É ainda sob o golpe da dor profunda que nos causou a prematura
partida do fundador da Doutrina Espírita, que nos abalançamos a uma
tarefa, simples e fácil para suas mãos sábias e experientes, mas cujo peso
e gravidade nos esmagariam, se não contássemos com o auxílio eficaz dos
Espíritos bons e com a indulgência dos nossos leitores.
Quem, dentre nós, poderia, sem ser tachado de presunçoso, lisonjear-se
de possuir o espírito de método e organização de que se mostram iluminados
todos os trabalhos do mestre? Só a sua pujante inteligência podia concentrar
tantos materiais diversos, triturá-los e transformá-los, para os espalhar em se
guida, como orvalho benfazejo, sobre as almas desejosas de conhecer e de amar.
Incisivo, conciso, profundo, sabia agradar e fazer-se compreendido
numa linguagem simples e elevada, ao mesmo tempo, tão distanciada do
estilo familiar quanto das obscuridades da metafísica.
Multiplicando-se incessantemente, pudera até agora bastar a tudo.
Entretanto, o cotidiano alargamento de suas relações e o contínuo desen
volvimento do Espiritismo lhe faziam sentir a necessidade de reunir em
torno de si alguns auxiliares inteligentes e preparava simultaneamente a
nova organização da Doutrina e de seus labores, quando nos deixou, para
ir, num mundo melhor, receber a sanção da missão que desempenhara e
coletar elementos para uma nova obra de devotamente e sacrifício.
Era sozinho!... Chamar-nos-emos legião e, por muito fracos e inex
perientes que sejamos, nutrimos a convicção íntima de que nos conserva
remos à altura da situação, se, partindo dos princípios estabelecidos e de
incontestável evidência, nos consagrarmos a executar, tanto quanto nos
seja possível e de acordo com as necessidades do momento, os projetos que
ele pretendia realizar no futuro.
Enquanto nos mantivermos nas suas pegadas e todos os de boa von
tade se unirem, num esforço comum pelo progresso e pela regeneração
intelectual e moral da Humanidade, conosco estará o Espírito do grande
filósofo a nos secundar com a sua influência poderosa, dado lhe seja pos
sível suprir à nossa insuficiência e nos possamos mostrar dignos do seu
concurso, dedicando-nos à obra com a mesma abnegação e a mesma since
ridade que ele, embora sem tanta ciência e inteligência.
Em sua bandeira, inscrevera o mestre estas palavras: Trabalho, soli
dariedade, tolerância. Sejamos, como ele, infatigáveis; sejamos, acordemen
te com os seus anseios, tolerantes e solidários e não temamos seguir-lhe o
exemplo, reconsiderando, quantas vezes forem precisas, os princípios ain
da controvertidos. Apelemos ao concurso e às luzes de todos. Tentemos
avançar, antes com segurança e certeza do que com rapidez, e não ficarão
infrutíferos os nossos esforços, se, como estamos persuadidos, e seremos os
primeiros a dar disso exemplo, cada um cuidar de cumprir o seu dever, pon
do de lado todas as questões pessoais, a fim de contribuir para o bem geral.
Sob auspícios mais favoráveis não poderíamos entrar na nova fase que se abre para o Espiritismo, do que dando a conhecer aos nossos leitores, num rápido escorço, o que foi, durante toda a sua vida, o homem íntegro e honrado, o sábio inteligente e fecundo, cuja memória se transmi
tirá aos séculos vindouros com a auréola dos benfeitores da Humanidade.
Nascido em Lyon, a 3 de outubro de 1804, de uma família antiga
que se distinguiu na magistratura e na advocacia, Allan Kardec (Hippolyte
Léon Denizard Rivail) não seguiu essas carreiras. Desde a primeira juventu
de, sentiu-se inclinado ao estudo das Ciências e da Filosofia.
Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdun (Suíça), tornou-se um
dos mais eminentes discípulos desse célebre professor e um dos zelosos
propagandistas do seu sistema de educação, que tão grande influência exer
ceu sobre a reforma do ensino na França e na Alemanha.
Dotado de notável inteligência e atraído para o ensino, pelo seu ca
ráter e pelas suas aptidões especiais, já aos 14 anos ensinava o que sabia
àqueles dos seus condiscípulos que haviam aprendido menos do que ele.
Foi nessa escola que lhe desabrocharam as ideias que mais tarde o coloca
riam na classe dos homens progressistas e dos livres-pensadores.
Nascido sob a religião católica, mas educado num país protestante,
os atos de intolerância que por isso teve de suportar, no tocante a essa
circunstância, cedo o levaram a conceber a ideia de uma reforma religiosa,
na qual trabalhou em silêncio durante longos anos com o intuito de alcan
çar a unificação das crenças. Faltava-lhe, porém, o elemento indispensável
à solução desse grande problema.
O Espiritismo veio, a seu tempo, imprimir-lhe especial direção aos
trabalhos.
Concluídos seus estudos, voltou para a França. Conhecendo a fundo a língua alemã, traduziu para a Alemanha diferentes obras de educação e de
moral e, o que é muito característico, as obras de Fénelon, que o tinham
seduzido de modo particular.
Era membro de várias sociedades sábias, entre outras, da Academia
Real de Arras, que, em o concurso de 1831, lhe premiou uma notável me
mória sobre a seguinte questão: Qual o sistema de estudos mais de harmonia
com as necessidades da época?
De 1835 a 1840, fundou, em sua casa, à rua de Sèvres, cursos gra
tuitos de Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia etc., empresa
digna de encômios em todos os tempos, mas, sobretudo, numa época em
que só um número muito reduzido de inteligências ousava enveredar por
esse caminho.
Preocupado sempre com o tornar atraentes e interessantes os siste
mas de educação, inventou, ao mesmo tempo, um método engenhoso de
ensinar a contar e um quadro mnemônico da História de França, tendo
por objetivo fixar na memória as datas dos acontecimentos de maior relevo
e as descobertas que celebrizaram cada reinado.
Entre as suas numerosas obras de educação, citaremos as seguin
tes: Plano proposto para melhoramento da instrução pública (1828); Curso
prático e teórico de Aritmética, segundo o método de Pestalozzi, para uso
dos professores e das mães de família (1824);1 Gramática francesa clássica
(1831); Manual dos exames para os títulos de capacidade; Soluções racionais
das questões e problemas de aritmética e de geometria (1846); Catecismo gra
matical da língua francesa (1848); Programa dos cursos usuais de química,
física, astronomia, fisiologia, que professava no Liceu Polimático; Ditados
normais dos exames da municipalidade e da Sorbonne, seguidos de Ditados
especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849), obra muito apreciada na
época do seu aparecimento e da qual ainda recentemente eram tiradas
novas edições.
Antes que o Espiritismo lhe popularizasse o pseudônimo de Allan
Kardec, já ele se ilustrara, como se vê, por meio de trabalhos de natureza
muito diferente, porém tendo todos, como objetivo, esclarecer as massas e
prendê-las melhor às respectivas famílias e países.
Pelo ano de 1855,2 posta em foco a questão das manifestações dos
Espíritos, Allan Kardec se entregou a observações perseverantes sobre esse
fenômeno, cogitando principalmente de lhe deduzir as consequências fi
losóficas. Entreviu, desde logo, o princípio de novas Leis Naturais: as que
regem as relações entre o mundo visível e o Mundo Invisível. Reconheceu,
na ação deste último, uma das forças da Natureza, cujo conhecimento
haveria de lançar luz sobre uma imensidade de problemas tidos por insolú
veis, e lhe compreendeu o alcance, do ponto de vista religioso.
Suas obras principais sobre esta matéria são: O livro dos espíritos,
referente à parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu a 18 de abril de
1857; O livro dos médiuns, relativo à parte experimental e científica (jan.
1861); O evangelho segundo o espiritismo, concernente à parte moral (abr.
1864); O céu e o inferno, ou A justiça de Deus segundo o espiritismo (agosto
de 1865); A gênese, os milagres e as predições (janeiro de 1868); a Revista
Espírita: Jornal de estudos psicológicos, periódico mensal começado a 1o
de janeiro de 1858. Fundou em Paris, a 1o de abril de 1858, a primeira so
ciedade espírita regularmente constituída, sob a denominação de Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas, cujo fim exclusivo era o estudo de quanto
possa contribuir para o progresso da nova ciência. Allan Kardec se defen
deu, com inteiro fundamento, de coisa alguma haver escrito debaixo da
influência de ideias preconcebidas ou sistemáticas. Homem de caráter frio
e calmo, observou os fatos e de suas observações deduziu as leis que os
regem. Foi o primeiro a apresentar a teoria relativa a tais fatos e a formar
com eles um corpo de doutrina, metódico e regular.
Demonstrando que os fatos erroneamente qualificados de sobrena
turais se acham submetidos a leis, ele os incluiu na ordem dos fenômenos
da Natureza, destruindo assim o último refúgio do maravilhoso e um dos
elementos da superstição.
Durante os primeiros anos em que se tratou de fenômenos espíritas,
estes constituíram antes objeto de curiosidade do que de meditações sérias.
O livro dos espíritos fez que o assunto fosse considerado sob aspecto muito
diverso. Abandonaram-se as mesas girantes, que tinham sido apenas um
prelúdio, e começou-se a atentar na Doutrina, que abrange todas as ques
tões de interesse para a Humanidade.
Data do aparecimento de O livro dos espíritos a fundação do Espi
ritismo que, até então, só contara com elementos esparsos, sem coorde
nação, e cujo alcance nem toda gente pudera apreender. A partir daquele
momento, a Doutrina prendeu a atenção de homens sérios e tomou rápido
desenvolvimento. Em poucos anos, aquelas ideias conquistaram numero
sos aderentes em todas as camadas sociais e em todos os países. Esse êxito
sem precedentes decorreu sem dúvida da simpatia que tais ideias desper
taram, mas também é devido, em grande parte, à clareza com que foram
expostas e que é um dos característicos dos escritos de Allan Kardec.
“Evitando as fórmulas abstratas da Metafísica, ele soube fazer que
todos o lessem sem fadiga, condição essencial à vulgarização de uma
ideia. Sobre todos os pontos controversos, sua argumentação, de cerrada
lógica, poucas ensanchas oferece à refutação e predispõe à convicção. As
provas materiais que o Espiritismo apresenta da existência da alma e da
vida futura tendem a destruir as ideias materialistas e panteístas. Um dos
princípios mais fecundos dessa Doutrina e que deriva do precedente é o
da pluralidade das existências, já entrevisto por uma multidão de filósofos
antigos e modernos e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles
Fourier, Eugène Sue e outros. Conservara-se, todavia, em estado de hi
pótese e de sistema, enquanto o Espiritismo lhe demonstra a realidade e
prova que nesse princípio reside um dos atributos essenciais da Huma
nidade. Dele promana a explicação de todas as aparentes anomalias da
vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais,
facultando ao homem saber donde vem, para onde vai, para que fim se
acha na Terra e por que aí sofre.
As ideias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos nas vidas
anteriores; a marcha dos povos e a da Humanidade, pela ação dos homens
dos tempos idos e que revivem, depois de terem progredido; as simpatias e
antipatias, pela natureza das relações anteriores. Essas relações, que religam
a grande família humana de todas as épocas, dão por base, aos grandes
princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de solidariedade
universal, as próprias Leis da Natureza, e não mais uma simples teoria.
