfimos, preocupar-se com os menores atos e

os menores pensamentos de cada indivíduo?” Esta a interrogação que a

si mesmo dirige o incrédulo, concluindo por dizer que, admitida a exis

tência de Deus, só se pode admitir, quanto à sua ação, que ela se exerça

sobre as leis gerais do universo; que o universo funcione de toda a eterni

dade em virtude dessas leis, às quais toda criatura se acha submetida na

esfera de suas atividades, sem que haja mister a intervenção incessante da

Providência.

21. No estado de inferioridade em que ainda se encontram, só mui

to dificilmente podem os homens compreender que Deus seja infinito,

pois, vendo-se limitados e circunscritos, eles o imaginam também cir

cunscrito e limitado. Imaginando-o circunscrito, figuram-no quais eles

são, à imagem e semelhança deles. Os quadros em que o vemos com tra

ços humanos não contribuem pouco para entreter esse erro no espírito das

massas, que nele adoram mais a forma que o pensamento. Para a maioria,

é Ele um soberano poderoso, sentado num trono inacessível e perdido napequeninas coisas.

22. Impotente para compreender a essência mesma da Divindade, o

homem não pode fazer dela mais do que uma ideia aproximativa, median

te comparações necessariamente muito imperfeitas, mas que, ao menos,

servem para lhe mostrar a possibilidade daquilo que, à primeira vista, lhe

parece impossível.

Suponhamos um fluido bastante sutil para penetrar todos os cor

pos. Sendo ininteligente, esse fluido atua mecanicamente, por meio tão

só das forças materiais. Se, porém, o supusermos dotado de inteligência,

de faculdades perceptivas e sensitivas, ele já não atuará às cegas, mas com

discernimento, com vontade e liberdade: verá, ouvirá e sentirá.

23. As propriedades do fluido perispirítico podem nos dar uma

ideia. Ele não é de si mesmo inteligente, pois que é matéria, mas é o

veículo do pensamento, das sensações e percepções do Espírito. O flui

do perispiritual não é o pensamento do Espírito; é, porém, o agente e o

intermediário desse pensamento. Sendo ele que o transmite, fica, de certo

modo, impregnado do pensamento transmitido, e na impossibilidade em

que nos achamos de isolar o pensamento, a nós parece que ele faz corpo

com o fluido, dando a entender que são uma coisa só, como sucede com

o som e o ar, de maneira que podemos, a bem dizer, materializá-lo. Assim

como dizemos que o ar se torna sonoro, poderíamos, tomando o efeito

pela causa, dizer que o fluido se torna inteligente.

24. Seja ou não assim no que concerne ao pensamento de Deus, isto

é, que o pensamento de Deus atue diretamente ou por intermédio de um

fluido, para facilitar a nossa inteligência, figuremo-lo sob a forma concre

ta de um fluido inteligente que enche o universo infinito e penetra todas

as partes da Criação: a natureza inteira está mergulhada no fluido divino.

Ora, em virtude do princípio de que as partes de um todo são da mesma

natureza e têm as mesmas propriedades que ele, cada átomo desse fluido,

se assim nos podemos exprimir, possuindo o pensamento, isto é, os atri

butos essenciais da Divindade e estando o mesmo fluido em toda parte,

tudo está submetido à sua ação inteligente, à sua previdência, à sua soli

citude. Nenhum ser haverá, por mais ínfimo que o suponhamos, que não

esteja saturado dele. Achamo-nos então, constantemente, em presença da

Divindade; nenhuma das nossas ações lhe podemos subtrair ao olhar; o

nosso pensamento está em contato ininterrupto com o seu pensamento,

havendo, pois, razão para dizer-se que Deus vê os mais profundos refolhos

do nosso coração. Estamos nele, como Ele está em nós, segundo a palavra do

Cristo (1 João, 4:13).

Para estender a sua solicitude a todas as criaturas, não precisa Deus

lançar o olhar do Alto da imensidade. As nossas preces, para que Ele as

ouça, não precisam transpor o espaço, nem ser ditas com voz retumbante,

pois que, estando sempre ao nosso lado, os nossos pensamentos repercu

tem nele. Os nossos pensamentos são como os sons de um sino, que fazem

vibrar todas as moléculas do ar ambiente.

25. Longe de nós a ideia de materializar a Divindade. A imagem de

um fluido inteligente universal evidentemente não passa de uma compa

ração apropriada a dar de Deus uma ideia mais exata do que os quadros

que o apresentam debaixo de uma figura humana. Essa imagem se destina

a fazer compreensível a possibilidade que tem Deus de estar em toda parte

e de se ocupar com todas as coisas.

26. Temos constantemente sob as vistas um exemplo que nos per

mite fazer ideia do modo por que talvez se exerça a ação de Deus sobre

as partes mais íntimas de todos os seres e, conseguintemente, do modo

por que lhe chegam as mais sutis impressões de nossa alma. Esse exemplo

tiramo-lo de certa instrução que a tal respeito deu um Espírito.

27. “O homem é um pequeno mundo, que tem como diretor o

Espírito e como dirigido o corpo. Nesse universo, o corpo representará

uma criação cujo Espírito seria Deus. (Compreendei bem que aqui há

uma simples questão de analogia e não de identidade.) Os membros desse

corpo, os diferentes órgãos que o compõem, os músculos, os nervos, as

articulações são outras tantas individualidades materiais, se assim se pode

dizer, localizadas em pontos especiais do corpo. Se bem seja considerável

o número de suas partes constitutivas, de natureza tão variada e diferente,

a ninguém é lícito supor que se possam produzir movimentos, ou uma

impressão em qualquer lugar, sem que o Espírito tenha consciência do

que ocorra. Há sensações diversas em muitos lugares simultaneamente?

O Espírito as sente todas, distingue, analisa, assinala a cada uma a causa

determinante e o ponto em que se produziu, tudo por meio do fluido

perispirítico.

“Análogo fenômeno ocorre entre Deus e a Criação. Deus está em

toda parte, na natureza, como o Espírito está em toda parte, no corpo.

Todos os elementos da Criação se acham em relação constante com Ele,

como todas as células do corpo humano se acham em contato imediato

com o ser espiritual. Não há, pois, razão para que fenômenos da mesma

ordem não se produzam de maneira idêntica, num e noutro caso.

“Um membro se agita: o Espírito o sente; uma criatura pensa: Deus

o sabe. Todos os membros estão em movimento, os diferentes órgãos estão

a vibrar; o Espírito se ressente de todas as manifestações, as distingue e

localiza. As diferentes criações, as diferentes criaturas se agitam, pensam,

agem diversamente: Deus sabe o que se passa e assina a cada um o que lhe

diz respeito.

“Daí se pode igualmente deduzir a solidariedade da matéria e da

inteligência, a solidariedade entre si de todos os seres de um mundo, a

de todos os mundos e, por fim, de todas as criações com o Criador.”

( Quinemant, Sociedade de Paris, 1867.)

28. Compreendemos o efeito: já é muito. Do efeito remontamos

à causa e julgamos da sua grandeza pela grandeza do efeito. Escapa-nos,

porém, a sua essência íntima, como a da causa de uma imensidade de

fenômenos. Conhecemos os efeitos da eletricidade, do calor, da luz, da

gravitação; calculamo-los e, entretanto, ignoramos a natureza íntima do

princípio que os produz.18 Será então racional neguemos o princípio divi

no, porque não o compreendemos?

29. Nada obsta a que se admita, para o princípio da soberana inte

ligência, um centro de ação, um foco principal a irradiar incessantemen

te, inundando o universo com seus eflúvios, como o Sol com a sua luz.

Mas onde esse foco? É o que ninguém pode dizer. Provavelmente, não se

acha fixado em determinado ponto, como não o está a sua ação, sendo

também provável que percorra constantemente as regiões do espaço sem--fim. Se simples Espíritos têm o dom da ubiquidade, em Deus há de ser

sem limites essa faculdade. Enchendo Deus o universo, poder-se-ia ainda

admitir, a título de hipótese, que esse foco não precisa transportar-se, por

se formar em todas as partes onde a soberana vontade julga conveniente

que ele se produza, donde o poder dizer-se que está em toda parte e em

parte nenhuma.

30. Diante desses problemas insondáveis, cumpre que a nossa ra

zão se humilhe. Deus existe: disso não podemos duvidar. É infinitamente

justo e bom: essa a sua essência. A tudo se estende a sua solicitude: com

preendemo-lo. Só o nosso bem, portanto, pode Ele querer, donde se segue

que devemos confiar nele, isso é essencial. Quanto ao mais, esperemos que

nos tenhamos tornado dignos de o compreender.

A visão de Deus

31. Se Deus está em toda parte, por que não o vemos? Vê-lo-emos

quando deixarmos a Terra? Tais as perguntas que se formulam todos os

dias.

À primeira é fácil responder. Por serem limitadas as percepções

dos nossos órgãos visuais, elas os tornam inaptos à visão de certas coisas,

mesmo materiais. Assim é que alguns fluidos nos fogem totalmente à

nossa visão e aos instrumentos de análise; entretanto, não duvidamos da

existência deles. Vemos os efeitos da peste, mas não vemos o fluido que a

transporta;19 vemos os corpos em movimento sob a influência da força de

gravitação, mas não vemos essa força.

32. Os nossos órgãos materiais não podem perceber as coisas de

essência espiritual. Unicamente com a visão espiritual é que podemos ver

os Espíritos e as coisas do mundo imaterial. Somente a nossa alma, por

tanto, pode ter a percepção de Deus. Dar-se-á que ela o veja logo após a

morte? A esse respeito, só as comunicações de além-túmulo nos podem

instruir. Por elas sabemos que a visão de Deus constitui privilégio das mais

purificadas almas e que bem poucas, ao deixarem o envoltório terrestre,

se encontram no grau de desmaterialização necessária a tal efeito. Uma

comparação vulgar tornará facilmente compreensível essa condição.

33. Uma pessoa que se ache no fundo de um vale, envolvido por

densa bruma, não vê o Sol. Entretanto, pela luz difusa, percebe a clarida

de do Sol. Se começa a subir a montanha, à medida que for ascendendo,

o nevoeiro se irá dissipando e a luz ficará cada vez mais viva. Contudo,

ainda não verá o Sol. Só depois que se haja elevado acima da camada

19 N.E.: Kardec escreveu de acordo com os conhecimentos da época, antes de 1894, ano em que se

descobriu que a doença, peste bubônica, era devida à bactéria Yersinia pestis (em homenagem ao

bacteriologista francês Alexandre Yersin, 1863–1943), que é transmitida ao homem pela pulga do

rato.

brumosa e chegado a um ponto onde o ar esteja perfeitamente límpido,

ela o contemplará em todo o seu esplendor.

O mesmo se dá com a alma. O envoltório perispirítico, conquanto

nos seja invisível e impalpável, é, com relação a ela, verdadeira matéria,

ainda grosseira demais para certas percepções. Esse invólucro, porém, se

espiritualiza, à proporção que a alma se eleva em moralidade. As imper

feições da alma são quais camadas nevoentas que lhe obscurecem a visão.

Cada imperfeição de que ela se desfaz é uma mácula a menos; todavia, só

depois de se haver depurado completamente é que goza da plenitude das

suas faculdades.

34. Sendo Deus a essência divina por excelência, unicamente os

Espíritos que atingiram o mais alto grau de desmaterialização o podem

perceber. Pelo fato de os Espíritos imperfeitos não verem a Deus, não

se segue que eles estejam mais distantes de Deus do que os outros; esses

Espíritos, como os demais, como todos os seres da natureza, se encontram

mergulhados no fluido divino, do mesmo modo que nós o estamos na

luz. O que há é que as imperfeições daqueles Espíritos são vapores que os

impedem de vê-lo. Quando o nevoeiro se dissipar, vê-lo-ão resplandecer.

Para isso, não lhes é preciso subir, nem procurá-lo nas profundezas do in

finito. Desimpedida a visão espiritual das belidas que a obscureciam, eles

o verão de todo lugar onde se achem, mesmo da Terra, porquanto Deus

está em toda parte.

35. O Espírito só se depura com o tempo, sendo as diversas encar

nações o alambique em cujo fundo deixa de cada vez algumas impurezas.

Com o abandonar o seu invólucro corpóreo, os Espíritos não se despojam

instantaneamente de suas imperfeições, razão por que, depois da morte,

não veem a Deus mais do que o viam quando vivos; mas, à medida que

se depuram, têm dele uma intuição mais clara. Não o veem, mas compre

endem-no melhor; a luz é menos difusa. Quando, pois, alguns Espíritos

dizem que Deus lhes proíbe respondam a uma dada pergunta não é que

Deus lhes apareça, ou dirija a palavra, para lhes ordenar ou proibir isto ou

aquilo, não; eles, porém, o sentem; recebem os eflúvios do seu pensamen

to, como nos sucede com relação aos Espíritos que nos envolvem em seus

fluidos, embora não os vejamos.

36. Nenhum homem, conseguintemente, pode ver a Deus com os

olhos da carne. Se essa graça fosse concedida a alguns, só o seria no estado

de êxtase, quando a alma se acha tão desprendida dos laços da matéria que

torna possível o fato durante a encarnação. Tal privilégio, aliás, exclusiva

mente pertenceria a almas de eleição, encarnadas em missão, que não em

expiação. Mas como os Espíritos da mais elevada categoria refulgem de

ofuscante brilho, pode dar-se que Espíritos menos elevados, encarnados

ou desencarnados, maravilhados com o esplendor de que aqueles se mos

tram cercados, suponham estar vendo o próprio Deus. É como quem vê

um ministro e o toma pelo seu soberano.

37. Sob que aparência se apresenta Deus aos que se tornaram dig

nos de vê-lo? Será sob uma forma qualquer? Sob uma figura humana, ou

como um foco de resplendente luz? A linguagem humana é impotente

para dizê-lo, porque não existe para nós nenhum ponto de comparação

capaz de nos facultar uma ideia de tal coisa. Somos quais cegos de nascen

ça a quem procurassem inutilmente fazer compreendessem o brilho do

Sol. A nossa linguagem é limitada pelas nossas necessidades e pelo círculo

das nossas ideias; a dos selvagens não poderia descrever as maravilhas da

civilização; a dos povos mais civilizados é extremamente pobre para des

crever os esplendores dos céus, a nossa inteligência muito restrita para os

compreender e a nossa vista, por muito fraca, ficaria deslumbrada.

O bem e o mal

• Origem do bem e do mal • O instinto e a inteligência

• Destruição dos seres vivos uns pelos outros

Origem do bem e do mal

1. Sendo Deus o princípio de todas as coisas e sendo todo sabedoria,

todo bondade, todo justiça, tudo o que dele procede há de participar dos

seus atributos, porquanto o que é infinitamente sábio, justo e bom nada

pode produzir que seja ininteligente, mau e injusto. O mal que observa

mos não pode ter nele a sua origem.

2. Se o mal estivesse nas atribuições de um ser especial, quer se lhe

chame Arimane,20 quer Satanás, ou ele seria igual a Deus, e, por conse

guinte, tão poderoso quanto este, e de toda a eternidade como Ele, ou lhe

seria inferior.

No primeiro caso, haveria duas potências rivais, incessantemente em

luta, procurando cada uma desfazer o que fizesse a outra, contrariando-se

mutuamente, hipótese esta inconciliável com a unidade de vistas que se

revela na estrutura do universo.

No segundo caso, sendo inferior a Deus, aquele ser lhe estaria su

bordinado. Não podendo existir de toda a eternidade como Deus, sem ser

igual a este, teria tido um começo. Se fora criado, só o poderia ter sido por

Deus, que, então, houvera criado o Espírito do mal, o que implicaria nega

ção da bondade infinita. (Veja-se: O céu e o inferno, cap. IX: Os demônios.)

3. Entretanto, o mal existe e tem uma causa.

Os males de toda espécie, físicos ou morais, que afligem a huma

nidade, formam duas categorias que importa distinguir: a dos males que

o homem pode evitar e a dos que lhe independem da vontade. Entre os

últimos, cumpre se incluam os flagelos naturais.

O homem, cujas faculdades são restritas, não pode penetrar, nem

abarcar o conjunto dos desígnios do Criador; aprecia as coisas do ponto

de vista da sua personalidade, dos interesses factícios e convencionais que

criou para si mesmo e que não se compreendem na ordem da natureza.

Por isso é que, muitas vezes, se lhe afigura mau e injusto aquilo que consi

deraria justo e admirável, se lhe conhecesse a causa, o objetivo, o resultado

definitivo. Pesquisando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, verificará

que tudo traz o sinete da sabedoria infinita e se dobrará a essa sabedoria,

mesmo com relação ao que lhe não seja compreensível.

4. O homem recebeu em partilha uma inteligência com cujo auxílio

lhe é possível conjurar, ou, pelo menos, atenuar muito os efeitos de todos

os flagelos naturais. Quanto mais saber ele adquire e mais se adianta em

civilização, tanto menos desastrosos se tornam os flagelos. Com uma orga

nização sábia e previdente, chegará mesmo a lhes neutralizar as consequên

cias, quando não possam ser inteiramente evitados. Assim, com referência,

até, aos flagelos que têm certa utilidade para a ordem geral da natureza e

para o futuro, mas que, no presente, causam danos, facultou Deus ao ho

mem os meios de lhes paralisar os efeitos.

Assim é que ele saneia as regiões insalubres, imuniza contra os mias

mas pestíferos, fertiliza terras áridas e se esforça em preservá-las das inun

dações; constrói habitações mais salubres, mais sólidas para resistirem aos

ventos tão necessários à purificação da atmosfera e se coloca ao abrigo das

intempéries. É assim, finalmente, que, pouco a pouco, a necessidade lhe

fez criar as ciências, por meio das quais melhora as condições de habitabi

lidade do globo e aumenta o seu próprio bem-estar.

5. Tendo o homem que progredir, os males a que se acha exposto

são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas

faculdades físicas e morais, incitando-o a procurar os meios de evitá-los. Se

ele nada houvesse de temer, nenhuma necessidade o induziria a procurar

o melhor; o espírito se lhe entorpeceria na inatividade; nada inventaria,

nem descobriria. A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do

progresso.

6. Porém, os males mais numerosos são os que o homem cria pelos

seus vícios, os que provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambi

ção, da sua cupidez, de seus excessos em tudo. Aí a causa das guerras e das

calamidades que estas acarretam, das dissensões, das injustiças, da opressão

do fraco pelo forte, da maior parte, afinal, das enfermidades.

Deus promulgou leis plenas de sabedoria, tendo por único objetivo

o bem. Em si mesmo encontra o homem tudo o que lhe é necessário para

cumpri-las. A consciência lhe traça a rota, a lei divina lhe está gravada no

coração e, ademais, Deus lha lembra constantemente por intermédio de

seus messias e profetas, de todos os Espíritos encarnados que trazem a

missão de o esclarecer, moralizar e melhorar e, nestes últimos tempos, pela

multidão dos Espíritos desencarnados que se manifestam em toda parte. Se

o homem se conformasse rigorosamente com as Leis divinas, não há duvidar de

que se pouparia aos mais agudos males e viveria ditoso na Terra. Se assim pro

cede, é por virtude do seu livre-arbítrio: sofre então as consequências do

seu proceder. (O evangelho segundo o espiritismo, cap. V, item 4 e seguintes.)

7. Entretanto, Deus, todo bondade, pôs o remédio ao lado do mal,

isto é, faz que do próprio mal saia o bem. Um momento chega em que o

excesso do mal moral se torna intolerável e impõe ao homem a necessidade

de mudar de vida. Instruído pela experiência, ele se sente compelido a pro

curar no bem o remédio, sempre por efeito do seu livre-arbítrio. Quando

toma melhor caminho, é por sua vontade e porque reconheceu os incon

venientes do outro. A necessidade, pois, o constrange a melhorar-se moral

mente, para ser mais feliz, do mesmo modo que o constrangeu a melhorar

as condições materiais da sua existência (item 5).

8. Pode dizer-se que o mal é a ausência do bem, como o frio é a ausên

cia do calor. Assim como o frio não é um fluido especial, também o mal não é

atributo distinto; um é o negativo do outro. Onde não existe o bem, forço

samente existe o mal. Não praticar o mal, já é um princípio do bem. Deus

somente quer o bem; só do homem procede o mal. Se na Criação houvesse um

ser preposto ao mal, ninguém o poderia evitar; mas, tendo o homem a causa do

mal em SI MESMO, tendo simultaneamente o livre-arbítrio e por guia as Leis

divinas, evitá-lo-á sempre que o queira.

Tomemos para comparação um fato vulgar. Sabe um proprietário

que nos confins de suas terras há um lugar perigoso, onde poderia perecer

ou ferir-se quem por lá se aventurasse. Que faz, a fim de prevenir os aciden

tes? Manda colocar perto um aviso, proibindo que prossigam os que por ali

passem, devido ao perigo. Aí está a lei, que é sábia e previdente. Se, apesar

de tudo, um imprudente desatende o aviso, vai além do ponto onde este

se encontra e sai-se mal, de quem se pode ele queixar, senão de si próprio?

Assim sucede com todo o mal: evitá-lo-ia o homem se cumprisse as

Leis divinas. Por exemplo: Deus pôs limite à satisfação das necessidades;

por meio da saciedade o homem é avisado desse limite; se o ultrapassa, fá--lo voluntariamente. As doenças, as enfermidades, a morte, que daí podem

resultar, provêm da sua imprevidência, não de Deus.

9. Decorrendo, o mal, das imperfeições do homem e tendo sido este

criado por Deus, dir-se-á, Deus não deixa de ter criado, se não o mal, pelo

menos, a causa do mal; se houvesse criado perfeito o homem, o mal não

existiria.

Se fora criado perfeito, o homem fatalmente penderia para o bem.

Ora, em virtude do seu livre-arbítrio, ele não pende fatalmente nem para o

bem, nem para o mal. Quis Deus que ele ficasse sujeito à lei do progresso

e que o progresso resulte do seu trabalho, a fim de que lhe pertença o fruto

deste, da mesma maneira que lhe cabe a responsabilidade do mal que por

sua vontade pratique. A questão, pois, consiste em saber-se qual é, no ho

mem, a origem da sua propensão para o mal.21

10. Estudando-se todas as paixões e, mesmo, todos os vícios, vê-se

que as raízes de umas e outros se acham no instinto de conservação, ins

tinto que se encontra em toda a pujança nos animais e nos seres primitivos

mais próximos da animalidade, nos quais ele exclusivamente domina,

sem o contrapeso do senso moral, por não ter ainda o ser nascido para a

vida intelectual. O instinto se enfraquece, à medida que a inteligência se

desenvolve, porque esta domina a matéria.

21 Nota de Allan Kardec: O erro está em pretender-se que a alma haja saído perfeita das mãos do Criador, quando este, ao contrário, quis que a perfeição resulte da depuração gradual do Espírito e seja obra sua. Houve Deus por bem que a alma, dotada de livre-arbítrio, pudesse optar entre o bem e o mal e

chegasse às suas finalidades últimas de forma militante e resistindo ao mal. Se houvera criadalma

tão perfeita quanto Ele e, ao sair-lhe ela das mãos, a houvesse associado à sua beatitude eterna, Deus tê-la-ia feito, não à sua imagem, mas semelhante a si próprio. (Bonnamy, A razão do espiritismo, cap. VI.)

O Espírito tem por destino a vida espiritual, porém, nas primeiras

fases da sua existência corpórea, somente às exigências materiais lhe cumpre

satisfazer e, para tal, o exercício das paixões constitui uma necessidade para

a conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Mas, uma

vez saído desse período, outras necessidades se lhe apresentam, a princípio

semimorais e semimateriais, depois exclusivamente morais. É então que o

Espírito exerce domínio sobre a matéria, sacode-lhe o jugo, avança pela sen

da providencial que se lhe acha traçada e se aproxima do seu destino final.

Se, ao contrário, ele se deixa dominar pela matéria, atrasa-se e se identifica

com o bruto. Nessa situação, o que era outrora um bem, porque era uma

necessidade da sua natureza, transforma-se num mal, não só porque já não

constitui uma necessidade, como porque se torna prejudicial à espiritualização

do ser. Muita coisa, que é qualidade na criança, torna-se defeito no adulto.

O mal é, pois, relativo e a responsabilidade é proporcionada ao grau de

adiantamento.

Todas as paixões têm, portanto, uma utilidade providencial, pois, se

assim não fosse, Deus teria feito coisas inúteis e até nocivas. No abuso é

que reside o mal e o homem abusa em virtude do seu livre-arbítrio. Mais

tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, livremente escolhe entre o

bem e o mal.

O instinto e a inteligência

11. Qual a diferença entre o instinto e a inteligência? Onde acaba

um e o outro começa? Será o instinto uma inteligência rudimentar, ou será

uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?

O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâ

neos e involuntários, tendo em vista a conservação deles. Nos atos instintivos

não há reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a plan

ta procura o ar, se volta para a luz, dirige suas raízes para a água e para a

terra nutriente; que a flor se abre e fecha alternadamente, conforme se lhe

faz necessário; que as plantas trepadeiras se enroscam em torno daquilo

que lhes serve de apoio, ou se lhe agarram com as gavinhas. É pelo instinto

que os animais são avisados do que lhes é útil ou nocivo; que buscam, con

forme a estação, os climas propícios; que constroem, sem ensino prévio,

com mais ou menos arte, segundo as espécies, leitos macios e abrigos para

as suas progênies, armadilhas para apanhar a presa de que se nutrem; que

manejam destramente as armas ofensivas e defensivas de que são providos;

que os sexos se aproximam; que a mãe choca os filhos e que estes procuram

o seio materno. No homem, no começo da vida o instinto domina com ex

clusividade; é por instinto que a criança faz os primeiros movimentos, que

toma o alimento, que grita para exprimir as suas necessidades, que imita o

som da voz, que tenta falar e andar. No próprio adulto, certos atos são ins

tintivos, tais como os movimentos espontâneos para evitar um risco, para

fugir a um perigo, para manter o equilíbrio do corpo; tais ainda o piscar

das pálpebras para moderar o brilho da luz, a respiração etc.

12. A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premedita

dos, combinados, de acordo com a oportunidade das circunstâncias. É incon

testavelmente um atributo exclusivo da alma.

Todo ato maquinal é instintivo; o ato que denota reflexão, combinação,

deliberação é inteligente. Um é livre, o outro não o é.

O instinto é guia seguro, que nunca se engana; a inteligência, pelo

simples fato de ser livre, está, por vezes, sujeita a errar.

Ao ato instintivo falta o caráter do ato inteligente; revela, entretanto,

uma causa inteligente, essencialmente apta a prever. Se se admitir que o

instinto procede da matéria, ter-se-á de admitir que a matéria é inteligente,

até mesmo bem mais inteligente e previdente do que a alma, pois que o

instinto não se engana, ao passo que a inteligência se equivoca.

Se se considerar o instinto uma inteligência rudimentar, como se há

de explicar que, em certos casos, seja superior à inteligência que racioci

na? Como explicar que torne possível se executem atos que esta não pode

realizar? Se ele é atributo de um princípio espiritual de especial natureza,

qual vem a ser esse princípio? Pois que o instinto se apaga, dar-se-á que

esse princípio se destrua? Se os animais são dotados apenas de instinto, não

tem solução o destino deles e nenhuma compensação os seus sofrimentos,

o que não estaria de acordo nem com a justiça, nem com a bondade de

Deus. (Cap. II, 19.)

13. Segundo outros sistemas, o instinto e a inteligência procederiam

de um único princípio. Chegado a certo grau de desenvolvimento, esse

princípio, que primeiramente apenas tivera as qualidades do instinto, pas

saria por uma transformação que lhe daria as da inteligência livre.

Se fosse assim, no homem inteligente que perde a razão e entra a ser

guiado exclusivamente pelo instinto, a inteligência voltaria ao seu estado

primitivo e, quando o homem recobrasse a razão, o instinto se tornaria

inteligência e assim alternadamente, a cada acesso, o que não é admissível.

Aliás, muitas vezes o instinto e a inteligência se revelam simulta

neamente no mesmo ato. No caminhar, por exemplo, o movimento das

pernas é instintivo; o homem põe maquinalmente um pé à frente do outro,

sem nisso pensar; quando, porém, ele quer acelerar ou demorar o passo,

levantar o pé ou desviar-se de um tropeço, há cálculo, combinação; ele age

com deliberado propósito. A impulsão involuntária do movimento é o ato

instintivo; a calculada direção do movimento é o ato inteligente. O animal

carnívoro é impelido pelo instinto a se alimentar de carne, mas as precau

ções que toma e que variam conforme as circunstâncias, para segurar a

presa, a sua previdência das eventualidades são atos da inteligência.

14. Outra hipótese que, em suma, se conjuga perfeitamente à ideia

da unidade de princípio, ressalta do caráter essencialmente previdente do

instinto e concorda com o que o Espiritismo ensina, no tocante às relações

do mundo espiritual com o mundo corpóreo.

Sabe-se agora que muitos Espíritos desencarnados têm por missão

velar pelos encarnados, dos quais se constituem protetores e guias; que os

envolvem nos seus eflúvios fluídicos; que o homem age muitas vezes de

modo inconsciente, sob a ação desses eflúvios.

Sabe-se, ademais, que o instinto, que por si mesmo produz atos in

conscientes, predomina nas crianças e, em geral, nos seres cuja razão é

fraca. Ora, segundo esta hipótese, o instinto não seria atributo nem da

alma, nem da matéria; não pertenceria propriamente ao ser vivo, seria efei

to da ação direta dos protetores invisíveis que supririam a imperfeição da

inteligência, provocando os atos inconscientes necessários à conservação

do ser. Seria qual a andadeira com que se amparam as crianças que ainda

não sabem andar. Então, do mesmo modo que se deixa gradualmente de

usar a andadeira, à medida que a criança se equilibra sozinha, os Espíritos

protetores deixam entregues a si mesmos os seus protegidos, à medida que

estes se tornam aptos a guiar-se pela própria inteligência.

Assim, o instinto, longe de ser produto de uma inteligência rudi

mentar e incompleta, sê-lo-ia de uma inteligência estranha, na plenitude

da sua força, inteligência protetora, que supriria a insuficiência, quer de

uma inteligência mais jovem, que aquela compeliria a fazer, inconscien

temente, para seu bem, o que ainda fosse incapaz de fazer por si mesma,

quer de uma inteligência madura, porém, momentaneamente tolhida no

uso de suas faculdades, como se dá com o homem na infância e nos casos

de idiotia e de afecções mentais.

Diz-se proverbialmente que há um deus para as crianças, para os

loucos e para os ébrios. É mais veraz do que se supõe esse ditado. Aquele

deus, outro não é senão o Espírito protetor, que vela pelo ser incapaz de se

proteger, utilizando-se da sua própria razão.

15. Nesta ordem de ideias, ainda mais longe se pode ir. Por muito

racional que seja, essa teoria não resolve todas as dificuldades da questão.

Se observarmos os efeitos do instinto, notaremos, em primeiro lugar,

uma unidade de vistas e de conjunto, uma segurança de resultados, que

cessam logo que a inteligência livre substitui o instinto. Demais, reconhe

ceremos profunda sabedoria na apropriação tão perfeita e tão constante das

faculdades instintivas às necessidades de cada espécie. Semelhante unidade

de vistas não poderia existir sem a unidade de pensamento e esta é incom

patível com a diversidade das aptidões individuais; só ela poderia produzir

esse conjunto tão harmonioso que se realiza desde a origem dos tempos

e em todos os climas, com uma regularidade, uma precisão matemáticas,

cuja ausência jamais se nota. A uniformidade no que resulta das faculdades

instintivas é um fato característico, que forçosamente implica a unidade

da causa. Se a causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tantas

variedades de instintos quantos fossem os indivíduos, desde a planta até o

homem. Um efeito geral, uniforme e constante, há de ter uma causa geral,

uniforme e constante; um efeito que atesta sabedoria e previdência há de

ter uma causa sábia e previdente. Ora, uma causa dessa natureza, sendo por

força inteligente, não pode ser exclusivamente material.

Não se nos deparando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas,

as qualidades necessárias à produção de tal resultado, temos que subir mais

alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportamos à explicação dada sobre

a maneira por que se pode conceber a ação providencial (cap. II, item 24);

se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente

inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas

que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o

bem de cada indivíduo. Tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos

recursos tem o indivíduo em si mesmo e na sua inteligência. Por isso é que

ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores, do

que no homem.

Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia segu

ro. O instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa

ao nível das forças atrativas da matéria, fica realçado e enobrecido. Em

razão das suas consequências, não devia ele ser entregue às eventualidades

caprichosas da inteligência e do livre-arbítrio. Por intermédio da mãe, o

próprio Deus vela pelas suas criaturas que nascem.

16. Esta teoria de nenhum modo anula o papel dos Espíritos pro

tetores, cujo concurso é fato observado e comprovado pela experiência;

mas deve-se notar que a ação desses Espíritos é essencialmente individual;

que se modifica segundo as qualidades próprias do protetor e do protegi

do e que em parte nenhuma apresenta a uniformidade e a generalidade

do instinto. Deus, em sua sabedoria, conduz Ele próprio os cegos, porém

confia a inteligências livres o cuidado de guiar os clarividentes, para deixar

a cada um a responsabilidade de seus atos. A missão dos Espíritos prote

tores constitui um dever que eles aceitam voluntariamente e lhes é um

meio de se adiantarem, dependendo o adiantamento da forma por que o

desempenhem.

17. Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente

hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser

tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia,

quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam.

Até lá, temos que limitar-nos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da

razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima

da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus,

isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça. (Cap. II, item 19.)

18. Sendo o instinto o guia e as paixões as molas da alma no perío

do inicial do seu desenvolvimento, por vezes aquele e estas se confundem

nos efeitos. Há, contudo, entre esses dois princípios, diferenças que muito

importa se considerem.

O instinto é guia seguro, sempre bom. Pode, ao cabo de certo tem

po, tornar-se inútil, porém nunca prejudicial. Enfraquece-se pela predomi

nância da inteligência.

As paixões, nas primeiras idades da alma, têm de comum com o

instinto o serem as criaturas solicitadas por uma força igualmente incons

ciente. As paixões nascem principalmente das necessidades do corpo e de

pendem, mais do que o instinto, do organismo. O que, acima de tudo,

as distingue do instinto é que são individuais e não produzem, como este

último, efeitos gerais e uniformes; variam, ao contrário, de intensidade e

de natureza, conforme os indivíduos. São úteis, como estimulante, até a

eclosão do senso moral, que faz nasça de um ser passivo, um ser racional.

Nesse momento, as paixões tornam-se não só inúteis, como nocivas ao

progresso do Espírito, cuja desmaterialização retardam. Abrandam-se com

o desenvolvimento da razão.

19. O homem que constantemente só agisse pelo instinto poderia

ser muito bom, mas conservaria adormecida a sua inteligência. Seria qual

criança que não deixasse as andadeiras e não soubesse utilizar-se de seus

membros. Aquele que não domina as suas paixões pode ser muito inteli

gente, porém, ao mesmo tempo, muito mau. O instinto se aniquila por si

mesmo; as paixões somente pelo esforço da vontade podem domar-se.

Destruição dos seres vivos uns pelos outros

20. A destruição recíproca dos seres vivos é, dentre as leis da na

tureza, uma das que, à primeira vista, menos parecem conciliar-se com

a Bondade de Deus. Pergunta-se por que lhes criou Ele a necessidade de

mutuamente se destruírem, para se alimentarem uns à custa dos outros.

Para quem apenas vê a matéria e restringe à vida presente a sua vi

são, há de isso, com efeito, parecer uma imperfeição na obra divina. É

que, em geral, os homens apreciam a perfeição de Deus do ponto de vista

humano; medindo-lhe a sabedoria pelo juízo que dela formam, pensam

que Deus não poderia fazer coisa melhor do que eles próprios fariam. Não

lhes permitindo a curta visão, de que dispõem, apreciar o conjunto, não

compreendem que um bem real possa decorrer de um mal aparente. Só

o conhecimento do princípio espiritual, considerado em sua verdadeira

essência, e o da grande lei de unidade, que constitui a harmonia da Cria

ção, pode dar ao homem a chave desse mistério e mostrar-lhe a sabedoria

providencial e a harmonia, exatamente onde apenas vê uma anomalia e

uma contradição.

O bem e o mal

21. A verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está no

invólucro corporal, do mesmo que não está no vestuário. Está no princípio in

teligente que preexiste e sobrevive ao corpo. Esse princípio necessita do corpo

para se desenvolver pelo trabalho que lhe cumpre realizar sobre a matéria

bruta. O corpo se consome nesse trabalho, mas o Espírito não se gasta;

ao contrário, sai dele cada vez mais forte, mais lúcido e mais apto. Que

importa, pois, que o Espírito mude mais ou menos frequentemente de

envoltório?! Não deixa por isso de ser Espírito. É precisamente como se

um homem mudasse cem vezes no ano as suas vestes. Não deixaria por isso

de ser homem.

Por meio do incessante espetáculo da destruição, ensina Deus aos

homens o pouco caso que devem fazer do envoltório material e lhes suscita

a ideia da vida espiritual, fazendo que a desejem como uma compensação.

Objetar-se-á: não podia Deus chegar ao mesmo resultado por outros

meios, sem constranger os seres vivos a se destruírem mutuamente? Desde

que na sua obra tudo é sabedoria, devemos supor que esta sabedoria não

existirá mais num ponto do que noutros; se não o compreendemos assim,

devemos atribuí-lo à nossa falta de adiantamento. Contudo, podemos pro

curar a pesquisa da razão do que nos pareça defeituoso, tomando por bús

sola este princípio: Deus há de ser infinitamente justo e sábio. Procuremos,

portanto, em tudo, a sua justiça e a sua sabedoria e curvemo-nos diante do

que ultrapasse o nosso entendimento.

22. Uma primeira utilidade, que se apresenta de tal destruição, utili

dade, sem dúvida, puramente física, é esta: os corpos orgânicos só se conser

vam com o auxílio das matérias orgânicas, matérias que contêm os elemen

tos nutritivos necessários à sua transformação. Como instrumentos de ação

do princípio inteligente, os corpos precisam ser constantemente renovados,

a Providência faz que sirvam à sua mútua manutenção. Eis por que os seres

se nutrem uns dos outros. Mas é o corpo que se nutre do corpo, sem que

o Espírito se aniquile ou altere, fica apenas despojado do seu envoltório.22

23. Há também considerações morais de ordem elevada.

É necessária a luta para o desenvolvimento do Espírito. Na luta é

que ele exercita suas faculdades. O que ataca em busca do alimento e o

que se defende para conservar a vida usam de habilidade e inteligência,

aumentando, em consequência, suas forças intelectuais. Um dos dois

sucumbe; mas, em realidade, que foi o que o mais forte ou o mais destro

tirou ao mais fraco? A veste de carne, nada mais; ulteriormente, o Espírito,

que não morreu, tomará outra.

24. Nos seres inferiores da Criação, naqueles a quem ainda falta o

senso moral, nos quais a inteligência ainda não substituiu o instinto, a

luta não pode ter por móvel senão a satisfação de uma necessidade mate

rial. Ora, uma das mais imperiosas dessas necessidades é a da alimentação.

Eles, pois, lutam unicamente para viver, isto é, para fazer ou defender uma

presa, visto que nenhum móvel mais elevado os poderia estimular. É nesse

primeiro período que a alma se elabora e ensaia para a vida.

No homem, há um período de transição em que ele mal se distingue

do bruto. Nas primeiras idades, domina o instinto animal e a luta ainda

tem por móvel a satisfação das necessidades materiais. Mais tarde, contra

balançam-se o instinto animal e o sentimento moral; luta então o homem,

não mais para se alimentar, porém, para satisfazer à sua ambição, ao seu or

gulho, a sua necessidade de dominar. Para isso, ainda lhe é preciso destruir.

Todavia, à medida que o senso moral prepondera, desenvolve-se a sensibili

dade, diminui a necessidade de destruir, acaba mesmo por desaparecer, por

se tornar odiosa essa necessidade. O homem ganha horror ao sangue.

Contudo, a luta é sempre necessária ao desenvolvimento do Espí

rito, pois, mesmo chegando a esse ponto, que nos parece culminante, ele

ainda está longe de ser perfeito. Só à custa de sua atividade que o Espírito

adquire conhecimento, experiência e se despoja dos últimos vestígios da

animalidade. Mas, nessa ocasião, a luta, de sangrenta e brutal que era, se

torna puramente intelectual. O homem luta contra as dificuldades, não

mais contra os seus semelhantes.23

23 Nota de Allan Kardec: Sem prejulgar das consequências que se possam tirar desse princípio, apenas

quisemos demonstrar, mediante essa explicação, que a destruição de uns seres vivos por outros em

nada infirma a sabedoria divina e que, nas leis da natureza, tudo se encadeia. Esse encadeamento

forçosamente se quebra, desde que se abstraia do princípio espiritual, razão por que muitas questões

permanecem insolúveis, por só se levar em conta a matéria.

As doutrinas materialistas trazem em si o princípio de sua própria destruição; têm contra si não

só o antagonismo em que se acham com as aspirações da universalidade dos homens e suas

consequências morais, que farão sejam elas, as doutrinas, repelidas como dissolventes da sociedade,

mas também a necessidade que o homem experimenta de se inteirar de tudo o que resulta do pro

gresso. O desenvolvimento intelectual conduz o homem à pesquisa das causas. Ora, por pouco que

ele reflita, não tardará a reconhecer a impotência do materialismo para tudo explicar. Como é possível

que doutrinas que não satisfazem ao coração, nem a razão, nem à inteligência, que deixam proble

máticas as mais vitais questões, venham a prevalecer? O progresso das ideias matará o materialismo,

como matou o fanatismo.

Papel da Ciência na Gênese

1. A história da origem de quase todos os povos antigos se confunde

com a da sua religião, é por isso que seus primeiros livros versavam sobre

religião. E como todas as religiões se ligam ao princípio das coisas, que é

também o da humanidade, elas deram, sobre a formação e a ordem do

universo, explicações em concordância com o estado dos conhecimentos

da época e de seus fundadores. Daí resultou que os primeiros livros sagra

dos foram ao mesmo tempo os primeiros livros de ciência, como foram,

durante largo período, o código único das leis civis.

2. Nas eras primitivas, sendo necessariamente muito imperfeitos

os meios de observação, muito eivadas de erros grosseiros haviam de ser

as primeiras teorias sobre o sistema do mundo. Mas, ainda quando esses

meios fossem tão completos quanto o são hoje, os homens não teriam sabi

do utilizá-los. Aliás, tais meios não podiam ser senão fruto do desenvolvi

mento da inteligência e do consequente conhecimento das leis da natureza.

À medida que o homem se foi adiantando no conhecimento dessas leis,

também foi penetrando os mistérios da criação e retificando as ideias que

formara acerca da origem das coisas.

3. Impotente se mostrou o homem para resolver o problema da

Criação, até o momento em que a Ciência lhe forneceu para isso a chave.

Teve de esperar que a Astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito

e lhe permitisse mergulhar aí o olhar; que, pelo poder de cálculo, determi

nasse com rigorosa exatidão o movimento, a posição, o volume, a natureza

e o papel dos corpos celestes; que a Física lhe revelasse as leis da gravitação,

do calor, da luz e da eletricidade; que a Química lhe mostrasse as transfor

mações da matéria e a Mineralogia os materiais que formam a superfície do

globo; que a Geologia lhe ensinasse a ler, nas camadas terrestres, a forma

ção gradual desse mesmo globo. À Botânica, à Zoologia, à Paleontologia,

à Antropologia coube iniciá-lo na filiação e sucessão dos seres organizados.

Com a Arqueologia pôde ele acompanhar os traços que a humanidade

deixou através das idades. Numa palavra, completando-se umas às outras,

todas as ciências houveram de contribuir com o que era indispensável para

o conhecimento da história do mundo. Em falta dessas contribuições, teve

o homem como guia as suas primeiras hipóteses.

Por isso, antes que ele entrasse na posse daqueles elementos de apre

ciação, todos os comentadores da Gênese, cuja razão esbarrava em im

possibilidades materiais, giravam dentro de um círculo, sem conseguirem

dele sair. Só o lograram, quando a Ciência abriu caminho, fendendo o ve

lho edifício das crenças. Tudo então mudou de aspecto. Uma vez achado

o fio condutor, as dificuldades prontamente se aplanaram. Em vez de uma

Gênese imaginária, surgiu uma Gênese positiva e, de certo modo, experi

mental. O campo do universo se distendeu ao infinito. Acompanhou-se a

formação gradual da Terra e dos astros, segundo leis eternas e imutáveis,

que demonstram muito melhor a grandeza e a sabedoria de Deus, do que

uma criação miraculosa, tirada repentinamente do nada, qual mutação

à vista, por efeito de súbita ideia da Divindade, após uma eternidade de

inação.

Pois que é impossível se conceba a Gênese sem os dados que a Ciên

cia fornece, pode dizer-se com inteira verdade que: a Ciência é chamada a

constituir a verdadeira Gênese, segundo a lei da natureza.

4. No ponto a que chegou no século XIX, venceu a Ciência todas as

dificuldades do problema da Gênese?

Não, decerto; mas não há contestar que destruiu, sem remissão, to

dos os erros capitais e lhe lançou os fundamentos essenciais sobre dados

irrecusáveis. Os pontos ainda duvidosos não passam, a bem dizer, de ques

tões de minúcias, que a sua solução, qualquer que venha a ser no futuro,

não poderá prejudicar o conjunto. Ademais, malgrado os recursos que ela

há tido à sua disposição, faltou-lhe, até agora, um elemento importante,

sem o qual jamais a obra poderia completar-se.

5. De todas as Gêneses antigas, a que mais se aproxima dos moder

nos dados científicos, apesar dos erros que contém, que são demonstrados

hoje até a evidência, é incontestavelmente a de Moisés. Alguns desses erros

Papel da Ciência na Gênese

são mesmo mais aparentes do que reais e provêm, ou de falsa interpretação

atribuída a certos termos, cuja primitiva significação se perdeu, ao passa

rem de língua em língua pela tradução, ou a acepção deles mudou com os

costumes dos povos, ou, também, decorrem da forma alegórica peculiar ao

estilo oriental e que foi tomada ao pé da letra, em vez de se lhe procurar o

espírito, o significado mais fiel.

6. A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida

pela Ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e re

pugnantes, pois derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par

disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e

belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu

véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do

pensamento, pois que logo desaparece o absurdo.

Por que então não se lhe ergueu mais cedo o véu? De um lado, por

falta de luzes que só a Ciência e uma sã filosofia podiam fornecer e, de ou

tro lado, pelo princípio da imutabilidade absoluta da fé, consequência de

um respeito demasiado cego pela letra, ao qual a razão deveria se submeter,

e, assim, pelo temor de comprometer a estrutura das crenças, erguida so

bre o sentido literal. Partindo tais crenças de um ponto primitivo, houve

o receio de que, se se rompesse o primeiro anel da cadeia, todas as malhas

da rede acabassem separando-se. Eis por que, apesar de tudo, os olhos

se fecharam, mas fechar os olhos ao perigo não é evitá-lo. Quando uma

construção se inclina, não manda a prudência que se substituam imediata

mente as pedras ruins por pedras boas, em vez de se esperar, pelo respeito

que infunda a vetustez do edifício, que o mal se torne irremediável e que se

faça preciso reconstruí-lo de cima a baixo?

7. Levando suas investigações às entranhas da Terra e às profundezas

dos céus, demonstrou a Ciência, de maneira irrefragável, os erros da Gêne

se moisaica tomada ao pé da letra e a impossibilidade material de se terem

as coisas passado como são ali textualmente referidas. Assim procedendo,

a Ciência desferiu fundo golpe nas crenças seculares. A fé ortodoxa ficou

combalida, porque julgou que lhe tiravam a pedra fundamental. Mas com

quem havia de estar a razão: com a Ciência, que caminhava prudente e

progressivamente pelos terrenos sólidos dos algarismos e da observação,

sem nada afirmar antes de ter em mãos as provas, ou com uma narrativa

escrita quando faltavam absolutamente os meios de observação? No fim de

contas, quem há de levar a melhor: aquele que diz 2 e 2 fazem 5 e se nega

a verificar, ou aquele que diz que 2 e 2 fazem 4 e o prova?

8. Mas, objetam, se a Bíblia é uma revelação divina, então Deus se

enganou. Se não é uma revelação divina, carece de autoridade e a religião

desmorona, à falta de base.

Uma de duas: ou a Ciência está em erro, ou tem razão. Se tem razão,

não pode fazer seja verdadeira uma opinião que lhe é contrária. Não há

revelação que se possa sobrepor à autoridade dos fatos.

Incontestavelmente, não é possível que Deus, sendo todo verdade,

induza os homens em erro, nem ciente, nem inscientemente, pois, do con

trário, não seria Deus. Logo, se os fatos contradizem as palavras que são

atribuídas a Ele, o que se deve logicamente concluir é que Ele não as pro

nunciou, ou que tais palavras foram entendidas em sentido oposto ao que

lhes é próprio.

Se, com semelhantes contradições, a religião sofre dano, a culpa não

é da Ciência, que não pode fazer que o que é deixe de ser; mas dos homens

por haverem prematuramente estabelecido dogmas absolutos, de cujo pre

valecimento hão feito questão de vida ou de morte, sobre hipóteses susce

tíveis de serem desmentidas pela experiência.

Há coisas com cujo sacrifício temos de resignar-nos, bom ou mau

grado nosso, quando não consigamos evitá-lo. Desde que o mundo mar

cha, sem que a vontade de alguns possa detê-lo, o mais sensato é que o

acompanhemos e nos acomodemos com o novo estado de coisas, em vez

de nos agarrarmos ao passado que se esboroa, com o risco de sermos arras

tados na queda.

9. Por guardar respeito aos textos recebidos como sagrados, dever-se--ia obrigar a Ciência a calar-se? Fora tão impossível isso, como impedir que

a Terra gire. As religiões, sejam quais forem, jamais ganharam coisa alguma

em sustentar erros manifestos. A Ciência tem por missão descobrir as leis

da natureza. Ora, sendo essas leis obra de Deus, não podem ser contrárias

a religiões que se baseiem na verdade. Lançar anátema ao progresso, por

atentatório à religião, é lançá-lo à própria obra de Deus. É ademais, traba

lho inútil, porquanto nem todos os anátemas do mundo seriam capazes de

obstar a que a Ciência avance e a que a verdade abra caminho. Se a Religião

se nega a avançar com a Ciência, esta avançará sozinha.

Papel da Ciência na Gênese

10. Somente as religiões estacionárias podem temer as descobertas

da Ciência, as quais só são funestas às que se deixam distanciar pelas ideias

progressistas, imobilizando-se no absolutismo de suas crenças. Elas, em

geral, fazem tão mesquinha ideia da Divindade, que não compreendem

que assimilar as leis da natureza, que a Ciência revela, é glorificar a Deus

em suas obras. Na sua cegueira, porém, essas religiões preferem render

homenagem ao Espírito do mal, atribuindo-lhe essas leis. Uma religião que

não estivesse, por nenhum ponto, em contradição com as leis da natureza, nada

teria que temer do progresso e seria invulnerável.

11. A Gênese se divide em duas partes: a história da formação do

mundo material e da humanidade considerada em seu duplo princípio,

corporal e espiritual. A Ciência se tem limitado à pesquisa das leis que

regem a matéria. No próprio homem, ela apenas há estudado o envoltório

carnal. Por esse lado, chegou a inteirar-se, com exatidão, das partes princi

pais do mecanismo do universo e do organismo humano. Assim, sobre esse

ponto capital, pôde completar a Gênese de Moisés e retificar-lhe as partes

defeituosas.

Mas a história do homem, considerado como ser espiritual, se pren

de a uma ordem especial de ideias, que não são do domínio da Ciência

propriamente dita e das quais, por este motivo, não tem ela feito objeto de

suas investigações. A Filosofia, a cujas atribuições pertence, de modo mais

particular, esse gênero de estudos, apenas há formulado, sobre o ponto,

sistemas contraditórios, que vão desde a mais pura espiritualidade, até a

negação do princípio espiritual e mesmo de Deus, sem outras bases, afora

as ideias pessoais de seus autores. Tem, pois, deixado sem decisão a ques

tão, por falta de verificação suficiente.

12. Esta questão, no entanto, é a mais importante para o homem,

por isso que envolve o problema do seu passado e do seu futuro. A do

mundo material apenas indiretamente o afeta. O que lhe importa saber,

antes de tudo, é donde ele veio e para onde vai, se já viveu e se ainda viverá,

qual a sorte que lhe está reservada.

Sobre todos esses pontos, a Ciência se conserva muda. A Filosofia

apenas emite opiniões que concluem em sentido diametralmente oposto,

mas que, pelo menos, permitem se discuta, o que faz com que muitas

pessoas se lhe coloquem do lado, de preferência a seguirem a religião, que

não discute.

13. Todas as religiões são acordes quanto ao princípio da existência

da alma, sem, contudo, o demonstrarem. Não o são, porém, nem quan

to à sua origem, nem com relação ao seu passado e ao seu futuro, nem,

principalmente, e isso é o essencial, quanto às condições de que depende

a sua sorte vindoura. Em sua maioria, elas apresentam como o futuro

da alma, e impõem à crença de seus adeptos, um quadro que somente a

fé cega pode aceitar, visto que não suporta exame sério. Ligado aos seus

dogmas, às ideias que nos tempos primitivos se faziam do mundo mate

rial e do mecanismo do universo, o destino que elas atribuem à alma não

se concilia com o estado atual dos conhecimentos. Não podendo, pois,

senão perder com o exame e a discussão, as religiões acham mais simples

proscrever um e outra.

14. Dessas divergências no tocante ao futuro do homem nasceram

a dúvida e a incredulidade. Entretanto, a incredulidade dá lugar a um

penoso vácuo. O homem encara com ansiedade o desconhecido em que

tem fatalmente de penetrar. Gela-o a ideia do nada. Diz-lhe a consciência

que alguma coisa lhe está reservada para além do presente. Que será? Sua

razão, com o desenvolvimento que alcançou, já lhe não permite admitir as

histórias com que o acalentaram na infância, nem aceitar como realidade

a alegoria. Qual o sentido dessa alegoria? A Ciência lhe rasgou um canto

do véu; não lhe revelou, porém, o que mais lhe importa saber. O homem

interroga em vão, nada lhe responde ela de maneira peremptória e apro

priada a lhe acalmar as apreensões. Por toda parte depara com a afirmação

a se chocar com a negação, sem que de um lado ou de outro se apresentem

provas positivas. Daí a incerteza, e a incerteza sobre o que concerne à vida

futura faz que o homem se atire, tomado de uma espécie de frenesi, para as

coisas da vida material.

Esse o inevitável efeito das épocas de transição: rui o edifício do pas

sado, sem que ainda o do futuro se ache construído. O homem se asseme

lha ao adolescente que, já não tendo a crença ingênua dos seus primeiros

anos, ainda não possui os conhecimentos próprios da maturidade. Apenas

sente vagas aspirações, que não sabe definir.

15. Se a questão do homem espiritual permaneceu, até os dias

atuais, em estado de teoria, é que faltavam os meios de observação direta,

existentes para comprovar o estado do mundo material, conservando-se,

portanto, aberto o campo às concepções do espírito humano. Enquanto

Papel da Ciência na Gênese

o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não pôde aplicar o

método experimental, andou a errar de sistema em sistema, no tocante ao

mecanismo do universo e à formação da Terra. O que se deu na ordem

física, deu-se também na ordem moral. Para fixar as ideias, faltou o ele

mento essencial: o conhecimento das leis a que se acha sujeito o princípio

espiritual. Estava reservado à nossa época esse conhecimento, como o es

teve aos dois últimos séculos24 o das leis da matéria.

16. Até o presente, o estudo do princípio espiritual, compreendi

do na Metafísica, foi puramente especulativo e teórico. No Espiritismo,

esse estudo é inteiramente experimental. Com o auxílio da faculdade

mediúnica, mais desenvolvida presentemente e, sobretudo, generalizada e

mais bem estudada, o homem se achou de posse de um novo instrumento

de observação. A mediunidade foi, para o mundo espiritual, o que o te

lescópio foi para o mundo astral e o microscópio para o dos infinitamente

pequenos. Permitiu se explorassem, estudassem, por assim dizer, de visu,25

as relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo; que, no homem

vivo, se destacasse do ser material o ser inteligente e que se observassem

os dois a atuar separadamente. Uma vez estabelecidas relações com os ha

bitantes do mundo espiritual, possível se tornou ao homem seguir a alma

em sua marcha ascendente, em suas migrações, em suas transformações.

Pode-se, enfim, estudar o elemento espiritual. Eis aí o de que careciam os

anteriores comentadores da Gênese, para a compreenderem e lhe retifica

rem os erros.

17. Estando o mundo espiritual e o mundo material em incessante

contato, os dois são solidários um com o outro; ambos têm a sua parcela

de ação na Gênese. Sem o conhecimento das leis que regem o primeiro,

tão impossível seria constituir-se uma Gênese completa, quanto a um es

tatuário dar vida a uma estátua. Somente agora, conquanto nem a Ciência

material, nem a Ciência espiritual hajam dito a última palavra, possui o

homem os dois elementos próprios a lançar luz sobre esse imenso proble

ma. Eram-lhe absolutamente indispensáveis essas duas chaves para chegar

a uma solução, ainda que aproximativa.

1. A primeira ideia que os homens formaram da Terra, do movi

mento dos astros e da constituição do universo, há de, a princípio, ter-se

baseado unicamente no que os sentidos percebiam. Ignorando as mais

elementares leis da Física e as forças da natureza, não dispondo senão

da vista como meio de observação, apenas pelas aparências podiam eles

julgar.

Vendo o Sol aparecer pela manhã, de um lado do horizonte, e

desaparecer, à tarde, do lado oposto, concluíram naturalmente que ele

girava em torno da Terra, conservando-se esta imóvel. Se lhes dissessem

então que o contrário é o que se dá, responderiam não ser possível tal

coisa, objetando: vemos que o Sol muda de lugar e não sentimos que a

Terra se mexa.

2. A pequena extensão das viagens, que naquela época raramente

iam além dos limites da tribo ou do vale, não permitia se comprovasse

a esfericidade da Terra. Como, ao demais, haviam de supor que a Terra

fosse uma bola? Os seres, em tal caso, somente no ponto mais elevado

poderiam manter-se e, supondo-a habitada em toda a superfície, como

viveriam eles no hemisfério oposto, com a cabeça para baixo e os pés

para cima? Ainda menos possível houvera parecido isso com o movi

mento de rotação. Quando, mesmo aos nossos dias, em que se conhe

ce a lei de gravitação, se veem pessoas relativamente esclarecidas não

perceberem esse fenômeno, como nos surpreendermos de que homens

das primeiras idades não o tenham, sequer, suspeitado?

Para eles, pois, a Terra era uma superfície plana e circular, qual

uma mó de moinho, estendendo-se a perder de vista na direção horizon

tal. Daí a expressão ainda em uso: Ir ao fim do mundo. Desconheciam--lhe os limites, a espessura, o interior, a face inferior, o que lhe ficava por baixo.26

3. Por se mostrar sob forma côncava, o céu, na crença vulgar, era

tido como uma abóbada real, cujos bordos inferiores repousavam na

Terra e lhe marcavam os confins, era uma vasta cúpula cuja capacidade

o ar enchia completamente. Sem nenhuma noção do espaço infinito,

incapazes mesmo de o conceberem, imaginavam os homens que essa

abóbada era constituída de matéria sólida, donde a denominação de fir

mamento que lhe foi dada e que sobreviveu à crença, significando: firme,

resistente (do latim firmamentum, derivado de firmus e do grego herma,

hermatos, firme, sustentáculo, suporte, ponto de apoio).

4. As estrelas, de cuja natureza não podiam suspeitar, eram sim

plesmente pontos luminosos, maiores ou menores, engastados na abó

bada, como lâmpadas suspensas, dispostas sobre uma única superfície e,

por conseguinte, todas à mesma distância da Terra, tal como as que se

veem no interior de certas cúpulas, pintadas de azul, figurando a do céu.

26 Nota de Allan Kardec: “A mitologia hindu ensinava que, ao entardecer, o astro do dia se despojava de sua luz e atravessava o céu durante a noite com uma face obscura. A mitologia grega figurava puxado por quatro cavalos o carro de Apolo [deus da beleza, da luz, das artes e da profecia].

Anaximandro [(610–547 a.C.) filósofo grego pré-socrático, considerou o infinito como o princípio do

universo], de Mileto, sustentava, ao que refere Plutarco [(c. 50–125 d.C.) escritor grego], que o Sol era

um carro cheio de fogo muito vivo, que se escapava por uma abertura circular. Epicuro [(341–270

a.C., filósofo grego], segundo uns, teria emitido a opinião de que o Sol se acendia pela manhã e se apagava à noite nas águas do oceano; segundo outros, ele considerava esse astro uma pedra-pomes

aquecida até a incandescência. Anaxágoras [(c. 500 a.C.–c. 428 a.C.) filósofo grego pré-socrático] o

tomava por um ferro esbraseado, do tamanho do Peloponeso. Coisa singular! os antigos eram tão

invencivelmente induzidos a considerar real a grandeza aparente desse astro, que perseguiram o

filósofo temerário por haver atribuído aquele volume ao facho do dia, fazendo-se necessária toda a

autoridade de Péricles [(c. 495 a.C.–429 a.C., político ateniense. Péricles foi discípulo de Anaxágoras,

que foi acusado de impiedade para com os deuses e teve que sair de Atenas.] para salvá-lo de uma

condenação à morte e para que essa pena fosse comutada na de exílio.” (Flammarion, Estudos e

leituras sobre a astronomia, p. 6.)

Diante de tais ideias, emitidas no quinto século antes do Cristo, ao tempo da maior prosperidade

da Grécia, não devem causar espanto aquelas que os homens das primeiras idades faziam sobre o

sistema do mundo.

84

Antigos e modernos sistemas do mundo

Se bem hoje sejam outras as ideias, o uso das expressões antigas

se conservou. Ainda se diz, por comparação: a abóbada estrelada; sob a

cúpula do céu.

5. Igualmente desconhecida era então a formação das nuvens pela

evaporação das águas da Terra. A ninguém podia acudir a ideia de que

a chuva, que cai do céu, tivesse origem na Terra, donde ninguém a via

subir. Daí a crença na existência de águas superiores e de águas inferiores,

de fontes celestes e de fontes terrestres, de reservatórios colocados nas

altas regiões, suposição que concordava perfeitamente com a ideia de

uma abóbada sólida, capaz de os sustentar. As águas superiores, escapan

do-se pelas frestas da abóbada, caíam em forma de chuva e, conforme

fossem mais ou menos largas as frestas, a chuva era branda, torrencial e

diluviana.

6. A ignorância completa do conjunto do universo e das leis que o

regem, da natureza, da constituição e da destinação dos astros, que, aliás,

pareciam tão pequenos, comparativamente à Terra, fez necessariamente

fosse esta considerada como a coisa principal, o fim único da criação e

os astros como acessórios, exclusivamente criados em intenção dos seus

habitantes. Esse preconceito se perpetuou até os nossos dias, apesar das

descobertas da Ciência, que mudaram, para o homem, o aspecto do

mundo. Quanta gente ainda acredita que as estrelas são ornamentos do

céu, destinados a recrear a vista dos habitantes da Terra!

7. Não tardou, porém, se apercebessem do movimento aparente

das estrelas, que se deslocam em massa do Oriente para o Ocidente,

despontando ao anoitecer e ocultando-se pela manhã, conservando suas

respectivas posições. Semelhante observação, contudo, não teve, duran

te longo tempo, outra consequência que não fosse a de confirmar a ideia

de uma abóbada sólida, a arrastar consigo as estrelas, no seu movimento

de rotação.

Essas ideias primárias, ingênuas, constituíram, no curso de largos

períodos seculares, o fundo das crenças religiosas e serviram de base a

todas as cosmogonias antigas.

8. Mais tarde, pela direção do movimento das estrelas e pelo pe

riódico retorno delas, na mesma ordem, percebeu-se que a abóbada ce

leste não podia ser apenas uma semiesfera posta sobre a Terra, mas uma

esfera inteira, oca, em cujo centro se achava a Terra, sempre chata, ou,

quando muito, convexa e habitada somente na superfície superior. Já

era um progresso.

Mas qual o suporte da Terra? Fora inútil mencionar todas as su

posições ridículas, geradas pela imaginação, desde a dos indianos,27 que

a diziam suportada por quatro elefantes brancos, pousados estes sobre

as asas de um imenso abutre. Os mais sensatos confessavam que nada

sabiam a respeito.

9. Entretanto, uma opinião geralmente espalhada nas teogonias

pagãs situava nos lugares baixos, ou, por outra, nas profundezas da Terra,

ou debaixo desta, não se sabia bem, a morada dos réprobos, chamada

inferno, isto é, lugares inferiores, e nos lugares altos, além da região das

estrelas, a morada dos bem-aventurados. A palavra inferno se conservou

até os nossos dias, se bem haja perdido a significação etimológica, des

de que a Geologia retirou das entranhas da Terra o lugar dos suplícios

eternos e a Astronomia demonstrou que no espaço infinito não há baixo

nem alto.

10. Sob o céu puro da Caldeia, da Índia e do Egito, berço das mais

antigas civilizações, o movimento dos astros foi observado com tanta

exatidão, quanto o permitia a falta de instrumentos especiais. Notou-se,

primeiramente, que certas estrelas tinham movimento próprio, inde

pendente da massa, o que não consentia a suposição de que se achas

sem presas à abóbada. Chamaram-lhes estrelas errantes ou planetas, para

distingui-las das estrelas fixas. Calcularam-se-lhes os movimentos e os

retornos periódicos.

No movimento diurno da esfera estrelada, foi notada a imobilida

de da Estrela Polar, em cujo derredor as outras descreviam, em vinte e

quatro horas, círculos oblíquos paralelos, uns maiores, outros menores,

conforme a distância em que se encontravam da estrela central. Foi o

primeiro passo para o conhecimento da obliquidade do eixo do mundo.

Viagens mais longas deram lugar a que se observasse a diferença dos

aspectos do céu, segundo as latitudes e as estações. A verificação de que

a elevação da Estrela Polar acima do horizonte variava com a latitude,

abriu caminho para a percepção da redondeza da Terra. Foi assim que,

Antigos e modernos sistemas do mundo

pouco a pouco, chegaram a fazer uma ideia mais exata do sistema do

mundo.

Pelo ano 600 a.C., Tales, de Mileto (Ásia Menor), descobriu a

esfericidade da Terra, a obliquidade da eclíptica e a causa dos eclipses.

Um século depois, Pitágoras, de Samos, descobre o movimento

diurno da Terra, sobre o próprio eixo, seu movimento anual em torno

do Sol e incorpora os planetas e os cometas ao sistema solar.

Hiparco, de Alexandria (Egito), em 160 a.C. inventa o astrolábio,

calcula e prediz os eclipses, observa as manchas do Sol, determina o ano

trópico, a duração das revoluções da Lua.

Embora preciosíssimas para o progresso da Ciência, essas desco

bertas levaram perto de 2.000 anos a se popularizarem. Não dispondo

senão de raros manuscritos para se propagarem, as ideias novas per

maneciam como patrimônio de alguns filósofos, que as ensinavam a

discípulos privilegiados. As massas, que ninguém cuidava de esclarecer,

nenhum proveito tiravam das ideias novas e continuavam a nutrir-se das

velhas crenças.

11. Cerca do ano 140 da Era Cristã, Ptolomeu, um dos homens

mais ilustres da Escola de Alexandria, combinando suas próprias ideias

com as crenças vulgares e com algumas das mais recentes descobertas

astronômicas, compôs um sistema que se pode qualificar de misto, que

traz o seu nome e que, por perto de quinze séculos, foi o único que o

mundo civilizado adotou.

Segundo o sistema de Ptolomeu, a Terra é uma esfera posta no

centro do universo, composta de quatro elementos: terra, água, ar e

fogo. Essa a primeira região, dita elementar. A segunda região, dita eté

rea, compreendia onze céus, ou esferas concêntricas, a girar em torno

da Terra, a saber: o céu da Lua, os de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de

Marte, de Júpiter, de Saturno, das estrelas fixas, do primeiro cristalino,

esfera sólida transparente; do segundo cristalino e, finalmente, do pri

meiro móvel, que dava movimento a todos os céus inferiores e os obri

gava a fazer uma revolução em vinte e quatro horas. Para além dos onze

céus estava o Empíreo, habitação dos bem-aventurados, denominação

tirada do grego pyr ou pur, que significa fogo, porque se acreditava que

essa região resplandecia de luz, como o fogo.

Longo tempo prevaleceu a crença em muitos céus superpostos, o

número deles, entretanto, variava. O sétimo era geralmente tido como

o mais elevado, donde a expressão: ser arrebatado ao sétimo céu. Paulo

disse que fora elevado ao terceiro céu.

Afora o movimento comum, os astros, segundo Ptolomeu, tinham

movimentos próprios, mais ou menos dilatados, conforme a distância

em que se achavam do centro. As estrelas fixas faziam uma revolução em

25.816 anos, avaliação esta que denota conhecimento da precessão dos

equinócios, que se realiza em 25.868 anos.

12. No começo do século XVI, Copérnico, astrônomo célebre, nas

cido em Thorn (Prússia), no ano de 1472 e morto no de 1543, recon

siderou as ideias de Pitágoras e concebeu um sistema que, confirmado

todos os dias por novas observações, teve acolhimento favorável e não

tardou a desbancar o de Ptolomeu. Segundo o sistema de Copérnico, o

Sol está no centro e ao seu derredor os astros descrevem órbitas circula

res, sendo a Lua um satélite da Terra.

Decorrido um século, em 1609, Galileu, natural de Florença

( Itália), inventa o telescópio; em 1610, descobre os quatro28 satélites de

Júpiter e lhe calcula as revoluções; reconhece que os planetas não têm

luz própria como as estrelas, mas que são iluminados pelo Sol; que são

esferas semelhantes à Terra; Galileu observa-lhes as fases e determina o

tempo que duram as rotações deles em torno de seus eixos, oferecendo

assim, por provas materiais, sanção definitiva ao sistema de Copérnico.

Ruiu então a construção dos céus superpostos; reconheceu-se que

os planetas são mundos semelhantes à Terra e, sem dúvida, habitados;

que as estrelas são inumeráveis sóis, prováveis centros de outros tantos

sistemas planetários, sendo o próprio Sol reconhecido como uma estre

la, centro de um turbilhão de planetas que se lhe acham sujeitos.

As estrelas deixaram de estar confinadas numa zona da esfera ce

leste, para estarem irregularmente disseminadas pelo espaço sem limites,

encontrando-se a distâncias incomensuráveis umas das outras mesmo as

que parecem tocar-se, sendo as aparentemente menores as mais afasta

das de nós e as maiores as que nos estão mais perto, porém, ainda assim,

a centenas de bilhões de léguas.

Antigos e modernos sistemas do mundo

Os grupos que tomaram o nome de constelações mais não são do

que agregados aparentes, causados pela distância; suas figuras não pas

sam de efeitos de perspectiva, como as que as luzes espalhadas por uma

vasta planície ou as árvores de uma floresta formam, aos olhos de quem

as observa colocado num ponto fixo. Na realidade, porém, tais agrupa

mentos de estrela não existem. Se nos pudéssemos transportar para a

reunião de uma dessas constelações, à medida que nos aproximássemos

dela, a sua forma se desmancharia e novos grupos se nos desenhariam à

vista.

Ora, não existindo esses agrupamentos senão na aparência, é ilu

sória a significação que uma supersticiosa crença vulgar lhe atribui e

somente na imaginação pode existir.

Para se distinguirem as constelações, deram-se-lhes nomes como

estes: Leão, Touro, Gêmeos, Virgem, Balança ou Libra, Capricórnio, Cân

cer ou Caranguejo, Órion, Hércules, Grande Ursa ou Ursa Maior ou Carro

de Davi, Pequena Ursa ou Ursa Menor, Lira etc., e, para representá-las,

atribuíram-se-lhes as formas aparentes que esses nomes lembram, fanta

siosas em sua maioria e, em nenhum caso, guardando qualquer relação

com os grupos de estrelas assim chamados. Fora, pois, inútil procurar

no céu tais formas.

A crença na influência das constelações, sobretudo das que consti

tuem os doze signos do zodíaco, proveio da ideia ligada aos nomes que

elas trazem. Se à que se chama leão fosse dado o nome de asno ou de

ovelha, certamente lhe teriam atribuído outra influência.

13. A partir de Copérnico e Galileu, as velhas cosmogonias jamais

foram destruídas. A Astronomia só podia avançar, não recuar. A Histó

ria diz das lutas que esses homens de gênio tiveram de sustentar contra

os preconceitos e, sobretudo, contra o espírito de seita, interessado em

manter erros sobre os quais se haviam fundado crenças, supostamente

firmadas em bases inabaláveis. Bastou a invenção de um instrumento de

óptica para derrocar uma construção de muitos milhares de anos. Nada,

é claro, poderia prevalecer contra uma verdade reconhecida como tal.

Graças à Tipografia, o público, iniciado nas novas ideias, entrou a não

se deixar embalar com ilusões e tomou parte na luta. Já não era contra

indivíduos que os sustentadores das velhas ideias tinham de combater,

mas contra a opinião geral, que esposava a causa da verdade.

Quão grande é o universo em face das mesquinhas proporções

que nossos pais lhe assinavam! Quanto é sublime a obra de Deus, desde

que a vemos realizar-se conformemente às eternas leis da natureza! Mas,

também, quanto tempo, que de esforços do gênio, que de devotamentos

se fizeram necessários para descerrar os olhos às criaturas e arrancar-lhes,

afinal, a venda da ignorância!

14. Estava desde então aberto o caminho em que ilustres e nu

merosos sábios iam entrar, a fim de completarem a obra encetada. Na

Alemanha, Kepler descobre as célebres leis que lhe conservam o nome e

por meio das quais se reconhece que as órbitas que os planetas descre

vem não são circulares, mas elipses, das quais o sol ocupa um dos focos.

Newton, na Inglaterra, descobre a lei da gravitação universal. Laplace,

na França, cria a mecânica celeste. Finalmente, a Astronomia deixa de

ser um sistema fundado em conjeturas ou probabilidades e torna-se uma

ciência assente nas mais rigorosas bases, as do cálculo e da geometria.

Fica assim lançada uma das pedras fundamentais da Gênese, cerca de

3.300 anos depois de Moisés.

O espaço e o tempo

1. Já muitas definições de espaço foram dadas, sendo a principal

esta: o espaço é a extensão que separa dois corpos, na qual certos sofistas

deduziram que onde não haja corpos não haverá espaço. Nisto foi que

se basearam alguns doutores em Teologia para estabelecer que o espaço é

necessariamente finito, alegando que certo número de corpos finitos não

poderiam formar uma série infinita e que, onde acabassem os corpos,

igualmente o espaço acabaria.

Também definiram o espaço como o lugar onde se movem os

mundos, o vazio onde a matéria atua etc. Deixemos todas essas defini

ções, que nada definem, nos tratados onde repousam.

Espaço é uma dessas palavras que exprimem uma ideia primitiva e

axiomática, de si mesma evidente, e a respeito dela as diversas definições

que se possam dar nada mais fazem do que obscurecê-la. Todos sabemos

o que é o espaço e eu apenas quero firmar que ele é infinito, a fim de que

os nossos estudos ulteriores não encontrem uma barreira opondo-se às

investigações do nosso olhar.

Ora, digo que o espaço é infinito, pela razão de ser impossível

imaginar-se-lhe um limite qualquer e porque, apesar da dificuldade com

que topamos para conceber o infinito, mais fácil nos é avançar eterna

mente pelo espaço, em pensamento, do que parar num ponto qualquer,

depois do qual não mais encontrássemos extensão a percorrer.

Para figurarmos, quanto no-lo permitam as nossas limitadas fa

culdades, a infinidade do espaço, suponhamos que, partindo da Terra,

perdida no meio do infinito, para um ponto qualquer do universo, e isso

com a velocidade prodigiosa da centelha elétrica, que percorre milhares

de léguas por segundo, e que mal tendo deixado este globo já tenhamos

percorrido milhões de léguas, nos achamos num lugar donde apenas

divisamos a Terra sob o aspecto de pálida estrela. Passado um instante,

seguindo sempre a mesma direção, chegamos a essas estrelas longínquas

que mal percebeis da vossa estação terrestre. Daí, não só a Terra nos de

saparece inteiramente do olhar nas profundezas do céu, como também o

próprio Sol, com todo o seu esplendor, se há eclipsado pela extensão que

dele nos separa. Animados sempre da mesma velocidade do relâmpago,

a cada passo que avançamos na extensão, transpomos sistemas de mun

dos, ilhas de luz etérea, estradas estelíferas, paragens suntuosas onde

Deus semeou mundos na mesma profusão com que semeou as plantas

nas pradarias terrenas.

Ora, há apenas poucos minutos que caminhamos e já centenas de

milhões e milhões de léguas nos separam da Terra, bilhões de mundos

nos passaram sob as vistas e, entretanto, escutai! em realidade, não avan

çamos um só passo que seja no universo.

Se continuarmos durante anos, séculos, milhares de séculos, mi

lhões de períodos cem vezes seculares e sempre com a mesma velocidade

do relâmpago, nem um passo teremos avançado, qualquer que seja o lado

para onde nos dirijamos e qualquer que seja o ponto para onde nos en

caminhemos, a partir desse grãozinho invisível donde saímos e a que

chamamos Terra.

Eis aí o que é o espaço!

2. Como a palavra espaço, tempo é também um termo já por si

mesmo definido. Dele se faz ideia mais exata, relacionando-o com o

todo infinito.

O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do

mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito. Suponhamo-nos

na origem do nosso mundo, na época primitiva em que a Terra ainda

não se movia sob a divina impulsão; numa palavra: no começo da

Gênese. O tempo então ainda não saíra do misterioso berço da na

tureza e ninguém pode dizer em que época de séculos nos achamos,

porquanto o pêndulo dos séculos ainda não foi posto em movimento.

Mas silêncio! soa na sineta eterna a primeira hora de uma Terra

insulada, o planeta se move no espaço e desde então há tarde e manhã.

Para lá da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel, embora

o tempo marche com relação a muitos outros mundos. Para a Terra, o

tempo a substitui e durante uma determinada série de gerações contar--se-ão os anos e os séculos.

Transportemo-nos agora ao último dia desse mundo, à hora em

que, curvado sob o peso da vetustez, ele se apagará do livro da vida

para aí não mais reaparecer. Interrompe-se então a sucessão dos eventos;

cessam os movimentos terrestres que mediam o tempo e o tempo acaba

com eles.

Esta simples exposição das coisas que dão nascimento ao tempo,

que o alimentam e deixam que ele se extinga, basta para mostrar que,

visto do ponto em que houvemos de colocar-nos para os nossos estudos,

o tempo é uma gota de água que cai da nuvem no mar e sua queda é

medida.

Tantos mundos na vasta amplidão, quantos tempos diversos e

incompatíveis. Fora dos mundos, somente a eternidade substitui essas

efêmeras sucessões e enche tranquilamente da sua luz imóvel a imen

sidade dos céus. Imensidade sem limites e eternidade sem limites, tais

as duas grandes propriedades da natureza universal.

O olhar do observador, que atravessa, sem jamais encontrar o

que o detenha, as incomensuráveis distâncias do espaço, e o do geó

logo, que remonta além dos limites das idades, ou que desce às pro

fundezas da eternidade de fauces escancaradas, em que ambos um dia

se perderão, atuam em concordância, cada um na sua direção, para

adquirir esta dupla noção do infinito: extensão e duração.

Dentro desta ordem de ideias, fácil nos será conceber que, sendo o

tempo apenas a relação das coisas transitórias e dependendo unicamente

das coisas que se medem, se tomássemos os séculos terrestres por unida

de e os empilhássemos aos milhares, para formar um número colossal,

esse número nunca representaria mais que um ponto na eternidade, do

mesmo modo que milhares de léguas adicionadas a milhares de léguas

não dão mais que um ponto na extensão.

Assim, por exemplo, estando os séculos fora da vida etérea da

alma, poderíamos escrever um número tão longo quanto o equador ter

restre e supormo-nos envelhecidos desse número de séculos, sem que na

realidade nossa alma conte um dia a mais. E juntando a esse número

indefinível de séculos uma série de números semelhantes, longa como

daqui ao Sol, ou ainda mais consideráveis, se imaginássemos viver du

rante uma sucessão prodigiosa de períodos seculares representados pela

adição de tais números, quando chegássemos ao termo, o inconcebível

amontoado de séculos que nos passaria sobre a cabeça seria como se não

existisse: diante de nós estaria sempre toda a eternidade.

O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas

transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do pon

to de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente.

Se séculos de séculos são menos que um segundo relativamente à

eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?!

A matéria

3. À primeira vista, não há o que pareça tão profundamente va

riado, nem tão essencialmente distinto, como as diversas substâncias

que compõem o mundo. Entre os objetos que a Arte ou a natureza nos

fazem passar diariamente ante o olhar, haverá duas que revelem perfeita

identidade, ou somente paridade de composição? Quanta dessemelhan

ça, sob os aspectos da solidez, da compressibilidade, do peso e das múl

tiplas propriedades dos corpos, entre os gases atmosféricos e um filete

de ouro, entre a molécula aquosa da nuvem e a do mineral que forma

a carcaça óssea do globo! que diversidade entre o tecido químico das

variadas plantas que adornam o reino vegetal e o dos representantes não

menos numerosos da animalidade na Terra!