“Em vez do postulado: Fora da Igreja não há salvação, que alimenta a
separação e a animosidade entre as diferentes seitas religiosas e que há feito
correr tanto sangue, o Espiritismo tem como divisa: Fora da Caridade não
há salvação, isto é, a igualdade entre os homens perante Deus, a tolerância,
a liberdade de consciência e a benevolência mútua.
Em vez da fé cega, que anula a liberdade de pensar, ele diz: Fé inabalável só o é
a que pode encarar face a face a razão, em todas as épocas da Humanidade. À fé,
uma base se faz necessária e essa base é a inteligência perfeita daquilo em que se
tem de crer. Para crer, não basta ver, é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega
já não é para este século. É precisamente ao dogma da fé cega que se deve o ser hoje
tão grande o número de incrédulos, porque ela quer impor-se e exige a abolição
de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio (O
evangelho segundo o espiritismo).
Trabalhador infatigável, sempre o primeiro a tomar da obra e o últi
mo a deixá-la, Allan Kardec sucumbiu, a 31 de março de 1869, quando se
preparava para uma mudança de local, imposta pela extensão considerável
de suas múltiplas ocupações. Diversas obras que ele estava quase a termi
nar, ou que aguardavam oportunidade para vir a lume, demonstrarão um
dia, ainda mais, a extensão e o poder das suas concepções.
Morreu conforme viveu: trabalhando. Sofria, desde longos anos,
de uma enfermidade do coração, que só podia ser combatida por meio
do repouso intelectual e pequena atividade material. Consagrado, po
rém, todo inteiro à sua obra, recusava-se a tudo o que pudesse absorver
um só que fosse de seus instantes, à custa das suas ocupações prediletas.
Deu-se com ele o que se dá com todas as almas de forte têmpera: a lâ
mina gastou a bainha.
O corpo se lhe entorpecia e se recusava aos serviços que o Espírito
lhe reclamava, enquanto este último, cada vez mais vivo, mais enérgico,
mais fecundo, ia sempre alargando o círculo de sua atividade.
Nessa luta desigual não podia a matéria resistir eternamente. Acabou
sendo vencida: rompeu-se o aneurisma e Allan Kardec caiu fulminado.
Um homem houve de menos na Terra, mas um grande nome tomava lugar
entre os que ilustraram este século; um grande Espírito fora retemperar-se
no Infinito, onde todos os que ele consolara e esclarecera lhe aguardavam
impacientes a volta!
“A morte”, dizia, “faz pouco tempo, redobra os seus golpes nas filei
ras ilustres!... A quem virá ela agora libertar?”
Ele foi, como tantos outros, recobrar-se no Espaço, procurar elemen
tos novos para restaurar o seu organismo gasto por uma vida de incessantes
labores. Partiu com os que serão os fanais da nova geração, para voltar em
breve com eles a continuar e acabar a obra deixada em dedicadas mãos.
O homem já aqui não está; a alma, porém, permanecerá entre nós.
Será um protetor seguro, uma luz a mais, um trabalhador incansável que
as falanges do Espaço conquistaram. Como na Terra, sem ferir a quem
quer que seja, ele fará que cada um lhe ouça os conselhos oportunos;
abrandará o zelo prematuro dos ardorosos, amparará os sinceros e os de
sinteressados e estimulará os tíbios. Vê agora e sabe tudo o que ainda há
pouco previa! Já não está sujeito às incertezas, nem aos desfalecimentos
e nos fará partilhar da sua convicção, fazendo-nos tocar com o dedo a
meta, apontando-nos o caminho, naquela linguagem clara, precisa, que o
tornou aureolado nos anais literários.
Já não existe o homem, repetimo-lo. Entretanto, Allan Kardec é
imortal e a sua memória, seus trabalhos, seu Espírito estarão sempre com
os que empunharem forte e vigorosamente o estandarte que ele soube sem
pre fazer respeitado.
Uma individualidade pujante constituiu a obra. Era o guia e o fanal
de todos. Na Terra, a obra substituirá o obreiro. Os crentes não se congre
garão em torno de Allan Kardec; congregar-se-ão em torno do Espiritismo,
tal como ele o estruturou e, com os seus conselhos, sua influência, avan
çaremos, a passos firmes, para as fases ditosas prometidas à Humanidade
regenerada.
Revista espíRita, maio 1863
Profissão de fé espírita raciocinada
1 – Deus
1. Há um Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.
A prova da existência de Deus temo-la neste axioma: Não há efeito
sem causa. Vemos constantemente uma imensidade de efeitos, cuja causa
não está na Humanidade, pois que a Humanidade é impotente para pro
duzi-los, ou, sequer, para os explicar. A causa está acima da Humanidade.
É a essa causa que se chama Deus, Jeová, Alá, Brahma, Fo-Hi, Grande
Espírito etc.
Tais efeitos absolutamente não se produzem ao acaso, fortuitamente
e em desordem. Desde a organização do mais pequenino inseto e da mais
insignificante semente, até a lei que rege os mundos que circulam no es
paço, tudo atesta uma ideia diretora, uma combinação, uma previdência,
uma solicitude que ultrapassam todas as combinações humanas. A causa é,
pois, soberanamente inteligente.
2. Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente
justo e bom.
Deus é eterno. Se tivesse tido começo, alguma coisa houvera exis
tido antes dele, ou Ele teria saído do nada, ou, então, um ser anterior o
teria criado. É assim que, degrau a degrau, remontamos ao infinito na
eternidade.
É imutável. Se estivesse sujeito à mudança, nenhuma estabilidade
teriam as leis que regem o Universo.
É imaterial. Sua natureza difere de tudo o a que chamamos matéria,
pois, do contrário, Ele estaria sujeito às flutuações e transformações da
matéria e, então, já não seria imutável.
É único. Se houvesse muitos deuses, haveria muitas vontades e, nesse
caso, não haveria unidade de vistas, nem unidade de poder na ordenação
do Universo.
É onipotente, porque é único. Se Ele não dispusesse de poder soberano,
alguma coisa ou alguém haveria mais poderoso do que Ele; não teria feito
todas as coisas e as que Ele não houvesse feito seriam obra de outro deus.
É soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das Leis Di
vinas se revela nas mais mínimas coisas como nas maiores e essa sabedoria
não permite se duvide nem da sua justiça, nem da sua bondade.
3. Deus é infinito em todas as suas perfeições.
Se supuséssemos imperfeito um só dos atributos de Deus, se lhe
tirássemos a menor parcela de eternidade, de imutabilidade, de imateria
lidade, de unidade, de onipotência, de justiça e de bondade, poderíamos
imaginar um ser que possuísse o que lhe faltasse, e esse ser, mais perfeito
do que ele, é que seria Deus.
2 – A AlmA
4. Há no homem um princípio inteligente a que se chama ALMA ou ESPÍ
RITO, independente da matéria, e que lhe dá o senso moral e a faculdade de pensar.
Se o pensamento fosse propriedade da matéria, teríamos a matéria
bruta a pensar. Ora, como ninguém nunca viu a matéria inerte dotada de
faculdades intelectuais; como, quando o corpo morre, não mais pensa,
forçoso é se conclua que a alma independe da matéria e que os órgãos não
passam de instrumentos com que o homem manifesta seu pensamento.
5. As doutrinas materialistas são incompatíveis com a moral e subversi
vas da ordem social.
Se, conforme pretendem os materialistas, o pensamento fosse segre
gado pelo cérebro, como a bílis o é pelo fígado, seguir-se-ia que, morto o
corpo, a inteligência do homem e todas as suas qualidades morais recairiam
no nada; que os nossos parentes, os amigos e todos quantos houvessem
tido a nossa afeição estariam irremissivelmente perdidos; que o homem de
gênio careceria de mérito, pois que somente ao acaso da sua organização
seria devedor das faculdades transcendentes que revela; que entre o imbecil
e o sábio apenas haveria a diferença de mais ou menos substância cerebral.
As consequências dessa doutrina seriam que, nada podendo esperar
para depois desta vida, nenhum interesse teria o homem em fazer o bem;
que muito natural seria procurasse ele a maior soma possível de gozos,
mesmo à custa dos outros; que o sentimento mais racional seria o egoís
mo; que aquele que fosse persistentemente desgraçado na Terra, nada de
melhor teria a fazer do que se matar, porquanto, destinado a mergulhar no
nada, isso não lhe seria nem pior, nem melhor, ao passo que de tal forma
abreviaria seus sofrimentos.
A doutrina materialista é, pois, a sanção do egoísmo, origem de to
dos os vícios; a negação da caridade — origem de todas as virtudes e base
da ordem social — e seria ainda a justificação do suicídio.
6. O Espiritismo prova a existência da alma.
Provam a existência da alma os atos inteligentes do homem, por isso
que eles hão de ter uma causa inteligente, e não uma causa inerte. Que ela
independe da matéria está demonstrado de modo patente pelos fenômenos
espíritas que a mostram agindo por si mesma e o está, sobretudo, pelo seu
insulamento durante a vida, o que lhe permite manifestar-se, pensar e agir
sem o corpo.
Pode-se dizer que, se a Química separou os elementos da água; se,
dessa maneira, pôs a descoberto as propriedades desses elementos e se
pode, à sua vontade, fazer e desfazer um corpo composto, o Espiritismo,
igualmente, pode isolar os dois elementos constitutivos do homem: o Es
pírito e a matéria, a alma e o corpo, separá-los e reuni-los à vontade, o que
não deixa dúvida sobre a independência de uma e outro.
7. A alma do homem sobrevive ao corpo e conserva a sua individualidade após a morte deste.
Se a alma não sobrevivesse ao corpo, o homem só teria por perspec
tiva o nada, do mesmo modo que se a faculdade de pensar fosse produto
da matéria. Se não conservasse a sua individualidade, isto é, se se dissolves
se no reservatório comum chamado o grande todo, como as gotas d’água
no oceano, seria igualmente, para o homem, o nada do pensamento e as
consequências seriam absolutamente as mesmas que se não houvesse alma.
A sobrevivência desta à morte do corpo está provada de maneira
irrecusável e até certo ponto palpável pelas comunicações espíritas. Sua
individualidade é demonstrada pelo caráter e pelas qualidades peculiares
a cada um. Essas qualidades, que distinguem umas das outras as almas,
lhes constituem a personalidade. Se as almas se confundissem num todo
comum, uniformes seriam as suas qualidades.
Além dessas provas inteligentes, há também a prova material das
manifestações visuais, ou aparições, tão frequentes e autênticas, que não é
lícito pô-las em dúvida.
8. A alma do homem é ditosa ou desgraçada depois da morte, conforme
haja feito o bem ou o mal durante a vida.
Admitindo-se um Deus soberanamente justo, não se pode admitir que
as almas tenham todas a mesma sorte. Se a posição futura do criminoso
houvesse de ser a mesma que a do homem virtuoso, excluída estaria toda a
utilidade da prática do bem. Ora, supor que Deus não faz diferença entre o
que pratica o bem e o que pratica o mal fora negar-lhe a justiça. Nem sempre
recebendo punição o mal e recompensa o bem, durante a vida terrena, deve--se concluir daí que a justiça será feita depois, sem o que Deus não seria justo.
As penas e os gozos futuros estão, ademais, provados pelas comunica
ções que os homens podem estabelecer com as almas dos que aqui viveram
e que vêm descrever o estado em que se encontram, ditoso ou infeliz, a
natureza de suas alegrias ou de seus sofrimentos e enumerar-lhes as causas.
9. Deus, alma, sobrevivência e individualidade da alma após a morte
do corpo, penas e recompensas futuras constituem os princípios fundamentais
de todas as religiões.
O Espiritismo junta às provas morais desses princípios as provas ma
teriais dos fatos e da experimentação e corta cerce os sofismas do materia
lismo. Em presença dos fatos, cessa toda razão de ser da incredulidade. É
assim que o Espiritismo restitui a fé aos que a tenham perdido e dissipa as
dúvidas dos incrédulos.
3 – Criação
10. Deus é o Criador de todas as coisas.
Esta proposição é corolário da prova da existência de Deus (no 1).
11. O princípio das coisas reside nos arcanos de Deus.
Profissão de fé espírita raciocinada
Tudo diz que Deus é o autor de todas as coisas, mas como e quando
as criou Ele? A matéria existe, como Ele, de toda a eternidade? Igno
ramo-lo. Acerca de tudo o que Ele não julgou conveniente revelar-nos,
apenas se podem erguer sistemas mais ou menos prováveis. Dos efeitos
que observamos, podemos remontar a algumas causas. Há, porém, um li
mite que não nos é possível transpor. Querer ir além é, simultaneamente,
perder tempo e cair em erro.
12. O homem tem por guia, na pesquisa do desconhecido, os atributos
de Deus.
Para a investigação dos mistérios que nos é permitido sondar por meio
do raciocínio, há um critério certo, um guia infalível: os atributos de Deus.
Desde que se admite que Deus é eterno, imutável, bom; que é infini
to nas suas perfeições, toda doutrina ou teoria, científica ou religiosa, que
tenda a lhe tirar qualquer parcela de um só dos seus atributos, será necessa
riamente falsa, pois que tende à negação da divindade mesma.
13. Os mundos materiais tiveram começo e terão fim.
Quer a matéria exista de toda a eternidade, como Deus, quer tenha
sido criada numa época qualquer, é evidente, segundo o que se passa co
tidianamente às nossas vistas, que são temporárias as transformações da
matéria e que dessas transformações resultam diferentes corpos, que inces
santemente nascem e se destroem.
Como produtos que são da aglomeração e da transformação da ma
téria, os diversos mundos hão de ter tido, como todos os corpos materiais,
começo e terão fim, na conformidade de leis que desconhecemos. Pode a
Ciência, até certo ponto, formular as leis que lhes presidiram à formação e
remontar ao estado primitivo deles. Toda teoria filosófica em contradição
com os fatos que a Ciência comprova é necessariamente falsa, a menos que
prove estar em erro a Ciência.
14. Criando os mundos materiais, também criou Deus seres inteli
gentes a que damos o nome de Espíritos.
15. Desconhecemos a origem e o modo de criação dos Espíritos;
apenas sabemos que eles são criados simples e ignorantes, isto é, sem ciên
cia e sem conhecimento do bem e do mal, porém perfectíveis e com igual
aptidão para tudo adquirirem e tudo conhecerem com o tempo. A prin
cípio, eles se encontram numa espécie de infância, carentes de vontade
própria e sem consciência perfeita de sua existência.
16. À medida que o Espírito se distancia do ponto de partida, desen
volvem-se-lhe as ideias, como na criança, e, com as ideias, o livre-arbítrio,
isto é, a liberdade de fazer ou não fazer, de seguir este ou aquele caminho
para seu adiantamento, o que é um dos atributos essenciais do Espírito.
17. O objetivo final de todos os Espíritos consiste em alcançar a
perfeição de que é suscetível a criatura. O resultado dessa perfeição está no
gozo da suprema felicidade que lhe é consequente e a que chegam mais ou
menos rapidamente, conforme o uso que fazem do livre-arbítrio.
18. Os Espíritos são os agentes da potência divina; constituem a
força inteligente da Natureza e concorrem para a execução dos desígnios
do Criador, tendo em vista a manutenção da harmonia geral do Universo
e das leis imutáveis que regem a Criação.
19. Para colaborarem, como agentes da potência divina na obra
dos mundos materiais, os Espíritos revestem transitoriamente um corpo
material.
Os Espíritos encarnados constituem a Humanidade. A alma do ho
mem é um Espírito encarnado.
20. A vida espiritual é a vida normal do Espírito: é eterna; a vida cor
poral é transitória e passageira: não é mais do que um instante na eternidade.
21. A encarnação dos Espíritos está nas Leis da Natureza; é neces
sária ao adiantamento deles e à execução das obras de Deus. Pelo traba
lho, que a existência corpórea lhes impõe, eles aperfeiçoam a inteligência
e adquirem, cumprindo a Lei de Deus, os méritos que os conduzirão à
felicidade eterna.
Daí resulta que, concorrendo para a obra geral da Criação, os Espí
ritos trabalham pelo seu próprio progresso.
22. O aperfeiçoamento do Espírito é fruto do seu próprio labor; ele
avança na razão da sua maior ou menor atividade ou da sua boa vontade
em adquirir as qualidades que lhe falecem.
23. Não podendo o Espírito, numa só existência, adquirir todas as
qualidades morais e intelectuais que hão de conduzi-lo à meta, ele chega
a essa aquisição por meio de uma série de existências, em cada uma das
quais dá alguns passos para a frente na senda do progresso e se escoima de
algumas imperfeições.
Profissão de fé espírita raciocinada
24. Para cada nova existência, o Espírito traz o que ganhou em in
teligência e em moralidade nas suas existências pretéritas, assim como os
germens das imperfeições de que ainda se não expungiu.
25. Quando um Espírito empregou mal uma existência, isto é,
quando nenhum progresso realizou na senda do bem, essa existência lhe
resulta sem proveito, ele tem que a recomeçar em condições mais ou me
nos penosas, por efeito da sua negligência ou má vontade.
26. Devendo o Espírito, em cada existência corpórea, adquirir algu
ma coisa no sentido do bem e despojar-se de alguma coisa no sentido do
mal, segue-se que, após certo número de encarnações, ele se acha depurado
e alcança o estado de puro Espírito.
27. É indeterminado o número das existências corpóreas; depende
da vontade do Espírito reduzir esse número, trabalhando ativamente pelo
seu progresso moral.
28. No intervalo das existências corpóreas, o Espírito é errante e vive
a vida espiritual. A erraticidade carece de duração determinada.
29. Quando, num mundo, os Espíritos têm realizado a soma de pro
gresso que o estado desse mundo lhe faculta efetuar, deixam-no e passam a
encarnar noutro mais adiantado, onde entesouram novos conhecimentos e
assim por diante, até que, de nenhuma utilidade mais lhe sendo a encarna
ção em corpos materiais, entram a viver exclusivamente a vida espiritual,
em que também progridem noutro sentido e por outros meios. Galgando
o ponto culminante do progresso, gozam da felicidade suprema. Admi
tidos nos Conselhos do Onipotente, identificam-se com o pensamento
deste e se tornam seus mensageiros, seus ministros diretos para o governo
dos mundos, tendo sob suas ordens os outros Espíritos ainda em diferentes
graus de adiantamento.
Manifestações dos Espíritos
Caráter e consequências religiosas das manifestações dos Espíritos
1. As almas ou Espíritos dos que aqui viveram constituem o Mundo
Invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. Daí resulta que,
desde que há homens, há Espíritos e que, se estes últimos têm o poder de
manifestar-se, devem tê-lo tido em todas as épocas. É o que comprovam a
História e as religiões de todos os povos. Entretanto, nestes últimos tem
pos, as manifestações dos Espíritos assumiram grande desenvolvimento e
tomaram um caráter mais acentuado de autenticidade, porque estava nos
desígnios da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do mate
rialismo, por meio de provas evidentes, permitindo que os que deixaram a
Terra viessem atestar sua existência e revelar-nos a situação ditosa ou infeliz
em que se encontravam.
2. Vivendo o mundo visível em meio do Mundo Invisível, com o
qual se acha em contato perpétuo, segue-se que eles reagem incessante
mente um sobre o outro, reação que constitui a origem de uma imensida
de de fenômenos, que foram considerados sobrenaturais, por se não lhes
conhecer a causa.
A ação do Mundo Invisível sobre o mundo visível e reciprocamente é
uma das leis, uma das forças da Natureza, tão necessária à harmonia univer
sal, quanto a lei de atração. Se ela cessasse, a harmonia estaria perturbada,
conforme sucede num maquinismo, donde se suprima uma peça. Derivan
do de uma Lei da Natureza semelhante ação, nada têm, evidentemente, de
sobrenaturais os fenômenos que ela opera. Pareciam tais, porque desco
nhecida era a causa que os produzia. O mesmo se deu com alguns efeitos
da eletricidade, da luz etc.
3. Todas as religiões têm por base a existência de Deus e por fim o
futuro do homem depois da morte. Esse futuro, que é de capital interes
se para a criatura, se acha necessariamente ligado à existência do Mundo
Invisível, pelo que o conhecimento desse mundo há constituído, desde
todos os tempos, objeto de suas pesquisas e preocupações. A atenção do
homem foi naturalmente atraída pelos fenômenos que tendem a provar
a existência daquele mundo e nenhuns houve jamais tão concludentes,
como os das manifestações dos Espíritos por meio das quais os próprios
habitantes de tal mundo revelaram suas existências. Por isso foi que esses
fenômenos se tornaram básicos para a maior parte dos dogmas de todas
as religiões.
4. Tendo instintivamente a intuição de uma potência superior, o ho
mem foi sempre levado, em todos os tempos, a atribuir à ação direta dessa
potência os fenômenos cuja causa lhe era desconhecida e que passavam, a
seus olhos, por prodígios e efeitos sobrenaturais. Os incrédulos consideram
essa tendência uma consequência da predileção que tem o homem pelo
maravilhoso; não procuram, porém, a origem desse amor do maravilho
so. Ela, no entanto, reside muito simplesmente na intuição mal definida
de uma ordem de coisas extracorpóreas. Com o progresso da Ciência e o
conhecimento das Leis da Natureza, esses fenômenos passaram pouco a
pouco do domínio do maravilhoso para o dos efeitos naturais, de sorte que
o que outrora parecia sobrenatural já não o é hoje e o que ainda o é hoje
não mais o será amanhã.
Os fenômenos decorrentes da manifestação dos Espíritos fornece
ram, pela sua natureza mesma, larga contribuição aos fatos reputados ma
ravilhosos. Tempo, contudo, viria em que, conhecida a lei que os rege, eles
entrariam, como os outros, na ordem dos fatos naturais. Esse tempo che
gou e o Espiritismo, dando a conhecer essa Lei, apresentou a chave para a
interpretação da maior parte das passagens incompreendidas das escrituras
sagradas que a isso aludem e dos fatos tidos por miraculosos.