Entretanto, podemos estabelecer como princípio absoluto que to

das as substâncias conhecidas e desconhecidas, por mais dessemelhantes

que pareçam, quer do ponto de vista da constituição íntima, quer pelo

prisma de suas ações recíprocas, são, de fato, apenas modos diversos sob

que a matéria se apresenta; variedades em que ela se transforma sob a

direção das forças inumeráveis que a governam.

4. A Química, cujos progressos foram tão rápidos depois da mi

nha época, em que seus próprios adeptos ainda a relegavam para o do

mínio secreto da magia; esta nova ciência que se pode considerar, com

justiça, filha do século da observação e baseada unicamente, de maneira

bem mais sólida do que suas irmãs mais velhas, no método experimen

tal; a Química, digo, fez tábua rasa dos quatro elementos primitivos que

os antigos concordaram em reconhecer na natureza; mostrou que o ele

mento terrestre mais não é do que a combinação de diversas substâncias

variadas ao infinito; que o ar e a água são igualmente decomponíveis e

produtos de certo número de equivalentes de gás; que o fogo, longe de

ser também um elemento principal, é apenas um estado da matéria, re

sultante do movimento universal a que esta se acha submetida e de uma

combustão sensível ou latente.

Em compensação, a Química fez surgir considerável número de

princípios, até então desconhecidos, que lhe pareceram formar, por de

terminadas combinações, as diversas substâncias, os diversos corpos que

ela estudou e que atuam simultaneamente, segundo certas leis e em

certas proporções, nos trabalhos que se realizam dentro do grande la

boratório da natureza. Deu a esses princípios o nome de corpos simples,

indicando de tal modo que os considera primitivos e indecomponíveis e

que nenhuma operação, até hoje, pôde reduzi-los a frações relativamen

te mais simples do que eles próprios.30, 31

30 Nota de Allan Kardec: Os principais corpos simples são: entre os não metálicos, o oxigênio, o hidrogênio, o azoto [nitrogênio], o cloro, o carbono, o fósforo, o enxofre, o iodo; entre os metálicos,

o ouro, a prata, a platina, o mercúrio, o chumbo, o estanho, o zinco, o ferro, o cobre, o arsênico, o

sódio, o potássio, o cálcio, o alumínio etc.

31 N.E.: Os elementos químicos (denominação atual dos corpos simples) são classificados de acordo

com a Classificação Periódica dos Elementos, de Mendeleiev (1834–1907, químico russo). A Quí

mica cataloga 105 elementos, dos quais 92 são encontrados na natureza e os demais, chamados

5. Mas onde param as apreciações do homem, mesmo ajudadas

pelos mais impressionantes sentidos artificiais, prossegue a obra da na

tureza; onde o vulgo toma a aparência como realidade, onde o práti

co levanta o véu e percebe o começo das coisas, o olhar daquele que

pode apreender o modo de agir da natureza apenas vê, nos materiais

constitutivos do mundo, a matéria cósmica primitiva, simples e una,

diversificada em certas regiões na época do seu aparecimento, repartida

em corpos solidários entre si durante a sua vida, e que um dia os ma

teriais se desmembram, por efeitos da decomposição no receptáculo da

imensidão.

6. Há questões que nós mesmos, Espíritos amantes da Ciência,

não podemos aprofundar e sobre as quais não poderemos emitir senão

opiniões pessoais, mais ou menos hipotéticas. Sobre essas questões, ca

lar-me-ei ou justificarei a minha maneira de ver. A com que nos ocupa

mos, porém, não pertence a esse número. Àqueles, portanto, que fossem

tentados a enxergar nas minhas palavras unicamente uma teoria ousada,

direi: abarcai, se for possível, com olhar investigador, a multiplicidade

das operações da natureza e reconhecereis que, se se não admitir a uni

dade da matéria, impossível será explicar, já não direi somente os sóis e

as esferas, mas, sem ir tão longe, a germinação de uma semente na terra,

ou a produção dum inseto.

7. Se se observa tão grande diversidade na matéria, é porque, sen

do em número ilimitado as forças que hão presidido às suas transfor

mações e as condições em que estas se produziram, também as várias

combinações da matéria não podiam deixar de ser ilimitadas.

Logo, quer a substância que se considere pertença aos fluidos

propriamente ditos, isto é, aos corpos imponderáveis, quer revista os

caracteres e as propriedades ordinárias da matéria, não há, em todo o

universo, senão uma única substância primitiva; o cosmo ou matéria cós

mica dos uranógrafos.

transurânicos (porque são mais pesados que o elemento urânio), foram sintetizados em labora

tório. A Classificação distribui os elementos de acordo com as suas propriedades, agrupando os

metais, os não metais, os semimetais e os gases nobres. O elemento químico hidrogênio, por suas

características especiais, é classificado à parte. Também se sabe que os elementos químicos são

decomponíveis em subpartículas, as mais importantes são o próton, o nêutron e o elétron.

As leis e as forças

8. Se um desses seres desconhecidos que consomem a sua efême

ra existência no fundo das tenebrosas regiões do oceano; se um desses

poligástricos, uma dessas nereidas — miseráveis animálculos que da na

tureza mais não conhecem do que os peixes ictiófagos e as florestas sub

marinas — recebesse de repente o dom da inteligência, a faculdade de

estudar o seu mundo e de basear suas apreciações num raciocínio con

jetural extensivo à universalidade das coisas, que ideia faria da natureza

viva que se desenvolve no meio por ele habitado e do mundo terrestre

que escapa ao campo de suas observações?

Se, agora, por um efeito maravilhoso do seu novo poder, esse mes

mo ser chegasse a se elevar acima das suas trevas eternas, à superfície

do mar, não distante das margens opulentas de uma ilha de esplêndida

vegetação, banhada pelo sol fecundante, dispensador de calor benéfico,

que juízo faria ele então das suas antecipadas teorias sobre a criação

universal, teoria que se apagaria logo diante de uma apreciação mais

ampla, mas ainda relativamente tão incompleta quanto a primeira? Tal

é, ó homens, a imagem da vossa ciência toda especulativa.32

9. Vindo, pois, tratar aqui da questão das leis e das forças que

regem o universo, eu, que apenas sou, como vós, um ser relativamente

ignorante em face da ciência real, malgrado a aparente superioridade

que, com relação aos meus irmãos da Terra, me advém da possibilidade

de estudar problemas naturais que lhes são interditos na posição em que

eles se encontram como habitantes da Terra, trago por único objetivo

dar-vos uma noção geral das leis universais, sem explicar pormenoriza

damente o modo de ação e a natureza das forças especiais que lhes são

dependentes.

10. Há um fluido etéreo que enche o espaço e penetra os cor

pos. Esse fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva, geradora do

mundo e dos seres. Ao éter são inerentes as forças que presidiram às

32 Nota de Allan Kardec: Tal também a situação dos negadores do mundo dos Espíritos, quando, após

se haverem despojado do envoltório carnal, contemplam, desdobrados às suas vistas, os horizontes

desse mundo. Compreendem, então, quão ocas eram as teorias com que pretendiam tudo explicar

por meio exclusivamente da matéria. Contudo, esses horizontes ainda lhes ocultam mistérios que só

posteriormente se lhes desvendam, à medida que, depurando-se, eles se elevam. Desde, porém, os

seus primeiros momentos no outro mundo, veem-se forçados a reconhecer a própria cegueira e quão

longe estavam da verdade.

metamorfoses da matéria, as leis imutáveis e necessárias que regem

o mundo. Essas múltiplas forças, indefinidamente variadas segundo

as combinações da matéria, localizadas segundo as massas, diversifi

cadas em seus modos de ação, segundo as circunstâncias e os meios,

são conhecidas na Terra sob os nomes de gravidade, coesão, afinidade,

atração, magnetismo, eletricidade ativa. Os movimentos vibratórios do

agente são conhecidos sob os nomes de som, calor, luz etc. Em outros

mundos, as formas se apresentam sob outros aspectos, revelam outros

caracteres desconhecidos na Terra e, na imensa amplidão dos céus,

forças em número indefinito se têm desenvolvido numa escala ini

maginável, cuja grandeza tão incapazes somos de avaliar, como o é o

crustáceo, no fundo do oceano, para apreender a universalidade dos

fenômenos terrestres.33

Ora, assim como só há uma substância simples, primitiva, gerado

ra de todos os corpos, mas diversificada em suas combinações, também

todas essas forças dependem de uma lei universal diversificada em seus

efeitos e que, pelos desígnios eternos, foi soberanamente imposta à cria

ção, para lhe imprimir harmonia e estabilidade.

11. A natureza jamais se encontra em oposição a si mesma. Uma

só é a divisa do brasão do universo: unidade-variedade. Remontando à

escala dos mundos, encontra-se unidade de harmonia e de criação, ao

mesmo tempo que uma variedade infinita no imenso jardim de estre

las. Percorrendo os degraus da vida, desde o último dos seres até Deus,

patenteia-se a grande lei de continuidade. Considerando as forças em si

mesmas, pode-se formar com elas uma série, cuja resultante, confundin

do-se com a geratriz, é a lei universal.

33 Nota de Allan Kardec: Tudo reportamos ao que conhecemos e do que escapa à percepção dos nos

sos sentidos não compreendemos, como não compreende o cego de nascença os efeitos da luz e

da utilidade dos olhos. Possível é, pois, que noutros meios, o fluido cósmico possua propriedades,

seja suscetível de combinações de que não fazemos nenhuma ideia, produza efeitos apropriados a

necessidades que desconhecemos, dando lugar a percepções novas ou a outros modos de percep

ção. Não compreendemos, por exemplo, que se possa ver sem os olhos do corpo e sem a luz. Quem

nos diz, porém, que não existam outros agentes, afora a luz, aos quais são adequados organismos

especiais? A vista sonambúlica, que nem a distância, nem os obstáculos materiais, nem a obscu

ridade detêm, nos oferece um exemplo disso. Suponhamos que, num mundo qualquer, os seres

sejam normalmente o que só excepcionalmente o são os nossos sonâmbulos; eles, sem precisarem

da nossa luz, nem dos nossos olhos, verão o que não podemos ver. O mesmo se dá com todas as

outras sensações. As condições de vitalidade e de perceptibilidade, as sensações e as necessidades

variam de conformidade com os meios.

Não podeis apreciar esta lei em toda a sua extensão, por serem

restritas e limitadas as forças que a representam no campo das vossas

observações. Entretanto, a gravitação e a eletricidade podem ser consi

deradas como uma larga aplicação da lei primordial, que impera para lá

dos céus.

Todas essas forças são eternas — explicaremos este termo — e uni

versais como a criação. Sendo inerentes ao fluido cósmico, elas atuam

necessariamente em tudo e em toda parte, modificando suas ações pela

simultaneidade ou pela sucessividade, predominando aqui, apagando-se

ali, pujantes e ativas em certos pontos, latentes ou ocultas noutros, mas,

afinal, preparando, dirigindo, conservando e destruindo os mundos em

seus diversos períodos de vida, governando os maravilhosos trabalhos da

natureza, onde quer que eles se executem, assegurando para sempre o

eterno esplendor da criação.

A criação primária

12. Depois de termos considerado o universo sob os pontos de

vista gerais da sua composição, das suas leis e das suas propriedades, po

demos estender os nossos estudos ao modo de formação que deu origem

aos mundos e aos seres. Desceremos, em seguida, à criação da Terra,

em particular, e ao seu estado atual na universalidade das coisas e daí,

tomando esse globo por ponto de partida e por unidade relativa, proce

deremos aos nossos estudos planetários e siderais.

13. Se bem compreendemos a relação, ou, antes, a oposição en

tre a eternidade e o tempo, se nos familiarizamos com a ideia de que o

tempo não é mais do que uma medida relativa da sucessão das coisas

transitórias, ao passo que a eternidade é essencialmente una, imóvel e

permanente, insuscetível de qualquer medida, do ponto de vista da du

ração, compreenderemos que para ela não há começo, nem fim.

Doutro lado, se fazemos ideia exata — embora necessariamente

muito fraca — da infinidade do poder divino, compreenderemos como

é possível que o universo haja existido sempre e sempre exista. Desde

que Deus existiu, suas perfeições eternas falaram. Antes que houvessem

nascido os tempos, a eternidade incomensurável recebeu a palavra divi

na e fecundou o espaço, eterno quanto ela.

14. Existindo, naturalmente, desde toda a eternidade, Deus criou

por toda esta eternidade e não poderia ser de outro modo, visto que,

por mais longínqua que seja a época a que recuemos, pela imaginação,

os supostos limites da Criação, haverá sempre, além desse limite, uma

eternidade — ponderai bem esta ideia —, uma eternidade durante a

qual as divinas hipóstases, as volições infinitas teriam permanecido

sepultadas em muda letargia inativa e infecunda, uma eternidade de

morte aparente para o Pai eterno que dá vida aos seres; de mutismo

indiferente para o Verbo que os governa; de esterilidade fria e egoísta

para o Espírito de amor e vivificação.

Compreendamos melhor a grandeza da ação divina e a sua per

petuidade sob a mão do Ser absoluto! Deus é o Sol dos seres, é a Luz

do mundo. Ora, a aparição do Sol dá instantaneamente nascimento a

ondas de luz que se vão espalhando por todos os lados na extensão. Do

mesmo modo, o universo, nascido do eterno, remonta aos períodos

inimagináveis do infinito de duração, ao fiat lux! do início.

15. O começo absoluto das coisas remonta, pois, a Deus. As su

cessivas aparições delas no domínio da existência constituem a ordem

da criação perpétua.

Que mortal poderia dizer das magnificências desconhecidas e

soberbamente veladas sob a noite das idades que se desdobraram nes

ses tempos antigos, em que nenhuma das maravilhas do universo atual

existia; nessa época primitiva em que, tendo-se feito ouvir a voz do Se

nhor, os materiais que no futuro haviam de agregar-se por si mesmos

e simetricamente, para formar o templo da natureza, se encontraram

de súbito no seio dos vácuos infinitos; quando aquela voz misteriosa,

que toda criatura venera e estima como a de uma mãe, produziu notas

harmoniosamente variadas, para irem vibrar juntas e modular o con

certo dos céus imensos!

O mundo, ao nascer, não foi estabelecido na sua virilidade e

na sua plenitude de vida, não. O poder criador nunca se contradiz

e, como todas as coisas, o universo nasceu criança. Revestido das leis

mencionadas acima e da impulsão inicial inerente à sua formação

mesma, a matéria cósmica primitiva fez que sucessivamente nascessem

turbilhões, aglomerações desse fluido difuso, amontoados de matéria

nebulosa que se cindiram por si próprios e se modificaram ao infinito

Uranografia geral

para gerar, nas regiões incomensuráveis da amplidão, diversos centros

de criações simultâneas ou sucessivas.

Em virtude das forças que predominaram sobre um ou sobre

outro deles e das circunstâncias ulteriores que presidiram aos seus

desenvolvimentos, esses centros primitivos se tornaram focos de uma

vida especial: uns, menos disseminados no espaço e mais ricos em

princípios e em forças atuantes, começaram desde logo a sua parti

cular vida astral; os outros, ocupando ilimitada extensão, cresceram

com lentidão extrema, ou de novo se dividiram em outros centros

secundários.

16. Transportando-nos a alguns milhões de séculos somente,

além da época atual, verificamos que a nossa Terra ainda não existe,

que mesmo o nosso sistema solar ainda não começou as evoluções

da vida planetária; entretanto, já esplêndidos sóis iluminam o éter;

já planetas habitados dão vida e existência a uma multidão de seres,

nossos predecessores na carreira humana; que as produções opulentas

de uma natureza desconhecida e os maravilhosos fenômenos do céu

desdobram, sob outros olhares, os quadros da imensa Criação. Que

digo! já deixaram de existir esplendores que outrora fizeram palpitar

o coração de outros mortais, sob o pensamento da potência infinita!

E nós, pobres seres pequeninos, que viemos após uma eternidade de

vida, nós nos cremos contemporâneos da Criação!

Ainda uma vez, compreendamos melhor a natureza. Saibamos

que atrás de nós, como à nossa frente, está a eternidade, que o espaço é

teatro de inimaginável sucessão e simultaneidade de criações. Tais ne

bulosas, que mal percebemos nos mais longínquos pontos do céu, são

aglomerados de sóis em vias de formação; tais outras são vias lácteas de

mundos habitados; outras, finalmente, sedes de catástrofes e de depe

recimento. Saibamos que, assim como estamos colocados no meio de

uma infinidade de mundos, também estamos no meio de uma dupla

infinidade de durações, anteriores e ulteriores; que a criação universal

não se acha restrita a nós, que não nos é lícito aplicar essa expressão à

formação isolada do nosso pequenino globo.

A criação universal

17. Após haver remontado, tanto quanto o permitia a nossa fra

queza, em direção à fonte oculta donde dimanam os mundos, como de

um rio as gotas de água, consideremos a marcha das criações sucessivas

e dos seus desenvolvimentos seriais.

A matéria cósmica primitiva continha os elementos materiais,

fluídicos e vitais de todos os universos que estadeiam suas magnificên

cias diante da eternidade. Ela é a mãe fecunda de todas as coisas, a

primeira avó e, sobretudo, a eterna geratriz. Absolutamente não desa

pareceu essa substância donde provêm as esferas siderais; não morreu

essa potência, pois que ainda, incessantemente, dá à luz novas criações

e incessantemente recebe, reconstituídos, os princípios dos mundos que

se apagam do livro eterno.

A substância etérea, mais ou menos rarefeita, que se difunde pe

los espaços interplanetários; esse fluido cósmico que enche o mundo,

mais ou menos rarefeito, nas regiões imensas, ricas de aglomerações de

estrelas; mais ou menos condensado onde o céu astral ainda não bri

lha; mais ou menos modificado por diversas combinações, de acordo

com as localidades da extensão, nada mais é do que a substância pri

mitiva onde residem as forças universais, donde a natureza há tirado

todas as coisas.34

18. Esse fluido penetra os corpos, como um oceano imenso. É

nele que reside o princípio vital que dá origem à vida dos seres e a perpe

tua em cada globo, conforme a condição deste, princípio que, em estado

latente, se conserva adormecido onde a voz de um ser não o chama.

Toda criatura, mineral, vegetal, animal ou qualquer outra — porquanto

há muitos outros reinos naturais, de cuja existência nem sequer suspei

tais35 — sabe, em virtude desse princípio vital e universal, apropriar as

condições de sua existência e de sua duração.

34 Nota de Allan Kardec: Se perguntásseis qual o princípio dessas forças e como pode esse princípio

estar na substância mesma que o produz, responderíamos que a mecânica numerosos exemplos nos

oferece desse fato. A elasticidade, que faz com que uma mola se distenda, não está na própria mola e não depende do modo de agregação das moléculas? O corpo que obedece à força centrífuga recebe

a sua impulsão do movimento primitivo que lhe foi impresso.

As moléculas do mineral têm uma certa soma dessa vida, do mes

mo modo que a semente do embrião, e se grupam, como no organismo,

em figuras simétricas que constituem os indivíduos.

Muito importa nos compenetremos da noção de que a matéria

cósmica primitiva se achava revestida, não só das leis que asseguram a

estabilidade dos mundos, como também do universal princípio vital

que forma gerações espontâneas em cada mundo, à medida que se

apresentam as condições da existência sucessiva dos seres e quando

soa a hora do aparecimento dos filhos da vida, durante o período

criador.

Efetua-se assim a criação universal. É, pois, exato dizer-se que,

sendo as operações da natureza a expressão da vontade divina, Deus há

criado sempre, cria incessantemente e nunca deixará de criar.

19. Até aqui, porém, temos guardado silêncio sobre o mundo espi

ritual, que também faz parte da Criação e cumpre seus destinos confor

me as augustas prescrições do Senhor.

Acerca do modo da criação dos Espíritos, entretanto, não posso

ministrar mais que um ensino muito restrito, em virtude da minha pró

pria ignorância e também porque tenho ainda de calar-me no que con

cerne a certas questões, se bem já me haja sido dado aprofundá-las.

Aos que desejem religiosamente conhecer e se mostrem humildes

perante Deus, direi, rogando-lhes, todavia, que nenhum sistema pre

maturo baseiem nas minhas palavras: O Espírito não chega a receber

a iluminação divina, que lhe dá, simultaneamente com o livre-arbítrio

e a consciência, a noção de seus altos destinos, sem haver passado pela

série divinamente fatal dos seres inferiores, entre os quais se elabora len

tamente a obra da sua individualização. Unicamente a datar do dia em

que o Senhor lhe imprime na fronte o seu tipo augusto, o Espírito toma

lugar no seio das humanidades.

De novo peço: não construais sobre as minhas palavras os vossos

raciocínios, tão tristemente célebres na história da Metafísica. Eu prefe

riria mil vezes calar-me sobre tão elevadas questões, tão acima das nossas

meditações ordinárias, a vos expor a desnaturar o sentido de meu ensino

e a vos lançar, por culpa minha, nos inextricáveis dédalos do deísmo ou

do fatalismo.

Os sóis e os planetas

20. Sucedeu que, num ponto do universo, perdido entre as

miríades de mundos, a matéria cósmica se condensou sob a forma de

imensa nebulosa, animada esta das leis universais que regem a matéria.

Em virtude dessas leis, notadamente da força molecular de atração,36 to

mou ela a forma de um esferoide, a única que pode assumir uma massa

de matéria insulada no espaço.

O movimento circular produzido pela gravitação, rigorosamente

igual, de todas as zonas moleculares em direção ao centro, logo modificou

a esfera primitiva, a fim de a conduzir, de movimento em movimento, à

forma lenticular. Falamos do conjunto da nebulosa.

21. Novas forças surgiram em consequência desse movimento de

rotação: a força centrípeta e a força centrífuga, a primeira tendendo a

reunir todas as partes no centro, tendendo a segunda a afastá-las dele.

Ora, acelerando-se o movimento, à medida que a nebulosa se condensa,

e aumentando o seu raio, à medida que ela se aproxima da forma len

ticular, a força centrífuga, incessantemente desenvolvida por essas duas

causas, logo predominou sobre a atração central.

Assim como um movimento demasiado rápido da funda37 lhe

quebra a corda, indo o projetil cair longe, também a predominância da

força centrífuga destacou o círculo equatorial da nebulosa e desse anel

uma nova massa se formou, isolada da primeira, mas, todavia, submeti

da ao seu império. Aquela massa conservou o seu movimento equatorial

que, modificado, se lhe tornou movimento de translação em torno do

astro solar. Ademais, o seu novo estado lhe dá um movimento de rota

ção em torno do próprio centro.

22. A nebulosa geratriz, que deu origem a esse novo mundo, con

densou-se e retomou a forma esférica; mas, como o primitivo calor,

desenvolvido por seus diversos movimentos, só com extrema lentidão

se enfraqueceu, o fenômeno que acabamos de descrever se reproduzirá

muitas vezes e durante longo período, enquanto a nebulosa não se haja

tornado bastante densa, bastante sólida, para oferecer resistência eficaz.

Ela, pois, não terá dado nascimento a um só astro, mas a centenas

de mundos destacados do foco central, saídos dela pelo modo de forma

ção mencionado acima. Ora, cada um de seus mundos, revestido, como

o mundo primitivo, das forças naturais que presidem à criação dos uni

versos gerará sucessivamente novos globos que desde então lhe gravita

rão em torno, como ele, juntamente com seus irmãos, gravita em torno

do foco que lhes deu existência e vida. Cada um desses mundos será

um Sol, centro de um turbilhão de planetas sucessivamente destacados

do seu equador. Esses planetas receberão uma vida especial, particular,

embora dependente do astro que os gerou.

23. Os planetas são, assim, formados de massas de matéria con

densada, porém, ainda não solidificada, destacadas da massa central pela

ação de força centrífuga e que tomam, em virtude das leis do movi

mento, a forma esferoidal, mais ou menos elíptica, conforme o grau de

fluidez que conservaram. Um desses planetas será a Terra que, antes de

se resfriar e revestir de uma crosta sólida, dará nascimento à Lua, pelo

mesmo processo de formação astral a que ela própria deveu a sua exis

tência. A Terra, doravante inscrita no livro da vida, berço de criaturas

cuja fraqueza as asas da divina Providência protege, nova corda colocada

na harpa infinita e que, no lugar que ocupa, tem de vibrar no concerto

universal dos mundos.

Os satélites

24. Antes que as massas planetárias houvessem atingido um grau

de resfriamento, bastante a lhes operar a solidificação, massas menores,

verdadeiros glóbulos líquidos, se desprenderam de algumas no plano

equatorial, plano em que é maior a força centrífuga, e, por efeito das

mesmas leis, adquiriram um movimento de translação em torno do pla

neta que as gerou, como sucedeu a estes com relação ao astro central que

lhes deu origem.

Foi assim que a Terra deu nascimento à Lua, cuja massa, menos

considerável, teve que sofrer um resfriamento mais rápido. Ora, as leis e

as forças que presidiram ao fato de ela se destacar do equador terreno, e

o seu movimento de translação no mesmo plano, agiram de tal sorte que

esse mundo, em vez de revestir a forma esferoidal, tomou a de um globo

ovoide, isto é, a forma alongada de um ovo, com o centro de gravidade

fixado na parte inferior.

25. As condições em que se efetuou a desagregação da Lua pou

co lhe permitiram afastar-se da Terra e a constrangeram a conservar-se

perpetuamente suspensa no seu firmamento, como uma figura ovoide,

cujas partes mais pesadas formaram a face inferior voltada para a Terra

e as partes menos densas lhe constituíram o vértice, se com essa pala

vra se designar a face que, do lado oposto à Terra, se eleva para o céu.

É o que faz que esse astro nos apresente sempre a mesma face. Para

melhor compreender-se o seu estado geológico, pode ele ser compa

rado a um globo de cortiça, tendo formada de chumbo a face voltada

para a Terra.

Daí, duas naturezas essencialmente distintas na superfície do

mundo lunar: uma, sem qualquer analogia com o nosso, porquanto

lhe são desconhecidos os corpos fluidos e etéreos; a outra, leve, rela

tivamente à Terra, pois que todas as substâncias menos densas se en

caminharam para esse hemisfério. A primeira, perpetuamente voltada

para a Terra, sem águas e sem atmosfera, a não ser, aqui e ali, nos limi

tes desse hemisfério terrestre; a outra, rica de fluidos, perpetuamente

oposta ao nosso mundo.

por que esse astro apresenta sempre a mesma face para a Terra. Tendo o centro de gravidade num

dos pontos de sua superfície, em vez de estar no centro da esfera, e sendo, em consequência, atraído

para a Terra por uma força maior do que a que atrai as partes mais leves, a Lua pode ser tida como

uma dessas figuras chamadas vulgarmente joão-teimoso, que se levantam constantemente sobre a

sua base, ao passo que os planetas, cujo centro de gravidade está a distâncias iguais da superfície,

giram regularmente sobre o próprio eixo. Os fluidos vivificantes, gasosos ou líquidos, por virtude da

sua leveza específica, se encontrariam acumulados no hemisfério superior, perenemente oposto à

Terra. O hemisfério inferior, o único que vemos, seria desprovido de tais fluidos e, por isso, impróprio à vida que, entretanto, reinaria no outro. Se, pois, o hemisfério superior é habitado, seus habitantes jamais viram a Terra, a menos que excursionem pelo outro hemisfério, o que lhes seria impossível, desde que este carece das condições indispensáveis à vitalidade.

Por muito racional e científica que seja essa teoria, como ainda não foi confirmada por nenhuma

observação direta, somente a título de hipótese pode ser aceita e como ideia capaz de servir de

baliza à Ciência. Não se pode, porém, deixar de convir em que é a única, até o presente, que dá uma explicação satisfatória das particularidades que apresenta o globo lunar.

26. O número e o estado dos satélites de cada planeta têm va

riado de acordo com as condições especiais em que eles se forma

ram. Alguns não deram origem a nenhum astro secundário, como se

verifica com Mercúrio, Vênus e Marte,40 ao passo que outros, como

a Terra, Júpiter, Saturno etc., formaram um ou vários desses astros secundários.

27. Além de seus satélites ou luas, o planeta Saturno apresenta

o fenômeno especial do anel que, visto de longe, parece cercá-lo de

uma como auréola branca. Essa formação é para nós uma nova prova

da universalidade das leis naturais. Esse anel é, com efeito, o resul

tado de uma separação que se operou no equador de Saturno, ainda

nos tempos primitivos, do mesmo modo que uma zona equatorial se

escapou da Terra para formar o seu satélite. A diferença consiste em

que o anel de Saturno se formou, em todas as suas partes, de molécu

las homogêneas, provavelmente já em certo estado de condensação,

e pode, dessa maneira, continuar o seu movimento de rotação no

mesmo sentido e em tempo quase igual ao do que anima o planeta. Se

um dos pontos desse anel houvesse ficado mais denso do que outro,

uma ou muitas aglomerações de substância se teriam subitamente

operado e Saturno contaria muitos satélites a mais. Desde a época da

sua formação, esse anel se solidificou, do mesmo modo que os outros

corpos planetários.

4.5 bilhões de anos, durante a formação da Terra, um objeto do tamanho de Marte colidiu com a Terra,

essa violenta colisão lançou material, pedaços de rocha líquida, para a órbita da Terra; a Lua teria se formado, então, a partir da condensação do material expelido por essa colisão, tendo ficado aprisionada pelo campo gravitacional da Terra.

A Lua leva o mesmo tempo (27,3 dias terrestres) para girar ao redor de seu eixo e para orbitar em

volta da Terra; assim, a mesma face (o lado visível) está sempre voltada para a Terra. A quantidade da

superfície que podemos ver — a fase da Lua — depende de que fração do lado visível está recebendo

a luz do Sol.

Allan Kardec em suas palavras já demonstrou a necessidade da observação direta da Lua para con

firmação de seus dados. Em 1959, a sonda soviética Luna 3 esteve na órbita da Lua, enviando men

sagens do lado oculto, encerrando as especulações de que o campo gravitacional lunar seria mais

intenso naquela face, tornando possível a existência de atmosfera e vida. Há uma dissimetria entre o

lado oculto e o lado visível, uma vez que a crosta na face oculta atinge 100 quilômetros de espessura,

enquanto na face visível só atinge um máximo de sessenta quilômetros.

Os cometas

28. Astros errantes, ainda mais do que os planetas que conser

varam a denominação etimológica, os cometas serão os guias que nos

ajudarão a transpor os limites do sistema a que pertence a Terra e nos

levarão às regiões longínquas da extensão sideral.

Mas, antes de explorarmos os domínios celestes, com o auxílio

desses viajantes do universo, bom será demos a conhecer, tanto quanto

possível, a natureza intrínseca deles e o papel que lhes cabe na economia

planetária.

29. Alguns hão visto, nesses astros dotados de cabeleira,41 mun

dos nascentes, a elaborarem, no primitivo caos em que se acham, as

condições de vida e de existência, que tocam em partilha às terras habi

tadas; outros imaginaram que esses corpos extraordinários eram mun

dos em estado de destruição e, para muitos, a singular aparência que

têm foi motivo de apreciações errôneas acerca da natureza deles, isso a

tal ponto que não houve, inclusive na astrologia judiciária, quem não os

considerasse como pressagiadores de desgraças, enviados, por desígnios

providenciais, à Terra, espantada e tremente.

30. A lei de variedade se aplica em tão larga escala nos trabalhos

da natureza, que admira hajam os naturalistas, os astrônomos e os fi

lósofos fabricado tantos sistemas para assimilar os cometas aos astros

planetários e para somente verem neles astros em graus mais ou menos

adiantados de desenvolvimento ou de caducidade. Entretanto, os qua

dros da natureza deveriam bastar amplamente para afastar o observador

da preocupação de perquirir relações inexistentes e deixar aos cometas

o papel modesto, porém, útil, de astros errantes, que servem de desbra

vadores dos impérios solares. Porque, os corpos celestes de que tratamos

são coisa muito diversa dos corpos planetários; não têm por destinação,

como estes, servir de habitação a humanidades. Eles vão sucessivamente

de sóis em sóis, enriquecendo-se, às vezes, pelo caminho, de fragmentos

planetários reduzidos ao estado de vapor, buscar, nos seus centros, os

princípios vivificantes e renovadores que derramam sobre os mundos

terrestres. (Cap. IX, item 12.)

31. Se, quando um desses astros se aproxima do nosso pequenino

globo, para lhe atravessar a órbita e voltar ao seu apogeu,42 situado a

uma distância incomensurável do Sol, o acompanhássemos, pelo pen

samento, para visitar com ele as regiões siderais, transporíamos a prodi

giosa extensão de matéria etérea que separa das estrelas mais próximas o

Sol e, observando os movimentos combinados desse astro, que se supo

ria desgarrado no deserto infinito, ainda aí encontraríamos uma prova

eloquente da universalidade das leis da natureza, que atuam a distâncias

que a mais ativa imaginação mal pode conceber.

Aí, a forma elíptica toma a forma parabólica e a marcha se torna

tão lenta que o cometa não chega a percorrer mais que alguns metros,

no mesmo em que no seu perigeu43 percorria muitos milhares de léguas.

Talvez um sol mais poderoso, mais importante do que aquele que o

cometa acaba de deixar, exerça sobre esse cometa uma atração prepon

derante e o receba na categoria de seus súditos. Então, na vossa peque

nina Terra, em vão as crianças admiradas lhe aguardarão o retorno, que

haviam predito, baseando-se em observações incompletas. Nesse caso,

nós, que pelo pensamento acompanhamos a essas regiões desconhecidas

o cometa errante, depararemos com uma nação nova, que os olhares ter

renos não podem encontrar, inimaginável para os Espíritos que habitam

a Terra, inconcebível mesmo para as suas mentes, porquanto ela será

teatro de inexploradas maravilhas.

Chegamos ao mundo astral, nesse mundo deslumbrante dos vas

tos sóis que irradiam pelo espaço infinito e que são as flores brilhantes

do magnífico jardim da criação. Lá chegados, apenas saberemos o que

é a Terra.

A Via Láctea

32. Pelas belas noites estreladas e sem luar, toda gente há con

templado essa faixa esbranquiçada que atravessa o céu de uma extremi

dade a outra e que os antigos cognominaram de Via Láctea, por mo

tivo da sua aparência leitosa. Esse clarão difuso o olho do telescópio

42 N.E.: Posição orbital apresentada por um satélite terrestre (a Lua ou satélite artificial) quando, em sua revolução, se encontra mais afastado da Terra

o tem longamente explorado nos modernos tempos; essa estrada de

poeira de ouro, esse regato de leite da mitologia antiga se transformou

num vasto campo de desconhecidas maravilhas. As pesquisas dos ob

servadores conduziram ao conhecimento da sua natureza e revelaram

que, ali, onde o olhar errante apenas percebia uma fraca luminosidade,

há milhões de sóis mais luminosos e mais importantes do que o que

nos clareia a Terra.

33. Com efeito, a Via Láctea é uma campina semeada de flores so

lares e planetárias, que brilham em toda a sua enorme extensão. O nosso

Sol e todos os corpos que o acompanham fazem parte desse conjunto

de globos radiosos que formam a Via Láctea. Malgrado, porém, as suas

proporções gigantescas, relativamente à Terra, e à grandeza do seu im

pério, ele, o Sol, ocupa inapreciável lugar em tão vasta criação. Podem

contar-se por uma trintena de milhões os sóis que, à sua semelhança,

gravitam nessa imensa região, afastados uns dos outros de mais de cem

mil vezes o raio da órbita terrestre.44

34. Por esse cálculo aproximativo se pode julgar da extensão de

tal região sideral e da relação que existe entre o nosso sistema planetário

e a universalidade dos sistemas que o ocupam. Pode-se igualmente jul

gar da exiguidade do domínio solar e, a fortiori, do nada que é a nossa

pequenina Terra. Que seria, então, se se considerassem os seres que a

povoam!

Digo — “do nada” — porque as nossas determinações se aplicam

não só à extensão material, física, dos corpos que estudamos — o que

pouco seria — mas, também e sobretudo, ao estado moral deles como

habitação e ao grau que ocupam na eterna hierarquia dos seres. A cria

ção se mostra aí em toda a sua majestade, engendrando e propagando,

em torno do mundo solar e em cada um dos sistemas que o rodeiam

por todos os lados, as manifestações da vida e da inteligência.

35. Assim, fica-se conhecendo a posição que o nosso Sol ou a

Terra ocupam no mundo das estrelas. Ainda maior peso ganharão es

tas considerações, se refletirmos sobre o estado mesmo da Via Láctea

que, na imensidade das criações siderais, não representa mais do que

um ponto insensível e inapreciável, vista de longe, porquanto ela não

é mais do que uma nebulosa estelar, entre os milhões das que existem

no espaço. Se ela nos parece mais vasta e mais rica do que outras, é pela

única razão de que nos cerca e se desenvolve em toda a sua extensão

sob os nossos olhares, ao passo que as outras, sumidas nas profundezas

insondáveis, mal se deixam entrever.

36. Ora, sabendo-se que a Terra nada é, ou quase nada, no sistema

solar; que este nada é, ou quase nada, na Via Láctea; esta por sua vez é

nada, ou quase nada, na universalidade das nebulosas e essa própria uni

versalidade é bem pouca coisa dentro do imensurável infinito, começa--se a compreender o que é o globo terrestre.

As estrelas fixas

37. As estrelas chamadas “fixas” e que constelam os dois hemis

férios do firmamento não se acham de todo isentas de qualquer atração

exterior, como geralmente se supõe. Longe disso: elas pertencem todas

a uma mesma aglomeração de astros estelares, aglomeração que não é

senão a grande nebulosa de que fazemos parte e cujo plano equatorial,

projetado no céu, recebeu o nome de Via Láctea. Todos os sóis que a

constituem são solidários; suas múltiplas influências reagem perpetua

mente umas sobre as outras e a gravitação universal as grupa todas numa

mesma família.

38. Esses diversos sóis estão na sua maioria, como o nosso, cerca

dos de mundos secundários, que eles iluminam e fecundam por inter

médio das mesmas leis que presidem à vida do nosso sistema planetário.

Uns, como Sírio, são milhares de vezes mais magníficos em dimensões

e em riquezas do que o nosso e muito mais importante é o papel que

desempenham no universo. Também planetas em muito maior número

e muito superiores aos nossos os cercam. Outros são muito desseme

lhantes pelas suas funções astrais. É assim que certo número desses sóis,

verdadeiros gêmeos da ordem sideral, são acompanhados de seus irmãos

da mesma idade, e formam, no espaço, sistemas binários, aos quais a

natureza outorgou funções inteiramente diversas das que tocaram ao

nosso Sol.45 Lá, os anos não se medem pelos mesmos períodos, nem os

45 Nota de Allan Kardec: É o a que se dá, em Astronomia, o nome de “estrelas duplas”. São dois sóis, um dos quais gira em torno do outro, como um planeta em torno do seu sol. De que singular e magnífico espetáculo não gozarão os habitantes dos mundos que formam esses sistemas iluminados por duplo sol! Mas, também, quão diferentes não hão de ser neles as condições da vitalidade!

dias pelos mesmos sóis e esses mundos, iluminados por um duplo facho,

foram dotados de condições de existência inimagináveis por parte dos

que ainda não saíram deste pequenino mundo terrestre.

Outros astros, sem cortejo, privados de planetas, receberam os

melhores elementos de habitabilidade concedidos a alguns. Na sua

imensidade, as leis da natureza se diversificam e, se a unidade é a gran

de expressão do universo, a variedade infinita é igualmente seu eterno

atributo.

39. Malgrado o prodigioso número dessas estrelas e de seus sis

temas, malgrado as distâncias incomensuráveis que as separam, elas

pertencem todas à mesma nebulosa estelar que os olhos dos mais pos

santes telescópios mal conseguem atravessar e que as concepções da mais

ousada imaginação apenas logram alcançar, nebulosa que, entretanto,

é simplesmente uma unidade na ordem das nebulosas que compõem o

mundo astral.

40. As estrelas chamadas fixas não estão imóveis na amplidão. As

constelações que se figuraram na abóbada do firmamento não são reais

criações simbólicas. A distância a que se acham da Terra e a perspectiva

sob a qual se mede, da estação terrena, o universo, constituem as duas

causas dessa dupla ilusão de óptica. (Cap. V, item 12.)

41. Vimos que a totalidade dos astros que cintilam na cúpula

azulada se acha encerrada numa aglomeração cósmica, numa mesma

nebulosa a que chamais Via Láctea, mas, por pertencerem todos ao mes

mo grupo, não se segue que esses astros não estejam animados todos

de movimento de translação no espaço, cada um com o seu. Em parte

nenhuma existe o repouso absoluto. Eles têm a regê-los as leis universais

da gravitação e rolam no espaço ilimitado sob a impulsão incessante

dessa força imensa. Rolam, não segundo roteiros traçados pelo acaso,

mas segundo órbitas fechadas, cujo centro um astro superior ocupa.

Para tornar, por meio de um exemplo, mais compreensíveis as minhas

palavras, falarei de modo especial do vosso Sol.

Numa comunicação dada ulteriormente, acrescentou o Espírito Galileu: “Há mesmo sistemas ainda

mais complicados, em que diferentes sóis desempenham, uns com relação a outros, o papel de

satélites. Produzem-se então maravilhosos efeitos de luz, para os habitantes dos globos que tais

sóis iluminam, tanto mais quanto, sem embargo da aparente proximidade em que se encontram

uns dos outros, podem mundos habitados circular entre eles e receber alternativamente as ondas

de luz diversamente coloridas, e a reunião delas recompõe a luz branca.”

42. Sabe-se, em consequência de modernas observações, que ele

não é fixo, nem central, como se acreditava nos primeiros tempos da

nova astronomia; que avança pelo espaço, arrastando consigo o seu vas

to sistema de planetas, de satélites e de cometas.

Ora, não é fortuita esta marcha e ele não vai, errando pelos vácuos

infinitos, transviar seus filhos e seus súditos, longe das regiões que lhe

estão assinadas. Não, sua órbita é determinada e, em concorrência com

outros sóis da mesma ordem e rodeados todos de certo número de terras

habitadas, ele gravita em torno de um sol central. Seu movimento de

gravitação, como o dos sóis seus irmãos, é inapreciável a observações

anuais, porque somente grande número de períodos seculares seriam

suficientes para marcar um desses anos astrais.

43. O sol central, de que acabamos de falar, também é um globo

secundário relativamente a outro, ainda mais importante, ao derredor

daquele ele perpetua uma marcha lenta e compassada, na companhia de

outros sóis da mesma ordem.

Poderíamos comprovar esta subordinação sucessiva de sóis a sóis,

até que a nossa imaginação cansasse de subir a uma tal hierarquia, por

quanto, não o esqueçamos, em números redondos, uma trintena de

milhões de sóis se pode contar na Via Láctea,46 subordinados uns aos

outros, como rodas gigantescas de uma engrenagem imensa.

44. E esses astros, em números incontáveis, vivem vida solidária.

Assim como, na economia do vosso mundinho terrestre, nada se acha

isolado, também nada o está no universo incomensurável.

De longe, ao olhar investigador do filósofo que pudesse abarcar o

quadro que o espaço e o tempo desdobram, esses sistemas de sistemas

pareceriam uma poeira de grãos de ouro levantada em turbilhão pelo

sopro divino, que faz voem nos céus os mundos siderais, como voam os

grãos de areia no dorso do deserto.

Em parte nenhuma há imobilidade, nem silêncio, nem noite! O

grande espetáculo que então se nos desdobraria ante os olhos seria a

criação real, imensa e cheia da vida etérea, que no seu imenso conjunto

o olhar infinito do Criador abrange.

Mas, até aqui, temos falado de uma única nebulosa, que com os

milhões de sóis, e os seus milhões de terras habitadas, forma apenas,

como já o dissemos, uma ilha no arquipélago infinito.

Os desertos do espaço

45. Inimaginável deserto, sem limites, se estende para lá da aglo

meração de estrelas de que vimos de tratar, e a envolve. A solidões su

cedem solidões e incomensuráveis planícies do vácuo se distendem pela

amplidão afora. Os amontoados de matéria cósmica se encontram iso

lados no espaço como ilhas flutuantes de enormíssimo arquipélago. Se

quisermos, de alguma forma, apreciar a distância enorme que separa o

aglomerado de estrelas, de que fazemos parte, dos outros aglomerados

mais próximos, precisamos saber que essas ilhas estelares se encontram

disseminadas e raras no vastíssimo oceano dos céus, e que a extensão que

as separa, umas das outras, é incomparavelmente maior do que as que

lhes medem as respectivas dimensões.

Ora, a nebulosa estelar mede, como já vimos, em números redon

dos, mil vezes a distância das estrelas mais aproximadas, tomada por uni

dade essa distância, isto é, alguns cem mil trilhões de léguas.47 A distância

que existe entre elas, sendo muito mais vasta, não poderia ser expressa

por números acessíveis à compreensão do nosso espírito. Só a imagina

ção, em suas concepções mais altas, é capaz de transpor tão prodigiosa

imensidade, essas solidões mudas e baldas de toda aparência de vida, e de

encarar, de certa maneira, a ideia dessa infinidade relativa.

46. Todavia, o deserto celeste, que envolve o nosso universo side

ral e que parece estender-se como os afastados confins do nosso mundo

astral, é abrangido pela visão e o poder infinito do Altíssimo que, além

desses céus dos nossos céus, desenvolveu a trama da sua criação ilimitada.

47. Além de tão vastas solidões, com efeito, rebrilham mundos em

sua magnificência, tanto quanto nas regiões acessíveis às investigações

humanas; para lá desses desertos, vagam, no éter límpido esplêndidos

oásis, que sem cessar renovam as cenas admiráveis da existência e da

vida. Sucedem-se lá os agregados longínquos de substância cósmica, que

o profundo olhar do telescópio percebe através das regiões transparentes

do nosso céu e a que dais o nome de nebulosas irresolúveis, as quais vos

parecem ligeiras nuvens de poeira branca, perdidas num ponto desco

nhecido do espaço etéreo. Lá se revelam e desdobram novos mundos,

cujas condições variadas e diversas das que são peculiares ao vosso globo

lhes dão uma vida que as vossas concepções não podem imaginar, nem os

vossos estudos comprovar. É lá que em toda a sua plenitude resplandece

o poder criador. Àquele que vem das regiões que o vosso sistema ocu

pa, outras leis se deparam em ação e suas forças regem as manifestações

da vida. E os novos caminhos que se nos apresentam em tão singulares

regiões abrem-nos surpreendentes perspectivas.48

Uma comparação familiar pode dar ideia, embora muito imperfeita, das nebulosas resolúveis: são

os grupos de centelhas projetadas pelas bombas dos fogos de artifício, no momento de explodirem.

Cada uma dessas centelhas figurará uma estrela e o conjunto delas a nebulosa, ou grupo de estrelas

reunidas num ponto do espaço e submetidas a uma lei comum de atração e de movimento. Vistas de

certa distância, mal se distinguem essas centelhas, tendo o grupo por elas formado a aparência de

uma nuvenzinha de fumaça. Não seria exata esta comparação, se se tratasse de massas de matéria

cósmica condensada.

A nossa Via Láctea é uma dessas nebulosas. Conta perto de 30 milhões de estrelas ou sóis que ocu

pam nada menos de algumas centenas de trilhões de léguas de extensão e, entretanto, não é a maior.

Suponhamos apenas uma média de 20 planetas habitados circulando em torno de cada sol: teremos

600 milhões de mundos só para o nosso grupo.

Se nos pudéssemos transportar da nossa nebulosa para outra, aí estaríamos como em meio da nossa

Via Láctea, porém com um céu estrelado de aspecto inteiramente diverso e este, malgrado as suas

dimensões colossais, nos pareceria, de longe, um pequenino floco lenticular perdido no infinito.

Mas, antes de atingirmos a nova nebulosa, seríamos qual viajante que deixa uma cidade e percorre

vasto país inabitado, antes que chegue a outra cidade. Teríamos transposto incomensuráveis espa

ços desprovidos de estrelas e de mundos, o que Galileu denominou os desertos do espaço. À medi

da que avançássemos, veríamos a nossa nebulosa afastar-se atrás de nós, diminuindo de extensão

às nossas vistas, ao mesmo tempo que, diante de nós, se apresentaria aquela para a qual nos diri

gíssemos, cada vez mais distinta, semelhante à massa de centelhas de bomba de fogos de artifício.

Transportando-nos pelo pensamento às regiões do espaço além do arquipélago da nossa nebulosa,

veremos em torno de nós milhões de arquipélagos semelhantes e de formas diversas, contendo

cada um milhões de sóis e centenas de milhões de mundos habitados.

Tudo o que nos possa identificar com a imensidade da extensão e com a estrutura do universo é

de utilidade para a ampliação das ideias, tão restringidas pelas crenças vulgares. Deus avulta aos

nossos olhos, à medida que melhor compreendemos a grandeza de suas obras e nossa infimida

de. Estamos longe, como se vê, da crença que a gênese moisaica implantou e que fez da nossa

pequenina, imperceptível Terra, a criação principal de Deus e dos seus habitantes os únicos objetos da sua solicitude. Compreendemos a vaidade dos homens que creem que tudo no universo foi feito para eles e dos que ousam discutir a existência do Ente supremo. Dentro de alguns séculos, causará espanto que uma religião feita para glorificar a Deus o tenha rebaixado a tão mesquinhas proporções e que haja repelido, como concepção do espírito do mal, as descobertas que somente vieram.

Eterna sucessão dos mundos

48. Vimos que uma única lei, primordial e geral, foi outorgada

ao universo, para lhe assegurar eternamente a estabilidade, e que essa

lei geral nos é perceptível aos sentidos por muitas ações particulares que

nomeamos forças diretrizes da natureza. Vamos agora mostrar que a har

monia do mundo inteiro, considerada sob o duplo aspecto da eternidade

e do espaço, é garantida por essa lei suprema.

49. Com efeito, se remontarmos à origem primária das primitivas

aglomerações da substância cósmica, notaremos que, sob o império dessa

lei, a matéria sofre as transformações necessárias, que levam do gérmen

ao fruto maduro, e que, sob a impulsão das diversas forças nascidas dessa

lei, ela percorre a escala das revoluções periódicas. Primeiramente, centro

fluídico dos movimentos; em seguida, gerador dos mundos; mais tarde,

núcleo central e atrativo das esferas que lhe nasceram do seio.

Já sabemos que essas leis presidem à história do Cosmo; o que

agora importa saber é que elas presidem igualmente à destruição dos as

tros, porquanto a morte não é apenas uma metamorfose do ser vivo, mas

também uma transformação da matéria inanimada. Se é exato dizer-se,

em sentido literal, que a vida só é acessível à foice da morte, não menos

exato é dizer-se que para a substância é de toda necessidade sofrer as

transformações inerentes à sua constituição.

50. Temos aqui um mundo que, desde o primitivo berço, percor

reu toda a extensão dos anos que a sua organização especial lhe permitia

percorrer. Extinguiu-se-lhe o foco interior da existência, seus elementos

perderam a virtude inicial; os fenômenos da natureza, que reclamavam,

para se produzirem, a presença e a ação das forças outorgadas a esse mun

do, já não mais podem produzir-se, porque a alavanca da atividade delas

já não dispõe do ponto de apoio que lhe era indispensável.

Ora, dar-se-á que essa terra extinta e sem vida vai continuar a

gravitar nos espaços celestes, sem uma finalidade, e passar como cinza

inútil pelo turbilhão dos céus? Dar-se-á permaneça inscrita no livro da

vida universal, quando já se tornou letra morta e vazia de sentido? Não.

aumentar a nossa admiração pela sua onipotência, iniciando-nos nos grandiosos mistérios da cria

ção. Ainda maior será o espanto, quando souberem que essas descobertas foram repelidas porque

emancipariam o espírito dos homens e tirariam a preponderância dos que se diziam representantes

de Deus na Terra.

As mesmas leis que a elevaram acima do caos tenebroso e que a

galardoaram com os esplendores da vida, as mesmas forças que a go

vernaram durante os séculos da sua adolescência, que lhe firmaram os

primeiros passos na existência e que a conduziram à idade madura e à

velhice, vão também presidir à desagregação de seus elementos constitu

tivos, a fim de os restituir ao laboratório onde a potência criadora haure

incessantemente as condições da estabilidade geral. Esses elementos vão

retornar à massa comum do éter, para se assimilarem a outros corpos,

ou para regenerarem outros sóis. E a morte não será um acontecimen

to inútil, nem para a Terra que consideramos, nem para suas irmãs.

Noutras regiões, ela renovará outras criações de natureza diferente e, lá

onde os sistemas de mundos se desvaneceram, em breve renascerá outro

jardim de flores mais brilhantes e mais perfumadas.

51. Desse modo, a eternidade real e efetiva do universo se acha

garantida pelas mesmas leis que dirigem as operações do tempo. Desse

modo, mundos sucedem a mundos, sóis a sóis, sem que o imenso me

canismo dos vastos céus jamais seja atingido nas suas gigantescas molas.

Onde os vossos olhos admiram esplêndidas estrelas na abóbada da

noite, onde o vosso espírito contempla irradiações magníficas que res

plandecem nos espaços distantes, de há muito o dedo da morte extinguiu

esses esplendores, de há muito o vazio sucedeu a esses deslumbramen

tos e já recebem mesmo novas criações ainda desconhecidas. A distância

imensa a que se encontram esses astros, por efeito da qual a luz que nos

enviam gasta milhares de anos a chegar até nós, faz com que somente

hoje recebamos os raios que eles nos enviaram longo tempo antes da

criação da Terra e com que ainda os admiremos durante milhares de anos

após a sua desaparição real.49

Que são os seis mil anos da humanidade histórica, diante dos pe

ríodos seculares? Segundos em vossos séculos. Que são as vossas obser

vações astronômicas, diante do estado absoluto do mundo? A sombra

eclipsada pelo Sol.

52. Logo, reconheçamos, aqui como nos nossos outros estudos,

que a Terra e o homem são nada em confronto com o que existe e que as

mais colossais operações do nosso pensamento ainda se estendem apenas

sobre um campo imperceptível, diante da imensidade e da eternidade de

um universo que nunca terá fim.

E, quando esses períodos da nossa imortalidade nos houverem

passado sobre as cabeças, quando a história atual da Terra nos aparecer

qual sombra vaporosa no fundo da nossa lembrança; quando, durante

séculos incontáveis, houvermos habitado esses diversos degraus da nossa

hierarquia cosmológica; quando os mais longínquos domínios das idades

futuras tiverem sido por nós perlustrados em inúmeras peregrinações,

teremos diante de nós a sucessão ilimitada dos mundos e por perspectiva

a eternidade imóvel.

A vida universal

53. Essa imortalidade das almas, tendo por base o sistema do

mundo físico, pareceu imaginária a certos pensadores prevenidos; quali

ficaram-na ironicamente de imortalidade viajora e não compreenderam

que só ela é verdadeira ante o espetáculo da criação. Entretanto, pode-se

tornar compreensível toda a sua grandeza, quase diríamos: toda a sua

perfeição.

54. Que as obras de Deus sejam criadas para o pensamento e a in

teligência; que os mundos sejam moradas de seres que as contemplam e

lhes descobrem, sob o véu, o poder e a sabedoria daquele que as formou,

são questões que já nos não oferecem dúvida; mas, que sejam solidárias

as almas que os povoam, é o que importa saber.

55. Com efeito, a inteligência humana encontra dificuldade em

considerar esses globos radiosos que cintilam na amplidão como simples

massas de matéria inerte e sem vida. Custa-lhe a pensar que não haja,

nessas regiões distantes, magníficos crepúsculos e noites esplendorosas,

sóis fecundos e dias transbordantes de luz, vales e montanhas, onde as

produções múltiplas da natureza desenvolvam toda a sua luxuriante pom

pa. Custa-lhe a imaginar, digo, que o espetáculo divino em que a alma

pode retemperar-se como em sua própria vida, seja baldo da existência e

carente de qualquer ser pensante que o possa conhecer.

56. Mas a essa ideia eminentemente justa da Criação, faz-se mister

acrescentar a da humanidade solidária e é nisso que consiste o mistério

da eternidade futura.

Uma mesma família humana foi criada na universalidade dos

mundos e os laços de uma fraternidade que ainda não sabeis apreciar

foram postos a esses mundos. Se os astros que se harmonizam em seus vas

tos sistemas são habitados por inteligências, não o são por seres desconhecidos

uns dos outros, mas, ao contrário, por seres que trazem marcado na fronte o

mesmo destino, que se hão de encontrar temporariamente segundo suas fun

ções de vida e suas mútuas simpatias. É a grande família dos Espíritos que

povoam as terras celestes; é a grande irradiação do Espírito divino que

abrange a extensão dos céus e que permanece como tipo primitivo e final

da perfeição espiritual.

57. Por que singular aberração se há podido crer fosse mister negar

à imortalidade as vastas regiões do éter, quando a encerravam dentro de

um limite inadmissível e de uma dualidade absoluta? O verdadeiro siste

ma do mundo deveria, então, preceder à verdadeira doutrina dogmática

e a Ciência preceder à Teologia? Esta se transviará tanto que irá colocar

sua base sobre a Metafísica? A resposta é fácil e nos mostra que a nova

filosofia se assentará triunfante nas ruínas da antiga, porque sua base se

terá erguido vitoriosa sobre os antigos erros.

Diversidade dos mundos

58. Acompanhando-nos em nossas excursões celestes, visitastes co

nosco as regiões imensas do espaço. Debaixo das nossas vistas, os sóis

sucederam aos sóis, os sistemas aos sistemas, as nebulosas às nebulosas;

diante dos nossos passos, desenrolou-se o panorama esplêndido da har

monia do Cosmo e antegozamos a ideia do infinito, que somente de

acordo com a nossa perfectibilidade futura poderemos compreender em

toda a sua extensão. Os mistérios do éter nos desvendaram o seu enigma

até aqui indecifrável e, pelo menos, concebemos a ideia da universalidade

das coisas. Cumpre que agora nos detenhamos a refletir.

59. É belo, sem dúvida, haver reconhecido quanto é ínfima a Terra

e medíocre a sua importância na hierarquia dos mundos; é belo haver

abatido a presunção humana, que nos é tão cara, e nos termos humilhado

ante a grandeza absoluta; ainda mais belo, no entanto, será que interpre

temos em sentido moral o espetáculo de que fomos testemunhas. Quero

falar do poder infinito da natureza e da ideia que devemos fazer do seu

modo de ação nos diversos domínios do vasto universo.

60. Acostumados, como estamos, a julgar das coisas pela nossa

insignificante e pobre habitação, imaginamos que a natureza não pode

ou não teve de agir sobre os outros mundos, senão segundo as regras que

lhe conhecemos na Terra. Ora, precisamente neste ponto é que importa

reformemos a nossa maneira de ver.

Lançai por um instante o olhar sobre uma região qualquer do vos

so globo e sobre uma das produções da vossa natureza. Não reconhece

reis aí o cunho de uma variedade infinita e a prova de uma atividade sem

par? Não vedes na asa de um passarinho das Canárias, na pétala de um

botão de rosa entreaberto a prestigiosa fecundidade dessa bela natureza?

Apliquem-se aos seres que adejam nos ares os vossos estudos, des

çam eles à violeta dos prados, mergulhem nas profundezas do oceano,

em tudo e por toda a parte lereis esta verdade universal: A natureza oni

potente age conforme os lugares, os tempos e as circunstâncias; ela é una

em sua harmonia geral, mas múltipla em suas produções; brinca com

um Sol, como com uma gota de água; povoa de seres vivos um mundo

imenso com a mesma facilidade com que faz se abra o ovo posto pela

borboleta.

61. Ora, se é tal a variedade que a natureza nos há podido eviden

ciar em todos os sítios deste pequeno mundo tão acanhado, tão limita

do, quão mais ampliado não deveis considerar esse modo de ação, pon

derando nas perspectivas dos mundos enormes! quão mais desenvolvida

e pujante não a deveis reconhecer, operando nesses mundos maravilho

sos que, muito mais do que a Terra, lhe atestam a inapreciável perfeição!

Não vejais, pois, em torno de cada um dos sóis do espaço, apenas

sistemas planetários semelhantes ao vosso sistema planetário; não vejais,

nesses planetas desconhecidos, apenas os três reinos que se estadeiam ao

vosso derredor. Pensai, ao contrário, que, assim como nenhum rosto de

homem se assemelha a outro rosto em todo o gênero humano, também

uma portentosa diversidade, inimaginável, se acha espalhada pelas mo

radas eternas que vogam no seio dos espaços.

Do fato de que a vossa natureza animada começa no zoófito para

terminar no homem, de que a atmosfera alimenta a vida terrestre, de

que o elemento líquido a renova incessantemente, de que as vossas es

tações fazem se sucedam nessa vida os fenômenos que as distinguem,

não concluais que os milhões e milhões de terras que rolam pela ampli

dão sejam semelhantes à que habitais. Longe disso, aquelas diferem, de

acordo com as diversas condições que lhes foram prescritas e de acordo

com o papel que a cada uma coube no cenário do mundo. São pedrarias

variegadas de um imenso mosaico, as diversificadas flores de admirável

parque.

M

Esboço geológico da Terra

• Períodos geológicos • Estado primitivo do globo • Período primário

• Período de transição • Período secundário • Período terciário • Período

diluviano • Período pós-diluviano ou atual. Nascimento do homem

Períodos geológicos

1. A Terra conserva em si os traços evidentes da sua formação.

Acompanham-se-lhe as fases com precisão matemática, nos diferentes

terrenos que lhe constituem o arcabouço. O conjunto desses estudos

forma a ciência chamada Geologia, ciência nascida neste século (XIX) e

que projetou luz sobre a tão controvertida questão da origem do globo

terreno e da dos seres vivos que o habitam. Neste ponto, não há simples

hipótese; há o resultado rigoroso da observação dos fatos e, diante dos

fatos, nenhuma dúvida se justifica. A história da formação da Terra está

escrita nas camadas geológicas, de maneira bem mais certa do que nos

livros preconcebidos, porque é a própria natureza que fala, que se põe a

nu, e não a imaginação dos homens a criar sistemas. Desde que se notem

traços de fogo, pode dizer-se com certeza que houve fogo ali; onde se

vejam os da água, pode dizer-se que a água ali esteve; desde que se obser

vem os de animais, pode dizer-se que viveram aí animais.

A Geologia é, pois, uma ciência toda de observação; só tira dedu

ções do que vê; sobre os pontos duvidosos, nada afirma; não emite opi

niões discutíveis, por esperar de observações mais completas a solução

procurada. Sem as descobertas da Geologia, como sem as da Astronomia,

a Gênese do mundo ainda estaria nas trevas da lenda. Graças a elas, o

homem conhece hoje a história da sua habitação, tendo desmoronado,

para não mais tornar a erguer-se, a estrutura de fábulas que lhe rodea

vam o berço.

2. Em todos os terrenos onde existam valas, escavações naturais ou

praticadas pelo homem, nota-se o a que se chama estratificações, isto é,

camadas superpostas. Os que apresentam essa disposição se designam pelo

nome de terrenos estratificados. Essas camadas, de espessura que varia des

de alguns centímetros até 100 metros e mais, se distinguem entre si pela

cor e pela natureza das substâncias de que se compõem. Os trabalhos de

arte, a perfuração de poços, a exploração de pedreiras e, sobretudo, de

minas facultaram observá-las até grande profundidade.

3. São em geral homogêneas as camadas, isto é, cada uma constituída

da mesma substância, ou de substâncias diversas, mas que existiram juntas

e formaram um todo compacto. A linha de separação que as isola umas

das outras é sempre nitidamente sulcada, como nas fiadas de uma cons

trução. Em nenhuma parte se apresentam misturadas e sumidas umas nas

outras, nos pontos de seus respectivos limites, como se dá, por exemplo,

com as cores do prisma e do arco-íris.

Por esses caracteres, reconhece-se que elas se formaram sucessiva

mente, depositando-se uma sobre outra, em condições e por causas di

ferentes. As mais profundas são, naturalmente, as que se formaram em

primeiro lugar, tendo-se formado posteriormente as mais superficiais. A

última de todas, a que se acha na superfície, é a camada da terra vegetal,

que deve suas propriedades aos detritos de matérias orgânicas provenien

tes das plantas e dos animais.

4. As camadas inferiores, colocadas abaixo da camada vegetal, rece

beram em Geologia o nome de rochas, palavra que, nessa acepção, nem

sempre implica a ideia de uma substância pedrosa, significando antes um

leito ou banco feito de uma substância mineral qualquer. Umas são for

madas de areia, de argila ou de terra argilosa, de marna, de seixos rolados;

outras o são de pedras propriamente ditas, mais ou menos duras, tais

como os grés, os mármores, o cré, os calcários ou pedras calcárias, as pe

dras molares, ou carvões de pedra, os asfaltos etc. Diz-se que uma rocha

é mais ou menos possante conforme é mais ou menos considerável a sua

espessura.

Mediante o exame da natureza dessas rochas ou camadas, reconhe

ce-se, por sinais certos, que umas provêm de matérias fundidas e, às vezes,

vitrificadas sob a ação do fogo; outras, de substâncias terrosas depostas pe

las águas; algumas de tais substâncias se conservaram desagregadas, como

as areias; outras, a princípio em estado pastoso, sob a ação de certos agen

tes químicos ou por outras causas, endureceram e adquiriram, com o tem

po, a consistência da pedra. Os bancos de pedras superpostas denunciam

depósitos sucessivos. O fogo e a água participaram, pois, da formação dos

materiais que compõem o arcabouço sólido do globo terráqueo.

5. A posição normal das camadas terrosas ou pedregosas, prove

nientes de depósitos aquosos, é a horizontal. Ao vermos essas planícies

imensas, que por vezes se estendem a perder de vista, de perfeita hori

zontalidade, lisas como se as tivessem nivelado com um rolo compres

sor, ou esses vales profundos, tão planos como a superfície de um lago,

podemos estar certos de que, em época mais ou menos afastada, tais lu

gares estiveram por longo tempo cobertos de águas tranquilas que, ao se

retirarem, deixaram em seco as terras que elas depositaram enquanto ali

permaneceram. Retiradas as águas, essas terras se cobriram de vegetação.

Se, em vez de terras gordas,50 limosas, argilosas, ou marnosas,51 próprias

a assimilar os princípios nutritivos, as águas apenas depositaram areias

silicosas, sem agregação, temos as planícies arenosas que constituem as

charnecas e os desertos, dos quais nos podem dar pequena ideia os de

pósitos que ficam das inundações parciais e os que formam as aluviões

na embocadura dos rios.

6. Conquanto a horizontal seja a posição mais generalizada e a que

normalmente assumem as formações aquosas, não é raro verem-se, nos

países montanhosos e em extensões bem grandes, rochas duras, cuja na

tureza indica que foram formadas em posição inclinada e, até por ve

zes, vertical. Ora, como, segundo as leis de equilíbrio dos líquidos e da

gravidade, os depósitos aquosos somente em planos horizontais podem

formar-se, pois os que se formam sobre planos inclinados são arrastados

pelas correntes e pelo próprio peso para as baixadas, evidente se torna

que tais depósitos foram levantados por uma força qualquer, depois de se

terem solidificado ou transformado em pedras.

Destas considerações se pode concluir, com certeza, que todas as

camadas pedrosas que, provindo de depósitos aquosos, se encontram em

posição perfeitamente horizontal, foram formadas, durante séculos, por

águas tranquilas e que, todas as vezes que se achem em posição inclina

da, o solo foi convulsionado e deslocado posteriormente, por subversões

gerais ou parciais, mais ou menos consideráveis.

7. Um fato característico e da mais alta importância, pelo teste

munho irrecusável que oferece, consiste no existirem, em quantidades

enormes, despojos fósseis de animais e vegetais, dentro das diferentes ca

madas. Como esses despojos se encontram até nas mais duras pedras,

há de concluir-se que a existência de tais seres é anterior à formação das

aludidas pedras. Ora, se levarmos em conta o prodigioso número de sé

culos que foram necessários para que se lhes produzisse o endurecimento

e para que elas alcançassem o estado em que se acham desde tempos ime

moriais, chega-se forçosamente à conclusão de que o aparecimento de

seres orgânicos na Terra se perde na noite das idades e é muito anterior,

por conseguinte, à data que lhes assina a Gênese.52, 53

8. Entre os despojos de vegetais e animais, alguns há que se mos

tram penetrados em todos os pontos de sua substância, sem que isso lhes

alterasse a forma, de matérias silicosas ou calcárias que os transformaram

em pedras, algumas das quais apresentam a dureza do mármore. São as

petrificações propriamente ditas. Outros foram apenas envolvidos pela

matéria no estado de flacidez; são encontrados intactos e, alguns, inteiros,

nas mais duras pedras. Outros, finalmente, apenas deixaram marcas, mas

52 Nota de Allan Kardec: Fóssil, do latim fossilia, fossĭlis, derivado de fossa, e de fodere, cavar, escavar a

terra, é uma palavra que em Geologia se emprega designando corpos ou despojos de corpos orgâ

nicos de seres que viveram anteriormente às épocas históricas. Por extensão, diz-se igualmente das

substâncias minerais que revelam traços da presença de seres organizados, quais as marcas deixadas

por vegetais ou animais.

O termo petrificado se emprega relativamente aos corpos que se transformaram em pedra, pela infil

tração de matérias silicosas ou calcárias nos tecidos orgânicos. Todas as petrificações necessariamen

te são fósseis, mas nem todos os fósseis são petrificações.

Nos objetos que se revestem de uma camada pedregosa quando mergulhados em certas águas car

regadas de substâncias calcárias, como as do regato de Saint Allyre, perto de Clermont, no Auvergne

(França), não são petrificações propriamente ditas, porém simples incrustações.

Os monumentos, inscrições e objetos produzidos por fabricação humana, esses pertencem à

Arqueologia.

9. Os fósseis de animais absolutamente não contêm, e isso é fácil

de conceber-se, senão as partes sólidas e resistentes, isto é, as ossaturas,

as escamas e os cornos; são, não raro, esqueletos completos; as mais das

vezes, no entanto, são apenas partes destacadas, que a procedência facil

mente se reconhece. Examinando-se uma queixada, um dente, logo se vê

se pertence a um animal herbívoro ou carnívoro. Como todas as partes

do animal guardam necessária correlação, a forma da cabeça, de uma

omoplata, de um osso da perna, de um pé, basta para determinar o porte,

a forma geral, o gênero de vida do animal.54 Os animais terrestres têm

uma organização que não permite sejam confundidos com os animais

aquáticos.

São extremamente numerosos os peixes e os moluscos testáceos

fósseis; só estes últimos formam, às vezes, bancos inteiros de grande

espessura. Pela natureza deles, verifica-se sem dificuldade se são animais

marinhos ou de água doce.

10. Os seixos rolados, que em certos lugares formam rochas for

midáveis, constituem inequívoco indício da origem deles. São arredon

dados como os calhaus de beira-mar, sinal certo do atrito que sofreram,

por efeito das águas. As regiões onde eles se encontram enterrados, em

massas consideráveis, foram incontestavelmente ocupadas pelo oceano,

ou, durante longo tempo, por outras águas movediças, ou violentamente

agitadas.

11. Além disso, os terrenos das diversas formações se caracteri

zam pela natureza mesma dos fósseis que encerram. As mais antigas

contêm espécies animais ou vegetais que desapareceram inteiramente

da superfície do planeta. Também desapareceram algumas espécies mais

recentes; conservaram-se, porém, outras análogas, que apenas diferem

daquelas pelo porte e por alguns matizes de forma. Outras, finalmen

te, cujos últimos representantes ainda vemos, tendem evidentemente a

desaparecer em futuro mais ou menos próximo, tais como os elefantes,

54 Nota de Allan Kardec: No ponto a que Georges Cuvier [1769–1832, zoólogo e paleontólogo francês]

levou a ciência paleontológica, um só osso basta frequentemente para determinar o gênero, a espé

cie, a forma de um animal, seus hábitos, e para o reconstruir todo inteiro.

os rinocerontes, os hipopótamos etc. Assim, à medida que as camadas

terrestres se aproximam da nossa época, as espécies animais e vegetais

também se aproximam das que hoje existem.

As perturbações, os cataclismos que se produziram na Terra, desde

a sua origem, lhe mudaram as condições de aptidão para entretenimento

da vida e fizeram desaparecessem gerações inteiras de seres vivos.

12. Interrogando-se a natureza das camadas geológicas, vem-se a

saber, de modo mais positivo, se, na época de sua formação, a região onde

elas se apresentam era ocupada pelo mar, pelos lagos, ou por florestas e

planícies povoadas de animais terrestres. Conseguintemente, se, numa

mesma região, se encontra uma série de camadas superpostas, contendo

alternativamente fósseis marinhos, terrestres e de água doce, muitas vezes

repetidas, constitui esse fato prova irrecusável de que essa região foi mui

tas vezes invadida pelo mar, coberta de lagos e posta a seco.

E quantos séculos de séculos, certamente, quantos milhares de sé

culos, talvez, não foram precisos para que cada período se completasse!

Que força poderosa não foi necessária para deslocar e recolocar o oceano,

levantar montanhas! Por quantas revoluções físicas, comoções violentas

não teve a Terra de passar, antes de ser qual a vemos desde os tempos his

tóricos! E querer-se que tudo isso fosse obra executada em menos tempo

do que o que leva uma planta para germinar!

13. O estudo das camadas geológicas atesta, como já se disse, for

mações sucessivas, que mudaram o aspecto do Globo e lhe dividem a

história em muitas épocas, que constituem os chamados períodos geoló

gicos, cujo conhecimento é essencial para a determinação da Gênese. São

em número de seis os principais, designados pelos nomes de períodos

primário, de transição, secundário, terciário, diluviano, pós-diluviano

ou atual. Os terrenos formados durante cada período também se cha

mam: terrenos primitivos, de transição, secundários etc. Diz-se, pois,

que tal ou tal camada ou rocha, tal ou tal fóssil se encontram nos terre

nos de tal ou tal período.

14. Cumpre se note que o número desses períodos não é absolu

to, pois depende dos sistemas de classificação. Nos seis principais, men

cionados acima, só se compreendem os que estão assinalados por uma

mudança notável e geral no estado do planeta; mas a observação prova

que muitas formações sucessivas se operaram, enquanto durou cada um

deles. Por isso é que são divididos em seis períodos caracterizados pela

natureza dos terrenos e que elevam a vinte e seis o número das formações

gerais bem assinaladas, sem contar os que provêm de modificações devi

das a causas puramente locais.

Estado primitivo do globo55

15. O achatamento dos polos e outros fatos concludentes são indí

cios certos de que o estado da Terra, na sua origem, deve ter sido o de flui

dez ou de flacidez, estado esse oriundo de se achar a matéria ou liquefeita

pela ação do fogo, ou diluída pela da água.

Costuma-se dizer, proverbialmente: não há fumaça sem fogo. Ri

gorosamente verdadeira, esta sentença constitui uma aplicação do prin

cípio: não há efeito sem causa. Pela mesma razão, pode-se dizer: não há

fogo sem um foco. Ora, pelos fatos que se passam sob as nossas vistas,

não é apenas fumaça o que se produz na Terra, mas fogo bastante real,

que há de ter um foco. Vindo esse fogo do interior do planeta e não do

alto, o foco lhe há de estar no interior e, como o fogo é permanente, o

foco também o há de ser.

O calor, cujo aumento é progressivo à medida que se penetra no

interior da Terra e que, a certa profundidade, chega a uma temperatura

altíssima; as fontes térmicas, tanto mais quentes, quanto mais profunda

lhes está a nascente; os fogos e as massas de matéria fundida esbraseada

que os vulcões vomitam, como por vastos respiradouros, ou pelas fendas

que alguns tremores de terra abrem, não deixam dúvida sobre a existência

de um fogo interior.

16. A experiência demonstra que a temperatura se eleva de um grau

a cada 30 metros de profundidade, donde se segue que, a uma profun

didade de 300 metros, o aumento é de 10 graus; a 3.000 metros, de 100

graus, temperatura da água a ferver; a 30.000 metros, ou seja, 7 ou 8

léguas, de 1.000 graus; a 25 léguas, de mais de 3.300 graus, temperatura

a que nenhuma matéria conhecida resiste à fusão. Daí ao centro, ainda há

um espaço de mais de 1.400 léguas, ou 2.800 léguas em diâmetro, espaço

que seria ocupado por matérias fundidas.

Conquanto não haja aí mais do que uma conjetura, julgando da

causa pelo efeito, tem ela todos os caracteres da probabilidade e leva à

conclusão de que a Terra ainda é uma massa incandescente recoberta de

uma crosta sólida da espessura de 25 léguas no máximo, o que é apenas

a 120a parte do seu diâmetro. Proporcionalmente, seria muito menos do

que a espessura da mais delgada casca de laranja.

Aliás, é muito variável a espessura da crosta terrestre, porquanto há

zonas, sobretudo nos terrenos vulcânicos, onde o calor e a flexibilidade

do solo indicam que ela é pouco considerável. A elevada temperatura

das águas termais constitui igualmente indício de proximidade do foco

central.

17. Assim sendo, evidente se torna que o primitivo estado de flui

dez ou de flacidez da Terra há de ter tido como causa a ação do calor e

não a da água. Em sua origem, pois, a Terra era uma massa incandes

cente. Em virtude da irradiação do calórico,57 deu-se o que se dá com

toda matéria em fusão: ela esfriou pouco a pouco, principiando o resfria

mento, como era natural, pela superfície, que então endureceu, ao passo

que o interior se conservou fluido. Pode-se assim comparar a Terra a um

bloco de carvão ao sair ígneo da fornalha e que sua superfície se apaga e

resfria, ao contato do ar, mantendo-se-lhe o interior em estado de igni

ção, conforme se verificará, quebrando-o.

18. Na época em que o globo terrestre era uma massa incandes

cente, não continha nenhum átomo a mais, nem a menos do que hoje;58

apenas, sob a influência da alta temperatura, a maior parte das substân

cias que a compõem e que vemos sob a forma de líquidos ou de sólidos,

de terras, de pedras, de metais e de cristais se achavam em estado muito

diferente. Sofreram unicamente uma transformação. Em consequência

do resfriamento, os elementos formaram novas combinações. O ar,

enormemente dilatado, decerto se estendia a uma distância imensa; toda

a água, forçosamente transformada em vapor, se encontrava misturada

com o ar; todas as matérias suscetíveis de se volatilizarem, tais como os

metais, o enxofre, o carbono, se achavam em estado de gás. O da at

mosfera nada tinha, portanto, de comparável ao que é hoje; a densidade

de todos esses vapores lhe dava uma opacidade que nenhum raio de sol

podia atravessar. Se nessa época um ser vivo pudesse existir na superfície

do planeta, apenas seria iluminado pelos revérberos sinistros da fornalha

que lhe estava sob os pés e da atmosfera esbraseada; ele nem sequer sus

peitaria da existência do Sol.

Período primário59

19. O primeiro efeito do resfriamento foi a solidificação da super

fície exterior da massa em fusão e a formação aí de uma crosta resistente

que, delgada a princípio, gradativamente se espessou. Essa crosta consti

tui a pedra chamada granito, de extrema dureza, assim denominada pelo

seu aspecto granuloso. Nela se distinguem três substâncias principais: o

feldspato, o quartzo ou cristal de rocha e a mica. Esta última tem brilho

metálico, embora não seja um metal.

A camada granítica foi, pois, a primeira que se formou no globo, é a

que o envolve por completo, constituindo de certo modo o seu arcabouço

ósseo. É o produto direto da consolidação da matéria fundida. Sobre ela

e nas cavidades que apresentava a sua superfície torturada foi que se de

positaram sucessivamente as camadas dos outros terrenos, posteriormente

formados. O que a distingue destes últimos é a ausência de toda e qual

quer estratificação; quer dizer: ela forma uma massa compacta e uniforme

em toda a sua espessura, que não é disposta em camadas. A efervescência

da matéria incandescente havia de produzir nela numerosas e profundas

fendas, pelas quais essa mesma matéria extravasava.

20. O efeito seguinte do resfriamento foi a liquefação de algumas

matérias contidas no ar em estado de vapor, as quais se precipitaram na

superfície do solo. Houve então chuvas e lagos de enxofre e de betume,

verdadeiros regatos de ferro, cobre, chumbo e outros metais fundidos.

Infiltrando-se pelas fissuras, essas matérias constituíram os veios e filões

metálicos.

Sob o influxo desses diversos agentes, a superfície granítica experi

mentou alternativas decomposições. Produziram-se misturas, que forma

ram os terrenos primitivos propriamente ditos, distintos da rocha graníti

ca, mas em massas confusas e sem estratificação regular.

Vieram, a seguir, as águas que, caindo sobre um solo ardente, se va

porizavam de novo, recaíam em chuvas torrenciais e assim sucessivamente,

até que a temperatura lhes facultou permanecerem no solo em estado

líquido.

É a formação dos terrenos graníticos que dá começo à série dos

períodos geológicos, aos quais conviria se acrescentasse o do estado

primitivo, de incandescência do globo.

21. Tal o aspecto do primeiro período, verdadeiro caos de todos

os elementos confundidos, à procura de estabilização, período em que

nenhum ser vivo podia existir. Por isso mesmo, um de seus caracteres

distintivos, em Geologia, é a ausência de qualquer vestígio de vida vegetal

ou animal.