5. O caráter do fato miraculoso é ser insólito e excepcional; é uma
derrogação das Leis da Natureza. Desde, pois, que um fenômeno se re
produz em condições idênticas, segue-se que está submetido a uma lei e,
então, já não é miraculoso. Pode essa lei ser desconhecida, mas, por isso,
não é menos real a sua existência. O tempo se encarregará de revelá-la.
O movimento do sol, ou, melhor, da Terra, sustado por Josué, seria
um verdadeiro milagre, porquanto implicaria a derrogação manifesta da
lei que rege o movimento dos astros. Mas se o fato pudesse reproduzir-se
em dadas condições, é que estaria sujeito a uma lei e deixaria, conseguin
temente, de ser milagre.
6. É errôneo assustar-se a Igreja com o fato de restringir-se o círculo
dos fatos miraculosos, porquanto Deus prova melhor o seu poder e a sua
grandeza por meio do admirável conjunto de suas leis do que por algumas
infrações dessas mesmas leis. E tanto mais errôneo é o seu temor, quanto
ela atribui ao demônio o poder de operar prodígios, donde resultaria que,
podendo interromper o curso das Leis Divinas, o demônio seria tão po
deroso quanto Deus. Ousar dizer que o Espírito do mal pode suspender o
curso das Leis de Deus é blasfêmia e sacrilégio.
Longe de perder qualquer coisa de sua autoridade por passarem os
fatos qualificados de milagrosos à ordem dos fatos naturais, a Religião so
mente pode ganhar com isso; primeiramente, porque, se um fato é tido fal
samente por miraculoso, há aí um erro e a Religião somente pode perder,
se se apoiar num erro, sobretudo se se obstinasse em considerar milagre o
que não o seja; em segundo lugar, porque, não admitindo a possibilidade
dos milagres, muitas pessoas negam os fatos qualificados de milagrosos,
negando, conseguintemente, a Religião que em tais fatos se estriba. Se, ao
contrário, a possibilidade dos mesmos fatos for demonstrada como efeitos
das Leis Naturais, já não haverá cabimento para que alguém os repila, nem
repila a Religião que os proclame.
7. Nenhuma crença religiosa, por lhes ser contrária, pode infirmar os
fatos que a Ciência comprova de modo peremptório. Não pode a Religião
deixar de ganhar em autoridade acompanhando o progresso dos conheci
mentos científicos, como não pode deixar de perder, se se conservar retar
datária, ou a protestar contra esses mesmos conhecimentos em nome dos
seus dogmas, visto que nenhum dogma poderá prevalecer contra as Leis da
Natureza, ou anulá-las. Um dogma que se funde na negação de uma Lei da
Natureza não pode exprimir a verdade.
O Espiritismo, que se funda no conhecimento de leis até agora in
compreendidas, não vem destruir os fatos religiosos, porém sancioná-los,
dando-lhes uma explicação racional. Vem destruir apenas as falsas conse
quências que deles foram deduzidas, em virtude da ignorância daquelas
leis, ou de as terem interpretado erradamente.
8. A ignorância das Leis da Natureza, com o levar o homem a pro
curar causas fantásticas para fenômenos que ele não compreende, é a
origem das ideias supersticiosas, algumas das quais são devidas aos fenô
menos espíritas mal compreendidos. O conhecimento das leis que regem
os fenômenos destrói essas ideias supersticiosas, encaminhando as coisas
para a realidade e demonstrando, com relação a elas, o limite do possível
e do impossível.
I – O perispírito como princípio das manifestações
9. Os Espíritos, como já foi dito, têm um corpo fluídico, a que se dá
o nome de perispírito. Sua substância é haurida do fluido universal ou cós
mico, que o forma e alimenta, como o ar forma e alimenta o corpo material
do homem. O perispírito é mais ou menos etéreo, conforme os mundos e o
grau de depuração do Espírito. Nos mundos e nos Espíritos inferiores, ele é
de natureza mais grosseira e se aproxima muito da matéria bruta.
10. Durante a encarnação, o Espírito conserva o seu perispírito,
sendo-lhe o corpo apenas um segundo envoltório mais grosseiro, mais re
sistente, apropriado aos fenômenos a que tem de prestar-se e do qual o
Espírito se despoja por ocasião da morte.
O perispírito serve de intermediário ao Espírito e ao corpo. É o órgão
de transmissão de todas as sensações. Relativamente às que vêm do exte
rior, pode-se dizer que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite
e o Espírito, que é o ser sensível e inteligente, a recebe. Quando o ato é
de iniciativa do Espírito, pode dizer-se que o Espírito quer, o perispírito
transmite e o corpo executa.
11. O perispírito não se acha encerrado nos limites do corpo, como
numa caixa. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o ex
terior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera que o pen
samento e a força da vontade podem dilatar mais ou menos. Daí se segue
que pessoas há que, sem estarem em contato corporal, podem achar-se em
contato pelos seus perispíritos e permutar a seu mau grado impressões e,
algumas vezes, pensamentos, por meio da intuição.
12. Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o perispírito
desempenha importante papel em todos os fenômenos psicológicos e, até
certo ponto, nos fenômenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências
médicas tiverem na devida conta o elemento espiritual na economia do
ser, terão dado grande passo e horizontes inteiramente novos se lhes pa
tentearão. As causas de muitas moléstias serão a esse tempo descobertas e
encontrados poderosos meios de combatê-las.
13. Por meio do perispírito é que os Espíritos atuam sobre a matéria
inerte e produzem os diversos fenômenos mediúnicos. Sua natureza etérea
não é que a isso obstaria, pois se sabe que os mais poderosos motores se
nos deparam nos fluidos mais rarefeitos e nos mais imponderáveis. Não
há, pois, motivo de espanto quando, com essa alavanca, os Espíritos pro
duzem certos efeitos físicos, tais como pancadas e ruídos de toda espécie,
levantamento, transporte ou lançamento de objetos. Para explicarem-se
esses fatos, não há porque recorrer ao maravilhoso, nem ao sobrenatural.
14. Atuando sobre a matéria, podem os Espíritos manifestar-se de
muitas maneiras diferentes: por efeitos físicos, quais os ruídos e a movi
mentação de objetos; pela transmissão do pensamento, pela visão, pela
audição, pela palavra, pelo tato, pela escrita, pelo desenho, pela música etc.
Numa palavra, por todos os meios que sirvam a pô-los em comunicação
com os homens.
15. Podem ser espontâneas ou provocadas as manifestações dos Es
píritos. As primeiras dão-se inopinadamente e de improviso. Produzem-se,
muitas vezes, entre pessoas de todo estranhas às ideias espíritas. Nalguns
casos e sob o império de certas circunstâncias, pode a vontade provocar
as manifestações, soba influência de pessoas dotadas, para tal efeito, de
faculdades especiais.
As manifestações espontâneas sempre se produziram, em todas as
épocas e em todos os países. Sem dúvida, já na Antiguidade se conhecia
o meio de as provocar, mas esse meio constituía privilégio de certas cas
tas que somente a raros iniciados o revelavam, sob condições rigorosas,
escondendo-o ao vulgo, a fim de o dominar pelo prestígio de um poder
oculto. Ele, contudo, se perpetuou, através das idades até os nossos dias,
entre alguns indivíduos, mas quase sempre desfigurado pela superstição,
ou de mistura com as práticas ridículas da magia, o que contribuiu para
o desacreditar. Nada mais fora até então senão germens lançados aqui e
ali. A Providência reservara para a nossa época o conhecimento completo
e a vulgarização desses fenômenos, para os expurgar das ligas impuras e
torná-los úteis ao melhoramento da Humanidade, madura agora para os
compreender e lhes tirar as consequências.
2 – Manifestações visuais
16. Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é invisí
vel, tendo isso de comum com uma imensidade de fluidos que sabemos
existir, mas que nunca vimos. Pode também, como alguns fluidos, sofrer
modificações que o tornam perceptível à vista, quer por uma espécie de
condensação, quer por uma mudança na disposição molecular. Pode mes
mo adquirir as propriedades de um corpo sólido e tangível e retomar ins
tantaneamente seu estado etéreo e invisível. É possível fazer-se ideia desse
efeito pelo que acontece com o vapor, que passa do estado de invisibilidade
ao estado brumoso, depois ao líquido, em seguida ao sólido e vice-versa.
Esses diferentes estados do perispírito resultam da vontade do Espíri
to, e não de uma causa física exterior, como se dá com os gases. Quando um
Espírito aparece, é que ele põe seu perispírito no estado próprio a torná-lo
visível. Entretanto, nem sempre basta a vontade para fazê-lo visível: é preci
so, para que se opere a modificação do perispírito, o concurso de umas tan
tas circunstâncias que dele independem. É preciso, ademais, que ao Espírito
seja permitido fazer-se visível a tal pessoa, permissão que nem sempre lhe
é concedida, ou somente o é em determinadas circunstâncias, por motivos
que nos escapam (Veja-se: O livro dos médiuns, Segunda Parte, cap. VI).
Outra propriedade do perispírito, peculiar essa à sua natureza etérea,
é a penetrabilidade. Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo; ele as atravessa
todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. Daí vem que não há
como impedir que os Espíritos entrem num recinto inteiramente fechado.
Eles visitam o preso no seu cárcere tão facilmente como visitam a um que
está no campo a trabalhar.
17. As manifestações visuais ocorrem ordinariamente durante o
sono, por meio dos sonhos: são as visões. As aparições propriamente di
tas dão-se no estado de vigília, estando aqueles que as percebem no gozo
pleno de suas faculdades e da liberdade de usar delas. Apresentam-se,
em geral, sob forma vaporosa e diáfana, algumas vezes vaga e imprecisa.
Frequentemente, não passam, à primeira vista, de um clarão esbranquiça
do, cujos contornos pouco a pouco se acentuam. Doutras vezes, as formas
se apresentam nitidamente desenhadas, distinguindo-se os menores traços
do rosto, ao ponto de poder-se descrevê-lo com precisão. Os ademanes e o
aspecto assemelham-se aos que o Espírito tinha quando vivo.
18. Podendo assumir todas as aparências, o Espírito se apresenta de
baixo daquela que mais reconhecível o possa tornar, se o quiser. É assim
que, embora como Espírito nenhuma enfermidade corpórea lhe reste, ele se
mostrará estropiado, coxo, ferido com cicatrizes, se isso for necessário a lhe
comprovar a identidade. O mesmo se observa com relação ao traje. O dos
Espíritos que nada conservam das fraquezas terrenas, aquele de ordinário
consta de amplos panos flutuantes e de uma cabeleira ondulante e graciosa.
Amiúde os Espíritos se apresentam com os atributos característicos
de sua elevação, como: uma auréola, asas os que podem ser considerados
anjos, resplandecente aspecto luminoso, enquanto outros trajam as que
recordam suas ocupações terrestres. Assim, um guerreiro aparecerá com
a sua armadura, um sábio com livros, um assassino com um punhal etc.
A figura dos Espíritos Superiores é bela, nobre e serena; os mais inferiores
têm qualquer coisa de feroz e bestial e, por vezes, ainda mostram vestígios
dos crimes que cometeram ou dos suplícios por que passaram, sendo-lhes
essas aparências uma realidade, isto é, julgam-se quais aparecem, o que é
para eles um castigo.
19. O Espírito que quer ou pode realizar uma aparição toma por
vezes uma forma ainda mais precisa, de semelhança perfeita com um sólido
corpo humano, de sorte a causar ilusão completa e dar a crer que está ali
um ser corpóreo.
Nalguns casos e dadas certas circunstâncias, a tangibilidade pode
tornar-se real, isto é, pode-se tocar, apalpar a aparição, senti-la resistente
como um corpo vivo e com o calor que se observa neste, o que não impede
que ela se desvaneça com a rapidez do relâmpago. Pode, pois, uma pessoa
estar em presença de um Espírito, trocar com ele palavras e gestos ordiná
rios e supor que se trata de um simples mortal, sem suspeitar sequer que
tem diante de si um Espírito.
20. Qualquer que seja o aspecto sob que se apresente um Espíri
to, ainda que sob forma tangível, pode ele, no instante em que isso se
dê, somente ser visível para algumas pessoas. Pode, pois, numa reunião,
mostrar-se apenas a um ou a diversos dos que nela estejam. De dois indiví
duos que se achem lado a lado, pode acontecer que um o veja e toque e o
outro nem o veja, nem o sinta.
O fenômeno da aparição a uma só pessoa, entre muitas que se encon
trem reunidas, explica-se por ser necessária, para que ele se produza, uma
combinação do fluido perispiritual do Espírito com o da pessoa. E, para que
isso se dê, é preciso que haja entre esses fluidos uma espécie de afinidade
que permita a combinação. Se o Espírito não encontra a necessária aptidão
orgânica, o fenômeno da aparição não pode reproduzir-se; se existe a apti
dão, o Espírito tem a liberdade de aproveitá-la ou não. Daí resulta que, se
duas pessoas igualmente dotadas quanto a essa aptidão se encontram juntas,
pode o Espírito operar a combinação fluídica apenas com aquela das duas
a quem ele queira mostrar-se. Se não a operar com a outra, esta não o verá.
É como se se tratasse de dois indivíduos cujos olhos estivessem vendados: se
um terceiro quiser mostrar-se a um dos dois apenas, somente dos olhos des
se retirará a venda. A um, porém, que fosse cego, nada adiantaria a retirada
da venda: ele, por isso, não adquiriria a faculdade de ver.
21. São muito raras as aparições tangíveis, sendo, no entanto, fre
quentes as vaporosas. São-no, sobretudo, no momento da morte. O Es
pírito que se libertou como que tem pressa de ir rever seus parentes e
amigos, quiçá para avisá-los de que acaba de deixar a Terra e dizer-lhes
que continua a viver. Recorra cada um às suas lembranças e verificará que
muitos fatos autênticos desse gênero, aos quais não foi dada a devida aten
ção, ocorreram, não somente à noite, mas em pleno dia e em completo
estado de vigília.
3 – Transfiguração. Invisibilidade
22. O perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades
que o dos Espíritos. Como já foi dito, o daquelas não se acha confinado no
corpo: irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fluídica.
Ora, pode suceder que, em certos casos e dadas as mesmas circunstâncias,
ele sofra uma transformação análoga à já descrita: a forma real e material
do corpo se desvanece sob aquela camada fluídica, se assim nos podemos
exprimir, e toma por momentos uma aparência inteiramente diversa, mes
mo a de outra pessoa ou a do Espírito que combina seus fluidos com os do
indivíduo, podendo também dar a um semblante feio um aspecto bonito
e radioso. Tal o fenômeno que se designa pelo nome de “transfiguração”,
bastante frequente e que se produz, principalmente, quando as circunstân
cias ocorrentes provocam mais abundante expansão de fluido.
O fenômeno da transfiguração pode operar-se com intensidades
muito diferentes, conforme o grau de depuração do perispírito, grau que
sempre corresponde ao da elevação moral do Espírito. Cinge-se às vezes a
uma simples mudança no aspecto geral da fisionomia, enquanto doutras
vezes dá ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida.
A forma material pode conseguintemente desaparecer sob o fluido pe
rispirítico, sem que se faça para isso necessário que o fluido assuma outro
aspecto. Por vezes, apenas oculta um corpo inerte ou vivo, tornando-o invi
sível para uma ou para muitas pessoas, como o faria uma camada de vapor.
Tomamos as coisas atuais unicamente como termos de comparação,
sem pretendermos uma analogia absoluta, que não existe.
23. Estes fenômenos talvez pareçam singulares, mas somente por
não se conhecerem ainda as propriedades do fluido perispirítico. Este é,
para nós, um novo corpo, que há de possuir propriedades novas e que não
se podem estudar senão pelos processos ordinários da Ciência, mas que
não deixam, por isso, de ser propriedades naturais, só tendo de maravilho
sa a novidade.
4 – Emancipação da alma
24. Durante o sono, apenas o corpo repousa; o Espírito, esse não
dorme; aproveita-se do repouso do primeiro e dos momentos em que a
sua presença não é necessária para atuar isoladamente e ir aonde quiser,
no gozo então da sua liberdade e da plenitude das suas faculdades. Du
rante a encarnação, o Espírito jamais se acha completamente separado do
corpo; qualquer que seja a distância a que se transporte, conserva-se preso
sempre àquele por um laço fluídico que serve para fazê-lo voltar à prisão
corpórea, desde que a sua presença ali se torne necessária. Esse laço só a
morte o rompe.
O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o homem se acha
por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre.
Tiveram sonos inteligentes os Espíritos que, desencarnando, logo se desligam da
matéria. Esses Espíritos, quando dormem, vão para junto dos seres que lhes são su
periores. Com estes viajam, conversam e se instruem. Trabalham mesmo em obras
que se lhes deparam concluídas, quando volvem, morrendo na Terra, ao Mundo
Espiritual. Ainda esta circunstância é de molde a vos ensinar que não deveis temer
a morte, pois que todos os dias morreis, como disse um santo.
Isto, pelo que concerne aos Espíritos elevados. Pelo que respeita ao grande nú
mero de homens que, morrendo, têm que passar longas horas na perturbação, na
incerteza de que tantos já vos falaram, esses vão, enquanto dormem, ou a mundos
inferiores à Terra, aonde os chamam velhas afeições, ou em busca de gozos quiçá
mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam. Vão beber doutrinas ainda
mais vis, mais ignóbeis, mais funestas do que as que professam entre vós. E o que
gera a simpatia na Terra é o fato de sentir-se o homem, ao despertar, ligado pelo
coração àqueles com quem acaba de passar oito ou nove horas de ventura ou de
prazer. Também as antipatias invencíveis se explicam pelo fato de sentirmos em
nosso íntimo que os entes com quem antipatizamos têm uma consciência diversa
da nossa. Conhecemo-los sem nunca os termos visto com os olhos. É ainda o que
explica a indiferença de muitos homens. Não cuidam de conquistar novos amigos,
por saberem que muitos têm que os amam e lhes querem. Numa palavra: o sono
influi mais do que supondes na vossa vida.
Graças ao sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo
dos Espíritos. Por isso é que os Espíritos Superiores assentem, sem grande repug
nância, em encarnar entre vós. Quis Deus que, tendo de estar em contato com o
vício, pudessem eles ir retemperar-se na fonte do bem, a fim de igualmente não
falirem, quando se propõem a instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes
abriu, para que possam ir ter com seus amigos do Céu; é o recreio depois do tra
balho, enquanto esperam a grande libertação, a libertação final, que os restituirá
ao meio que lhes é próprio.
O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono. Notai, porém, que
nem sempre sonhais. Que quer isso dizer? Que nem sempre vos lembrais do que
vistes, ou de tudo o que havias visto, enquanto dormíeis. É que não tendes então
a alma no pleno desenvolvimento de suas faculdades. Muitas vezes, apenas vos fica
a lembrança da perturbação que o vosso Espírito experimenta à sua partida ou
no seu regresso, acrescida da que resulta do que fizestes ou do que vos preocupa
quando despertos. A não ser assim, como explicaríeis os sonhos absurdos, que tan
to os sábios, quanto as mais humildes e simples criaturas têm? Acontece também
que os maus Espíritos se aproveitam dos sonhos para atormentar as almas fracas
e pusilânimes.
Em suma, dentro em pouco vereis vulgarizar-se outra espécie de sonhos. Con
quanto tão antiga como a de que vimos falando, vós a desconheceis. Refiro-me
aos sonhos de Joana, ao de Jacó, aos dos profetas judeus e aos de alguns adivinhos
indianos. São recordações guardadas por almas que se desprendem quase inteira
mente do corpo, recordações dessa segunda vida a que ainda há pouco aludíamos
(O livro dos espíritos, q. 402).
25. A independência e a emancipação da alma se manifestam, de
maneira evidente, sobretudo no fenômeno do sonambulismo natural e
magnético, na catalepsia e na letargia. A lucidez sonambúlica não é senão a
faculdade, que a alma tem, de ver e sentir sem o concurso dos órgãos mate
riais. É um de seus atributos essa faculdade e reside em todo o seu ser, não
passando os órgãos do corpo de estreitos canais por onde lhe chegam certas
percepções. A visão a distância, que alguns sonâmbulos possuem, provém
de um deslocamento da alma, que então vê o que se passa nos lugares a
que se transporta. Em suas peregrinações, ela se acha sempre revestida do
seu perispírito, agente de suas sensações, mas que nunca se desliga com
pletamente do corpo, como já ficou dito. O afastamento da alma produz a
inércia do corpo, que às vezes parece sem vida.
26. Esse afastamento ou desprendimento pode também operar-se, em
graus diversos, no estado de vigília. Mas, então, jamais o corpo goza inteira
mente da sua atividade normal; há sempre uma certa absorção, um alhea
mento mais ou menos completo das coisas terrestres. O corpo não dorme,
caminha, age, mas os olhos olham sem ver, dando a compreender que a alma
está algures. Como no sonambulismo, ela vê as coisas distantes; tem percep
ções e sensações que desconhecemos; às vezes, tem a presciência de alguns
acontecimentos futuros pela ligação que percebe existir entre eles e os fatos
presentes. Penetrando no Mundo Invisível, vê os Espíritos com quem lhe é
possível entabular conversação e cujos pensamentos lhe é dado transmitir.
À sua volta ao estado normal, de ordinário sobrevém o esquecimento
do que se passou. Algumas vezes, porém, ela conserva uma lembrança mais
ou menos vaga do ocorrido, como se tivesse tido um sonho.
27. Não raro, a emancipação da alma amortece tanto as sensações
físicas, que chega a produzir verdadeira insensibilidade que, nos momentos
de exaltação, lhe possibilita suportar com indiferença as mais vivas do
res. Provém essa insensibilidade do desprendimento do perispírito, agente
transmissor das sensações corporais. Ausente, o Espírito não sente as feri
das feitas no corpo.
28. Em sua manifestação mais simples, a faculdade que a alma tem
de emancipar-se produz o que se denomina o devaneio em vigília. A al
gumas pessoas, essa emancipação também dá a presciência, que se traduz
pelos pressentimentos; em grau mais avançado de desprendimento, produz
o fenômeno conhecido pelo nome de “segunda vista”, “vista dupla”, ou
“sonambulismo vígil”.