Impossível se torna assinar duração determinada a esse período,

do mesmo modo que aos que se lhe seguiram. Mas, dado o tempo que

se faz mister para que uma bala60 de determinado volume, aquecida até

o branco, se resfrie na superfície, ao ponto de permitir que uma gota

de água possa sobre ela permanecer em estado líquido, calculou-se que,

se essa bala tivesse o tamanho da Terra, necessários seriam mais de um

milhão de anos.

Período de transição61

22. No começo do período de transição, ainda pequena era a es

pessura da sólida crosta granítica, que, portanto, resistência muito fraca

oferecia à efervescência das matérias enfogadas que ela cobria e compri

mia. Produziam-se, pois, intumescências, despedaçamentos numerosos,

por onde se escapava a lava interior. O solo apresentava desigualdades

pouco consideráveis.

As águas, pouco profundas, cobriam quase toda a superfície do glo

bo, com exceção das partes soerguidas, que, formando terrenos baixos,

eram frequentemente alagados.

O ar gradativamente se purgara das matérias mais pesadas, tem

porariamente em estado gasoso, as quais, condensando-se por efeito do

resfriamento, se haviam precipitado na superfície do solo, sendo depois

arrastadas e dissolvidas pelas águas.

Quando se fala de resfriamento naquela época, deve-se entender

essa palavra em sentido relativo, isto é, em relação ao estado primitivo,

porquanto a temperatura ainda havia de ser ardente.

Os espessos vapores aquosos que se elevavam de todos os lados da

imensa superfície líquida, recaíam em chuvas copiosas e quentes, que obs

cureciam o ar. Entretanto, os raios do sol começavam a aparecer, através

dessa atmosfera brumosa.

Uma das últimas substâncias de que o ar teve de expurgar-se, por

ser gasoso o seu estado natural, foi o ácido carbônico, então um dos seus

componentes.

23. Por essa época, entraram a formar-se as camadas de terrenos

de sedimento, depositadas pelas águas carregadas de limo e de matérias

diversas, apropriadas à vida orgânica.

Surgem aí os primeiros seres vivos do reino vegetal e do reino ani

mal. Deles se encontram vestígios, a princípio em número reduzido, po

rém, depois, cada vez mais frequentes, à medida que se vai passando às

camadas mais elevadas dessa formação. É digno de nota que por toda

parte a vida se manifesta, logo que lhe são propícias as condições, nas

cendo cada espécie desde que se realizam as condições próprias à sua

existência.

24. Os primeiros seres orgânicos que apareceram na Terra foram

os vegetais de organização menos complicada, designados em Botânica

sob os nomes de criptógamos, acotiledôneos, monocotiledôneos, isto é,

liquens, cogumelos, musgos, fetos e plantas herbáceas.62 Absolutamente,

ainda se não veem árvores de tronco lenhoso, mas, apenas, as do gênero

palmeira, cuja haste esponjosa é análoga à das ervas.

62 N.E.: Atualmente se sabe que os primeiros seres vivos eram unicelulares, bactérias muito primitivas e desprovidas de núcleos.

Os animais desse período, que apareceram em seguida aos primei

ros vegetais, eram exclusivamente marinhos: primeiramente, polipeiros,

radiários,63 zoófitos, animais cuja organização simples e, por assim dizer,

rudimentar, se aproxima, no máximo grau, da dos vegetais. Mais tarde,

aparecem crustáceos e peixes de espécies que já não existem.

25. Sob o império do calor e da umidade e em virtude do excesso

de ácido carbônico espalhado no ar, gás impróprio à respiração dos ani

mais terrestres, mas necessário às plantas, os terrenos expostos se cobriram

rapidamente de uma vegetação pujante, ao mesmo tempo que as plantas

aquáticas se multiplicavam no seio dos pântanos. Plantas que, nos dias

atuais, são simples ervas de alguns centímetros, atingiam altura e grossura

prodigiosas. Assim é que havia florestas de fetos arborescentes de 8 a 10

metros de altura e de proporcional grossura. Licopódios (marroio, gênero

de musgo), do mesmo porte; cavalinhas,64 de 4 a 5 metros, que a altura

não passa hoje de um metro, e uma infinidade de espécies que não mais

existem. Pelos fins do período, começam a aparecer algumas árvores do

gênero conífero ou pinheiros.

26. Em consequência do deslocamento das águas, os terrenos que

produziam essas massas de vegetais foram submergidos, cobertos de novos

sedimentos terrosos, enquanto os que se achavam emersos se adornavam,

a seu turno, de vegetação semelhante. Houve assim muitas gerações de

vegetais alternativamente aniquiladas e renovadas. O mesmo não se deu

com os animais que, sendo todos aquáticos, não estavam sujeitos a essas

alternativas.

Acumulados durante longa série de séculos, esses destroços forma

ram camadas de grande espessura. Sob a ação do calor, da umidade, da

pressão exercida, pelos posteriores depósitos terrosos e, sem dúvida, de

diversos agentes químicos, dos gases, dos ácidos e dos sais produzidos pela

combinação dos elementos primitivos, aquelas matérias vegetais sofreram

uma fermentação que as converteu em hulha ou carvão de pedra. As mi

nas de hulha são, pois, produto direto da decomposição dos acervos de

vegetais acumulados durante o período de transição. É por isso que são

encontrados em quase todas as regiões.65

27. Os restos fósseis da pujante vegetação dessa época, achando-se

hoje sob os gelos das terras polares, tanto quanto na zona tórrida, segue--se que, uma vez que a vegetação era uniforme, também a temperatura o

havia de ser. Os polos, portanto, não se achavam cobertos de gelo, como

agora. É que, então, a Terra tirava de si mesma o calor, do fogo central

que aquecia de igual modo toda a camada sólida, ainda pouco espessa.

Esse calor era superior de muito ao que podia provir dos raios solares, en

fraquecidos, ademais, pela densidade da atmosfera. Só mais tarde, quan

do a ação do calor central se tornou muito fraca ou nula sobre a superfí

cie exterior do globo, a do Sol passou a preponderar e as regiões polares,

que apenas recebiam raios oblíquos, portadores de pequena quantidade

de calor, se cobriram de gelo. Compreende-se que na época de que fala

mos e ainda muito tempo depois, o gelo era desconhecido na Terra.

Deve ter sido muito longo esse período, a julgar pelo número e pela

espessura das camadas de hulha.66

Período secundário67

28. Com o período de transição desaparecem a vegetação colossal

e os animais que caracterizavam a época, ou porque as condições atmos

féricas já não fossem as mesmas, ou porque uma série de cataclismos haja

aniquilado tudo o que tinha vida na Terra. É provável que as duas causas

tenham contribuído para essa mudança, por isso que, de um lado, o es

tudo dos terrenos que assinalam o fim desse período comprova a ocor

rência de grandes subversões oriundas de levantamentos e erupções que

65 Nota de Allan Kardec: A turfa se formou da mesma maneira, pela decomposição dos amontoados

de vegetais, em terrenos pantanosos; mas, com a diferença de que, sendo de formação muito mais

recente e sem dúvida noutras condições, ela não teve tempo de se carbonizar.

66 Nota de Allan Kardec: Na baía de Fundy (Nova Escócia), o Sr. Lyell [Charles Lyell (1797–1875), geólogo

britânico] encontrou, numa camada de hulha de espessura de 400 metros, 68 níveis diferentes, apre

sentando traços evidentes de muitos solos de florestas, de cujas árvores os troncos ainda estavam

guarnecidos de suas raízes. (L. Figuier)

Não dando mais de mil anos para a formação de cada um desses níveis, já teríamos 68.000 anos só

para essa camada de hulha.

derramaram sobre o solo grandes quantidades de lavas, e, de outro lado,

porque grandes mudanças se operaram nos três68 reinos.

29. O período secundário se caracteriza, sob o aspecto mineral, por

numerosas e fortes camadas que atestam uma formação lenta no seio das

águas e marcam diferentes épocas bem caracterizadas.

A vegetação é menos rápida e menos colossal que no período pre

cedente, sem dúvida em virtude da diminuição do calor e da umidade e

de modificações sobrevindas aos elementos constitutivos da atmosfera. Às

plantas herbáceas e polpudas, juntam-se as de caule lenhoso e as primeiras

árvores propriamente ditas.

30. Ainda são aquáticos os animais, ou, quando nada, anfíbios, a

vida vegetal progride pouco na terra seca. Desenvolve-se no seio dos ma

res uma prodigiosa quantidade de animais de conchas, devido à formação

das matérias calcárias. Nascem novos peixes, de organização mais aperfei

çoada do que no período anterior. Aparecem os primeiros cetáceos. Os

mais característicos animais dessa época são os reptis monstruosos, entre

os quais se notam:

O ictiossauro, espécie de peixe-lagarto que chegava a ter 10 metros

de comprimento, com mandíbulas prodigiosamente alongadas, armadas

de 180 dentes. Sua forma geral lembra um pouco a do crocodilo, mas sem

couraça escamosa. Seus olhos tinham o volume da cabeça de um homem;

possuía barbatanas como a baleia e, como esta, expelia água por aberturas

próprias para isso.

O plesiossauro, outro reptil marinho, tão grande quanto o ictiossau

ro, tinha pescoço, excessivamente longo, que se dobrava como o do cisne,

e lhe dava a aparência de enorme serpente ligada a um corpo de tartaruga.

Tinha a cabeça do lagarto e os dentes do crocodilo. Sua pele devia ser lisa,

qual a do ictiossauro, porquanto não se lhe descobriu nenhum vestígio de

escamas ou de concha.69

O teleossauro, que mais se aproxima dos crocodilos atuais, parecen

do estes um seu diminutivo. Como os últimos, tinha uma couraça esca

mosa e vivia, ao mesmo tempo, na água e em terra. Seu talhe era de cerca

de 10 metros, dos quais 3 ou 4 só para a cabeça. A boca tinha de abertura

2 metros.

O megalossauro, grande lagarto, espécie de crocodilo, de 14 a 15

metros de comprimento. Essencialmente carnívoro, nutria-se de reptis, de

pequenos crocodilos e de tartarugas. Sua formidável mandíbula era arma

da de dentes em forma de lâmina de podadeira, de gume duplo, recurva

dos para trás, de tal jeito que, uma vez enterrados na presa, impossível se

tornaria a esta desprender-se.

O iguanodonte, o maior dos lagartos que já apareceram na Terra.

Tinha de 20 a 25 metros da cabeça à extremidade da cauda e sobre o

focinho um chifre ósseo, semelhante ao do iguano da atualidade, do qual

parece que não diferia senão pelo tamanho. O último tem apenas 1 metro

de comprimento. A forma dos dentes prova que ele era herbívoro e a dos

pés que era animal terrestre.70

O pterodátilo, animal estranho, do tamanho de um cisne, partici

pando, simultaneamente, do reptil pelo corpo, do pássaro pela cabeça

e do morcego pela membrana carnuda que lhe religava os dedos prodi

giosamente longos. Essa membrana lhe servia de paraquedas quando se

precipitava sobre a presa do alto de uma árvore ou de um rochedo. Não

possuía bico córneo, como os pássaros, mas os ossos das mandíbulas, do

comprimento da metade do corpo e guarnecidos de dentes, terminavam

em ponta como um bico.

31. Durante esse período, que há de ter sido muito longo, como

o atestam o número e a pujança das camadas geológicas, a vida animal

tomou enorme desenvolvimento no seio das águas, tal qual se dera com

a vegetação no período que findara. Mais depurado e mais favorável à

respiração, o ar começou a permitir que alguns animais vivessem em ter

ra. O mar se deslocou muitas vezes, mas sem abalos violentos. Com esse

período, desaparecem, por sua vez, aquelas raças de gigantescos animais

aquáticos, substituídos mais tarde por espécies análogas, de formas menos

desproporcionadas e de menor porte.

70 N.E.: Somente após a desencarnação do autor, ocorrida em 1869, foram descobertos, na Inglaterra,

fragmentos suficientes à montagem de um exemplar completo, pelos paleontólogos, permitindo

melhor elucidar detalhes da descrição desse dinossauro. Ficou, então, claro que ele tinha uma calosi

dade óssea sobre o focinho, como os iguanídeos uma crista espinhosa no dorso, inexistindo chifres,

que, no entanto, eram bastante evidentes em outros monstros, como nos saurópodes.

32. O orgulho levou o homem a dizer que todos os animais foram

criados por sua causa e para satisfação de suas necessidades. Mas, qual

o número dos que lhe servem diretamente, dos que lhe foi possível sub

meter, comparado ao número incalculável daqueles com os quais nunca

teve ele, nem nunca terá, quaisquer relações? Como se pode sustentar

semelhante tese, em face das inumeráveis espécies que exclusivamente

povoaram a Terra por milhares e milhares de séculos, antes que ele aí

surgisse, e que afinal desapareceram? Poder-se-á afirmar que elas foram

criadas em seu proveito? Entretanto, tinham todas a sua razão de ser, a

sua utilidade. Deus, decerto, não as criou por simples capricho da sua

vontade, para dar a si mesmo, em seguida, o prazer de as aniquilar, pois

que todas tinham vida, instintos, sensação de dor e de bem-estar. Com

que fim ele o fez? Com um fim que há de ter sido soberanamente sábio,

embora ainda o não compreendamos. Certamente, um dia será dado ao

homem conhecê-lo, para confusão do seu orgulho; mas, enquanto isso

não se verifica, como se lhe ampliam as ideias ante os novos horizontes

em que lhe é permitido, agora, mergulhar a vista, em presença do impo

nente espetáculo dessa Criação, tão majestosa no seu lento caminhar, tão

admirável na sua previdência, tão pontual, tão precisa e tão invariável nos

seus resultados!

Período terciário71

33. Com o período terciário nova ordem de coisas começa para

a Terra. O estado da sua superfície muda completamente de aspecto;

modificam-se profundamente as condições de vitalidade e se aproximam

do estado atual. Os primeiros tempos desse período se assinalam por

uma interrupção da produção vegetal e animal; tudo revela traços de

uma destruição quase geral dos seres vivos, depois do que aparecem su

cessivamente novas espécies, cuja organização, mais perfeita, se adapta à

natureza do meio onde são chamados a viver.

34. Durante os períodos anteriores, a crosta sólida do globo, em

virtude da sua pequena espessura, apresentava, como já se disse, bem fra

ca resistência à ação do fogo interior. Facilmente despedaçado, esse envol

tório permitia que as matérias em fusão se derramassem livremente pela

superfície do solo. Outro tanto já não se deu quando este ganhou certa

espessura. Então, comprimidas de todos os lados, as matérias esbrasea

das, como a água em ebulição num vaso fechado, acabaram por produzir

uma espécie de explosão. Violentamente quebrada num sem-número de

pontos, a massa granítica ficou crivada de fendas, como um vaso rachado.

Ao longo dessas fendas, a crosta sólida, levantada e deprimida, formou

os picos, as cadeias de montanhas e suas ramificações. Certas partes do

envoltório não chegaram a ser despedaçadas, foram apenas soerguidas,

enquanto noutros pontos decalcamentos e escavações se produziram.

A superfície do solo tornou-se então muito desigual; as águas que,

até aquele momento, a cobriam de maneira quase uniforme na maior

parte da sua extensão, foram impelidas para os lugares mais baixos, dei

xando em seco vastos continentes, ou cumes isolados de montanhas, for

mando ilhas.

Tal o grande fenômeno que se operou no período terciário e que

transformou o aspecto do globo. Ele não se produziu instantânea, nem

simultaneamente em todos os pontos, mas sucessivamente e em épocas

mais ou menos distanciadas.

35. Uma das primeiras consequências desses levantamentos foi,

como já ficou dito, a inclinação das camadas de sedimento, primitiva

mente horizontais e assim conservadas onde quer que o solo não sofreu

subversões. Foi, portanto, nos flancos e nas proximidades das montanhas

que essas inclinações mais se pronunciaram.

36. Nas regiões onde as camadas de sedimento conservaram a hori

zontalidade, para se chegar às de formação primária tem-se que atravessar

todas as outras, até considerável profundidade, ao cabo da qual se encon

tra inevitavelmente a rocha granítica. Quando, porém, se ergueram em

montanhas, aquelas camadas foram levadas acima do seu nível normal,

indo às vezes até a grande altura, de tal sorte que, feito um corte vertical

no flanco da montanha, elas se mostram em toda a sua espessura e super

postas como as fiadas de uma construção.

É assim que a grandes elevações se encontram enormes bancos de

conchas, primitivamente formados no fundo dos mares. Está hoje perfei

tamente comprovado que em nenhuma época o mar há podido alcançar

semelhantes alturas, visto que para tanto não bastariam todas as águas exis

tentes na Terra, ainda mesmo que fossem em quantidade cem vezes maior.

Ter-se-ia, pois, de supor que a quantidade de água diminuiu e,

então, caberia perguntar o que fora feito da porção que desapareceu. Os

levantamentos, fato hoje incontestável, explicam de maneira lógica e ri

gorosa os depósitos marinhos que se encontram em certas montanhas.72

37. Nos lugares onde o levantamento da rocha primitiva produziu

completa rasgadura do solo, quer pela rapidez do fenômeno, quer pela

forma, altura e volume da massa levantada, o granito foi posto a nu, qual

um dente que irrompeu da gengiva. Levantadas, quebradas e arrumadas,

as camadas que o revestiam ficaram a descoberto. É assim que terrenos

pertencentes às mais antigas formações e que, na posição primitiva, se

achavam a grande profundidade, compõem hoje o solo de certas regiões.

38. Deslocada por efeito dos soerguimentos, a massa granítica dei

xou nalguns sítios fendas por onde se escapa o fogo interior e se escoam

as matérias em fusão; os vulcões, que são como que chaminés da imensa

fornalha, ou, melhor, válvulas de segurança que, dando saída ao excesso

das matérias ígneas, preservam o globo de comoções muito mais terrí

veis. Daí o poder dizer-se que os vulcões em atividade são uma segurança

para o conjunto da superfície do solo.

Da intensidade desse fogo é possível fazer-se ideia, ponderando-se

que no seio mesmo dos mares se abrem vulcões e que a massa de água que

os recobre e neles penetra não consegue extingui-los.

39. Os levantamentos operados na massa sólida necessariamente

deslocaram as águas, sendo estas impelidas para as partes côncavas, que

ao mesmo tempo se haviam tornado mais profundas pela elevação dos

terrenos emergidos e pela depressão de outros. Mas, esses terrenos tor

nados baixos, levantados por sua vez ora num ponto, ora noutro, expul

saram as águas, que refluíram para outros lugares e assim por diante, até

que houvessem podido tomar um leito mais estável.

Os sucessivos deslocamentos dessa massa líquida forçosamente tra

balharam e torturaram a superfície do solo. As águas, escoando-se, arras

taram consigo uma parte dos terrenos de formações anteriores, postos a

descoberto pelos levantamentos, desnudaram algumas montanhas que

eles cobriam e lhes deixaram à mostra a base granítica ou calcária. Pro

fundos vales foram cavados, enquanto outros eram aterrados.

Há, pois, montanhas diretamente formadas pelo fogo central:

principalmente as graníticas; outras, devidas à ação das águas que, arras

tando as terras móveis e as matérias solúveis, cavaram vales em torno de

uma base resistente, calcária, ou de outra natureza.

As matérias carreadas pelas correntes de água formaram as camadas

do período terciário, que facilmente se distinguem das dos precedentes,

menos pela composição, que é quase a mesma, do que pela disposição.

As camadas dos períodos primário, de transição e secundário, for

madas sobre uma superfície pouco acidentada, são mais ou menos uni

formes na Terra toda; as do período terciário, formadas, em vez disso,

sobre base muito desigual e pela ação carreadora das águas, apresentam

caráter mais local. Por toda parte, fazendo-se escavações de certa profun

didade, encontram-se todas as camadas anteriores, na ordem em que se

formaram, ao passo que não se encontra por toda parte o terreno terciá

rio, nem todas as suas camadas.

40. Durante os reviramentos do solo, ocorridos no princípio des

te período, a vida orgânica, como é fácil de conceber-se, teve que ficar

estacionária por algum tempo, o que se reconhece examinando terrenos

baldos de fósseis. Desde, porém, que sobreveio um estado mais calmo,

reapareceram os vegetais e os animais. Estando mudadas as condições de

vitalidade, mais depurada a atmosfera, formaram-se novas espécies, com

organização mais perfeita. As plantas, sob o ponto de vista da estrutura,

diferem pouco das de hoje.

41. No correr dos dois períodos precedentes, eram pouco extensos

os terrenos que as águas não cobriam; eram, ainda assim, pantanosos e

com frequência ficavam submersos. Essa a razão por que só havia animais

aquáticos ou anfíbios. O período terciário, em o qual vários continentes

se formaram, caracterizou-se pelo aparecimento dos animais terrestres.73

Assim como o período de transição assistiu ao nascimento de uma

vegetação colossal, o período secundário ao de reptis monstruosos, tam

bém o terciário presenciou o de gigantescos mamíferos, quais o elefante,

o rinoceronte, o hipopótamo, o paleotério, o megatério, o dinotério, o mas

todonte, o mamute etc. Estes dois últimos, variedades do elefante, tinham

de 5 a 6 metros de altura e suas defesas chegavam a 4 metros de compri

mento. Também assistiu, esse período, ao nascimento dos pássaros, bem

como à maioria das espécies animais que ainda hoje existem.74 Algumas,

das dessa época, sobreviveram aos cataclismos posteriores; outras, quali

ficadas genericamente de animais antediluvianos, desapareceram comple

tamente, ou foram substituídas por espécies análogas, de formas menos

pesadas e menos maciças, cujos primeiros tipos foram como que esboços.

Tais o felis spelœa, animal carnívoro do tamanho de um touro, com os

caracteres anatômicos do tigre e do leão; o cervus megaceron, variedade do

cervo, cujos chifres, compridos de 3 metros, eram espaçados de 3 a 4 nas

extremidades.

Período diluviano75

42. Este período teve a assinalá-lo um dos maiores cataclismos que

revolveram o globo, cuja superfície ele mudou mais uma vez de aspecto,

destruindo uma imensidade de espécies vivas, das quais apenas restam

despojos. Por toda a parte deixou traços que atestam a sua generalidade.

As águas, violentamente arremessadas fora dos respectivos leitos, invadi

ram os continentes, arrastando consigo as terras e os rochedos, desnudan

do as montanhas, desarraigando as florestas seculares. Os novos depósitos

que elas formaram são designados, em Geologia, pelo nome de terrenos

diluvianos.

43. Um dos vestígios mais significativos desse grande desastre são

os penedos chamados blocos erráticos. Dá-se essa denominação a roche

dos de granito que se encontram isolados nas planícies, repousando sobre

terrenos terciários e no meio de terrenos diluvianos, algumas vezes a mui

tas centenas de léguas das montanhas donde foram arrancados. É claro

que só a violência das correntes há podido transportá-los a tão grandes

distâncias.

44. Outro fato não menos característico e cuja causa se não des

cobriu ainda é que só nos terrenos diluvianos se encontram os primeiros

74 N.E.: A Paleontologia situa o surgimento dos pássaros na Era Mesozoica moderna, mais exatamente

no Período Jurássico, que corresponde ao Período Secundário desta obra.

75 N.E.: Corresponde à época do Pleistoceno, no Período Quaternário da Era Cenozoica.

76 Nota de Allan Kardec: Um desses blocos, evidentemente provindo, pela sua composição, das monta

nhas da Noruega, serve de pedestal à estátua de Pedro, o Grande, em São Petersburgo.

aerólitos. Pois que somente nessa época eles começaram a cair, segue-se

que anteriormente não existia a causa que os produz.

45. Foi também por essa época que os polos começaram a cobrir-se

de gelo e que se formaram as geleiras das montanhas, o que indica notável

mudança na temperatura da Terra, mudança que deve ter sido súbita,

porquanto, se se houvesse operado gradualmente, os animais, como os

elefantes, que hoje só vivem nos climas quentes e que são encontrados

em tão grande número no estado fóssil nas terras polares, teriam tido de

retirar-se pouco a pouco para as regiões mais temperadas. Tudo denota,

ao contrário, que eles provavelmente foram colhidos de surpresa por um

grande frio e sitiados pelos gelos.77

46. Esse foi, pois, o verdadeiro dilúvio universal. Dividem-se as

opiniões relativamente às causas que devam tê-lo produzido. Quaisquer,

porém, que elas sejam, o que é certo é que o fato se deu.

A suposição mais generalizada é a de que uma brusca mudança so

freu a posição do eixo e dos polos da Terra; daí uma projeção geral das

águas sobre a superfície. Se a mudança se houvesse processado lentamen

te, a retirada das águas teria sido gradual, sem abalos, no passo que tudo

indica uma comoção violenta e inopinada. Ignorando qual a verdadeira

causa, temos que ficar no campo das hipóteses.

O deslocamento repentino das águas também pode ter ocasionado

o levantamento de certas partes da crosta sólida e a formação de novas

montanhas dentro dos mares, conforme se verificou em começo do perío

do terciário. Mas, além de que, então, o cataclismo não teria sido geral,

isso não explicaria a mudança subitânea da temperatura dos polos.

47. Na tormenta determinada pelo deslocamento das águas, perece

ram muitos animais; outros, a fim de escaparem à inundação, se retiraram

para os lugares altos, para as cavernas e fendas, onde sucumbiram em

massa, ou de fome, ou entredevorando-se, ou, ainda, talvez, pela irrupção

77 Nota de Allan Kardec: Em 1771, o naturalista russo Pallas [Peter Simon Pallas (1741–1811), alemão,

se tornou famoso na Rússia] encontrou nos gelos do Norte o corpo inteiro de um mamute revestido

da pele e conservando parte das suas carnes. Em 1799, descobriu-se outro, igualmente encerrado

num enorme bloco de gelo, na embocadura do Lena, na Sibéria, e que foi descrito pelo naturalista

Adams. Os iacutos das circunvizinhanças lhe despedaçaram as carnes para alimentar seus cães. A

pele se achava coberta de pelos negros e o pescoço guarnecia-o espessa crina. A cabeça sem as

defesas, que mediam mais de 4 metros, pesava mais de 200 quilos. Seu esqueleto está no museu

de São Petersburgo. Nas ilhas e nas bordas do mar glacial encontra-se tão grande quantidade de

defesas, que elas fazem objeto de considerável comércio, sob o nome de marfim fóssil ou da Sibéria.

das águas nos sítios onde se tinham refugiado e donde não puderam fugir.

Assim se explica a grande quantidade de ossadas de animais diversos, car

nívoros e outros, que são encontrados de mistura em certas cavernas, que

por essa razão foram chamadas brechas ou cavernas ossosas. São encontradas

as mais das vezes sob as estalagmites. Nalgumas, as ossadas parecem ter

sido arrastadas para ali pela correnteza das águas.78

Período pós-diluviano ou atual.79

Nascimento do homem

48. Uma vez restabelecido o equilíbrio na superfície do planeta,

prontamente a vida vegetal e animal retomou o seu curso. Consolidado,

o solo assumiu uma colocação mais estável; o ar, purificado, se tornara

apropriado a órgãos mais delicados. O Sol, brilhando em todo o seu es

plendor através de uma atmosfera límpida, difundia, com a luz, um calor

menos sufocante e mais vivificador do que o da fornalha interna. A Terra

se povoava de animais menos ferozes e mais sociáveis; mais suculentos,

os vegetais proporcionavam alimentação menos grosseira; tudo, enfim,

se achava preparado no planeta para o novo hóspede que o viria habi

tar. Apareceu então o homem, último ser da criação, a inteligência desse

ser concorreria, dali em diante, para o progresso geral, progredindo ele

próprio.

49. O homem só terá existido na Terra depois do período diluvia

no, ou terá surgido antes dessa época? Questão é esta muito controver

tida hoje, mas sua solução, seja qual for, nada mudará no conjunto dos

fatos verificados, nem fará que o aparecimento da espécie humana não

seja anterior, de muitos milhares de anos, à data que lhe assina a Gênese

bíblica.

O que fez se supusesse que o advento dos homens ocorreu poste

riormente ao dilúvio foi o fato de se não ter achado vestígio autêntico da

sua existência no período anterior. As ossadas descobertas em diversos

78 Nota de Allan Kardec: Conhece-se grande número de cavernas semelhantes, algumas de enorme ex

tensão. Várias existem, no México, de muitas léguas. A de Aldesberg, em Carniola (Áustria), tem nada

menos de três léguas. Uma das mais notáveis é a de Gailenreuth, no Würtemberg. Há muitas delas na

França, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália (Sicília) e outros países da Europa.

lugares e que geraram a crença na existência de uma raça de gigantes an

tediluvianos foram reconhecidas como de elefantes.

O que está fora de dúvida é que não existia o homem, nem no pe

ríodo primário, nem no de transição, nem no secundário, não só porque

nenhum traço dele se descobriu, como também porque não havia para

ele condições de vitalidade. Se o seu aparecimento se deu no terciário,

só pode ter sido no fim do período e bem pouco então se há de ele ter

multiplicado.

Ademais, por haver sido curto, o período antediluviano não deter

minou mudanças notáveis nas condições atmosféricas, tanto que eram os

mesmos os animais, antes e depois dele; não é, pois, impossível que o apa

recimento do homem tenha precedido esse grande cataclismo; está hoje

comprovada a existência do macaco naquela época e recentes descobertas

parecem confirmar a do homem.80, 81

Como quer que seja, tenha o homem aparecido ou não antes do

grande dilúvio universal, o que é certo é que o seu papel humanitário

somente no período pós-diluviano começou a esboçar-se. Pode-se, por

tanto, considerar caracterizado pela sua presença esse período.

Teorias sobre a

formação da Terra

• Teoria da projeção • Teoria da condensação

• Teoria da incrustação • Alma da Terra

Teoria da projeção

1. De todas as teorias concernentes à origem da Terra, a que al

cançou maior voga, nestes últimos tempos,82 é a de Buffon,83 quer pela

posição que ele desfrutava no mundo sábio, quer pela razão de não se

saber mais do que ele disse naquela época.

Vendo que todos os planetas se movem na mesma direção, do oci

dente para o oriente, e no mesmo plano, a percorrer órbitas cuja inclina

ção não passa de 7 graus e meio, concluiu Buffon, dessa uniformidade,

que eles hão de ter sido postos em movimento pela mesma causa.

De igual ponto de vista, formulou a suposição de que, sendo o Sol

uma massa incandescente em fusão, um cometa se haja chocado com

ele e, raspando-lhe a superfície, tenha destacado desta uma porção que,

projetada no espaço pela violência do choque, se dividiu em muitos frag

mentos, formando esses fragmentos os planetas, que continuaram a mo

ver-se circularmente, pela combinação das forças centrífuga e centrípeta,

no sentido dado pela direção do choque primitivo, isto é, no plano da

eclíptica.

Os planetas seriam assim partes da substância incandescente do Sol

e, por conseguinte, também teriam sido incandescentes, em sua origem.

Levaram para se resfriar e consolidar tempo proporcionado aos seus vo

lumes respectivos e, quando a temperatura o permitiu, a vida lhes des

pontou na superfície.

Em virtude do gradual abaixamento do calor central, a Terra che

garia, ao cabo de certo tempo, a um estado de resfriamento completo; a

massa líquida se congelaria inteiramente e o ar, cada vez mais condensa

do, acabaria por desaparecer. O abaixamento da temperatura, tornando

impossível a vida, acarretaria a diminuição, depois o desaparecimento de

todos os seres organizados. Tendo começado pelos polos, o resfriamento

ganharia pouco a pouco todas as regiões, até ao Equador.

Tal, segundo Buffon, o estado atual da Lua que, menor do que a

Terra, seria hoje um mundo extinto, do qual a vida se acha para sempre

excluída. O próprio Sol viria a ter, afinal, a mesma sorte. De acordo com

os seus cálculos, a Terra teria gasto cerca de 74.000 anos para chegar à sua

temperatura atual e dentro de 93.000 anos veria o termo da existência da

natureza organizada.

2. A teoria de Buffon, contraditada pelas novas descobertas da

Ciência, está presentemente abandonada, quase de todo, pelas razões

seguintes:

1a Durante longo tempo, acreditou-se que os cometas eram corpos

sólidos, cujo encontro com um planeta podia ocasionar a destruição deste

último. Nessa hipótese, a suposição de Buffon nada tinha de improvável.

Sabe-se, porém, agora, que os cometas são formados de uma matéria ga

sosa, bastante rarefeita,84 entretanto, para que se possam perceber estrelas

de grandeza média através de seus núcleos. Nessas condições, oferecendo

menos resistência do que o Sol, impossível é que, num choque violento

com este, eles sejam capazes de arremessar ao longe qualquer porção da

massa solar.

84 N.E.: A Ciência atualmente define os cometas como blocos de gelo e rocha com alguns quilômetros

de extensão; quando um cometa se aproxima do Sol, o gelo superficial se evapora, formando uma

“bola” de vapor que adquire a forma de longa cauda.

Hoje, sabemos que os cometas não são tão inofensivos quando se chocam com planetas; mas em

choque com o Sol não causaria qualquer dano a essa estrela.

Teorias sobre a formação da Terra

2a A natureza incandescente do Sol é também uma hipótese, que

nada, até o presente, confirma, que, ao contrário, as observações parecem

desmentir. Se bem ainda não haja certeza quanto à sua natureza, os po

derosos meios de observação de que hoje dispõe a Ciência hão permitido

que ele seja melhor estudado, de modo a admitir-se, em geral, que é um

globo composto de matéria sólida, cercada de uma atmosfera luminosa,

ou fotosfera, que não se acha em contato com a sua superfície.85

3a Ao tempo de Buffon, somente se conheciam os seis planetas

de que os antigos eram conhecedores: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte,

Júpiter e Saturno. Descobriram-se depois outros em grande número, três

dos quais, principalmente, Juno, Ceres e Palas, têm suas órbitas inclina

das de 13, 10 e 34 graus, o que não concorda com um movimento único

de projeção.86

4a Reconheceram-se absolutamente inexatos os cálculos de Buffon

acerca do resfriamento, desde que Fourier descobriu a lei do decresci

mento do calor. A Terra não precisou apenas de 74.000 anos para chegar

à sua temperatura atual, mas de alguns milhões de anos.87

5a Buffon unicamente considerou o calor central da Terra, sem le

var em conta o dos raios solares. Ora, é sabido hoje, em presença de

dados científicos de rigorosa precisão, obtidos pela experiência, que, em

virtude da espessura da crosta terrestre, o calor interno do globo não con

tribui, de há muito, senão em parcela insignificante, para a temperatura

da superfície exterior. São periódicas as variações que essa temperatura

sofre e devidas à ação preponderante do calor solar (cap. VII, item 25).

Permanente que é o efeito dessa causa, ao passo que o do calor central é

nulo, ou quase nulo, a diminuição deste não pode trazer à superfície da

Terra sensíveis modificações. Para que a Terra se tornasse inabitável pelo

resfriamento, fora necessária a extinção do Sol.88

85 Nota de Allan Kardec: Completa dissertação, à altura da ciência moderna, sobre a natureza do Sol e dos cometas, se encontra nos Estudos e leituras sobre a Astronomia, de Camille Flammarion.

88 Nota de Allan Kardec: Vejam-se, para maiores esclarecimentos sobre este assunto e sobre a lei do decrescimento do calor: Cartas acerca das revoluções do globo, pelo Dr. Bertrand, ex-aluno da Escola Politécnica de Paris, carta II. — Esta obra, à altura da ciência moderna, escrita com simplicidade e sem espírito de sistema, encerra um estudo geológico de grande interesse.

3. A teoria da formação da Terra pela condensação da matéria cós

mica é a que hoje prevalece na Ciência, como a que a observação melhor

justifica, a que resolve maior número de dificuldades e que se apoia, mais

do que todas as outras, no grande princípio da unidade universal. É a que

deixamos exposta acima, no cap. VI: Uranografia geral.

Estas duas teorias, como se vê, conduzem ao mesmo resultado:

estado primitivo, de incandescência, do globo; formação de uma crosta

sólida pelo resfriamento; existência do fogo central e aparecimento da

vida orgânica, logo que a temperatura a tornou possível. Diferem, no

entanto, em pontos essenciais e é provável que, se Buffon vivesse atual

mente, adotaria outras ideias.

A Geologia toma a Terra no ponto em que é possível a observação

direta. Seu estado anterior, por escapar à observação, só pode ser conjetu

ral. Ora, entre duas hipóteses, o bom senso diz que se deve preferir a que

a lógica sanciona e que mais acorde se mostra com os fatos observados.

Teoria da incrustação

4. Apenas por não deixar de mencioná-la, falamos desta teoria, que

nada tem de científica, mas, que, entretanto, conseguiu certa repercus

são nos últimos tempos e seduziu algumas pessoas. Acha-se resumida na

carta seguinte:

“Deus, segundo a Bíblia, criou o mundo em seis dias, quatro mil

anos antes da Era Cristã. Essa afirmativa os geólogos a contestam, firma

dos no estudo dos fósseis e dos milhares de caracteres incontestáveis de

vetustez que transportam a origem da Terra a milhões de anos. Entretan

to, a Escritura disse a verdade e também os geólogos. E foi um simples

campônio89 quem os pôs de acordo, ensinando que o nosso globo não é

mais do que um planeta incrustador, muito moderno, composto de ma

teriais muito antigos.

“Após o arrebatamento do planeta desconhecido, que chegara à ma

turidade, ou de harmonia com o que existiu no lugar que hoje ocupa

mos, a alma da Terra recebeu ordem de reunir seus satélites, para formar

a Terra atual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Quatro

apenas desses astros concordaram com a associação que lhes era proposta.

Só a Lua persistiu na sua autonomia, visto que também os globos têm o

seu livre-arbítrio. Para proceder a essa fusão, a alma da Terra dirigiu aos

satélites um raio magnético atrativo, que pôs em estado cataléptico todo

o mobiliário vegetal, animal e hominal que eles possuíam e que trouxe

ram para a comunidade. A operação teve por únicas testemunhas a alma

da Terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nessa grande

obra, abrindo aqueles globos para lhes dar entranhas comuns. Praticada a

soldadura, as águas se escoaram para os vazios que a ausência da Lua dei

xara. As atmosferas se confundiram e começou o despertar ou a ressurrei

ção dos germens que estavam em catalepsia. O homem foi o último a ser

tirado do estado de hipnotismo e se viu cercado da luxuriante vegetação

do paraíso terrestre e dos animais que pastavam em paz ao seu derredor.

Tudo isto se podia fazer em seis dias, com obreiros tão poderosos como

os que Deus encarregara da tarefa. O planeta Ásia trouxe a raça amarela,

a de civilização mais antiga; o África, a raça negra; o Europa, a raça branca

e o América, a raça vermelha.

“Assim, certos animais, de que apenas os despojos são encontrados,

nunca teriam vivido na Terra atual, mas teriam sido transportados de

outros mundos desmanchados pela velhice. Os fósseis, que se encontram

em climas sob os quais não teriam podido existir neste mundo, viviam

sem dúvida em zonas muito diferentes nos globos onde nasceram. Tais

despojos na Terra se encontram nos polos, ao passo que os animais vi

viam no equador dos globos a que pertenciam.”

5. Esta teoria tem contra si os mais positivos dados da ciência ex

perimental, além de que deixa intacta a questão mesma que ela pretende

resolver, a questão da origem. Diz, é certo, como a Terra se teria formado,

mas não diz como se formaram os quatro mundos que se reuniram para

constituí-la.

Se as coisas se houvessem passado assim, como se explicaria a ine

xistência absoluta de quaisquer vestígios daquelas imensas soldaduras,

não obstante terem ido até as entranhas do globo? Cada um daqueles

mundos, o Ásia, o África, o Europa e o América, que se pretende ha

verem trazido os materiais que lhes eram próprios, teria uma geologia

particular, diferente da dos demais, o que não é exato. Ao contrário, vê-se,

primeiramente, que o núcleo granítico é uniforme, de composição ho

mogênea em todas as partes do globo, sem solução de continuidade. De

pois, as camadas geológicas se apresentam de formação igual, idênticas

quanto à constituição, superpostas, em toda parte, na mesma ordem,

contínuas, sem interrupção, de um lado a outro dos mares, da Europa

à Ásia, à África, à América, e reciprocamente. Essas camadas que dão

testemunho das transformações do globo, atestam que tais transforma

ções se operaram em toda a sua superfície e não, apenas, numa porção

desta; mostram os períodos de aparecimento, existência, e desapareci

mento das mesmas espécies animais e vegetais, nas diferentes partes do

mundo, igualmente; mostram a fauna e a flora desses períodos recuados

a marcharem simultaneamente por toda parte, sob a influência de uma

temperatura uniforme, e a mudar por toda parte de caráter, à medida que

a temperatura se modifica. Semelhante estado de coisas não se concilia

com a formação da Terra por adjunção de muitos mundos diferentes.

Ademais, é de perguntar-se o que teria sido feito do mar, que ocu

pa o vazio deixado pela Lua, se esta não se houvesse recusado a reunir-se

às suas irmãs. Que aconteceria à Terra atual, se um dia a Lua tivesse a

fantasia de vir tomar o seu lugar, expulsando deste o mar?

6. Semelhante sistema seduziu algumas pessoas, porque parecia ex

plicar a presença das diferentes raças de homens na Terra e a localização

delas. Mas, uma vez que essas raças puderam proliferar em mundos dis

tintos, por que não teriam podido desenvolver-se em pontos diversos do

mesmo globo? É querer resolver uma dificuldade por meio de outra difi

culdade maior. Efetivamente, quaisquer que fossem a rapidez e a destreza

com que a operação se praticasse, aquela junção não se houvera podido

realizar sem violentos abalos. Quanto mais rápida ela fosse, tanto mais

desastrosos haviam de ser os cataclismos. Parece, pois, impossível que

seres apenas mergulhados em sono cataléptico hajam podido resistir-lhes,

para, em seguida, despertarem tranquilamente. Se fossem unicamente

germens, em que consistiriam? Como é que seres inteiramente formados

se reduziriam ao estado de germens? Restaria sempre a questão de saber--se como esses germens novamente se desenvolveram. Ainda aí, teríamos

a Terra a formar-se por processo miraculoso, processo, porém, menos

poético e menos grandioso do que o da Gênese bíblica, enquanto que as

Teorias sobre a formação da Terra

leis naturais dão, da sua formação, uma explicação muito mais completa

e, sobretudo, mais racional, deduzida da observação.90, 91

Alma da Terra

7. A alma da Terra desempenhou papel principal na teoria da in

crustação. Vejamos se esta ideia tem melhor fundamento.

O desenvolvimento orgânico está sempre em relação com o desen

volvimento do princípio intelectual. O organismo se completa à medida

que se multiplicam as faculdades da alma. A escala orgânica acompanha

constantemente, em todos os seres, a progressão da inteligência, desde

o pólipo até o homem, e não podia ser de outro modo, pois que a alma

precisa de um instrumento apropriado à importância das funções que

lhe compete desempenhar. De que serviria à ostra possuir a inteligência

do macaco, sem os órgãos necessários à sua manifestação? Se, portanto,

a Terra fosse um ser animado, servindo de corpo a uma alma especial,

essa alma, por efeito mesmo da sua constituição, teria de ser ainda mais

rudimentar do que a do pólipo, visto que a Terra não tem, sequer, a vi

talidade da planta, ao passo que, pelo papel que lhe atribuíram à alma,

fizeram dela um ser dotado de razão e do mais completo livre-arbítrio,

em resumo: um como Espírito superior, o que não é racional, porquanto

nunca nenhum Espírito se achou menos bem aquinhoado, nem mais

aprisionado. Ampliada neste sentido, a ideia da alma da Terra tem, então,

de ser arrolada entre as concepções sistemáticas e quiméricas.

Por alma da Terra, pode entender-se, mais racionalmente, a co

letividade dos Espíritos incumbidos da elaboração e da direção de seus

elementos constitutivos, o que já supõe certo grau de desenvolvimento

intelectual; ou, melhor ainda: o Espírito a quem está confiada a alta di

reção dos destinos morais e do progresso de seus habitantes, missão que

somente pode ser atribuída a um ser eminentemente superior em saber e

90 Nota de Allan Kardec: Quando tal sistema se liga a toda uma cosmogonia, é de perguntar-se sobre

que base racional pode o resto assentar.

A concordância que, por meio desse sistema, se pretende estabelecer, entre a Gênese bíblica e a

Ciência, é inteiramente ilusória, pois que a própria Ciência o contradiz.

O autor da carta acima, homem de grande saber, seduzido, um instante, por essa teoria, logo lhe

descobriu os lados vulneráveis e não tardou a combatê-la com as armas da Ciência.

em sabedoria. Em tal caso, esse Espírito não é, propriamente falando, a

alma da Terra, porquanto não se acha encarnado nela, nem subordinado

ao seu estado material. É um chefe preposto ao seu governo, como um

general o é ao comando de um exército.

Um Espírito, incumbido de missão tão importante qual a do go

verno de um mundo, não poderia ter caprichos, ou, então, teríamos de

reconhecer em Deus a imprevidência de confiar a execução de suas leis a

seres capazes de lhes contravir, a seu bel-prazer. Ora, segundo a doutrina

da incrustação, a má vontade da alma da Lua é que houvera dado causa

a que a Terra ficasse incompleta. Há ideias que a si mesmas se refutam.

(Revista espírita, setembro de 1868.)

154

M

Revoluções gerais ou parciais

1. Os períodos geológicos marcam as fases do aspecto geral do glo

bo, em consequência das suas transformações. Mas, com exceção do perí

odo diluviano, que se caracterizou por uma subversão repentina, todos os

demais transcorreram lentamente, sem transições bruscas. Durante todo

o tempo que os elementos constitutivos do globo levaram para tomar

suas posições definitivas, as mutações houveram de ser gerais. Uma vez

consolidada a base, só se devem ter produzido modificações parciais, na

superfície.

2. Além das revoluções gerais, a Terra experimentou grande número

de perturbações locais, que mudaram o aspecto de certas regiões. Como

no tocante às outras duas causas contribuíram para essas perturbações: o

fogo e a água.

O fogo atuou produzindo: ou erupções vulcânicas que sepulta

ram, sob espessas camadas de cinzas e lavas, os terrenos circunjacen

tes, fazendo desaparecer cidades com seus habitantes; ou terremotos;

ou levantamentos da crosta sólida, que impeliam as águas para as re

giões mais baixas; ou o afundamento, em maior ou menor extensão,

dessa mesma crosta, nalguns lugares, para onde as águas se precipitaram,

deixando em seco outros lugares. Foi assim que surgiram ilhas no meio

do oceano, enquanto outras desapareceram; que porções de continentes

se separaram e formaram ilhas; que braços de mar, secados, ligaram ilhas

e continentes.

Quanto à água, essa atuou, produzindo: ou a irrupção ou a retira

da do mar nalgumas costas; ou desmoronamentos que, interceptando as

correntes líquidas, formaram lagos; ou transbordamentos e inundações;

ou, enfim, aterros nas embocaduras dos rios. Esses aterros, rechaçando o

mar, criaram novos territórios. Tal a origem do delta do Nilo, ou Baixo

Egito; do delta do Ródano ou Camarga.

Idade das montanhas

3. Examinando-se os terrenos dilacerados pelo erguimento das mon

tanhas e das camadas que lhes formam os contrafortes, possível se torna

determinar-lhes a idade geológica. Por idade geológica das montanhas, não

se deve entender o número de anos que elas contam de existência, mas o

período em que se formaram e, portanto, a relativa ancianidade que apre

sentam. Fora errôneo acreditar-se que semelhante ancianidade correspon

de à elevação que lhes é própria, ou à natureza exclusivamente granítica

que revelem, uma vez que a massa de granito, ao dar-se o seu levantamen

to, pode ter perfurado e separado as camadas superpostas.

Comprovou-se assim, por meio da observação, que as montanhas

dos Vosges, da Bretanha e da Côte-d’Or, na França, que não são muito

elevadas, pertencem às mais antigas formações. Datam do período de tran

sição, senão anteriores aos depósitos de hulha. O Jura se formou no meado

do período secundário; é contemporâneo dos reptis gigantes. Os Pireneus

se formaram mais tarde, no começo do período terciário. O Monte Bran

co e o grupo dos Alpes ocidentais são posteriores aos Pireneus e datam

da metade do período terciário. Os Alpes orientais, que compreendem as

montanhas do Tirol, são ainda mais recentes, porquanto só se formaram

pelos fins desse mesmo período. Algumas montanhas da Ásia são mesmo

posteriores ao período diluviano, ou lhe são contemporâneas.

Revoluções do globo

Esses levantamentos hão de ter ocasionado grandes perturbações

locais e inundações mais ou menos consideráveis, pelo deslocamento das

águas, pela interrupção e mudança do curso dos rios.92

Dilúvio bíblico

4. O dilúvio bíblico, também conhecido pela denominação de

“grande dilúvio asiático”, é fato cuja realidade não se pode contestar.

Deve tê-lo ocasionado o levantamento de uma parte das montanhas da

quela região, como o do México. Corrobora esta opinião a existência de

um mar interior, que ia outrora do mar Negro ao oceano Boreal, compro

vada pelas observações geológicas. O mar de Azov, o mar Cáspio, cujas

águas são salgadas, embora nenhuma comunicação tenham com nenhum

outro mar; o lago Aral e os inúmeros lagos espalhados pelas imensas

planícies da Tartália e as estepes da Rússia parecem restos daquele antigo

mar. Por ocasião do levantamento das montanhas do Cáucaso, posterior

ao dilúvio universal, parte daquelas águas foi recalcada para o Norte, na

direção do oceano Boreal; outra parte, para o Sul, em direção ao oceano

Índico. Estas inundaram e devastaram precisamente a Mesopotâmia e

toda a região em que habitaram os antepassados do povo hebreu. Em

bora esse dilúvio se tenha estendido por uma superfície muito grande, é

atualmente ponto averiguado que ele foi apenas local; que não pode ter

sido causado pela chuva, pois, por muito copiosa que esta fosse e ainda

que se prolongasse por quarenta dias, o cálculo prova que a quantidade

de água caída das nuvens não podia bastar para cobrir toda a terra, até

acima das mais altas montanhas.

92 Nota de Allan Kardec: O século XVIII registrou notável exemplo de um fenômeno desse gênero.

A seis dias de marcha da cidade do México, existia, em 1750, uma região fértil e bem cultivada,

onde davam em abundância arroz, milho e bananas. No mês de junho, pavorosos tremores de terra

abalaram o solo, renovando-se continuamente durante dois meses inteiros. Na noite de 28 para 29

de setembro, violenta convulsão se produziu; um território de muitas léguas de extensão entrou a

erguer-se pouco a pouco e acabou por alcançar a altitude de 500 pés, numa superfície de 10 léguas

quadradas. O terreno ondulava, como as vagas do mar ao sopro da tempestade, milhares de montí

culos se elevavam e afundavam alternativamente; afinal, abriu-se um abismo de perto de 3 léguas,

donde eram lançados à prodigiosa altura fumo, fogo, pedras esbraseadas e cinzas. Seis montanhas

surgiram desse abismo hiante, entre as quais o vulcão a que foi dado o nome de Jorullo, que agora

se eleva a 550 metros acima da antiga planície. No momento em que principiaram os abalos do solo,

os dois rios Cuitimba e San Pedro, refluindo, inundaram toda a planície hoje ocupada pelo Jorullo; no terreno, porém, que sem cessar se elevava, outro sorvedouro se abriu e os absorveu. Os dois reapa

receram mais tarde, a oeste, num ponto muito afastado de seus antigos leitos. (Lois Figuier, A Terra ntes do dilúvio, p. 370.)

Para os homens de então, que não conheciam mais do que uma

extensão muito limitada da superfície do globo e que nenhuma ideia

tinham da sua configuração, desde que a inundação invadiu os países

conhecidos, invadida fora, para eles, a Terra inteira. Se a essa crença

aditarmos a forma imaginosa e hiperbólica da descrição, forma peculiar

ao estilo oriental, já não nos surpreenderá o exagero da narração bíblica.

5. O dilúvio asiático foi evidentemente posterior ao aparecimento

do homem na Terra, visto que a lembrança dele se conservou pela tradição

em todos os povos daquela parte do mundo, os quais o consagraram em

suas teogonias.93

É igualmente posterior ao grande dilúvio universal que assinalou o

início do atual período geológico. Quando se fala de homens e de animais

antediluvianos, a referência é àquele primeiro cataclismo.

Revoluções periódicas

6. Além do seu movimento anual em torno do Sol, origem das

estações, do seu movimento de rotação sobre si mesma em 24 horas,

origem do dia e da noite, tem a Terra um terceiro movimento que se

completa em cerca de 25.000 anos, ou, mais exatamente, em 25.868

anos, e que produz o fenômeno denominado, em Astronomia, precessão

dos equinócios (cap. V, item 11). Este movimento, que não se pode ex

plicar em poucas palavras, sem o auxílio de figuras e sem uma demons

tração geométrica, consiste numa espécie de oscilação circular, que se

há comparado à de um pião a morrer, e por virtude da qual o eixo da

Terra, mudando de inclinação, descreve um duplo cone, cujo vértice

93 Nota de Allan Kardec: A lenda indiana sobre o dilúvio refere, segundo o livro dos Vedas, que Brama, transformado em peixe, se dirigiu ao piedoso monarca Vaivaswata e lhe disse: “Chegou o momento

da dissolução do universo; em breve estará destruído tudo o que existe na Terra. Tens que cons

truir um navio em que embarcarás, depois de teres embarcado sementes de todos os vegetais.

Esperar-me-ás nesse navio e eu virei ter contigo, trazendo à cabeça um chifre pelo qual me reco

nhecerás.” O santo obedeceu; construiu um navio, embarcou nele e o atou por um cabo muito forte

ao chifre do peixe. O navio foi rebocado durante muitos anos com extrema rapidez, por entre as

trevas de uma tremenda tempestade, abordando, afinal, ao cume do monte Himawat (Himalaia).

Brama ordenou em seguida a Vaivaswata que criasse todos os seres e com eles povoasse a Terra.

É flagrante a analogia desta lenda com a narrativa bíblica de Noé. Da Índia ela passara ao Egito,

como uma multidão de outras crenças. Ora, sendo o livro dos Vedas anteriores ao de Moisés, a

narração que naquele se encontra, do dilúvio, não pode ser uma cópia da deste último. O que é

provável é que Moisés, que aprendera as doutrinas dos sacerdotes egípcios, haja tomado a estes

a sua descrição.

está no centro do planeta, abrangendo as bases desses cones a superfície

circunscrita pelos círculos polares, isto é, uma amplitude de 23 graus e

meio de raio.

7. O equinócio é o instante em que o Sol, passando de um he

misfério a outro, se encontra perpendicular ao Equador, o que acontece

duas vezes por ano, a 21 de março, quando o Sol passa para o hemisfério

boreal, e a 22 de setembro, quando volta ao hemisfério austral.

Mas em consequência da gradual mudança na obliquidade do eixo,

o que acarreta outra mudança na obliquidade do Equador sobre a eclíp

tica, o momento do equinócio avança cada ano de alguns minutos (25

minutos e 7 segundos). A esse avanço é que se deu o nome de precessão dos

equinócios (do latim praecessĭo, ação de preceder).

Com o tempo, esses poucos minutos fazem horas, dias, meses e

anos, resultando daí que o equinócio da primavera, que agora se verifica

no mês de março, em dado tempo se verificará em fevereiro, depois em

janeiro, depois em dezembro. Então o mês de dezembro terá a tempera

tura de março e março a de junho e assim por diante, até que, voltando

ao mês de março, as coisas se encontrarão de novo no estado atual, o

que se dará ao cabo de 25.868 anos, para recomeçar indefinidamente a

mesma revolução.94

8. Desse movimento cônico do eixo, resulta que os polos da Terra

não olham constantemente os mesmos pontos do céu; que a Estrela Po

lar não será sempre estrela polar; que os polos gradualmente se inclinam

mais ou menos para o Sol e recebem dele raios mais ou menos diretos,

donde se segue que a Islândia e a Lapônia, por exemplo, localizadas sob

o círculo polar, poderão, em dado tempo, receber raios solares como se

estivessem na latitude da Espanha e da Itália e que, na posição do extre

mo oposto, a Espanha e a Itália poderão ter a temperatura da Islândia e

94 Nota de Allan Kardec: A precessão dos equinócios ocasiona outra mudança: a que se opera na

posição dos signos do zodíaco. Girando a Terra ao derredor do Sol em um ano, à medida que ela

avança, o Sol, cada mês, se encontra diante de uma constelação. Estas são em número de doze, a

saber: o Carneiro, o Touro, os Gêmeos, o Câncer, o Leão, a Virgem, a Balança, o Escorpião, o Sagitário, o

Capricórnio, o Aquário e os Peixes. São chamadas constelações zodiacais, ou signos do zodíaco, e for

mam um círculo no plano do equador terrestre. Conforme o mês do nascimento de um indivíduo

dizia-se que ele nascera sob tal ou tal signo; daí os prognósticos da Astrologia. Mas, em virtude da

precessão dos equinócios, acontece que os meses já não correspondem às mesmas constelações.

Um que nasça no mês de julho já não está no signo do Leão, porém, no do Câncer. Cai assim a ideia

supersticiosa da influência dos signos. (Cap. V, item 12.)da Lapônia, e assim por diante, a cada renovação do período de 25.000

anos.95

9. Ainda não puderam ser determinadas com precisão as conse

quências deste movimento, porque somente se há podido observar uma

pequena parte da sua revolução. A respeito, pois, não há mais do que

presunções, algumas das quais com caráter de probabilidade.

Essas consequências são:

1a O aquecimento e o resfriamento alternativos dos polos e, por

conseguinte, a fusão dos gelos polares durante a metade do período

de 25.000 anos e a nova formação deles durante a outra metade desse

período. Resultaria daí não estarem os polos condenados a uma per

pétua esterilidade, cabendo-lhes gozar a seu turno dos benefícios da

fertilidade.

2a O deslocamento gradativo do mar, fazendo-o invadir pouco a

pouco umas terras e pôr a descoberto outras, para de novo as abandonar,

voltando ao seu leito anterior. Esse movimento periódico, indefinida

mente renovado, constituiria uma verdadeira maré universal de 25.000

anos.

A lentidão com que se opera esse movimento do mar torna-o qua

se imperceptível para cada geração. Faz-se, porém, sensível ao cabo de

alguns séculos. Nenhum cataclismo súbito pode ele causar, porque os

homens se retiram, de geração em geração, à proporção que o mar avan

ça, e avançam pelas terras donde o mar se retira. É a essa causa, mais que

provável, que alguns sábios atribuem o afastamento do mar de certas

costas e a invasão de outras por ele.

10. O deslocamento demorado, gradual e periódico do mar é fato

que a experiência comprova e numerosos exemplos confirmam, em todos

os pontos do globo. Tem por efeito o entretenimento das forças produ

tivas da Terra. A longa imersão é para os terrenos um tempo de repou

so, durante o qual eles recuperam os princípios vitais esgotados por uma

não menos longa produção. Os imensos depósitos de matérias orgâni

cas, formados pela permanência das águas durante séculos e séculos, são

95 Nota de Allan Kardec: O deslocamento gradual das linhas isotérmicas, fenômeno que a Ciência

reconhece de modo tão positivo como o do deslocamento do mar, é um fato material que apoia

esta teoria.

Cataclismos futuros

11. As grandes comoções telúricas se têm produzido nas épocas em

que a crosta sólida da Terra, pela sua fraca espessura, quase nenhuma re

sistência oferecia à efervescência das matérias em ignição no seu interior.

Tais comoções foram diminuindo à proporção que aquela crosta se con

solidava. Numerosos vulcões já se acham extintos, outros os terrenos de

formação posterior soterraram.

Ainda, certamente, poderão produzir-se perturbações locais, por

efeito de erupções vulcânicas, da eclosão de alguns vulcões novos, de

inundações repentinas de algumas regiões; poderão do mar surgir ilhas

e outras ser por ele tragadas; mas passou o tempo dos cataclismos ge

rais, como os que assinalaram os grandes períodos geológicos. A Terra

adquiriu uma estabilidade que, sem ser absolutamente invariável, coloca

doravante o gênero humano ao abrigo de perturbações gerais, a menos

96 Nota de Allan Kardec: Entre os fatos mais recentes que provam o deslocamento do mar, podem

citar-se estes:

No golfo da Gasconha [ou Golfo de Biscaia, separa a costa oeste da França da costa norte da Espanha],

entre o velho Soulac e a Torre de Cordouan, quando o mar está calmo, percebe-se no fundo da água

trechos de muralha: são os restos da antiga e grande cidade de Noviomagus, invadida pelas ondas

em 580. O rochedo de Cordouan, que se achava então ligado à margem, está agora a 12 quilômetros.

No mar da Mancha, sobre a costa do Havre, as águas dia a dia ganham terreno e minam as penedias de

Sainte-Adresse, que pouco a pouco desmoronam. A dois quilômetros da costa entre Sainte-Adresse

e o cabo de Hève, existe um banco que outrora se achava à vista e ligado à terra firme. Antigos do

cumentos atestam que nesse lugar, por sobre o qual hoje se navega, existia a aldeia de Saint-Denis--chef-de-Caux. Tendo o mar invadido, no século XIV, o terreno, a igreja foi tragada em 1378. Dizem

que, com bom tempo, se lhe veem os restos no fundo do mar.

Em quase toda a extensão do litoral da Holanda, o mar só é contido a poder de diques, que de tempos

a tempos se rompem. O antigo lago de Flevo, que se reuniu ao mar em 1225, forma hoje o golfo de

Zuyderzée. Essa irrupção do oceano tragou muitas povoações.

Segundo isto, o território de Paris e da França toda seria de novo ocupado pelo mar, como já o foi

muitas vezes, conforme o demonstram as observações geológicas. Então, as partes montanhosas

formarão ilhas, como o são agora Jersey, Guernesey e a Inglaterra, outrora contíguas ao continente.

Navegar-se-á por sobre regiões que atualmente se percorrem de caminho de ferro; os navios apor

tarão a Montmartre, ao monte Valeriano, aos outeiros de Saint-Cloud e de Meudon; os bosques e

florestas, agora lugares de passeio, ficarão sepultados nas águas, cobertos de limo e povoados de

peixes, que substituirão as aves.

O dilúvio bíblico não pode ter tido essa causa, pois que foi repentina a invasão das águas e de curta duração a permanência delas, ao passo que, de outro modo, essa permanência houvera sido de muitos milhares de anos e ainda duraria, sem que os homens dessem por isso.

que intervenham causas desconhecidas, a ela estranhas e que de modo

nenhum se possam prever.97

12. Quanto aos cometas, estamos hoje perfeitamente tranquiliza

dos com relação à influência que exercem, mais salutar do que nociva,

por parecerem eles destinados a reabastecer os mundos, se assim nos

podemos exprimir, trazendo-lhes os princípios vitais que eles armaze

nam em sua corrida pelo espaço e com o se aproximarem dos sóis. As

sim, pois, seriam antes fontes de prosperidade, do que mensageiros de

desgraças.

A natureza fluídica, já bem comprovada (cap. VI, itens 28 e se

guintes), que lhes é própria afasta todo receio de choques violentos,

porquanto, se um deles encontrasse a Terra, esta o atravessaria, como se

passasse através de um nevoeiro.98

Ainda menos de temer é a cauda que arrastam, visto que essa mais

não é do que a reflexão da luz solar na imensa atmosfera que os envolve,

tanto assim que se mostra constantemente dirigida para o lado oposto

ao Sol, mudando de direção conformemente à posição deste astro. Essa

matéria gasosa também poderia, em virtude da rapidez com que eles

caminham, constituir uma espécie de cabeleira, semelhante à esteira dei

xada por um navio em marcha, ou à fumaça de uma locomotiva. Aliás,

muitos cometas já se têm aproximado da Terra, sem lhe causarem qual

quer dano. Em virtude das suas respectivas densidades, a Terra exerceria

sobre o cometa uma atração maior do que a dele sobre ela. Somente uns

restos de velhos preconceitos podem fazer que a presença de um cometa

inspire terror.99

13. Deve-se igualmente lançar ao rol das hipóteses quiméricas a

possibilidade do encontro da Terra com outro planeta. A regularidade e a

invariabilidade das leis que presidem aos movimentos dos corpos celestes

tornam carente de toda probabilidade semelhante encontro.100

A Terra, no entanto, terá um fim. Como? Isso ainda permanece no

domínio das conjeturas; mas, visto estar ela ainda longe da perfeição que

pode alcançar e da vetustez que lhe indicaria o declínio, seus habitantes

atuais podem estar certos de que tal não se dará ao tempo deles. (Cap. VI,

item 48 e seguintes.)

14. Fisicamente, a Terra teve as convulsões da sua infância; entrou

agora num período de relativa estabilidade: na do progresso pacífico, que

se efetua pelo regular retorno dos mesmos fenômenos físicos e pelo con

curso inteligente do homem. Está, porém, ainda, em pleno trabalho de ges

tação do progresso moral. Aí residirá a causa das suas maiores comoções.

Até que a humanidade se haja avantajado suficientemente em perfeição, pela

inteligência e pela observância das Leis divinas, as maiores perturbações ain

da serão causadas pelos homens, mais do que pela natureza, isto é, serão antes

morais e sociais do que físicas.

Aumento ou diminuição do volume da Terra

15. O volume da Terra aumenta, diminui ou permanece estacionário?

Alguns, para sustentar que o volume da Terra aumenta, se fundam

em que as plantas dão ao solo mais do que dele tiram, o que, se num

sentido é exato, noutro não o é. As plantas se nutrem tanto, e até mais,

das substâncias gasosas que haurem na atmosfera, quanto das que sugam

pelas raízes. Ora, a atmosfera faz parte integrante do globo; os gases que

a constituem provêm da decomposição dos corpos sólidos e estes, recom

pondo-se, retomam o que lhe haviam dado. É uma troca, ou, antes, uma

perpétua transformação, de tal sorte que, operando-se o crescimento de

les com o auxílio dos elementos constitutivos do globo, os despojos dos

vegetais e dos animais, por muito consideráveis que sejam, não lhe au

mentam de um átomo a massa. Se, por essa causa, a parte sólida do globo

aumentasse de modo permanente, isso se daria à custa da atmosfera, que

100 N.E.: O movimento orbital dos planetas em torno do Sol é regido por três propriedades conhecidas

como Leis de Kepler — 1a Lei: os planetas descrevem elipses das quais o Sol é um dos focos; 2a Lei: as áreas percorridas pelo raio vetor (reta que une um planeta ao Sol), são proporcionais ao tempo gasto em percorrê-las; 3a Lei: os quadrados dos tempos de revolução são proporcionais aos cubos dos semieixos maiores das órbitas.

diminuiria de outro tanto e acabaria por se tornar imprópria à vida, se

não recuperasse, pela decomposição dos corpos sólidos, o que perde pela

composição deles.

Na origem da Terra, as primeiras camadas geológicas se formaram

das matérias sólidas momentaneamente volatilizadas, por efeito da alta

temperatura, e que, condensadas mais tarde pelo resfriamento, se precipi

taram. Incontestavelmente, elas elevaram um pouco a superfície do solo,

mas sem acrescentarem coisa alguma à massa total, pois que ali apenas

havia um deslocamento de matéria. Quando, expurgada dos elementos

que continha em suspensão, a atmosfera se encontrou no estado normal,

as coisas tomaram o curso regular em que depois seguiram. Hoje, a me

nor modificação na constituição da atmosfera acarretaria, forçosamente,

a destruição dos atuais habitantes da Terra, mas também é provável que

novas raças se formassem noutras condições.

Considerada desse ponto de vista, a massa do globo, isto é, a soma

das moléculas que compõem o conjunto de suas partes sólidas, líqui

das e gasosas, é incontestavelmente a mesma, desde a sua origem. Se o

globo experimentasse uma dilatação ou uma condensação, seu volume

aumentaria ou diminuiria, sem que a massa sofresse qualquer alteração.

Portanto, se a Terra aumentasse de massa, o fato seria efeito de uma causa

estranha, pois que ela não poderia tirar de si mesma os elementos neces

sários ao seu aumento.

Há uma opinião segundo a qual o globo aumentaria de massa e de

volume pelo afluxo da matéria cósmica interplanetária. Esta ideia nada

tem de irracional, mas é por demais hipotética para ser admitida em

princípio.

“Os mundos se esgotam pelo envelhecimento e tendem a dissolver--se para servir de elementos de formação a outros universos. Restituem

pouco a pouco ao fluido cósmico universal do espaço o que dele tiraram

para formar-se. Além disso, todos os corpos se gastam pelo atrito; o mo

vimento rápido e incessante do globo através do fluido cósmico dá em

resultado diminuir-se-lhe constantemente a massa, se bem que de quanti

dade inapreciável em determinado tempo.101

“A existência dos mundos pode, a meu ver, dividir-se em três perío

dos. — Primeiro período: condensação da matéria, período esse em que

o volume do globo diminui consideravelmente, conservando-se a mesma

massa. É o período da infância. — Segundo período: contração, solidi

ficação da crosta; eclosão dos germens, desenvolvimento da vida até a

aparição do tipo mais aperfeiçoado. Nesse momento, o globo está em

toda a sua plenitude, é a época da virilidade; ele perde, mas muito pouco,

os seus elementos constitutivos. À medida que seus habitantes progridem

espiritualmente, passa ele ao período de decrescimento material; sofre per

das, não só em consequência do atrito, mas também pela desagregação

das moléculas, como uma pedra dura que, corroída pelo tempo, acaba

reduzida à poeira. Em seu duplo movimento de rotação e translação, ele

entrega ao espaço parcelas fluidificadas da sua substância, até o momento

em que se completa a sua dissolução.

“Mas, então, como o poder de atração está na razão direta da massa,

não digo do volume, diminuída a massa do globo, modificam-se as suas

condições de equilíbrio no espaço. Dominado por planetas mais podero

sos, aos quais ele não pode fazer contrapeso, resultam daí desvios nos seus

movimentos e, portanto, também profundas mudanças nas condições da

vida em sua superfície. Assim, nascimento, vida e morte; ou infância,

virilidade, decrepitude são as três fases por que passa toda aglomeração

de matéria orgânica ou inorgânica. Indestrutível, só o Espírito, que não é

matéria.” (Galileu, Sociedade de Paris, 1868.)

Formação primária dos seres vivos

1. Tempo houve em que não existiam animais; logo, eles tiveram

começo. Cada espécie foi aparecendo, à proporção que o globo adqui

ria as condições necessárias à existência delas. Isto é positivo. Como se

formaram os primeiros indivíduos de cada espécie? Compreende-se que,

existindo um primeiro casal, os indivíduos se multiplicaram. Mas, esse

primeiro casal, donde saiu? É um desses mistérios que entendem com

o princípio das coisas e sobre os quais apenas se podem formular hipó

teses. A Ciência ainda não pode resolver o problema; pode entretanto,

pelo menos, encaminhá-lo para a solução.

2. É esta a questão primordial que se apresenta: cada espécie ani

mal saiu de um casal primitivo ou de muitos casais criados, ou, se o

preferirem, germinados simultaneamente em diversos lugares?

Esta última suposição é a mais provável. Pode-se mesmo dizer que

ressalta da observação. Com efeito, o estudo das camadas geológicas

atesta, nos terrenos de idêntica formação, e em proporções enormes, a

presença das mesmas espécies em pontos do globo muito afastados uns

dos outros. Essa multiplicação tão generalizada e, de certo modo, con

temporânea, fora impossível com um único tipo primitivo.103

Doutro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo de um indivíduo

nascente, está sujeita a tantas vicissitudes, que toda uma criação poderia

ficar comprometida, sem a pluralidade dos tipos, o que implicaria uma

imprevidência inadmissível da parte do Criador supremo. Aliás, se, num

ponto, um tipo se pode formar, em muitos outros pontos ele se poderia

formar igualmente, por efeito da mesma causa.

Tudo, pois, concorre a provar que houve criação simultânea e múl

tipla dos primeiros casais de cada espécie animal e vegetal.

3. A formação dos primeiros seres vivos se pode deduzir, por ana

logia, da mesma lei em virtude da qual se formaram e formam todos os

dias os corpos inorgânicos. À medida que se aprofunda o estudo das leis

da natureza, as engrenagens que, de início, pareciam tão complicadas se

vão simplificando e confundindo na grande lei de unidade que preside a

toda a obra da criação. Isso se compreenderá melhor, quando estiver com

preendida a formação dos corpos inorgânicos, que é o degrau primário

daquela outra.

4. A Química considera elementares umas tantas substâncias, como

o oxigênio, o hidrogênio, o azoto, o carbono, o cloro, o iodo, o flúor, o

enxofre, o fósforo e todos os metais. Combinando-se, elas formam os

corpos compostos: os óxidos, os ácidos, os álcalis, os sais e as inúmeras

variedades que resultam da combinação destes.

A combinação de dois corpos para formar um terceiro exige especial

concurso de circunstâncias: seja um determinado grau de calor, de sequi

dão, ou de umidade; seja o movimento ou o repouso; seja uma corrente

elétrica etc. Se essas circunstâncias não se verificarem, a combinação não

se operará.

por meio da seleção natural (1859)], as espécies teriam evoluído pelo processo de seleção natural,

ou seja, os indivíduos mais aptos a sobreviver em um determinado ambiente, apresentam mais

probabilidade de gerar uma prole que herde suas características genéticas, que por sua vez sofrem

imperceptíveis mutações genéticas de geração em geração. Ao longo de séculos, o acúmulo de

pequenas mutações genéticas acaba resultando em grandes modificações e aperfeiçoamentos se

compararmos com a primeira geração daquela espécie, podendo surgir até novas espécies, bem

diversas da primeira.

A teoria mais aceita atualmente é, então, a de que todas as espécies do planeta estão de alguma

forma interligadas, das mais simples às mais complexas.

168

Gênese orgânica

5. Quando há combinação, os corpos componentes perdem suas

propriedades características, enquanto o composto que deles resulta ad

quire outras, diferentes das daqueles. É assim, por exemplo, que o oxigê

nio e o hidrogênio, que são gases invisíveis, quimicamente combinados

formam a água, que é líquida, sólida ou vaporosa, conforme a tempe

ratura. Na água, a bem dizer, já não há oxigênio nem hidrogênio, mas

um corpo novo. Decomposta essa água, os dois gases, tornados livres,

recobram suas propriedades: já não há água. A mesma quantidade desse

líquido pode ser assim, alternativamente, decomposta e recomposta, ao

infinito.

6. A composição e decomposição dos corpos se dão em virtude do

grau de afinidade que os princípios elementares guardam entre si.104 A

formação da água, por exemplo, resulta da afinidade recíproca que existe

entre o oxigênio e o hidrogênio; mas, se se puser em contato com a água

um corpo que tenha com o oxigênio mais afinidade do que a que este

tem com o hidrogênio, a água se decompõe: o oxigênio é absorvido e o

hidrogênio se liberta. Já não haverá água.

7. Os corpos compostos se formam sempre em proporções defi

nidas, isto é, pela combinação de uma certa quantidade dos princípios

constituintes. Assim, para formar a água, são necessárias uma parte

de oxigênio e duas de hidrogênio. Se duas partes de oxigênio forem

combinadas com duas de hidrogênio, em vez de água ter-se-á o deu

tóxido de hidrogênio, líquido corrosivo, formado, no entanto, dos

mesmos elementos que entram na composição da água, porém, noutra

proporção.

8. Tal, em poucas palavras, a lei que preside à formação de todos

os corpos da natureza. A inumerável variedade deles resulta de um nú

mero pequeno de princípios elementares combinados em proporções

diferentes.

Por exemplo: o oxigênio, combinado em certas proporções, com

o carbono, o enxofre, o fósforo, forma os ácidos carbônico, sulfúrico,

fosfórico; o oxigênio e o ferro formam o óxido de ferro ou ferrugem;

o oxigênio e o chumbo, ambos inofensivos, dão origem aos óxidos de

chumbo, tais como o litargírio, o alvaiade, o mínio, que são venenosos.

O oxigênio, com os metais chamados cálcio, sódio, potássio, forma a

cal, a soda, a potassa. A cal, unida ao ácido carbônico, forma os carbo

natos de cal ou pedras calcárias, tais como o mármore, a cré, as estalac

tites das grutas; unida ao ácido sulfúrico, forma o sulfato de cálcio ou

gesso e o alabastro; ao ácido fosfórico, o fosfato de cálcio, base sólida,

dos ossos; o cloro e o hidrogênio formam o ácido clorídrico ou hidro

clórico; o cloro e o sódio formam o cloreto de sódio ou sal marinho.

9. Todas essas combinações e milhares de outras se obtêm arti

ficialmente, em pequenas quantidades, nos laboratórios de Química;

elas se operam em larga escala no grande laboratório da natureza.

Em sua origem, a Terra não continha essas matérias em combi

nação, mas, apenas, volatilizados, seus princípios constitutivos. Quan

do as terras calcárias e outras, tornadas pedrosas com o tempo, se lhe

depositaram na superfície, aquelas matérias não existiam inteiramente

formadas; porém, no ar se encontravam, em estado gasoso, todas as

substâncias primitivas. Precipitadas por efeito do resfriamento, essas

substâncias, sob o império de circunstâncias favoráveis, se combina

ram, segundo o grau de suas afinidades moleculares. Foi então que

se formaram as diversas variedades de carbonatos, de sulfatos etc., a

princípio em dissolução nas águas, depositadas, depois, na superfície

do solo.

Suponhamos que, por uma causa qualquer, a Terra voltasse ao

estado primitivo de incandescência: tudo se decomporia; os elemen

tos se separariam; todas as substâncias fusíveis se fundiriam; todas

as que são volatilizáveis se volatilizariam. Depois, outro resfriamen

to determinaria nova precipitação e de novo se formariam as antigas combinações.

10. Estas considerações provam quanto a Química era necessá

ria para a inteligência da Gênese. Antes de se conhecerem as leis da

afinidade molecular, não era possível compreender-se a formação da

Terra. Esta ciência lançou grande luz sobre a questão, como o fizeram

a Astronomia e a Geologia, doutros pontos de vista.

11. Na formação dos corpos sólidos, um dos mais notáveis fenô

menos é o da cristalização, que consiste na forma regular que assumem

certas substâncias, ao passarem do estado líquido, ou gasoso, ao estado

sólido. Essa forma, que varia de acordo com a natureza da substância,

é geralmente a de sólidos geométricos, tais como o prisma, o romboi

de, o cubo, a pirâmide. Toda gente conhece os cristais de açúcar cândi;

os cristais de rocha, ou sílica cristalizada, são prismas de seis faces que

terminam em pirâmide igualmente hexagonal. O diamante é carbono

puro, ou carvão cristalizado. Os desenhos que no inverno se produzem

sobre as vidraças são devidos à cristalização do vapor de água durante

a congelação, sob a forma de agulhas prismáticas.

A disposição regular dos cristais corresponde à forma particular

das moléculas de cada corpo. Essas partículas, para nós infinitamente

pequenas, mas que não deixam por isso de ocupar um certo espaço,

solicitadas umas para as outras pela atração molecular, se arrumam e

justapõem segundo o exigem suas formas, de maneira a tomar cada

uma o seu lugar em torno do núcleo ou primeiro centro de atração e a

constituir um conjunto simétrico.

A cristalização só se opera em certas circunstâncias favoráveis,

fora das quais ela não pode dar-se. São condições essenciais o grau

da temperatura e o repouso absoluto. Compreende-se que um calor

muito forte, mantendo afastadas as moléculas, não lhes permitiria

condensarem-se e que a agitação, impossibilitando-lhes um arranjo

simétrico, não lhes consentiria formar senão uma massa confusa e ir

regular, donde o não haver cristalização propriamente dita.

12. A lei que preside à formação dos minerais conduz natural

mente à formação dos corpos orgânicos.

A análise química mostra que todas as substâncias vegetais e ani

mais são compostas dos mesmos elementos que os corpos inorgânicos.

Desses elementos, são o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono os

que desempenham papel principal. Os outros entram acessoriamente.

Como no reino mineral, a diferença de proporções na combinação dos

referidos elementos produz todas as variedades de substâncias orgâni

cas e suas diversas propriedades, tais como: os músculos, os ossos, o

sangue, a bile, os nervos, a matéria cerebral, a gordura, nos animais;

a seiva, a madeira, as folhas, os frutos, as essências, os óleos, as resi

nas105 etc., nos vegetais. Assim, na formação dos animais e das plantas,

13. Alguns exemplos comuns darão a compreender as transforma

ções que se operam no reino orgânico, pela só modificação dos elemen

tos constitutivos.

No suco da uva, não há vinho, nem álcool, mas apenas água e açú

car. Quando o suco fica maduro e são propícias as condições, produz-se

nele um trabalho íntimo a que se dá o nome de fermentação. Por esse

trabalho, uma parte do açúcar se decompõe; o oxigênio, o hidrogênio

e o carbono se separam e combinam nas proporções necessárias a pro

duzir o álcool, de sorte que, em se bebendo suco de uva, não se bebe

realmente álcool, pois que este ainda não existe. Ele se forma das partes

constituintes da água e do açúcar, sem que haja, em suma, uma molécu

la a mais ou a menos.

No pão e nos legumes que se comem, não há certamente carne,

nem sangue, nem osso, nem bile, nem matéria cerebral; entretanto, esses

mesmos alimentos, decompondo-se e recompondo-se pelo trabalho da

digestão, produzem aquelas diferentes substâncias tão só pela transmu

tação de seus elementos constitutivos.