29. O êxtase é a emancipação da alma no grau máximo.
No sonho e no sonambulismo, o Espírito anda em giro pelos mundos terres
tres. No êxtase, penetra em um mundo desconhecido, o dos Espíritos etéreos,
com os quais entra em comunicação, sem que, todavia, lhe seja lícito ultrapassar
certos limites, porque, se os transpusesse, totalmente se partiriam os laços que o
prendem ao corpo. Cerca-o então resplendente e desusado fulgor, inebriam-no
harmonias que na Terra se desconhecem, indefinível bem-estar o invade: goza
antecipadamente da beatitude celeste e bem se pode dizer que pousa um pé no
limiar da eternidade.
No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo. Fica-lhe somen
te, pode-se dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma se lhe acha presa unicamente
por um fio, que mais um pequenino esforço quebraria sem remissão (O livro dos
espíritos, q. 455).
30. Como em nenhum dos outros graus de emancipação da alma, o
êxtase não é isento de erros, pelo que as revelações dos estáticos longe estão
de exprimir sempre a verdade absoluta. A razão disso reside na imperfeição
do espírito humano; somente quando ele há chegado ao cume da escala
pode julgar das coisas lucidamente; antes não lhe é dado ver tudo, nem
tudo compreender. Se, após o fenômeno da morte, quando o desprendi
mento é completo, ele nem sempre vê com justeza; se muitos há que se
conservam imbuídos dos prejuízos da vida, que não compreendem as coi
sas do mundo visível, onde se encontram, com mais forte razão o mesmo
há de suceder com o Espírito ainda retido na carne.
Há por vezes, nos extáticos, mais exaltação que verdadeira lucidez, ou,
melhor, a exaltação lhes prejudica a lucidez, razão por que suas revelações
são com frequência mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e outras
ridículas. Também Espíritos inferiores se aproveitam dessa exaltação, que é
sempre uma causa de fraqueza quando não há quem saiba governá-la, para
dominar o extático, e, para conseguirem seus fins, assumem aos olhos deste
aparências que o aferram às suas ideias e preconceitos, de modo que suas
visões e revelações não vêm a ser mais do que reflexos de suas crenças. É um
escolho a que só escapam os Espíritos de ordem elevada, escolho diante do
qual o observador deve manter-se em guarda.
31. Pessoas há cujo perispírito se identifica de tal maneira com o cor
po, que só com extrema dificuldade se opera o desprendimento da alma,
mesmo por ocasião da morte; são, em geral, as que viveram mais para a
matéria; são também aquelas para as quais a morte é mais penosa, mais
cheia de angústias, mais longa e dolorosa a agonia. Outras há, porém, cujas
almas, ao contrário, se acham presas ao corpo por liames tão frágeis, que a
separação se efetua sem abalos, com a maior facilidade e frequentemente
antes que se dê a morte do corpo. Ao aproximar-se-lhes o termo da vida,
essas almas entreveem o mundo onde vão penetrar e pelo qual aspiram no
momento da libertação completa.
5 – Aparição de pessoas vivas. Bicorporeidade
32. A faculdade, que a alma possui, de emancipar-se e de despren
der-se do corpo durante a vida pode dar lugar a fenômenos análogos aos
que os Espíritos desencarnados produzem. Enquanto o corpo se acha mer
gulhado em sono, o Espírito, transportando-se a diversos lugares, pode
tornar-se visível e aparecer sob forma vaporosa, quer em sonho, quer em
estado de vigília. Pode igualmente apresentar-se sob forma tangível, ou,
pelo menos, com uma aparência tão idêntica à realidade, que possível se
torna a muitas pessoas estar com a verdade, ao afirmarem tê-lo visto ao
mesmo tempo em dois pontos diversos. Ele, com efeito, estava em ambos,
mas apenas num se achava o corpo verdadeiro, achando-se no outro o Es
pírito. Foi este fenômeno, aliás muito raro, que deu origem à crença nos
homens duplos e que se denomina de bicorporeidade.
Por muito extraordinário que seja, tal fenômeno, como todos os ou
tros, se compreende na ordem dos fenômenos naturais, pois que decorre
das propriedades de perispírito e de uma Lei Natural.
6 – Dos médiuns
33. Médiuns são pessoas aptas a sentir a influência dos Espíritos e a
transmitir os pensamentos destes.
Toda pessoa que, num grau qualquer, experimente a influência dos
Espíritos é, por esse simples fato, médium. Essa faculdade é inerente ao
homem e, por conseguinte, não constitui privilégio exclusivo, donde se
segue que poucos são os que não possuam um rudimento de tal faculdade.
Pode-se, pois, dizer que toda gente, mais ou menos, é médium. Contudo,
segundo o uso, esse qualificativo só se aplica àqueles em quem a faculdade
mediúnica se manifesta por efeitos ostensivos, de certa intensidade.
34. O fluido perispirítico é o agente de todos os fenômenos espíritas,
que só se podem produzir pela ação recíproca dos fluidos que emitem o
médium e o Espírito. O desenvolvimento da faculdade mediúnica depen
de da natureza mais ou menos expansiva do perispírito do médium e da
maior ou menor facilidade da sua assimilação pelo dos Espíritos; depende,
portanto, do organismo e pode ser desenvolvida quando exista o princípio;
não pode, porém, ser adquirida quando o princípio não exista. A predis
posição mediúnica independe do sexo, da idade e do temperamento. Há
médiuns em todas as categorias de indivíduos, desde a mais tenra idade,
até a mais avançada.
35. As relações entre os Espíritos e os médiuns se estabelecem por
meio dos respectivos perispíritos, dependendo a facilidade dessas relações
do grau de afinidade existente entre os dois fluidos. Alguns há que se com
binam facilmente, enquanto outros se repelem, donde se segue que não
basta ser médium para que uma pessoa se comunique indistintamente
com todos os Espíritos. Há médiuns que só com certos Espíritos podem
comunicar-se ou com Espíritos de certas categorias, e outros que não o
podem a não ser pela transmissão do pensamento, sem qualquer manifes
tação exterior.
36. Por meio da combinação dos fluidos perispiríticos o Espírito,
por assim dizer, se identifica com a pessoa que ele deseja influenciar; não
só lhe transmite o seu pensamento, como também chega a exercer sobre ela
uma influência física, fazê-la agir ou falar à sua vontade, obrigá-la a dizer
o que ele queira, servir-se, numa palavra, dos órgãos do médium, como se
seus próprios fossem. Pode, enfim, neutralizar a ação do próprio Espírito
da pessoa influenciada e paralisar-lhe o livre-arbítrio. Os bons Espíritos se
servem dessa influência para o bem, e os maus para o mal.
37. Podem os Espíritos manifestar-se de uma infinidade de maneiras,
mas não o podem senão com a condição de acharem uma pessoa apta a re
ceber e transmitir impressões deste ou daquele gênero, segundo as aptidões
que possua. Ora, como não há nenhuma que possua no mesmo grau todas as
aptidões, resulta que umas obtêm efeitos que a outras são impossíveis. Dessa
diversidade de aptidões decorre que há diferentes espécies de médiuns.
38. Nem sempre é necessária a intervenção da vontade do médium.
O Espírito que quer manifestar-se procura o indivíduo apto a receber-lhe
a impressão e dele se serve, muitas vezes a seu mau grado. Outras pessoas,
ao contrário, conscientes de suas faculdades, podem provocar certas mani
festações. Daí duas categorias de médiuns: médiuns inconscientes e médiuns
facultativos.
No caso dos primeiros, a iniciativa é dos Espíritos; no segundo, é
dos médiuns.
39. Os médiuns facultativos só se encontram entre pessoas que têm
conhecimento mais ou menos completo dos meios de comunicação com
os Espíritos, o que lhes possibilita servir-se, por vontade própria, de suas
faculdades; os médiuns inconscientes, ao contrário, existem entre as que ne
nhuma ideia fazem do Espiritismo, nem dos Espíritos, até mesmo entre
as mais incrédulas e que servem de instrumento, sem o saberem e sem o
quererem. Os fenômenos espíritas de todos os gêneros podem operar-se
por influência destes últimos, que sempre existiram, em todas as épocas e
no seio de todos os povos. A ignorância e a credulidade lhes atribuíram um
poder sobrenatural e, conforme os tempos e os lugares, fizeram deles san
tos, feiticeiros, loucos ou visionários. O Espiritismo mostra que com eles
apenas se dá a manifestação espontânea de uma faculdade natural.
40. Entre as diferentes espécies de médiuns, distinguem-se princi
palmente: os de efeitos físicos; os sensitivos ou impressivos; os audientes, falan
tes, videntes, inspirados, sonambúlicos, curadores, escreventes ou psicógrafos.
Aqui unicamente trataremos das espécies essenciais.7
41. Médiuns de efeitos físicos – São os mais aptos, especialmente, à
produção de fenômenos materiais, como o movimento de corpos inertes,
os ruídos, a deslocação, o levantamento e a translação de objetos etc. Es
tes fenômenos podem ser espontâneos ou provocados. Em todos os casos,
exigem o concurso voluntário ou involuntário de médiuns dotados de fa
culdades especiais. Em geral, têm por agentes Espíritos de ordem inferior,
uma vez que os Espíritos elevados só se preocupam com comunicações
inteligentes e instrutivas.
42. Médiuns sensitivos ou impressivos – Dá-se esta denominação às pes
soas suscetíveis de pressentir a presença dos Espíritos, por impressão vaga,
um como ligeiro atrito em todos os membros, fato que não logram explicar.
Tal sutileza pode essa faculdade adquirir, que aquele que a possui reconhece,
pela impressão que experimenta, não só a natureza, boa ou má, do Espírito
que lhe está ao lado, mas também a sua individualidade, como o cego reco
nhece instintivamente a aproximação de tal ou tal pessoa. Um Espírito bom
causa sempre uma impressão branda e agradável; a de um Espírito mau, ao
contrário, é penosa, aflitiva e desagradável: há um como cheiro de impureza.
43. Médiuns audientes – Esses ouvem os Espíritos; é, algumas vezes,
como se escutassem uma voz interna que lhes ressoasse no foro íntimo;
doutras vezes, é uma voz exterior, clara e distinta, qual a de uma pessoa
viva. Os médiuns audientes também podem conversar com os Espíritos.
Quando se habituam a comunicar-se com certos Espíritos, eles os reconhe
cem imediatamente pelo som da voz. Aquele que não é médium audiente
pode comunicar-se com um Espírito por via de um médium audiente que
lhe transmite as palavras.
44. Médiuns falantes – Os médiuns audientes, que nada mais fazem
do que transmitir o que ouvem, não são propriamente médiuns falantes,
os quais, as mais das vezes, nada ouvem. Com eles, o Espírito atua sobre
os órgãos da palavra, como atuam sobre a mão dos médiuns escreventes.
Querendo comunicar-se, o Espírito se serve do órgão que acha mais ma
leável: de um, utiliza-se da mão; de outro, da palavra; de um terceiro, da
audição. Em geral, o médium falante se exprime sem ter consciência do
que diz e diz amiúde coisas inteiramente fora do âmbito de suas ideias ha
bituais, de seus conhecimentos e, até, fora do alcance da sua inteligência.
Não é raro verem-se pessoas iletradas e de inteligência vulgar expressar-se,
em tais momentos, com verdadeira eloquência e tratar, com incontestável
superioridade, de questões sobre as quais seriam incapazes de emitir, no
estado ordinário, uma opinião.os
Se bem esteja perfeitamente acordado quando exerce a sua facul
dade, raro é que o médium falante guarde lembrança do que disse. Nem
sempre, porém, é integral a sua passividade. Alguns há que têm intuição do
que dizem, no próprio instante em que proferem as palavras.
Estas, no médium falante, são o instrumento de que se serve o Es
pírito com quem uma pessoa estranha pode entrar em comunicação, do
mesmo modo que o pode fazer com o concurso de um médium audiente.
Entre o médium falante e o médium audiente, há a diferença de que este
fala voluntariamente para repetir o que ouve, ao passo que o outro fala
involuntariamente.
45. Médiuns videntes – Dá-se esta qualificação às pessoas que, em
estado normal e perfeitamente despertas, gozam da faculdade de ver os
Espíritos. A possibilidade de vê-los em sonho resulta, sem contestação, de
uma espécie de mediunidade, mas não são médiuns videntes propriamente
ditos. Expusemos a teoria deste fenômeno no capítulo: Visões e aparições de
O livro dos médiuns.8
São muito frequentes as aparições dos Espíritos às pessoas que os
amaram, ou os conheceram na Terra. Conquanto os que costumam tê-las
possam ser considerados médiuns videntes, esta denominação, em regra,
só é dada aos que gozam, de modo mais ou menos permanente, da facul
dade de ver quase que todos os Espíritos. Nesse número, há os que apenas
veem os Espíritos que são evocados e que eles conseguem descrever com
minuciosa exatidão. Descrevem-lhes os gestos com todos os pormenores,
os traços fisionômicos, o vestuário e até os sentimentos de que parecem
animados. Há outros em quem essa faculdade revela caráter ainda mais
geral: são os que veem toda a população espírita ambiente a movimentar--se, como se tratasse, poder-se-ia dizer, de seus negócios. Esses médiuns
nunca estão sós; cerca-os sempre uma sociedade a cuja escolha podem
proceder, livremente, porquanto podem, pela ação da vontade própria,
afastar os Espíritos que lhes não convenha ter próximos de si, ou atrair os
que lhes são simpáticos.
46. Médiuns sonambúlicos – Pode-se considerar o sonambulismo
como uma variedade da faculdade mediúnica ou, antes, são duas ordens
de fenômenos que frequentemente se encontram ligados. O sonâmbulo
age sob a influência do seu próprio Espírito; sua própria alma é que, em
momentos de emancipação, vê, ouve e percebe além dos limites dos sen
tidos. O que ele exprime haure-o de si mesmo; suas ideias são, em geral,
mais justas do que no estado normal, mais extensos os seus conhecimentos,
porque livre se lhe acha a alma. Em suma, ele vive antecipadamente a vida
dos Espíritos. O médium, ao contrário, é instrumento de uma inteligência
estranha; é passivo e o que diz não vem do seu próprio eu.
Em resumo: o sonâmbulo externa seus próprios pensamentos e o
médium exprime os de outrem. Mas o Espírito que se comunica com um
médium qualquer também pode comunicar-se com um sonambúlico. É
até frequente o estado de emancipação da alma, durante o sonambulis
mo, tornar mais fácil essa comunicação. Muitos sonâmbulos veem perfei
tamente os Espíritos e os descrevem com tanta precisão, como os médiuns
videntes; podem conversar com eles e transmitir-nos seus pensamentos;
se o que dizem está fora do âmbito de seus conhecimentos pessoais, é que
outros Espíritos lho sugerem.
47. Médiuns inspirados – Nestes médiuns, muito menos aparentes
são do que nos outros os sinais exteriores da mediunidade; é toda inte
lectual e moral a ação que os Espíritos exercem sobre eles e se revela nas
menores circunstâncias da vida, como nas maiores concepções. Sobretudo
debaixo desse aspecto é que se pode dizer que todos são médiuns, porquan
to ninguém há que não tenha Espíritos protetores e familiares a empre
gar todos os esforços por lhe sugerir salutares ideias. No inspirado, difícil
muitas vezes se torna distinguir as ideias que lhe são próprias do que lhe é
sugerido. A espontaneidade é principalmente o que caracteriza esta última.
Nos grandes trabalhos da inteligência é onde mais se evidencia a
inspiração. Os homens de gênio, de todas as categorias, artistas, sábios,
literatos, oradores, são sem dúvida Espíritos adiantados, capazes, por si
mesmos, de compreender e conhecer grandes coisas; ora, precisamente
porque são considerados capazes, é que os Espíritos que visam à execução
de certos trabalhos lhes sugerem as ideias necessárias, de sorte que na
maioria dos casos eles são médiuns sem o saberem. Têm, contudo, vaga
intuição de uma assistência estranha, porquanto aquele que apela para
a inspiração nada mais faz do que uma evocação. Se não esperasse ser
atendido, por que exclamaria, como tão amiúde sucede: ‘Meu bom gênio,
vem em meu auxílio!’
48. Médiuns de pressentimentos – Pessoas há que, em dadas circuns
tâncias, têm uma imprecisa intuição das coisas futuras. Essa intuição pode
provir de uma espécie de dupla vista, que faculta se entrevejam as conse
quências das coisas presentes, mas, doutras vezes, resulta de comunicações
ocultas, que fazem de tais pessoas uma variedade dos médiuns inspirados.
49. Médiuns proféticos – É igualmente uma variedade dos médiuns
inspirados. Recebem, com a permissão de Deus e com mais precisão do
que os médiuns de pressentimentos, a revelação das coisas futuras, de inte
resse geral, que eles recebem o encargo de tornar conhecidas aos homens,
para lhes servir de ensinamento.
De certo modo, o pressentimento é dado à maioria dos homens,
para uso pessoal deles; o dom de profecia, ao contrário, é excepcional e
implica a ideia de uma missão na Terra.
Todavia, se há verdadeiros profetas, maior é o número dos falsos,
que tomam os devaneios da sua imaginação como revelações, quando não
são velhacos que por ambição se fazem passar como profetas.
“O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Po
deis reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus atos. Impossível é que
Deus se sirva da boca do mentiroso para ensinar a verdade” (O livro dos
espíritos, q. 624).
50. Médiuns escreventes ou psicógrafos – Essa denominação é dada
às pessoas que escrevem sob a influência dos Espíritos. Assim como um
Espírito pode atuar sobre os órgãos vocais de um médium falante e fazê-lo
pronunciar palavras, também pode servir-se da sua mão para fazê-lo escre
ver. A mediunidade psicográfica apresenta três variedades bem distintas: os
médiuns mecânicos, os intuitivos e os semimecânicos.
Com o médium mecânico, o Espírito lhe atua diretamente sobre a
mão, impulsionando-a. O que caracteriza este gênero de mediunidade é a
inconsciência absoluta, por parte do médium, do que sua mão escreve. O
movimento desta independe da vontade do escrevente; movimenta-se sem
interrupção, a despeito do médium, enquanto o Espírito tem alguma coisa
a dizer, e para desde que este último haja concluído.
Com o médium intuitivo, à transmissão do pensamento serve de in
termediário o Espírito do médium. O outro Espírito, nesse caso, não atua
sobre a mão para movê-la, atua sobre a alma, identificando-se com ela e
imprimindo-lhe sua vontade e suas ideias. A alma recebe o pensamento
do Espírito comunicante e o transcreve. Nesta situação, o médium escreve
voluntariamente e tem consciência do que escreve, embora não grafe seus
próprios pensamentos.
Torna-se frequentemente difícil distinguir o pensamento do médium
do que lhe é sugerido, o que leva muitos médiuns deste gênero a duvidar da
sua faculdade. Podem reconhecer-se os pensamentos sugeridos pelo fato de
não serem nunca preconcebidos; eles surgem à proporção que o médium vai
escrevendo e não raro são opostos à ideia que este previamente concebera.
Podem mesmo estar fora dos conhecimentos e da capacidade do médium.
Há grande analogia entre a mediunidade intuitiva e a inspiração; a
diferença consiste em que a primeira se restringe quase sempre a questões de
atualidade e pode aplicar-se ao que esteja fora das capacidades intelectuais
do médium; por intuição, pode este último tratar de um assunto que lhe seja
completamente estranho. A inspiração se estende por um campo mais vasto
e geralmente vem em auxílio das capacidades e das preocupações do Espírito
encarnado. Os traços da mediunidade são, de regra, menos evidentes.
O médium semimecânico, ou semi-intuitivo participa dos outros dois
gêneros. No médium puramente mecânico, o movimento da mão indepen
de da sua vontade; no médium intuitivo, o movimento é voluntário e fa
cultativo. O médium semimecânico sente na mão uma impulsão dada mau
grado seu, mas ao mesmo tempo tem consciência do que escreve, à medida
que as palavras se formam. Com o primeiro, o pensamento vem depois do
ato de escrever; com o segundo, precede-o; com o terceiro, acompanha-o.
51. Não sendo o médium mais do que um instrumento que recebe e
transmite o pensamento de um Espírito estranho, que obedece à impulsão
mecânica que lhe é dada, nada há que ele não possa fazer fora do campo de
seus conhecimentos, se possui a maleabilidade e a aptidão mediúnica ne
cessárias. Assim é que há médiuns desenhistas, pintores, músicos, versejadores,
embora estranhos às artes do desenho, da pintura, da música e da poesia;
médiuns iletrados, que escrevem sem saber ler, nem escrever, médiuns po
lígrafos, que reproduzem escritas de diversos gêneros e, algumas vezes, com
perfeita exatidão, a que o Espírito tinha quando encarnado; médiuns poli
glotas, que escrevem ou falam em línguas que lhes são desconhecidas etc.
52. Médiuns curadores – Consiste a mediunidade desta espécie na
faculdade que certas pessoas possuem de curar pelo simples contato, pela
imposição das mãos, pelo olhar, por um gesto, mesmo sem o concurso de
qualquer medicamento. Semelhante faculdade incontestavelmente tem o
seu princípio na força magnética; difere desta, entretanto, pela energia e
instantaneidade da ação ao passo que as curas magnéticas exigem um trata
mento metódico, mais ou menos longo. Todos os magnetizadores são mais
ou menos aptos a curar, se sabem proceder convenientemente; dispõem da
ciência que adquiriram. Nos médiuns curadores, a faculdade é espontânea
e alguns a possuem sem nunca ter ouvido falar de magnetismo.
A faculdade de curar pela imposição das mãos deriva evidentemente
de uma força excepcional de expansão, mas diversas causas concorrem para
aumentá-la, entre as quais são de colocar-se, na primeira linha: a pureza
dos sentimentos, o desinteresse, a benevolência, o desejo ardente de pro
porcionar alívio, a prece fervorosa e a confiança em Deus; numa palavra:
todas as qualidades morais. A força magnética é puramente orgânica; pode,
como a força muscular, ser partilha de toda gente, mesmo do homem per
verso, mas só o homem de bem se serve dela exclusivamente para o bem,
sem ideias ocultas de interesse pessoal, nem de satisfação de orgulho ou
de vaidade. Mais depurado, o seu fluido possui propriedades benfazejas e
reparadoras, que não pode ter o do homem vicioso ou interesseiro.