Na semente de uma árvore, não há madeiras, folhas, flores ou frutos

e fora erro pueril crer-se que a árvore inteira, sob microscópica forma, ali

se encontra. Quase não há, sequer, na semente, oxigênio, hidrogênio e car

bono em quantidade necessária a formar uma folha da árvore. A semente107

contém um gérmen que desabrocha em favoráveis condições. Esse gérmen

106 Nota de Allan Kardec: O quadro abaixo, da análise de algumas substâncias, mostra a diferença de

propriedades que resulta da só diferença na proporção em que entram os elementos constituintes.

Sobre 100 partes, temos:

Carbono Hidrog.

Açúcar de cana

Açúcar de uva

Álcool

Azeite de oliveira

Óleo de nozes

Gordura

Fibrina

42.470

36.710

51.980

77.210

79.774

78.996

53.360

6.900

6.780

13.700

13.360

10.570

11.700

7.021

Oxig.

50.630

56.510

34.320

9.430

9.122

9.304

19.685

Azoto –––––––

0.534–

19.934

107 N.E.: Na semente, como em todos os ovos que presidem à formação dos seres vivos, encontram-se

presentes os genes que contêm o código genético com as informações necessárias à formação da

planta.

se desenvolve por efeito dos sucos que haure da terra e dos gases que aspira

do ar. Tais sucos, que não são lenho, nem folhas, nem flores, nem frutos,

infiltrando-se na planta, lhe formam a seiva, como nos animais formam o

sangue. Levada pela circulação a todas as partes do vegetal, a seiva, confor

me o órgão a que vai ter e onde sofre uma elaboração especial, se transfor

ma em lenho, folhas e frutos, como o sangue se transforma em carne, osso,

bile etc. Contudo, são sempre os mesmos elementos: oxigênio, hidrogênio,

azoto e carbono, diversamente combinados.

14. As diferentes combinações dos elementos, para formação

das substâncias minerais, vegetais e animais, não podem, pois, ope

rar-se, a não ser nos meios e em circunstâncias propícias; fora des

sas circunstâncias, os princípios elementares estão numa espécie de

inércia. Mas desde que as circunstâncias se tornam favoráveis, come

ça um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento,

agitam-se, atraem-se, aproximando-se e se separam em virtude da lei

de afinidades e, por suas múltiplas combinações, compõem a infinita

variedade das substâncias. Desapareçam essas condições e o trabalho

subitamente cessa, para recomeçar quando elas de novo se apresenta

rem. É assim que a vegetação se ativa, enfraquece, para e prossegue,

sob a ação do calor, da luz, da umidade, do frio ou da seca; que esta

planta prospera, num clima ou num terreno, e se estiola ou perece

noutros.

15. O que diariamente se passa às nossas vistas pode colocar-nos na

pista do que se passou na origem dos tempos, porquanto as leis da natureza

não variam.

Visto que são os mesmos os elementos constitutivos dos seres orgâ

nicos e inorgânicos; que os sabemos a formar incessantemente, em dadas

circunstâncias, as pedras, as plantas e os frutos, podemos concluir daí que

os corpos dos primeiros seres vivos se formaram, como as primeiras pedras,

pela reunião das moléculas elementares, em virtude da lei de afinidade, à

medida que as condições da vitalidade do globo foram propícias a esta ou

àquela espécie.

Princípio vital

16. Dizendo que as plantas e os animais são formados dos mes

mos princípios constituintes dos minerais, falamos em sentido exclu

sivamente material, pois que aqui apenas do corpo se trata.

Sem falar do princípio inteligente, que é questão à parte, há,

na matéria orgânica, um princípio especial, inapreensível e que ainda

não pode ser definido: o princípio vital. Ativo no ser vivente, esse

princípio se acha extinto no ser morto; mas nem por isso deixa de dar

à substância propriedades que a distinguem das substâncias inorgâ

nicas. A Química, que decompõe e recompõe a maior parte dos cor

pos inorgânicos, também conseguiu decompor os corpos orgânicos,

porém, jamais chegou a reconstituir, sequer, uma folha morta, prova

evidente de que há nestes últimos o que quer que seja, inexistente nos

outros.

17. Será o princípio vital alguma coisa particular, que tenha

existência própria? Ou, integrado no sistema da unidade do elemen

to gerador, apenas será um estado especial, uma das modificações

do fluido cósmico, pela qual este se torne princípio de vida, como

se torna luz, fogo, calor, eletricidade? É neste último sentido que

as comunicações acima reproduzidas resolvem a questão. (Cap. VI,

Uranografia geral.)

Seja, porém, qual for a opinião que se tenha sobre a natureza

do princípio vital, o certo é que ele existe, pois que se lhe apreciam os

efeitos. Pode-se, portanto, logicamente, admitir que, ao se formarem,

os seres orgânicos assimilaram o princípio vital, por ser necessário à

destinação deles; ou, se o preferirem, que esse princípio se desenvolveu

em cada indivíduo, por efeito mesmo da combinação dos elementos,

tal como se desenvolvem, dadas certas circunstâncias, o calor, a luz e

a eletricidade.

18. Combinando-se sem o princípio vital, o oxigênio, o hidro

gênio, o azoto e o carbono unicamente teriam formado um mineral

ou corpo inorgânico; o princípio vital, modificando a constituição

molecular desse corpo, dá-lhe propriedades especiais. Em lugar de

uma molécula mineral, tem-se uma molécula de matéria orgânica.

A atividade do princípio vital é alimentada durante a vida pela

ação do funcionamento dos órgãos, do mesmo modo que o calor,

pelo movimento de rotação de uma roda. Cessada aquela ação, por

motivo da morte, o princípio vital se extingue, como o calor, quando

a roda deixa de girar. Mas o efeito produzido por esse princípio sobre

o estado molecular do corpo subsiste, mesmo depois dele extinto,

como a carbonização da madeira subsiste à extinção do calor. Na aná

lise dos corpos orgânicos, a Química encontra os elementos que os

constituem: oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono; mas não pode

reconstituir aqueles corpos, porque, já não existindo a causa, não lhe

é possível reproduzir o efeito, ao passo que possível lhe é reconstituir

uma pedra.

19. Tomamos para termo de comparação o calor que se desen

volve pelo movimento de uma roda, por ser um efeito vulgar, que

todo mundo conhece, e mais fácil de compreender-se. Mais exato,

no entanto, houvéramos sido, dizendo que, na combinação dos ele

mentos para formarem os corpos orgânicos, desenvolve-se eletricidade.

Os corpos orgânicos seriam, então, verdadeiras pilhas elétricas, que

funcionam enquanto os elementos dessas pilhas se acham em con

dições de produzir eletricidade: é a vida; que deixam de funcionar,

quando tais condições desaparecem: é a morte. Segundo essa maneira

de ver, o princípio vital não seria mais do que uma espécie particular

de eletricidade, denominada eletricidade animal, que durante a vida se

desprende pela ação dos órgãos109 e cuja produção cessa, quando da

morte, por se extinguir tal ação.

Geração espontânea

Sobre esse ponto, não pode deixar de lançar luz a questão da gera

ção espontânea, que tanto preocupa a Ciência, embora ainda esteja di

versamente resolvida. O problema é este: Formam-se, nos tempos atuais,

seres orgânicos pela simples reunião dos elementos que os constituem,

sem germens, previamente produzidos pelo modo ordinário de geração,

ou, por outra, sem pais nem mães?

Os partidários da geração espontânea respondem afirmativamente,

apoiando-se em observações diretas, que parecem concludentes. Pensam

outros que todos os seres vivos se reproduzem uns pelos outros, firmados

sobre o fato, que a experiência comprova, de que os germens de certas es

pécies vegetais e animais, mesmo dispersos, conservam latente vitalidade,

durante longo tempo, até que as circunstâncias lhes favoreçam a eclosão.

Esta maneira de entender deixa sempre em aberto a questão da formação

dos primeiros tipos de cada espécie.

21. Sem discutir os dois sistemas, convém acentuar que o princípio

da geração espontânea evidentemente só se pode aplicar aos seres das or

dens mais ínfimas do reino vegetal e do reino animal, àqueles em os quais

a vida começa a despontar, em organismo extremamente simples e, de

certo modo, rudimentar. Foram esses, com efeito, os primeiros que apa

receram na Terra e cuja formação houve de ser espontânea. Assistiríamos

assim a uma criação permanente, análoga à que se produziu nas primeiras

idades do mundo.

22. Mas, então, por que não se formam da mesma maneira os seres

de complexa organização? Que esses seres não existiram sempre, é fato po

sitivo; logo, tiveram um começo. Se o musgo, o líquen, o zoófito, o infu

sório, os vermes intestinais e outros podem produzir-se espontaneamente,

por que não se dá o mesmo com as árvores, os peixes, os cães, os cavalos?

Param aí, por enquanto, as investigações; desaparece o fio condutor

e, até que ele seja encontrado, fica aberto o campo às hipóteses. Fora,

taneamente do corpo de cadáveres em decomposição; que rãs, cobras e crocodilos eram gerados a

partir do lodo dos rios. Essa hipótese, geração espontânea ou abiogênese, foi descartada.

23. Se a geração espontânea é fato demonstrado,112 por muito limi

tado que seja, não deixa de constituir um fato capital, um marco de natu

reza a indicar o caminho para novas observações. Sabe-se que os seres or

gânicos complexos não se produzem dessa maneira; mas, quem sabe como

eles começaram? Quem conhece o segredo de todas as transformações?

Vendo o carvalho sair da glande, quem pode afirmar que não exista um

laço misterioso entre o pólipo e o elefante? (Item 25.)

No estado atual dos nossos conhecimentos, não podemos estabele

cer a teoria da geração espontânea permanente, senão como hipótese, mas

como hipótese provável e que um dia, talvez, tome lugar entre as verdades

científicas incontestes.

Escala dos seres orgânicos

24. Entre o reino vegetal e o reino animal, nenhuma delimitação

há nitidamente marcada. Nos confins dos dois reinos estão os zoófitos ou

animais-plantas, cujo nome indica que eles participam de um e outro:

serve-lhes de traço de união.

Como os animais, as plantas nascem, vivem, crescem, nutrem-se,

respiram, reproduzem-se e morrem. Como aqueles, precisam elas de luz,

de calor e de água; estiolam-se e morrem, desde que lhes faltem esses ele

mentos. A absorção de um ar viciado e de substâncias deletérias as enve

nena. Oferecem como caráter distintivo mais acentuado conservarem-se

presas ao solo e tirarem dele a nutrição, sem se deslocarem.

O zoófito tem a aparência exterior da planta. Como planta, man

tém-se preso ao solo; como animal, a vida nele se acha mais acentuada:

tira do meio ambiente a sua alimentação.

25. Se se considerarem apenas os dois pontos extremos da ca

deia, nenhuma analogia aparente haverá; mas, se se passar de um anel

a outro sem solução de continuidade, chega-se, sem transição brusca,

da planta aos animais vertebrados. Compreende-se então a possibi

lidade de que os animais de organização complexa não sejam mais

do que uma transformação, ou, se quiserem, um desenvolvimento

gradual, a princípio insensível, da espécie imediatamente inferior e,

assim, sucessivamente, até o primitivo ser elementar. Entre a glande e

o carvalho é grande a diferença; entretanto, se acompanharmos passo

a passo o desenvolvimento da glande, chegaremos ao carvalho e já não

nos admiraremos de que este proceda de tão pequena semente. Ora, se

a glande encerra em latência os elementos próprios à formação de uma

árvore gigantesca, por que não se daria o mesmo do ácaro ao elefante?

(Item 23.)

De acordo com o que fica dito, percebe-se que não exista gera

ção espontânea senão para os seres orgânicos elementares; as espécies

superiores seriam produto das transformações sucessivas desses mes

mos seres, realizadas à proporção que as condições atmosféricas se lhes

foram tornando propícias. Adquirindo cada espécie a faculdade de

reproduzir-se, os cruzamentos acarretaram inúmeras variedades. De

pois, uma vez instalada em condições favoráveis, quem nos diz que os

germens primitivos donde ela surgiu não desapareceram para sempre,

por inúteis? Quem nos diz que o nosso ácaro atual seja idêntico ao

que, de transformação em transformação, produziu o elefante? Explicar-se-ia assim porque não há geração espontânea entre os animais de

complexa organização.

Esta teoria, sem estar admitida ainda, de maneira definitiva, é a

que tende evidentemente a predominar hoje na Ciência. Os observado

res sérios aceitam-na como a mais racional.

O homem corpóreo

26. Do ponto de vista corpóreo e puramente anatômico, o ho

mem pertence à classe dos mamíferos, dos quais unicamente difere por

alguns matizes na forma exterior. Quanto ao mais, a mesma compo

sição de todos os animais, os mesmos órgãos, as mesmas funções e os

mesmos modos de nutrição, de respiração, de secreção, de reprodução.

Ele nasce, vive e morre nas mesmas condições e, quando morre, seu

corpo se decompõe, como tudo o que vive. Não há, em seu sangue, na

sua carne, em seus ossos, um átomo diferente dos que se encontram no

corpo dos animais. Como estes, ao morrer, o homem restitui à terra o

oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono que se haviam combinado

para formá-lo; e esses elementos, por meio de novas combinações, vão

formar outros corpos minerais, vegetais e animais. É tão grande a analo

gia que suas funções orgânicas são estudadas em certos animais, quando

as experiências não podem ser feitas nele próprio.

27. Na classe dos mamíferos, o homem pertence à ordem dos bí

manos. Logo abaixo dele vêm os quadrúmanos (animais de quatro mãos)

ou macacos, alguns dos quais, como o orangotango, o chimpanzé, o

jocó,114 têm certos ademanes do homem, a tal ponto que, por muito

tempo, foram denominados: homens das florestas. Como o homem, esses

macacos caminham eretos, usam cajados, constroem choças e levam à

boca, com a mão, os alimentos: sinais característicos.

28. Por pouco que se observe a escala dos seres vivos, do ponto

de vista do organismo, é-se forçado a reconhecer que, desde o líquen

até a árvore e desde o zoófito até o homem, há uma cadeia que se

eleva gradativamente, sem solução de continuidade e seus anéis todos

têm um ponto de contato com o anel precedente. Acompanhando-se

passo a passo a série dos seres, dir-se-ia que cada espécie é um aperfeiçoa

mento, uma transformação da espécie imediatamente inferior. Visto que

são idênticas às dos outros corpos as condições do corpo do homem,

química e constitucionalmente; visto que ele nasce, vive e morre da

mesma maneira, também nas mesmas condições que os outros se há

de ele ter formado.

29. Ainda que isso lhe fira o orgulho, tem o homem que se resignar

a não ver no seu corpo material mais do que o último anel da animalidade

na Terra. Aí está o inexorável argumento dos fatos, contra o qual seria

inútil protestar.

Todavia, quanto mais o corpo diminui de valor aos seus olhos,

tanto mais cresce de importância o princípio espiritual. Se o primeiro

o nivela ao bruto, o segundo o eleva a incomensurável altura. Vemos o

limite extremo do animal: não vemos o limite a que chegará o espírito

do homem.

30. O materialismo pode por aí ver que o Espiritismo, longe de

temer as descobertas da Ciência e o seu positivismo, lhe vai ao encon

tro e os provoca, por possuir a certeza de que o princípio espiritual,

que tem existência própria, em nada pode com elas sofrer.

O Espiritismo marcha ao lado do materialismo, no campo da

matéria; admite tudo o que o segundo admite; mas avança para além

do ponto onde este último para. O Espiritismo e o materialismo são

como dois viajantes que caminham juntos, partindo de um mesmo

ponto; chegados a certa distância, diz um: “Não posso ir mais longe.”

O outro prossegue e descobre um novo mundo. Por que, então, há de

o primeiro dizer que o segundo é louco, somente porque, entrevendo

novos horizontes, se decide a transpor os limites onde ao outro con

vém deter-se? Também Cristóvão Colombo não foi tachado de louco,

porque acreditava na existência de um mundo, para lá do oceano?

Quantos a História não conta desses loucos sublimes, que hão feito

que a humanidade avançasse e aos quais se tecem coroas, depois de se

lhes haver atirado lama?

Pois bem! o Espiritismo, a loucura do século XIX, segundo os

que se obstinam em permanecer na margem terrena, nos patenteia

todo um mundo, mundo bem mais importante para o homem, do que

a América, porquanto nem todos os homens vão à América, ao passo

Gênese orgânica

que todos, sem exceção de nenhum, vão ao dos Espíritos, fazendo in

cessantes travessias de um para o outro.

Galgado o ponto em que nos achamos com relação à Gênese,

o materialismo se detém, enquanto o Espiritismo prossegue em suas

pesquisas no domínio da Gênese espiritual.

M

1. A existência do princípio espiritual é um fato que, por assim di

zer, não precisa de demonstração, do mesmo modo que o da existência

do princípio material. É, de certa forma, uma verdade axiomática. Ele se

afirma pelos seus efeitos, como a matéria pelos que lhe são próprios.

De acordo com este princípio: “Todo efeito tendo uma causa, todo

efeito inteligente há de ter uma causa inteligente”, ninguém há que não

faça distinção entre o movimento mecânico de um sino que o vento agite

e o movimento desse mesmo sino para dar um sinal, um aviso, atestando,

só por isso, que obedece a um pensamento, a uma intenção. Ora, não

podendo acudir a ninguém a ideia de atribuir pensamento à matéria do

sino, tem-se de concluir que o move uma inteligência à qual ele serve de

instrumento para que ela se manifeste.

Pela mesma razão, ninguém terá a ideia de atribuir pensamento ao

corpo de um homem morto. Se, pois, vivo, o homem pensa, é que há nele

alguma coisa que não há quando está morto. A diferença que existe entre

ele e o sino é que a inteligência, que faz com que este se mova, está fora

2. O princípio espiritual é corolário da existência de Deus; sem esse

princípio, Deus não teria razão de ser, visto que não se poderia conceber

a soberana inteligência a reinar, pela eternidade afora, unicamente sobre

a matéria bruta, como não se poderia conceber que um monarca terreno,

durante toda a sua vida, reinasse exclusivamente sobre pedras. Não se po

dendo admitir Deus sem os atributos essenciais da Divindade: a justiça e

a bondade, inúteis seriam essas qualidades, se Ele as houvesse de exercitar

somente sobre a matéria.

3. Por outro lado, não se poderia conceber um Deus soberana

mente justo e bom, a criar seres inteligentes e sensíveis, para lançá-los ao

nada, após alguns dias de sofrimento sem compensações, a recrear-se na

contemplação dessa sucessão indefinita de seres que nascem, sem que o

hajam pedido, pensam por um instante, apenas para conhecerem a dor, e

se extinguem para sempre, ao cabo de efêmera existência.

Sem a sobrevivência do ser pensante, os sofrimentos da vida se

riam, da parte de Deus, uma crueldade sem objetivo. Eis por que o ma

terialismo e o ateísmo são corolários um do outro; negando o efeito, não

podem eles admitir a causa. O materialismo é, pois, consequente consigo

mesmo, embora não o seja com a razão.

4. É inata no homem a ideia da perpetuidade do ser espiritual; essa

ideia se acha nele em estado de intuição e de aspiração. O homem com

preende que somente aí está a compensação às misérias da vida. Essa a

razão por que sempre houve e haverá cada vez mais espiritualistas do que

materialistas e mais devotos do que ateus.

À ideia intuitiva e à força do raciocínio o Espiritismo junta a san

ção dos fatos, a prova material da existência do ser espiritual, da sua

sobrevivência, da sua imortalidade e da sua individualidade. Torna pre

cisa e define o que aquela ideia tinha de vago e de abstrato. Mostra o ser

inteligente a atuar fora da matéria, quer depois, quer durante a vida do

corpo.

5. São a mesma coisa o princípio espiritual e o princípio vital?

Partindo, como sempre, da observação dos fatos, diremos que, se o

princípio vital fosse inseparável do princípio inteligente, haveria certa razão

para que os confundíssemos. Mas, havendo, como há, seres que vivem e não

pensam, quais as plantas; corpos humanos que ainda se revelam animados

de vida orgânica quando já não há qualquer manifestação de pensamento;

uma vez que no ser vivo se produzem movimentos vitais independentes de

qualquer intervenção da vontade; que durante o sono a vida orgânica se

conserva em plena atividade, enquanto a vida intelectual por nenhum sinal

exterior se manifesta, é cabível se admita que a vida orgânica reside num

princípio inerente à matéria, independente da vida espiritual, que é ineren

te ao Espírito. Ora, desde que a matéria tem uma vitalidade independente

do Espírito e que o Espírito tem uma vitalidade independente da matéria,

evidente se torna que essa dupla vitalidade repousa em dois princípios dife

rentes.

6. Terá o princípio espiritual sua fonte de origem no elemento cós

mico universal? Será ele apenas uma transformação, um modo de exis

tência desse elemento, como a luz, a eletricidade, o calor etc.?

Se fosse assim, o princípio espiritual sofreria as vicissitudes da ma

téria; extinguir-se-ia pela desagregação, como o princípio vital; momen

tânea seria, como a do corpo, a existência do ser inteligente que, então,

ao morrer, volveria ao nada, ou, o que daria na mesma, ao todo universal.

Seria, numa palavra, a sanção das doutrinas materialistas.

As propriedades sui generis [peculiares] que se reconhecem ao prin

cípio espiritual provam que ele tem existência própria, pois que, se sua

origem estivesse na matéria, aquelas propriedades lhe faltariam. Desde

que a inteligência e o pensamento não podem ser atributos da matéria,

chega-se, remontando dos efeitos à causa, à conclusão de que o elemento

material e o elemento espiritual são os dois princípios constitutivos do

universo. Individualizado, o elemento espiritual constitui os seres cha

mados Espíritos, como, individualizado, o elemento material constitui os

diferentes corpos da natureza, orgânicos e inorgânicos.

7. Admitido o ser espiritual e não podendo ele proceder da maté

ria, qual a sua origem, seu ponto de partida?

Aqui, falecem absolutamente os meios de investigação, como para

tudo o que diz respeito à origem das coisas. O homem apenas pode com

provar o que existe; acerca de tudo o mais, apenas lhe é dado formular

hipóteses e, quer porque esse conhecimento esteja fora do alcance da sua

inteligência atual, quer porque lhe seja inútil ou prejudicial presente

mente, Deus não lho outorga, nem mesmo pela revelação.

O que Deus permite que seus mensageiros lhe digam e o que,

aliás, o próprio homem pode deduzir do princípio da soberana justiça,

atributo essencial da Divindade, é que todos procedem do mesmo ponto

de partida; que todos são criados simples e ignorantes, com igual aptidão

para progredir pelas suas atividades individuais; que todos atingirão o

grau máximo da perfeição com seus esforços pessoais; que todos, sendo

filhos do mesmo Pai, são objeto de igual solicitude; que nenhum há mais

favorecido ou melhor dotado do que os outros, nem dispensado do tra

balho imposto aos demais para atingirem a meta.

8. Ao mesmo tempo que criou, desde toda a eternidade, mundos

materiais, Deus há criado, desde toda a eternidade, seres espirituais. Se

assim não fora, os mundos materiais careceriam de finalidade. Mais fácil

seria conceberem-se os seres espirituais sem os mundos materiais, do que

estes últimos sem aqueles. Os mundos materiais é que teriam de fornecer

aos seres espirituais elementos de atividade para o desenvolvimento de

suas inteligências.

9. Progredir é condição normal dos seres espirituais e a perfeição

relativa o fim que lhes cumpre alcançar. Ora, havendo Deus criado des

de toda a eternidade, e criando incessantemente, também desde toda a

eternidade tem havido seres que atingiram o ponto culminante da escala.

Antes que existisse a Terra, mundos sem conta haviam sucedido a

mundos e, quando a Terra saiu do caos dos elementos, o espaço estava

povoado de seres espirituais em todos os graus de adiantamento, desde

os que surgiam para a vida até os que, desde toda a eternidade, haviam

tomado lugar entre os puros Espíritos, vulgarmente chamados anjos.

União do princípio espiritual à matéria

10. Tendo a matéria que ser objeto do trabalho do Espírito para

desenvolvimento de suas faculdades, era necessário que ele pudesse atuar

sobre ela, pelo que veio habitá-la, como o lenhador habita a floresta.

Tendo a matéria que ser, no mesmo tempo, objeto e instrumento do

trabalho, Deus, em vez de unir o Espírito à pedra rígida, criou, para seu

uso, corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todas as impulsões

da sua vontade e de se prestarem a todos os seus movimentos.

O corpo é, pois, simultaneamente, o envoltório e o instrumento

do Espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste outro

invólucro apropriado ao novo gênero de trabalho que lhe cabe executar,

tal qual se faz com o operário, a quem é dado instrumento menos gros

seiro, à proporção que ele se vai mostrando apto a executar obra mais

bem cuidada.

11. Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio Espírito

que modela o seu envoltório e o apropria às suas novas necessidades;

aperfeiçoa-o e lhe desenvolve e completa o organismo, à medida que ex

perimenta a necessidade de manifestar novas faculdades; numa palavra,

talha-o de acordo com a sua inteligência. Deus fornece ao Espírito os

materiais; cabe a ele empregá-los. É assim que as raças adiantadas têm

um organismo ou, se quiserem, um aparelhamento cerebral mais aper

feiçoado do que as raças primitivas. Desse modo igualmente se explica o

cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisiono

mia e às linhas do corpo. (Cap. VIII, item 7: Alma da Terra.)115

12. Desde que um Espírito nasce para a vida espiritual, tem, por

adiantar-se, que fazer uso de suas faculdades, rudimentares a princípio.

Por isso é que reveste um envoltório adequado ao seu estado de infância

intelectual, envoltório que ele abandona para tomar outro, à proporção

que se lhe aumentam as forças. Ora, como em todos os tempos houve

mundos e esses mundos deram nascimento a corpos organizados pró

prios a receber Espíritos, em todos os tempos os Espíritos, qualquer que

fosse o grau de adiantamento que houvessem alcançado, encontraram os

elementos necessários à sua vida carnal.

13. Por ser exclusivamente material, o corpo sofre as vicissitudes

da matéria. Depois de funcionar por algum tempo, ele se desorganiza e

decompõe. O princípio vital, não mais encontrando elemento para sua

atividade, se extingue e o corpo morre. O Espírito, para quem, este, ca

rente de vida, se torna inútil, deixa-o, como se deixa uma casa em ruínas,

ou uma roupa imprestável.

14. O corpo, conseguintemente, não passa de um envoltório des

tinado a receber o Espírito. Desde então, pouco importam a sua ori

gem e os materiais que entraram na sua construção. Seja ou não o corpo

do homem uma criação especial, o que não padece dúvida é que tem a

formá-lo os mesmos elementos que o dos animais, a animá-lo o mesmo

princípio vital, ou, por outra, a aquecê-lo o mesmo fogo, como tem a

iluminá-lo a mesma luz e se acha sujeito às mesmas vicissitudes e às mes

mas necessidades. É um ponto este que não sofre contestação.

A não se considerar, pois, senão a matéria, abstraindo do Espírito,

o homem nada tem que o distinga do animal. Tudo, porém, muda de

aspecto, logo que se estabelece distinção entre a habitação e o habitante.

Ou numa choupana, ou envergando as vestes de um campônio,

um nobre senhor não deixa de o ser. O mesmo se dá com o homem: não

é a sua vestidura de carne que o coloca acima do bruto e faz dele um ser

à parte; é o seu ser espiritual, seu Espírito.

Hipótese sobre a origem do corpo humano

15. Da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do

homem e o do macaco, concluíram alguns fisiologistas que o primei

ro é apenas uma transformação do segundo. Nada aí há de impossível,

nem o que, se assim for, afete a dignidade do homem. Bem pode dar-se

que corpos de macaco tenham servido de vestidura aos primeiros Espíri

tos humanos, forçosamente pouco adiantados, que viessem encarnar na

Terra, sendo essa vestidura mais apropriada às suas necessidades e mais

adequadas ao exercício de suas faculdades, do que o corpo de qualquer

outro animal. Em vez de se fazer para o Espírito um invólucro especial,

ele teria achado um já pronto. Vestiu-se então da pele do macaco, sem

deixar de ser Espírito humano, como o homem não raro se reveste da

pele de certos animais, sem deixar de ser homem.

Fique bem entendido que aqui unicamente se trata de uma hipó

tese, de modo algum posta como princípio, mas apresentada apenas para

mostrar que a origem do corpo em nada prejudica o Espírito, que é o ser

principal, e que a semelhança do corpo do homem com o do macaco não

implica paridade entre o seu Espírito e o do macaco.

16. Admitida essa hipótese, pode dizer-se que, sob a influência e

por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório

se modificou, embelezou-se nas particularidades, conservando a forma

geral do conjunto (item 11). Melhorados, os corpos, pela procriação,

se reproduziram nas mesmas condições, como sucede com as árvores de

enxerto. Deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afas

tou do tipo primitivo, à proporção que o Espírito progrediu. O Espírito

macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar, para seu uso, cor

pos de macaco, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz

árvores dessa espécie, e o Espírito humano procriou corpos de homem,

variantes do primeiro molde em que ele se meteu. O tronco se bifurcou:

produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco.

Como na natureza não há transições bruscas, é provável que os

primeiros homens aparecidos na Terra pouco diferissem do macaco pela

forma exterior e não muito também pela inteligência. Em nossos dias

ainda há selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés e pela

conformação da cabeça, têm tanta parecença com o macaco, que só lhes

falta ser peludos, para se tornar completa a semelhança.

Encarnação dos Espíritos

17. O Espiritismo ensina de que maneira se opera a união do

Espírito com o corpo, na encarnação.

Pela sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstra

to, que não pode ter ação direta sobre a matéria, sendo-lhe indispensável

um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de certo modo,

faz parte integrante dele. É semimaterial esse envoltório, isto é, pertence

à matéria pela sua origem e à espiritualidade pela sua natureza etérea.

Como toda matéria, ele é extraído do fluido cósmico universal que, nessa

circunstância, sofre uma modificação especial. Esse envoltório, denomi

nado perispírito, faz de um ser abstrato, do Espírito, um ser concreto,

definido, apreensível pelo pensamento. Torna-o apto a atuar sobre a ma

téria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, que

são, como se sabe, os mais poderosos motores.

O fluido perispirítico constitui, pois, o traço de união entre o Es

pírito e a matéria. Enquanto aquele se acha unido ao corpo, serve-lhe ele

de veículo ao pensamento, para transmitir o movimento às diversas par

tes do organismo, as quais atuam sob a impulsão da sua vontade e para

fazer que repercutam no Espírito as sensações que os agentes exteriores

produzam. Servem-lhe de fios condutores os nervos como, no telégrafo,

ao fluido elétrico serve de condutor o fio metálico.

18. Quando o Espírito tem de encarnar num corpo humano em

vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que uma expansão

do seu perispírito, o liga ao gérmen que o atrai por uma força irresistível,

desde o momento da concepção. À medida que o gérmen se desenvolve,

o laço se encurta. Sob a influência do princípio vital e material do gérmen,

o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molé

cula a molécula, ao corpo em formação, donde o poder dizer-se que o

Espírito, por intermédio do seu perispírito, se enraíza, de certa maneira,

nesse gérmen, como uma planta na terra. Quando o gérmen chega ao

seu pleno desenvolvimento, completa é a união; nasce então o ser para a

vida exterior.

Por um efeito contrário, a união do perispírito e da matéria carnal,

que se efetuara sob a influência do princípio vital do gérmen, cessa, desde

que esse princípio deixa de atuar, em consequência da desorganização do

corpo. Mantida que era por uma força atuante, tal união se desfaz, logo

que essa força deixa de atuar. Então, o perispírito se desprende, molécu

la a molécula, conforme se unira, e ao Espírito é restituída a liberdade.

Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo; a morte é que

determina a partida do Espírito.

Dado que, um instante após a morte, completa é a integração do

Espírito; que suas faculdades adquirem até maior poder de penetração, ao

passo que o princípio de vida se acha extinto no corpo, provado eviden

temente fica que são distintos o princípio vital e o princípio espiritual.

19. O Espiritismo, pelos fatos cuja observação ele faculta, dá a

conhecer os fenômenos que acompanham essa separação, que, às vezes,

é rápida, fácil, suave e insensível, ao passo que doutras é lenta, laboriosa,

horrivelmente penosa, conforme o estado moral do Espírito, e pode du

rar meses inteiros.

20. Um fenômeno particular, que a observação igualmente assinala,

acompanha sempre a encarnação do Espírito. Desde que este é apanhado

no laço fluídico que o prende ao gérmen, entra em estado de perturba

ção, que aumenta, à medida que o laço se aperta, perdendo o Espírito,

nos últimos momentos, toda a consciência de si próprio, de sorte que

jamais presencia o seu nascimento. Quando a criança respira, começa o

Espírito a recobrar as faculdades, que se desenvolvem à proporção que se

formam e consolidam os órgãos que lhe hão de servir às manifestações.

21. Mas, ao mesmo tempo que o Espírito recobra a consciência de

si mesmo, perde a lembrança do seu passado, sem perder as faculdades,

as qualidades e as aptidões anteriormente adquiridas, que haviam ficado

temporariamente em estado de latência e que, voltando à atividade, vão

ajudá-lo a fazer mais e melhor do que antes. Ele renasce qual se fizera

pelo seu trabalho anterior; o seu renascimento lhe é um novo ponto de

partida, um novo degrau a subir. Ainda aí a bondade do Criador se ma

nifesta, porquanto, adicionada aos amargores de uma nova existência, a

lembrança, muitas vezes aflitiva e humilhante, do passado, poderia turbá--lo e lhe criar embaraços. Ele apenas se lembra do que aprendeu, por lhe

ser isso útil. Se às vezes lhe é dado ter uma intuição dos acontecimentos

passados, essa intuição é como a lembrança de um sonho fugitivo. Ei-lo,

pois, novo homem por mais antigo que seja como Espírito. Adota novos

processos, auxiliado pelas suas aquisições precedentes. Quando retorna

à vida espiritual, seu passado se lhe desdobra diante dos olhos e ele julga

de como empregou o tempo, se bem ou mal.

22. Não há, portanto, solução de continuidade na vida espiritual,

sem embargo do esquecimento do passado. Cada Espírito é sempre o

mesmo eu, antes, durante e depois da encarnação, sendo esta, apenas,

uma fase da sua existência. O próprio esquecimento se dá tão só no cur

so da vida exterior de relação. Durante o sono, desprendido, em parte,

dos liames carnais, restituído à liberdade e à vida espiritual, o Espírito se

lembra, pois que, então, já não tem a visão tão obscurecida pela matéria.

23. Tomando-se a humanidade no grau mais ínfimo da escala espi

ritual, como se encontra entre os mais atrasados selvagens, perguntar-se-á

se é aí o ponto inicial da alma humana.

Na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligen

te, distinto do princípio material, se individualiza e elabora, passando pe

los diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a vida e

desenvolve, pelo exercício, suas primeiras faculdades. Esse seria para ela,

por assim dizer, o período de incubação. Chegada ao grau de desenvol

vimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que

constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual do animal

para o homem, como há filiação corporal.

Este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à cria

ção, corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador; dá

uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então

de formar uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que

lhes está reservado, uma compensação a seus sofrimentos. O que consti

tui o homem espiritual não é a sua origem: são os atributos especiais de

que ele se apresenta dotado ao entrar na humanidade, atributos que o

transformam, tornando-o um ser distinto, como o fruto saboroso é dis

tinto da raiz amarga que lhe deu origem. Por haver passado pela fieira da

animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal,

como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs

no mundo.

Mas este sistema levanta múltiplas questões, cujos prós e contras

não é oportuno discutir aqui, como não o é o exame das diferentes hipó

teses que se têm formulado sobre este assunto. Sem, pois, pesquisarmos a

origem do Espírito, sem procurarmos conhecer as fieiras pelas quais haja

ele, porventura, passado, tomamo-lo ao entrar na humanidade, no ponto

em que, dotado de senso moral e de livre-arbítrio, começa a pesar-lhe a

responsabilidade dos seus atos.

24. A obrigação que tem o Espírito encarnado de prover ao ali

mento do corpo, à sua segurança, ao seu bem-estar, o força a empregar

suas faculdades em investigações, a exercitá-las e desenvolvê-las. Útil,

portanto, ao seu adiantamento é a sua união com a matéria. Daí o consti

tuir uma necessidade a encarnação. Além disso, pelo trabalho inteligente

que ele executa em seu proveito, sobre a matéria, auxilia a transforma

ção e o progresso material do globo que lhe serve de habitação. É assim

que, progredindo, colabora na obra do Criador, da qual se torna fator

inconsciente.

25. Todavia, a encarnação do Espírito não é constante, nem per

pétua: é transitória. Deixando um corpo, ele não retoma imediatamente

outro. Durante mais ou menos considerável lapso de tempo, vive da vida

espiritual, que é sua vida normal, de tal sorte que insignificante vem a ser

o tempo que lhe duram as encarnações, se comparado ao que passa no

estado de Espírito livre.

No intervalo de suas encarnações, o Espírito progride igualmen

te, no sentido de que aplica ao seu adiantamento os conhecimentos e a

experiência que alcançou no decorrer da vida corporal; examina o que fez

enquanto habitou a Terra, passa em revista o que aprendeu, reconhece

suas faltas, traça planos e toma resoluções pelas quais conta guiar-se em

nova existência, com a ideia de melhor se conduzir. Desse jeito, cada

existência representa um passo para a frente no caminho do progresso,

uma espécie de escola de aplicação.

26. Normalmente, a encarnação não é uma punição para o Espíri

to, conforme pensam alguns, mas uma condição inerente à inferioridade

do Espírito e um meio de ele progredir. (O céu e o inferno, cap. III, itens

8 e seguintes.)

À medida que progride moralmente, o Espírito se desmaterializa,

isto é, depura-se, com o subtrair-se à influência da matéria; sua vida se

espiritualiza, suas faculdades e percepções se ampliam; sua felicidade se

torna proporcional ao progresso realizado. Entretanto, como atua em

virtude do seu livre-arbítrio, pode ele, por negligência ou má vontade,

retardar o seu avanço; prolonga, conseguintemente, a duração de suas

encarnações materiais, que, então, se lhe tornam uma punição, pois que,

por falta sua, ele permanece nas categorias inferiores, obrigado a reco

meçar a mesma tarefa. Depende, pois, do Espírito abreviar, pelo traba

lho de depuração executado sobre si mesmo, a extensão do período das

encarnações.

27. O progresso material de um planeta acompanha o progresso

moral de seus habitantes. Ora, sendo incessante, como é a criação dos

mundos e dos Espíritos e progredindo estes mais ou menos rapidamente,

conforme o uso que façam do livre-arbítrio, segue-se que há mundos

mais ou menos antigos, em graus diversos de adiantamento físico e mo

ral, onde é mais ou menos material a encarnação e onde, por conseguin

te, o trabalho, para os Espíritos, é mais ou menos rude. Deste ponto de

vista, a Terra é um dos menos adiantados. Povoada de Espíritos relativa

mente inferiores, a vida corpórea é aí mais penosa do que noutros orbes,

havendo-os também mais atrasados, onde a existência é ainda mais peno

sa do que na Terra e em confronto com os quais esta seria, relativamente,

um mundo ditoso.

28. Quando, em um mundo, os Espíritos hão realizado a soma de

progresso que o estado desse mundo comporta, deixam-no para encarnar

em outro mais adiantado, onde adquiram novos conhecimentos e assim

por diante, até que, não lhes sendo mais de proveito algum a encarna

ção em corpos materiais, passam a viver exclusivamente da vida espiri

tual, na qual continuam a progredir, mas noutro sentido e por outros

meios. Chegados ao ponto culminante do progresso, gozam da suprema

felicidade. Admitidos nos conselhos do Onipotente, conhecem-lhe o

pensamento e se tornam seus mensageiros, seus ministros diretos no go

verno dos mundos, tendo sob suas ordens os Espíritos de todos os graus

de adiantamento.

Assim, qualquer que seja o grau em que se achem na hierarquia

espiritual, do mais ínfimo ao mais elevado, têm eles suas atribuições no

grande mecanismo do universo; todos são úteis ao conjunto, ao mesmo

tempo que a si próprios. Aos menos adiantados, como a simples serviçais,

incumbe o desempenho, a princípio inconsciente, depois, cada vez mais

inteligente, de tarefas materiais. Por toda parte, no mundo espiritual,

atividade, em nenhum ponto a ociosidade inútil.

A coletividade dos Espíritos constitui, de certo modo, a alma do

universo. Por toda parte, o elemento espiritual é que atua em tudo, sob o

influxo do pensamento divino. Sem esse elemento, só há matéria inerte,

carente de finalidade, de inteligência, tendo por único motor as forças

materiais, cuja exclusividade deixa insolúveis uma imensidade de proble

mas. Com a ação do elemento espiritual individualizado, tudo tem uma

finalidade, uma razão de ser, tudo se explica. Prescindindo da espirituali

dade, o homem esbarra em dificuldades insuperáveis.

29. Quando a Terra se encontrou em condições climáticas apro

priadas à existência da espécie humana, encarnaram nela Espíritos hu

manos. Donde vinham? Quer eles tenham sido criados naquele mo

mento; quer tenham procedido, completamente formados, do espaço,

de outros mundos, ou da própria Terra, a presença deles nesta, a partir

de certa época, é um fato, pois que antes deles só animais havia. Revesti

ram-se de corpos adequados às suas necessidades especiais, às suas apti

dões, e que, fisiologicamente, tinham as características da animalidade.

Sob a influência deles e por meio do exercício de suas faculdades, esses

corpos se modificaram e aperfeiçoaram: é o que a observação comprova.

Deixemos então de lado a questão da origem, insolúvel por enquanto;

consideremos o Espírito, não em seu ponto de partida, mas no momen

to em que, manifestando-se nele os primeiros germens do livre-arbítrio

e do senso moral o vemos a desempenhar o seu papel humanitário, sem

cogitarmos do meio onde haja transcorrido o período de sua infância,

ou, se o preferirem, de sua incubação. Malgrado a analogia do seu envol

tório com o dos animais, poderemos diferençá-lo destes últimos pelas

faculdades intelectuais e morais que o caracterizam, como, debaixo das

mesmas vestes grosseiras, distinguimos o rústico do homem civilizado.

30. Conquanto devessem ser pouco adiantados os primeiros que

vieram, pela razão mesma de terem de encarnar em corpos muito imper

feitos, diferenças sensíveis haveria decerto entre seus caracteres e apti

dões. Os que se assemelhavam, naturalmente se agruparam por analogia

e simpatia. Achou-se a Terra, assim, povoada de Espíritos de diversas

categorias, mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso. Recebendo os

corpos a impressão do caráter do Espírito e procriando-se esses corpos

na conformidade dos respectivos tipos, resultaram daí diferentes raças,

quer quanto ao físico, quer quanto ao moral (item 11). Continuando a

encarnar entre os que se lhes assemelhavam, os Espíritos similares perpe

tuaram o caráter distintivo, físico e moral, das raças e dos povos, caráter

que só com o tempo desaparece, mediante a fusão e o progresso deles.

(Revista espírita, julho de 1860: Frenologia e Fisiognomonia.)116

31. Podem comparar-se os Espíritos que vieram povoar a Terra a

esses bandos de emigrantes de origens diversas, que vão estabelecer-se

numa terra virgem, onde encontram madeira e pedra para erguerem ha

bitações, cada um dando à sua um cunho especial, de acordo com o grau

do seu saber e com o seu gênio particular. Grupam-se então por analogia

de origens e de gostos, acabando os grupos por formar tribos, em seguida

povos, cada qual com costumes e caracteres próprios.

32. Não foi, portanto, uniforme o progresso em toda a espécie hu

mana. Como era natural, as raças mais inteligentes adiantaram-se às ou

tras, mesmo sem se levar em conta que muitos Espíritos recém-nascidos

para a vida espiritual, vindo encarnar na Terra com os primeiros aí che

gados, tornaram ainda mais sensível a diferença em matéria de progresso.

Fora, com efeito, impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação

aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem,

ainda menos, aos europeus civilizados.

Entretanto, os Espíritos dos selvagens também fazem parte da hu

manidade e alcançarão um dia o nível em que se acham seus irmãos

mais velhos. Mas sem dúvida, não será em corpos da mesma raça física,

impróprios a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando

o instrumento já não estiver em correspondência com o progresso que

hajam alcançado, eles emigrarão daquele meio, para encarnar noutro

mais elevado e assim por diante, até que tenham conquistado todas as

graduações terrestres, ponto em que deixarão a Terra, para passar a mun

dos mais avançados. (Revista espírita, abril de 1862: Perfectibilidade da

Raça Negra.)

Reencarnações

33. O princípio da reencarnação é uma consequência necessária

da lei de progresso. Sem a reencarnação, como se explicaria a diferença

que existe entre o presente estado social e o dos tempos de barbárie? Se

as almas são criadas ao mesmo tempo que os corpos, as que nascem hoje

são tão novas, tão primitivas, quanto as que viviam há mil anos; acrescen

temos que nenhuma conexão haveria entre elas, nenhuma relação neces

sária; seriam de todo estranhas umas às outras. Por que, então, as de hoje

haviam de ser melhor dotadas por Deus, do que as que as precederam?

Por que têm aquelas melhor compreensão? Por que possuem instintos

mais apurados, costumes mais brandos? Por que têm a intuição de certas

coisas, sem as haverem aprendido? Duvidamos de que alguém saia desses

dilemas, a menos admita que Deus cria almas de diversas qualidades, de

acordo com os tempos e lugares, proposição inconciliável com a ideia de

uma justiça soberana. (Cap. II, item 10.)

Admiti, ao contrário, que as almas de agora já viveram em tempos

distantes; que possivelmente foram bárbaras como os séculos em que es

tiveram no mundo, mas que progrediram; que para cada nova existência

trazem o que adquiriram nas existências precedentes; que, por conse

guinte, as dos tempos civilizados não são almas criadas mais perfeitas,

porém que se aperfeiçoaram por si mesmas com o tempo, e tereis a única

explicação plausível da causa do progresso social.

34. Pensam alguns que as diferentes existências da alma se efetuam,

passando elas de mundo em mundo e não num mesmo orbe, onde cada

Espírito viria uma única vez.

Seria admissível esta doutrina, se todos os habitantes da Terra es

tivessem no mesmo nível intelectual e moral. Eles então só poderiam

progredir indo de um mundo a outro e nenhuma utilidade lhes adviria

Gênese espiritual

da encarnação na Terra. Desde que aí se notam a inteligência e a mo

ralidade em todos os graus, desde a selvajaria que beira o animal até a

mais adiantada civilização, é evidente que esse mundo constitui um vasto

campo de progresso. Por que haveria o selvagem de ir procurar alhures o

grau de progresso logo acima do em que ele está, quando esse grau se lhe

acha ao lado e assim sucessivamente? Por que não teria podido o homem

adiantado fazer os seus primeiros estágios senão em mundos inferiores,

quando ao seu derredor estão seres análogos aos desses mundos? quando,

não só de povo a povo, mas no seio do mesmo povo e da mesma família,

há diferentes graus de adiantamento? Se fosse assim, Deus houvera feito

coisa inútil, colocando lado a lado a ignorância e o saber, a barbaria e a

civilização, o bem e o mal, quando precisamente esse contato é que faz

que os retardatários avancem.

Não há, pois, necessidade de que os homens mudem de mundo a

cada etapa de aperfeiçoamento, como não há de que o estudante mude

de colégio para passar de uma classe a outra. Longe de ser isso vantagem

para o progresso, ser-lhe-ia um entrave, porquanto o Espírito ficaria

privado do exemplo que lhe oferece a observação do que ocorre nos

graus mais elevados e da possibilidade de reparar seus erros no mesmo

meio e em presença dos a quem ofendeu, possibilidade que é, para ele,

o mais poderoso modo de realizar o seu progresso moral. Após cur

ta coabitação, dispersando-se os Espíritos e tornando-se estranhos uns

aos outros, romper-se-iam os laços de família, à falta de tempo para se

consolidarem.

Ao inconveniente moral se juntaria um inconveniente material.

A natureza dos elementos, as leis orgânicas, as condições de existência

variam, de acordo com os mundos; sob esse aspecto, não há dois perfei

tamente idênticos. Os tratados de Física, de Química, de Anatomia, de

Medicina, de Botânica etc., para nada serviriam nos outros mundos; en

tretanto, não fica perdido o que neles se aprende; não só isso desenvolve a

inteligência, como também as ideias que se colhem de tais obras auxiliam

a aquisição de outras. (Cap. VI, itens 61 e seguintes.) Se apenas uma úni

ca vez fizesse o Espírito a sua aparição, frequentemente brevíssima, num

mesmo mundo, em cada imigração ele se acharia em condições inteira

mente diversas; operaria de cada vez sobre elementos novos, com força

e segundo leis que desconheceria, antes de ter tido tempo de elaborar os

elementos conhecidos, de os estudar, de os aplicar. Teria de fazer, de cada

vez, um novo aprendizado e essas mudanças contínuas representariam

um obstáculo ao progresso. O Espírito, portanto, tem que permanecer

no mesmo mundo, até que haja adquirido a soma de conhecimentos e o

grau de perfeição que esse mundo comporta. (Item 31.)

Que os Espíritos deixem, por um mundo mais adiantado, aquele

do qual nada mais podem auferir, é como deve ser e é. Tal o princípio.

Se alguns há que antecipadamente deixam o mundo em que vinham

encarnando, é isso devido a causas individuais que Deus pesa em sua

sabedoria.

Tudo na Criação tem uma finalidade, sem o que Deus não seria

nem prudente, nem sábio. Ora, se a Terra se destinasse a ser uma única

etapa do progresso para cada indivíduo, que utilidade haveria, para os

Espíritos das crianças que morrem em tenra idade, vir passar aí alguns

anos, alguns meses, algumas horas, durante os quais nada podem hau

rir dele? O mesmo ocorre se pondere com referência aos idiotas e aos

cretinos. Uma teoria somente é boa sob a condição de resolver todas as

questões a que diz respeito. A questão das mortes prematuras há sido

uma pedra de tropeço para todas as doutrinas, exceto para a Doutrina

Espírita, que a resolveu de maneira racional e completa.

Para o progresso daqueles que cumprem na Terra uma missão nor

mal, há vantagem real em volverem ao mesmo meio para aí continuarem

o que deixaram inacabado, muitas vezes na mesma família ou em contato

com as mesmas pessoas, a fim de repararem o mal que tenham feito, ou

de sofrerem a pena de talião.

Emigrações e imigrações dos Espíritos

35. No intervalo de suas existências corporais, os Espíritos se en

contram no estado de erraticidade e formam a população espiritual am

biente da Terra. Pelas mortes e pelos nascimentos, as duas populações,

terrestre e espiritual, deságuam incessantemente uma na outra. Há, pois,

diariamente, emigrações do mundo corpóreo para o mundo espiritual e

imigrações deste para aquele: é o estado normal.

36. Em certas épocas, determinadas pela sabedoria divina, es

sas emigrações e imigrações se operam por massas mais ou menos

Gênese espiritual

consideráveis, em virtude das grandes revoluções que lhes ocasionam

a partida simultânea em quantidades enormes, logo substituídas por

equivalentes quantidades de encarnações. Os flagelos destruidores e os

cataclismos devem, portanto, considerar-se como ocasiões de chegadas

e partidas coletivas, meios providenciais de renovamento da popula

ção corporal do globo, de ela se retemperar pela introdução de novos

elementos espirituais mais depurados. Na destruição, que por essas ca

tástrofes se verifica, de grande número de corpos, nada mais há do que

rompimento de vestiduras; nenhum Espírito perece; eles apenas mudam

de planos; em vez de partirem isoladamente, partem em bandos, essa a

única diferença, visto que, ou por uma causa ou por outra, fatalmente

têm que partir, cedo ou tarde.

As renovações rápidas, quase instantâneas, que se produzem no

elemento espiritual da população, por efeito dos flagelos destruidores,

apressam o progresso social; sem as emigrações e imigrações que de tem

pos a tempos lhe vêm dar violento impulso, só com extrema lentidão esse

progresso se realizaria.

É de notar-se que todas as grandes calamidades que dizimam as

populações são sempre seguidas de uma era de progresso de ordem física,

intelectual, ou moral e, por conseguinte, no estado social das nações que

as experimentam. É que elas têm por fim operar uma remodelação na

população espiritual, que é a população normal e ativa do globo.

37. Essa transfusão, que se efetua entre a população encarnada e de

sencarnada de um planeta, igualmente se efetua entre os mundos, quer in

dividualmente, nas condições normais, quer por massas, em circunstâncias

especiais. Há, pois, emigrações e imigrações coletivas de um mundo para

outro, donde resulta a introdução, na população de um deles, de elementos

inteiramente novos. Novas raças de Espíritos, vindo misturar-se às exis

tentes, constituem novas raças de homens. Ora, como os Espíritos nunca

mais perdem o que adquiriram, consigo trazem eles sempre a inteligência

e a intuição dos conhecimentos que possuem, o que faz que imprimam o

caráter que lhes é peculiar à raça corpórea que venham animar. Para isso,

só necessitam de que novos corpos sejam criados para serem por eles usa

dos. Uma vez que a espécie corporal existe, eles encontram sempre corpos

prontos para os receber. Não são mais, portanto, do que novos habitantes.

chegando à Terra, integram-lhe, a princípio, a população espiritual; depois,

encarnam, como os outros.

Raça adâmica

38. De acordo com o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes

imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de

outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por

essa razão mesma, chamada raça adâmica. Quando ela aqui chegou, a

Terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quan

do aí chegaram os europeus.

Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a

raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso

todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, indus

triosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância

espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a

opinião de que ela se compunha de Espíritos que já tinham progredido

bastante. Tudo prova que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada

se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas

alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os

fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, antes tenderia

a confirmá-las.

39. No estado atual dos conhecimentos, não é admissível a dou

trina segundo a qual todo o gênero humano procede de uma individua

lidade única, de há seis mil anos somente a esta parte. Tomadas à ordem

física e à ordem moral, as considerações que a contradizem se resumem

no seguinte:

Do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam carac

terísticos tipos particulares, que não permitem se lhes assinale uma

origem comum. Há diferenças que evidentemente não são simples

efeito do clima, pois que os brancos que se reproduzem nos países dos

negros não se tornam negros e reciprocamente. O ardor do Sol tosta

e brune a epiderme, porém, nunca transformou um branco em negro,

nem lhe achatou o nariz, ou mudou a forma dos traços da fisiono

mia, nem lhe tornou lanzudo e encarapinhado o cabelo comprido e

sedoso. Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido especial

subcutâneo,117 peculiar à espécie.

Há, pois, de se considerar as raças negras, mongólicas, caucásicas

como tendo origem própria, como tendo nascido simultânea ou suces

sivamente em diversas partes do globo. O cruzamento delas produziu as

raças mistas secundárias. Os caracteres fisiológicos das raças primitivas

constituem indício evidente de que elas procedem de tipos especiais.

As mesmas considerações se aplicam, conseguintemente, assim aos ho

mens, quanto aos animais, no que concerne à pluralidade dos troncos.

40. Adão e seus descendentes são apresentados na Gênese como

homens sobremaneira inteligentes, pois que, desde a segunda geração,

constroem cidades, cultivam a terra, trabalham os metais. São rápidos e

duradouros seus progressos nas artes e nas ciências. Não se conceberia,

portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão

atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias ras

tejam a animalidade, que hajam perdido todos os traços e, até, a menor

lembrança do que faziam seus pais. Tão radical diferença nas aptidões in

telectuais e no desenvolvimento moral atesta, com evidência não menor,

uma diferença de origem.

41. Independentemente dos fatos geológicos, da população do glo

bo se tira a prova da existência do homem na Terra, antes da época fixada

pela Gênese.

Sem falar da cronologia chinesa, que remonta, dizem, a trinta mil

anos,118 documentos mais autênticos provam que o Egito, a Índia e ou

tros países já eram povoados e floresciam, pelo menos, três mil anos antes

da Era Cristã, mil anos, portanto, depois da criação do primeiro homem,

segundo a cronologia bíblica. Documentos e observações recentes não

consentem hoje dúvida alguma quanto às relações que existiram entre a

América e os antigos egípcios, donde se tem de concluir que essa região

já era povoada naquela época. Forçoso então seria admitir-se que, em mil anos, a posteridade de um único homem pôde povoar a maior parte da

Terra. Ora, semelhante fecundidade estaria em antagonismo com todas

as leis antropológicas.119

42. Ainda mais evidente se torna a impossibilidade, desde que se

admita, com a Gênese, que o dilúvio destruiu todo o gênero humano, com

exceção de Noé e de sua família, que não era numerosa, no ano de 1656

do mundo, ou seja, 2.348 anos antes da Era Cristã. Em realidade, pois,

daquele patriarca é que dataria o povoamento da Terra. Ora, quando os

hebreus se estabeleceram no Egito, 612 anos após o dilúvio, já o Egito

era um poderoso império, que teria sido povoado, sem falar de outros

países, em menos de seis séculos, só pelos descendentes de Noé, o que

não é admissível.

Notemos, de passagem, que os egípcios acolheram os hebreus

como estrangeiros. Seria de espantar que houvessem perdido a lembran

ça de uma tão próxima comunidade de origem, quando conservaram

religiosamente os monumentos de sua história.

Rigorosa lógica, com os fatos a corroborá-la da maneira mais pe

remptória, mostra, pois, que o homem está na Terra desde tempo in

determinado, muito anterior à época que a Gênese assinala. O mesmo

ocorre com a diversidade dos troncos primitivos, porquanto demons

trar a impossibilidade de uma proposição é demonstrar a proposição

contrária. Se a Geologia descobre traços autênticos da presença do

homem antes do grande período diluviano, ainda mais completa é a

demonstração.

Entretanto, nada se opõe a que o público saiba, desde já, que a exploração assinalou a existência

de grande número de cidades desaparecidas com o tempo, mas que a picareta e o incêndio podem

retirar de suas mortalhas. As escavações puseram a descoberto, por toda parte, três camadas de civilizações, que dão ao mundo americano uma antiguidade fabulosa.”

É assim que todos os dias a Ciência opõe o desmentido dos fatos à doutrina que limita a 6.000 anos a aparição do homem na Terra e pretende fazê-lo derivar de um tronco único.

Doutrina dos anjos decaídos e da perda do paraíso

43. Os mundos progridem, fisicamente, pela elaboração da maté

ria e, moralmente, pela purificação dos Espíritos que os habitam. A feli

cidade neles está na razão direta da predominância do bem sobre o mal

e a predominância do bem resulta do adiantamento moral dos Espíritos.

O progresso intelectual não basta, pois que com a inteligência podem

eles fazer o mal.

Logo que um mundo tem chegado a um de seus períodos de

transformação, a fim de ascender na hierarquia dos mundos, operam-se

mutações na sua população encarnada e desencarnada. É quando se dão

as grandes emigrações e imigrações (itens 34 e 35). Os que, apesar da sua

inteligência e do seu saber, perseveraram no mal, sempre revoltados con

tra Deus e suas leis, se tornariam daí em diante um embaraço ao ulterior

progresso moral, uma causa permanente de perturbação para a tranquili

dade e a felicidade dos bons, pelo que são excluídos da humanidade a que

até então pertenceram e tangidos para mundos menos adiantados, onde

aplicarão a inteligência e a intuição dos conhecimentos que adquiriram

ao progresso daqueles entre os quais passam a viver, ao mesmo tempo

que expiarão, por uma série de existências penosas e por meio de árduo

trabalho, suas passadas faltas e seu voluntário endurecimento.

Que serão tais seres, entre essas outras populações, para eles no

vas, ainda na infância da barbárie, senão anjos ou Espíritos decaídos, ali

vindos em expiação? Não é, precisamente, para eles, um paraíso perdido

a terra donde foram expulsos? Essa terra não lhes era um lugar de delícias,

em comparação com o meio ingrato onde vão ficar relegados por milha

res de séculos, até que hajam merecido libertar-se dele? A vaga lembrança

intuitiva que guardam da terra donde vieram é uma como longínqua

miragem a lhes recordar o que perderam por culpa própria.

44. Ao mesmo tempo que os maus se afastam do mundo em que

habitavam, Espíritos melhores aí os substituem, vindos quer da erratici

dade, concernente a esse mundo, quer de um mundo menos adiantado,

que mereceram abandonar; Espíritos esses para os quais a nova habitação

é uma recompensa. Assim renovada e depurada a população espiritual

dos seus piores elementos, ao cabo de algum tempo o estado moral do

mundo se encontra melhorado.

São às vezes parciais essas mutações, isto é, circunscritas a um

povo, a uma raça; doutras vezes, são gerais, quando chega para o globo o

período de renovação.

45. A raça adâmica apresenta todos os caracteres de uma raça pros

crita. Os Espíritos que a integram foram exilados para a Terra, já po

voada, mas de homens primitivos, imersos na ignorância, que aqueles

tiveram por missão fazer progredir, levando-lhes as luzes de uma inteli

gência desenvolvida. Não é esse, com efeito, o papel que essa raça há de

sempenhado até hoje? Sua superioridade intelectual prova que o mundo

donde vieram os Espíritos que a compõem era mais adiantado do que

a Terra. Havendo entrado esse mundo numa nova fase de progresso e

não tendo tais Espíritos querido, pela sua obstinação, colocar-se à altura

desse progresso, lá estariam deslocados e constituiriam um obstáculo à

marcha providencial das coisas. Foram, em consequência, desterrados de

lá e substituídos por outros que isso mereceram.

Relegando aquela raça para esta terra de labor e de sofrimentos,

teve Deus razão para lhe dizer: “Dela tirarás o alimento com o suor da

tua fronte.” Na sua mansuetude, prometeu-lhe que lhe enviaria um Sal

vador, isto é, um ser que a esclareceria sobre o caminho que lhe cumpria

tomar, para sair desse lugar de miséria, desse inferno, e ganhar a felicidade

dos eleitos. Esse Salvador, Ele lho enviou na pessoa do Cristo, que lhe

ensinou a lei de amor e de caridade que ela, a raça, desconhecia e que

seria a verdadeira âncora de salvação.

É igualmente com o objetivo de fazer que a humanidade se adian

te em determinado sentido que Espíritos superiores, embora não te

nham as qualidades do Cristo, encarnam de tempos a tempos na Terra

para desempenhar missões especiais, proveitosas, simultaneamente, ao

adiantamento pessoal deles, se as cumprirem de acordo com os desígnios

do Criador.

46. Sem a reencarnação, a missão do Cristo seria um contrassenso,

assim como a promessa feita por Deus. Suponhamos, com efeito, que a

alma de cada homem seja criada por ocasião do nascimento do corpo e

não faça mais do que aparecer e desaparecer da Terra: nenhuma relação

haveria entre as que vieram desde Adão até Jesus Cristo, nem entre as

que vieram depois; todas são estranhas umas às outras. A promessa que

Deus fez de um Salvador não poderia entender-se com os descendentes

de Adão, uma vez que suas almas ainda não estavam criadas. Para que

a missão do Cristo pudesse corresponder às palavras de Deus, fora mis

ter se aplicassem às mesmas almas. Se estas são novas, não podem estar

maculadas pela falta do primeiro pai, que é apenas pai carnal e não pai

espiritual. A não ser assim, Deus houvera criado almas com a mácula

de uma falta que não podia deixar nelas vestígio, pois que elas não exis

tiam. A doutrina vulgar do pecado original implica, conseguintemente,

a necessidade de uma relação entre as almas do tempo do Cristo e as do

tempo de Adão; implica, portanto, a reencarnação.

Dizei que todas essas almas faziam parte da colônia de Espíritos

exilados na Terra ao tempo de Adão e que se achavam manchadas dos

vícios que lhes acarretaram ser excluídas de um mundo melhor e tereis a

única interpretação racional do pecado original, pecado peculiar a cada

indivíduo e não resultado da responsabilidade da falta de outrem a quem

ele jamais conheceu. Dizei que essas almas ou Espíritos renascem diversas

vezes na Terra para a vida corpórea, a fim de progredirem, depurando-se;

que o Cristo veio esclarecer essas mesmas almas, não só acerca de suas vi

das passadas, como também com relação às suas vidas ulteriores e então,

mas só então, lhe dareis à missão um sentido real e sério, que a razão

pode aceitar.

47. Um exemplo familiar, mas frisante pela analogia, ainda mais

compreensíveis tornará os princípios que acabam de ser expostos.

A 24 de maio de 1861, a fragata Ifigênia transportou à Nova

Caledônia121 uma companhia disciplinar composta de 291 homens. À

chegada, o comandante lhes baixou uma ordem do dia concebida assim:

“Pondo os pés nesta terra longínqua, já sem dúvida compreendes

tes o papel que vos está reservado.

A exemplo dos bravos soldados da nossa marinha, que servem sob

as vossas vistas, ajudar-nos-eis a levar com brilho o facho da civilização

ao seio das tribos selvagens da Nova Caledônia. Não é uma bela e nobre

missão, pergunto? Desempenhá-la-eis dignamente.

Escutai a palavra e os conselhos dos vossos chefes. Estou à frente

deles. Entendei bem as minhas palavras.

A escolha do vosso comandante, dos vossos oficiais, dos vossos su

boficiais e cabos constitui garantia certa de que todos os esforços serão

tentados para fazer-vos excelentes soldados, digo mais: para vos elevar

à altura de bons cidadãos e vos transformar em colonos honrados, se o

quiserdes.

A nossa disciplina é severa e assim tem que ser. Colocada em nos

sas mãos, ela será firme e inflexível, ficai sabendo, do mesmo modo que,

justa e paternal, saberá distinguir o erro do vício e da degradação...”

Aí tendes um punhado de homens expulsos, pelo seu mau pro

ceder, de um país civilizado e mandados, por punição, para o meio de

um povo bárbaro. Que lhes diz o chefe? — “Infringistes as leis do vosso

país; nele vos tornastes causa de perturbação e escândalo e fostes expul

sos; mandam-vos para aqui, mas aqui podeis resgatar o vosso passado;

podeis, pelo trabalho, criar-vos aqui uma posição honrosa e tornar-vos

cidadãos honestos. Tendes uma bela missão a cumprir: levar a civilização

a estas tribos selvagens. A disciplina será severa, mas justa, e saberemos

distinguir os que procederem bem. Tendes nas mãos a vossa sorte; podeis

melhorá-la, se o quiserdes, porque tendes o livre-arbítrio.”

Para aqueles homens, lançados ao seio da selvajaria, a mãe-pátria

não é um paraíso que eles perderam pelas suas próprias faltas e por se re

belarem contra a lei? Naquela terra distante, não são eles anjos decaídos?

A linguagem do chefe não é idêntica à de que usou Deus falando aos

Espíritos exilados na Terra: “Desobedecestes às minhas leis e, por isso,

eu vos expulsei do mundo onde podíeis viver ditosos e em paz. Aqui,

estareis condenados ao trabalho; mas, podereis, pelo vosso bom procedi

mento, merecer perdão e reganhar a pátria que perdestes por vossa falta,

isto é, o Céu?”

48. À primeira vista, a ideia de decaimento parece em contradição

com o princípio segundo o qual os Espíritos não podem retrogradar.

Deve-se, porém, considerar que não se trata de um retrocesso ao esta

do primitivo. O Espírito, ainda que numa posição inferior, nada perde

do que adquiriu; seu desenvolvimento moral e intelectual é o mesmo,

qualquer que seja o meio onde se ache colocado. Ele está na situação do

homem do mundo condenado à prisão por seus delitos. Certamente,

esse homem se encontra degradado, decaído, do ponto de vista social,

mas não se torna nem mais estúpido, nem mais ignorante.

49. Será crível, perguntamos agora, que esses homens mandados

para a Nova Caledônia vão transformar-se de súbito em modelos de vir

tude? Que vão abjurar repentinamente seus erros do passado? Para supor

tal coisa, fora necessário desconhecer a humanidade. Pela mesma razão,

os Espíritos da raça adâmica, uma vez transplantados para a terra do

exílio, não se despojaram instantaneamente do seu orgulho e de seus

maus instintos; ainda por muito tempo conservaram as tendências que

traziam, um resto da velha levedura. Ora, não é esse o pecado original?

Gênese moisaica

UM. No começo criou Deus o Céu e a Terra. — 2. A Terra

era uniforme e inteiramente nua; as trevas cobriam a face do abismo e o Espírito

de Deus boiava sobre as águas. — 3. Ora, Deus disse: “Faça-se a luz e a luz foi

feita.” — 4. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. — 5. Deu

à luz o nome de dia e às trevas o nome de noite e da tarde e da manhã se fez o

primeiro dia.

6. Disse Deus também: “Faça-se o firmamento no meio das águas e que ele se

pare das águas as águas.” — 7. E Deus fez o firmamento e separou as águas que

estavam debaixo do firmamento das que estavam acima do firmamento. E assim

se fez. — 8. E Deus deu ao firmamento o nome de céu; da tarde e da manhã se

fez o segundo dia.

9. Disse Deus ainda: “Reúnam-se num só lugar as águas que estão sob o céu e

apareça o elemento árido.” E assim se fez. — 10. Deus deu ao elemento árido

o nome de terra e chamou mar a todas as águas reunidas. E viu que isso estava

bem. — 11. Disse mais: “Produza a terra a erva verde que traz a semente e árvo

res frutíferas que deem frutos cada um de uma espécie, e que contenham em si

mesmas as suas sementes, para se reproduzirem na terra.” E assim se fez. — 12.

A terra então produziu a erva verde que trazia consigo a sua semente, conforme

a espécie, e árvores frutíferas que continham em si mesmas suas sementes, cada

uma de acordo com a sua espécie. E Deus viu que estava bom. — 13. E da tarde

e da manhã se fez o terceiro dia.

14. Deus disse também: “Façam-se corpos de luz no firmamento do céu, a fim

de que separem o dia da noite e sirvam de sinais para marcar o tempo e as esta

ções, os dias e os anos. — 15. Brilhem eles no firmamento do céu e iluminem a

Terra.” E assim se fez. — 16. Deus então fez dois grandes corpos luminosos, um,

maior, para presidir ao dia, o outro, menor, para presidir à noite; fez também as

estrelas. — 17. E os pôs no firmamento do céu, para brilharem sobre a Terra. —

18. Para presidirem ao dia e à noite e para separarem a luz das trevas. E Deus viu

que estava bom. — 19. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.

20. Disse Deus ainda: “Produzam as águas animais vivos que nadem e pássaros

que voem sobre a Terra debaixo do firmamento do céu.” —21. Deus então criou

os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimento, que as águas

produziram, cada um de uma espécie, e criou também todos os pássaros, cada

um de uma espécie. Viu que estava bom. — 22. E os abençoou, dizendo: “Cres

cei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar; e que os pássaros se multipliquem

sobre a Terra.” — 23. E da tarde e da manhã se fez o quinto dia.

24. Também disse Deus: “Produza a Terra animais vivos, cada um de sua espécie,

os animais domésticos e os animais selvagens, em suas diferentes espécies.” E as

sim se fez. — 25. Deus fez, pois, os animais selvagens da Terra em suas espécies,

os animais domésticos e todos os reptis, cada um de sua espécie. E Deus viu que

estava bom.

26. Disse, em seguida: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança e

que ele mande sobre os peixes do mar, os pássaros do céu, os animais, sobre

toda a Terra e sobre todos os reptis que se movem na terra.” — 27. Deus então

criou o homem à sua imagem e o criou à imagem de Deus e o criou macho e

fêmea. — 28. Deus os abençoou e lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos, enchei

a Terra e sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu

e sobre todos os animais que se movem na terra.” — 29. Disse Deus ainda:

“Dei-vos todas as ervas que trazem sua semente à terra e todas as árvores que

encerram em si mesmas suas sementes, cada uma de uma espécie, a fim de que

vos sirvam de alimento.” — 30. E dei-as a todos os animais da terra, a todos os

pássaros do céu, a tudo o que se move na terra e que é vivo e animado, a fim

de que tenham com que se alimentar. E assim se fez. — 31. Deus viu todas as

coisas que havia feito; eram todas muito boas. — 32. E da tarde e da manhã

se fez o sexto dia.

DOIS. — 1. O Céu e a Terra ficaram, pois, acabados assim, com todos

os seus ornamentos. — 2. Deus terminou no sétimo dia toda a obra que fizera e

repousou nesse sétimo dia, após haver acabado todas as suas obras. — 3. Aben

çoou o sétimo dia e o santificou, porque cessara nesse dia de produzir todas as

obras que criara. — 4. Tal a origem do Céu e da Terra e é assim que eles foram

criados no dia que o Senhor fez um e outro. — 5. E que criou todas as plantas

dos campos antes que houvessem saído da terra e todas as ervas das planícies

antes que houvessem germinado. Porque o Senhor Deus ainda não tinha feito

que chovesse sobre a terra e não havia homem para lavrá-la. — 6. Mas da terra

se elevava uma fonte que lhe regava toda a superfície.

7. O Senhor Deus formou, pois, o homem do limo da terra e lhe espalhou sobre

o rosto um sopro de vida, e o homem se tornou vivente e animado.

2. Depois das explanações contidas nos capítulos precedentes so

bre a origem e a constituição do universo, conformemente aos dados

fornecidos pela Ciência, quanto à parte material, e pelo Espiritismo,

quanto à parte espiritual, convém ponhamos em confronto com tudo

isso o próprio texto da Gênese de Moisés, a fim de que cada um faça a

comparação e julgue com conhecimento de causa. Algumas explicações

complementares bastarão para tornar compreensíveis as partes que preci

sam de esclarecimentos especiais.

3. Sobre alguns pontos, há, sem dúvida, notável concordância en

tre a Gênese moisaica e a doutrina científica, mas fora erro acreditar que

basta se substituam os seis dias de 24 horas da Criação por seis períodos

indeterminados, para se tornar completa a analogia. Não menor erro

seria o acreditar-se que, afora o sentido alegórico de algumas palavras, a

Gênese e a Ciência caminham lado a lado, sendo uma, como se vê, sim

ples paráfrase da outra.

4. Notemos, em primeiro lugar, que, como já se disse (cap. VII,

item 14), é inteiramente arbitrário o número de seis períodos geológicos,

pois que se eleva a mais de vinte e cinco o das formações bem caracteriza

das, número que, ademais, apenas determina as grandes fases gerais. Ele

só foi adotado, em começo, para encaixar as coisas, o mais possível, no

texto bíblico, numa época, aliás, pouco distante, em que se entendia que

a Ciência devia ser controlada pela Bíblia. Essa a razão por que os autores

da maior parte das teorias cosmogônicas, tendo em vista facilitar-lhe a

aceitação, se esforçaram por pôr-se de acordo com o texto sagrado. Logo

que se apoiou no método experimental, a Ciência sentiu-se mais forte e

se emancipou. Hoje, é ela que controla a Bíblia.

Doutro lado, a Geologia, tomando por ponto de partida unicamen

te a formação dos terrenos graníticos, não abrange, no cômputo de seus

períodos, o estado primitivo da Terra. Tampouco se ocupa com o Sol, com

a Lua e com as estrelas, nem com o conjunto do universo, assuntos esses

que pertencem à Astronomia. Para enquadrar tudo na Gênese, cumpre se

acrescente um primeiro período, que abarque essa ordem de fenômenos e

ao qual se poderia chamar — período astronômico.

Além disso, nem todos os geólogos consideram o diluviano como

formando um período distinto, mas como um fato transitório e passa

geiro, que não mudou sensivelmente o estado climático do globo, nem

marcou uma fase nova para as espécies vegetais e animais, pois que, com

poucas exceções, as mesmas espécies se encontram, assim antes, como

depois do dilúvio. Pode-se, pois, abstrair desse período, sem menospre

zo da verdade.

5. O quadro comparativo aqui abaixo, em o qual se acham resu

midos os fenômenos que caracterizam cada um dos seis períodos, per

mite se considere o conjunto e se notem as relações e as diferenças que

existem entre os referidos períodos e a gênese bíblica.

CIÊNCIA

GÊNESE

I. PERÍODO ASTRONÔMICO – Aglomeração

da matéria cósmica universal, num ponto do espa

ço, em nebulosa que deu origem, pela condensação

da matéria em diversos pontos, às estrelas, ao Sol, à

Terra, à Lua e a todos os planetas.

Estado primitivo, fluídico e incandescente da Terra. – Atmosfera imensa, carregada de toda a água em

vapor e de todas as matérias volatilizáveis.

1o DIA – O Céu e a Terra. – A luz.

II. PERÍODO PRIMÁRIO – Endurecimento da

superfície da Terra, pelo resfriamento; formação

das camadas graníticas. – Atmosfera espessa e ar

dente, impenetrável aos raios solares. – Precipita

ção gradual da água e das matérias sólidas volatili

zadas no ar. – Ausência completa de vida orgânica.

2o DIA – O firmamento. – Separação das águas que

estão acima do firmamento

das que lhe estão debaixo.

III. PERÍODO DE TRANSIÇÃO – As águas co

brem toda a superfície do globo. – Primeiros depó

sitos de sedimentos formados pelas águas. – Calor

úmido. – O Sol começa a atravessar a atmosfera

brumosa. – Primeiros seres organizados da mais

rudimentar constituição. – Liquens, musgos, fetos,

licopódios, plantas herbáceas. Vegetação colossal. –

Primeiros animais marinhos: zoófitos, polipeiros,

crustáceos. — Depósitos de hulha.

3o DIA – As águas que estão

debaixo do firmamento se

reúnem; aparece o elemento

árido. – A terra e os mares. –

As plantas.

IV. PERÍODO SECUNDÁRIO – Superfície da

Terra pouco acidentada; águas pouco profundas e

paludosas. Temperatura menos ardente; atmosfera

mais depurada. Consideráveis depósitos de calcá

rios pelas águas. – Vegetação menos colossal; novas

espécies; plantas lenhosas; primeiras árvores. – Pei

xes; cetáceos; animais aquáticos e anfíbios.

4o DIA – O Sol, a Lua e as

estrelas.

V. PERÍODO TERCIÁRIO – Grandes intumesci

mentos da crosta sólida; formação dos continentes.

Retirada das águas para os lugares baixos; forma

ção dos mares. – Atmosfera depurada; temperatu

ra atual produzida pelo calor solar. – Gigantescos

animais terrestres. Vegetais e animais da atualidade.

Pássaros.

5o DIA – Os peixes e os

pássaros.

DILÚVIO UNIVERSAL

VI. PERÍODO QUATERNÁRIO OU

PÓS-DILUVIANO – Terrenos de aluvião. – Vege

tais e animais da atualidade. – O homem.

6o DIA – Os animais terres

tres. – O homem.

6. Desse quadro comparativo, o primeiro fato que ressalta é que

a obra de cada um dos seis dias não corresponde de maneira rigorosa,

como o supõem muitos, a cada um dos seis períodos geológicos. A con

cordância mais notável se verifica na sucessão dos seres orgânicos, que é

quase a mesma, com pequena diferença, e no aparecimento do homem,

por último. É esse um fato importante.

Há também coincidência, não quanto à ordem numérica dos pe

ríodos, mas quanto ao fato em si, na passagem em que se lê que, ao

terceiro dia, “as águas que estão debaixo do céu se reuniram num só

lugar e apareceu o elemento árido”. É a expressão do que ocorreu no

período terciário, quando as elevações da crosta sólida puseram a desco

berto os continentes e repeliram as águas, que foram formar os mares.

Foi somente então que apareceram os animais terrestres,122 segundo a

Geologia e segundo Moisés.

7. Dizendo que a Criação foi feita em seis dias, terá Moisés queri

do falar de dias de 24 horas, ou terá empregado essa palavra no sentido

de período, de duração? É mais provável a primeira hipótese, se nos ati

vermos ao texto acima, primeiramente, porque esse é o sentido próprio

da palavra hebraica iôm, traduzida por dia. Depois, a referência à tarde

e à manhã, como limitações de cada um dos seis dias, dá lugar a que se

suponha haja ele querido falar de dias comuns. Não se pode conceber

qualquer dúvida a tal respeito, estando dito, no versículo 5: “Ele deu à

luz o nome de dia e às trevas o nome de noite; e da tarde e da manhã se

fez o primeiro dia.” Isto, evidentemente, só se pode aplicar ao dia de 24

horas, constituído de períodos de luz e de trevas. Ainda mais preciso se

torna o sentido, quando ele diz, no versículo 17, falando do Sol, da Lua

e das estrelas: “Colocou-as no firmamento do céu, para luzirem sobre a

Terra; para presidirem ao dia e à noite e para separarem a luz das trevas.

E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.”

Aliás, tudo, na Criação, era miraculoso e, desde que se envereda pela

senda dos milagres, pode-se perfeitamente crer que a Terra foi feita em seis

vezes 24 horas, sobretudo quando se ignoram as primeiras leis naturais.

Todos os povos civilizados partilharam dessa crença, até o momento em

que a Geologia surgiu a lhe demonstrar a impossibilidade.

8. Um dos pontos que mais criticados têm sido na gênese é o da

criação do Sol depois da luz. Tentaram explicá-lo, com o auxílio mesmo

dos dados fornecidos pela Geologia, dizendo que, nos primeiros tempos

de sua formação, por se achar carregada de vapores densos e opacos, a

atmosfera terrestre não permitia se visse o Sol que, assim, efetivamente

não existia para a Terra. Semelhante explicação seria, porventura, admis

sível se, naquela época, já houvesse na Terra habitantes que verificassem

a presença ou a ausência do Sol. Ora, segundo o próprio Moisés, então,

somente plantas havia, as quais, contudo, não teriam podido crescer e

multiplicar-se sem o calor solar.

Há, pois, evidentemente, um anacronismo na ordem que Moisés

estabeleceu para a criação do Sol; mas, involuntariamente ou não, ele

não errou, dizendo que a luz precedeu o Sol.

O Sol não é o princípio da luz universal; é uma concentração do

elemento luminoso em um ponto, ou, por outra, do fluido que, em da

das circunstâncias, adquire as propriedades luminosas. Esse fluido, que

é a causa, havia necessariamente de preceder ao Sol, que é apenas um

efeito. O Sol é causa, relativamente à luz que dele se irradia; é efeito, com

relação à que recebeu.

Numa câmara escura, uma vela acesa é um pequeno sol. Que é

que se fez para acender a vela? Desenvolveu-se a propriedade iluminante

do fluido luminoso e concentrou-se num ponto esse fluido. A vela é a

causa da luz que se difunde pela câmara; mas, se não existira o princípio

luminoso antes da vela, esta não pudera ter sido acesa.

O mesmo se dá com o Sol. O erro provém da ideia falsa, alimen

tada por longo tempo, de que o universo inteiro começou com a Terra.

Daí o não compreenderem que o Sol pudesse ser criado depois da luz.

Em princípio, pois, a asserção de Moisés é perfeitamente exata: é falsa

no fazer crer que a Terra tenha sido criada antes do Sol. Estando, pelo

seu movimento de translação, sujeita a esse último, a Terra houve de ser

formada depois dele. É o que Moisés não podia saber, pois que ignorava

a lei de gravitação.

9. Moisés, evidentemente, partilhava das mais primitivas crenças

sobre a cosmogonia. Como os do seu tempo, ele acreditava na solidez da

abóbada celeste e em reservatórios superiores para as águas. Essa ideia se

acha expressa sem alegoria, nem ambiguidade, neste passo (versículos 6

e seguintes): “Deus disse: ‘Faça-se o firmamento no meio das águas para

separar das águas as águas.’ Deus fez o firmamento e separou as águas que

estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamen

to.” (Veja-se: cap. V, Antigos e modernos sistemas do mundo, itens 3 a 5.)

Segundo uma crença antiga, a água era tida como o princípio

primitivo, o elemento gerador, pelo que Moisés não fala da criação das

águas, parecendo que já elas existiam. “As trevas cobriam o abismo”, isto

é, as profundezas do espaço, que a imaginação imprecisamente figurava

ocupada pelas águas e em trevas, antes da criação da luz. Eis aí por que

Moisés diz: “O Espírito de Deus era levado (ou boiava) sobre as águas.”

Tida a Terra como formada no meio das águas, era preciso insulá-la.

Imaginou-se então que Deus fizera o firmamento, uma abóbada sólida,

para separar as águas de cima das que estavam sobre a Terra.

A fim de compreendermos certas partes da Gênese, faz-se indis

pensável que nos coloquemos no ponto de vista das ideias cosmogônicas

da época que ela reflete.

10. Em face dos progressos da Física e da Astronomia, é insusten

tável semelhante doutrina.126 Entretanto, Moisés atribui ao próprio Deus

aquelas palavras. Ora, visto que elas exprimem um fato notoriamente

da luz, na religião zoroastriana (antiga religião persa, fundada no século VII a.C. por Zoroastro,ncarac

terizada pelo dualismo ético, cósmico e teogônico, que implica a luta primordial entre dois deuses, representantes do bem e do mal. O zoroastrismo influenciou em diversos aspectos doutrinários a

tradição judaico-cristã).

11. Ele se houve com mais acerto, dizendo que Deus formou o

homem do limo da Terra.127 A Ciência, com efeito, mostra (cap. X) que o

corpo do homem se compõe de elementos tomados à matéria inorgânica,

ou, por outra, ao limo da terra.

A mulher formada de uma costela de Adão é uma alegoria, apa

rentemente pueril, se admitida ao pé da letra, mas profunda, quanto ao

sentido. Tem por fim mostrar que a mulher é da mesma natureza que

o homem, que é por conseguinte igual a este perante Deus e não uma

criatura à parte, feita para ser escravizada e tratada qual hilota. Tendo-a

como saída da própria carne do homem, a imagem da igualdade é bem

mais expressiva, do que se ela fora tida como formada, separadamente,

do mesmo limo. Equivale a dizer ao homem que ela é sua igual e não sua

escrava, que ele a deve amar como parte de si mesmo.

12. Para espíritos incultos, sem nenhuma ideia das leis gerais, in

capazes de apreender o conjunto e de conceber o infinito, essa criação

milagrosa e instantânea apresentava qualquer coisa de fantástico que fe

ria a imaginação. O quadro do universo tirado do nada em alguns dias,

por um só ato da vontade criadora, era, para tais espíritos, o sinal mais

evidente do poder de Deus. Que configuração, com efeito, mais sublime

e mais poética desse poder, do que a que estas palavras traçam: “Deus

disse: ‘Faça-se a luz e a luz foi feita!’” Deus, a criar o universo pela ação

lenta e gradual das leis da natureza, lhes houvera parecido menor e me

nos poderoso. Fazia-se-lhes indispensável qualquer coisa de maravilhoso,

que saísse dos moldes comuns, do contrário teriam dito que Deus não

era mais hábil do que os homens. Uma teoria científica e racional da

Criação os deixaria frios e indiferentes.

Não rejeitemos, pois, a Gênese bíblica; ao contrário, estudemo--la, como se estuda a história da infância dos povos. Trata-se de uma

época rica de alegorias, e seu sentido oculto se deve pesquisar; que se de

vem comentar e explicar com o auxílio das luzes da razão e da Ciência.

127 Nota de Allan Kardec: O termo hebreu haadam, homem, do qual se compôs Adão e o termo haadama, terra, têm a mesma raiz.

Fazendo, porém, ressaltar as suas belezas poéticas e os seus ensinamentos

velados pela forma imaginosa, cumpre se lhe apontem expressamente os

erros, no próprio interesse da religião. Esta será muito mais respeitada,

quando esses erros deixarem de ser impostos à fé, como verdade, e Deus

parecerá maior e mais poderoso, quando não lhe envolverem o nome em

fatos de pura invenção.

Perda do paraíso128

13. DOIS — 8. Ora, o Senhor Deus plantara desde o começo um

jardim de delícias, no qual pôs o homem que ele formara. — 9. O Senhor Deus

também fizera sair da terra toda espécie de árvores belas ao olhar e de fruto

agradável ao paladar e, no meio do paraíso,129 a árvore da vida, com a árvore da

ciência do bem e do mal. (Ele fez sair, Jeová Eloim, da terra [min haadama] toda

árvore bela de ver-se e boa para comer-se e a árvore da vida [vehetz hachayim] no

meio do jardim e a árvore da ciência do bem e do mal.)

15. O Senhor tomou, pois, do homem e o colocou em o paraíso de delícias,

a fim de que o cultivasse e guardasse. — 16. Deu-lhe também esta ordem e

lhe disse: “Come de todas as árvores do paraíso.” (Ele ordenou, Jeová Eloim, ao

homem [hal haadam] dizendo: “De toda árvore do jardim podes comer.) — 17.

Mas, não comas absolutamente o fruto da árvore da ciência do bem e do mal;

porquanto, logo que o comeres, morrerás com toda a certeza.” (E da árvore do

bem e do mal [oumehetz hadaat tob vara] não comerás, pois que no dia em que

dela comeres morrerás.)

14. TRÊS. — 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais

que o Senhor Deus formara na Terra. E ela disse à mulher: “Por que vos ordenou

Deus que não comêsseis os frutos de todas as árvores do paraíso?” (E a serpente

[nâhâsch] era mais astuta do que todos os animais terrestres que Jeová Eloim havia

feito; ela disse à mulher [el haïscha]: “Terá dito Eloim: ‘Não comereis de nenhuma

árvore do jardim?’”) — 2. A mulher respondeu: “Comemos dos frutos de to

das as árvores que estão no paraíso.” (Disse ela, a mulher, à serpente: “Do fruto

128 Nota de Allan Kardec: Em seguida a alguns versículos se acha a tradução literal do texto hebreu, exprimindo mais fielmente o pensamento primitivo. O sentido alegórico ressalta assim mais claramente.

129 Nota de Allan Kardec: “Paraíso”, do latim paradīsus, derivado do grego: paradeisos, jardim, vergel, lugar plantado de árvores. O termo hebreu empregado em Gênesis é hagan, que tem a mesma significação.

(miperi) das árvores do jardim podemos comer.) — 3. Mas, quanto ao fruto da

árvore que está no meio do paraíso, Deus nos ordenou que não comêssemos dele

e que não lhe tocássemos, para que não corramos o perigo de morrer.” — 4. A

serpente replicou à mulher: “Certamente não morrereis. — 5. Mas é que Deus

sabe que, assim houverdes comido desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis

como deuses, conhecendo o bem e o mal.”

6. A mulher considerou então que o fruto daquela árvore era bom de comer;

que era belo e agradável à vista. E, tomando dele, o comeu e o deu a seu marido,

que também comeu. (Ela viu, a mulher, que ela era boa, a árvore como alimento,

e que era desejável a árvore para compreender [léaskil], e tomou de seu fruto etc.)

8. E como ouvissem a voz do Senhor Deus, que passeava à tarde pelo jardim,

quando sopra um vento brando, eles se retiraram para o meio das árvores do

paraíso, a fim de se ocultarem de diante da sua face.

9. Então o Senhor Deus chamou Adão e lhe disse: “Onde estás?” — 10. Adão

lhe respondeu: “Ouvi a tua voz no paraíso e tive medo, porque estava nu, essa

a razão por que me escondi.” — 11. O Senhor lhe retrucou: “E como soubeste

que estavas nu, senão porque comeste o fruto da árvore da qual eu vos proibi que

comêsseis?” — 12. Adão lhe respondeu: A mulher que me deste por companhei

ra me apresentou o fruto dessa árvore e eu dele comi.” — 13. O Senhor Deus

disse à mulher: “Por que fizeste isso?” Ela respondeu: “A serpente me enganou e

eu comi desse fruto.”

14. Então, o Senhor Deus disse à serpente: “Por teres feito isso, serás maldita

entre todos os animais e todas as bestas da terra; rojar-te-ás sobre o ventre e

comerás a terra por todos os dias de tua vida. — 15. Porei uma inimizade entre

ti e a mulher, entre a sua raça e a tua. Ela te esmagará a cabeça e tu tentarás

morder-lhe o calcanhar.”

16. Deus disse também à mulher: “Afligir-te-ei com muitos males durante a

tua gravidez; parirás com dor; estarás sob a dominação de teu marido e ele te

dominará.”

17. Disse em seguida a Adão: “Por haveres escutado a voz de tua mulher e ha

veres comido do fruto da árvore de que te proibi que comesses, a terra te será

maldita por causa do que fizeste e só com muito trabalho tirarás dela com que

te alimentes, durante toda a tua vida. — 18. Ela te produzirá espinhos e sarças

e te alimentarás com a erva da terra. — 19. E comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra donde foste tirado, porque és pó e em pó te

tornarás.”

20. E Adão deu à sua mulher o nome de Eva, que significa “a vida”, porque ela

era a mãe de todos os viventes.

21. O Senhor Deus também fez para Adão e sua mulher vestiduras de peles

com que os cobriu. — 22. E disse: “Eis aí, Adão feito um de nós, sabendo o

bem e o mal. Impeçamos, pois, agora, que ele deite a mão à árvore da vida, que

também tome do seu fruto e que, comendo desse fruto, viva eternamente.” (Ele

disse, Jeová Eloim: “Eis aí, o homem foi como um de nós para o conhecimento do

bem e do mal; agora ele pode estender a mão e tomar da árvore da vida [veata pen

ischlachyado velakach mehetz hachayim]; comerá dela e viverá eternamente.”)

23. O Senhor Deus o fez sair do jardim de delícias, a fim de que fosse trabalhar

no cultivo da terra donde ele fora tirado. — 24. E, tendo-o expulsado, colocou

querubins130 diante do jardim de delícias, os quais faziam luzir uma espada de

fogo, para guardarem o caminho que levava à árvore da vida.

15. Sob uma imagem pueril e às vezes ridícula, se nos ativermos

à forma, a alegoria oculta frequentemente as maiores verdades. Haverá

fábula mais absurda, à primeira vista, do que a de Saturno, o deus que

devorava pedras, tomando-as por seus filhos? Todavia, que de mais pro

fundamente filosófico e verdadeiro do que essa figura, se lhe procuramos

o sentido moral! Saturno é a personificação do tempo; sendo todas as

coisas obra do tempo, ele é o pai de tudo o que existe; mas, também,

tudo se destrói com o tempo. Saturno a devorar pedras é o símbolo da

destruição, pelo tempo, dos mais duros corpos, seus filhos, visto que se

formaram com o tempo. E quem, segundo essa mesma alegoria, escapa

a semelhante destruição? Somente Júpiter, símbolo da inteligência su

perior, do princípio espiritual, que é indestrutível. É mesmo tão natural

essa imagem, que, na linguagem moderna, sem alusão à fábula antiga, se

diz, de uma coisa que afinal se deteriorou, ter sido devorada pelo tempo,

carcomida, devastada pelo tempo.

Toda a mitologia pagã, aliás, nada mais é, em realidade, do que um

vasto quadro alegórico das diversas faces, boas e más, da humanidade.

130 Nota de Allan Kardec: Do hebreu cherub, keroub, boi, charab, lavrar; anjos do segundo coro da primeira hierarquia, que eram representados com quatro asas, quatro faces e pés de boi.

Para quem lhe busca o espírito, é um curso completo da mais alta fi

losofia, como acontece com as modernas fábulas. O absurdo estava em

tomarem a forma pelo fundo.

16. Outro tanto se dá com a Gênese, onde se tem que perceber

grandes verdades morais debaixo das figuras materiais que, tomadas ao

pé da letra, seriam tão absurdas como se, em nossas fábulas, tomássemos

em sentido literal as cenas e os diálogos atribuídos aos animais.

Adão personifica a humanidade; sua falta individualiza a fraqueza

do homem, em quem predominam os instintos materiais a que ele não

sabe resistir.131

A árvore, como árvore de vida, é o emblema da vida espiritual;

como árvore da Ciência, é o da consciência, que o homem adquire, do

bem e do mal, pelo desenvolvimento da sua inteligência e do livre-arbí

trio, em virtude do qual ele escolhe entre um e outro. Assinala o ponto

em que a alma do homem, deixando de ser guiada unicamente pelos

instintos, toma posse da sua liberdade e incorre na responsabilidade dos

seus atos.

O fruto da árvore simboliza o objeto dos desejos materiais do ho

mem; é a alegoria da cobiça e da concupiscência; concretiza, numa figura

única, os motivos de arrastamento ao mal. O comer é sucumbir à tenta

ção. A árvore se ergue no meio do jardim de delícias, para mostrar que a

sedução está no seio mesmo dos prazeres e para lembrar que, se dá pre

ponderância aos gozos materiais, o homem se prende à Terra e se afasta

do seu destino espiritual.132

A morte de que ele é ameaçado, caso infrinja a proibição que se lhe

faz, é um aviso das consequências inevitáveis, físicas e morais, decorrentes

da violação das Leis divinas que Deus lhe gravou na consciência. É por

demais evidente que aqui não se trata da morte corporal, pois que, depois

131 Nota de Allan Kardec: Está hoje perfeitamente reconhecido que a palavra hebreia haadam não é

um nome próprio, mas significa o homem em geral, a humanidade, o que destrói toda a estrutura

levantada sobre a personalidade de Adão.

132 Nota de Allan Kardec: Em nenhum texto o fruto é especializado na maçã, palavra que só se en

contra nas versões infantis. O termo do texto hebreu é peri, que tem as mesmas acepções que em

francês, sem determinação de espécie e pode ser tomado em sentido material, moral, alegórico,

em sentido próprio e figurado. Para os israelitas, não há interpretação obrigatória; quando uma pa

lavra tem muitas acepções, cada um a entende como quer, contanto que a interpretação não seja

contrária à gramática. O termo peri foi traduzido em latim por malum, que se aplica tanto à maçã,

como a qualquer espécie de frutos. Deriva do grego melon, particípio do verbo melo, interessar,

cuidar, atrair.

de cometida a falta, Adão ainda viveu longo tempo, mas sim da mor

te espiritual, ou, por outras palavras, da perda dos bens que resultam

do adiantamento moral, perda figurada pela sua expulsão do jardim de delícias.

17. A serpente está longe hoje de ser tida como tipo da astúcia.

Ela, pois, entra aqui mais pela sua forma do que pelo seu caráter, como

alusão à perfídia dos maus conselhos, que se insinuam como a serpente e

da qual, por essa razão, o homem, muitas vezes, não desconfia. Ademais,

se a serpente, por haver enganado a mulher, é que foi condenada a andar

de rojo sobre o ventre, dever-se-á deduzir que antes esse animal tinha

pernas; mas, neste caso, não era serpente. Por que, então, se há de impor

à fé ingênua e crédula das crianças, como verdades, tão evidentes alego

rias, com o que, falseando-se-lhes o juízo, se faz que mais tarde venham

a considerar a Bíblia um tecido de fábulas absurdas?

Deve-se, além disso, notar que o termo hebreu nâhâsch, traduzido

por serpente, vem da raiz nâhâsch, que significa: fazer encantamentos,

adivinhar as coisas ocultas, podendo, pois, significar: encantador, adivi

nho. Com esta acepção, ele é encontrado na própria GênEsis, 44:5 e 15,

a propósito da taça que José mandou esconder no saco de Benjamim: “A

taça que roubaste é a em que meu Senhor bebe e de que se serve para

adivinhar (nâhâsch).133 — Ignoras que não há quem me iguale na ciência

de adivinhar (nâhâsch)?” — No livro núMEros, 23:23: “Não há encan

tamentos (nâhâsch) em Jacó, nem adivinhos em Israel.” Daí o haver a

palavra nâhâsch tomado também a significação de serpente, réptil que os

encantadores tinham a pretensão de encantar, ou de que se serviam em

seus encantamentos.

A palavra nâhâsch só foi traduzida por serpente na versão dos Setenta

— os quais, segundo Hutcheson, corromperam o texto hebreu em mui

tos lugares — versão essa escrita em grego antes do segundo século da Era

Cristã. As suas inexatidões resultaram, sem dúvida, das modificações que

a língua hebraica sofrera no intervalo transcorrido, porquanto o hebreu

do tempo de Moisés era uma língua morta, que diferia do hebreu vulgar,

tanto quanto o grego antigo e o árabe literário diferem do grego e do

árabe modernos.

É, pois, provável que Moisés tenha apresentado como sedutor da

mulher o desejo de conhecer as coisas ocultas, suscitado pelo Espírito de

adivinhação, o que concorda com o sentido primitivo da palavra nâhâsch,

adivinhar, e, por outro lado, com estas palavras: “Deus sabe que, logo

que houverdes comido desse fruto, vossos olhos se abrirão e sereis como

deuses. — Ela, a mulher, viu que era cobiçável a árvore para compreender

(léaskil) e tomou do seu fruto.” Não se deve esquecer que Moisés queria

proscrever de entre os hebreus a arte da adivinhação praticada pelos egíp

cios, como o prova o haver proibido que aqueles interrogassem os mortos

e o Espírito Píton. (O céu e o inferno, cap. XI.)

18. A passagem que diz: “O Senhor passeava pelo jardim à tarde,

quando se levanta vento brando”, é uma imagem ingênua e um tanto

pueril, que a crítica não deixou de assinalar; mas nada tem que surpreenda,

se nos reportamos à ideia que os hebreus dos tempos primitivos faziam de

Deus. Para aquelas inteligências frustas, incapazes de conceber abstrações,

Deus havia de ter uma forma concreta e eles tudo referiam à humanidade,

como único ponto que conheciam. Moisés, por isso, lhes falava como a

crianças, por meio de imagens sensíveis. No caso de que se trata, tem-se

personificada a Potência Soberana, como os pagãos personificavam, em

figuras alegóricas, as virtudes, os vícios e as ideias abstratas. Mais tarde,

os homens despojaram da forma a ideia, do mesmo modo que a criança,

tornada adulta, procura o sentido moral dos contos com que a acalen

taram. Deve-se, portanto, considerar essa passagem como uma alegoria,

figurando a Divindade a vigiar em pessoa os objetos da sua criação. O

grande rabino Wogue a traduziu assim: “Eles ouviram a voz do eterno

Deus, percorrendo o jardim, do lado donde vem o dia.”

19. Se a falta de Adão consistiu literalmente em ter comido um

fruto, essa falta não poderia, incontestavelmente, pela sua natureza quase

pueril, justificar o rigor com que foi punida. Não se poderia tampouco

admitir, racionalmente, que o fato seja qual geralmente o supõem; se o

fosse, teríamos Deus, considerando-o irremissível crime, a condenar a sua

Nota de Allan Kardec: O termo nâhâsch existia na língua egípcia, com a significação de negro, provavelmente porque os negros tinham o dom dos encantamentos e da adivinhação. Talvez também por

isso é que as esfinges, de origem assíria, eram representadas por uma figura de negro.

própria obra, pois que Ele criara o homem para a propagação. Se Adão

houvesse entendido assim a proibição de tocar no fruto da árvore e com

ela se houvesse conformado escrupulosamente, onde estaria a humanidade

e que teria sido feito dos desígnios do Criador?

Deus não criara Adão e Eva para ficarem sós na Terra; a prova disso

está nas próprias palavras que lhes dirige logo depois de os ter formado,

quando eles ainda estavam no paraíso terrestre: “Deus os abençoou e

lhes disse: ‘Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a ao vosso

domínio.’” (GênEsis,1:28.) Uma vez que a multiplicação era lei já no

paraíso terrenal, a expulsão deles dali não pode ter tido como causa o

fato suposto.

O que deu crédito a essa suposição foi o sentimento de vergo

nha que Adão e Eva manifestaram ante o olhar de Deus e que os levou

a se ocultarem. Mas essa própria vergonha é uma figura por compara

ção: simboliza a confusão que todo culpado experimenta em presença de

quem foi por ele ofendido.

20. Qual, então, em definitivo, a falta tão grande que mereceu

acarretar a reprovação perpétua de todos os descendentes daquele que a

cometeu? Caim, o fratricida, não foi tratado tão severamente. Nenhum

teólogo a pode definir logicamente, porque todos, apegados à letra, gira

ram dentro de um círculo vicioso.

Sabemos hoje que essa falta não é um ato isolado, pessoal, de um

indivíduo, mas que compreende, sob um único fato alegórico, o conjun

to das prevaricações de que a humanidade da Terra, ainda imperfeita,

pode tornar-se culpada e que se resumem nisto: infração da Lei de Deus.

Eis por que a falta do primeiro homem, simbolizando este a humanida

de, tem por símbolo um ato de desobediência.

21. Dizendo a Adão que ele tiraria da terra a alimentação com o

suor de seu rosto, Deus simboliza a obrigação do trabalho; mas por que

fez do trabalho uma punição? Que seria da inteligência do homem, se

ele não a desenvolvesse pelo trabalho? Que seria da Terra, se não fosse

fecundada, transformada, saneada pelo trabalho inteligente do homem?

Lá está dito (GênEsis, 2:5 e 7): “O Senhor Deus ainda não havia

feito chover sobre a Terra e não havia nela homens que a cultivassem. O

Senhor formou então, do limo da Terra, o homem.” Essas palavras, apro

ximadas destas outras: “Enchei a Terra”, provam que o homem, desde a

sua origem, estava destinado a ocupar toda a Terra e a cultivá-la, assim

como, ademais, que o paraíso não era um lugar circunscrito a um canto

do globo. Se a cultura da Terra houvesse de ser uma consequência da falta

de Adão, seguir-se-ia que, se Adão não tivesse pecado, a Terra permane

ceria inculta e os desígnios de Deus não se teriam cumprido.

Por que disse ele à mulher que, em consequência de haver come

tido a falta, pariria com dor? Como pode a dor do parto ser um castigo,

quando é um efeito do organismo e quando está provado que é uma

necessidade fisiológica? Como pode ser punição uma coisa que se produz

segundo as leis da natureza? É o que os teólogos absolutamente ainda

não explicaram e que não poderão explicar, enquanto não abandonarem

o ponto de vista em que se colocaram. Entretanto, podem justificar-se

aquelas palavras que parecem tão contraditórias.

22. Notemos, antes de tudo, que, se no momento de serem criados

os dois, as almas de Adão e Eva tivessem vindo do nada, como ainda se

ensina, eles haviam de ser bisonhos em todas as coisas; haviam, pois, de

ignorar o que é morrer. Estando sós na Terra, como estavam, enquanto

viveram no paraíso, não tinham assistido à morte de ninguém. Como,

então, teriam podido compreender em que consistia a ameaça de morte

que Deus lhes fazia? Como teria Eva podido compreender que parir com

dor seria uma punição, visto que, tendo acabado de nascer para a vida,

ela jamais tivera filhos e era a única mulher existente no mundo?

Nenhum sentido, portanto, deviam ter, para Adão e Eva, as pala

vras de Deus. Mal surgidos do nada, eles não podiam saber como nem

por que haviam surgido dali; não podiam compreender nem o Criador

nem o motivo da proibição que lhes era feita. Sem nenhuma experiência

das condições da vida, pecaram como crianças que agem sem discerni

mento, o que ainda mais incompreensível torna a terrível responsabilida

de que Deus fez pesar sobre eles e sobre a humanidade inteira.

23. Entretanto, o que constitui para a Teologia um beco sem saí

da, o Espiritismo o explica sem dificuldade e de maneira racional, pela

anterioridade da alma e pela pluralidade das existências, lei sem a qual

tudo é mistério e anomalia na vida do homem. Com efeito, admitamos

que Adão e Eva já tivessem vivido e tudo logo se justifica: Deus não lhes

fala como a crianças, mas como a seres em estado de o compreenderem

e que o compreendem, prova evidente de que ambos trazem aquisições

anteriormente realizadas. Admitamos, ademais, que hajam vivido em um

mundo mais adiantado e menos material do que o nosso, onde o tra

balho do Espírito substituía o do corpo; que, por se haverem rebelado

contra a Lei de Deus, figurada na desobediência, tenham sido afastados

de lá e exilados, por punição, para a Terra, onde o homem, pela natureza

do globo, é constrangido a um trabalho corporal e reconheceremos que

a Deus assistia razão para lhes dizer: “No mundo onde, daqui em diante,

ides viver, cultivareis a terra e dela tirareis o alimento, com o suor da vos

sa fronte”; e, à mulher: “Parirás com dor”, porque tal é a condição desse

mundo.

O paraíso terrestre, cujos vestígios têm sido inutilmente procura

dos na Terra, era, por conseguinte, a figura do mundo ditoso, onde vivera

Adão, ou, antes, a raça dos Espíritos que ele personifica. A expulsão do

paraíso marca o momento em que esses Espíritos vieram encarnar entre

os habitantes do mundo terráqueo e a mudança de situação foi a conse

quência da expulsão. O anjo que, empunhando uma espada flamejante,

veda a entrada do paraíso simboliza a impossibilidade em que se acham

os Espíritos dos mundos inferiores, de penetrar nos mundos superiores,

antes que o mereçam pela sua depuração. (Veja-se, adiante, o cap. XIV,

itens 8 e seguintes.)

QUATRO. 13. Caim, depois do assassínio de Abel, responde ao Senhor:

“A minha iniquidade é extremamente grande, para que me possa ser perdoada.

— 14. Vós me expulsais hoje de cima da Terra e eu me irei ocultar da vossa

face. Irei fugitivo e vagabundo pela Terra e qualquer um então que me encontre

matar-me-á.” — 15. O Senhor lhe respondeu: “Não, isto não se dará, porquan

to severamente punido será quem matar Caim.” E o Senhor pôs um sinal sobre

Caim, a fim de que não o matassem os que viessem a encontrá-lo.

16. Tendo-se retirado de diante do Senhor, Caim ficou vagabundo pela Terra

e habitou a região oriental do Éden. — 17. Havendo conhecido sua mulher,

ela concebeu e pariu Enoque. Ele construiu (vaïehi bôné; literalmente: estava

construindo) uma cidade a que chamou Enoque (Enoquia) do nome de seu filho.

(GênEsis, 4:13 a 16.)

25. Se nos apegarmos à letra da Gênese, eis as consequências a que

chegaremos: Adão e Eva estavam sós no mundo, depois de expulsos do

paraíso terrestre; só posteriormente tiveram os dois filhos Caim e Abel.

Ora, tendo-se Caim retirado para outra região depois de haver assassi

nado o irmão, não tornou a ver seus pais, que de novo ficaram isolados.

Só muito mais tarde, na idade de cento e trinta anos, foi que Adão teve

um terceiro filho, que se chamou Set, depois desse nascimento, ele ainda

viveu, segundo a genealogia bíblica, oitocentos anos, e teve mais filhos

e filhas.

Quando, pois, Caim foi estabelecer-se a leste do Éden, somente

havia na Terra três pessoas: seu pai e sua mãe, e ele, sozinho, de seu lado.

Entretanto, Caim teve mulher e um filho. Que mulher podia ser essa e

onde pudera ele desposá-la? O texto hebreu diz: Ele estava construindo

uma cidade e não: ele construiu, o que indica ação presente e não ulterior.

Mas uma cidade pressupõe a existência de habitantes, visto não ser de

presumir que Caim a fizesse para si, sua mulher e seu filho, nem que a

pudesse edificar sozinho.

Dessa própria narrativa, portanto, se tem de inferir que a região era

povoada. Ora, não podia sê-lo pelos descendentes de Adão, que então se

reduziam a um só: Caim.

Aliás, a presença de outros habitantes ressalta igualmente destas

palavras de Caim: “Serei fugitivo e vagabundo e quem quer que me en

contre matar-me-á”, e da resposta que Deus lhe deu. Quem poderia ele

temer que o matasse e que utilidade teria o sinal que Deus lhe pôs para

preservá-lo de ser morto, uma vez que ele a ninguém iria encontrar? Ora,

se havia na Terra outros homens afora a família de Adão, é que esses ho

mens aí estavam antes dele, donde se deduz esta consequência, tirada do

texto mesmo do Gênesis: Adão não é nem o primeiro, nem o único pai

do gênero humano. (Cap. XI, item 34.)135

26. Eram necessários os conhecimentos que o Espiritismo minis

trou acerca das relações do princípio espiritual com o princípio material,

acerca da natureza da alma, da sua criação em estado de simplicidade e de

ignorância, da sua união com o corpo, da sua indefinida marcha progres

siva através de sucessivas existências e através dos mundos, que são ou

tros tantos degraus da senda do aperfeiçoamento, acerca da sua gradual

libertação da influência da matéria, mediante o uso do livre-arbítrio, da

135 Nota de Allan Kardec: Não é nova esta ideia. La Peyrère, sábio teólogo do século XVII, em seu livro Preadamitas, escrito em latim e publicado em 1655, extraiu do texto original da Bíblia, adulterado pelas traduções, a prova evidente de que a Terra era habitada antes da vinda de Adão e essa opinião é hoje a de muitos eclesiásticos esclarecidos.

causa dos seus pendores bons ou maus e de suas aptidões, do fenômeno

do nascimento e da morte, da situação do Espírito na erraticidade e, fi

nalmente, do futuro como prêmio de seus esforços por se melhorar e da

sua perseverança no bem, para que se fizesse luz sobre todas as partes da

Gênese espiritual.

Graças a essa luz, o homem sabe doravante donde vem, para onde

vai, por que está na Terra e por que sofre. Sabe que tem nas mãos o seu

futuro e que a duração do seu cativeiro neste mundo unicamente dele

depende. Despida da alegoria acanhada e mesquinha, a Gênese se lhe

apresenta grande e digna da majestade, da bondade e da justiça do Cria

dor. Considerada desse ponto de vista, ela confundirá a incredulidade e triunfará.

M

Caracteres dos milagres

1. Na acepção etimológica, a palavra milagre (de miracŭlum, ad

mirar) significa: prodígio, maravilha; coisa extraordinária. A Academia

definiu-a deste modo: Um ato do poder divino contrário às leis da nature

za, conhecidas.

Na acepção usual, essa palavra perdeu, como tantas outras, a signi

ficação primitiva. De geral, que era, se tornou de aplicação restrita a uma

ordem particular de fatos. No entender das massas, um milagre implica

a ideia de um fato extranatural; no sentido teológico, é uma derrogação

das leis da natureza, por meio da qual Deus manifesta o seu poder. Tal,

com efeito, a acepção vulgar, que se tornou o sentido próprio, de modo

que só por comparação e por metáfora a palavra se aplica às circunstân

cias ordinárias da vida.

Um dos caracteres do milagre propriamente dito é o ser inexplicá

vel, por isso mesmo que se realiza com exclusão das leis naturais. É tanto

essa a ideia que se lhe associa, que, se um fato milagroso vem a encon

trar explicação, se diz que já não constitui milagre, por muito espantoso

que seja. O que, para a Igreja, dá valor aos milagres é, precisamente, a

origem sobrenatural deles e a impossibilidade de serem explicados. Ela

se firmou tão bem sobre esse ponto, que o assimilarem-se os milagres

aos fenômenos da natureza constitui para ela uma heresia, um atentado

contra a fé, tanto assim que excomungou e até queimou muita gente por

não ter querido crer em certos milagres.

Outro caráter do milagre é o ser insólito, isolado, excepcional.

Logo que um fenômeno se reproduz, quer espontânea, quer voluntaria

mente, é que está submetido a uma lei e, desde então, seja ou não seja

conhecida a lei, já não pode haver milagres.

2. Aos olhos dos ignorantes, a Ciência faz milagres todos os dias.

Se um homem, que se ache realmente morto, for chamado à vida por in

tervenção divina, haverá verdadeiro milagre, por ser esse um fato contrá

rio às leis da natureza. Mas se em tal homem houver apenas aparências de

morte, se lhe restar uma vitalidade latente e a Ciência, ou uma ação mag

nética, conseguir reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas ter-se-á dado

um fenômeno natural, mas, para o vulgo ignorante, o fato passará por

miraculoso. Lance um físico, do meio de certas campinas, um papagaio

elétrico e faça que o raio caia sobre uma árvore e certamente esse novo

Prometeu136 será tido por armado de diabólico poder. Houvesse, porém,

Josué137 detido o movimento do Sol, ou, antes, da Terra e teríamos aí o

verdadeiro milagre, porquanto nenhum magnetizador existe dotado de

bastante poder para operar semelhante prodígio.

Foram fecundos em milagres os séculos de ignorância, porque se

considerava sobrenatural tudo aquilo cuja causa não se conhecia. À pro

porção que a Ciência revelou novas leis, o círculo do maravilhoso se

foi restringindo; mas como a Ciência ainda não explorara todo o vasto

campo da natureza, larga parte dele ficou reservada para o maravilhoso.

3. Expulso do domínio da materialidade, pela Ciência, o maravi

lhoso se encastelou no da espiritualidade, onde encontrou o seu último

refúgio. Demonstrando que o elemento espiritual é uma das forças vivas

da natureza, força que incessantemente atua em concorrência com a for

ça material, o Espiritismo faz que voltem ao rol dos efeitos naturais os

que dele haviam saído, porque, como os outros, também tais efeitos se

acham sujeitos a leis. Se for expulso da espiritualidade, o maravilhoso já

não terá razão de ser e só então se poderá dizer que passou o tempo dos

milagres. (Cap. I, item 18.)

O Espiritismo não faz milagres

4. O Espiritismo, pois, vem, a seu turno, fazer o que cada ciência

fez no seu advento: revelar novas leis e explicar, conseguintemente, os

fenômenos compreendidos na alçada dessas leis.

Esses fenômenos, é certo, se prendem à existência dos Espíritos e à

intervenção deles no mundo material e isso é, dizem, o em que consiste o

sobrenatural. Mas, então, fora mister se provasse que os Espíritos e suas

manifestações são contrárias às leis da natureza; que aí não há, nem pode

haver, a ação de uma dessas leis.

O Espírito mais não é do que a alma sobrevivente ao corpo; é o

ser principal, pois que não morre, ao passo que o corpo é simples aces

sório sujeito à destruição. Sua existência, portanto, é tão natural depois,

como durante a encarnação; está submetido às leis que regem o princípio

espiritual, como o corpo o está às que regem o princípio material; mas

como estes dois princípios têm necessária afinidade, como reagem inces

santemente um sobre o outro, como da ação simultânea deles resultam

o movimento e a harmonia do conjunto, segue-se que a espiritualidade

e a materialidade são duas partes de um mesmo todo, tão natural uma

quanto a outra, não sendo, pois, a primeira uma exceção, uma anomalia

na ordem das coisas.

5. Durante a sua encarnação, o Espírito atua sobre a matéria por

intermédio do seu corpo fluídico ou perispírito, dando-se o mesmo

quando ele não está encarnado. Como Espírito e na medida de suas ca

pacidades, faz o que fazia como homem; apenas, por já não ter o corpo

carnal para instrumento, serve-se, quando necessário, dos órgãos mate

riais de um encarnado, que vem a ser o a que se chama médium. Procede

então como um que, não podendo escrever por si mesmo, se vale de um

secretário, ou que, não sabendo uma língua, recorre a um intérprete. O

secretário e o intérprete são os médiuns de um encarnado, do mesmo

modo que o médium é o secretário ou o intérprete de um Espírito.

6. Já não sendo o mesmo que no estado de encarnação o meio

em que atuam os Espíritos e os modos por que atuam, diferentes são os

efeitos, que parecem sobrenaturais unicamente porque se produzem com

o auxílio de agentes que não são os de que nos servimos. Desde, porém,

que esses agentes estão na natureza e as manifestações se dão em virtude

de certas leis, nada há de sobrenatural, ou de maravilhoso. Antes de se

conhecerem as propriedades da eletricidade, os fenômenos elétricos pas

savam por prodígios para certa gente; desde que se tornou conhecida a

causa, desapareceu o maravilhoso. O mesmo ocorre com os fenômenos

espíritas, que não são mais aberrantes das leis naturais do que os fenôme

nos elétricos, acústicos, luminosos e outros, que serviram de fundamento

a uma imensidade de crenças supersticiosas.

7. Entretanto, dir-se-á, admitis que um Espírito pode levantar uma

mesa e mantê-la no espaço sem ponto de apoio; não está aí uma derroga

ção da lei da gravidade? — Sim, da lei conhecida. Conhecem-se, porém,

todas as leis? Antes que se houvesse experimentado a força ascensional

de alguns gases, quem diria que uma pesada máquina, transportando

muitos homens, poderia triunfar da força de atração? Ao vulgo, isso não

pareceria maravilhoso, diabólico? Aquele que se houvera proposto, há

um século, a transmitir uma mensagem a 500 léguas e receber a resposta

dentro de alguns minutos, teria passado por louco; se o fizesse, teriam

acreditado estar o diabo às suas ordens, porquanto, então, só o diabo

era capaz de andar tão depressa. Hoje, no entanto, não só se reconhece

possível o fato, como ele parece naturalíssimo. Por que, pois, um fluido

desconhecido careceria da propriedade de contrabalançar, em dadas cir

cunstâncias, o efeito da gravidade, como o hidrogênio contrabalança o

peso do balão? É, efetivamente, o que sucede, no caso de que se trata.

(O livro dos médiuns, 2a Parte, cap. IV.)

8. Uma vez que estão no quadro dos da natureza, os fenômenos es

píritas se hão produzido em todos os tempos; mas, precisamente, porque

não podiam ser estudados pelos meios materiais de que dispõe a ciência

vulgar, permaneceram muito mais tempo do que outros no domínio do

sobrenatural, donde o Espiritismo agora os tira.

Baseado em aparências inexplicadas, o sobrenatural deixa livre

curso à imaginação que, a vagar pelo desconhecido, gera as crenças

supersticiosas. Uma explicação racional, fundada nas leis da natureza,

reconduzindo o homem ao terreno da realidade, fixa um ponto de para

da aos transviamentos da imaginação e destrói as superstições. Longe de

ampliar o domínio do sobrenatural, o Espiritismo o restringe até os seus

limites extremos e lhe arrebata o último refúgio. Se é certo que ele faz

crer na possibilidade de alguns fatos, não menos certo é que, por outro

lado, impede a crença em diversos outros, porque demonstra, no campo

da espiritualidade, a exemplo da Ciência no da materialidade, o que é

possível e o que não o é. Todavia, como não alimenta a pretensão de

haver dito a última palavra seja sobre o que for, nem mesmo sobre o que

é da sua competência, ele não se apresenta como absoluto regulador do

possível e deixa de parte os conhecimentos reservados ao futuro.

9. Os fenômenos espíritas consistem nos diferentes modos de

manifestação da alma ou Espírito, quer durante a encarnação, quer no

estado de erraticidade. É pelas manifestações que produz que a alma re

vela sua existência, sua sobrevivência e sua individualidade; julga-se dela

pelos seus efeitos; sendo natural a causa, o efeito também o é. São esses

efeitos que constituem objeto especial das pesquisas e do estudo do Es

piritismo, a fim de chegar-se a um conhecimento tão completo quanto

possível, assim da natureza e dos atributos da alma, como das leis que

regem o princípio espiritual.

10. Para os que negam a existência do princípio espiritual inde

pendente, que negam, por conseguinte, a da alma individual e sobrevi

vente, a natureza toda está na matéria tangível; todos os fenômenos que

concernem à espiritualidade são, para esses negadores, sobrenaturais e,

portanto, quiméricos. Não admitindo a causa não podem eles admitir os

efeitos e, quando estes são patentes, os atribuem à imaginação, à ilusão,

à alucinação e se negam a aprofundá-los. Daí, a opinião preconcebida

em que se acastelam e que os torna inaptos a apreciar judiciosamente o

Espiritismo, porque parte do princípio de negação de tudo o que não

seja material.

11. Do fato, porém, de o Espiritismo admitir os efeitos, que são

corolário da existência da alma, não se segue que admita todos os efeitos

qualificados de maravilhosos e que se proponha a justificá-los e dar-lhes

crédito; que se faça campeão de todos os devaneios, de todas as utopias,

de todas as excentricidades sistemáticas, de todas as lendas miraculosas.

Fora preciso conhecê-lo muito pouco, para pensar assim. Seus adversários

julgam opor-lhe um argumento irreplicável, quando, depois de haverem

feito eruditas pesquisas sobre os convulsionários de Saint-Médard,138 so

bre os camisardos das Cevenas,139 ou sobre as religiosas de Loudun,140

chegaram a descobrir fatos patentes de embuste, que ninguém contesta.

Mas essas histórias serão, porventura, o Evangelho do Espiritismo? Já te

rão seus adeptos negado que o charlatanismo haja explorado em proveito

próprio alguns fatos; que a imaginação os tenha criado; que o fanatismo

os haja exagerado muitíssimo? Ele é tão solidário com as extravagâncias

que se cometam em seu nome, como a Ciência o é com os abusos da

ignorância e a verdadeira religião com os abusos do fanatismo. Muitos

críticos julgam do Espiritismo pelos contos de fadas e pelas lendas po

pulares, ficções daqueles contos. O mesmo seria julgar da História pelos

romances históricos ou pelas tragédias.

12. Os fenômenos espíritas são as mais das vezes espontâneos e se

produzem sem nenhuma ideia preconcebida da parte das pessoas com

quem eles se dão e que, em regra, são as que neles menos pensam. Alguns

há que, em certas circunstâncias, podem ser provocados pelos agentes de

nominados médiuns. No primeiro caso, o médium é inconsciente do que

se produz por seu intermédio; no segundo, age com conhecimento de

causa, donde a classificação de médiuns conscientes e médiuns inconscientes.

Estes últimos são os mais numerosos e se encontram com frequência en

tre os mais obstinados incrédulos que, assim, praticam o Espiritismo sem

o saberem, nem quererem. Por isso mesmo, os fenômenos espontâneos

revestem capital importância, visto não se poder suspeitar da boa-fé dos

que os obtêm. Dá-se aqui o que se dá com o sonambulismo que, em cer

tos indivíduos, é natural e involuntário, enquanto noutros é provocado

pela ação magnética.

Caracteres dos milagres

Resultem, porém, ou não esses fenômenos de um ato da vontade,

a causa primária é exatamente a mesma e não se afasta uma linha das

leis naturais. Os médiuns, portanto, nada absolutamente produzem de

sobrenatural; por conseguinte, nenhum milagre fazem. As próprias curas

instantâneas não são mais milagrosas, do que os outros efeitos, dado que

resultam da ação de um agente fluídico, que desempenha o papel de

agente terapêutico, suas propriedades não deixam de ser naturais por

terem sido ignoradas até agora. É, pois, totalmente impróprio o epíte

to de taumaturgos que a crítica ignorante dos princípios do Espiritismo

há dado a certos médiuns. A qualificação de milagres emprestada, por

comparação, a esta espécie de fenômenos, somente pode induzir em erro

sobre o verdadeiro caráter deles.

13. A intervenção de inteligências ocultas nos fenômenos espíritas

não os torna mais milagrosos do que todos os outros fenômenos devidos

a agentes invisíveis, porque esses seres ocultos que povoam os espaços são

uma das forças da natureza, força cuja ação é incessante sobre o mundo

material, tanto quanto sobre o mundo moral.

Esclarecendo-nos acerca dessa força, o Espiritismo faculta a eluci

dação de uma imensidade de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qual

quer outro meio e que, por isso, passaram por prodígios nos tempos idos.

Do mesmo modo que o magnetismo, ele revela uma lei, senão desconhe

cida, pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, conheciam-se

os efeitos, porque eles em todos os tempos se produziram, porém não

se conhecia a lei e foi o desconhecimento desta que gerou a superstição.

Conhecida essa lei, desaparece o maravilhoso e os fenômenos entram na

ordem das coisas naturais. Eis por que tanto operam um milagre os es

píritas quando fazem que uma mesa se mova sozinha, ou que os mortos

escrevam, como um milagre opera o médico, quando faz que um mori

bundo reviva, ou o físico, quando faz que o raio caia. Aquele que preten

desse, com o auxílio desta ciência, fazer milagres seria ou um ignorante

do assunto, ou um enganador de tolos.

14. Pois que o Espiritismo repudia toda pretensão às coisas mira

culosas, haverá, fora dele, milagres, na acepção usual desta palavra?

Digamos, primeiramente, que, dos fatos reputados milagrosos,

ocorridos antes do advento do Espiritismo e que ainda no presente ocor

rem, a maior parte, senão todos, encontram explicação nas novas leis

que ele veio revelar. Esses fatos, portanto, se compreendem, embora sob

outro nome, na ordem dos fenômenos espíritas e, como tais, nada têm de

sobrenatural. Fique, porém, bem entendido que nos referimos aos fatos

autênticos e não aos que, com a denominação de milagres, são produ

to de uma indigna trampolinice, com o fito de explorar a credulidade.

Tampouco nos referimos a certos fatos lendários que podem ter tido, ori

ginariamente, um fundo de verdade, mas que a superstição ampliou até

o absurdo. Sobre esses fatos é que o Espiritismo projeta luz, fornecendo

meios de apartar do erro a verdade.

Faz Deus milagres?

15. Quanto aos milagres propriamente ditos, Deus, visto que

nada lhe é impossível, pode fazê-los. Mas fá-los? Ou, por outras pala

vras; derroga as leis que dele próprio emanaram? Não cabe ao homem

prejulgar os atos da Divindade, nem os subordinar à fraqueza do seu

entendimento. Contudo, em face das coisas divinas, temos, para crité

rio do nosso juízo, os atributos mesmos de Deus. Ao poder soberano

reúne ele a soberana sabedoria, donde se deve concluir que não faz coisa

alguma inútil.

Por que, então, faria milagres? Para atestar o seu poder, dizem. Mas

o poder de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente

pelo grandioso conjunto das obras da criação, pela sábia previdência que

essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mínimas,

e pela harmonia das leis que regem o mecanismo do universo, do que

por algumas pequeninas e pueris derrogações que todos os prestímanos

sabem imitar? Que se diria de um sábio mecânico que, para provar a sua

habilidade, desmantelasse um relógio construído pelas suas mãos, obra--prima de ciência, a fim de mostrar que pode desmanchar o que fizera?

Seu saber, ao contrário, não ressalta muito mais da regularidade e da

precisão do movimento da sua obra?

Não é, pois, da alçada do Espiritismo a questão dos milagres; mas,

ponderando que Deus não faz coisas inúteis, emite a seguinte opinião:

Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no uni

verso se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus não faz milagres, porque,

sendo, como são, perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se há

fatos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos

necessários.

16. Admitido que Deus houvesse alguma vez, por motivos que nos

escapam, derrogado acidentalmente leis por ele estabelecidas, tais leis já

não seriam imutáveis. Mesmo, porém, que semelhante derrogação seja

possível, ter-se-á, pelo menos, de reconhecer que só Ele, Deus, dispõe

desse poder; sem se negar ao Espírito do mal a onipotência, não se pode

admitir lhe seja dado desfazer a obra divina, operando, de seu lado, pro

dígios capazes de seduzir até os eleitos, pois que isso implicaria a ideia de

um poder igual ao de Deus. É, no entanto, o que ensinam. Se Satanás

tem o poder de sustar o curso das leis naturais, que são obra de Deus,

sem a permissão deste, mais poderoso é ele do que a Divindade. Logo,

Deus não possui a onipotência e se, como pretendem, delega poderes a

Satanás, para mais facilmente induzir os homens ao mal, falta-lhe a sobe

rana bondade. Em ambos os casos, há negação de um dos atributos sem

os quais Deus não seria Deus.

Daí vem a Igreja distinguir os bons milagres, que procedem de

Deus, dos maus milagres, que procedem de Satanás. Mas como diferen

çá-los? Seja satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derroga

ção de leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por

suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não deixará

por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer pobríssima ideia da

inteligência humana para se pretender que semelhantes doutrinas pos

sam ser aceitas nos dias de hoje.

Reconhecida a possibilidade de alguns fatos considerados miracu

losos, há de se concluir que, seja qual for a origem que se lhes atribua,

eles são efeitos naturais de que se podem utilizar Espíritos desencarnados

ou encarnados, como de tudo, como da própria inteligência e dos co

nhecimentos científicos de que disponham, para o bem ou para o mal,

conforme neles preponderem a bondade ou a perversidade. Valendo-se

do saber que haja adquirido, pode um ser perverso fazer coisas que pas

sem por prodígios aos olhos dos ignorantes; mas quando tais efeitos dão

em resultado um bem qualquer, fora ilógico atribuir-se-lhes uma origem

diabólica.

17. Mas a religião, dizem, se apoia em fatos que nem explica

dos, nem explicáveis são. Inexplicados, talvez; inexplicáveis, é questão

muito outra. Que sabe o homem das descobertas e dos conhecimentos

que o futuro lhe reserva? Sem falar do milagre da criação, o maior de

todos sem contestação possível, já pertencente ao domínio da lei uni

versal, não vemos reproduzirem-se hoje, sob o império do magnetismo,

do sonambulismo, do Espiritismo, os êxtases, as visões, as aparições, as

percepções a distância, as curas instantâneas, as suspensões, as comuni

cações orais e outras com os seres do mundo invisível, fenômenos esses

conhecidos desde tempos imemoráveis, tidos outrora por maravilhosos

e que presentemente se demonstra pertencerem à ordem das coisas na

turais, de acordo com a lei constitutiva dos seres? Os livros sagrados

estão cheios de fatos desse gênero, qualificados de sobrenaturais; como,

porém, outros análogos e ainda mais maravilhosos se encontram em

todas as religiões pagãs da Antiguidade, se a veracidade de uma religião

dependesse do número e da natureza de tais fatos, não se saberia dizer

qual a que devesse prevalecer.

O sobrenatural e as religiões

18. Pretender-se que o sobrenatural é o fundamento de toda reli

gião, que ele é o fecho de abóbada do edifício cristão, é sustentar peri

gosa tese. Assentar exclusivamente as verdades do Cristianismo sobre a

base do maravilhoso é dar-lhe fraco alicerce, cujas pedras facilmente se

soltam. Essa tese, de que se constituíram defensores eminentes teólogos,

leva direito à conclusão de que, em breve tempo, já não haverá religião

possível, nem mesmo a cristã, desde que se chegue a demonstrar que é

natural o que se considerava sobrenatural, visto que, por mais que se

acumulem argumentos, não se logrará sustentar a crença de que um fato

é miraculoso, depois de se haver provado que não o é. Ora, a prova existe

de que um fato não constitui exceção às leis naturais, logo que pode ser

explicado por essas mesmas leis e que, podendo reproduzir-se por inter

médio de um indivíduo qualquer, deixa de ser privilégio dos santos. O

de que necessitam as religiões não é do sobrenatural, mas do princípio

espiritual, que erradamente costumam confundir com o maravilhoso e

sem o qual não há religião possível.

O Espiritismo considera de um ponto mais elevado a religião cris

tã; dá-lhe base mais sólida do que a dos milagres: as imutáveis Leis de

Deus, a que obedecem assim o princípio espiritual, como o princípio

material. Essa base desafia o tempo e a Ciência, pois que o tempo e a

Ciência virão sancioná-la.

Deus não se torna menos digno da nossa admiração, do nosso

reconhecimento, do nosso respeito, por não haver derrogado suas leis,

grandiosas, sobretudo, pela imutabilidade que as caracteriza. Não se faz

mister o sobrenatural, para que se preste a Deus o culto que lhe é devi

do. A natureza não é de si mesma tão imponente, que dispense se lhe

acrescente seja o que for para provar a suprema potestade? Tanto menos

incrédulos topará a religião, quanto mais a razão a sancionar em todos

os pontos. O Cristianismo nada tem que perder com semelhante sanção;

ao contrário, só tem que ganhar. Se alguma coisa o há prejudicado na

opinião de muitas pessoas, foi precisamente o abuso do sobrenatural e

do maravilhoso.

19. Se tomarmos a palavra milagre em sua acepção etimológica,

no sentido de coisa admirável, teremos milagres incessantemente sob as

vistas. Aspiramo-los no ar e calcamo-los aos pés, porque tudo então é

milagre na natureza.

Querem dar ao povo, aos ignorantes, aos pobres de espírito uma

ideia do poder de Deus? Mostrem-no na sabedoria infinita que preside

a tudo, no admirável organismo de tudo o que vive, na frutificação das

plantas, na apropriação de todas as partes de cada ser às suas necessida

des, de acordo com o meio onde ele é posto a viver. Mostrem-lhes a ação

de Deus na vergôntea de um arbusto, na flor que desabrocha, no Sol que

tudo vivifica. Mostrem-lhes a sua bondade na solicitude que dispensa a

todas as criaturas, por mais ínfimas que sejam, a sua previdência, na ra

zão de ser de todas as coisas, entre as quais nenhuma inútil se conta, no

bem que sempre decorre de um mal aparente e temporário. Façam-lhes

compreender, principalmente, que o mal real é obra do homem e não de

Deus; não procurem espavori-los com o quadro das penas eternas, em

que acabam não mais crendo e que os levam a duvidar da Bondade de

Deus; antes, deem-lhes coragem, mediante a certeza de poderem um dia

redimir-se e reparar o mal que hajam praticado. Apontem-lhes as desco

bertas da Ciência como revelações das Leis divinas e não como obras de

Satanás. Ensinem-lhes, finalmente, a ler no livro da natureza, constante

mente aberto diante deles; nesse livro inesgotável, em cada uma de cujas

páginas se acham inscritas a sabedoria e a bondade do Criador. Eles,

então, compreenderão que um Ser tão grande, que com tudo se ocupa,

que por tudo vela, que tudo prevê, forçosamente dispõe do poder supre

mo. Vê-lo-á o lavrador, ao sulcar o seu campo; e o desditoso, nas suas

aflições, o bendirá dizendo: Se sou infeliz, é por culpa minha. Então, os

homens serão verdadeiramente religiosos, racionalmente religiosos, so

bretudo, muito mais do que acreditando em pedras que suam sangue, ou

em estátuas que piscam os olhos e derramam lágrimas.

1. A Ciência resolveu a questão dos milagres que mais particular

mente derivam do elemento material, quer explicando-os, quer lhes de

monstrando a impossibilidade, em face das leis que regem a matéria. Mas

os fenômenos em que prepondera o elemento espiritual, esses, não poden

do ser explicados unicamente por meio das leis da natureza, escapam às

investigações da Ciência. Tal a razão por que eles, mais do que os outros,

apresentam os caracteres aparentes do maravilhoso. É, pois, nas leis que

regem a vida espiritual que se pode encontrar a explicação dos milagres

dessa categoria.

2. O fluido cósmico universal é, como já foi demonstrado, a ma

téria elementar primitiva, cujas modificações e transformações consti

tuem a inumerável variedade dos corpos da natureza. (Cap. X.) Como

princípio elementar do universo, ele assume dois estados distintos: o de

eterização ou imponderabilidade, que se pode considerar o primitivo es

tado normal, e o de materialização ou de ponderabilidade, que é, de certa

maneira, consecutivo àquele. O ponto intermédio é o da transformação

do fluido em matéria tangível. Mas, ainda aí, não há transição brusca,

porquanto podem considerar-se os nossos fluidos imponderáveis142 como

termo médio entre os dois estados. (Cap. VI, itens 10 e seguintes.)

Cada um desses dois estados dá lugar, naturalmente, a fenômenos

especiais: ao segundo pertencem os do mundo visível e ao primeiro os do

mundo invisível. Uns, os chamados fenômenos materiais, são da alçada da

Ciência propriamente dita, os outros, qualificados de fenômenos espirituais

ou psíquicos, porque se ligam de modo especial à existência dos Espíritos,

cabem nas atribuições do Espiritismo. Como, porém, a vida espiritual e

a vida corporal se acham incessantemente em contato, os fenômenos das

duas categorias muitas vezes se produzem simultaneamente. No estado

de encarnação, o homem somente pode perceber os fenômenos psíquicos

que se prendem à vida corpórea; os do domínio espiritual escapam aos

sentidos materiais e só podem ser percebidos no estado de Espírito.143

3. No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem

deixar de ser etéreo, sofre modificações tão variadas em gênero e mais nu

merosas talvez do que no estado de matéria tangível. Essas modificações

constituem fluidos distintos que, embora procedentes do mesmo prin

cípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenômenos

peculiares ao mundo invisível.

Dentro da relatividade de tudo, esses fluidos têm para os Espíri

tos, que também são fluídicos, uma aparência tão material quanto a dos

objetos tangíveis para os encarnados e são, para eles, os Espíritos, o que

são para nós as substâncias do mundo terrestre. Os Espíritos os elaboram e combinam para produzirem determinados efeitos, como fazem os ho

mens com os seus materiais, ainda que por processos diferentes.

Lá, porém, como neste mundo, somente aos Espíritos mais escla

recidos é dado compreender o papel que desempenham os elementos

constitutivos do mundo onde eles se acham. Os ignorantes do mundo

invisível são tão incapazes de explicar a si mesmos os fenômenos a que

assistem e para os quais muitas vezes concorrem maquinalmente, como

os ignorantes da Terra o são para explicar os efeitos da luz ou da eletrici

dade, para dizer de que modo é que veem e escutam.

4. Os elementos fluídicos do mundo espiritual escapam aos nossos

instrumentos de análise e à percepção dos nossos sentidos, feitos para

perceberem a matéria tangível e não a matéria etérea. Alguns há, perten

centes a um meio diverso a tal ponto do nosso, que deles só podemos

fazer ideia mediante comparações tão imperfeitas como aquelas median

te as quais um cego de nascença procura fazer ideia da teoria das cores.

Mas entre tais fluidos, há os tão intimamente ligados à vida cor

poral, que, de certa forma, pertencem ao meio terreno. Em falta de ob

servação direta, seus efeitos podem observar-se, como se observam os

do fluido do ímã, fluido que jamais se viu, podendo-se adquirir sobre a

natureza deles conhecimentos de alguma precisão. É essencial esse estu

do, porque está nele a chave de uma imensidade de fenômenos que não

se conseguem explicar unicamente com as leis da matéria.

5. A pureza absoluta, da qual nada nos pode dar ideia, é o ponto

de partida do fluido universal; o ponto oposto é o em que ele se trans

forma em matéria tangível. Entre esses dois extremos, dão-se inúmeras

transformações, mais ou menos aproximadas de um e de outro. Os flui

dos mais próximos da materialidade, os menos puros, conseguintemente,

compõem o que se pode chamar a atmosfera espiritual da Terra. É desse

meio, onde igualmente vários são os graus de pureza, que os Espíritos

encarnados e desencarnados, deste planeta, haurem os elementos neces

sários à economia de suas existências. Por muito sutis e impalpáveis que

nos sejam esses fluidos, não deixam por isso de ser de natureza grosseira,

em comparação com os fluidos etéreos das regiões superiores.

O mesmo se dá na superfície de todos os mundos, salvo as dife

renças de constituição e as condições de vitalidade próprias de cada um.

Quanto menos material é a vida neles, tanto menos afinidades têm os

fluidos espirituais com a matéria propriamente dita.

Não é rigorosamente exata a qualificação de fluidos espirituais, pois

que, em definitivo, eles são sempre matéria mais ou menos quintessen

ciada. De realmente espiritual, só a alma ou princípio inteligente. Dá-se--lhes essa denominação por comparação apenas e, sobretudo, pela afini

dade que eles guardam com os Espíritos. Pode dizer-se que são a matéria

do mundo espiritual, razão por que são chamados fluidos espirituais.

6. Quem conhece, aliás, a constituição íntima da matéria tangí

vel? Ela talvez somente seja compacta em relação aos nossos sentidos;

prová-lo-ia a facilidade com que a atravessam os fluidos espirituais e os

Espíritos, aos quais não oferece maior obstáculo, do que o que os corpos

transparentes oferecem à luz.144

Tendo por elemento primitivo o fluido cósmico etéreo, à matéria

tangível há de ser possível, desagregando-se, voltar ao estado de eteri

zação, do mesmo modo que o diamante, o mais duro dos corpos, pode

volatilizar-se em gás impalpável. Na realidade, a solidificação da matéria

não é mais do que um estado transitório do fluido universal, que pode volver

ao seu estado primitivo, quando deixam de existir as condições de coesão.

Quem sabe mesmo se, no estado de tangibilidade, a matéria não é

suscetível de adquirir uma espécie de eterização que lhe daria proprieda

des particulares? Certos fenômenos, que parecem autênticos, tenderiam

a fazer supor esse estado. Ainda não conhecemos senão as fronteiras do

mundo invisível; o porvir, sem dúvida, nos reserva o conhecimento de

novas leis, que nos permitirão compreender o que se nos conserva em

mistério.

Formação e propriedades do perispírito

7. O perispírito, ou corpo fluídico dos Espíritos, é um dos mais

importantes produtos do fluido cósmico; é uma condensação desse flui

do em torno de um foco de inteligência ou alma. Já vimos que também o

corpo carnal tem seu princípio de origem nesse mesmo fluido condensa

do e transformado em matéria tangível. No perispírito, a transformação

molecular se opera diferentemente, porquanto o fluido conserva a sua

imponderabilidade e suas qualidades etéreas. O corpo perispirítico e o

corpo carnal têm pois origem no mesmo elemento primitivo; ambos são

matéria, ainda que em dois estados diferentes.

8. Do meio onde se encontra é que o Espírito extrai o seu peris

pírito, isto é, esse envoltório ele o forma dos fluidos ambientes. Resulta

daí que os elementos constitutivos do perispírito naturalmente variam,

conforme os mundos. Dando-se Júpiter como orbe muito adiantado

em comparação com a Terra, como um orbe onde a vida corpórea não

apresenta a materialidade da nossa, os envoltórios perispirituais hão de

ser lá de natureza muito mais quintessenciada do que aqui. Ora, assim

como não poderíamos existir naquele mundo com o nosso corpo carnal,

também os nossos Espíritos não poderiam nele penetrar com o perispíri

to terrestre que os reveste. Emigrando da Terra, o Espírito deixa aí o seu

invólucro fluídico e toma outro apropriado ao mundo onde vai habitar.

9. A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com

o grau de adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não

podem mudar de envoltório a seu bel-prazer, pelo que não podem passar,

à vontade, de um mundo para outro. Alguns há, portanto, cujo envol

tório fluídico, se bem que etéreo e imponderável com relação à matéria

tangível, ainda é por demais pesado, se assim nos podemos exprimir, com

relação ao mundo espiritual, para não permitir que eles saiam do meio

que lhes é próprio. Nessa categoria se devem incluir aqueles cujo perispí

rito é tão grosseiro, que eles o confundem com o corpo carnal, razão por

que continuam a crer-se vivos. Esses Espíritos, cujo número é avultado,

permanecem na superfície da Terra, como os encarnados, julgando-se

entregues às suas ocupações terrenas. Outros um pouco mais desmateria

lizados não o são, contudo, suficientemente, para se elevarem acima das

regiões terrestres.145

Os Espíritos superiores, ao contrário, podem vir aos mundos in

feriores, e, até, encarnar neles. Tiram, dos elementos constitutivos do

mundo onde entram, os materiais para a formação do envoltório fluí

dico ou carnal apropriado ao meio em que se encontrem. Fazem como

o nobre que despe temporariamente suas vestes, para envergar os trajes

plebeus, sem deixar por isso de ser nobre.

É assim que os Espíritos da categoria mais elevada podem manifes

tar-se aos habitantes da Terra ou encarnar em missão entre estes. Tais Es

píritos trazem consigo, não o invólucro, mas a lembrança, por intuição,

das regiões donde vieram e que, em pensamento, eles veem. São videntes

entre cegos.

10. A camada de fluidos espirituais que cerca a Terra se pode com

parar às camadas inferiores da atmosfera, mais pesadas, mais compactas,

menos puras, do que as camadas superiores. Não são homogêneos esses

fluidos; são uma mistura de moléculas de diversas qualidades, entre as

quais necessariamente se encontram as moléculas elementares que lhes

formam a base, porém, mais ou menos alteradas. Os efeitos que esses

fluidos produzem estarão na razão da soma das partes puras que eles en

cerram. Tal, por comparação, o álcool retificado, ou misturado, em di

ferentes proporções, com água ou outras substâncias: seu peso específico

aumenta, por efeito dessa mistura, ao mesmo tempo que sua força e

sua inflamabilidade diminuem, embora no todo continue a haver álcool

puro.

Os Espíritos chamados a viver naquele meio tiram dele seus pe

rispíritos; porém, conforme seja mais ou menos depurado o Espírito, seu

perispírito se formará das partes mais puras ou das mais grosseiras do fluido

peculiar ao mundo onde ele encarna. O Espírito produz aí, sempre por

comparação e não por assimilação, o efeito de um reativo químico que

atrai a si as moléculas que a sua natureza pode assimilar.

Resulta disso este fato capital: a constituição íntima do perispíri

to não é idêntica em todos os Espíritos encarnados ou desencarnados que

povoam a Terra ou o espaço que a circunda. O mesmo já não se dá com

o corpo carnal, que, como foi demonstrado, se forma dos mesmos ele

mentos, qualquer que seja a superioridade ou a inferioridade do Espí

rito. Por isso, em todos, são os mesmos os efeitos que o corpo produz,

semelhantes as necessidades, ao passo que diferem em tudo o que res

peita ao perispírito.

Também resulta que: o envoltório perispirítico de um Espírito se

modifica com o progresso moral que este realiza em cada encarnação, em

bora ele encarne no mesmo meio; que os Espíritos superiores, encarnando

excepcionalmente, em missão, num mundo inferior, têm perispírito menos

grosseiro do que o dos indígenas146 desse mundo.

11. O meio está sempre em relação com a natureza dos seres que

têm de nele viver: os peixes, na água; os seres terrestres, no ar; os seres

espirituais no fluido espiritual ou etéreo, mesmo que estejam na Terra.

O fluido etéreo está para as necessidades do Espírito, como a atmosfera para

as dos encarnados. Ora, do mesmo modo que os peixes não podem viver

no ar; que os animais terrestres não podem viver numa atmosfera muito

rarefeita para seus pulmões, os Espíritos inferiores não podem suportar

o brilho e a impressão dos fluidos mais etéreos. Não morreriam no meio

desses fluidos, porque o Espírito não morre, mas uma força instintiva os

mantêm afastados dali, como a criatura terrena se afasta de um fogo mui

to ardente ou de uma luz muito deslumbrante. Eis aí por que não podem

sair do meio que lhes é apropriado à natureza; para mudarem de meio,

precisam antes mudar de natureza, despojar-se dos instintos materiais

que os retêm nos meios materiais; numa palavra, que se depurem e mo

ralmente se transformem. Então, gradualmente se identificam com um

meio mais depurado, que se lhes torna uma necessidade, como os olhos,

para quem viveu longo tempo nas trevas, insensivelmente se habituam à

luz do dia e ao fulgor do Sol.

12. Assim, tudo no universo se liga, tudo se encadeia; tudo se acha

submetido à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a mais compacta

materialidade, até a mais pura espiritualidade. A Terra é qual vaso donde

se escapa uma fumaça densa que vai clareando à medida que se eleva e

essas parcelas rarefeitas se perdem no espaço infinito.

A potência divina refulge em todas as partes desse grandioso con

junto e, no entanto, quer-se que Deus, não contente com o que há feito,

venha perturbar essa harmonia! que se rebaixe ao papel de mágico, pro

duzindo efeitos pueris, dignos de um prestidigitador! E ousa-se, ainda

por cima, dar-lhe como rival em habilidade o próprio Satanás! Não have

ria modo de amesquinhar mais a majestade divina e admiram-se de que

a incredulidade progrida.

Tendes razão de dizer: “A fé vai-se.”, mas a que se vai é a fé em

tudo o que aberra do bom senso e da razão; é a fé idêntica à que outrora

levava a dizerem: “Vão-se os deuses!” A fé, porém, nas coisas sérias, a fé

em Deus e na imortalidade, essa está sempre vivaz no coração do homem

e, por mais sufocada que tenha sido sob o amontoado de histórias pue

ris com que a oprimiram, ela se reerguerá mais forte, desde que se sinta

libertada, tal como a planta que, comprimida, se levanta de novo, logo

que a banham os raios do sol!

Efetivamente, tudo é milagre na natureza, porque tudo é admirá

vel e dá testemunho da sabedoria divina! Esses milagres se patenteiam a

toda gente, a todos os que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir e não em

proveito apenas de alguns! Não! milagres não há no sentido que comu

mente emprestam a essa palavra, porque tudo decorre das leis eternas da

Criação, leis essas perfeitas.

Ação dos Espíritos sobre os fluidos. Criações

fluídicas. Fotografia do pensamento

13. Os fluidos espirituais, que constituem um dos estados do flui

do cósmico universal, são, a bem dizer, a atmosfera dos seres espirituais;

o elemento donde eles tiram os materiais sobre que operam; o meio onde

ocorrem os fenômenos especiais, perceptíveis à visão e à audição do Es

pírito, mas que escapam aos sentidos carnais, impressionáveis somente à

matéria tangível; o meio onde se forma a luz peculiar ao mundo espiri

tual, diferente, pela causa e pelos efeitos da luz ordinária; finalmente, o

veículo do pensamento, como o ar o é do som.

14. Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não manipu

lando-os como os homens manipulam os gases, mas empregando o pen

samento e a vontade. Para os Espíritos, o pensamento e a vontade são o

que é a mão para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem àqueles

fluidos tal ou qual direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, or

ganizam com eles conjuntos que apresentam uma aparência, uma forma,

uma coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um

químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo

certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.

Algumas vezes, essas transformações resultam de uma intenção;

Espírito pense uma coisa, para que esta se produza, como basta que mo

dele uma ária, para que esta repercuta na atmosfera.

É assim, por exemplo, que um Espírito se faz visível a um encarna

do que possua a vista psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo

na época em que o segundo o conheceu, embora haja ele tido, depois

dessa época, muitas encarnações. Apresenta-se com o vestuário, os sinais

exteriores — enfermidades, cicatrizes, membros amputados etc. — que

tinha então. Um decapitado se apresentará sem a cabeça. Não quer isso

dizer que haja conservado essas aparências, certo que não, porquanto,

como Espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho, nem decapi

tado; o que se dá é que, retrocedendo o seu pensamento à época em que

tinha tais defeitos, seu perispírito lhes toma instantaneamente as aparên

cias, que deixam de existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir

naquele sentido. Se, pois, de uma vez ele foi negro e branco de outra,

apresentar-se-á como branco ou negro, conforme a encarnação a que se

refira a sua evocação e à que se transporte o seu pensamento.

Por análogo efeito, o pensamento do Espírito cria fluidicamente

os objetos que ele esteja habituado a usar. Um avarento manuseará ouro,

um militar trará suas armas e seu uniforme, um fumante o seu cachimbo,

um lavrador a sua charrua e seus bois, uma mulher velha a sua roca. Para

o Espírito, que é, também ele, fluídico, esses objetos fluídicos são tão

reais, como o eram, no estado material, para o homem vivo; mas, pela

razão de serem criações do pensamento, a existência deles é tão fugitiva

quanto a deste.147

15. Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre os

fluidos como o som sobre o ar; eles nos trazem o pensamento, como o

ar nos traz o som. Pode-se pois dizer, sem receio de errar, que há, nesses

fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundi

rem, como há no ar ondas e vibrações sonoros.

Há mais: criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no en

voltório perispirítico, como num espelho; toma nele corpo e aí de certo

modo se fotografa. Tenha um homem, por exemplo, a ideia de matar a

outro: embora o corpo material se lhe conserve impassível, seu corpo

fluídico é posto em ação pelo pensamento e reproduz todos os matizes

deste último; executa fluidicamente o gesto, o ato que intentou praticar.

O pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira é pintada, como

num quadro, tal qual se lhe desenrola no espírito.

Desse modo é que os mais secretos movimentos da alma repercu

tem no envoltório fluídico; que uma alma pode ler noutra alma como

num livro e ver o que não é perceptível aos olhos do corpo. Contudo,

vendo a intenção, pode ela pressentir a execução do ato que lhe será a

consequência, mas não pode determinar o instante em que o mesmo

ato será executado, nem lhe assinalar os pormenores, nem, ainda, afir

mar que ele se dê, porque circunstâncias ulteriores poderão modificar os

planos assentados e mudar as disposições. Ele não pode ver o que ainda

não esteja no pensamento do outro; o que vê é a preocupação habitual

do indivíduo, seus desejos, seus projetos, seus desígnios bons ou maus.

Qualidades dos fluidos

16. Tem consequências de importância capital e direta para os en

carnados a ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais. Sendo esses

fluidos o veículo do pensamento e podendo este modificar-lhes as pro

priedades, é evidente que eles devem achar-se impregnados das qualida

des boas ou más dos pensamentos que os fazem vibrar, modificando-se

pela pureza ou impureza dos sentimentos. Os maus pensamentos cor

rompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem

o ar respirável. Os fluidos que envolvem os Espíritos maus, ou que estes

projetam são, portanto, viciados, ao passo que os que recebem a influ

ência dos bons Espíritos são tão puros quanto o comporta o grau da

perfeição moral destes.

17. Fora impossível fazer-se uma enumeração ou classificação dos

bons e dos maus fluidos, ou especificar-lhes as respectivas qualidades, por

ser tão grande quanto a dos pensamentos a diversidade deles.

Os fluidos não possuem qualidades sui generis, mas as que adqui

rem no meio onde se elaboram; modificam-se pelos eflúvios desse meio,

como o ar pelas exalações, a água pelos sais das camadas que atravessa.

Conforme as circunstâncias, suas qualidades são, como as da água e do

ar, temporárias ou permanentes, o que os torna muito especialmente

apropriados à produção de tais ou tais efeitos.

Também carecem de denominações particulares. Como os odores,

eles são designados pelas suas propriedades, seus efeitos e tipos originais.

Sob o ponto de vista moral, trazem o cunho dos sentimentos de ódio,

de inveja, de ciúme, de orgulho, de egoísmo, de violência, de hipocri

sia, de bondade, de benevolência, de amor, de caridade, de doçura etc.

Sob o aspecto físico, são excitantes, calmantes, penetrantes, adstringen

tes, irritantes, dulcificantes, soporíficos, narcóticos, tóxicos, reparadores,

expulsivos; tornam-se força de transmissão, de propulsão etc. O quadro

dos fluidos seria, pois, o de todas as paixões, das virtudes e dos vícios da

humanidade e das propriedades da matéria, correspondentes aos efeitos

que eles produzem.

18. Sendo apenas Espíritos encarnados, os homens têm uma par

cela da vida espiritual, visto que vivem dessa vida tanto quanto da vida

corporal; primeiramente, durante o sono e, muitas vezes, no estado de

vigília. O Espírito, encarnado, conserva, com as qualidades que lhe são

próprias, o seu perispírito que, como se sabe, não fica circunscrito pelo

corpo, mas irradia ao seu derredor e o envolve como que de uma atmos

fera fluídica.

Pela sua união íntima com o corpo, o perispírito desempenha pre

ponderante papel no organismo. Pela sua expansão, põe o Espírito en

carnado em relação mais direta com os Espíritos livres e também com os

Espíritos encarnados.

O pensamento do encarnado atua sobre os fluidos espirituais, como

o dos desencarnados, e se transmite de Espírito a Espírito pelas mesmas

vias e, conforme seja bom ou mau, saneia ou vicia os fluidos ambientes.

Desde que estes se modificam pela projeção dos pensamentos do

Espírito, seu invólucro perispirítico, que é parte constituinte do seu ser

e que recebe de modo direto e permanente a impressão de seus pensa

mentos, há de, ainda mais, guardar a de suas qualidades boas ou más. Os

fluidos viciados pelos eflúvios dos maus Espíritos podem depurar-se pelo

afastamento destes, cujos perispíritos, porém, serão sempre os mesmos,

enquanto o Espírito não se modificar por si próprio.

Sendo o perispírito dos encarnados de natureza idêntica à dos flui

dos espirituais, ele os assimila com facilidade, como uma esponja se em

bebe de um líquido. Esses fluidos exercem sobre o perispírito uma ação

tanto mais direta, quanto, por sua expansão e sua irradiação, o perispírito

com eles se confunde.

Atuando esses fluidos sobre o perispírito, este, a seu turno, reage

sobre o organismo material com que se acha em contato molecular. Se

os eflúvios são de boa natureza, o corpo ressente uma impressão salutar;

se são maus, a impressão é penosa. Se são permanentes e enérgicos, os

eflúvios maus podem ocasionar desordens físicas; não é outra a causa de

certas enfermidades.

Os meios onde superabundam os maus Espíritos são, pois, impreg

nados de maus fluidos que o encarnado absorve pelos poros perispiríti

cos, como absorve pelos poros do corpo os miasmas pestilenciais.

19. Assim se explicam os efeitos que se produzem nos lugares de

reunião. Uma assembleia é um foco de irradiação de pensamentos di

versos. É como uma orquestra, um coro de pensamentos, onde cada

um emite uma nota. Resulta daí uma multiplicidade de correntes e de

eflúvios fluídicos cuja impressão cada um recebe pelo sentido espiritual,

como num coro musical cada um recebe a impressão dos sons pelo sen

tido da audição.

Mas, do mesmo modo que há radiações sonoras, harmoniosas ou

dissonantes, também há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se

o conjunto é harmonioso, agradável é a impressão; penosa, se aquele é

discordante. Ora, para isso, não se faz mister que o pensamento se ex

teriorize por palavras; quer ele se externe, quer não, a irradiação existe

sempre.

Tal a causa da satisfação que se experimenta numa reunião simpá

tica, animada de pensamentos bons e benévolos. Envolve-a uma como

salubre atmosfera moral, onde se respira à vontade; sai-se reconfortado

dali, porque impregnado de salutares eflúvios fluídicos. Basta, porém,

que se lhe misturem alguns pensamentos maus, para produzirem o efei

to de uma corrente de ar gelado num meio tépido, ou o de uma nota

desafinada num concerto. Desse modo também se explica a ansiedade, o

indefinível mal-estar que se experimenta numa reunião antipática, onde

malévolos pensamentos provocam correntes de fluido nauseabundo.

20. O pensamento, portanto, produz uma espécie de efeito físico

que reage sobre o moral, fato este que só o Espiritismo podia tornar

compreensível. O homem o sente instintivamente, visto que procura

as reuniões homogêneas e simpáticas, onde sabe que pode haurir novas

forças morais, podendo-se dizer que, em tais reuniões, ele recupera as

perdas fluídicas que sofre todos os dias pela irradiação do pensamento,

como recupera, por meio dos alimentos, as perdas do corpo material. É

que, com efeito, o pensamento é uma emissão que ocasiona perda real

de fluidos espirituais e, conseguintemente, de fluidos materiais, de ma

neira tal que o homem precisa retemperar-se com os eflúvios que recebe

do exterior.

Quando se diz que um médico opera a cura de um doente, por

meio de boas palavras, enuncia-se uma verdade absoluta, pois que um

pensamento bondoso traz consigo fluidos reparadores que atuam sobre

o físico, tanto quanto sobre o moral.

21. Dir-se-á que se podem evitar os homens sabidamente mal--intencionados. É fora de dúvida; mas, como fugiremos à influência

dos maus Espíritos que pululam em torno de nós e por toda parte se

insinuam, sem serem vistos?

O meio é muito simples, porque depende da vontade do homem,

que traz consigo o necessário preservativo. Os fluidos se combinam pela

semelhança de suas naturezas; os dessemelhantes se repelem; há incom

patibilidade entre os bons e os maus fluidos, como entre o óleo e a água.

Que se faz quando está viciado o ar? Procede-se ao seu saneamento,

cuida-se de depurá-lo, destruindo o foco dos miasmas, expelindo os eflú

vios malsãos, por meio de mais fortes correntes de ar salubre. À invasão,

pois, dos maus fluidos, cumpre se oponham os fluidos bons e, como cada

um tem no seu próprio perispírito uma fonte fluídica permanente, todos

trazem consigo o remédio aplicável. Trata-se apenas de purificar essa fon

te e de lhe dar qualidades tais, que se constitua para as más influências

um repulsor, em vez de ser uma força atrativa. O perispírito, portanto, é

uma couraça a que se deve dar a melhor têmpera possível. Ora, como as

suas qualidades guardam relação com as da alma, importa se trabalhe por

melhorá-la, pois que são as imperfeições da alma que atraem os Espíritos

maus.

As moscas são atraídas pelos focos de corrupção; destruídos esses

focos, elas desaparecerão. Os maus Espíritos, igualmente, vão para onde

o mal os atrai; eliminado o mal, eles se afastarão. Os Espíritos realmente

bons, encarnados ou desencarnados, nada têm que temer da influência dos

maus.

22. O perispírito é o traço de união entre a vida corpórea e a vida

espiritual. É por seu intermédio que o Espírito encarnado se acha em

relação contínua com os desencarnados; é, em suma, por seu intermédio,

que se operam no homem fenômenos especiais, cuja causa fundamen

tal não se encontra na matéria tangível e que, por essa razão, parecem

sobrenaturais.

É nas propriedades e nas irradiações do fluido perispirítico que se

tem de procurar a causa da dupla vista, ou vista espiritual, a que também

se pode chamar vista psíquica, da qual muitas pessoas são dotadas, fre

quentemente a seu mau grado, assim como da vista sonambúlica.

O perispírito é o órgão sensitivo do Espírito, por meio do qual este

percebe coisas espirituais que escapam aos sentidos corpóreos. Pelos ór

gãos do corpo, a visão, a audição e as diversas sensações são localizadas e

limitadas à percepção das coisas materiais; pelo sentido espiritual, ou psí

quico, elas se generalizam: o Espírito vê, ouve e sente, por todo o seu ser,

tudo o que se encontra na esfera de irradiação do seu fluido perispirítico.

No homem, tais fenômenos constituem a manifestação da vida es

piritual; é a alma a atuar fora do organismo. Na dupla vista ou percepção

pelo sentido psíquico, ele não vê com os olhos do corpo, embora, muitas

vezes, por hábito, dirija o olhar para o ponto que lhe chama a atenção. Vê

com os olhos da alma e a prova está em que vê perfeitamente bem com os

olhos fechados e vê o que está muito além do alcance do raio visual. Lê o

pensamento figurado no raio fluídico (Item 15).148

23. Embora, durante a vida, o Espírito se encontre preso ao corpo

pelo perispírito, não se lhe acha tão escravizado, que não possa alongar

a cadeia que o prende e transportar-se a um ponto distante, quer sobre a

Terra, quer do espaço. Repugna ao Espírito estar ligado ao corpo, porque

148 Nota de Allan Kardec: Fatos de dupla vista e lucidez sonambúlica relatados na Revista espírita: janeiro de 1858; novembro de 1858; julho de 1861; novembro de 1865.

a sua vida normal é a de liberdade e a vida corporal é a do servo preso à

gleba.

Ele, por conseguinte, se sente feliz em deixar o corpo, como o pás

saro em se encontrar fora da gaiola, pelo que aproveita todas as ocasiões

que se lhe oferecem para dela se escapar, de todos os instantes em que a

sua presença não é necessária à vida de relação. Tem-se então o fenômeno

a que se dá o nome de emancipação da alma, fenômeno que se produz

sempre durante o sono. De todas as vezes que o corpo repousa, que os

sentidos ficam inativos, o Espírito se desprende. (O livro dos espíritos,

Parte 2a, cap. TREZE.)

Nesses momentos ele vive da vida espiritual, enquanto que o corpo

vive apenas da vida vegetativa; acha-se, em parte, no estado em que se

achará após a morte: percorre o espaço, confabula com os amigos e ou

tros Espíritos, livres ou encarnados também.

O laço fluídico que o prende ao corpo só por ocasião da morte se

rompe definitivamente; a separação completa somente se dá por efeito

da extinção absoluta da atividade vital. Enquanto o corpo vive, o Espí

rito, a qualquer distância que esteja, é instantaneamente chamado à sua

prisão, desde que a sua presença aí se torne necessária. Ele, então, retoma

o curso da vida exterior de relação. Por vezes, ao despertar, conserva das

suas peregrinações uma lembrança, uma imagem mais ou menos precisa,

que constitui o sonho. Quando nada, traz delas intuições que lhe suge

rem ideias e pensamentos novos e justificam o provérbio: A noite é boa

conselheira.

Assim igualmente se explicam certos fenômenos característicos do

sonambulismo natural e magnético, da catalepsia, da letargia, do êxtase

etc., e que mais não são do que manifestações da vida espiritual.149

24. Pois que a visão espiritual não se opera por meio dos olhos

do corpo, segue-se que a percepção das coisas não se verifica mediante

a luz ordinária: de fato, a luz material é feita para o mundo material;

para o mundo espiritual, uma luz especial existe, cuja natureza desco

nhecemos, porém que é, sem dúvida, uma das propriedades do fluido

etéreo, adequada às percepções visuais da alma. Há, portanto, luz mate

rial e luz espiritual. A primeira emana de focos circunscritos aos corpos luminosos; a segunda tem o seu foco em toda parte: tal a razão por que

não há obstáculo para a visão espiritual, que não é embaraçada nem

pela distância, nem pela opacidade da matéria, não existindo para ela a

obscuridade. O mundo espiritual é, pois, iluminado pela luz espiritual,

que tem seus efeitos próprios, como o mundo material é iluminado pela

luz solar.

25. Assim, envolta no seu perispírito, a alma tem consigo o seu

princípio luminoso. Penetrando a matéria por virtude da sua essência

etérea, não há, para a sua visão, corpos opacos.

Entretanto, a vista espiritual não é idêntica, quer em extensão,

quer em penetração, para todos os Espíritos. Somente os Espíritos puros

a possuem em todo o seu poder. Nos inferiores ela se acha enfraquecida

pela relativa grosseria do perispírito, que se lhe interpõe qual nevoeiro.

Manifesta-se em diferentes graus, nos Espíritos encarnados, pelo

fenômeno da segunda vista, tanto no sonambulismo natural ou magnéti

co, quanto no estado de vigília. Conforme o grau de poder da faculdade,

diz-se que a lucidez é maior ou menor. Com o auxílio dessa faculdade é

que certas pessoas veem o interior do organismo humano e descrevem as

causas das enfermidades.

26. A vista espiritual, portanto, faculta percepções especiais que,

não tendo por sede os órgãos materiais, se operam em condições muito

diversas das que decorrem da vida corporal. Efetuando-se fora do organis

mo, tem ela uma mobilidade que derrui todas as previsões. Indispensável

se torna estudá-la em seus efeitos e em suas causas e não assimilando-a à

vista ordinária, que ela não se destina a suprir, salvo casos excepcionais,

que se não poderiam tomar como regra.

27. Necessariamente incompleta e imperfeita é a vista espiritual

nos Espíritos encarnados e, por conseguinte, sujeita a aberrações. Tendo

por sede a própria alma, o estado desta há de influir nas percepções que

aquela vista faculte. Segundo o grau de desenvolvimento, as circunstân

cias e o estado moral do indivíduo, pode ela dar, quer durante o sono,

quer no estado de vigília: 1o a percepção de certos fatos materiais e reais,

como o conhecimento de alguns que ocorram a grande distância, os de

talhes descritivos de uma localidade, as causas de uma enfermidade e

os remédios convenientes; 2o a percepção de coisas igualmente reais do

mundo espiritual, como a presença dos Espíritos; 3o imagens fantásticas

criadas pela imaginação, análogas às criações fluídicas do pensamento

(veja-se, acima, o item 14). Estas criações se acham sempre em relação

com as disposições morais do Espírito que as gera. É assim que o pensa

mento de pessoas fortemente imbuídas de certas crenças religiosas e com

elas preocupadas lhes apresenta o inferno, suas fornalhas, suas torturas

e seus demônios, tais quais essas pessoas os imaginam. Às vezes, é toda

uma epopeia. Os pagãos viam o Olimpo e o Tártaro, como os cristãos

veem o inferno e o paraíso. Se, ao despertarem, ou ao saírem do êxtase,

conservam lembrança exata de suas visões, os que as tiveram tomam-nas

como realidades confirmativas de suas crenças, quando tudo não passa

de produto de seus próprios pensamentos.150 Cumpre, pois, se faça uma

distinção muito rigorosa nas visões extáticas, antes que se lhes dê crédito.

A tal propósito, o remédio para a excessiva credulidade é o estudo das leis

que regem o mundo espiritual.

28. Os sonhos propriamente ditos apresentam os três caracteres

das visões acima descritas. Às duas primeiras categorias dessas visões

pertencem os sonhos de previsões, pressentimentos e avisos.151 Na ter

ceira, isto é, nas criações fluídicas do pensamento, é que se pode deparar

com a causa de certas imagens fantásticas, que nada têm de real, com

relação à vida corpórea, mas que apresentam às vezes, para o Espírito,

uma realidade tal, que o corpo lhe sente o contrachoque, havendo casos

em que os cabelos embranquecem sob a impressão de um sonho. Podem

essas criações ser provocadas: pela exaltação das crenças; por lembranças

retrospectivas; por gostos, desejos, paixões, temor, remorsos; pelas pre

ocupações habituais; pelas necessidades do corpo, ou por um embaraço

nas funções do organismo; finalmente, por outros Espíritos, com objetivo benévolo ou maléfico, conforme a sua natureza.

29. A matéria inerte é insensível; o fluido perispirítico igualmente o é, mas transmite a sensação ao centro sensitivo, que é o Espírito.

150 Nota de Allan Kardec: Podem explicar-se assim as visões da irmã Elmerich que, reportando-se ao

tempo da paixão do Cristo, diz ter visto coisas materiais, que nunca existiram, senão nos livros que ela leu; as da Sra. Cantanille (Revista espírita de agosto de 1866) e uma parte das de Swedenborg.

As lesões dolorosas do corpo repercutem, pois, no Espírito, qual cho

que elétrico, por intermédio do fluido perispiritual, que parece ter nos

nervos os seus fios condutores. É o influxo nervoso dos fisiologistas

que, desconhecendo as relações desse fluido com o princípio espiritual,

ainda não puderam achar explicação para todos os efeitos.

A interrupção pode dar-se pela separação de um membro, ou pela

secção de um nervo, mas, também, parcialmente ou de maneira geral e

sem nenhuma lesão, nos momentos de emancipação, de grande sobre-ex

citação ou preocupação do Espírito. Nesse estado, o Espírito não pensa

no corpo e, em sua febril atividade, atrai a si, por assim dizer, o fluido pe

rispiritual que, retirando-se da superfície, produz aí uma insensibilidade

momentânea. Poder-se-ia também admitir que, em certas circunstâncias,

no próprio fluido perispiritual uma modificação molecular se opera, que

lhe tira temporariamente a propriedade de transmissão. É por isso que,

muitas vezes, no ardor do combate, um militar não percebe que está fe

rido e que uma pessoa, cuja atenção se acha concentrada num trabalho,

não ouve o ruído que se lhe faz em torno. Efeito análogo, porém mais

pronunciado, se verifica nalguns sonâmbulos, na letargia e na catalepsia.

Finalmente, do mesmo modo também se pode explicar a insensibilidade

dos convulsionários e de muitos mártires. (Revista espírita, janeiro de

1868: “Estudo sobre os Aïssaouas”.)

A paralisia já não tem absolutamente a mesma causa: aí o efeito

é todo orgânico; são os próprios nervos, os fios condutores que se tor

nam inaptos à circulação fluídica; são as cordas do instrumento que se alteraram.

30. Em certos estados patológicos, quando o Espírito há deixado o

corpo e o perispírito só por alguns pontos se lhe acha aderido, apresen

ta ele, o corpo, todas as aparências da morte e enuncia-se uma verdade

absoluta, dizendo que a vida aí está por um fio. Semelhante estado pode

durar mais ou menos tempo; podem mesmo algumas partes do corpo

entrar em decomposição, sem que, no entanto, a vida se ache definitiva

mente extinta. Enquanto não se haja rompido o último fio, pode o Es

pírito, quer por uma ação enérgica, da sua própria vontade, quer por um

influxo fluídico estranho, igualmente forte, ser chamado a volver ao corpo.

É como se explicam certos fatos de prolongamento da vida contra todas

as probabilidades e algumas supostas ressurreições. É a planta a renascer,

como às vezes se dá, de uma só fibrila da raiz. Quando, porém, as últi

mas moléculas do corpo fluídico se têm destacado do corpo carnal, ou

quando este último há chegado a um estado irreparável de degradação,

impossível se torna todo regresso à vida.153

Curas

31. Como se há visto, o fluido universal é o elemento primitivo do

corpo carnal e do perispírito, os quais são simples transformações dele.

Pela identidade da sua natureza, esse fluido, condensado no perispírito,

pode fornecer princípios reparadores ao corpo; o Espírito, encarnado ou

desencarnado, é o agente propulsor que infiltra num corpo deteriorado

uma parte da substância do seu envoltório fluídico. A cura se opera me

diante a substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. O

poder curativo estará, pois, na razão direta da pureza da substância ino

culada; mas, depende também da energia da vontade que, quanto maior

for, tanto mais abundante emissão fluídica provocará e tanto maior força

de penetração dará ao fluido. Depende ainda das intenções daquele que

deseje realizar a cura, seja homem ou Espírito. Os fluidos que emanam de

uma fonte impura são quais substâncias medicamentosas alteradas.

32. São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre

os doentes, de acordo com as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e re

clama tratamento prolongado, como no magnetismo ordinário; doutras

vezes é rápida, como uma corrente elétrica. Há pessoas dotadas de tal

poder, que operam curas instantâneas nalguns doentes, por meio apenas

da imposição das mãos, ou, até, exclusivamente por ato da vontade. En

tre os dois polos extremos dessa faculdade, há infinitos matizes. Todas

as curas desse gênero são variedades do magnetismo e só diferem pela

intensidade e pela rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: o

fluido, a desempenhar o papel de agente terapêutico e cujo efeito se acha

subordinado à sua qualidade e a circunstâncias especiais.

33. A ação magnética pode produzir-se de muitas maneiras:

1o) pelo próprio fluido do magnetizador; é o magnetismo propria

mente dito, ou magnetismo humano, cuja ação se acha adstrita à força e,

sobretudo, à qualidade do fluido;

2o) pelo fluido dos Espíritos, atuando diretamente e sem interme

diário sobre um encarnado, seja para o curar ou acalmar um sofrimen

to, seja para provocar o sono sonambúlico espontâneo, seja para exercer

sobre o indivíduo uma influência física ou moral qualquer. É o magne

tismo espiritual, cuja qualidade está na razão direta das qualidades do

Espírito;

3o) pelos fluidos que os Espíritos derramam sobre o magnetizador,

que serve de veículo para esse derramamento. É o magnetismo misto, se

miespiritual, ou, se o preferirem, humano-espiritual. Combinado com o

fluido humano, o fluido espiritual lhe imprime qualidades de que ele ca

rece. Em tais circunstâncias, o concurso dos Espíritos é amiúde espontâ

neo, porém, as mais das vezes, provocado por um apelo do magnetizador.

34. É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica

e pode desenvolver-se por meio do exercício; mas, a de curar instantane

amente, pela imposição das mãos, essa é mais rara e o seu grau máximo

se deve considerar excepcional. No entanto, em épocas diversas e no seio

de quase todos os povos, surgiram indivíduos que a possuíam em grau

eminente. Nestes últimos tempos, apareceram muitos exemplos notáveis,

cuja autenticidade não sofre contestação. Uma vez que as curas desse

gênero assentam num princípio natural e que o poder de operá-las não

constitui privilégio, o que se segue é que elas não se operam fora da na

tureza e que só são miraculosas na aparência.155

Aparições. Transfigurações

35. Para nós, o perispírito, no seu estado normal, é invisível; mas,

como é formado de substância etérea, o Espírito, em certos casos, pode,

por ato da sua vontade, fazê-lo passar por uma modificação molecular

que o torna momentaneamente visível. É assim que se produzem as apa

rições, que não se dão, do mesmo modo que os outros fenômenos, fora

das leis da natureza. Nada tem esse de mais extraordinário, do que o do

vapor que, quando muito rarefeito, é invisível, mas que se torna visível,

quando condensado.

Conforme o grau de condensação do fluido perispirítico, a apari

ção é às vezes vaga e vaporosa; doutras vezes, mais nitidamente definida;

doutras, enfim, com todas as aparências da matéria tangível. Pode, mes

mo, chegar, até, à tangibilidade real, ao ponto de o observador se enganar

com relação à natureza do ser que tem diante de si.

São frequentes as aparições vaporosas, forma sob a qual muitos

indivíduos, depois de terem morrido, se apresentam às pessoas que lhes

são afeiçoadas. As aparições tangíveis são mais raras, se bem haja delas

numerosíssimos casos, perfeitamente autenticados. Se o Espírito quer

dar-se a conhecer, imprime ao seu envoltório todos os sinais exteriores

que tinha quando vivo.156

36. É de notar-se que as aparições tangíveis só têm da matéria

carnal as aparências; não poderiam ter dela as qualidades. Em virtude

da sua natureza fluídica, não podem ter a coesão da matéria, porque, em

realidade, não há nelas carne. Formam-se instantaneamente e instanta

neamente desaparecem, ou se evaporam pela desagregação das moléculas

fluídicas.157 Os seres que se apresentam nessas condições não nascem,

nem morrem, como os outros homens. São vistos e deixam de ser vistos,

sem que se saiba donde vêm, como vieram, nem para onde vão. Nin

guém os poderia matar, nem prender, nem encarcerar, visto carecerem de

corpo carnal. Atingiriam o vácuo os golpes que se lhes desferissem.

Tal o caráter dos agêneres, com os quais se pode confabular, sem

suspeitar de que eles o sejam, mas que não demoram longo tempo entre

os humanos e não podem tornar-se comensais de uma casa, nem figurar

entre os membros de uma família.158

Ao demais, denotam sempre, em suas atitudes, qualquer coisa de

estranho e de insólito que deriva ao mesmo tempo da materialidade e da

espiritualidade: neles, o olhar é simultaneamente vaporoso e brilhante,

carece da nitidez do olhar através dos olhos da carne; a linguagem, breve

e quase sempre sentenciosa, nada tem do brilho e da volubilidade da lin

guagem humana; a aproximação deles causa uma sensação singular e in

definível de surpresa, que inspira uma espécie de temor; e quem com eles

se põe em contato, embora os tome por indivíduos quais todos os outros,

é levado a dizer involuntariamente: Ali está uma criatura singular.159

37. Sendo o mesmo o perispírito, assim nos encarnados, como

nos desencarnados, um Espírito encarnado, por efeito completamente

idêntico, pode, num momento de liberdade, aparecer em ponto diverso

do em que repousa seu corpo, com os traços que lhe são habituais e

com todos os sinais de sua identidade. Foi esse fenômeno, do qual se

conhecem muitos casos autênticos, que deu lugar à crença nos homens

duplos.

38. Um efeito peculiar aos fenômenos dessa espécie consiste em

que as aparições vaporosas e, mesmo, tangíveis, não são perceptíveis a

toda gente, indistintamente. Os Espíritos só se mostram quando o que

rem e a quem também o querem. Um Espírito, pois, poderia aparecer,

numa assembleia, a um ou a muitos dos presentes e não ser visto pelos

demais. Dá-se isso, porque as percepções desse gênero se efetuam por

meio da vista espiritual, e não por intermédio da vista carnal; pois não

só aquela não é dada a toda gente, como pode, se for conveniente, ser

retirada, pela só vontade do Espírito, àquele a quem ele não queira mos

trar-se, como pode dá-la, momentaneamente, se entender necessário.

À condensação do fluido perispirítico nas aparições, indo mesmo

até a tangibilidade, faltam as propriedades da matéria ordinária: se tal

não se desse, as aparições seriam perceptíveis pelos olhos do corpo e,

então, todas as pessoas presentes as perceberiam.161

39. Podendo o Espírito operar transformações na contextura do

seu envoltório perispirítico e irradiando-se esse envoltório em torno

do corpo qual atmosfera fluídica, pode produzir-se na superfície mes

ma do corpo um fenômeno análogo ao das aparições. Pode a imagem

real do corpo apagar-se mais ou menos completamente, sob a camada fluídica, e assumir outra aparência; ou, então, vistos através da camada

fluídica modificada, os traços primitivos podem tomar outra expressão.

Se, saindo do terra a terra, o Espírito encarnado se identifica com as

coisas do mundo espiritual, pode a expressão de um semblante feio tor

nar-se bela, radiosa e até luminosa; se, ao contrário, o Espírito é presa

de paixões más, um semblante belo pode tomar um aspecto horrendo.

Assim se operam as transfigurações, que refletem sempre qualidades

e sentimentos predominantes no Espírito. O fenômeno resulta, portan

to, de uma transformação fluídica; é uma espécie de aparição perispiríti

ca, que se produz sobre o próprio corpo do vivo e, algumas vezes, no mo

mento da morte, em lugar de se produzir ao longe, como nas aparições

propriamente ditas. O que distingue as aparições desse gênero é o serem,

geralmente, perceptíveis por todos os assistentes e com os olhos do cor

po, precisamente por se basearem na matéria carnal visível, ao passo que,

nas aparições puramente fluídicas, não há matéria tangível.

Manifestações físicas. Mediunidade

40. Os fenômenos das mesas girantes e falantes, da suspensão

etérea de corpos pesados, da escrita mediúnica, tão antigos quanto o

mundo, porém vulgares hoje, facultam a explicação de alguns outros,

análogos e espontâneos, aos quais, pela ignorância da lei que os rege, se

atribuía caráter sobrenatural e miraculoso. Tais fenômenos têm por base

as propriedades do fluido perispirítico, quer dos encarnados, quer dos

Espíritos livres.

41. Por meio do seu perispírito é que o Espírito atuava sobre o seu

corpo vivo; ainda por intermédio desse mesmo fluido é que ele se mani

festa; atuando sobre a matéria inerte, é que produz ruídos, movimentos

de mesa e outros objetos, que os levanta, derriba, ou transporta. Nada

tem de surpreendente esse fenômeno, se considerarmos que, entre nós,

os mais possantes motores se encontram nos fluidos mais rarefeitos e

mesmo imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.

É igualmente com o concurso do seu perispírito que o Espírito faz

que os médiuns escrevam, falem, desenhem. Já não dispondo de corpo

tangível para agir ostensivamente quando quer manifestar-se, ele se serve

do corpo do médium, cujos órgãos toma de empréstimo, corpo ao qual

faz que atue como se fora o seu próprio, mediante o eflúvio fluídico que

verte sobre ele.

42. Pelo mesmo processo atua o Espírito sobre a mesa, quer para

que esta se mova, sem que o seu movimento tenha significação determi

nada, quer para que dê pancadas inteligentes, indicativas das letras do

alfabeto, a fim de formarem palavras e frases, fenômeno esse denomina

do tiptologia. A mesa não passa de um instrumento de que o Espírito se

utiliza, como se utiliza do lápis para escrever. Para esse efeito, dá-lhe ele

uma vitalidade momentânea, por meio do fluido que lhe inocula, porém

absolutamente não se identifica com ela.

Praticam um ato ridículo as pessoas que, tomadas de emoção ao

manifestar-se um ser que lhes é caro, abraçam a mesa; é exatamente como

se abraçassem a bengala de que um amigo se sirva para bater no chão.

O mesmo fazem os que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito se

achasse metido na madeira, ou como se a madeira se houvesse tornado

Espírito.

Quando comunicações são transmitidas por esse meio, deve-se

imaginar que o Espírito está, não na mesa, mas ao lado, tal qual estaria se

vivo se achasse e como seria visto, se no momento pudesse tornar-se visí

vel. O mesmo ocorre nas comunicações pela escrita: ver-se-ia o Espírito

ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão ou transmitindo-lhe pensamen

tos por meio de uma corrente fluídica.

43. Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem

ponto de apoio, o Espírito não a ergue com a força de um braço; envol

ve-a e penetra-a de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o

efeito da gravitação, como faz o ar com os balões e papagaios. O fluido

que se infiltra na mesa dá-lhe momentaneamente maior leveza específi

ca. Quando fica pregada ao solo, ela se acha numa situação análoga à da

campânula pneumática sob a qual se fez o vácuo. Não há aqui mais que

simples comparações destinadas a mostrar a analogia dos efeitos e não a

semelhança absoluta das causas. (O livro dos médiuns, 2a Parte, cap. IV.)

Compreende-se, depois do que fica dito, que não há para o Espírito,

maior dificuldade em arrebatar uma pessoa, do que em arrebatar uma mesa,

em transportar um objeto de um lugar para outro, ou em atirá-lo seja onde

for. Todos esses fenômenos se produzem em virtude da mesma lei.163

Quando as pancadas são ouvidas na mesa ou algures, não é que o

Espírito esteja a bater com a mão, ou com qualquer objeto. Ele apenas

dirige sobre o ponto donde vem o ruído um jato de fluido e este produz o

efeito de um choque elétrico. Tão possível lhe é modificar o ruído, como

a qualquer pessoa modificar os sons produzidos pelo ar.164

44. Fenômeno muito frequente na mediunidade é a aptidão de

certos médiuns para escrever em língua que lhes é estranha; a explanar,

oralmente ou por escrito, assuntos que lhes estão fora do alcance da ins

trução recebida. Não é raro o caso de alguns que escrevem correntemente

sem nunca terem aprendido a escrever; de outros que compõem poesias,

sem jamais na vida terem sabido fazer um verso; de outros que dese

nham, pintam, esculpem, compõem música, tocam um instrumento,

sem conhecerem desenho, pintura, escultura, ou a arte musical. Ocorre

frequentemente o fato de um médium escrevente reproduzir com perfei

ção a grafia e a assinatura que os Espíritos, que por ele se comunicam,

tinham quando vivos, se bem não as haja ele conhecido.

Nada, porém, apresenta esse fenômeno de mais maravilhoso, do

que o de se fazer que uma criança escreva, guiando-se-lhe a mão; pode-se,

dessa maneira, conseguir que ela execute tudo o que se queira. Pode-se

fazer que qualquer pessoa escreva num idioma que ela ignore, ditando--se-lhe as palavras letra por letra.

Não menos positivo é o fato do erguimento de uma pessoa; mas, tem que ser muito mais raro,

porque mais difícil de ser imitado. É sabido que o Sr. Home se elevou mais de uma vez até ao teto,

dando assim volta à sala. Dizem que São Cupertino possuía a mesma faculdade, não sendo o fato

mais miraculoso com este do que com aquele.

A aptidão de um médium para coisas que lhe são estranhas tam

bém tem frequentemente suas raízes nos conhecimentos que ele possuiu

noutra existência e dos quais seu Espírito conservou a intuição. Se, por

exemplo, ele foi poeta ou músico, mais facilidade encontrará para assi

milar o pensamento poético ou musical que um Espírito queira fazê-lo

expressar. A língua que ele hoje ignora pode ter-lhe sido familiar noutra

existência, donde maior aptidão sua para escrever mediunicamente nessa

língua.

Obsessões e possessões

45. Pululam em torno da Terra os maus Espíritos, em consequên

cia da inferioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja desses

Espíritos é parte integrante dos flagelos com que a humanidade se vê

a braços neste mundo. A obsessão que é um dos efeitos de semelhante

ação, como as enfermidades e todas as atribulações da vida, deve, pois,

ser considerada como provação ou expiação e aceita com esse caráter.

Chama-se obsessão à ação persistente que um Espírito mau exer

ce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diferentes, que vão

desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a

perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. Ela oblite

ra todas as faculdades mediúnicas. Na mediunidade audiente e psicográ

fica, traduz-se pela obstinação de um Espírito em querer manifestar-se,

com exclusão de qualquer outro.

46. Assim como as enfermidades resultam das imperfeições físicas

que tornam o corpo acessível às perniciosas influências exteriores, a ob

sessão decorre sempre de uma imperfeição moral, que dá ascendência a

um Espírito mau. A uma causa física, opõe-se uma força física; a uma

causa moral preciso é se contraponha uma força moral. Para preservá-lo

das enfermidades, fortifica-se o corpo; para garanti-la contra a obsessão,

tem-se que fortalecer a alma; donde, para o obsidiado, a necessidade de

trabalhar por se melhorar a si próprio, o que as mais das vezes basta para

livrá-lo do obsessor, sem o socorro de terceiros. Necessário se torna este

socorro, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão,

porque nesse caso o paciente não raro perde a vontade e o livre-arbítrio.

Quase sempre a obsessão exprime vingança tomada por um Espí

rito e cuja origem frequentemente se encontra nas relações que o obsi

diado manteve com o obsessor, em precedente existência.

Nos casos de obsessão grave, o obsidiado fica como que envolto e

impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos

salutares e os repele. É daquele fluido que importa desembaraçá-lo. Ora,

um fluido mau não pode ser eliminado por outro igualmente mau. Por

meio de ação idêntica à do médium curador, nos casos de enfermidade,

preciso se faz expelir um fluido mau com o auxílio de um fluido melhor.

Nem sempre, porém, basta esta ação mecânica; cumpre, sobretu

do, atuar sobre o ser inteligente, ao qual é preciso se possua o direito de

falar com autoridade, que, entretanto, falece a quem não tenha superio

ridade moral. Quanto maior esta for, tanto maior também será aquela.

Mas, ainda não é tudo: para assegurar a libertação da vítima, in

dispensável se torna que o Espírito perverso seja levado a renunciar aos

seus maus desígnios; que se faça que o arrependimento desponte nele,

assim como o desejo do bem, por meio de instruções habilmente mi

nistradas, em evocações particularmente feitas com o objetivo de dar--lhe educação moral. Pode-se então ter a grata satisfação de libertar um

encarnado e de converter um Espírito imperfeito.

O trabalho se torna mais fácil quando o obsidiado, compreenden

do a sua situação, para ele concorre com a vontade e a prece. Outro

tanto não sucede quando, seduzido pelo Espírito que o domina, se ilude

com relação às qualidades deste último e se compraz no erro a que é

conduzido, porque, então, longe de a secundar, o obsidiado repele toda

assistência. É o caso da fascinação, infinitamente mais rebelde sempre,

do que a mais violenta subjugação. (O livro dos médiuns, 2a Parte, cap.

Vinte e Três.)

Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso meio de

que se dispõe para demover de seus propósitos maléficos o obsessor.

47. Na obsessão, o Espírito atua exteriormente, com a ajuda do

seu perispírito, que ele identifica com o do encarnado, ficando este afi

nal enlaçado por uma como teia e constrangido a proceder contra a sua

vontade.

Na possessão, em vez de agir exteriormente, o Espírito atuante se

substitui, por assim dizer, ao Espírito encarnado; toma-lhe o corpo para

domicílio, sem que este, no entanto, seja abandonado pelo seu dono,

pois que isso só se pode dar pela morte. A possessão, conseguintemente,

é sempre temporária e intermitente, porque um Espírito desencarnado

não pode tomar definitivamente o lugar de um encarnado, pela razão de

que a união molecular do perispírito e do corpo só se pode operar no

momento da concepção. (Cap. XI, item 18.)

De posse momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se serve

dele como se seu próprio fora: fala pela sua boca, vê pelos seus olhos,

opera com seus braços, conforme o faria se estivesse vivo. Não é como

na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala transmitindo

o pensamento de um desencarnado; no caso da possessão é mesmo o

último que fala e obra; quem o haja conhecido em vida, reconhece-lhe a

linguagem, a voz, os gestos e até a expressão da fisionomia.

48. Na obsessão há sempre um Espírito malfeitor. Na possessão

pode tratar-se de um Espírito bom que queira falar e que, para causar

maior impressão nos ouvintes, toma do corpo de um encarnado, que

voluntariamente lho empresta, como emprestaria seu fato a outro encar

nado. Isso se verifica sem qualquer perturbação ou incômodo, durante

o tempo em que o Espírito encarnado se acha em liberdade, como no

estado de emancipação, conservando-se este último ao lado do seu subs

tituto para ouvi-lo.

Quando é mau o Espírito possessor, as coisas se passam de outro

modo. Ele não toma moderadamente o corpo do encarnado, arrebata-o,

se este não possui bastante força moral para lhe resistir. Fá-lo por maldade

para com este, a quem tortura e martiriza de todas as formas, indo ao

extremo de tentar exterminá-lo, já por estrangulação, já atirando-o ao

fogo ou a outros lugares perigosos. Servindo-se dos órgãos e dos mem

bros do infeliz paciente, blasfema, injuria e maltrata os que o cercam;

entrega-se a excentricidades e a atos que apresentam todos os caracteres

da loucura furiosa.

São numerosos os fatos deste gênero, em diferentes graus de inten

sidade, e não derivam de outra causa muitos casos de loucura. Amiúde,

há também desordens patológicas, que são meras consequências e contra

as quais nada adiantam os tratamentos médicos, enquanto subsiste a cau

sa originária. Dando a conhecer essa fonte donde provém uma parte das

misérias humanas, o Espiritismo indica o remédio a ser aplicado: atuar

sobre o autor do mal que, sendo um ser inteligente, deve ser tratado por

meio da inteligência.166

49. São as mais das vezes individuais a obsessão e a possessão; mas,

não raro são epidêmicas. Quando sobre uma localidade se lança uma

revoada de maus Espíritos, é como se uma tropa de inimigos a invadisse.

Pode então ser muito considerável o número dos indivíduos atacados.

M

Os milagres do Evangelho

Superioridade da natureza de Jesus

1. Os fatos que o Evangelho relata e que foram até hoje considera

dos milagrosos pertencem, na sua maioria, à ordem dos fenômenos psíqui

cos, isto é, dos que têm como causa primária as faculdades e os atributos

da alma. Confrontando-os com os que ficaram descritos e explicados no

capítulo precedente, reconhecer-se-á sem dificuldade que há entre eles

identidade de causa e de efeito. A História registra outros análogos, em

todos os tempos e no seio de todos os povos, pela razão de que, desde que

há almas encarnadas e desencarnadas, os mesmos efeitos forçosamente se

produziram. Pode-se, é certo, contestar, no que concerne a este ponto, a

veracidade da História; mas, hoje, eles se produzem às nossas vistas e, por

assim dizer, à vontade e por indivíduos que nada têm de excepcionais. O

só fato da reprodução de um fenômeno, em condições idênticas, basta

para provar que ele é possível e se acha submetido a uma lei, não sendo,

portanto, miraculoso.

O princípio dos fenômenos psíquicos repousa, como já vimos, nas

propriedades do fluido perispiritual, que constitui o agente magnético;

nas manifestações da vida espiritual durante a vida corpórea e depois

da morte; e, finalmente, no estado constitutivo dos Espíritos e no papel

que eles desempenham como força ativa da natureza. Conhecidos estes

elementos e comprovados os seus efeitos, tem-se, como consequência,

de admitir a possibilidade de certos fatos que eram rejeitados enquanto

se lhes atribuía uma origem sobrenatural.

2. Sem nada prejulgar quanto à natureza do Cristo, natureza cujo

exame não entra no quadro desta obra, considerando-o apenas um Es

pírito superior, não podemos deixar de reconhecê-lo um dos de ordem

mais elevada e colocado, por suas virtudes, muitíssimo acima da hu

manidade terrestre. Pelos imensos resultados que produziu, a sua en

carnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões

que a Divindade somente a seus mensageiros diretos confia, para cum

primento de seus desígnios. Mesmo sem supor que ele fosse o próprio

Deus, mas unicamente um enviado de Deus para transmitir sua palavra

aos homens, seria mais do que um profeta, porquanto seria um Messias

divino.

Como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém,

como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida

espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível. A

sua superioridade com relação aos homens não derivava das qualidades

particulares do seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava de

modo absoluto a matéria e da do seu perispírito, tirado da parte mais

quintessenciada dos fluidos terrestres (cap. XIV, item 9). Sua alma, pro

vavelmente, não se achava presa ao corpo, senão pelos laços estritamente

indispensáveis. Constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla

vista, não só permanente, como de excepcional penetração e superior

de muito à que de ordinário possuem os homens comuns. O mesmo

havia de dar-se, nele, com relação a todos os fenômenos que dependem

dos fluidos perispirituais ou psíquicos. A qualidade desses fluidos lhe

conferia imensa força magnética, secundada pelo incessante desejo de

fazer o bem.

Agiria como médium nas curas que operava? Poder-se-á consi

derá-lo poderoso médium curador? Não, porquanto o médium é um

274

Os milagres do Evangelho

intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desen

carnados e o Cristo não precisava de assistência, pois que era ele quem

assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal,

como o podem fazer, em certos casos, os encarnados, na medida de

suas forças. Que Espírito, ao demais, ousaria insuflar-lhe seus próprios

pensamentos e encarregá-lo de os transmitir? Se algum influxo estranho

recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um

Espírito, ele era médium de Deus.

Sonhos

3. José, diz o Evangelho, foi avisado por um anjo, que lhe apareceu em sonho e

que lhe aconselhou fugisse para o Egito com o Menino. (MatEus, 2:19 a 23.)

Os avisos por meio de sonhos desempenham grande papel nos

livros sagrados de todas as religiões. Sem garantir a exatidão de todos

os fatos narrados e sem os discutir, o fenômeno em si mesmo nada tem

de anormal, sabendo-se, como se sabe, que, durante o sono, é quando

o Espírito, desprendido dos laços da matéria, entra momentaneamente

na vida espiritual, onde se encontra com os que lhe são conhecidos. É

com frequência essa a ocasião que os Espíritos protetores aproveitam

para se manifestar a seus protegidos e lhes dar conselhos mais diretos.

São numerosos os casos de avisos em sonho, porém, não se deve inferir

daí que todos os sonhos são avisos, nem, ainda menos, que tem uma

significação tudo o que se vê em sonho. Cumpre se inclua entre as cren

ças supersticiosas e absurdas a arte de interpretar os sonhos. (Cap. XIV,

itens 27 e 28.)

Estrela dos magos

4. Diz-se que uma estrela apareceu aos magos que foram adorar a Jesus; que ela

lhes ia à frente indicando-lhes o caminho e que se deteve quando eles chegaram.

(MatEus, 2:1 a 12.)

Não se trata de saber se o fato que Mateus narra é real, ou se não

passa de uma figura indicativa de que os magos foram guiados de forma

misteriosa ao lugar onde estava o menino, dado que não há meio algum

de verificação; trata-se de saber se é possível um fato de tal natureza.

O que é certo é que, naquela circunstância, a luz não podia ser

uma estrela. Na época em que o fato ocorreu, era possível acreditassem

que fosse, porquanto então se cria serem as estrelas pontos luminosos

pregados no firmamento e suscetíveis de cair sobre a Terra; não hoje,

quando se conhece a natureza das estrelas.

Entretanto, por não ter como causa a que lhe atribuíram, não dei

xa de ser possível o fato da aparição de uma luz com o aspecto de uma

estrela. Um Espírito pode aparecer sob forma luminosa, ou transformar

uma parte do seu fluido perispirítico em foco luminoso. Muitos fatos

desse gênero, modernos e perfeitamente autênticos, não procedem de

outra causa, que nada apresenta de sobrenatural. (Cap. XIV, itens 13 e

seguintes.)

Dupla vista

Entrada dE JEsus EM JErusaléM

5. Quando eles se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, perto do

Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: “Ide

a essa aldeia que está à vossa frente e, lá chegando, encontrareis amarrada uma

jumenta e junto dela o seu jumentinho; desamarrai-a e trazei-mos. — Se al

guém vos disser qualquer coisa, respondei que o Senhor precisa deles e logo

deixará que os conduzais.” — Ora, tudo isso se deu, a fim de que se cumprisse

esta palavra do profeta: — Dizei à filha de Sião: “Eis o teu rei, que vem a ti,

cheio de doçura, montado numa jumenta e com o jumentinho da que está sob

o jugo.” (Zacarias, 9:9 e 10.)

Os discípulos então foram e fizeram o que Jesus lhes ordenara. — E, tendo tra

zido a jumenta e o jumentinho, a cobriram com suas vestes e o fizeram montar.

(MatEus, 21:1 a 7.)

BEiJo dE Judas

6. “Levantai-vos, vamos, que já está perto daqui aquele que me há de trair.” —

Ainda não acabara de dizer essas palavras e eis que Judas, um dos doze, chegou

276

Os milagres do Evangelho

e com ele uma tropa de gente armada de espadas e varapaus, enviada pelos

príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. — Ora, o que o traía lhes

dera um sinal para o reconhecerem, dizendo-lhes: “Aquele a quem eu beijar é

esse mesmo o que procurais; apoderai-vos dele.” — Logo, pois, se aproximou

de Jesus e lhe disse: “Mestre, eu te saúdo; e o beijou.” — Jesus lhe respondeu:

“Meu amigo, que vieste fazer aqui?” Ao mesmo tempo, os outros, avançando,

se lançaram a Jesus e dele se apoderaram. (MatEus, 26:46 a 50.)

pEsca MilaGrosa

7. Um dia, estando Jesus à margem do lago de Genesaré, como a multidão o

comprimisse para ouvir a palavra de Deus — viu Ele duas barcas atracadas à

borda do lago e das quais os pescadores haviam desembarcado e lavavam suas

redes. — Entrou numa dessas barcas, que era de Simão, e lhe pediu que a afas

tasse um pouco da margem; e, tendo-se sentado, ensinava ao povo de dentro

da barca.

Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para o mar e lança as tuas redes

de pescar.” — Respondeu-lhe Simão: “Mestre, trabalhamos a noite toda e nada

apanhamos; contudo, pois que mandas, lançarei a rede.” — Tendo-a lançado,

apanharam tão grande quantidade de peixes, que a rede se rompeu. — Acena

ram para os companheiros que estavam na outra barca, a fim de que viessem

ajudá-los. Eles vieram e encheram de tal modo as barcas, que por pouco estas

não se afundaram. (lucas, 5:1 a 7.)

Vocação dE pEdro, andré, tiaGo, João E MatEus

8. Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu Jesus dois irmãos, Simão,

chamado Pedro, e André, seu irmão, que lançavam suas redes ao mar, pois que

eram pescadores; — e lhes disse: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de

homens.” — Logo eles deixaram suas redes e o seguiram.

Daí, continuando, viu dois outros irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu

irmão, que estavam numa barca com Zebedeu, pai de ambos, os quais estavam

a consertar suas redes, e os chamou. — Eles imediatamente deixaram as redes e

o pai e o seguiram. (MatEus, 4:18 a 22.)

Saindo dali, Jesus, ao passar, viu um homem sentado à banca dos impostos, cha

mado Mateus, ao qual disse: “Segue-me; e o homem logo se levantou e o seguiu.”

(MatEus, 4:9.)

9. Nada apresentam de surpreendentes estes fatos, desde que

se conheça o poder da dupla vista e a causa, muito natural, dessa

faculdade. Jesus a possuía em grau elevado e pode dizer-se que ela

constituía o seu estado normal, conforme o atesta grande número de

atos da sua vida, os quais, hoje, têm a explicá-los os fenômenos mag

néticos e o Espiritismo.

A pesca qualificada de miraculosa igualmente se explica pela dupla

vista. Jesus não produziu espontaneamente peixes onde não os havia;

Ele viu, com a vista da alma, como teria podido fazê-lo um lúcido vígil,

o lugar onde se achavam os peixes e disse com segurança aos pescadores

que lançassem aí suas redes.

A acuidade do pensamento e, por conseguinte, certas previsões

decorrem da vista espiritual. Quando Jesus chama a si Pedro, André,

Tiago, João e Mateus, é que lhes conhecia as disposições íntimas e sabia

que eles o acompanhariam e que eram capazes de desempenhar a missão

que tencionava confiar-lhes. E mister se fazia que eles próprios tivessem

intuição da missão que iriam desempenhar para, sem hesitação, atende

rem ao chamamento de Jesus. O mesmo se deu quando, por ocasião da

Ceia, Ele anunciou que um dos doze o trairia e o apontou, dizendo ser

aquele que punha a mão no prato; e deu-se também, quando predisse

que Pedro o negaria.

Em muitos passos do Evangelho se lê: “Mas Jesus, conhecendo--lhes os pensamentos, lhes diz...” Ora, como poderia Ele conhecer os

pensamentos dos seus interlocutores, senão pelas irradiações fluídicas

desses pensamentos e, ao mesmo tempo, pela vista espiritual que lhe

permitia ler-lhes no foro íntimo?

Muitas vezes, supondo que um pensamento se acha sepultado nos

refolhos da alma, o homem não suspeita que traz em si um espelho

onde se reflete aquele pensamento, um revelador na sua própria irra

diação fluídica, impregnada dele. Se víssemos o mecanismo do mundo

invisível que nos cerca, as ramificações dos fios condutores do pensa

mento, a ligarem todos os seres inteligentes, corporais e incorpóreos,

os eflúvios fluídicos carregados das marcas do mundo moral, os quais,

como correntes aéreas, atravessam o espaço, muito menos surpreendi

dos ficaríamos diante de certos efeitos que a ignorância atribui ao acaso.

(Cap. QUATORZE, itens 15, 22 e seguintes.)

Curas

pErda dE sanGuE

10. Então, uma mulher, que havia doze anos sofria de uma hemorragia — que

sofrera muito nas mãos dos médicos e que, tendo gasto todos os seus haveres,

nenhum alívio conseguira — como ouvisse falar de Jesus, veio com a multidão

atrás dele e lhe tocou as vestes, porquanto, dizia: “Se eu conseguir ao menos

lhe tocar nas vestes, ficarei curada.” — No mesmo instante o fluxo sanguíneo

lhe cessou e ela sentiu em seu corpo que estava curada daquela enfermidade.

Logo, Jesus, conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra, se voltou no meio

da multidão e disse: “Quem me tocou as vestes?” — Seus discípulos lhe dis

seram: “Vês que a multidão te aperta de todos os lados e perguntas quem te

tocou?” — Ele olhava em torno de si à procura daquela que o tocara.

A mulher, que sabia o que se passara em si, tomada de medo e pavor, veio

lançar-se-lhe aos pés e lhe declarou toda a verdade. — Disse-lhe Jesus: “Mi

nha filha, tua fé te salvou; vai em paz e fica curada da tua enfermidade.”

(Marcos, 5:25 a 34.)

11. Estas palavras: conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra,

são significativas. Exprimem o movimento fluídico que se operara de

Jesus para a doente; ambos experimentaram a ação que acabara de pro

duzir-se. É de notar-se que o efeito não foi provocado por nenhum ato

da vontade de Jesus; não houve magnetização, nem imposição das mãos.

Bastou a irradiação fluídica normal para realizar a cura.

Mas por que essa irradiação se dirigiu para aquela mulher e não

para outras pessoas, uma vez que Jesus não pensava nela e tinha a cercá-lo

a multidão?

É bem simples a razão. Considerado como matéria terapêutica,

o fluido tem que atingir a matéria orgânica, a fim de repará-la; pode

então ser dirigido sobre o mal pela vontade do curador, ou atraído

pelo desejo ardente, pela confiança, numa palavra: pela fé do doente.

279

Com relação à corrente fluídica, o primeiro age como uma bomba cal

cante e o segundo como uma bomba aspirante. Algumas vezes, é neces

sária a simultaneidade das duas ações; doutras, basta uma só. O segundo

caso foi o que ocorreu na circunstância de que tratamos.

Razão, pois, tinha Jesus para dizer: “Tua fé te salvou.” Compreen

de-se que a fé a que Ele se referia não é uma virtude mística, qual a en

tendem muitas pessoas, mas uma verdadeira força atrativa, de sorte que

aquele que não a possui opõe à corrente fluídica uma força repulsiva,

ou, pelo menos, uma força de inércia, que paralisa a ação. Assim sendo,

também, se compreende que, apresentando-se ao curador dois doentes

da mesma enfermidade, possa um ser curado e outro não. É este um

dos mais importantes princípios da mediunidade curadora e que explica

certas anomalias aparentes, apontando-lhes uma causa muito natural.

(Cap. QUATORZE, itens 31 a 33.)

cEGo dE BEtsaida

12. Tendo chegado a Betsaida, trouxeram-lhe um cego e lhe pediam que o

tocasse. Tomando o cego pela mão, Ele o levou para fora da cidade, passou-lhe

saliva nos olhos e, havendo-lhe imposto as mãos, lhe perguntou se via alguma

coisa. — O homem, olhando, disse: “Vejo a andar homens que me parecem ár

vores.” — Jesus lhe colocou de novo as mãos sobre os olhos e ele começou a ver

melhor. Afinal, ficou tão perfeitamente curado, que via distintamente todas as

coisas. — Ele o mandou para casa, dizendo-lhe: “Vai para tua casa; se entrares

na cidade, a ninguém digas o que se deu contigo.” (Marcos, 8:22 a 26)

13. Aqui, é evidente o efeito magnético; a cura não foi instantâ

nea, porém gradual e consequente a uma ação prolongada e reiterada, se

bem que mais rápida do que na magnetização ordinária. A primeira sen

sação que o homem teve foi exatamente a que experimentam os cegos

ao recobrarem a vista. Por um efeito de óptica, os objetos lhes parecem

de tamanho exagerado.

paralítico

14. Tendo subido para uma barca, Jesus atravessou o lago e veio à sua cidade

(Cafarnaum). — Como lhe apresentassem um paralítico deitado em seu leito,

Jesus, notando-lhe a fé, disse ao paralítico: “Meu filho, tem confiança; perdoa

dos te são os teus pecados.”

Logo alguns escribas disseram entre si: “Este homem blasfema.” — Jesus, tendo

percebido o que eles pensavam, perguntou-lhes: “Por que alimentais maus pensa

mentos em vossos corações? — Pois, que é mais fácil dizer: — Teus pecados te

são perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda?

Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na Terra o poder de remitir

os pecados: Levanta-te, disse então ao paralítico, toma o teu leito e vai para tua

casa.”

O paralítico se levantou imediatamente e foi para sua casa. Vendo aquele mi

lagre, o povo se encheu de temor e rendeu graças a Deus, por haver concedido

tal poder aos homens. (MatEus, 9:1 a 8.)

15. Que significariam aquelas palavras: “Teus pecados te são re

mitidos” e em que podiam elas influir para a cura? O Espiritismo lhes

dá a explicação, como a uma infinidade de outras palavras incompreen

didas até hoje. Por meio da pluralidade das existências, ele ensina que

os males e aflições da vida são muitas vezes expiações do passado, bem

como que sofremos na vida presente as consequências das faltas que

cometemos em existência anterior e, assim, até que tenhamos pago a

dívida de nossas imperfeições, pois que as existências são solidárias umas

com as outras.

Se, portanto, a enfermidade daquele homem era uma expiação do

mal que ele praticara, o dizer-lhe Jesus: “Teus pecados te são remitidos”

equivalia a dizer-lhe: “Pagaste a tua dívida; a fé que agora possuis elidiu

a causa da tua enfermidade; conseguintemente, mereces ficar livre dela.”

Daí o haver dito aos escribas: “Tão fácil é dizer: Teus pecados te são

perdoados, como: Levanta-te e anda.” Cessada a causa, o efeito tem que

cessar. É precisamente o caso do encarcerado a quem se declara: “Teu

crime está expiado e perdoado”, o que equivaleria a se lhe dizer: “Podes

sair da prisão.”

os dEZ lEprosos

16. Um dia, indo Ele para Jerusalém, passava pelos confins da Samaria e da

Galileia — e, estando prestes a entrar numa aldeia, dez leprosos vieram ao seu

encontro e, conservando-se afastados, clamaram em altas vozes: “Jesus, Senhor

nosso, tem piedade de nós.” — Dando com eles, disse-lhes Jesus: “Ide mostrar--vos aos sacerdotes.” Quando iam a caminho, ficaram curados.

Um deles, vendo-se curado, voltou sobre seus passos, glorificando a Deus em

altas vozes; — e foi lançar-se aos pés de Jesus, com o rosto em terra, a lhe render

graças. Esse era samaritano.

Disse então Jesus: “Não foram curados todos dez? Onde estão os outros nove? —

Nenhum deles houve que voltasse e glorificasse a Deus, a não ser este estrangeiro?”

— E disse a esse: “Levanta-te; vai; tua fé te salvou.” (lucas, 17:11 a 19.)

17. Os samaritanos eram cismáticos,168 mais ou menos como os

protestantes com relação aos católicos, e os judeus os tinham em despre

zo, como heréticos. Curando indistintamente os judeus e os samaritanos,

dava Jesus, ao mesmo tempo, uma lição e um exemplo de tolerância; e

fazendo ressaltar que só o samaritano voltara a glorificar a Deus, mostra

va que havia nele maior soma de verdadeira fé e de reconhecimento, do

que nos que se diziam ortodoxos. Acrescentando: “Tua fé te salvou”, fez

ver que Deus considera o que há no âmago do coração e não a forma ex

terior da adoração. Entretanto, também os outros tinham sido curados.

Fora mister que tal se verificasse, para que Ele pudesse dar a lição que

tinha em vista e tornar-lhes evidente a ingratidão. Quem sabe, porém,

o que daí lhes haja resultado; quem sabe se eles terão se beneficiado da

graça que lhes foi concedida? Dizendo ao samaritano: “Tua fé te salvou”,

dá Jesus a entender que o mesmo não aconteceu aos outros.

Mão sEca

18. De outra vez entrou Jesus no templo e aí encontrou um homem que tinha

seca uma das mãos. — E eles o observavam para ver se Ele o curaria em dia de

sábado, para terem um motivo de o acusar. — Então, disse Ele ao homem que

tinha a mão seca: “Levanta-te e coloca-te ali no meio.” — Depois, disse-lhes:

“É permitido em dia de sábado fazer o bem ou mal, salvar a vida ou tirá-la?”

Eles permaneceram em silêncio. — Ele, porém, encarando-os com indignação,

tanto o afligia a dureza de seus corações, disse ao homem: “Estende a tua mão.”

Ele a estendeu e ela se tornou sã.

Logo os fariseus saíram e se reuniram contra Ele em conciliábulo com os he

rodianos, sobre o meio de o perderem. — Mas Jesus se retirou com seus dis

cípulos para o mar, acompanhando-o grande multidão de povo da Galileia e

da Judeia — de Jerusalém, da Idumeia e de além Jordão; e os das cercanias de

Tiro e de Sídon, tendo ouvido falar das coisas que Ele fazia, vieram em grande

número ao seu encontro. (Marcos, 3:1 a 8.)

a MulhEr curVada

19. Todos os dias de sábado Jesus ensinava numa sinagoga. — Um dia, viu ali

uma mulher possuída de um Espírito que a punha doente, havia dezoito anos;

era tão curvada, que não podia olhar para cima. — Vendo-a, Jesus a chamou

e lhe disse: “Mulher, estás livre da tua enfermidade.” — Impôs-lhe ao mesmo

tempo as mãos e ela, endireitando-se, rendeu graças a Deus.

Mas o chefe da sinagoga, indignado por haver Jesus feito uma cura em dia de

sábado, disse ao povo: “Há seis dias destinados ao trabalho; vinde nesses dias

para serdes curados e não nos dias de sábado.”

O Senhor, tomando a palavra, disse-lhe: “Hipócrita, qual de vós não solta da

carga o seu boi ou seu jumento em dia de sábado e não o leva a beber? — Por

que então não se deveria libertar, em dia de sábado, dos laços que a prendiam,

esta filha de Abraão, que Satanás conservara atada durante dezoito anos?”

A estas palavras, todos os seus adversários ficaram confusos e todo o povo

encantado de vê-lo praticar tantas ações gloriosas. (lucas, 13:10 a 17.)

20. Este fato prova que naquela época a maior parte das enfermi

dades era atribuída ao demônio e que todos confundiam, como ainda

hoje, os possessos com os doentes, mas em sentido inverso, isto é, hoje,

os que não acreditam nos maus Espíritos confundem as obsessões com

as moléstias patológicas.

o paralítico da piscina

21. Depois disso, tendo chegado a festa dos judeus, Jesus foi a Jerusalém. — Ora,

havia em Jerusalém a piscina das ovelhas, que se chama em hebreu Betesda, a qual

tinha cinco galerias — onde, em grande número, se achavam deitados doentes, ce

gos, coxos e os que tinham ressecados os membros, todos à espera de que as águas

fossem agitadas — porque, o anjo do Senhor, em certa época, descia àquela pis

cina e lhe movimentava a água e aquele que fosse o primeiro a entrar nela, depois

de ter sido movimentada a água, ficava curado, qualquer que fosse a sua doença.

Ora, estava lá um homem que se achava doente havia trinta e oito anos. — Jesus,

tendo-o visto deitado e sabendo-o doente desde longo tempo, perguntou-lhe:

“Queres ficar curado?” — O doente respondeu: “Senhor, não tenho ninguém que

me lance na piscina depois que a água for movimentada; e, durante o tempo que

levo para chegar lá, outro desce antes de mim.” — Disse-lhe Jesus: “Levanta-te,

toma o teu leito e vai-te.” — No mesmo instante o homem se achou curado e,

tomando de seu leito, pôs-se a andar. Ora, aquele dia era um sábado.

Disseram então os judeus ao que fora curado: “Não te é permitido levares o teu

leito.” — Respondeu o homem: “Aquele que me curou disse: Toma o teu leito

e anda.” — Perguntaram-lhe eles então: “Quem foi esse que te disse: ‘Toma o

teu leito e anda?’” — Mas nem mesmo o que fora curado sabia quem o curara,

porquanto Jesus se retirara do meio da multidão que lá estava.

Depois, encontrando aquele homem no templo, Jesus lhe disse: “Vês que foste

curado; não tornes de futuro a pecar, para que te não aconteça coisa pior.”

O homem foi ter com os judeus e lhes disse que fora Jesus quem o curara. —

Era por isso que os judeus perseguiam a Jesus, porque Ele fazia essas coisas em

dia de sábado. — Então, Jesus lhes disse: “Meu Pai não cessa de trabalhar até ao

presente e eu também trabalho incessantemente.” (João, 5:1 a 17.)

22. “Piscina” (da palavra latina piscis, peixe), entre os romanos,

eram chamados os reservatórios ou viveiros onde se criavam peixes.

Mais tarde, o termo se tornou extensivo aos tanques destinados a ba

nhos em comum.

A piscina de Betesda, em Jerusalém, era uma cisterna, próxima ao

Templo, alimentada por uma fonte natural, cuja água parece ter tido

propriedades curativas. Era, sem dúvida, uma fonte intermitente que,

em certas épocas, jorrava com força, agitando a água. Segundo a crença

vulgar, esse era o momento mais propício às curas. Talvez que, na reali

dade, ao brotar da fonte a água, mais ativas fossem as suas propriedades,

ou que a agitação que o jorro produzia na água fizesse vir à tona a vasa

salutar para algumas moléstias. Tais efeitos são muito naturais e perfei

tamente conhecidos hoje; mas, então, as ciências estavam pouco adian

tadas e à maioria dos fenômenos incompreendidos se atribuíam uma

causa sobrenatural. Os judeus, pois, tinham a agitação da água como

devida à presença de um anjo e tanto mais fundadas lhes pareciam essas

crenças, quanto viam que, naquelas ocasiões, mais curativa se mostrava

a água.

Depois de haver curado aquele paralítico, disse-lhe Jesus: “Para o

futuro não tornes a pecar, a fim de que não te aconteça coisa pior.” Por

essas palavras, deu-lhe a entender que a sua doença era uma punição e

que, se ele não se melhorasse, poderia vir a ser de novo punido e com

mais rigor, doutrina essa inteiramente conforme à do Espiritismo.

23. Jesus como que fazia questão de operar suas curas em dia

de sábado, para ter ensejo de protestar contra o rigorismo dos fariseus

no tocante à guarda desse dia. Queria mostrar-lhes que a verdadeira

piedade não consiste na observância das práticas exteriores e das for

malidades; que a piedade está nos sentimentos do coração. Justificava--se, declarando: “Meu Pai não cessa de trabalhar até ao presente e eu

também trabalho incessantemente.” Quer dizer: Deus não interrompe

suas obras, nem sua ação sobre as coisas da natureza, em dia de sábado.

Ele não deixa de fazer que se produza tudo quanto é necessário à vossa

alimentação e à vossa saúde; eu lhe sigo o exemplo.

cEGo dE nascEnça

24. Ao passar, viu Jesus um homem que era cego desde que nascera; — e seus

discípulos lhe fizeram esta pergunta: “Mestre, foi pecado desse homem, ou dos

que o puseram no mundo, que deu causa a que ele nascesse cego?” — Jesus lhes

respondeu: “Não é por pecado dele, nem dos que o puseram no mundo; mas,

para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus. É preciso que eu faça as

obras daquele que me enviou, enquanto é dia; vem depois a noite, na qual nin

guém pode fazer obras. — Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.”

Tendo dito isso, cuspiu no chão e, havendo feito lama com a sua saliva, ungiu

com essa lama os olhos do cego — e lhe disse: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”,

que significa Enviado. Ele foi, lavou-se e voltou vendo claro.

Seus vizinhos e os que o viam antes a pedir esmolas diziam: “Não é este o que

estava assentado e pedia esmola?” Uns respondiam: “É ele”; outros diziam: “Não,

é um que se parece com ele.” O homem, porém, lhes dizia: “Sou eu mesmo.” —

Perguntaram-lhe então: “Como se te abriram os olhos?” — Ele respondeu: “Aque

le homem que se chama Jesus fez um pouco de lama e passou nos meus olhos,

dizendo: ‘Vai à piscina de Siloé e lava-te.’ Fui, lavei-me e vejo.” — Disseram-lhe:

“Onde está Ele?” Respondeu o homem: “Não sei.”

Levaram então aos fariseus o homem que estivera cego. — Ora, fora num dia

de sábado que Jesus fizera aquela lama e lhe abrira os olhos.

Também os fariseus o interrogaram para saber como recobrara a vista. Ele lhes

disse: “Ele me pôs lama nos olhos, eu me lavei e vejo.” — Ao que alguns fari

seus retrucaram: “Esse homem não é enviado de Deus, pois que não guarda o

sábado.” Outros, porém, diziam: “Como poderia um homem mau fazer prodí

gios tais?” Havia, a propósito, dissensão entre eles.

Disseram de novo ao que fora cego: “E tu, que dizes desse homem que te abriu

os olhos?” Ele respondeu: “Digo que é um profeta.” — Mas os judeus não acre

ditaram que aquele homem houvesse estado cego e que houvesse recobrado a

vista, enquanto não fizeram vir o pai e a mãe dele — e os interrogaram assim:

“É este o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora vê?” —

O pai e a mãe responderam: “Sabemos que esse é nosso filho e que nasceu cego;

— não sabemos, porém, como agora vê e tampouco sabemos quem lhe abriu os

olhos. Interrogai-o; ele já tem idade, que responda por si mesmo.”

Seu pai e sua mãe falavam desse modo, porque temiam os judeus, visto que

estes já haviam resolvido em comum que quem quer que reconhecesse a Jesus como

o Cristo seria expulso da sinagoga. — Foi o que obrigou o pai e a mãe do rapaz a

responderem: “Ele já tem idade; interrogai-o.”

Chamaram segunda vez o homem que estivera cego e lhe disseram: “Glorifica

a Deus; sabemos que esse homem é um pecador.” Ele lhes respondeu: “Se é um

pecador, não sei, tudo o que sei é que estava cego e agora vejo.” — Tornaram a

perguntar-lhe: “Que te fez Ele e como te abriu os olhos?” — Respondeu o ho

mem: “Já vo-lo disse e bem o ouvistes; por que quereis ouvi-lo segunda vez? Será

que queirais tornar-vos seus discípulos?” — Ao que eles o carregaram de injúrias e

lhe disseram: “Sê tu seu discípulo; quanto a nós, somos discípulos de Moisés. —

Sabemos que Deus falou a Moisés, ao passo que este não sabemos donde saiu.”

O homem lhes respondeu: “É de espantar que não saibais donde Ele é e que

me tenha aberto os olhos. — Ora, sabemos que Deus não exalça os pecadores;

mas, àquele que o honre e faça a sua vontade, a esse Deus exalça. — Desde

que o mundo existe, jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a

um cego de nascença. — Se esse homem não fosse um enviado de Deus, nada

poderia fazer de tudo o que tem feito.”

Disseram-lhe os fariseus: “Tu és todo pecado, desde o ventre de tua mãe, e

queres ensinar-nos a nós?” E o expulsaram. (João, 9:1 a 34.)

25. Esta narrativa, tão simples e singela, traz em si evidente o

cunho da veracidade. Nada aí há de fantasista, nem de maravilhoso. É

uma cena da vida real apanhada em flagrante. A linguagem do cego é

exatamente a desses homens simples, nos quais o bom senso supre a falta

de saber e que retrucam com bonomia aos argumentos de seus adversá

rios, expendendo razões a que não faltam justeza, nem oportunidade. O

tom dos fariseus, por outro lado, é o dos orgulhosos que nada admitem

acima de suas inteligências e que se enchem de indignação à só ideia de

que um homem do povo lhes possa fazer observações. Afora a cor local

dos nomes, dir-se-ia ser do nosso tempo o fato.

Ser expulso da sinagoga equivalia a ser posto fora da Igreja. Era

uma espécie de excomunhão. Os espíritas, cuja doutrina é a do Cristo

de acordo com o progresso das luzes atuais, são tratados como os judeus

que reconheciam em Jesus o Messias. Excomungando-os, a Igreja os põe

fora de seu seio, como fizeram os escribas e os fariseus com os seguidores

do Cristo. Assim, aí está um homem que é expulso porque não pode ad

mitir seja um possesso do demônio aquele que o curara e porque rende

graças a Deus pela sua cura!

Não é o que fazem com os espíritas? Obter dos Espíritos salutares

conselhos, a reconciliação com Deus e com o bem, curas, tudo isso é

obra do diabo e sobre os que isso conseguem lança-se anátema. Não se

têm visto padres declararem, do alto do púlpito, que é melhor uma pessoa

conservar-se incrédula do que recobrar a fé por meio do Espiritismo? Não

há os que dizem a doentes que estes não deviam ter procurado curar-se

com os espíritas que possuem esse dom, porque esse dom é satânico?

Não há os que pregam que os necessitados não devem aceitar o pão

que os espíritas distribuem, por ser do diabo esse pão? Que outra coisa

diziam ou faziam os padres judeus e os fariseus? Aliás, fomos avisados de

que tudo hoje tem que se passar como ao tempo do Cristo.

A pergunta dos discípulos: “Foi algum pecado deste homem que

deu causa a que ele nascesse cego?” revela que eles tinham a intuição

de uma existência anterior, pois, do contrário, ela careceria de sentido,

visto que um pecado somente pode ser causa de uma enfermidade de

nascença, se cometido antes do nascimento, portanto, numa existência

anterior. Se Jesus considerasse falsa semelhante ideia, ter-lhes-ia dito:

“Como houvera este homem podido pecar antes de ter nascido?” Em

vez disso, porém, diz que aquele homem estava cego, não por ter peca

do, mas para que nele se patenteasse o poder de Deus, isto é, para que

servisse de instrumento a uma manifestação do poder de Deus. Se não

era uma expiação do passado, era uma provação apropriada ao progres

so daquele Espírito, porquanto Deus, que é justo, não lhe imporia um

sofrimento sem utilidade.

Quanto ao meio empregado para a sua cura, evidentemente aque

la espécie de lama feita de saliva e terra nenhuma virtude podia encerrar,

a não ser pela ação do fluido curativo de que fora impregnada. É as

sim que as mais insignificantes substâncias, como a água, por exemplo,

podem adquirir qualidades poderosas e efetivas, sob a ação do fluido

espiritual ou magnético, ao qual elas servem de veículo, ou, se quiserem,

de reservatório.

nuMErosas curas opEradas por JEsus

26. Jesus ia por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evan

gelho do reino e curando todos os langores e todas as enfermidades no meio

do povo. — Tendo-se a sua reputação espalhado por toda a Síria; traziam-lhe

os que estavam doentes e afligidos por dores e males diversos, os possessos,

os lunáticos, os paralíticos e Ele a todos curava. — Acompanhava-o grande

multidão da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia e de além Jordão.

(MatEus, 4:23 a 25.)

27. De todos os fatos que dão testemunho do poder de Jesus, os

mais numerosos são, não há contestar, as curas. Queria Ele provar des

sa forma que o verdadeiro poder é o daquele que faz o bem; que o seu

objetivo era ser útil e não satisfazer à curiosidade dos indiferentes, por

meio de coisas extraordinárias.

Aliviando os sofrimentos, prendia a si as criaturas pelo coração e

fazia prosélitos mais numerosos e sinceros, do que se apenas os mara

vilhasse com espetáculos para os olhos. Daquele modo, fazia-se amado,

ao passo que se se limitasse a produzir surpreendentes fatos materiais,

conforme os fariseus reclamavam, a maioria das pessoas não teria visto

nele senão um feiticeiro, ou um mágico hábil, que os desocupados iriam

apreciar para se distraírem.

Assim, quando João Batista manda, por seus discípulos, pergun

tar-lhe se Ele era o Cristo, a sua resposta não foi: “Eu o sou”, como qual

quer impostor houvera podido dizer. Tampouco lhes fala de prodígios,

nem de coisas maravilhosas; responde-lhes simplesmente: “Ide dizer a

João: os cegos veem, os doentes são curados, os surdos ouvem, o Evange

lho é anunciado aos pobres.” O mesmo era que dizer: “Reconhecei-me

pelas minhas obras; julgai da árvore pelo fruto”, porquanto era esse o

verdadeiro caráter da sua missão divina.

28. O Espiritismo, igualmente, pelo bem que faz é que prova a sua

missão providencial. Ele cura os males físicos, mas cura, sobretudo, as

doenças morais e são esses os maiores prodígios que lhe atestam a pro

cedência. Seus mais sinceros adeptos não são os que se sentem tocados

pela observação de fenômenos extraordinários, mas os que dele recebem

a consolação para suas almas; os a quem liberta das torturas da dúvida;

aqueles a quem levantou o ânimo na aflição, que hauriram forças na

certeza, que lhes trouxe, acerca do futuro, no conhecimento do seu ser

espiritual e de seus destinos. Esses os de fé inabalável, porque sentem e

compreendem.

Os que no Espiritismo unicamente procuram efeitos materiais,

não lhe podem compreender a força moral. Daí vem que os incrédulos,

que apenas o conhecem pelos fenômenos cuja causa primária não admi

tem, consideram os espíritas meros prestidigitadores e charlatães. Não

será, pois, por meio de prodígios que o Espiritismo triunfará da incre

dulidade será pela multiplicação dos seus benefícios morais, porquanto,

se é certo que os incrédulos não admitem os prodígios, não menos certo

é que conhecem, como toda gente, o sofrimento e as aflições e ninguém

recusa alívio e consolação.

Possessos

29. Vieram em seguida a Cafarnaum e Jesus, entrando primeiramente, em dia de

sábado, na sinagoga, os instruía. — Admiravam-se da sua doutrina, porque Ele os

instruía como tendo autoridade e não como os escribas.

Ora, achava-se na sinagoga um homem possesso de um Espírito impuro, que

exclamou: — “Que há entre ti e nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei

quem és: és o santo de Deus.” — Jesus, porém, falando-lhe ameaçadoramente,

disse: “Cala-te e sai desse homem.” — Então, o Espírito impuro, agitando o ho

mem em violentas convulsões, saiu dele.

Ficaram todos tão surpreendidos que uns aos outros perguntavam: “Que é isto?

Que nova doutrina é esta? Ele dá ordem com império, até os Espíritos impuros, e

estes lhe obedecem.” (Marcos, 1:21 a 27.)

30. Tendo eles saído, apresentaram-lhe um homem mudo, possesso do demônio.

— Expulso o demônio, o mudo falou, e o povo tomado de admiração, dizia: “Ja

mais se viu coisa semelhante em Israel.”

Mas os fariseus, ao contrário, diziam: “É pelo príncipe dos demônios que Ele

expele os demônios.” (MatEus, 9:32 a 34.)

31. Quando Ele foi vindo ao lugar onde estavam os outros discípulos, viu em

torno destes uma grande multidão e muitos escribas que com eles disputavam. —

Logo que deu com Jesus, todo o povo se tomou de espanto e temor e correram

todos a saudá-lo.

Perguntou Ele então: “Sobre que disputáveis em assembleia?” — Um homem, do

meio do povo, tomando a palavra, disse: “Mestre, trouxe-te meu filho, que está

possesso de um Espírito mudo; — em todo lugar onde dele se apossa, atira-o por

terra e o menino espuma, rilha os dentes e se torna todo seco. Pedi a teus discípu

los que o expulsassem, mas eles não puderam.”

Disse-lhes Jesus: “Ó gente incrédula, até quando estarei convosco? Até quando

vos suportarei? Trazei-mo.” — Trouxeram-lho e ainda não havia ele posto os olhos

em Jesus, e o Espírito entrou a agitá-lo violentamente; ele caiu no chão e se pôs a

rolar espumando.

Jesus perguntou ao pai do menino: “Desde quando isto lhe sucede?” — “Desde

pequenino, diz o pai. — E o Espírito o tem lançado, muitas vezes, ora à água, ora

290

Os milagres do Evangelho

ao fogo, para fazê-lo perecer; se alguma coisa puderes, tem compaixão de nós e

socorre-nos.”

Respondeu-lhe Jesus: “Se puderes crer, tudo é possível àquele que crê.” — Logo

exclamou o pai do menino, banhado em lágrimas: “Senhor, creio, ajuda-me na

minha incredulidade.”

Jesus, vendo que o povo acorria em multidão, falou em tom de ameaça ao Espí

rito impuro, dizendo-lhe: “Espírito surdo e mudo sai desse menino e não entres

mais nele.” — Então, o Espírito, soltando grande grito e agitando o menino em

violentas convulsões, saiu, ficando como morto o menino, de sorte que muitos

diziam que ele morrera. — Mas Jesus, tomando-lhe as mãos e amparando-o, fê-lo

levantar-se.

Quando Jesus voltou para casa, seus discípulos lhe perguntaram, em particular:

“Por que não pudemos nós expulsar esse demônio?” — Ele respondeu: “Os de

mônios desta espécie não podem ser expulsos senão pela prece e pelo jejum.”

( Marcos, 9:13 a 28.)

32. Apresentaram-lhe então um possesso cego e mudo e Ele o curou, de modo

que o possesso começou a falar e a ver: — Todo o povo ficou presa de admiração

e dizia: “Não é esse o filho de Davi?”

Mas os fariseus, isso ouvindo, diziam: “Este homem expulsa os demônios com o

auxílio de Belzebu, príncipe dos demônios.”

Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, disse-lhes: “Todo reino que se dividir

contra si mesmo será arruinado e toda cidade ou casa que se divide contra si

mesma não pode subsistir. — Se Satanás expulsa a Satanás, ele está dividi

do contra si mesmo, como, pois, o seu reino poderá subsistir? — E, se é por

Belzebu que eu expulso os demônios, por quem os expulsarão vossos filhos? Por

isso, eles próprios serão os vossos juízes. — Se eu expulso os demônios pelo

Espírito de Deus, é que o reino de Deus veio até vós.” (MatEus, 12:22 a 28.)

33. Com as curas, as libertações de possessos figuram entre os

mais numerosos atos de Jesus. Alguns há, entre os fatos dessa natureza,

como os acima narrados, no item 30, em que a possessão não é evidente.

Provavelmente, naquela época, como ainda hoje acontece, atribuía-se à

influência dos demônios todas as enfermidades cuja causa se não conhe

cia, principalmente a mudez, a epilepsia e a catalepsia. Outros há, toda

via, em que nada tem de duvidosa a ação dos maus Espíritos, casos esses

que guardam com os de que somos testemunhas tão frisante analogia,

que neles se reconhecem todos os sintomas de tal gênero de afecção. A

prova da participação de uma inteligência oculta, em tal caso, ressalta de

um fato material: são as múltiplas curas radicais obtidas, nalguns cen

tros espíritas, pela só evocação e doutrinação dos Espíritos obsessores,

sem magnetização, nem medicamentos e, muitas vezes, na ausência do

paciente e a grande distância deste. A imensa superioridade do Cristo

lhe dava tal autoridade sobre os Espíritos imperfeitos, chamados então

demônios, que lhe bastava ordenar se retirassem para que não pudessem

resistir a essa injunção. (Cap. XIV, item 46.)

34. O fato de serem alguns maus Espíritos mandados meter-se em

corpos de porcos é o que pode haver de menos provável. Aliás, seria difícil

explicar a existência de tão numeroso rebanho de porcos num país onde

esse animal era tido em horror e nenhuma utilidade oferecia para a alimen

tação. Um Espírito, porque mau, não deixa de ser um Espírito humano,

embora tão imperfeito que continue a fazer mal, depois de desencarnar,

como o fazia antes, e é contra todas as leis da natureza que lhe seja possível

fazer morada no corpo de um animal. No fato, pois, a que nos referimos,

temos que reconhecer a existência de uma dessas ampliações tão comuns

nos tempos de ignorância e de superstição; ou, então, será uma alegoria

destinada a caracterizar os pendores imundos de certos Espíritos.

35. Parece que, ao tempo de Jesus, eram em grande número, na

Judeia, os obsidiados e os possessos, donde a oportunidade que Ele teve

de curar a muitos. Sem dúvida, os Espíritos maus haviam invadido aquele

país e causado uma epidemia de possessões. (Cap. XIV, item 49.)

Sem apresentarem caráter epidêmico, as obsessões individuais são

muitíssimo frequentes e se apresentam sob os mais variados aspectos que,

entretanto, por um conhecimento amplo do Espiritismo, facilmente se

descobrem. Podem, não raro, trazer consequências danosas à saúde, seja

agravando afecções orgânicas já existentes, seja ocasionando-as. Um dia,

virão a ser, incontestavelmente, arroladas entre as causas patológicas que

requerem, pela sua natureza especial, especiais meios de tratamento. Re

velando a causa do mal, o Espiritismo rasga nova senda à arte de curar e

fornece à Ciência meio de alcançar êxito onde até hoje quase sempre vê

malogrados seus esforços, pela razão de não atender à primordial causa do

mal. (O livro dos médiuns, 2a Parte, cap. XXIII.)

36. Os fariseus diziam que por influência dos demônios é que Jesus

expulsava os demônios; segundo eles, o bem que Jesus fazia era obra de

Satanás; não refletiam que, se Satanás expulsasse a si mesmo, praticaria

rematada insensatez. É de notar-se que os fariseus daquele tempo já pre

tendessem que toda faculdade transcendente e, por esse motivo, reputada

sobrenatural, era obra do demônio, pois que, na opinião deles, era do de

mônio que Jesus recebia o poder de que dispunha. É esse mais um ponto

de semelhança daquela com a época atual e tal doutrina é ainda a que a

Igreja procura fazer que prevaleça hoje, contra as manifestações espíritas.170

Ressurreições

a filha dE Jairo

37. Tendo Jesus passado novamente, de barca, para a outra margem, logo que

desembarcou, grande multidão se lhe apinhou ao derredor. Então, um chefe de

sinagoga, chamado Jairo veio ao seu encontro e, ao aproximar-se dele, se lhe

lançou aos pés, — a suplicar com grande instância, dizendo: “Tenho uma filha

que está no momento extremo; vem impor-lhe as mãos para a curar e lhe salvar

a vida.”

Jesus foi com ele, acompanhado de grande multidão, que o comprimia.

Quando Jairo ainda falava, vieram pessoas que lhe eram subordinadas e lhe disse

ram: “Tua filha está morta; por que hás de dar ao Mestre o incômodo de ir mais

longe?” — Jesus, porém, ouvindo isso, disse ao chefe da sinagoga: “Não te aflijas,

crê apenas.” — E a ninguém permitiu que o acompanhasse, senão a Pedro,

Tiago e João, irmão de Tiago.

Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Ele uma aglomeração confusa de

pessoas que choravam e soltavam grandes gritos. — Entrando, disse-lhes Ele:

“Por que fazeis tanto alarido e por que chorais? Esta menina não está morta, está

apenas adormecida.” — Zombavam dele. Tendo feito que toda a gente saísse,

chamou o pai e mãe da menina e os que tinham vindo em sua companhia e

entrou no lugar onde a menina se achava deitada. — Tomou-lhe a mão e disse:

“Talitha cumi”, isto é: “Minha filha, levanta-te, Eu to ordeno.” — No mesmo

instante a menina se levantou e se pôs a andar, pois contava doze anos, e fica

ram todos maravilhados e espantados. (Marcos, 5:21 a 43.)

o filho da ViúVa dE naiM

38. No dia seguinte, dirigiu-se Jesus para uma cidade chamada Naim; acom

panhavam-no seus discípulos e grande multidão. — Quando estava perto da

porta da cidade, aconteceu que levavam a sepultar um morto, que era filho

único de sua mãe e essa mulher era viúva; estava com ela grande número de

pessoas da cidade. — Tendo-a visto, o Senhor se tomou de compaixão para

com ela e lhe disse: “Não chores.” — Depois, aproximando-se, tocou o esquife

e os que o conduziam pararam. Então, disse Ele: “Mancebo, levanta-te, Eu o

ordeno.” — Imediatamente, o moço se sentou e começou a falar. E Jesus o

restituiu à sua mãe.

Todos os que estavam presentes ficaram tomados de espanto e glorificavam

a Deus, dizendo: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu

povo.” — O rumor desse milagre que Ele fizera se espalhou por toda a Judeia e

por todas as regiões circunvizinhas. (lucas, 7:11 a 17.)

39. Contrário seria às leis da natureza e, portanto, milagroso, o

fato de voltar à vida corpórea um indivíduo que se achasse realmente

morto. Ora, não há mister se recorra a essa ordem de fatos, para ter-se a

explicação das ressurreições que Jesus operou.

Se, mesmo na atualidade, as aparências enganam por vezes os pro

fissionais, quão mais frequentes não haviam de ser os acidentes daquela

natureza, num país onde nenhuma precaução se tomava contra eles e

294

Os milagres do Evangelho

onde o sepultamento era imediato.171 É, pois, de todo ponto prová

vel que, nos dois casos acima, apenas síncope ou letargia houvesse. O

próprio Jesus declara positivamente, com relação à filha de Jairo: “Esta

menina,” disse Ele, “não está morta, está apenas adormecida.”

Dado o poder fluídico que Ele possuía, nada de espantoso há

em que esse fluido vivificante, acionado por uma vontade forte, haja

reanimado os sentidos em torpor; que haja mesmo feito voltar ao corpo

o Espírito, prestes a abandoná-lo, uma vez que o laço perispirítico ainda

se não rompera definitivamente. Para os homens daquela época, que

consideravam morto o indivíduo desde que deixara de respirar, havia

ressurreição em casos tais; mas, o que na realidade havia era cura e não

ressurreição, na acepção legítima do termo.

40. A ressurreição de Lázaro, digam o que disserem, de nenhum

modo infirma este princípio. Ele estava, dizem, havia quatro dias no

sepulcro; sabe-se, porém, que há letargias que duram oito dias e até

mais. Acrescentam que já cheirava mal, o que é sinal de decomposição.

Esta alegação também nada prova, dado que em certos indivíduos há

decomposição parcial do corpo, mesmo antes da morte, havendo em tal

caso cheiro de podridão. A morte só se verifica quando são atacados os

órgãos essenciais à vida.

E quem podia saber que Lázaro já cheirava mal? Foi sua irmã

Maria quem o disse. Mas como o sabia ela? Por haver já quatro dias

que Lázaro fora enterrado, ela o supunha; nenhuma certeza, entretanto,

podia ter. (Cap. XIV, item 29.)172

“Ananias, tendo ouvido aquelas palavras, caiu e rendeu o Espírito e todos os que ouviram fa

lar disso foram presas de grande temor. — Logo, alguns rapazes lhe vieram buscar o corpo e,

tendo-o levado, o enterraram. — Passadas umas três horas, sua mulher (Safira), que nada sabia

do que se dera, entrou. — E Pedro lhe disse... etc. — No mesmo instante, ela lhe caiu aos pés e

rendeu o Espírito. Aqueles rapazes, voltando, a encontraram morta e, levando-a, enterraram-na

junto do marido.”

172 Nota de Allan Kardec: O fato seguinte prova que a decomposição precede algumas vezes a morte.

No Convento do Bom Pastor, fundado em Toulon, pelo padre Marin, capelão dos cárceres, e desti

nado às decaídas que se arrependem, encontrava-se uma rapariga que suportara os mais terríveis

sofrimentos com a calma e a impassibilidade de uma vítima expiatória. Em meio de suas dores

parecia sorrir para uma visão celestial. Como Santa Teresa, pedia lhe fosse dado sofrer mais, embo

ra suas carnes já se achassem em frangalhos, com a gangrena a lhe devastar todos os membros.

Por sábia previdência, os médicos tinham recomendado que fizessem a inumação do corpo, logo

após o trespasse. Coisa singular! Mal a doente exalou o último suspiro, cessou todo o trabalho de

decomposição; desapareceram as exalações cadaverosas, de sorte que durante 36 horas pôde o

corpo ficar exposto às preces e à veneração da comunidade.

Jesus caminha sobre a água

41. Logo, fez Jesus que seus discípulos tomassem a barca e passassem para a outra

margem antes dele, que ficava a despedir o povo. — Depois de o ter despedido,

subiu a um monte para orar e, tendo caído a noite, achou-se Ele sozinho naquele

lugar.

Entrementes, a barca era fortemente açoitada pelas ondas, em meio do mar, por

ser contrário o vento. — Mas na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles,

caminhando por sobre o mar.173

— Quando eles o viram andando sobre o mar, turbaram-se e diziam: “É um

fantasma e se puseram a gritar amedrontados.” Jesus então lhes falou, dizendo:

“Tranquilizai-vos, sou eu, não tenhais medo.”

Pedro lhe respondeu: “Senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro, cami

nhando sobre as águas.” Disse-lhe Jesus: “Vem.” Pedro, descendo da barca, ca

minhava sobre a água ao encontro de Jesus. Mas vindo um grande vento ele teve

medo; e como começasse a submergir, clamou: “Senhor, salva-me.” Logo, Jesus,

estendendo-lhe a mão, disse: “Homem de pouca fé! por que duvidaste?” — E,

tendo subido para a barca, cessou o vento. — Então, os que estavam na barca,

aproximando-se dele, o adoraram, dizendo: “És verdadeiramente filho de Deus.”

(MatEus, 14:22 a 33.)

42. Este fenômeno encontra explicação natural nos princípios acima

expostos, cap. XIV, item 43.

Exemplos análogos provam que ele nada tem de impossível, nem

de miraculoso, pois que se produz sob a ação das leis da natureza. Pode

operar-se de duas maneiras.

Jesus, embora estivesse vivo, pôde aparecer sobre a água, com uma

forma tangível, estando alhures o seu corpo. É a hipótese mais provável.

Fácil é mesmo descobrir-se na narrativa alguns sinais característicos das

aparições tangíveis. (Cap. XIV, itens 35 a 37.)

Por outro lado, também pode ter sucedido que seu corpo fosse sus

tentado e neutralizada a sua gravidade pela mesma força fluídica que man

tém no espaço uma mesa, sem ponto de apoio. Idêntico efeito se produz

muitas vezes com os corpos humanos.

Transfiguração

43. Seis dias depois, tendo chamado de parte a Pedro, Tiago e João, Jesus os

levou consigo a um alto monte afastado174 e se transfigurou diante deles. —

Enquanto orava, seu rosto pareceu inteiramente outro; suas vestes se tornaram

brilhantemente luminosas e brancas qual a neve, como não há pisoeiro na Terra

que possa fazer alguma tão alva. — E eles viram aparecer Elias e Moisés, a entreter

palestra com Jesus.

Então, disse Pedro a Jesus: “Mestre, estamos bem aqui; façamos três tendas: uma

para ti, outra para Moisés, outra para Elias.” — É que ele não sabia o que dizia,

tão espantado estava.

Ao mesmo tempo, apareceu uma nuvem que os cobriu; e, dessa nuvem, uma voz

partiu, fazendo ouvir estas palavras: “Este é meu Filho bem-amado; escutai-o.”

Logo, olhando para todos os lados, a ninguém mais viram, senão a Jesus, que

ficara a sós com eles.

Quando desciam do monte, ordenou-lhes Ele que a ninguém falassem do que

tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. — E eles

conservaram em segredo o fato, inquirindo uns dos outros o que teria Ele querido

dizer com estas palavras: “Até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dentre os

mortos.” (Marcos, 9:1 a 9.)

44. É ainda nas propriedades do fluido perispirítico que se en

contra a explicação deste fenômeno. A transfiguração, explicada no

cap. Quatorze, item 39, é um fato muito comum que, em virtude da ir

radiação fluídica, pode modificar a aparência de um indivíduo; mas,

a pureza do perispírito de Jesus permitiu que seu Espírito lhe desse

excepcional fulgor. Quanto à aparição de Moisés e Elias cabe intei

ramente no rol de todos os fenômenos do mesmo gênero. (Cap. XIV,

itens 35 e seguintes.)

De todas faculdades que Jesus revelou, nenhuma se pode apontar

estranha às condições da humanidade e que se não encontre comumente

nos homens, porque estão todas na ordem da natureza. Pela superiorida

de, porém, da sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, aquelas

174 Nota de Allan Kardec: O Monte Tabor, a sudoeste do lago de Tabarich e a 11 quilômetros a sudeste de

Nazaré, com cerca de 1.000 metros de altura.

faculdades atingiam nele proporções muito acima das que são vulgares.

Posto de lado o seu envoltório carnal, Ele nos patenteava o estado dos puros

Espíritos.

Tempestade aplacada

45. Certo dia, tendo tomado uma barca com seus discípulos, disse-lhes Ele: “Pas

semos à outra margem do lago.” Partiram então. Durante a travessia, Ele adorme

ceu. — Então, um grande turbilhão de vento se abateu de súbito sobre o lago, de

sorte que, enchendo-se de água a barca, eles se viam em perigo. Aproximaram-se,

pois, dele e o despertaram, dizendo-lhe: “Mestre, perecemos.” Jesus, levantando--se, falou, ameaçador, aos ventos e às ondas agitadas e uns e outras se aplacaram,

sobrevindo grande calma. Ele então lhes disse: “Onde está a vossa fé?” Eles, po

rém, cheios de temor e admiração, perguntavam uns aos outros: “Quem é este que

assim dá ordens ao vento e às ondas, e eles lhe obedecem?” (lucas, 8:22 a 25.)

46. Ainda não conhecemos bastante os segredos da natureza para di

zer se há ou não inteligências ocultas presidindo à ação dos elementos. Na

hipótese de haver, o fenômeno em questão poderia ter resultado de um ato

de autoridade sobre essas inteligências e provaria um poder que a nenhum

homem é dado exercer.

Como quer que seja, o fato de estar Jesus a dormir tranquilamente,

durante a tempestade, atesta de sua parte uma segurança que se pode ex

plicar pela circunstância de que seu Espírito via não haver perigo nenhum

e que a tempestade ia amainar.

Bodas de Caná

47. Este milagre, referido unicamente no Evangelho de João, é

apresentado como o primeiro que Jesus operou e, nessas condições, deve

ra ter sido um dos mais notados. Entretanto, bem fraca impressão parece

haver produzido, pois que nenhum outro evangelista dele trata. Fato tão

extraordinário era para deixar espantados, no mais alto grau, os convi

vas e, sobretudo, o dono da casa, os quais, todavia, parece que não o perceberam.

Considerado em si mesmo, pouca importância tem o fato, em

comparação com os que, verdadeiramente, atestam as qualidades espiri

tuais de Jesus. Admitido que as coisas hajam ocorrido, conforme foram

narradas, é de notar-se seja esse, de tal gênero, o único fenômeno que

se tenha produzido. Jesus era de natureza extremamente elevada, para

se ater a efeitos puramente materiais, próprios apenas a aguçar a curio

sidade da multidão que, então, o teria nivelado a um mágico. Ele sabia

que as coisas úteis lhe conquistariam mais simpatias e lhe granjeariam

mais adeptos, do que as que facilmente passariam por fruto de grande

habilidade e destreza (Item 27).

Se bem que, a rigor, o fato se possa explicar, até certo ponto, por

uma ação fluídica que houvesse, como o magnetismo oferece muitos

exemplos, mudado as propriedades da água, dando-lhe o sabor do vi

nho, pouco provável é se tenha verificado semelhante hipótese, dado

que, em tal caso, a água, tendo do vinho unicamente o sabor, houvera

conservado a sua coloração, o que não deixaria de ser notado. Mais

racional é se reconheça aí uma daquelas parábolas tão frequentes nos

ensinos de Jesus, como a do filho pródigo, a do festim de bodas, do mau

rico, da figueira que secou e tantas outras que, todavia, se apresentam

com caráter de fatos ocorridos. Provavelmente, durante o repasto, terá

Ele aludido ao vinho e à água, tirando de ambos um ensinamento. Jus

tificam esta opinião as palavras que a respeito lhe dirige o mordomo:

“Toda gente serve em primeiro lugar o vinho bom e, depois que todos

o têm bebido muito, serve o menos fino; tu, porém, guardas até agora

o bom vinho.”

Entre duas hipóteses, deve-se preferir a mais racional e os espíritas

não são tão crédulos que por toda parte vejam manifestações, nem tão

absolutos em suas opiniões, que pretendam explicar tudo por meio dos

fluidos.

Multiplicação dos pães

48. A multiplicação dos pães é um dos milagres que mais têm

intrigado os comentadores e alimentado, ao mesmo tempo, as zomba

rias dos incrédulos. Sem se darem ao trabalho de lhe perscrutar o sen

tido alegórico, para estes últimos ele não passa de um conto pueril.

Entretanto, a maioria das pessoas sérias há visto na narrativa desse fato,

embora sob forma diferente da ordinária, uma parábola, em que se com

para o alimento espiritual da alma ao alimento do corpo.

Pode-se, todavia, perceber nela mais do que uma simples figura e

admitir, de certo ponto de vista, a realidade de um fato material, sem

que, para isso, seja preciso se recorra ao prodígio. É sabido que uma

grande preocupação de espírito, bem como a atenção fortemente presa

a uma coisa fazem esquecer a fome. Ora, os que acompanhavam a Jesus

eram criaturas ávidas de ouvi-lo; nada há, pois, de espantar em que, fas

cinadas pela sua palavra e também, talvez, pela poderosa ação magnética

que Ele exercia sobre os que o cercavam, elas não tenham experimenta

do a necessidade material de comer.

Prevendo esse resultado, Jesus nenhuma dificuldade teve para

tranquilizar os discípulos, dizendo-lhes, na linguagem figurada que lhe

era habitual e admitido que realmente houvessem trazido alguns pães,

que estes bastariam para matar a fome à multidão. Simultaneamente,

ministrava aos referidos discípulos um ensinamento, com o lhes dizer:

“Dai-lhes vós mesmos de comer.” Ensinava-lhes assim que também eles

podiam alimentar por meio da palavra.

Desse modo, a par do sentido moral alegórico, produziu-se um

efeito fisiológico, natural e muito conhecido. O prodígio, no caso, está

no ascendente da palavra de Jesus, poderosa bastante para cativar a aten

ção de uma multidão imensa, ao ponto de fazê-la esquecer-se de comer.

Esse poder moral comprova a superioridade de Jesus, muito mais do que

o fato puramente material da multiplicação dos pães, que tem de ser

considerada como alegoria.

Esta explicação, aliás, o próprio Jesus a confirmou nas duas pas

sagens seguintes.

49. Ora, tendo seus discípulos passado para o outro lado do mar, esqueceram--se de levar pães. — Jesus lhes disse: “Tende o cuidado de precatar-vos do fer

mento dos fariseus e dos saduceus.” — Eles, porém, pensavam e diziam entre

si: “É porque não trouxemos pães.”

300

Os milagres do Evangelho

Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: “Homens de pouca fé, por que

haveis de estar cogitando de não terdes trazido pães? Ainda não compreendeis

e não vos lembrais quantos cestos levastes? — Como não compreendereis que

não é do pão que eu vos falava, quando disse que vos guardásseis do fermento

dos fariseus e saduceus?”

Eles então compreenderam que Ele não lhes dissera que se preservassem do

fermento que se põe no pão, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus.

(MatEus, 16:5 a 12.)

O pãO dO céu

50. No dia seguinte, o povo, que permanecera do outro lado do mar, notou

que lá não chegara outra barca e que Jesus não entrara na que seus discípulos

tomaram, que os discípulos haviam partido sós — e como tinham chegado

depois outras barcas de Tiberíades, perto do lugar onde o Senhor, após ren

der graças, os alimentara com cinco pães; — e como verificassem por fim que

Jesus não estava lá, tampouco seus discípulos, entraram naquelas barcas e foram

para Cafarnaum, em busca de Jesus. — E, tendo-o encontrado além do mar,

disseram-lhe: “Mestre, quando vieste para cá?”

Jesus lhes respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo que me procurais, não

por causa dos milagres que vistes, mas por que eu vos dei pão a comer e ficastes

saciados. — Trabalhai por ter, não o alimento que perece, mas o que dura para

a vida eterna e que o Filho do Homem vos dará, porque foi nele que Deus, o

Pai, imprimiu seu selo e seu caráter.”

Perguntaram-lhe eles: “Que devemos fazer para produzir obras de Deus?” —

Respondeu-lhes Jesus: “A obra de Deus é que creiais no que Ele enviou.”

Perguntaram-lhe então: Que milagre operarás que nos faça crer, vendo-o? Que

farás de extraordinário? — Nossos pais comeram o maná no deserto, conforme

está escrito: Ele lhes deu de comer o pão do céu.

Jesus lhes respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo que Moisés não vos

deu o pão do céu; meu Pai é quem dá o verdadeiro pão do céu — porquanto o

pão de Deus é aquele que desceu do céu e que dá vida ao mundo.”

Disseram eles então: “Senhor, dá-nos sempre desse pão.”

Jesus lhes respondeu: “Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome

e aquele que em mim crê não terá sede. — Mas eu já vos disse: vós me tendes

visto e não credes.

Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim tem a vida eterna.

— Eu sou o pão da vida. — Vossos pais comeram o maná do deserto e morre

ram. — Aqui está o pão que desceu do céu, a fim de que quem dele comer não

morra.” (João, 6:22 a 36 e 47 a 50.)

51. Na primeira passagem, lembrando o fato precedentemente

operado, Jesus dá claramente a entender que não se tratara de pães ma

teriais, pois, a não ser assim, careceria de objeto a comparação por Ele

estabelecida com o fermento dos fariseus: “Ainda não compreendeis, diz

Ele, e não vos recordais de que cinco pães bastaram para cinco mil pes

soas e que dois pães foram bastantes para quatro mil? Como não com

preendestes que não era de pão que eu vos falava, quando vos dizia que

vos preservásseis do fermento dos fariseus?” Esse confronto nenhuma

razão de ser teria, na hipótese de uma multiplicação material. O fato

fora de si mesmo muito extraordinário para ter impressionado forte

mente a imaginação dos discípulos, que, entretanto, pareciam não mais

lembrar-se dele.

É também o que não menos claramente ressalta, do que Jesus ex

pendeu sobre o pão do céu, empenhado em fazer que seus ouvintes

compreendessem o verdadeiro sentido do alimento espiritual. “Traba

lhai, diz Ele, não por conseguir o alimento que perece, mas pelo que se

conserva para a vida eterna e que o Filho do Homem vos dará.” Esse

alimento é a sua palavra, pão que desceu do céu e dá vida ao mundo.

“Eu sou, declara Ele, o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome

e aquele que em mim crê nunca terá sede.”

Tais distinções, porém, eram por demais sutis para aquelas natu

rezas rudes, que somente compreendiam as coisas tangíveis. Para eles,

o maná, que alimentara o corpo de seus antepassados, era o verdadeiro

pão do céu; aí é que estava o milagre. Se, portanto, houvesse ocorrido

materialmente o fato da multiplicação dos pães, como teria Ele impres

sionado tão fracamente aqueles mesmos homens, a cujo benefício essa

multiplicação se operara poucos dias antes, ao ponto de perguntarem

a Jesus: “Que milagre farás para que, vendo-o, te creiamos? Que farás

de extraordinário?” Eles entendiam por milagres os prodígios que os fariseus pediam, isto é, sinais que aparecessem no céu por ordem de

Jesus, como pela varinha de um mágico. Ora, o que Jesus fazia era extre

mamente simples e não se afastava das leis da natureza; as próprias curas

não revelavam caráter muito singular, nem muito extraordinário. Para

eles, os milagres espirituais não apresentavam grande vulto.

Tentação de Jesus

52. Jesus, transportado pelo diabo ao pináculo do Templo, depois

ao cume de uma montanha e por ele tentado, constitui uma daquelas

parábolas que lhe eram familiares e que a credulidade pública transfor

mou em fatos materiais.175

53. “Jesus não foi arrebatado. Ele apenas quis fazer que os homens

compreendessem que a humanidade se acha sujeita a falir e que deve es

tar sempre em guarda contra as más inspirações a que, pela sua natureza

fraca, é impelida a ceder. A tentação de Jesus é, pois, uma figura e fora

preciso ser cego para tomá-la ao pé da letra. Como pretenderíeis que o

Messias, o Verbo de Deus encarnado, tenha estado submetido, por al

gum tempo, embora muito curto fosse este, às sugestões do demônio e

que, como o diz o Evangelho de Lucas, o demônio o houvesse deixado

por algum tempo, o que daria a supor que o Cristo continuou submetido

ao poder daquela entidade? Não; compreendei melhor os ensinos que

vos foram dados. O Espírito do mal nada poderia sobre a essência do

bem. Ninguém diz ter visto Jesus no cume da montanha, nem no piná

culo do Templo. Certamente, tal fato teria sido de natureza a se espalhar

por todos os povos. A tentação, portanto, não constituiu um ato mate

rial e físico. Quanto ao ato moral, admitiríeis que o Espírito das trevas

pudesse dizer àquele que conhecia sua própria origem e o seu poder:

“Adora-me, que te darei todos os remos da Terra?” Desconheceria então

o demônio aquele a quem fazia tais oferecimentos? Não é provável. Ora,

se o conhecia, suas propostas eram uma insensatez, pois ele não ignorava

que seria repelido por aquele que viera destruir-lhe o império sobre os

homens.

“Compreendei, portanto, o sentido dessa parábola, que outra coi

sa aí não tendes, do mesmo modo que nos casos do Filho Pródigo e do

Bom Samaritano. Aquela mostra os perigos que correm os homens, se

não resistem à voz íntima que lhes clama sem cessar: ‘Podes ser mais

do que és; podes possuir mais do que possuis; podes engrandecer-te,

adquirir muito; cede à voz da ambição e todos os teus desejos serão satis

feitos’. Ela vos mostra o perigo e o meio de o evitardes, dizendo às más

inspirações: Retira-te, Satanás ou, por outras palavras: Vai-te, tentação!

“As duas outras parábolas que lembrei mostram o que ainda pode

esperar aquele que, por muito fraco para expulsar o demônio, lhe su

cumbiu às tentações. Mostram a misericórdia do pai de família, pousan

do a mão sobre a fronte do filho arrependido e concedendo-lhe, com

amor, o perdão implorado. Mostram o culpado, o cismático, o homem

repelido por seus irmãos, valendo mais, aos olhos do Juiz supremo, do

que os que o desprezam, por praticar ele as virtudes que a lei de amor

ensina.

“Pesai bem os ensinamentos que os Evangelhos contêm; sabei dis

tinguir o que ali está em sentido próprio, ou em sentido figurado, e

os erros que vos hão cegado durante tanto tempo se apagarão pouco a

pouco, cedendo lugar à brilhante luz da Verdade.” — João Evangelista,

Bordeaux, 1862.

Prodígios por ocasião da morte de Jesus

54. Ora, desde a sexta hora do dia até a nona, toda a Terra se cobriu de trevas.

Ao mesmo tempo, o véu do Templo se rasgou em dois, de alto a baixo; a terra

tremeu; as pedras se fenderam; — os sepulcros se abriram e muitos corpos

de santos, que estavam no sono da morte, ressuscitaram; — e, saindo de seus

túmulos após a ressurreição, vieram à cidade santa e foram vistos por muitas

pessoas. (MatEus, 27:45, 51 a 53.)

55. É singular que tais prodígios, operando-se no momento mes

mo em que a atenção da cidade se fixava no suplício de Jesus, que era

o acontecimento do dia, não tenham sido notados, pois que nenhum

historiador os menciona. Parece impossível que um tremor de terra e o

ficar toda a Terra envolta em trevas durante três horas, numa região onde

o céu é sempre de perfeita limpidez, hajam podido passar despercebidos.

A duração de tal obscuridade teria sido quase a de um eclipse do

Sol, mas os eclipses dessa espécie só se produzem na lua nova, e a morte

de Jesus ocorreu em fase de lua cheia, a 14 de Nissan, dia da Páscoa dos

judeus.

O obscurecimento do Sol também pode ser produzido pelas man

chas que se lhe notam na superfície. Em tal caso, o brilho da luz se

enfraquece sensivelmente, porém, nunca ao ponto de determinar obs

curidade e trevas. Admitido que um fenômeno desse gênero se houvesse

dado, ele decorreria de uma causa perfeitamente natural.176

Quanto aos mortos que ressuscitaram, possivelmente algumas pes

soas tiveram visões ou viram aparições, o que não é excepcional. Entre

tanto, como então não se conhecia a causa desse fenômeno, supuseram

que as figuras vistas saíam dos sepulcros.

Compungidos com a morte de seu Mestre, os discípulos de Jesus

sem dúvida ligaram a essa morte alguns fatos particulares, aos quais

noutra ocasião nenhuma atenção houveram prestado. Bastou, talvez,

que um fragmento de rochedo se haja destacado naquele momento, para

que pessoas inclinadas ao maravilhoso tenham visto nesse fato um pro

dígio e, ampliando-o, tenham dito que as pedras se fenderam.

Jesus é grande pelas suas obras e não pelos quadros fantásticos de

que um entusiasmo pouco ponderado entendeu de cercá-lo.

Aparição de Jesus após sua morte

56. Mas Maria (Madalena) se conservou fora, perto do sepulcro, a derramar

lágrimas. E, estando a chorar, como se abaixasse para olhar dentro do sepul

cro — viu dois anjos vestidos de branco, assentados no lugar onde estivera o

corpo de Jesus, um à cabeceira, o outro do lado dos pés. — Disseram-lhe eles:

176 Nota de Allan Kardec: Há constantemente, na superfície do Sol, manchas físicas, que lhe acompa

nham o movimento de rotação e hão servido para determinar-se a duração desse movimento. Às

vezes, porém, essas manchas aumentam em número, em extensão e em intensidade. É então que

se produz uma diminuição da luz e do calor solares. O aumento do número das manchas parece

coincidir com certos fenômenos astronômicos e com a posição relativa de alguns planetas, o que

lhes determina o reaparecimento periódico. É muito variável a duração daquele obscurecimento;

por vezes não vai além de duas ou três horas, mas, em 535, houve um que durou catorze meses.

“Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “É que levaram o meu Senhor e não

sei onde o puseram.”

Tendo dito isto, voltou-se e viu a Jesus de pé, sem saber, entretanto que fosse

Jesus. — Este então lhe disse: “Mulher, por que choras? A quem procuras?” Ela,

pensando fosse o jardineiro, lhe disse: “Senhor, se foste tu quem o tirou, dize-me

onde o puseste e eu o levarei.”

Disse-lhe Jesus: “Maria.” Logo ela se voltou e disse: “Rabboni”, isto é: “Meu Se

nhor.” — Jesus lhe respondeu: “Não me toques, porquanto ainda não subi para

meu Pai; mas vai ter com meus irmãos e dize-lhes de minha parte: “Subo a meu

Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus.”

Maria Madalena foi então dizer aos discípulos que vira o Senhor e que este lhe

dissera aquelas coisas. (João, 20:11 a 18.)

57. Naquele mesmo dia, indo dois deles para um burgo chamado Emaús, dis

tante de Jerusalém sessenta estádios177 — falavam entre si de tudo o que se pas

sara. — E aconteceu que, quando conversavam e discorriam sobre isso, Jesus se

lhes juntou e se pôs a caminhar com eles; — seus olhos, porém, estavam tolhidos,

a fim de que não o pudessem reconhecer. — Ele disse: “De que vínheis falando a

caminhar e por que estais tão tristes?”

Um deles, chamado Cleofas, tomando a palavra disse: “Serás em Jerusalém o

único estrangeiro que não saiba do que aí se passou estes últimos dias?” — “Que

foi?” perguntou Ele. Responderam-lhe: “A respeito de Jesus de Nazaré, que foi

um poderoso profeta diante de Deus e diante de toda a gente, e acerca do modo

por que os príncipes dos sacerdotes e os nossos senadores o entregaram para ser

condenado à morte e o crucificaram. — Ora, nós esperávamos fosse Ele quem

resgatasse a Israel, no entanto, já estamos no terceiro dia depois que tais coisas

se deram. — É certo que algumas mulheres das que estavam conosco nos espan

taram, pois que, tendo ido ao seu sepulcro antes do romper do dia, nos vieram

dizer que anjos mesmos lhes apareceram, dizendo-lhes que Ele está vivo. — E

alguns dos nossos, tendo ido também ao sepulcro, encontraram todas as coisas

conforme as mulheres haviam referido; mas, quanto a Ele, não o encontraram.”

Disse-lhes então Jesus: “Ó insensatos, de coração tardo a crer em tudo o que os

profetas hão dito! Não era preciso que o Cristo sofresse todas essas coisas e que

entrasse assim na sua glória?” — E, a começar de Moisés, passando em seguida

por todos os profetas, lhes explicava o que em todas as Escrituras fora dito dele.

Ao aproximarem-se do burgo para onde se dirigiam, Ele deu mostras de que ia

mais longe. — Os dois o obrigaram a deter-se, dizendo-lhe: “Fica conosco, que já

é tarde e o dia está em declínio.” Ele entrou com os dois. — Estando com eles à

mesa tomou do pão, abençoou-o e lhes deu. — Abriram-se-lhes ao mesmo tempo os

olhos e ambos o reconheceram; Ele, porém, lhes desapareceu das vistas.

Então, disseram um ao outro: “Não é verdade que o nosso coração ardia dentro

de nós, quando Ele pelo caminho nos falava, explicando-nos as Escrituras?” — E,

erguendo-se no mesmo instante, voltaram a Jerusalém e viram que os onze após

tolos e os que continuavam com eles estavam reunidos — e diziam: “O Senhor

em verdade ressuscitou e apareceu a Simão.” — Então, também eles narraram o

que lhes acontecera em caminho e como o tinham reconhecido ao partir o pão.

Enquanto assim confabulavam, Jesus se apresentou no meio deles e lhes disse: “A paz

seja convosco; sou eu, não vos assusteis.” — Mas, na perturbação e no medo de

que foram tomados, eles imaginaram estar vendo um Espírito.

E Jesus lhes disse: “Por que vos turbais? Por que se elevam tantos pensamentos nos

vossos corações? — Olhai para as minhas mãos e para os meus pés e reconhecei

que sou eu mesmo. Tocai-me e considerai que um Espírito não tem carne, nem

osso, como vedes que eu tenho.” — Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés.

Mas como eles ainda não acreditavam, tão transportados de alegria e de admira

ção se achavam, disse-lhes: “Tendes aqui alguma coisa que se coma?” — Eles lhe

apresentaram um pedaço de peixe assado e um favo de mel. — Ele comeu diante

deles e, tomando os restos, lhes deu, dizendo: “Eis que, estando ainda convosco,

eu vos dizia que era necessário se cumprisse tudo o que de mim foi escrito na lei

de Moisés, nos profetas e nos Salmos.”

Ao mesmo tempo lhes abriu o espírito, a fim de que entendessem as Escrituras —

e lhes disse: “É assim que está escrito e assim era que se fazia necessário sofresse o

Cristo e ressuscitasse dentre os mortos ao terceiro dia; — e que se pregasse em seu

nome a penitência e a remissão dos pecados em todas as nações, a começar por

Jerusalém. — Ora, vós sois testemunhas dessas coisas. — Vou enviar-vos o dom

de meu Pai, o qual vos foi prometido; mas, por enquanto, permanecei na cidade,

até que eu vos haja revestido da força do Alto.” (lucas, 24:13 a 49.)

58. Ora, Tomé, um dos doze apóstolos, chamado Dídimo, não se achava com

eles quando veio Jesus. — Os outros discípulos então lhe disseram: “Vimos

o Senhor.” Ele, porém, lhes disse: “Se eu não vir nas suas mãos as marcas dos

cravos que as atravessaram e não puser o dedo no buraco feito pelos cravos e

minha mão no rasgão do seu lado, não acreditarei, absolutamente.”

Oito dias depois, estando ainda os discípulos no mesmo lugar e com eles Tomé,

Jesus se apresentou, achando-se fechadas as portas, e, colocando-se no meio

deles, disse-lhes: “A paz seja convosco.”

Disse em seguida a Tomé: “Põe aqui o teu dedo e olha minhas mãos; estende

também a tua mão e mete-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas fiel.” —

Tomé lhe respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” — Jesus lhe disse: “Tu creste,

Tomé, porque viste; ditosos os que creram sem ver.” (João, 20: 24 a 29.)

59. Jesus também se mostrou depois aos seus discípulos à margem do mar de

Tiberíades, mostrando-se desta forma:

Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná, na Galileia,

os filhos de Zebedeu e dois outros de seus discípulos estavam juntos. — Disse--lhes Simão Pedro: “Vou pescar.” Os outros disseram: “Também nós vamos con

tigo.” Foram-se e entraram numa barca; mas, naquela noite, nada apanharam.

Ao amanhecer, Jesus apareceu à margem sem que seus discípulos conhecessem que era

Ele. — Disse-lhes então: “Filhos, nada tendes que se coma?” Responderam-lhe:

“Não.” Disse-lhes Ele: “Lançai a rede do lado direito da barca e achareis.” Eles

a lançaram logo e quase não a puderam retirar, tão carregada estava de peixes.

Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor.” Simão

Pedro, ao ouvir que era o Senhor, vestiu-se (pois que estava nu) e se atirou ao

mar. — Os outros discípulos vieram com a barca, e, como não estavam dis

tantes da praia mais de duzentos côvados, puxaram daí a rede cheia de peixes.

(João, 21:1 a 8.)

60. Depois disso, Ele os conduziu para Betânia e, tendo levantado as mãos, os

abençoou — e, tendo-os abençoado, se separou deles e foi arrebatado ao céu.

Quanto a eles, depois de o terem adorado, voltaram para Jerusalém, cheios de

alegria. — Estavam constantemente no Templo, louvando e bendizendo a Deus.

Amém. (lucas, 24:50 a 53.)

61. Todos os evangelistas narram as aparições de Jesus, após sua

morte, com circunstanciados pormenores que não permitem se du

vide da realidade do fato. Elas, aliás, se explicam perfeitamente pelas

leis fluídicas e pelas propriedades do perispírito e nada de anômalo

apresentam em face dos fenômenos do mesmo gênero, cuja história,

antiga e contemporânea, oferece numerosos exemplos, sem lhes faltar

sequer a tangibilidade. Se notarmos as circunstâncias em que se deram

as suas diversas aparições, nele reconheceremos, em tais ocasiões, todos

os caracteres de um ser fluídico. Aparece inopinadamente e do mesmo

modo desaparece; uns o veem, outros não, sob aparências que não o tor

nam reconhecível nem sequer aos seus discípulos; mostra-se em recintos

fechados, onde um corpo carnal não poderia penetrar; sua própria lin

guagem carece da vivacidade da de um ser corpóreo; fala em tom breve e

sentencioso, peculiar aos Espíritos que se manifestam daquela maneira;

todas as suas atitudes, numa palavra, denotam alguma coisa que não

é do mundo terreno. Sua presença causa simultaneamente surpresa e

medo; ao vê-lo, seus discípulos não lhe falam com a mesma liberdade de

antes; sentem que já não é um homem.

Jesus, portanto, se mostrou com o seu corpo perispirítico, o que

explica que só tenha sido visto pelos que Ele quis que o vissem. Se esti

vesse com o seu corpo carnal, todos o veriam, como quando estava vivo.

Ignorando a causa originária do fenômeno das aparições, seus discípulos

não se apercebiam dessas particularidades, a que, provavelmente, não

davam atenção. Desde que viam o Senhor e o tocavam, haviam de achar

que aquele era o seu corpo ressuscitado. (Cap. XIV, itens 14 e 35 a 38.)

62. Ao passo que a incredulidade rejeita todos os fatos que Jesus

produziu, por terem uma aparência sobrenatural, e os considera, sem

exceção, lendários, o Espiritismo dá explicação natural à maior parte

desses fatos. Prova a possibilidade deles, não só pela teoria das leis fluí

dicas, como pela identidade que apresentam com análogos fatos produ

zidos por uma imensidade de pessoas nas mais vulgares condições. Por

serem, de certo modo, tais fatos do domínio público, eles nada provam,

em princípio, com relação à natureza excepcional de Jesus.178

178 Nota de Allan Kardec: Os inúmeros fatos contemporâneos de curas, aparições, possessões, dupla

vista e outros, que se encontram relatados na Revista espírita e lembrados nas observações acima,

oferecem, até quanto aos pormenores, tão flagrante analogia com os que o Evangelho narra, que

ressalta evidente a identidade dos efeitos e das causas. Não se compreende que o mesmo fato

tivesse hoje uma causa natural e que essa causa fosse sobrenatural outrora; diabólica com uns e di

vina com outros. Se fora possível pô-los aqui em confronto uns com os outros, a comparação mais

fácil se tornaria; não o permitem, porém, o número deles e os desenvolvimentos que a narrativa

reclamaria.

63. O maior milagre que Jesus operou, o que verdadeiramente

atesta a sua superioridade, foi a revolução que seus ensinos produziram

no mundo, malgrado a exiguidade dos seus meios de ação.

Com efeito, Jesus, obscuro, pobre, nascido na mais humilde con

dição, no seio de um povo pequenino, quase ignorado e sem prepon

derância política, artística ou literária, apenas durante três anos prega

a sua doutrina; em todo esse curto espaço de tempo é desatendido e

perseguido pelos seus concidadãos; vê-se obrigado a fugir para não ser

lapidado; é traído por um de seus apóstolos, renegado por outro, aban

donado por todos no momento em que cai nas mãos de seus inimigos.

Só fazia o bem e isso não o punha ao abrigo da malevolência, que dos

próprios serviços que Ele prestava tirava motivos para o acusar. Conde

nado ao suplício que só aos criminosos era infligido, morre ignorado do

mundo, visto que a História daquela época nada diz a seu respeito.179

Nada escreveu; entretanto, ajudado por alguns homens tão obscuros

quanto Ele, sua palavra bastou para regenerar o mundo; sua doutrina

matou o paganismo onipotente e se tornou o facho da civilização. Tinha

contra si tudo o que causa o malogro das obras dos homens, razão por

que dizemos que o triunfo alcançado pela sua doutrina foi o maior dos

seus milagres, ao mesmo tempo que prova ser divina a sua missão. Se,

em vez de princípios sociais e regeneradores, fundados sobre o futuro

espiritual do homem, Ele apenas houvesse legado à posteridade alguns

fatos maravilhosos, talvez hoje mal o conhecessem de nome.

Desaparecimento do corpo de Jesus

64. O desaparecimento do corpo de Jesus após sua morte há sido

objeto de inúmeros comentários. Atestam-no os quatro evangelistas, ba

seados nas narrativas das mulheres que foram ao sepulcro no terceiro

dia depois da crucificação e lá não o encontraram. Viram alguns, nesse

desaparecimento, um fato milagroso, atribuindo-o outros a uma subtra

ção clandestina.

Segundo outra opinião, Jesus não teria tido um corpo carnal, mas

apenas um corpo fluídico; não teria sido, em toda a sua vida, mais do

179 Nota de Allan Kardec: Dele unicamente fala o historiador judeu Flávio Josefo, que, aliás, diz bem pouca coisa.

que uma aparição tangível; numa palavra: uma espécie de agênere. Seu

nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida teriam sido

apenas aparentes. Assim foi que, dizem, seu corpo, voltado ao estado

fluídico, pôde desaparecer do sepulcro e com esse mesmo corpo é que

Ele se teria mostrado depois de sua morte.

É fora de dúvida que semelhante fato não se pode considerar ra

dicalmente impossível, dentro do que hoje se sabe acerca das proprieda

des dos fluidos; mas, seria, pelo menos, inteiramente excepcional e em

formal oposição ao caráter dos agêneres. (Cap. XIV, item 36.) Trata-se,

pois, de saber se tal hipótese é admissível, se os fatos a confirmam ou

contradizem.

65. A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que pre

cedeu e o que se seguiu à sua morte. No primeiro, desde o momento da

concepção até o nascimento, tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe,

como nas condições ordinárias da vida.180, 181 Desde o seu nascimento

até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas

circunstâncias da sua vida, revela os caracteres inequívocos da corporei

dade. São acidentais os fenômenos de ordem psíquica que nele se pro

duzem e nada têm de anômalos, pois que se explicam pelas propriedades

do perispírito e se dão, em graus diferentes, noutros indivíduos. Depois

de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. É tão marcada

a diferença entre os dois estados, que não podem ser assimilados.

O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propria

mente dita, propriedades que diferem essencialmente das dos fluidos

etéreos; naquela, a desorganização se opera pela ruptura da coesão mo

lecular. Ao penetrar no corpo material, um instrumento cortante lhe

divide os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, cessa-lhes

o funcionamento e sobrevém a morte, isto é, a do corpo. Não existindo

nos corpos fluídicos essa coesão, a vida aí já não repousa no jogo de ór

gãos especiais e não se podem produzir desordens análogas àquelas. Um

instrumento cortante ou outro qualquer penetra num corpo fluídico

como se penetrasse numa massa de vapor, sem lhe ocasionar qualquer

lesão. Tal a razão por que não podem morrer os corpos dessa espécie e por esta obra, foi chamado à pátria espiritual.

que os seres fluídicos, designados pelo nome de agêneres, não podem ser

mortos.

Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida;

foi sepultado como o são de ordinário os corpos e todos o puderam ver

e tocar. Após a sua ressurreição, quando quis deixar a Terra, não mor

reu de novo; seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar

qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era de natureza

diversa da do que pereceu na cruz; donde forçoso é concluir que, se foi

possível que Jesus morresse, é que carnal era o seu corpo.

Por virtude das suas propriedades materiais, o corpo carnal é a

sede das sensações e das dores físicas, que repercutem no centro sensi

tivo ou Espírito. Quem sofre não é o corpo, é o Espírito recebendo o

contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo

sem Espírito, absolutamente nula é a sensação. Pela mesma razão, o Es

pírito, sem corpo material, não pode experimentar os sofrimentos, visto

que estes resultam da alteração da matéria, donde também forçoso é se

conclua que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar,

é que Ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda

gente.

66. Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações morais.

Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres

fluídicos, Ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades

do corpo. Supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de

privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resigna

ção. Se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada

predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua

prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras,

sua paixão, sua agonia, tudo, até o último brado, no momento de en

tregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com

relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida,

numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna,

portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra:

Ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade.

Os milagres do Evangelho

Tais as consequências lógicas desse sistema, consequências inadmissíveis,

porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem.182

Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo

fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos

psíquicos que lhe assinalaram a existência.

67. Não é nova essa ideia sobre a natureza do corpo de Jesus. No

quarto século, Apolinário, de Laodiceia, chefe da seita dos apolinaris

tas, pretendia que Jesus não tomara um corpo como o nosso, mas um

corpo impassível, que descera do céu ao seio da santa virgem e que não

nascera dela; que, assim, Jesus não nascera, não sofrera e não morrera,

senão em aparência. Os apolinaristas foram anatematizados no concílio

de Alexandria, em 360; no de Roma, em 374; e no de Constantinopla,

em 381.

Tinham a mesma crença os docetas (do grego dokéō, aparecer),

seita numerosa dos Gnósticos, que subsistiu durante os três primeiros

séculos.

Teoria da presciência

1. Como é possível o conhecimento do futuro? Compreende-se

a possibilidade da previsão dos acontecimentos que devam resultar do

estado presente; porém, não a dos que nenhuma relação guardem com

esse estado, nem, ainda menos, a dos que são comumente atribuídos

ao acaso. Não existem as coisas futuras, dizem; elas ainda se encontram

no nada; como, pois, se há de saber que se darão? São, no entanto, em

grande número os casos de predições realizadas, donde forçosa se torna

a conclusão de que ocorre aí um fenômeno para cuja explicação falta a

chave, porquanto não há efeito sem causa. É essa causa que vamos tentar

descobrir e é ainda o Espiritismo, já de si mesmo chave de tantos misté

rios, que no-la fornecerá, mostrando-nos, ao demais, que o próprio fato

das predições não se produz com exclusão das leis naturais.

Tomemos, para comparação, um exemplo nas coisas usuais. Ele

nos ajudará a compreender o princípio que teremos de desenvolver.

2. Suponhamos um homem colocado no cume de uma alta

montanha, a observar a vasta extensão da planície em derredor. Nessa

situação, o espaço de uma légua pouca coisa será para ele, que poderá

facilmente apanhar, de um golpe de vista, todos os acidentes do terre

no, de um extremo a outro da estrada que lhe esteja diante dos olhos. O

viajor, que pela primeira vez percorra essa estrada, sabe que, caminhan

do, chegará ao fim dela. Constitui isso uma simples previsão da conse

quência que terá a sua marcha. Entretanto, os acidentes do terreno, as

subidas e descidas, os cursos de água que terá de transpor, os bosques

que haja de atravessar, os precipícios em que poderá cair, as casas hos

pitaleiras onde lhe será possível repousar, os ladrões que o espreitem

para roubá-lo, tudo isso independe da sua pessoa; é para ele o desconhecido, o futuro, porque a sua vista não vai além da pequena área que

o cerca. Quanto à duração, mede-a pelo tempo que gasta em perlustrar

o caminho. Tirai-lhe os pontos de referência e a duração desaparecerá.

Para o homem que está em cima da montanha e que o acompanha com

o olhar, tudo aquilo está presente. Suponhamos que esse homem desce

do seu ponto de observação e, indo ao encontro do viajante, lhe diz:

“Em tal momento, encontrarás tal coisa, serás atacado e socorrido.”

Estará predizendo o futuro, mas, futuro para o viajante, não para ele,

autor da previsão, pois que, para ele, esse futuro é presente.

3. Se, agora, sairmos do âmbito das coisas puramente materiais e

entrarmos, pelo pensamento, no domínio da vida espiritual, veremos o

mesmo fenômeno produzir-se em maior escala. Os Espíritos desmateria

lizados são como o homem da montanha; o espaço e a duração não exis

tem para eles. Mas a extensão e a penetração da vista são proporcionadas

à depuração deles e à elevação que alcançaram na hierarquia espiritual.

Com relação aos Espíritos inferiores, aqueles são quais homens muni

dos de possantes telescópios, ao lado de outros que apenas dispõem dos

olhos. Nos Espíritos inferiores, a visão é circunscrita, não só porque eles

dificilmente podem afastar-se do globo a que se acham presos, como

também porque a grosseria de seus perispíritos lhes vela as coisas distan

tes, do mesmo modo que um nevoeiro as oculta aos olhos do corpo.

Bem se compreende, pois, que, de conformidade com o grau de

sua perfeição, possa um Espírito abarcar um período de alguns anos,

de alguns séculos, mesmo de muitos milhares de anos, porquanto, que

é um século em face do infinito? Diante dele, os acontecimentos não

se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada diante do

viajor: ele vê simultaneamente o começo e o fim do período; todos os

eventos que, nesse período, constituem o futuro para o homem da Terra

são o presente para ele, que poderia então vir dizer-nos com certeza: Tal

coisa acontecerá em tal época, porque essa coisa ele a vê como o homem

da montanha vê o que espera o viajante no curso da viagem. Se assim

não procede, é porque poderia ser prejudicial ao homem o conhecimento

do futuro, conhecimento que lhe pearia o livre-arbítrio, paralisá-lo-ia

no trabalho que lhe cumpre executar a bem do seu progresso. O se lhe

conservarem desconhecidos o bem e o mal com que topará constitui para

o homem uma prova.

Se tal faculdade, mesmo restrita, se pode contar entre os atributos

da criatura, em que grau de potencialidade não existirá no Criador, que

abrange o infinito? Para o Criador, o tempo não existe: o princípio e o

fim dos mundos lhe são o presente. Dentro desse panorama imenso, que

é a duração da vida de um homem, de uma geração, de um povo?

4. Entretanto, como o homem tem de concorrer para o progresso

geral, como certos acontecimentos devem resultar da sua cooperação,

pode convir que, em casos especiais, ele pressinta esses acontecimentos,

a fim de lhes preparar o encaminhamento e de estar pronto a agir, em

chegando a ocasião. Por isso é que Deus, às vezes, permite se levante

uma ponta do véu; mas, sempre com fim útil, nunca para satisfação de

vã curiosidade. Tal missão pode, pois, ser conferida, não a todos os Espí

ritos, porquanto muitos há que do futuro não conhecem mais do que os

homens, porém a alguns Espíritos bastante adiantados para desempenhá--la. Ora, é de notar-se que as revelações dessa espécie são sempre feitas es

pontaneamente e jamais, ou, pelo menos, muito raramente, em resposta

a uma pergunta direta.

5. Pode também semelhante missão ser confiada a certos homens,

desta maneira:

Aquele a quem é dado o encargo de revelar uma coisa oculta recebe,

à sua revelia e por inspiração dos Espíritos que a conhecem, a revelação

dela e a transmite maquinalmente, sem se aperceber do que faz. É sabido,

ao demais, que, assim durante o sono, como em estado de vigília, nos

êxtases da dupla vista, a alma se desprende e adquire, em grau mais ou

menos alto, as faculdades do Espírito livre. Se for um Espírito adiantado,

se, sobretudo, houver recebido, como os profetas, uma missão especial

para esse efeito, gozará, nos momentos de emancipação da alma, da fa

culdade de abarcar, por si mesmo, um período mais ou menos extenso,

e verá, como presente, os sucessos desse período. Pode então revelá-los

no mesmo instante, ou conservar lembrança deles ao despertar. Se os

sucessos hajam de permanecer secretos, ele os esquecerá, ou apenas guar

dará uma vaga intuição do que lhe foi revelado, bastante para o guiar

instintivamente.

6. É assim que em certas ocasiões essa faculdade se desenvolve pro

videncialmente, na iminência de perigos, nas grandes calamidades, nas

revoluções, e é assim também que a maioria das seitas perseguidas adqui

re numerosos videntes. É ainda por isso que se veem os grandes capitães

avançar resolutamente contra o inimigo, certos da vitória; que homens

de gênio, como, por exemplo, Cristóvão Colombo, caminham para uma

meta, anunciando previamente, por assim dizer, o instante em que a

alcançarão. É que eles viram, essa meta, que, para seus Espíritos, deixou

de ser o desconhecido.

Nada, pois, tem de sobrenatural o dom da predição, mais do que

uma imensidade de outros fenômenos. Ele se funda nas propriedades da

alma e na lei das relações do mundo visível com o mundo invisível, que

o Espiritismo veio dar a conhecer.

A teoria da presciência talvez não resolva de modo absoluto todos

os casos que se possam apresentar de revelação do futuro, mas não se

pode deixar de convir em que lhe estabelece o princípio fundamental.

7. Muitas vezes, as pessoas dotadas da faculdade de prever, seja

no estado de êxtase, seja no de sonambulismo, veem os acontecimentos

como que desenhados num quadro, o que também se poderia explicar

pela fotografia do pensamento. Atravessando o pensamento o espaço,

como os sons atravessam o ar, um sucesso que esteja no dos Espíritos

que trabalham para que ele se dê, ou no dos homens cujos atos devam

provocá-lo, pode formar uma imagem para o vidente; mas, como a sua

realização pode ser apressada ou retardada por um concurso de circuns

tâncias, este último vê o fato, sem poder, todavia, determinar o momento

em que se dará. Não raro acontece que aquele pensamento não passa de

um projeto, de um desejo, que se não concretizem em realidade, donde

os frequentes erros de fato e de data nas previsões. (Cap. XIV, itens 13 e

seguintes.)

8. Para compreendermos as coisas espirituais, isto é, para fazermos

delas ideia tão clara como a que fazemos de uma paisagem que tenhamos

ante os olhos, falta-nos em verdade um sentido, exatamente como ao

cego de nascença falta um que lhe faculte compreender os efeitos da luz,

das cores e da vista, sem o contato. Daí se segue que somente por esforço

da imaginação e por meio de comparações com coisas materiais que nos

sejam familiares chegamos a consegui-lo. As coisas materiais, porém, não

nos podem dar das coisas espirituais senão ideias muito imperfeitas, ra

zão por que não se devem tomar ao pé da letra essas comparações e crer,

por exemplo, que a extensão das faculdades perceptivas dos Espíritos

depende da efetiva elevação deles, nem que eles precisem estar em cima

de uma montanha ou acima das nuvens para abrangerem o tempo e o

espaço.

Tal faculdade lhes é inerente ao estado de espiritualização, ou, se o

preferirem, de desmaterialização. Quer isto dizer que a espiritualização

produz um efeito que se pode comparar, se bem muito imperfeitamente,

ao da visão de conjunto que tem o homem colocado sobre a montanha.

Esta comparação objetivava simplesmente mostrar que acontecimentos

pertencentes ainda, para uns, ao futuro, estão, para outros, ao presente e

podem assim ser preditos, o que não implica que o efeito se produza de

igual maneira.

Para, portanto, gozar dessa percepção, não precisa o Espírito trans

portar-se a um ponto qualquer do espaço. Pode possuí-la em toda a sua

plenitude aquele que na Terra se acha ao nosso lado, tanto quanto se

achasse a mil léguas de distância, ao passo que nós nada vemos além do

nosso horizonte visual. Não se operando a visão, nos Espíritos, do mes

mo modo, nem com os mesmos elementos que no homem, muito diver

so é o horizonte visual dos primeiros. Ora, é precisamente esse o sentido

que nos falece para o concebermos. O Espírito, ao lado do encarnado, é

como o vidente ao lado do cego.

9. Devemos, além disso, ponderar que essa percepção não se limita

ao que diz respeito à extensão; que ela abrange a penetração de todas

as coisas. É, repetimo-lo, uma faculdade inerente e proporcionada ao

estado de desmaterialização. A encarnação amortece-a, sem, contudo, a

anular completamente, porque a alma não fica encerrada no corpo como

numa caixa. O encarnado a possui, embora sempre em grau menor do

que quando se acha completamente desprendido; é o que confere a certos

homens um poder de penetração que a outros falece inteiramente; maior

agudeza de visão moral; compreensão mais fácil das coisas extramateriais.

O Espírito encarnado não somente percebe, como também se

lembra do que viu no estado de Espírito livre e essa lembrança é como

um quadro que se lhe desenha na mente. Na encarnação, ele vê, mas va

gamente, como através de um véu; no estado de liberdade, vê e concebe

claramente. O princípio da visão não lhe é exterior, está nele; essa a ra

zão por que não precisa da luz exterior. Por efeito do desenvolvimen

to moral, alarga-se o círculo das ideias e da concepção; por efeito da

desmaterialização gradual do perispírito, este se purifica dos elementos

grosseiros que lhe alteravam a delicadeza das percepções, o que torna

fácil compreender-se que a ampliação de todas as faculdades acompanha

o progresso do Espírito.

10. O grau da extensão das faculdades do Espírito é que, na en

carnação, o torna mais ou menos apto a conceber as coisas espirituais.

Essa aptidão, todavia, não é corolário forçoso do desenvolvimento da

inteligência; a ciência vulgar não a dá, tanto assim que há homens de

grande saber tão cegos para as coisas espirituais, quanto outros o são

para as coisas materiais; são-lhes refratários, porque não as compreen

dem, o que significa que ainda não progrediram em tal sentido, ao pas

so que outros, de instrução e inteligência vulgares, as aprendem com a

maior facilidade, o que prova que já tinham de tais coisas uma intui

ção prévia. É, para estes, uma lembrança retrospectiva do que viram e

souberam, quer na erraticidade, quer em suas existências anteriores,

como alguns têm a intuição das línguas e das ciências de que já foram

conhecedores.

11. Quanto ao futuro do Espiritismo, os Espíritos, como se sabe,

são unânimes em afirmar o seu triunfo próximo, a despeito dos obstá

culos que lhe criem. Fácil lhes é essa previsão, primeiramente, porque a

sua propagação é obra pessoal deles: concorrendo para o movimento, ou

dirigindo-o, eles naturalmente sabem o que devem fazer; em segundo

lugar, basta-lhes entrever um período de curta duração: veem, nesse perí

odo, ao longo do caminho, os poderosos auxiliares que Deus lhe suscita

e que não tardarão a manifestar-se.

Transportem-se os espíritas, embora sem serem Espíritos desencar

nados, a trinta anos apenas para diante, ao seio da geração que surge; daí

considerem o que se passa hoje com o Espiritismo; acompanhem-lhe a

marcha progressiva e verão consumir-se em vãos esforços os que se creem

destinados a derrocá-lo. Verão que esses tais pouco a pouco desaparecem

de cena e que, paralelamente, a árvore cresce e alonga cada dia mais as

suas raízes.

12. As mais das vezes, os acontecimentos vulgares da vida privada

são consequência da maneira de proceder de cada um: este, de acordo

com as suas capacidades, com a sua habilidade, com a sua perseverança,

prudência e energia, terá êxito naquilo em que outro verá malogrados

todos os seus esforços, por efeito da sua inaptidão, de sorte que se pode

dizer que cada um é o artífice do seu próprio futuro, futuro que jamais

se encontra sujeito a uma cega fatalidade, independente da sua per

sonalidade. Conhecendo-se o caráter de um indivíduo, facilmente se

lhe pode predizer a sorte que o espera no caminho por onde haja ele

enveredado.

13. Os acontecimentos que envolvem interesses gerais da humani

dade têm a regulá-los a Providência. Quando uma coisa está nos desíg

nios de Deus, ela se cumpre a despeito de tudo, ou por um meio, ou por

outro. Os homens concorrem para que ela se execute; nenhum, porém, é

indispensável, pois, do contrário, o próprio Deus estaria à mercê das suas

criaturas. Se faltar aquele a quem incumba a missão de a executar, outro

será dela encarregado. Não há missão fatal; o homem tem sempre a liber

dade de cumprir ou não a que lhe foi confiada e que ele voluntariamente

aceitou. Se não o faz, perde os benefícios que daí lhe resultariam e assu

me a responsabilidade dos atrasos que possam resultar da sua negligência

ou da sua má vontade. Se se tornar um obstáculo a que ela se cumpra,

está em Deus afastá-lo com um sopro.

14. Pode, portanto, ser certo o resultado final de um acontecimen

to, por se achar este nos desígnios de Deus; como, porém, quase sem

pre, os pormenores e o modo de execução se encontram subordinados

às circunstâncias e ao livre-arbítrio dos homens, podem ser eventuais as

sendas e os meios. Está nas possibilidades dos Espíritos prevenir-nos do

conjunto, se convier que sejamos avisados; mas, para determinarem lugar

e data, fora mister conhecessem previamente a decisão que tomará este

ou aquele indivíduo. Ora, se essa decisão ainda não lhe estiver na men

te, poderá, tal venha ela a ser, apressar ou demorar a realização do fato,

modificar os meios secundários de ação, embora o mesmo resultado che

gue sempre a produzir-se. É assim, por exemplo, que, pelo conjunto das

circunstâncias, podem os Espíritos prever que uma guerra se acha mais

ou menos próxima, que é inevitável, sem, contudo, poderem predizer o

dia em que começará, nem os incidentes pormenorizados que possam ser

modificados pela vontade dos homens.

15. Para determinação da época dos acontecimentos futuros, será

preciso, ao demais, se leve em conta uma circunstância inerente à natureza

mesma dos Espíritos.

O tempo, como o espaço, não pode ser avaliado senão com o auxílio

de pontos de referências que o dividam em períodos que se contem. Na

Terra, a divisão natural do tempo em dias e anos tem a marcá-la o levan

tar e o pôr do sol, assim como a duração do movimento de translação do

planeta terreno. As unidades de medida do tempo necessariamente variam

conforme os mundos, pois que são diferentes os períodos astronômicos.

Assim, por exemplo, em Júpiter, os dias equivalem a dez das horas terres

tres e os anos a mais de doze anos nossos.

Há, pois, para cada mundo, um modo diferente de computar-se a

duração, de acordo com a natureza das revoluções astrais que nele se efe

tuam. Já haverá aí uma dificuldade para que Espíritos que não conheçam

o nosso mundo determinem datas com relação a nós. Além disso, fora

dos mundos, não existem tais meios de apreciação. Para um Espírito, no

espaço, não há levantar nem pôr de sol a marcar os dias, nem revolução

periódica a marcar os anos; só há, para ele, a duração e o espaço infini

tos. (Cap. VI, itens 1 e seguintes.) Aquele, portanto, que jamais houvesse

vindo à Terra nenhum conhecimento possuiria dos nossos cálculos que,

aliás, lhe seriam completamente inúteis. Mais ainda: aquele que jamais

houvesse encarnado em nenhum mundo, nenhuma noção teria das frações

da duração. Quando um Espírito estranho à Terra vem aqui manifestar-se,

não pode assinar datas aos acontecimentos, senão identificando-se com os

nossos usos; ora, isso sem dúvida lhe é possível, porém, as mais das vezes,

ele nenhuma utilidade descobre nessa identificação.

16. Os Espíritos, que formam a população invisível do nosso globo,

onde eles já viveram e onde continuam a imiscuir-se na nossa vida, estão

naturalmente identificados com os nossos hábitos, cuja lembrança conser

vam na erraticidade. Poderão, por conseguinte, com maior facilidade, de

terminar datas aos acontecimentos futuros, desde que os conheçam; mas,

além de que isso nem sempre lhes é permitido, eles se veem impedidos pela

razão de que, sempre que as circunstâncias de minúcias estão subordinadas

ao livre-arbítrio e à decisão eventual do homem, nenhuma data precisa

existe realmente, senão depois que o acontecimento se tenha dado.

Eis aí por que as predições circunstanciadas não podem apresentar

cunho de certeza e somente como prováveis devem ser acolhidas, mesmo

que não tragam eiva que as torne legitimamente suspeitas. Por isso mesmo,

os Espíritos verdadeiramente ponderados nada nunca predizem para épo

cas determinadas, limitando-se a prevenir-nos do seguimento das coisas

que convenha conheçamos. Insistir por obter informes precisos é expor-se

às mistificações dos Espíritos levianos que predizem tudo o que se queira,

sem se preocuparem com a verdade, divertindo-se com os terrores e as

decepções que causem.

17. A forma geralmente empregada até agora nas predições faz delas

verdadeiros enigmas, as mais das vezes indecifráveis. Essa forma misteriosa

e cabalística, de que Nostradamus nos oferece o tipo mais completo, lhes

dá certo prestígio perante o vulgo, que tanto mais valor lhes atribui, quanto

mais incompreensíveis se mostrem. Pela sua ambiguidade, elas se prestam

a interpretações muito diferentes, de tal sorte que, conforme o sentido que

se atribua a certas palavras alegóricas ou convencionais, conforme a manei

ra por que se efetue o cálculo, singularmente complicado, das datas e, com

um pouco de boa vontade, nelas se encontra quase tudo o que se queira.

Seja como for, não se pode deixar de convir em que algumas apre

sentam caráter sério e confundem pela sua veracidade. É provável que a

forma velada tenha tido, em certo tempo, sua razão de ser e mesmo sua

necessidade.

Hoje, as circunstâncias são outras; o positivismo do século dar-se-ia

mal com a linguagem sibilina. Daí vem que presentemente as predições já

não se revestem dessas formas singulares; nada têm de místicas as que os

Espíritos fazem; eles usam a linguagem de toda gente, como o teriam feito

quando vivos na Terra, porque não deixaram de pertencer à humanidade.

Avisam-nos das coisas futuras, pessoais ou gerais, quando necessário, na

medida da perspicácia de que são dotados, como o fariam conselheiros

e amigos. Suas previsões, pois, são antes advertências, do que predições

propriamente ditas, as quais implicariam numa fatalidade absoluta. Além

disso, quase sempre motivam a opinião que manifestam, por não quererem

que o homem anule a sua razão sob uma fé cega e desejarem que este últi

mo lhe aprecie a exatidão.

18. A humanidade contemporânea também conta seus profetas.

Mais de um escritor, poeta, literato, historiador ou filósofo hão traçado,

em seus escritos, a marcha futura de acontecimentos a cuja realização agora

assistimos.

Essa aptidão, sem dúvida, decorre, muitas vezes, da retidão do juízo,

no deduzir as consequências lógicas do presente; mas, doutras vezes, tam

bém resulta de uma especial clarividência inconsciente, ou de uma inspi

ração vinda do exterior. O que tais homens fizeram quando vivos, podem,

com razão mais forte e maior exatidão, fazer no estado de Espíritos livres,

quando não têm a visão espiritual obscurecida pela matéria.

326

M

Predições do Evangelho

Ninguém é profeta em sua terra

1. Tendo vindo à sua terra natal, instruía-os nas sinagogas, de sorte que, tomados

de espanto, diziam: “Donde lhe vieram essa sabedoria e esses milagres? — Não é

o filho daquele carpinteiro? Não se chama Maria, sua mãe, e seus irmãos Tiago,

José, Simão e Judas? Suas irmãs não se acham todas entre nós? Donde então lhe

vêm todas essas coisas?” — E assim faziam dele objeto de escândalo. Mas Jesus

lhes disse: “Um profeta só não é honrado em sua terra e na sua casa.” — E não fez lá

muitos milagres devido à incredulidade deles. (MatEus, 13:54 a 58.)

2. Enunciou Jesus dessa forma uma verdade que se tornou provér

bio, que é de todos os tempos e à qual se poderia dar maior amplitude,

dizendo que ninguém é profeta em vida.

Na linguagem usual, essa máxima se aplica ao crédito de que alguém

goza entre os seus e entre aqueles em cujo seio vive, à confiança que lhes

inspira pela superioridade do saber e da inteligência. Se ela sofre exceções,

são raras estas e, em nenhum caso, absolutas. O princípio de tal verdade

reside numa consequência natural da fraqueza humana e pode explicar-se

deste modo:

O hábito de se verem desde a infância, em todas as circunstâncias

ordinárias da vida, estabelece entre os homens uma espécie de igualdade

material que, muitas vezes, faz que a maioria deles se negue a reconhecer

superioridade moral num de quem foram companheiros ou comensais,

que saiu do mesmo meio que eles e cujas primeiras fraquezas todos teste

munharam. Sofre-lhes o orgulho com o terem de reconhecer o ascenden

te do outro. Quem quer que se eleve acima do nível comum está sempre

em luta com o ciúme e a inveja. Os que se sentem incapazes de chegar à

altura em que aquele se encontra esforçam-se para rebaixá-lo, por meio

da difamação, da maledicência e da calúnia; tanto mais forte gritam,

quanto menores se acham, crendo que se engrandecem e o eclipsam pelo

arruído que promovem. Tal foi e será a História da humanidade, enquan

to os homens não houverem compreendido a sua natureza espiritual e

alargado seu horizonte moral. Por aí se vê que semelhante preconceito é

próprio dos espíritos acanhados e vulgares, que tomam suas personalida

des por ponto de aferição de tudo.

Doutro lado, toda gente, em geral, faz dos homens apenas conhe

cidos pelo espírito um ideal que cresce à medida que os tempos e os lu

gares se vão distanciando. Eles são como que despojados de todo cunho

de humanidade; parece que não devem ter falado, nem sentido como

os demais; que a linguagem de que usaram e seus pensamentos hão de

ter ressoado constantemente no diapasão da sublimidade, sem se lem

brarem, os que tal imaginam, que o espírito não poderia permanecer

constantemente em estado de tensão e de perpétua superexcitação. No

contato da vida privada, vê-se por demais que o homem material em

nada se distingue do vulgo. O homem corpóreo, que os sentidos huma

nos percebem, quase que apaga o homem espiritual, do qual somente

o espírito se percebe. De longe, apenas se veem os relâmpagos do gênio; de

perto, veem-se as paradas do espírito.

Depois da morte, nenhuma comparação mais sendo possível,

unicamente o homem espiritual subsiste e tanto maior parece, quanto

mais longínqua se torna a lembrança do homem corporal. É por isso que

aqueles cuja passagem pela Terra se assinalou por obras de real valor são

mais apreciados depois de mortos do que quando vivos. São julgados

com mais imparcialidade, porque, já tendo desaparecido os invejosos e

os ciosos, cessaram os antagonismos pessoais. A posteridade é juiz desin

teressado no apreciar a obra do espírito; aceita-a sem entusiasmo cego, se

é boa, e a rejeita sem rancor, se é má, abstraindo da individualidade que

a produziu.

Tanto menos podia Jesus escapar às consequências deste princípio,

inerente à natureza humana, quanto pouco esclarecido era o meio em que

Ele vivia, meio esse constituído de criaturas votadas inteiramente à vida

material. Nele, seus compatriotas apenas viam o filho do carpinteiro, o

irmão de homens tão ignorantes quanto Ele e, assim sendo, não percebiam

o que lhe dava superioridade e o investia do direito de os censurar. Verifi

cando então que a sua palavra tinha menos autoridade sobre os seus, que

o desprezavam, do que sobre os estranhos, preferiu ir pregar para os que o

escutavam e aos quais inspirava simpatia.

Pode-se fazer ideia dos sentimentos que para com Ele nutriam os

que lhe eram aparentados, pelo fato de que seus próprios irmãos, acom

panhados de sua mãe, foram a uma reunião onde Ele se encontrava, para

dele se apoderarem, dizendo que perdera o juízo. (Marcos, 3:20 e 21, 31 a

35; O evangelho segundo o espiritismo, cap. XIV.)

Assim, de um lado, os sacerdotes e os fariseus o acusavam de traba

lhar pelo demônio; de outro, era tachado de louco pelos seus parentes mais

próximos. Não é o que se dá em nossos dias com relação aos espíritas? E

deverão estes queixar-se de que os seus concidadãos não os tratem melhor

do que os de Jesus o tratavam? O que há de estranhável é que, no século

XIX e no seio de nações civilizadas, se dê o que, há dois mil anos, nada

tinha de espantoso, por parte de um povo ignorante.

Morte e paixão de Jesus

3. (Após a cura do lunático) — Todos ficaram admirados do grande poder de

Deus. E, estando todos presa de admiração pelo que Jesus fazia, disse Ele a seus

discípulos: “Guardai bem nos vossos corações o que vos vou dizer. O Filho do Ho

mem tem que ser entregue às mãos dos homens.” — Eles, porém, não entendiam

essa linguagem; ela lhes era de tal modo oculta que nada compreendiam daquilo e

temiam mesmo interrogá-lo a respeito. (lucas, 9:44 e 45.)

4. A partir de então, começou Jesus a revelar a seus discípulos que tinha de ir a

Jerusalém; que aí tinha de sofrer muito da parte dos senadores, dos escribas e dos

príncipes dos sacerdotes; que tinha de ser morto e de ressuscitar ao terceiro dia.

(MatEus, 16:21.)

5. Estando na Galileia, disse-lhes Jesus: “O Filho do Homem tem que ser entregue

às mãos dos homens; — estes lhe darão morte e Ele ressuscitará ao terceiro dia, o

que os afligiu extremamente.” (MatEus, 17:21 e 22.)

6. Ora, indo Jesus a Jerusalém, chamou de parte seus doze discípulos e lhes disse:

“Vamos para Jerusalém e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sa

cerdotes e aos escribas, que o condenarão à morte — e o entregarão aos gentios, a

fim de que o tratem com zombarias, o açoitem e crucifiquem; e Ele ressuscitará ao

terceiro dia.” (MatEus, 20:17 a 19.)

7. Em seguida, tomando de parte os doze apóstolos, disse-lhes Jesus: “Eis que va

mos a Jerusalém e tudo o que os profetas escreveram acerca do Filho do Homem

vai cumprir-se — porquanto Ele será entregue aos gentios, zombarão dele, açoitá--lo-ão e lhe escarrarão no rosto. — Depois que o tiverem açoitado, matá-lo-ão e

Ele ressuscitará ao terceiro dia.”

Mas eles nada compreenderam de tudo isso; aquela linguagem lhes era oculta e

não entendiam o que Ele lhes dizia. (lucas, 18:31 a 34.)

8. Ora, tendo concluído todos esses discursos, Jesus disse a seus discípulos: “Sabeis

que a Páscoa se fará daqui a dois dias e que o Filho do Homem será entregue para

ser crucificado.”

Ao mesmo tempo, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram

na corte do sumo sacerdote chamado Caifás — e entraram a consultar-se mutua

mente, à procura de um meio de se apoderarem habilmente de Jesus e de fazê-lo

morrer. — Diziam: “É absolutamente necessário que não seja durante a festa, para

que não se levante qualquer tumulto no seio do povo.” (MatEus, 26:1 a 5.)

9. No mesmo dia, alguns fariseus vieram dizer-lhe: “Vai-te, sai deste lugar, pois

Herodes quer dar-te à morte.” — Ele respondeu: “Ide dizer a essa raposa: Ainda

tenho que expulsar os demônios e restituir a saúde aos doentes, hoje e amanhã; no

terceiro dia, serei consumado.” (lucas, 13:31 e 32.)

Perseguição aos apóstolos

10. “Guardai-vos dos homens, porquanto eles vos farão comparecer nas suas as

sembleias, e vos farão açoitar nas suas sinagogas; e sereis apresentados, por minha

causa, aos governadores e aos reis, para lhes servir de testemunhas, bem como às

nações.” (MatEus, 10:17 e 18.)

11. “Eles vos expulsarão das sinagogas e vem o tempo em que aquele que vos fizer

morrer julgará fazer coisa agradável a Deus. — Tratar-vos-ão desse modo, porque

não conhecem nem a meu Pai, nem a mim. — Ora, digo-vos estas coisas, a fim

de que, quando houver chegado o tempo, vos lembreis de que eu vo-las disse.”

(João, 16:1 a 4.)

12. “Sereis traídos e entregues aos magistrados por vossos pais e vossas mães, por

vossos irmãos, por vossos parentes, por vossos amigos e darão morte a muitos de

vós. — Sereis odiados de toda gente, por causa de meu nome. — Entretanto, não

se perderá um só cabelo de vossa cabeça. — Pela vossa paciência é que possuireis

vossas almas.” (lucas, 21:16 a 19.)

13. (Martírio de Pedro) –– “Em verdade, em verdade vos digo que, quando éreis

mais moços, vos cingíeis a vós mesmos e íeis onde queríeis; mas quando fordes

velhos, estendereis as mãos e outro vos cingirá e conduzirá onde não querereis

ir.” — Ora, Ele dizia isso para assinalar de que morte Pedro havia de glorificar a

Deus. (João, 21:18 e 19.)

Cidades impenitentes

14. Começou então a reprochar as cidades onde fizera muitos milagres, por não

terem feito penitência.

“Ai de ti, Corazim, ai de ti Betsaida, porque, se os milagres que foram feitos dentro

de vós tivessem sido feitos em Tiro e em Sídon, há muito tempo teriam elas feito

penitência com saco e cinzas. — Declaro-vos por isso que, no dia do juízo, Tiro e

Sídon serão tratadas menos rigorosamente do que vós.”

“E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás sempre até o céu? Serás abaixada até o fundo do

inferno, porque, se os milagres que foram feitos dentro de ti houvessem sido feitos

em Sodoma, esta ainda talvez subsistisse hoje. — Declaro-te por isso que, no dia

do julgamento, a cidade de Sodoma será tratada menos rigorosamente do que

tu.” (MatEus, 11:20 a 24.)

Ruína do Templo e de Jerusalém

15. Quando Jesus saiu do Templo para ir embora, seus discípulos se acercaram

dele para lhe fazerem notar a estrutura e a grandeza daquele edifício. — Ele, po

rém, lhes disse: “Vedes todas estas construções? Digo-vos, em verdade, que serão

de tal maneira destruídas, que não ficará pedra sobre pedra.” (MatEus, 24:1 e 2.)

16. Em seguida, tendo chegado perto de Jerusalém, contemplando a cidade, Ele

chorou por ela, dizendo: — “Ah! se, ao menos neste dia que ainda te é concedi

do, reconhecesses aquele que te pode proporcionar paz! Mas, agora, tudo isto se

acha oculto aos teus olhos. — Tempo virá, pois, para ti, desgraçada, em que teus

inimigos te cercarão de trincheiras, te encerrarão e apertarão de todos os lados;

— em que te deitarão por terra, a ti e aos teus filhos que estão dentro de ti, e não

te deixarão pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que Deus te

visitou.” (lucas, 19:41 a 44.)

17. “Entretanto, é preciso que eu continue a andar hoje e amanhã e o dia seguinte,

porquanto necessário é que nenhum profeta sofra morte noutra parte, que não em

Jerusalém.

Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados,

quantas vezes hei querido reunir teus filhos, como uma galinha reúne sob as asas

seus pintinhos, e não o quiseste! — Aproxima-se o tempo em que vossa casa ficará

deserta. Ora, eu, em verdade, vos digo que doravante não me tornareis a ver, até

que digais: Bendito seja o que vem em nome do Senhor.” (lucas, 13:33 a 35.)

18. “Quando virdes um exército cercando Jerusalém, sabei que está próxima a sua

destruição. — Fujam para as montanhas os que estiverem na Judeia, retirem-se os

que estiverem dentro dela e nela não entrem os que estiverem na região circun

vizinha. — Porquanto, esses dias serão os da vingança, a fim de que se cumpra

tudo o que está na Escritura. — Ai das que estiverem grávidas nesses dias, visto

que este país será acabrunhado de males e a cólera do céu cairá sobre este povo.

— Serão passados a fio de espada; serão levados em cativeiro para todas as nações

e Jerusalém será calcada aos pés pelos gentios, até que se haja preenchido o tempo

das nações.” (lucas, 21:20 a 24.)

19. (Jesus avançando para o suplício) — Ora, acompanhava-o grande multidão

de povo e de mulheres a bater nos peitos e a chorar. — Jesus, então, voltando-se,

disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e

pelos vossos filhos — porquanto virá tempo em que se dirá: ‘Ditosas as estéreis,

as entranhas que não geraram filhos e os seios que não amamentaram.’ — Todos

se porão a dizer às montanhas: ‘Caí sobre nós!’ e às colinas: ‘Cobri-nos!’ — Pois,

se tratam deste modo o lenho verde, como será tratado o lenho seco?” (lucas,

23:27 a 31.)

20. A faculdade de pressentir as coisas porvindouras é um dos atri

butos da alma e se explica pela teoria da presciência. Jesus a possuía, como

todos os outros, em grau eminente. Pôde, portanto, prever os aconteci

mentos que se seguiriam à sua morte, sem que nesse fato algo haja de

sobrenatural, pois que o vemos reproduzir-se aos nossos olhos, nas mais

vulgares condições. Não é raro que indivíduos anunciem com precisão o

instante em que morrerão; é que a alma deles, no estado de desprendimen

to, está como o homem da montanha (cap. XVI, item 1): abarca a estrada

a ser percorrida e lhe vê o termo.

21. Tanto mais assim havia de dar-se com Jesus, quanto, tendo cons

ciência da missão que viera desempenhar, sabia que a morte no suplício

forçosamente lhe seria a consequência. A visão espiritual, permanente nele,

assim como a penetração do pensamento, haviam de mostrar-lhe as cir

cunstâncias e a época fatal. Pela mesma razão podia prever a ruína do Tem

plo, a de Jerusalém, as desgraças que se iam abater sobre seus habitantes e

a dispersão dos judeus.

Maldição contra os fariseus

22. (João Batista) — Vendo muitos fariseus e saduceus que acorriam para ser

batizados, ele lhes disse: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que

há de cair sobre vós? — Produzi então dignos frutos de penitência; não penseis

em dizer de vós para convosco: ‘Temos Abraão por pai’, porquanto eu vos declaro

que Deus pode fazer que destas próprias pedras nasçam filhos a Abraão. — O

machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não der bons frutos será

cortada e lançada ao fogo.” (MatEus, 3:7 a 10.)

23. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o reino

dos céus; lá não entrais e ainda vos opondes a que outros entrem!

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que, a pretexto das vossas longas orações,

devorais as casas das viúvas; tereis por isso um julgamento mais rigoroso!

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que percorreis o mar e a terra para fazer um

prosélito e que, depois de o haverdes conseguido, o tornais duas vezes mais digno

do inferno do que vós mesmos!

Ai de vós, condutores de cegos, que dizeis: ‘Se um homem jura pelo templo, isso

nada vale; quem quer, porém, que jure pelo ouro do templo, fica obrigado a cum

prir o seu juramento!’ — Insensatos e cegos que sois! A qual se deve mais estimar:

ao ouro, ou ao templo que santifica o ouro? — Se um homem, dizeis, jura pelo

altar, isso nada vale; mas aquele que jurar pelo dom que esteja sobre o altar fica

obrigado a cumprir o seu juramento. — Cegos que sois! A qual se deve mais esti

mar, ao dom ou ao altar que santifica o dom? — Aquele, pois, que jura pelo altar

jura não só pelo altar, como por tudo o que está sobre o altar; — e aquele que jura

pelo templo jura por aquele que o habita; — e aquele que jura pelo céu jura pelo

trono de Deus e por aquele que aí se assenta.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e

do cominho e que tendes abandonado o que há de mais importante na lei, a saber:

a justiça, a misericórdia e a fé! Essas as coisas que deveis praticar, sem, contudo,

omitirdes as outras. — Guias cegos, que tendes grande cuidado em coar o que

bebeis, por medo de engolir um mosquito, e que, no entanto, engolis um camelo!

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que limpais por fora o copo e o prato e que

estais por dentro cheios de rapina e impureza! — Fariseus cegos! limpai primeiro o

interior do copo e do prato, a fim de que também o exterior fique limpo.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que vos assemelhais a sepulcros caiados,

que por fora parecem belos aos olhos dos homens, mas que, por dentro, estão

cheios de ossadas de mortos e de toda espécie de podridão! — Assim, por fora pa

receis justos, enquanto que, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que erigis túmulos aos profetas e adornais

os monumentos dos justos — e que dizeis: ‘Se existíssemos no tempo de nossos

pais, não nos teríamos associado a eles para derramar o sangue dos profetas!’ —

Acabais, pois, assim, de encher a medida de vossos pais. — Serpentes, raça de

víboras, como podereis evitar a condenação ao inferno? — Eis que vou enviar-vos

profetas, homens de sabedoria e escribas e matareis a uns, crucificareis a outros e

a outros açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade — a

fim de que recaia sobre vós todo o sangue inocente que há sido derramado na

Terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o de Zacarias, filho de Baraquias, que

matastes entre o templo e o altar! — Digo-vos, em verdade, que tudo isso virá

recair sobre esta raça que existe hoje.” (MatEus, 23:13 a 36.)

Minhas palavras não passarão

24. Então, aproximando-se dele, seus discípulos lhe disseram: “Sabes que, ouvindo o

que acabaste de dizer, os fariseus se escandalizaram?” — Ele respondeu: “Toda planta

que meu Pai celestial não plantou será arrancada. — Deixa-os; são cegos a conduzir ce

gos; se um cego guia outro cego, cairão ambos no barranco.” (MatEus, 15:12 a 14.)

25. “O Céu e a Terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.”

(MatEus, 24:35.)

26. As palavras de Jesus não passarão, porque serão verdadeiras em

todos os tempos. Será eterno o seu código de moral, porque consagra as

condições do bem que conduz o homem ao seu destino eterno. Mas terão

as suas palavras chegado até nós puras de toda ganga e de falsas interpreta

ções? Apreenderam-lhes o espírito todas as seitas cristãs? Nenhuma as terá

desviado do verdadeiro sentido, em consequência dos preconceitos e da

ignorância das leis da natureza? Nenhuma as transformou em instrumento

de dominação, para servir às suas ambições e aos seus interesses materiais,

em degrau, não para se elevar ao céu, mas para elevar-se na Terra? Terão to

das adotado como regra de proceder a prática das virtudes, prática da qual

fez Jesus condição expressa de salvação? Estarão todas isentas das apóstrofes

que Ele dirigiu aos fariseus de seu tempo? Todas, finalmente, serão, assim

em teoria, como na prática, expressão pura da sua doutrina?

Sendo uma só, e única, a verdade não pode achar-se contida em

afirmações contrárias e Jesus não pretendeu imprimir duplo sentido às suas

palavras. Se, pois, as diferentes seitas se contradizem; se umas consideram

verdadeiro o que outras condenam como heresias, impossível é que todas

estejam com a verdade. Se todas houvessem apreendido o sentido verda

deiro do ensino evangélico, todas se teriam encontrado no mesmo terreno

e não existiriam seitas.

O que não passará é o verdadeiro sentido das palavras de Jesus; o que

passará é o que os homens construíram sobre o sentido falso que deram a

essas mesmas palavras.

Tendo por missão transmitir aos homens o pensamento de Deus,

somente a sua doutrina, em toda a pureza, pode exprimir esse pensamento.

Por isso foi que Ele disse: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será

arrancada.

A pedra angular

27. “Não lestes jamais isto nas Escrituras: A pedra que os edificadores rejeitaram se

tornou a principal pedra do ângulo? Foi o que o Senhor fez e nossos olhos o veem

com admiração. — Por isso eu vos declaro que o reino de Deus vos será tirado e

será dado a um povo que dele tirará frutos. — Aquele que se deixar cair sobre essa

pedra se despedaçará e ela esmagará aquele sobre quem cair.”

Tendo ouvido de Jesus essas palavras, os príncipes dos sacerdotes reconheceram

que era deles que o mesmo Jesus falava. — Quiseram então apoderar-se dele, mas

tiveram medo do povo que o considerava um profeta. (MatEus, 21:42 a 46.)

28. A palavra de Jesus se tornou a pedra angular, isto é, a pedra de consolidação

do novo edifício da fé, erguido sobre as ruínas do antigo. Havendo os judeus, os

príncipes dos sacerdotes e os fariseus rejeitado essa pedra, ela os esmagou, do mes

mo modo que esmagará os que, depois, a desconheceram, ou lhe desfiguraram o

sentido em prol de suas ambições.

Parábola dos vinhateiros homicidas

29. Havia um pai de família que, tendo plantado uma vinha, a cercou com uma

sebe e, cavando a terra, construiu uma torre. Arrendou-a depois a uns vinhateiros

e partiu para um país distante.

Ora, estando próximo o tempo dos frutos, enviou ele seus servos aos vinhateiros,

para recolher o fruto da sua vinha. — Os vinhateiros, apoderando-se dos servos,

deram num, mataram outro e a outro apedrejaram. Enviou-lhes ele outros servos

em maior número do que os primeiros e eles os trataram da mesma maneira. —

Por fim, enviou-lhes seu próprio filho, dizendo de si para si: “Ao meu filho eles

terão algum respeito.” — Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:

“Aqui está o herdeiro; vinde, matemo-lo e ficaremos donos da sua herança.” — E,

com isso, pegaram dele, lançaram-no fora da vinha e o mataram.

Quando o dono da vinha vier, como tratará esses vinhateiros? — Responderam-lhe:

“Fará que pereçam miseravelmente esses malvados e arrendará a vinha a outros vi

nhateiros, que lhe entreguem os frutos na estação própria.” (MatEus, 21:33 a 41.)

30. O pai de família é Deus; a vinha que Ele plantou é a lei que

estabeleceu; os vinhateiros a quem arrendou a vinha são os homens que

devem ensinar e praticar a lei; os servos que enviou aos arrendatários são

os profetas que estes últimos massacraram; seu filho, enviado por último,

é Jesus, a quem eles igualmente eliminaram. Como tratará o Senhor os

seus mandatários prevaricadores da lei? Tratá-los-á como seus enviados

foram por eles tratados e chamará outros arrendatários que lhe prestem

melhores contas de sua propriedade e do proceder do seu rebanho.

Assim aconteceu com os escribas, com os príncipes dos sacerdotes

e com os fariseus; assim será, quando Ele vier de novo pedir a cada um

contas do que fez da sua doutrina; retirará toda a autoridade ao que dela

houver abusado, porquanto Ele quer que seu campo seja administrado de

acordo com a sua vontade.

Ao cabo de dezoito séculos, tendo chegado à idade viril, a huma

nidade está suficientemente madura para compreender o que o Cristo

apenas esflorou, porque então, como Ele próprio o disse, não o teriam

compreendido. Ora, a que resultado chegaram os que, durante esse longo

período, tiveram a seu cargo a educação religiosa da mesma humanida

de? Ao de verem que a indiferença sucedeu à fé e que a incredulidade se

alçou em doutrina. Em nenhuma outra época, com efeito, o ceticismo

e o espírito de negação estiveram mais espalhados em todas as classes da

sociedade.

Mas se algumas das palavras do Cristo se apresentam encobertas

pelo véu da alegoria, pelo que concerne à regra de proceder, às relações

de homem para homem, aos princípios morais a que Ele expressamente

condicionou a salvação, seus ensinos são claros, explícitos, sem ambigui

dade. (O evangelho segundo o espiritismo, cap. XV.)

Que fizeram das suas máximas de caridade, de amor e de tolerân

cia; das recomendações que fez a seus apóstolos para que convertessem os

homens pela brandura e pela persuasão; da simplicidade, da humildade, do

desinteresse e de todas as virtudes que Ele exemplificou? Em seu nome,

os homens se anatematizaram mutuamente e reciprocamente se amaldi

çoaram; estrangularam-se em nome daquele que disse: “Todos os homens

são irmãos.” Do Deus infinitamente justo, bom e misericordioso que Ele

revelou, fizeram um Deus cioso, cruel, vingativo e parcial; àquele Deus, de

paz e de verdade, sacrificaram nas fogueiras, pelas torturas e perseguições,

muito maior número de vítimas, do que as que em todos os tempos os pa

gãos sacrificaram aos seus falsos deuses; venderam-se as orações e as graças

do céu em nome daquele que expulsou do Templo os vendedores e que

disse a seus discípulos: “Dai de graça o que de graça recebestes.”

Que diria o Cristo, se viesse hoje entre nós? Se visse os que se di

zem seus representantes a ambicionar as honras, as riquezas, o poder e o

fausto dos príncipes do mundo, ao passo que Ele, mais rei do que todos

os reis da Terra, fez a sua entrada em Jerusalém montado num jumento?

Não teria o direito de dizer-lhes: “Que fizestes dos meus ensinos, vós que

incensais o bezerro de ouro, que dais a maior parte das vossas preces aos

ricos, reservando uma parte insignificante aos pobres, sem embargo de

haver eu dito: Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os pri

meiros no reino dos céus?” Mas, se Ele não está carnalmente entre nós,

está em Espírito e, como o senhor da parábola, virá pedir contas aos seus

vinhateiros do produto da sua vinha, quando chegar o tempo da colheita.

Um só rebanho e um só pastor

31. “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; é preciso que tam

bém a essas eu conduza; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e

um único pastor.” (João, 10:16.)

32. Por essas palavras, Jesus claramente anuncia que os homens

um dia se unirão por uma crença única; mas como poderá efetuar-se essa

união? Difícil parecerá isso, tendo-se em vista as diferenças que existem

entre as religiões, o antagonismo que elas alimentam entre seus adeptos,

a obstinação que manifestam em se acreditarem na posse exclusiva da

verdade. Todas querem a unidade, mas cada uma se lisonjeia de que essa

unidade se fará em seu proveito e nenhuma admite a possibilidade de

fazer qualquer concessão, no que respeita às suas crenças.

Entretanto, a unidade se fará em religião, como já tende a fazer--se socialmente, politicamente, comercialmente, pela queda das barrei

ras que separam os povos, pela assimilação dos costumes, dos usos, da

linguagem.184 Os povos do mundo inteiro já confraternizam, como os

184 N.E.: Kardec pressentia a supressão das barreiras linguísticas vinte anos antes do aparecimento do Esperanto, quando Zamenhof tinha somente sete anos. Hoje a profecia se cumpre sob nossos olhos

com o progresso constante do Esperanto.

das províncias de um mesmo império. Pressente-se essa unidade e to

dos a desejam. Ela se fará pela força das coisas, porque há de tornar-se

uma necessidade, para que se estreitem os laços da fraternidade entre as

nações; far-se-á pelo desenvolvimento da razão humana, que se tornará

apta a compreender a puerilidade de todas as dissidências; pelo progresso

das ciências, a demonstrar cada dia mais os erros materiais sobre que tais

dissidências assentam e a destacar pouco a pouco das suas fiadas as pedras

estragadas. Demolindo nas religiões o que é obra dos homens e fruto

de sua ignorância das leis da natureza, a Ciência não poderá destruir,

malgrado a opinião de alguns, o que é obra de Deus e eterna verdade.

Afastando os acessórios, ela prepara as vias para a unidade.

A fim de chegarem a esta, as religiões terão que encontrar-se num

terreno neutro, se bem que comum a todas; para isso, todas terão que fa

zer concessões e sacrifícios mais ou menos importantes, conformemente

à multiplicidade dos seus dogmas particulares. Mas, em virtude do pro

cesso de imutabilidade que todas professam, a iniciativa das concessões

não poderá partir do campo oficial; em lugar de tomarem no alto o ponto

de partida, tomá-lo-ão embaixo por iniciativa individual. Desde algum

tempo, um movimento se vem operando de descentralização, tendente a

adquirir irresistível força. O princípio da imutabilidade, que as religiões

hão sempre considerado uma égide conservadora, tornar-se-á elemento

de destruição, dado que, imobilizando-se, ao passo que a sociedade cami

nha para a frente, os cultos serão ultrapassados e depois absorvidos pela

corrente das ideias de progressão.

A imobilidade, em vez de ser uma força, torna-se uma causa de

fraqueza e de ruína para quem não acompanha o movimento geral; ela

quebra a unidade, porque os que querem avançar se separam dos que se

obstinam em permanecer parados.

No estado atual da opinião e dos conhecimentos, a religião, que

terá de congregar um dia todos os homens sob o mesmo estandarte, será

a que melhor satisfaça à razão e às legítimas aspirações do coração e do es

pírito; que não seja em nenhum ponto desmentida pela ciência positiva;

que, em vez de se imobilizar, acompanhe a humanidade em sua marcha

progressiva, sem nunca deixar que a ultrapassem; que não for nem exclu

sivista, nem intolerante; que for a emancipadora da inteligência, com o

não admitir senão a fé racional; aquela cujo código de moral seja o mais

puro, o mais lógico, o mais de harmonia com as necessidades sociais, o

mais apropriado, enfim, a fundar na Terra o reinado do Bem, pela prática

da caridade e da fraternidade universais.

O que alimenta o antagonismo entre as religiões é a ideia, generaliza

da por todas elas, de que cada uma tem o seu deus particular e a pretensão

de que este é o único verdadeiro e o mais poderoso, em luta constante

com os deuses dos outros cultos e ocupado em lhes combater a influência.

Quando elas se houverem convencido de que só existe um Deus no uni

verso e que, em definitiva, Ele é o mesmo que elas adoram sob os nomes

de Jeová, Alá ou Deus; quando se puserem de acordo sobre os atributos

essenciais da Divindade, compreenderão que, sendo um único o Ser, uma

única tem que ser a vontade suprema; estender-se-ão as mãos umas às ou

tras, como os servidores de um mesmo Mestre e os filhos de um mesmo Pai

e, assim, grande passo terão dado para a unidade.

Advento de Elias

33. Então, seus discípulos lhe perguntaram: “Por que, pois, dizem os escribas ser

preciso que, antes, venha Elias?” — Jesus lhes respondeu: “É certo que Elias tem

de vir e que restabelecerá todas as coisas.

Mas eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram; antes o trataram

como lhes aprouve. É assim que farão morrer o Filho do Homem.”

Então, seus discípulos compreenderam que era de João Batista que Ele lhes falara.

(MatEus, 17:10 a 13.)

34. Elias já voltara na pessoa de João Batista. Seu novo advento é

anunciado de modo explícito. Ora, como ele não pode voltar, senão toman

do um novo corpo, aí temos a consagração formal do princípio da plurali

dade das existências. (O evangelho segundo o espiritismo, cap. IV, item 10.)

Anunciação do Consolador

35. “Se me amais, guardai os meus mandamentos — e eu pedirei a meu Pai e Ele

vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: — O

Espírito de Verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê; vós, porém,

o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. — Mas o Conso

lador, que é o Espírito Santo, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará

todas as coisas e fará vos lembreis de tudo o que vos tenho dito.” (João, 14:15 a

17 e 26; O evangelho segundo o espiritismo, cap. VI.)

36. “Entretanto, digo-vos a verdade: Convém que eu me vá, porquanto, se eu

não me for, o Consolador não vos virá; eu, porém, me vou e vo-lo enviarei. — E,

quando ele vier, convencerá o mundo no que respeita ao pecado, à justiça e ao

juízo; — no que respeita ao pecado, por não terem acreditado em mim; — no

que respeita à justiça, porque me vou para meu Pai e não mais me vereis; no que

respeita ao juízo, porque já está julgado o príncipe deste mundo.

Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas presentemente não as podeis suportar.

Quando vier esse Espírito de Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porquanto

não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tenha escutado e vos anunciará as coisas

porvindouras.

Ele me glorificará, porque receberá do que está em mim e vo-lo anunciará.”

(João, 16:7 a 14.)

37. Esta predição, não há contestar, é uma das mais importantes,

do ponto de vista religioso, porquanto comprova, sem a possibilidade do

menor equívoco, que Jesus não disse tudo o que tinha a dizer, pela razão de

que não o teriam compreendido nem mesmo seus apóstolos, visto que a

eles é que o Mestre se dirigia. Se lhes houvesse dado instruções secretas,

os Evangelhos fariam referência a tais instruções. Ora, desde que Ele não

disse tudo a seus apóstolos, os sucessores destes não terão podido saber

mais do que eles, com relação ao que foi dito; ter-se-ão possivelmente en

ganado, quanto ao sentido das palavras do Senhor, ou dado interpretação

falsa aos seus pensamentos, muitas vezes velados sob a forma parabólica.

As religiões que se fundaram no Evangelho não podem, pois, dizer-se

possuidoras de toda a verdade, porquanto Ele, Jesus, reservou para si a

completação ulterior de seus ensinamentos. O princípio da imutabilida

de, em que elas se firmam, constitui um desmentido às próprias palavras

do Cristo.

Sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou

a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que Ele

dissera. Logo, não estava completo o seu ensino. E, ao demais, prevê não

só que ficaria esquecido, como também que seria desvirtuado o que por

Ele fora dito, visto que o Espírito de Verdade viria tudo lembrar e, de

combinação com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo

com o verdadeiro pensamento de seus ensinos.

38. Quando terá de vir esse novo revelador? É evidente que se,

na época em que Jesus falava, os homens não se achavam em estado de

compreender as coisas que lhe restavam a dizer, não seria em alguns anos

apenas que poderiam adquirir as luzes necessárias a entendê-las. Para a

inteligência de certas partes do Evangelho, excluídos os preceitos morais,

faziam-se mister conhecimentos que só o progresso das ciências facultaria

e que tinham de ser obra do tempo e de muitas gerações. Se, portanto,

o novo Messias tivesse vindo pouco tempo depois do Cristo, houvera

encontrado o terreno ainda nas mesmas condições e não teria feito mais

do que o mesmo Cristo. Ora, desde aquela época até os nossos dias, ne

nhuma grande revelação se produziu que haja completado o Evangelho

e elucidado suas partes obscuras, indício seguro de que o Enviado ainda

não aparecera.

39. Qual deverá ser esse Enviado? Dizendo: “Pedirei a meu Pai

e Ele vos enviará outro Consolador”, Jesus claramente indica que esse

Consolador não seria Ele, pois, do contrário, dissera: “Voltarei a comple

tar o que vos tenho ensinado.” Não só tal não disse, como acrescentou:

“A fim de que fique eternamente convosco e ele estará em vós.” Esta propo

sição não poderia referir-se a uma individualidade encarnada, visto que

não poderia ficar eternamente conosco, nem, ainda menos, estar em nós;

compreendemo-la, porém, muito bem com referência a uma doutrina,

a qual, com efeito, quando a tenhamos assimilado, poderá estar eterna

mente em nós. O Consolador é, pois, segundo o pensamento de Jesus, a

personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspi

rador há de ser o Espírito de Verdade.

40. O Espiritismo realiza, como ficou demonstrado (cap. I, item

30), todas as condições do Consolador que Jesus prometeu. Não é uma

doutrina individual, nem de concepção humana; ninguém pode dizer-se

seu criador. É fruto do ensino coletivo dos Espíritos, ensino a que preside

o Espírito de Verdade. Nada suprime do Evangelho: antes o completa e

elucida. Com o auxílio das novas leis que revela, conjugadas essas leis às

que a Ciência já descobrira, faz se compreenda o que era ininteligível

e se admita a possibilidade daquilo que a incredulidade considerava

inadmissível. Teve precursores e profetas, que lhe pressentiram a vinda.

Pela sua força moralizadora, ele prepara o reinado do bem na Terra.

A doutrina de Moisés, incompleta, ficou circunscrita ao povo ju

deu; a de Jesus, mais completa, se espalhou por toda a Terra, mediante

o Cristianismo, mas não converteu a todos; o Espiritismo, ainda mais

completo, com raízes em todas as crenças, converterá a humanidade.185

41. Dizendo a seus apóstolos: “Outro virá mais tarde, que vos en

sinará o que agora não posso ensinar”, proclamava Jesus a necessidade

da reencarnação. Como poderiam aqueles homens aproveitar do ensino

mais completo que ulteriormente seria ministrado; como estariam aptos

a compreendê-lo, se não tivessem de viver novamente? Jesus houvera pro

ferido uma coisa inconsequente se, de acordo com a doutrina vulgar, os

homens futuros houvessem de ser homens novos, almas saídas do nada

por ocasião do nascimento. Admita-se, ao contrário, que os apóstolos e

os homens do tempo deles tenham vivido depois; que ainda hoje revivem,

e plenamente justificada estará a promessa de Jesus. Tendo-se desenvol

vido ao contato do progresso social, a inteligência deles pode presente

mente comportar o que então não podia. Sem a reencarnação a promessa

de Jesus fora ilusória.

42. Se disserem que essa promessa se cumpriu no dia de Pente

costes, por meio da descida do Espírito Santo, poder-se-á responder que

o Espírito Santo os inspirou, que lhes desanuviou a inteligência, que

desenvolveu neles as aptidões mediúnicas destinadas a facilitar-lhes a

missão, porém que nada lhes ensinou além daquilo que Jesus já ensi

nara, porquanto, no que deixaram, nenhum vestígio se encontra de um

ensinamento especial. O Espírito Santo, pois, não realizou o que Jesus

anunciara relativamente ao Consolador; a não ser assim, os apóstolos

teriam elucidado o que, no Evangelho, permaneceu obscuro até o dia de

hoje e cuja interpretação contraditória deu origem às inúmeras seitas que

dividiram o Cristianismo desde os primeiros séculos.

185 Nota de Allan Kardec: Todas as doutrinas filosóficas e religiosas trazem o nome do seu fundador.

Diz-se: o Moisaísmo, o Cristianismo, o Maometismo, o Budismo, o Cartesianismo, o Furrierismo, o

Sansimonismo etc. A palavra Espiritismo, ao contrário, não lembra nenhuma personalidade; encerra

uma ideia geral, que ao mesmo tempo indica o caráter e o tronco multíplice da Doutrina.

Segundo advento do Cristo

43. Disse então Jesus a seus discípulos: “Se algum quiser vir nas minhas pegadas,

renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me — porquanto, aquele que quiser

salvar a vida a perderá e aquele que perder a vida por amor de mim a encontrará

de novo.

De que serviria a um homem ganhar o mundo inteiro e perder a alma? Ou por

que preço poderá o homem comprar sua alma, depois de a ter perdido? — Porque,

o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com seus anjos, e então dará a

cada um segundo as suas obras.

Digo-vos, em verdade, que alguns daqueles que aqui se encontram não so

frerão a morte, sem que tenham visto vir o Filho do homem no seu reino.”

(MatEus, 16:24 a 28.)

44. Então, levantando-se do meio da assembleia, o sumo sacerdote interrogou a

Jesus desta forma: “Nada respondes ao que estes depõem contra ti?” — Mas Jesus

se conservava em silêncio e não respondeu. Interrogou-o de novo o sumo sacerdo

te: “És o Cristo, o Filho de Deus para sempre Bendito?” — Jesus lhe respondeu:

“Eu o sou e vereis um dia o Filho do Homem assentado à direita da majestade de

Deus e vindo sobre as nuvens do céu.”

Logo o sumo sacerdote, rasgando as vestes, lhe diz: “Que necessidade temos de

mais testemunhos?” (Marcos, 16:60 a 63.)

45. Jesus anuncia o seu segundo advento, mas não diz que voltará à

Terra com um corpo carnal, nem que personificará o Consolador. Apresen

ta-se como tendo de vir em Espírito, na glória de seu Pai, a julgar o mérito

e o demérito e dar a cada um segundo as suas obras, quando os tempos

forem chegados.

Estas palavras: “Alguns há dos que aqui estão que não sofrerão a

morte sem terem visto vir o Filho do Homem no seu reinado” parecem

encerrar uma contradição, pois é incontestável que Ele não veio em vida

de nenhum daqueles que estavam presentes. Jesus, entretanto, não podia

enganar-se numa previsão daquela natureza e, sobretudo, com relação a

uma coisa contemporânea e que lhe dizia pessoalmente respeito. Há, pri

meiro, que indagar se suas palavras foram sempre reproduzidas fielmente.

É de duvidar-se, desde que se considere que Ele nada escreveu; que elas só

foram registradas depois de sua morte; que o mesmo discurso cada evan

gelista o exarou em termos diferentes, o que constitui prova evidente de

que as expressões de que eles se serviram não são textualmente as de que se

serviu Jesus. Além disso, é provável que o sentido tenha sofrido alterações

ao passar pelas traduções sucessivas.

Por outro lado, é indubitável que, se Jesus houvesse dito tudo o que

pudera dizer, Ele se teria expressado sobre todas as coisas de modo claro e

preciso, sem dar lugar a qualquer equívoco, conforme o fez com relação aos

princípios de moral, ao passo que foi obrigado a velar o seu pensamento

acerca dos assuntos que não julgou conveniente aprofundar. Persuadidos

de que a geração de que faziam parte testemunharia o que Ele anunciava,

os discípulos foram levados a interpretar o pensamento de Jesus de acordo

com aquela ideia. Assim é que redigiram do ponto de vista do presente

o que o Mestre dissera, fazendo-o de maneira mais absoluta do que Ele

próprio o teria feito. Seja como for, o fato é que as coisas não se passaram

como eles o supuseram.

46. A grande e importante lei da reencarnação foi um dos pontos

capitais que Jesus não pôde desenvolver, porque os homens do seu tem

po não se achavam suficientemente preparados para ideias dessa ordem e

para as suas consequências. Contudo, assentou o princípio da referida lei,

como o fez relativamente a tudo mais. Estudada e posta em evidência nos

dias atuais pelo Espiritismo, a lei da reencarnação constitui a chave para

o entendimento de muitas passagens do Evangelho que, sem ela, parecem

verdadeiros contrassensos.

É por meio dessa lei que se encontra a explicação racional das palavras

acima, admitidas que sejam como textuais. Uma vez que elas não podem

ser aplicadas às pessoas dos apóstolos, é evidente que se referem ao futuro

reinado do Cristo, isto é, ao tempo em que a sua doutrina, mais bem com

preendida, for lei universal. Dizendo que alguns dos ali presentes na ocasião

veriam o seu advento, Ele forçosamente se referia aos que estarão vivos de

novo nessa época. Os judeus, porém, imaginavam que lhes seria dado ver

tudo o que Jesus anunciava e tomavam ao pé da letra suas frases alegóricas.

Aliás, algumas de suas predições se realizaram no devido tempo, tais

como a ruína de Jerusalém, as desgraças que se lhe seguiram e a dispersão

dos judeus. Sua visão, porém, se projetava muito mais longe, de sorte que,

quando falava do presente, sempre aludia ao futuro.

Sinais precursores

47. Também ouvireis falar de guerra e de rumores de guerra; tratai de não vos

perturbardes, porquanto é preciso que essas coisas se deem; mas ainda não será o

fim — pois ver-se-á povo levantar-se contra povo e reino contra reino; e haverá

pestes, fomes e tremores de terra em diversos lugares — todas essas coisas serão

apenas o começo das dores. (MatEus, 24:6 a 8.)

48. Então, o irmão entregará o irmão para ser morto; os filhos se levantarão

contra seus pais e suas mães e os farão morrer. — Sereis odiados de toda a

gente por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.

(Marcos, 13:12 e 13.)

49. Quando virdes que a abominação da desolação, que foi predita pelo profeta

Daniel, está no lugar santo (que aquele que lê entenda bem o que lê); — fujam

então para as montanhas os que estiverem na Judeia;186 — não desça aquele que

estiver no telhado, para levar de sua casa qualquer coisa; — e não volte para

apanhar suas roupas aquele que estiver no campo. — Mas ai das mulheres que

estiverem grávidas ou amamentando nesses dias. — Pedi a Deus que a vossa fuga

não se dê durante o inverno, nem em dia de sábado — porquanto a aflição desse

tempo será tão grande, como ainda não houve igual desde o começo do mundo

até o presente e como nunca mais haverá. — E se esses dias não fossem abrevia

dos, nenhum homem se salvaria; mas esses dias serão abreviados em favor dos

eleitos. (MatEus, 24:15 a 22.)

50. Logo depois desses dias de aflição, o Sol se obscurecerá e a Lua deixará de dar

sua luz; as estrelas cairão do céu e as potestades dos céus serão abaladas.

Então, o sinal do Filho do Homem aparecerá no céu e todos os povos da Terra es

tarão em prantos e em gemidos e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens

do céu com grande majestade.

Ele enviará seus anjos, que farão ouvir a voz retumbante de suas trombetas e que reu

nirão seus eleitos dos quatro cantos do mundo, de uma extremidade a outra do céu.

186 Nota de Allan Kardec: Esta expressão: a abominação da desolação não só carece de sentido, como se presta ao ridículo. A tradução de Osterwald diz: “A abominação que causa a desolação”, o que é muito diferente. O sentido então se torna perfeitamente claro, porquanto se compreende que as abominações hajam de acarretar a desolação, como castigo. Quando a abominação, diz Jesus, se instalar no lugar santo, também a desolação para aí virá e isso constituirá um sinal de que estão próximos os tempos.

Aprendei uma comparação tirada da figueira. Quando seus ramos já estão tenros

e dão folhas, sabeis que está próximo o estio. — Do mesmo modo quando virdes

todas essas coisas, sabei que vem próximo o Filho do homem, que Ele se acha

como que à porta.

Digo-vos, em verdade, que esta raça não passará, sem que todas essas coisas se

tenham cumprido. (MatEus, 24:29 a 34.)

E acontecerá no advento do Filho do homem o que aconteceu ao tempo de Noé

— pois, como nos últimos tempos antes do dilúvio, os homens comiam e bebiam,

se casavam e casavam seus filhos, até o dia em que Noé entrou na arca; — e assim

como eles não conheceram o momento do dilúvio, senão quando este sobreveio

e arrebatou toda a gente, assim também será no advento do Filho do Homem.

(MatEus, 24:37 a 39.)

51. Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém o sabe, nem os anjos que estão no

céu, nem o Filho, mas somente o Pai. (Marcos, 13:32.)

52. Em verdade, em verdade vos digo: chorareis e gemereis, e o mundo se rejubila

rá; estareis em tristeza, mas a vossa tristeza se mudará em alegria. — Uma mulher,

quando dá à luz, está em dor, porque é vinda a sua hora; mas depois que ela dá

à luz um filho, não mais se lembra de todos os males que sofreu, pela alegria que

experimenta de haver posto no mundo um homem. — É assim que agora estais

em tristeza; mas, eu vos verei de novo e o vosso coração rejubilará e ninguém vos

arrebatará a vossa alegria. (João, 16:20 a 22.)

53. Levantar-se-ão muitos falsos profetas que seduzirão a muitas pessoas; — e,

porque abundará a iniquidade, a caridade de muitos esfriará; — mas aquele que

perseverar até o fim será salvo. — E este Evangelho do reino será pregado em toda

a Terra, para servir de testemunho a todas as nações. É então que o fim chegará.

(MatEus, 24:11 a 14.)

54. É evidentemente alegórico este quadro do fim dos tempos, como

a maioria dos que Jesus compunha. Pelo seu vigor, as imagens que Ele

encerra são de natureza a impressionar inteligências ainda rudes. Para to

car fortemente aquelas imaginações pouco sutis, eram necessárias pintu

ras vigorosas, de cores bem acentuadas. Ele se dirigia principalmente ao

povo, aos homens menos esclarecidos, incapazes de compreender as abs

trações metafísicas e de apanhar a delicadeza das formas. A fim de atingir

o coração, fazia-se-lhe mister falar aos olhos, com o auxílio de sinais mate

riais, e aos ouvidos, por meio da força da linguagem.

Como consequência natural daquela disposição de espírito, à supre

ma potestade, segundo a crença de então, não era possível manifestar-se,

a não ser por meio de fatos extraordinários, sobrenaturais. Quanto mais

impossíveis fossem esses fatos, tanto mais facilmente aceita era a probabi

lidade deles.

O Filho do Homem, a vir sobre nuvens, com grande majestade,

cercado de seus anjos e ao som de trombetas, lhes parecia de muito maior

imponência, do que a simples vinda de uma entidade investida apenas de

poder moral. Por isso mesmo, os judeus, que esperavam no Messias um rei

terreno, mais poderoso do que todos os outros reis, destinado a colocar--lhes a nação à frente de todas as demais e a reerguer o trono de Davi e de

Salomão, não quiseram reconhecê-lo no humilde filho de um carpinteiro,

sem autoridade material.

No entanto, aquele pobre proletário da Judeia se tornou o maior

entre os grandes; conquistou para a sua soberania maior número de rei

nos, do que os mais poderosos potentados; exclusivamente com a sua

palavra e o concurso de alguns miseráveis pescadores, revolucionou o

mundo e a Ele é que os judeus virão a dever sua reabilitação. Disse, pois,

uma verdade, quando, respondendo a esta pergunta de Pilatos: “És rei?”

respondeu: “Tu o dizes.”

55. É de notar-se que, entre os antigos, os tremores de terra e o obs

curecimento do Sol eram acessórios forçados de todos os acontecimentos

e de todos os presságios sinistros. Com eles deparamos, por ocasião da

morte de Jesus, da de César e num sem-número de outras circunstâncias

da história do paganismo. Se tais fenômenos se houvessem produzido tão

amiudadas vezes quantas são relatados, fora de ter-se por impossível que

os homens não houvessem guardado deles lembrança pela tradição. Aqui,

acrescenta-se a queda de estrelas do céu, como que a mostrar às gerações fu

turas, mais esclarecidas, que não há nisso senão uma ficção, pois que agora

se sabe que as estrelas não podem cair.

56. Entretanto, sob essas alegorias, grandes verdades se ocultam. Há,

primeiramente, a predição das calamidades de todo gênero que assolarão e

dizimarão a humanidade, calamidades decorrentes da luta suprema entre o

bem e o mal, entre a fé e a incredulidade, entre as ideias progressistas e as

ideias retrógradas. Há, em segundo lugar, a da difusão, por toda a Terra, do

Evangelho restaurado na sua pureza primitiva; depois, a do reinado do bem,

que será o da paz e da fraternidade universais, a derivar do código de moral

evangélica, posto em prática por todos os povos. Será, verdadeiramente, o

reino de Jesus, pois que Ele presidirá à sua implantação, passando os ho

mens a viver sob a égide da sua lei. Será o reinado da felicidade, porquanto

diz Ele que — “depois dos dias de aflição, virão os de alegria”.

57. Quando sucederão tais coisas? “Ninguém o sabe” diz Jesus, “nem

mesmo o Filho.” Mas, quando chegar o momento, os homens serão adverti

dos por meio de sinais precursores. Esses indícios, porém, não estarão nem

no Sol, nem nas estrelas; mostrar-se-ão no estado social e nos fenômenos

mais de ordem moral do que físicos e que, em parte, se podem deduzir das

suas alusões.

É indubitável que aquela mutação não poderia operar-se em vida

dos apóstolos, pois, do contrário, Jesus não lhe desconheceria o momen

to. Aliás, semelhante transformação não era possível se desse dentro de

apenas alguns anos. Contudo, dela lhes fala como se eles a houvessem de

presenciar; é que, com efeito, eles poderão estar reencarnados quando a

transformação se der e, até, colaborar na sua efetivação. Ele ora fala da

sorte próxima de Jerusalém, ora toma esse fato por ponto de referência ao

que ocorreria no futuro.

58. Será que, predizendo a sua segunda vinda, era o fim do mundo o

que Jesus anunciava, dizendo: “Quando o Evangelho for pregado por toda

a Terra, então é que virá o fim?”

Não é racional se suponha que Deus destrua o mundo precisamente

quando ele entre no caminho do progresso moral, pela prática dos ensinos

evangélicos. Nada, aliás, nas palavras do Cristo, indica uma destruição uni

versal que, em tais condições, não se justificaria.

Devendo a prática geral do Evangelho determinar grande melhora

no estado moral dos homens, ela, por isso mesmo, trará o reinado do bem

e acarretará a queda do mal. É, pois, o fim do mundo velho, do mundo

governado pelos preconceitos, pelo orgulho, pelo egoísmo, pelo fanatismo,

pela incredulidade, pela cupidez, por todas as paixões pecaminosas, que o

Cristo aludia, ao dizer: “Quando o Evangelho for pregado por toda a Terra,

então é que virá o fim.” Esse fim, porém, para chegar, ocasionaria uma luta

e é dessa luta que advirão os males por Ele previstos.

Vossos filhos e vossas filhas profetizarão

59. Nos últimos tempos, diz o Senhor, espalharei do meu espírito por sobre toda

a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos jovens terão visões e vos

sos velhos terão sonhos. — Nesses dias, espalharei do meu espírito sobre os meus

servidores e servidoras e eles profetizarão. (atos, 2:17 e 18; JoEl, 2:28 e 29.)

60. Se considerarmos o estado atual do mundo físico e do mundo

moral, as tendências, aspirações e pressentimentos das massas, a deca

dência das ideias antigas que em vão se debatem há um século contra as

ideias novas, não poderemos duvidar de que uma nova ordem de coisas

se prepara e que o mundo velho chega a seu termo.

Se, agora, levando em conta a forma alegórica de alguns quadros

e perscrutando o sentido profundo das palavras de Jesus, compararmos

a situação atual com os tempos por Ele descritos, como assinaladores da

era da renovação, não poderemos deixar de convir em que muitas das

suas predições se estão presentemente realizando; donde a conclusão de

que atingimos os tempos anunciados, o que confirmam, em todos os

pontos do globo, os Espíritos que se manifestam.

61. Como vimos (cap. I, item 32), coincidindo com outras cir

cunstâncias, o advento do Espiritismo realiza uma das mais importantes

predições de Jesus, pela influência que ele forçosamente tem de exercer

sobre as ideias. Ele se encontra, além disso, anunciado, nos Atos dos

Apóstolos: “Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei do meu Espí

rito sobre toda carne; vossos filhos e filhas profetizarão.”

É a predição inequívoca da vulgarização da mediunidade, que pre

sentemente se revela em indivíduos de todas as idades, de ambos os sexos

e de todas as condições; a predição, por conseguinte, da manifestação

universal dos Espíritos, pois que sem os Espíritos não haveria médiuns.

Isso, conforme está dito, acontecerá nos últimos tempos; ora, visto que não

chegamos ao fim do mundo, mas, ao contrário, à época da sua regene

ração, devemos entender aquelas palavras como indicativas dos últimos

tempos do mundo moral que chega a seu termo. (O evangelho segundo o

espiritismo, cap. VINTE E UM.)

Juízo final

62. Ora, quando o Filho do Homem vier em sua majestade, acompanhado de

todos os anjos, assentar-se-á no trono de sua glória; — e, reunidas à sua frente

todas as nações, Ele separará uns dos outros, como um pastor separa dos bodes

as ovelhas, e colocará à sua direita as ovelhas e à sua esquerda os bodes. — Então,

dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: “Vinde a mim, benditos de meu Pai

[...].” (MatEus, 25:31 a 46; O evangelho segundo o espiritismo, cap. XV.)

63. Tendo que reinar na Terra o bem, necessário é sejam dela ex

cluídos os Espíritos endurecidos no mal e que possam acarretar-lhe per

turbações. Deus permitiu que eles aí permanecessem o tempo de que

precisavam para se melhorarem; mas, chegado o momento em que, pelo

progresso moral de seus habitantes, o globo terráqueo tem de ascender

na hierarquia dos mundos, interdito será ele, como morada, a encarna

dos e desencarnados que não hajam aproveitado os ensinamentos que

uns e outros se achavam em condições de aí receber. Serão exilados para

mundos inferiores, como o foram outrora para a Terra os da raça adâ

mica, vindo substituí-los Espíritos melhores. Essa separação, a que Jesus

presidirá, é que se acha figurada por estas palavras sobre o juízo final: “Os

bons passarão à minha direita e os maus à minha esquerda.” (Cap. XI,

itens 31 e seguintes.)

64. A doutrina de um juízo final, único e universal, pondo fim

para sempre à humanidade, repugna à razão, por implicar a inatividade

de Deus, durante a eternidade que precedeu à criação da Terra e durante

a eternidade que se seguirá à sua destruição. Que utilidade teriam então o

Sol, a Lua e as estrelas que, segundo a Gênese, foram feitos para iluminar

o mundo? Causa espanto que tão imensa obra se haja produzido para tão

pouco tempo e a benefício de seres votados de antemão, em sua maioria,

aos suplícios eternos.

65. Materialmente, a ideia de um julgamento único seria, até certo

ponto, admissível para os que não procuram a razão das coisas, quando se

cria que a humanidade toda se achava concentrada na Terra e que para seus

habitantes fora feito tudo o que o universo contém. É, porém, inadmissí

vel, desde que se sabe que há milhares de milhares de mundos semelhantes,

que perpetuam as humanidades pela eternidade em fora e entre os quais a

Terra é dos menos consideráveis, simples ponto imperceptível.

Vê-se, só por este fato, que Jesus tinha razão de declarar a seus dis

cípulos: “Há muitas coisas que não vos posso dizer, porque não as com

preenderíeis”, dado que o progresso das ciências era indispensável para

uma interpretação legítima de algumas de suas palavras. Certamente, os

apóstolos, Paulo e os primeiros discípulos teriam estabelecido de modo

muito diverso alguns dogmas se tivessem os conhecimentos astronômi

cos, geológicos, físicos, químicos, fisiológicos e psicológicos que hoje

possuímos. Daí vem o ter Jesus adiado a completação de seus ensinos e

anunciado que todas as coisas haviam de ser restabelecidas.

66. Moralmente, um juízo definitivo e sem apelação não se conci

lia com a bondade infinita do Criador, que Jesus nos apresenta de con

tínuo como um bom Pai, que deixa sempre aberta uma senda para o

arrependimento e que está pronto sempre a estender os braços ao filho

pródigo. Se Jesus entendesse o juízo naquele sentido, desmentiria suas

próprias palavras.

Além disso, se o juízo final houvesse de apanhar de improviso os

homens, em meio de seus trabalhos ordinários, e grávidas as mulheres,

caberia perguntar-se com que fim Deus, que não faz coisa alguma inútil

ou injusta, faria nascessem crianças e criaria almas novas naquele mo

mento supremo, no termo fatal da humanidade. Seria para submetê-las a

julgamento logo ao saírem do ventre materno, antes de terem consciência

de si mesmas, quando, a outros, milhares de anos foram concedidos para

se inteirarem do que respeita à própria individualidade? Para que lado,

direito ou esquerdo, iriam essas almas, que ainda não são nem boas nem

más e para as quais, no entanto, todos os caminhos de ulterior progresso

se encontrariam desde então fechados, visto que a humanidade não mais

existiria? (Cap. DOIS, item 19.)

Conservem-nas os que se contentam com semelhantes crenças; es

tão no seu direito e ninguém nada tem que dizer a isso; mas, não achem

mau que nem toda gente partilhe delas.

67. O juízo, pelo processo da emigração, conforme ficou explicado

acima (item 63), é racional; funda-se na mais rigorosa justiça, visto que

conserva para o Espírito, eternamente, o seu livre-arbítrio; não constitui

privilégio para ninguém; a todas as suas criaturas, sem exceção alguma,

concede Deus igual liberdade de ação para progredirem; o próprio ani

quilamento de um mundo, acarretando a destruição do corpo, nenhuma

interrupção ocasionará à marcha progressiva do Espírito. Tais as conse

quências da pluralidade dos mundos e da pluralidade das existências.

Segundo essa interpretação, não é exata a qualificação de juízo fi

nal, pois que os Espíritos passam por análogas fieiras a cada renovação

dos mundos por eles habitados, até que atinjam certo grau de perfeição.

Não há, portanto, juízo final propriamente dito, mas juízos gerais em

todas as épocas de renovação parcial ou total da população dos mundos,

por efeito das quais se operam as grandes emigrações e imigrações de

Espíritos.

São chegados os tempos

Sinais dos tempos

1. São chegados os tempos, dizem-nos de todas as partes, marca

dos por Deus, em que grandes acontecimentos se vão dar para regene

ração da humanidade. Em que sentido se devem entender essas pala

vras proféticas? Para os incrédulos, nenhuma importância têm; aos seus

olhos, nada mais exprimem que uma crença pueril, sem fundamento.

Para a maioria dos crentes, elas apresentam qualquer coisa de místico

e de sobrenatural, parecendo-lhes prenunciadoras da subversão das leis

da natureza. São igualmente errôneas ambas essas interpretações: a pri

meira, porque envolve uma negação da Providência; a segunda, porque

tais palavras não anunciam a perturbação das leis da natureza, mas o

cumprimento dessas leis.

2. Tudo na Criação é harmonia; tudo revela uma previdência que

não se desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. Temos, pois,

que afastar, desde logo, toda ideia de capricho, por inconciliável com a

Sabedoria divina. Em segundo lugar, se a nossa época está designada para

a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha

do conjunto.

Isto posto, diremos que o nosso globo, como tudo o que existe,

esta submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela trans

formação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração

dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses

progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da ha

bitação guarda relação com o do habitante. Fisicamente, o globo terrá

queo há experimentado transformações que a Ciência tem comprovado

e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aper

feiçoados. Moralmente, a humanidade progride pelo desenvolvimento

da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao

mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das

forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua

inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comu

nicações e mais produtiva a terra.

De duas maneiras se executa esse duplo progresso: uma, lenta, gra

dual e insensível; a outra, caracterizada por mudanças bruscas, a cada

uma das quais corresponde um movimento ascensional mais rápido, que

assinala, mediante impressões bem acentuadas, os períodos progressivos

da humanidade. Esses movimentos, subordinados, quanto às particula

ridades, ao livre-arbítrio dos homens, são, de certo modo, fatais em seu

conjunto, porque estão sujeitos a leis, como os que se verificam na germi

nação, no crescimento e na maturidade das plantas. Por isso é que o mo

vimento progressivo se efetua, às vezes, de modo parcial, isto é, limitado

a uma raça ou a uma nação, doutras vezes, de modo geral.

O progresso da humanidade se cumpre, pois, em virtude de uma

lei. Ora, como todas as leis da natureza são obra eterna da sabedoria e da

presciência divinas, tudo o que é efeito dessas leis resulta da vontade de

Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade

imutável. Quando, por conseguinte, a humanidade está madura para su

bir um degrau, pode dizer-se que são chegados os tempos marcados por

Deus, como se pode dizer também que, em tal estação, eles chegam para

a maturação dos frutos e sua colheita.

3. Do fato de ser inevitável, porque é da natureza o movimento

progressivo da humanidade, não se segue que Deus lhe seja indiferente e

que, depois de ter estabelecido leis, se haja recolhido à inação, deixando

que as coisas caminhem por si sós. Sem dúvida, suas leis são eternas e

imutáveis, mas porque a sua própria vontade é eterna e constante e por

que o seu pensamento anima sem interrupção todas as coisas. Esse pen

samento, que em tudo penetra, é a força inteligente e permanente que

mantém a harmonia em tudo. Cessasse ele um só instante de atuar e o

universo seria como um relógio sem pêndulo regulador. Deus, pois, vela

incessantemente pela execução de suas leis e os Espíritos que povoam

o espaço são seus ministros, encarregados de atender aos pormenores,

dentro de atribuições que correspondem ao grau de adiantamento que

tenham alcançado.

4. O universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo incomensurá

vel, acionado por um número incontável de inteligências, e um imenso

governo em o qual cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob as

vistas do soberano Senhor, cuja vontade única mantém por toda parte a

unidade. Sob o império dessa vasta potência reguladora, tudo se move,

tudo funciona em perfeita ordem. Onde nos parece haver perturbações,

o que há são movimentos parciais e isolados, que se nos afiguram irregu

lares apenas porque circunscrita é a nossa visão. Se lhes pudéssemos abar

car o conjunto, veríamos que tais irregularidades são apenas aparentes e

que se harmonizam com o todo.

5. A humanidade tem realizado, até o presente, incontestáveis pro

gressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que

jamais haviam alcançado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do

bem-estar material. Resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: o de

fazerem que entre si reinem a caridade, a fraternidade, a solidariedade, que

lhes assegurem o bem-estar moral. Não poderiam consegui-lo nem com as

suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, restos de outra

idade, boas para certa época, suficientes para um estado transitório, mas

que, havendo dado tudo o que comportavam, seriam hoje um entrave. Já

não é somente de desenvolver a inteligência o de que os homens necessi

tam, mas de elevar o sentimento e, para isso, faz-se preciso destruir tudo

o que superexcite neles o egoísmo e o orgulho.

Tal o período em que doravante vão entrar e que marcará uma das

fases principais da vida da humanidade. Essa fase, que neste momento

se elabora, é o complemento indispensável do estado precedente, como

a idade viril o é da juventude. Ela podia, pois, ser prevista e predita de

antemão e é por isso que se diz que são chegados os tempos determinados

por Deus.

6. Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial,

de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça.

Trata-se de um movimento universal, a operar-se no sentido do progresso

moral. Uma nova ordem de coisas tende a estabelecer-se, e os homens,

que mais opostos lhe são, para ela trabalham a seu mau grado. A geração

futura, desembaraçada das escórias do velho mundo e formada de ele

mentos mais depurados, se achará possuída de ideias e de sentimentos

muito diversos dos da geração presente, que se vai a passo de gigante. O

velho mundo estará morto e apenas viverá na História, como o estão hoje

os tempos da Idade Média, com seus costumes bárbaros e suas crenças

supersticiosas.

Aliás, todos sabem quanto ainda deixa a desejar a atual ordem de

coisas. Depois de se haver, de certo modo, considerado todo o bem-estar

material, produto da inteligência, logra-se compreender que o comple

mento desse bem-estar somente pode achar-se no desenvolvimento mo

ral. Quanto mais se avança, tanto mais se sente o que falta, sem que,

entretanto, se possa ainda definir claramente o que seja: é isso efeito do

trabalho íntimo que se opera em prol da regeneração. Surgem desejos,

aspirações, que são como que o pressentimento de um estado melhor.

7. Mas uma mudança tão radical como a que se está elaborando

não pode realizar-se sem comoções. Há, inevitavelmente, luta de ideias.

Desse conflito forçosamente se originarão passageiras perturbações, até

que o terreno se ache aplanado e restabelecido o equilíbrio. É, pois, da

luta das ideias que surgirão os graves acontecimentos preditos e não de

cataclismos ou catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais fo

ram consequência do estado de formação da Terra. Hoje, não são mais as

entranhas do planeta que se agitam: são as da humanidade.

8. Se a Terra já não tem que temer os cataclismos gerais, nem por

isso deixa de estar sujeita a periódicas revoluções, cujas causas, do ponto

de vista científico, se encontram explicadas nas instruções seguintes, pro

manantes de dois Espíritos eminentes:187

“Cada corpo celeste, além das leis simples que presidem à divisão

dos dias e das noites, das estações etc., experimenta revoluções que de

mandam milhares de séculos para sua realização completa, porém que,

como as revoluções mais breves, passam por todos os períodos, desde o

de nascimento até o de um máximo de efeito, após o qual há decresci

mento, até o limite extremo, para recomeçar em seguida o percurso das

mesmas fases.

“O homem apenas apreende as fases de duração relativamente cur

ta e cuja periodicidade ele pode comprovar. Algumas, no entanto, há que

abrangem longas gerações de seres e, até, sucessões de raças, revoluções

essas cujos efeitos, conseguintemente, se lhe apresentam com caráter de

novidade e de espontaneidade, ao passo que, se seu olhar pudesse proje

tar-se para trás alguns milhares de séculos, veria, entre aqueles mesmos

efeitos e suas causas, uma correlação de que nem suspeita. Esses períodos

que, pela sua extensão relativa, confundem a imaginação dos humanos,

não são, contudo, mais do que instantes na duração eterna.

“Num mesmo sistema planetário, todos os corpos que o consti

tuem reagem uns sobre os outros; todas as influências físicas são nele so

lidárias e nem um só há, dos efeitos que designais pelo nome de grandes

perturbações, que não seja consequência da componente das influências

de todo o sistema.

“Vou mais longe: digo que os sistemas planetários reagem uns so

bre os outros, na razão da proximidade ou do afastamento resultantes

do movimento de translação deles, através das miríades de sistemas que

compõem a nossa nebulosa. Ainda vou mais longe: digo que a nossa

nebulosa, que é um como arquipélago na imensidade, tendo também

seu movimento de translação através das miríades de nebulosas, sofre a

influência das de que ela se aproxima.

“De sorte que as nebulosas reagem sobre as nebulosas, os sistemas

reagem sobre os sistemas, como os planetas reagem sobre os planetas,

como os elementos de cada planeta reagem uns sobre os outros e assim

sucessivamente até o átomo. Daí, em cada mundo, revoluções locais ou

gerais, que sê não parecem perturbações porque a brevidade da vida não

permite se lhes percebam mais do que os efeitos parciais.

“A matéria orgânica não poderia escapar a essas influências; as per

turbações que ela sofre podem, pois, alterar o estado físico dos seres vivos

e determinar algumas dessas enfermidades que atacam de modo geral

as plantas, os animais e os homens, enfermidades que, como todos os

flagelos, são, para a inteligência humana, um estimulante que a impele,

por força da necessidade, a procurar meios de os combater e a descobrir

leis da natureza.

“Mas a matéria orgânica, a seu turno, reage sobre o Espírito. Este,

pelo seu contato e sua ligação íntima com os elementos materiais, tam

bém sofre influências que lhe modificam as disposições, sem, no entanto,

privá-lo do livre-arbítrio, que lhe sobre-excitam ou atenuam a atividade

e que, pois, contribuem para o seu desenvolvimento. A efervescência que

por vezes se manifesta em toda uma população, entre os homens de uma

mesma raça, não é coisa fortuita, nem resultado de um capricho; tem sua

causa nas leis da natureza. Essa efervescência, inconsciente a princípio,

não passando de vago desejo, de aspiração indefinida por alguma coisa

melhor, de certa necessidade de mudança, traduz-se por uma surda agi

tação, depois por atos que levam às revoluções sociais, que, acreditai-o,

também têm sua periodicidade, como as revoluções físicas, pois que tudo

se encadeia. Se não tivésseis a visão espiritual limitada pelo véu da maté

ria, veríeis as correntes fluídicas que, como milhares de fios condutores,

ligam as coisas do mundo espiritual às do mundo material.

“Quando se vos diz que a humanidade chegou a um período de

transformação e que a Terra tem que se elevar na hierarquia dos mundos,

nada de místico vejais nessas palavras; vede, ao contrário, a execução da

uma das grandes leis fatais do universo, contra as quais se quebra toda a

má vontade humana.”188

Arago

9. Sim, decerto, a humanidade se transforma, como já se trans

formou noutras épocas, e cada transformação se assinala por uma crise

que é, para o gênero humano, o que são, para os indivíduos, as crises de

crescimento. Aquelas se tornam, muitas vezes, penosas, dolorosas, e arre

batam consigo as gerações e as instituições, mas, são sempre seguidas de

uma fase de progresso material e moral.

A humanidade terrestre, tendo chegado a um desses períodos de

crescimento, está em cheio, há quase um século, no trabalho da sua trans

formação, pelo que a vemos agitar-se de todos os lados, presa de uma es

pécie de febre e como que impelida por invisível força. Assim continuará,

até que se haja outra vez estabilizado em novas bases. Quem a observar,

então, achá-la-á muito mudada em seus costumes, em seu caráter, nas

suas leis, em suas crenças, numa palavra: em todo o seu estado social.

“Uma coisa que vos parecerá estranhável, mas que por isso não

deixa de ser rigorosa verdade, é que o mundo dos Espíritos, mundo que

vos rodeia, experimenta o contrachoque de todas as comoções que aba

lam o mundo dos encarnados. Digo mesmo que aquele toma parte ativa

nessas comoções. Nada tem isto de surpreendente, para quem sabe que

os Espíritos fazem corpo com a humanidade; que eles saem dela e a ela

têm de voltar, sendo, pois, natural se interessem pelos movimentos que

se operam entre os homens. Ficai, portanto, certos de que, quando uma

revolução social se produz na Terra, abala igualmente o mundo invisível,

onde todas as paixões, boas e más, se exacerbam, como entre vós. Indi

zível efervescência entra a reinar na coletividade dos Espíritos que ainda

pertencem ao vosso mundo e que aguardam o momento de a ele volver.

“À agitação dos encarnados e desencarnados se juntam às vezes, e

frequentemente mesmo, já que tudo se conjuga em a natureza, as pertur

bações dos elementos físicos. Dá-se então, durante algum tempo, verda

deira confusão geral, mas que passa como furacão, após o qual o céu volta

a estar sereno, e a humanidade, reconstituída sobre novas bases, imbuída

de novas ideias, começa a percorrer nova etapa de progresso.

“É no período que ora se inicia que o Espiritismo florescerá e dará

frutos. Trabalhais, portanto, mais para o futuro, do que para o presente.

Era, porém, necessário que esses trabalhos se preparassem antecipada

mente, porque eles traçam as sendas da regeneração, pela unificação e ra

cionalidade das crenças. Ditosos os que deles aproveitam desde já. Tantas

penas se pouparão esses, quantos forem os proveitos que deles aufiram.”

Doutor Barry

10. Do que precede resulta que, em consequência do movimento

de translação que executam no espaço, os corpos celestes exercem, uns

sobre os outros, maior ou menor influência, conforme a proximidade em

que se achem entre si e as suas respectivas posições; que essa influência

pode acarretar uma perturbação momentânea aos seus elementos cons

titutivos e modificar as condições de vitalidade dos seus habitantes; que

a regularidade dos movimentos determina a volta periódica das mesmas

causas e dos mesmos efeitos; que, se demasiado curta é a duração de

certos períodos para que os homens os apreciem, outros veem passar

gerações e raças que deles não se apercebem e às quais se afigura normal

o estado de coisas que observam. Ao contrário, as gerações contemporâ

neas da transição lhe sofrem o contrachoque e tudo lhes parece fora das

leis ordinárias. Essas gerações veem uma causa sobrenatural, maravilhosa,

miraculosa no que, em realidade, mais não é do que a execução das leis

da natureza.

Se, pelo encadeamento e a solidariedade das causas e dos efeitos, os

períodos de renovação moral da humanidade coincidem, como tudo leva

a crer, com as revoluções físicas do globo, podem os referidos períodos

ser acompanhados ou precedidos de fenômenos naturais, insólitos para

os que com eles não se acham familiarizados, de meteoros que parecem

estranhos, de recrudescência e intensificação desusadas dos flagelos des

truidores, que não são nem causa, nem presságios sobrenaturais, mas

uma consequência do movimento geral que se opera no mundo físico e

no mundo moral.

Anunciando a época de renovação que se havia de abrir para a

humanidade e determinar o fim do velho mundo, a Jesus, pois, foi lícito

dizer que ela se assinalaria por fenômenos extraordinários, tremores de

terra, flagelos diversos, sinais no céu, que mais não são do que meteoros,

sem ab-rogação das leis naturais. O vulgo, porém, ignorante, viu nessas

palavras a predição de fatos miraculosos.189

11. A previsão dos movimentos progressivos da humanidade nada

apresenta de surpreendente, quando feita por seres desmaterializados,

que veem o fim a que tendem todas as coisas, tendo alguns deles co

nhecimento direto do pensamento de Deus. Pelos movimentos parciais,

esses seres veem em que época poderá operar-se um movimento geral,

do mesmo modo que o homem pode calcular de antemão o tempo que

uma árvore levará para dar frutos, do mesmo modo que os astrônomos

calculam a época de um fenômeno astronômico, pelo tempo que um

astro gasta para efetuar a sua revolução.

189 Nota de Allan Kardec: A terrível epidemia que, de 1866 a 1868, dizimou a população da Ilha

Maurício, teve a precedê-la tão extraordinária e tão abundante chuva de estrelas cadentes, em

novembro de 1866, que aterrorizou os habitantes daquela ilha. A partir desse momento, a doença,

que reinava desde alguns meses de forma muito benigna, se transformou em verdadeiro flagelo

devastador. Aquele fora bem um sinal no céu e talvez nesse sentido é que se deva entender a frase

— estrelas caindo do céu, de que fala o Evangelho, como um dos sinais dos tempos. (Pormenores

sobre a epidemia da Ilha Maurício: Revista espírita, julho de 1867, e novembro de 1868.)

12. A humanidade é um ser coletivo em quem se operam as mes

mas revoluções morais por que passa todo ser individual, com a diferença

de que umas se realizam de ano em ano e as outras de século em século.

Acompanhe-se a humanidade em suas evoluções através dos tempos e

ver-se-á a vida das diversas raças marcada por períodos que dão a cada

época uma fisionomia especial.190

13. De duas maneiras se opera, como já o dissemos, a marcha pro

gressiva da humanidade: uma, gradual, lenta, imperceptível, se se con

siderarem as épocas consecutivas, a traduzir-se por sucessivas melhoras

nos costumes, nas leis, nos usos, melhoras que só com a continuação se

podem perceber, como as mudanças que as correntes de água ocasionam

na superfície do globo; a outra, por movimentos relativamente bruscos,

semelhantes aos de uma torrente que, rompendo os diques que a conti

nham, transpõe nalguns anos o espaço que levaria séculos a percorrer. É,

então, um cataclismo moral que traga em breves instantes as instituições

do passado e ao qual sobrevém uma nova ordem de coisas que pouco a

pouco se estabiliza, à medida que se restabelece a calma, e que acaba por

se tornar definitiva.

Àquele que viva bastante para abranger com a vista as duas vertentes

da nova fase, parecerá que um mundo novo surgiu das ruínas do antigo.

O caráter, os costumes, os usos, tudo está mudado. É que, com efeito,

surgiram homens novos, ou, melhor, regenerados. As ideias, que a ge

ração que se extinguiu levou consigo, cederam lugar a ideias novas que

desabrocham com a geração que se ergue.

14. Tornada adulta, a humanidade tem novas necessidades, as

pirações mais vastas e mais elevadas; compreende o vazio com que foi

embalada, a insuficiência de suas instituições para lhe dar felicidade; já

não encontra, no estado das coisas, as satisfações legítimas a que se sente

com direito. Despoja-se, em consequência, das faixas infantis e se lança,

impelida por irresistível força, para as margens desconhecidas, em busca

de novos horizontes menos limitados.

É a um desses períodos de transformação, ou, se o preferirem, de

crescimento moral, que ora chega a humanidade. Da adolescência chega ao

estado viril. O passado já não pode bastar às suas novas aspirações, às suas

novas necessidades; ela já não pode ser conduzida pelos mesmos métodos;

não mais se deixa levar por ilusões, nem fantasmagorias; sua razão ama

durecida reclama alimentos mais substanciosos. É demasiado efêmero o

presente; ela sente que mais amplo é o seu destino e que a vida corpórea é

excessivamente restrita para encerrá-lo inteiramente. Por isso, mergulha o

olhar no passado e no futuro, a fim de descobrir num ou noutro o mistério

da sua existência e de adquirir uma consoladora certeza.

E é no momento em que ela se encontra muito apertada na esfera

material, em que transbordante se encontra de vida intelectual, em que o

sentimento da espiritualidade lhe desabrocha no seio, que homens que se

dizem filósofos pretendem encher o vazio com as doutrinas do niilismo e

do materialismo! Singular aberração! Esses mesmos homens, que inten

tam impelir para a frente a humanidade, se esforçam por circunscrevê-la

no acanhado círculo da matéria, donde ela anseia por escapar-se. Velam--lhe o aspecto da vida infinita e lhe dizem, apontando para o túmulo: Nec plus ultra!

15. Quem quer que haja meditado sobre o Espiritismo e suas con

sequências e não o circunscreva à produção de alguns fenômenos terá

compreendido que ele abre à humanidade uma estrada nova e lhe des

venda os horizontes do infinito. Iniciando-a nos mistérios do mundo in

visível, mostra-lhe o seu verdadeiro papel na criação, papel perpetuamente

ativo, tanto no estado espiritual, como no estado corporal. O homem já

não caminha às cegas: sabe donde vem, para onde vai e por que está na

Terra. O futuro se lhe revela em sua realidade, despojado dos prejuízos da

ignorância e da superstição. Já não se trata de uma vaga esperança, mas

de uma verdade palpável, tão certa como a sucessão do dia e da noite.

Ele sabe que o seu ser não se acha limitado a alguns instantes de uma

existência transitória; que a vida espiritual não se interrompe por efeito

da morte; que já viveu e tornará a viver e que nada se perde do que haja

ganho em perfeição; em suas existências anteriores depara com a razão do

que é hoje e reconhece que: do que ele é hoje, qual se fez a si mesmo, poderá

deduzir o que virá a ser um dia.

16. Com a ideia de que a atividade e a cooperação individuais na

obra geral da civilização se limitam à vida presente, que, antes, a criatu

ra nada foi e nada será depois, em que interessa ao homem o progresso

ulterior da humanidade? Que lhe importa que no futuro os povos sejam

mais bem governados, mais ditosos, mais esclarecidos, melhores uns para

com os outros? Não fica perdido para ele todo o progresso, pois que deste

nenhum proveito tirará? De que lhe serve trabalhar para os que hão de

vir depois, se nunca lhe será dado conhecê-los, se os seus pósteros serão

criaturas novas, que pouco depois voltarão por sua vez ao nada? Sob o

domínio da negação do futuro individual, tudo forçosamente se ames

quinha às insignificantes proporções do momento e da personalidade.

Entretanto, que amplitude, ao contrário, dá ao pensamento do ho

mem a certeza da perpetuidade do seu ser espiritual! Que de mais racio

nal, de mais grandioso, de mais digno do Criador do que a lei segundo a

qual a vida espiritual e a vida corpórea são apenas dois modos de existên

cia, que se alternam para a realização do progresso! Que de mais justo há

e de mais consolador do que a ideia de estarem os mesmos seres a progre

dir incessantemente, primeiro, pelas gerações de um mesmo mundo, de

mundo em mundo depois, até a perfeição, sem solução de continuidade!

Todas as ações têm, então, uma finalidade, porquanto, trabalhando para

todos, cada um trabalha para si e reciprocamente, de sorte que nunca se

podem considerar infecundos nem o progresso individual, nem o pro

gresso coletivo. De ambos esses progressos aproveitarão as gerações e as

individualidades porvindouras, que outras não virão a ser senão as gera

ções e as individualidades passadas, em mais alto grau de adiantamento.

17. A fraternidade será a pedra angular da nova ordem social; mas,

não há fraternidade real, sólida, efetiva, senão assente em base inabalável

e essa base é a fé, não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam

com os tempos e os povos e que mutuamente se apedrejam, porquanto,

anatematizando-se uns aos outros, alimentam o antagonismo, mas a fé

nos princípios fundamentais que toda a gente pode aceitar e aceitará:

Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinito, a perpetuidade das

relações entre os seres. Quando todos os homens estiverem convencidos de

que Deus é o mesmo para todos; de que esse Deus, soberanamente justo

e bom, nada de injusto pode querer; que não dele, porém dos homens

vem o mal, todos se considerarão filhos do mesmo Pai e se estenderão as

mãos uns aos outros.

Essa a fé que o Espiritismo faculta e que doravante será o eixo em

torno do qual girará o gênero humano, quaisquer que sejam os cultos e

as crenças particulares.

18. O progresso intelectual realizado até o presente, nas mais largas

proporções, constitui um grande passo e marca uma primeira fase no

avanço geral da humanidade; impotente, porém, ele é para regenerá-la.

Enquanto o orgulho e o egoísmo o dominarem, o homem se servirá da

sua inteligência e dos seus conhecimentos para satisfazer às suas paixões

e aos seus interesses pessoais, razão por que os aplica em aperfeiçoar os

meios de prejudicar os seus semelhantes e de os destruir.

19. Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a feli

cidade na Terra, refreando as paixões más; somente esse progresso pode

fazer que entre os homens reinem a concórdia, a paz, a fraternidade.

Será ele que deitará por terra as barreiras que separam os povos,

que fará caiam os preconceitos de casta e se calem os antagonismos de

seitas, ensinando os homens a se considerarem irmãos que têm por de

ver auxiliarem-se mutuamente e não destinados a viver à custa uns dos

outros.

Será ainda o progresso moral que, secundado então pelo da inteli

gência, confundirá os homens numa mesma crença fundada nas verdades

eternas, não sujeitas a controvérsias e, em consequência, aceitáveis por

todos.

A unidade de crença será o laço mais forte, o fundamento mais

sólido da fraternidade universal, obstada, desde todos os tempos pelos

antagonismos religiosos que dividem os povos e as famílias, que fazem

sejam uns, os dissidentes, vistos, pelos outros, como inimigos a serem

evitados, combatidos, exterminados, em vez de irmãos a serem amados.

20. Semelhante estado de coisas pressupõe uma mudança radical

no sentimento das massas, um progresso geral que não se podia realizar

senão fora do círculo das ideias acanhadas e corriqueiras que fomentam

o egoísmo. Em diversas épocas, homens de escol procuraram impelir a

humanidade por esse caminho; mas, ainda muito jovem, ela se conservou

surda e os ensinamentos que eles ministraram foram como a boa semente

caída no pedregulho.

Hoje, a humanidade está madura para lançar o olhar a alturas que

nunca tentou divisar, a fim de nutrir-se de ideias mais amplas e com

preender o que antes não compreendia.

A geração que desaparece levará consigo seus erros e prejuízos; a

geração que surge, retemperada em fonte mais pura, imbuída de ideias

mais sãs, imprimirá ao mundo ascensional movimento, no sentido do

progresso moral que assinalará a nova fase da evolução humana.

21. Essa fase já se revela por sinais inequívocos, por tentativas

de reformas úteis e que começam a encontrar eco. Assim é que vemos

fundar-se uma imensidade de instituições protetoras, civilizadoras e

emancipadoras, sob o influxo e por iniciativa de homens evidentemente

predestinados à obra da regeneração; que as leis penais se vão apresentan

do dia a dia impregnadas de sentimentos mais humanos. Enfraquecem--se os preconceitos de raça, os povos entram a considerar-se membros

de uma grande família; pela uniformidade e facilidade dos meios de

realizarem suas transações, eles suprimem as barreiras que os separavam

e de todos os pontos do mundo reúnem-se em comícios universais, para

as justas pacíficas da inteligência.

Falta, porém, a essas reformas uma base que permita se desenvol

vam, completem e consolidem; falta uma predisposição moral mais ge

neralizada, para fazer que elas frutifiquem e que as massas as acolham.

Ainda aí há um sinal característico da época, porque há o prelúdio do

que se efetuará em mais larga escala, à proporção que o terreno se for

tornando mais favorável.

22. Outro sinal não menos característico do período em que entra

mos encontra-se na reação que se opera no sentido das ideias espiritualis

tas; na repulsão instintiva que se manifesta contra as ideias materialistas.

O espírito de incredulidade, que se apoderara das massas, ignorantes ou

esclarecidas, e as levava a rejeitar com a forma a substância mesma de

toda crença, parece ter sido um sono, a cujo despertar se sente a neces

sidade de respirar um ar mais vivificante. Involuntariamente, lá onde o

vácuo se fizera, procura-se alguma coisa, um ponto de apoio.

23. Se supusermos possuída desses sentimentos a maioria dos ho

mens, poderemos facilmente imaginar as modificações que daí decorre

rão para as relações sociais; todos terão por divisa: caridade, fraternidade,

benevolência para com todos, tolerância para todas as crenças. É a meta

para que tende evidentemente a humanidade; esse o objeto de suas as

pirações, de seus desejos, sem que, entretanto, ela perceba claramente

por que meio as há de realizar. Ensaia, tateia, mas é detida por muitas

resistências ativas, ou pela força de inércia dos preconceitos, das cren

ças estacionárias e refratárias ao progresso. Faz-se-lhe mister vencer tais

resistências e essa será a obra da nova geração. Quem acompanhar o

curso atual das coisas reconhecerá que tudo parece predestinado a lhe

abrir caminho. Ela terá por si a dupla força do número e das ideias e, de

acréscimo, a experiência do passado.

24. A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as

ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que hou

ver chegado. Avançando para o mesmo alvo e realizando seus objetivos,

o Espiritismo se encontrará com ela no mesmo terreno. Aos homens

progressistas se deparará nas ideias espíritas poderosa alavanca e o Es

piritismo achará, nos novos homens, espíritos inteiramente dispostos a

acolhê-lo. Dado esse estado de coisas, que poderão fazer os que enten

dam de opor-se-lhe?

25. O Espiritismo não cria a renovação social; a madureza da hu

manidade é que fará dessa renovação uma necessidade. Pelo seu poder

moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas

vistas, pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é mais

apto, do que qualquer outra doutrina, a secundar o movimento de rege

neração; por isso, é ele contemporâneo desse movimento. Surgiu na hora

em que podia ser de utilidade, visto que também para ele os tempos são

chegados. Se viera mais cedo, teria esbarrado em obstáculos insuperá

veis; houvera inevitavelmente sucumbido, porque, satisfeitos com o que

tinham, os homens ainda não sentiriam falta do que ele lhes traz. Hoje,

nascido com as ideias que fermentam, encontra preparado o terreno para

recebê-lo. Os espíritos cansados da dúvida e da incerteza, horrorizados

com o abismo que se lhes abre à frente, o acolhem como âncora de salva

ção e consolação suprema.

26. Grande, por certo, é ainda o número dos retardatários; mas,

que podem eles contra a onda que se alteia, senão atirar-lhe algumas

pedras? Essa onda é a geração que surge, ao passo que eles se somem

com a geração que vai desaparecendo todos os dias a passos largos. Até

lá, porém, eles defenderão palmo a palmo o terreno. Haverá, portanto,

uma luta inevitável, mas luta desigual, porque é a do passado decrépito,

a cair em frangalhos, contra o futuro juvenil. Será a luta da estagnação

contra o progresso, da criatura contra a vontade do Criador, uma vez que

chegados são os tempos por Ele determinados.

A geração nova

27. Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que somen

te a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que somente

ao bem se dediquem. Havendo chegado o tempo, grande emigração se

verifica dos que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda não

tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo dignos do planeta

transformado, serão excluídos, porque, senão, lhe ocasionariam de novo

perturbação e confusão e constituiriam obstáculo ao progresso. Irão ex

piar o endurecimento de seus corações, uns em mundos inferiores, ou

tros em raças terrestres ainda atrasadas, equivalentes a mundos daquela

ordem, aos quais levarão os conhecimentos que hajam adquirido, tendo

por missão fazê-las avançar. Substituí-los-ão Espíritos melhores, que fa

rão reinem em seu seio a justiça, a paz e a fraternidade.

A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por

meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual de

saparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que

haja mudança alguma na ordem natural das coisas.

Tudo, pois, se processará exteriormente, como sói acontecer, com

a única, mas capital diferença de que uma parte dos Espíritos que encar

navam na Terra aí não mais tornarão a encarnar. Em cada criança que

nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela

encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem.

Muito menos, pois, se trata de uma nova geração corpórea, do que

de uma nova geração de Espíritos. Sem dúvida, neste sentido é que Jesus

entendia as coisas, quando declarava: “Digo-vos, em verdade, que esta ge

ração não passará sem que estes fatos tenham ocorrido.” Assim, decep

cionados ficarão os que contem ver a transformação operar-se por efeitos

sobrenaturais e maravilhosos.192

28. A época atual é de transição; confundem-se os elementos das

duas gerações. Colocados no ponto intermédio, assistimos à partida de

uma e à chegada da outra, já se assinalando cada uma, no mundo, pelos

caracteres que lhes são peculiares.

Têm ideias e pontos de vista opostos as duas gerações que se su

cedem. Pela natureza das disposições morais, porém, sobretudo das

disposições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir a qual das duas

pertence cada indivíduo.

Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se

distingue por inteligência e razão geralmente precoces, juntas ao sen

timento inato do bem e a crenças espiritualistas, o que constitui sinal

indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Não se comporá

exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas dos que, já

tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as ideias pro

gressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração.

O que, ao contrário, distingue os Espíritos atrasados é, em pri

meiro lugar, a revolta contra Deus, pelo se negarem a reconhecer qual

quer poder superior aos poderes humanos; a propensão instintiva para as

paixões degradantes, para os sentimentos antifraternos de egoísmo, de

orgulho, de inveja, de ciúme; enfim, o apego a tudo o que é material: a

sensualidade, a cupidez, a avareza.

Desses vícios é que a Terra tem de ser expurgada pelo afastamento

dos que se obstinam em não emendar-se; porque são incompatíveis com

o reinado da fraternidade e porque o contato com eles constituirá sempre

um sofrimento para os homens de bem. Quando a Terra se achar livre

deles, os homens caminharão sem óbices para o futuro melhor que lhes

está reservado, mesmo neste mundo, por prêmio de seus esforços e de sua

perseverança, enquanto esperem que uma depuração mais completa lhes

abra o acesso aos mundos superiores.

29. Não se deve entender que por meio dessa emigração de Espí

ritos sejam expulsos da Terra e relegados para mundos inferiores todos

os Espíritos retardatários. Muitos, ao contrário, aí voltarão, porquanto

muitos há que o são porque cederam ao arrastamento das circunstâncias

e do exemplo. Nesses, a casca é pior do que o cerne. Uma vez subtraídos

à influência da matéria e dos prejuízos do mundo corporal, eles, em sua

maioria, verão as coisas de maneira inteiramente diversa daquela por que

as viam quando em vida, conforme os múltiplos casos que conhecemos.

Para isso, têm a auxiliá-los Espíritos benévolos que por eles se interes

sam e se dão pressa em esclarecê-los e em lhes mostrar quão falso era o

caminho que seguiam. Nós mesmos, pelas nossas preces e exortações,

podemos concorrer para que eles se melhorem, visto que entre mortos e

vivos há perpétua solidariedade.

É muito simples o modo por que se opera a transformação, sendo,

como se vê, todo ele de ordem moral, sem se afastar em nada das leis da

natureza.

30. Sejam os que componham a nova geração Espíritos melhores,

ou Espíritos antigos que se melhoraram, o resultado é o mesmo. Desde

que trazem disposições melhores, há sempre uma renovação. Assim, se

gundo suas disposições naturais, os Espíritos encarnados formam duas

categorias: de um lado, os retardatários, que partem; de outro, os pro

gressistas, que chegam. O estado dos costumes e da sociedade estará,

portanto, no seio de um povo, de uma raça, ou do mundo inteiro, em

relação com aquela das duas categorias que preponderar.

31. Uma comparação vulgar ainda melhor dará a compreender o

que se passa nessa circunstância. Figuremos um regimento composto na

sua maioria de homens turbulentos e indisciplinados, os quais ocasiona

rão nele constantes desordens que a lei penal terá por vezes dificuldades

em reprimir. Esses homens são os mais fortes, porque mais numerosos

do que os outros. Eles se amparam, animam e estimulam pelo exemplo.

Os poucos bons nenhuma influência exercem; seus conselhos são des

prezados; sofrem com a companhia dos outros, que os achincalham e

maltratam. Não é essa uma imagem da sociedade atual?

Suponhamos que esses homens são retirados um a um, dez a dez,

cem a cem, do regimento e substituídos gradativamente por iguais nú

meros de bons soldados, mesmo por alguns dos que, já tendo sido expul

sos, se corrigiram. Ao cabo de algum tempo, existirá o mesmo regimento,

mas transformado. A boa ordem terá sucedido à desordem.

32. As grandes partidas coletivas, entretanto, não têm por único

fim ativar as saídas; têm igualmente o de transformar mais rapidamen

te o espírito da massa, livrando-a das más influências e o de dar maior

ascendente às ideias novas.

Por estarem muitos, apesar de suas imperfeições, maduros para a

transformação, é que muitos partem, a fim de apenas se retemperarem

em fonte mais pura. Enquanto se conservassem no mesmo meio e sob as

mesmas influências, persistiriam nas suas opiniões e nas suas maneiras de

apreciar as coisas. Uma estada no mundo dos Espíritos bastará para lhes

descerrar os olhos, por isso que aí veem o que não podiam ver na Terra. O

incrédulo, o fanático, o absolutista, poderão, conseguintemente, voltar

com ideias inatas de fé, tolerância e liberdade. Ao regressarem, acharão

mudadas as coisas e experimentarão a influência do novo meio em que

houverem nascido. Longe de se oporem às novas ideias, constituir-se-ão

seus auxiliares.

33. A regeneração da humanidade, portanto, não exige absolu

tamente a renovação integral dos Espíritos: basta uma modificação em

suas disposições morais. Essa modificação se opera em todos quantos lhe

estão predispostos, desde que sejam subtraídos à influência perniciosa

do mundo. Assim, nem sempre os que voltam são outros Espíritos; são

com frequência os mesmos Espíritos, mas pensando e sentindo de outra

maneira.

Quando insulado e individual, esse melhoramento passa desper

cebido e nenhuma influência ostensiva alcança sobre o mundo. Muito

outro é o efeito, quando a melhora se produz simultaneamente sobre

grandes massas, porque, então, conforme as proporções que assuma,

numa geração, pode modificar profundamente as ideias de um povo ou

de uma raça.

É o que quase sempre se nota depois dos grandes choques que di

zimam as populações. Os flagelos destruidores apenas destroem corpos,

não atingem o Espírito; ativam o movimento de vaivém entre o mundo

corporal e o mundo espiritual e, por conseguinte, o movimento progres

sivo dos Espíritos encarnados e desencarnados. É de notar-se que em

todas as épocas da História, às grandes crises sociais se seguiu uma era de

progresso.

34. Opera-se presentemente um desses movimentos gerais, des

tinados a realizar uma remodelação da humanidade. A multiplicidade

das causas de destruição constitui sinal característico dos tempos, visto

que elas apressarão a eclosão dos novos germens. São as folhas que caem

no outono e às quais sucedem outras folhas cheias de vida, porquanto a

humanidade tem suas estações, como os indivíduos têm suas várias ida

des. As folhas mortas da humanidade caem batidas pelas rajadas e pelos

golpes de vento, porém, para renascerem mais vivazes sob o mesmo sopro

de vida, que não se extingue, mas se purifica.

35. Para o materialista, os flagelos destruidores são calamidades

carentes de compensação, sem resultados aproveitáveis, pois que, na opi

nião deles, os aludidos flagelos aniquilam os seres para sempre. Para aquele,

porém, que sabe que a morte unicamente destrói o envoltório, tais flage

los não acarretam as mesmas consequências e não lhe causam o mínimo

pavor; ele lhes compreende o objetivo e não ignora que os homens não

perdem mais por morrerem juntos, do que por morrerem isolados, dado

que, duma forma ou doutra, a isso hão de todos sempre chegar.

Os incrédulos rirão destas coisas e as qualificarão de quiméricas;

mas, digam o que disserem, não fugirão à lei comum; cairão a seu turno,

como os outros, e, então, que lhes acontecerá? Eles dizem: Nada! Vive

rão, no entanto, a despeito de si próprios e se verão, um dia, forçados a

abrir os olhos.