Todo efeito mediúnico, como já foi dito, resulta da combinação dos
fluidos que emitem um Espírito e um médium. Pela sua conjugação esses
fluidos adquirem propriedades novas, que separadamente não teriam, ou,
pelo menos, não teriam no mesmo grau. A prece, que é uma verdadeira
evocação, atrai os bons Espíritos, sempre solícitos em secundar os esforços
do homem bem-intencionado; o fluido benéfico dos primeiros se casa fa
cilmente com o do segundo, ao passo que o do homem vicioso se junta ao
dos maus Espíritos que o cercam.
O homem de bem, que não dispusesse da força fluídica, pouca coisa
conseguiria fazer por si mesmo, só lhe restando apelar para a assistência dos
Espíritos bons, pois quase nula seria a sua ação pessoal; uma grande força
fluídica, aliada à maior soma possível de qualidades morais, pode operar,
em matéria de curas, verdadeiros prodígios.
53. A ação fluídica, ademais, é poderosamente secundada pela con
fiança do doente, e Deus quase sempre lhe recompensa a fé, concedendo--lhe o bom êxito.
54. Somente a superstição pode emprestar qualquer virtude a certas
palavras e unicamente Espíritos ignorantes ou mentirosos podem alimentar
semelhantes ideias, prescrevendo fórmulas. Pode, entretanto, acontecer
que, para pessoas pouco esclarecidas e incapazes de compreender as coisas
puramente espirituais, o uso de uma fórmula de prece ou de determinada
prática contribua a lhes infundir confiança. Nesse caso, porém, não é na
fórmula que está a eficácia, e sim na fé que aumentou com a ideia ligada
ao emprego da fórmula.
55. Não se devem confundir os médiuns curadores com os médiuns
receitistas, que são simples médiuns escreventes, cuja especialidade consiste
em servirem mais facilmente de intérpretes aos Espíritos para as prescrições
médicas; absolutamente mais não fazem que transmitir o pensamento do
Espírito, sem exercerem, de si mesmos, nenhuma influência.
7 – Da obsessão e da possessão
56. A obsessão consiste no domínio que os maus Espíritos assumem
sobre certas pessoas, com o objetivo de as escravizar e submeter à vontade
deles, pelo prazer que experimentam em fazer o mal.
Quando um Espírito, bom ou mau, quer atuar sobre um indivíduo,
envolve-o, por assim dizer, no seu perispírito, como se fora um manto.
Interpenetrando-se os fluidos, os pensamentos e as vontades dos dois se
confundem e o Espírito, então, se serve do corpo do indivíduo, como se
fosse seu, fazendo-o agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, quais os
médiuns. Se o Espírito é bom, sua atuação é suave, benfazeja, não impele
o indivíduo senão à prática de atos bons; se é mau, força-o a ações más. Se
é perverso e malfazejo, aperta-o como numa teia, paralisa-lhe até a vontade
e mesmo o juízo, que ele abafa com o seu fluido, como se abafa o fogo sob
uma camada d’água. Fá-lo pensar, falar, agir em seu lugar, impele-o, a seu
mau grado, a atos extravagantes ou ridículos; magnetiza-o, em suma, lan
ça-o num estado de catalepsia moral e o indivíduo se torna um instrumen
to da sua vontade. Tal a origem da obsessão, da fascinação e da subjugação
que se produzem em graus muito diversos de integridade. À subjugação,
quando no paroxismo, é que vulgarmente dão o nome de possessão. É de
notar-se que, nesse estado, o indivíduo tem muitas vezes consciência de
que o que faz é ridículo, mas é forçado a fazê-lo, tal como se um homem
mais vigoroso do que ele o obrigasse a mover, contra a vontade, os braços,
as pernas e a língua.
57. Pois que os Espíritos existiram em todos os tempos, também
desde todos os tempos representaram o mesmo papel, porque esse papel é
da natureza e a prova está no grande número que sempre houve de pessoas
obsidiadas, ou possessas, se o preferirem, antes que se falasse de Espíritos,
ou que, nos dias atuais, se ouvisse falar de Espiritismo, nem de médiuns. É,
pois, espontânea a ação dos Espíritos, bons ou maus; a destes produz uma
imensidade de perturbações na economia moral e mesmo física, perturba
ções que, por ignorância da verdadeira causa, atribuíam a causas errôneas.
Os Espíritos maus são inimigos invisíveis, tanto mais perigosos, quanto da
ação deles não se suspeitava. Desmascarando-os, o Espiritismo revela uma
nova causa de certos males da Humanidade. Conhecida a causa, não mais
se procurará combater o mal por meios que já se sabem inúteis; procurar--se-ão outros mais eficazes. Ora, que foi o que fez se descobrisse aquela
causa? A mediunidade. Foi pela mediunidade que esses inimigos ocultos
traíram a sua presença; ela foi para eles o que o microscópio foi para os in
finitamente pequenos: revelou todo um mundo. O Espiritismo não atraiu
os maus Espíritos: desvendou-os e forneceu os meios de se lhes paralisar a
ação e, por conseguinte, de afastá-los. Não foi ele quem trouxe o mal, visto
que o mal existe desde todos os tempos; ele, ao contrário, dá remédio ao
mal, apontando-lhe a causa. Uma vez reconhecida a ação do Mundo Invi
sível, ter-se-á a explicação de um sem-número de fenômenos incompreen
didos e a Ciência, enriquecida com o conhecimento dessa nova lei, verá
abrir-se diante de si novos horizontes. Quando chegará ela a isso? Quando
deixar de professar o materialismo, porquanto o materialismo lhe detém o
voo, opondo-lhe intransponível barreira.
58. Pois que há Espíritos maus que obsidiam e Espíritos bons que
protegem, perguntam muitos se os primeiros são mais poderosos do que
os segundos.
Não é que o bom Espírito seja mais fraco; o médium é que não tem
força bastante para alijar de si o manto que lhe atiraram em cima, para se
desprender dos braços que o enlaçam e nos quais, cumpre dizê-lo, às vezes
se compraz. Neste caso, compreende-se que o bom Espírito não possa levar
vantagem, pois que o outro é preferido. Admitamos, porém, que a vítima
deseje desembaraçar-se do envoltório fluídico que penetra o seu, como a
umidade penetra as roupas. Esse desejo nem sempre bastará. A própria
vontade nem sempre é suficiente.
Trata-se de lutar contra um adversário. Ora, quando dois homens
lutam corpo a corpo, aquele que dispõe de mais fortes músculos é que
abate o outro. Com um Espírito tem-se de lutar, não corpo a corpo, mas
Espírito a Espírito e é ainda o mais forte que triunfa. Aqui, a força reside
na autoridade que se possa exercer sobre o obsessor e essa autoridade está
subordinada à superioridade moral. Esta é como o Sol que dissipa o ne
voeiro pela potencialidade dos seus raios. Esforçar-se por ser bom, por se
tornar melhor se já é bom, por purificar-se de suas imperfeições, por, numa
palavra, elevar-se moralmente o mais possível, tal o meio de o encarnado
adquirir o poder de mandar sobre os Espíritos inferiores, para os afastar.
De outro modo estes zombarão das suas injunções (Ver O livro dos mé
diuns, it. 252 e 279).
Entretanto, objetar-se-á, por que os Espíritos protetores não lhes or
denam que se retirem? Sem dúvida, podem fazê-lo e algumas vezes o fazem.
Mas, permitindo a luta, deixam ao atacado o mérito da vitória. Se consen
tem que se debatam criaturas que, sob certos aspectos, têm seus merecimen
tos, é para lhes experimentar a perseverança e para levá-las a adquirir mais
força no campo do bem. A luta é uma espécie de ginástica moral.
Muitas pessoas prefeririam certamente outra receita mais fácil para
repelirem os maus Espíritos: por exemplo, algumas palavras que se profe
rissem, ou alguns sinais que se fizessem, o que seria mais simples do que
corrigir-se alguém de seus defeitos. Sentimos muito; porém, nenhum meio
eficaz conhecemos de vencer-se um inimigo, senão o fazer-se mais forte que
ele. Quando estamos doentes, temos que resignar-nos a tomar um me
dicamento, por muito amargo que seja, mas também, se tivermos tido a
coragem de bebê-lo, como nos sentimos bem e fortes! Temos pois que nos
persuadir de que não há, para alcançarmos aquele resultado, nem palavras
sacramentais, nem fórmulas, nem talismãs, nem sinais materiais quaisquer.
De tudo isso riem-se os maus Espíritos e não raro se comprazem em indicar
alguns, tendo sempre o cuidado de afirmá-los infalíveis, para melhormente
captarem a confiança daqueles a quem querem iludir, porque, então, estes,
confiantes nas virtudes do processo aconselhado, se entregam sem receio.
Antes de pretender, quem quer que seja, domar um Espírito mau,
precisa cuidar de domar-se a si mesmo. De todos os meios de adquirir-se
força para chegar a isso, o mais eficiente é a vontade secundada pela pre
ce, a prece do coração, entenda-se, e não a de palavras, das quais a boca
participa mais do que o pensamento. Precisamos pedir ao nosso anjo guar
dião e aos bons Espíritos que nos assistam na luta; não basta, porém, lhes
peçamos que afastem o Espírito mau; devemos lembrar-nos desta máxima:
ajuda-te a ti mesmo e o Céu te ajudará e rogar-lhes, sobretudo, a força que
nos falta para vencermos os nossos maus pendores, que são, para nós, pio
res que os maus Espíritos, porquanto são esses pendores que os atraem,
como a podridão atrai as aves de rapina. Orando também pelo Espírito ob
sessor, retribuir-lhe-emos com o bem o mal que nos queira e nos mostrare
mos melhores do que ele, o que já é uma superioridade. Com perseverança,
acaba-se as mais das vezes por induzi-lo à posse de melhores sentimentos e
a transformá-lo de perseguidor em amigo grato.
Em resumo: a prece fervorosa e os esforços sérios que a criatura faça
por melhorar-se constituem os únicos meios de ela afastar os maus Espí
ritos, que reconhecem como seus senhores aqueles que praticam o bem,
enquanto as fórmulas lhes provocam o riso, do mesmo modo que a cólera e
a impaciência os excitam. Precisa o perseguido cansá-los, demonstrando-se
mais paciente do que eles.
Por vezes acontece que a subjugação avulta até o ponto de paralisar a
vontade do obsidiado, do qual nenhum concurso sério se pode esperar. Aí,
principalmente, é que a intervenção de terceiros se torna necessária, quer
por meio da prece, quer pela ação magnética. Mas também a força dessa
intervenção depende do ascendente moral que os interventores possam ter
sobre os Espíritos; se não valerem mais do que estes, improfícua será a ação
que desenvolvam. A ação magnética, no caso, tem por efeito introduzir no
fluido do obsidiado um fluido melhor e eliminar o do mau Espírito. Ao
operar, deve o magnetizador objetivar duplo fim: o de opor a uma força
moral outra força moral e produzir sobre o paciente uma espécie de reação
química, para nos servirmos de uma comparação material, expelindo um
fluido com o auxílio de outro fluido. Dessa forma, não só opera um des
prendimento salutar, como igualmente fortalece os órgãos enfraquecidos
por longa e vigorosa constrição. Compreende-se, em suma, que o poder
da ação fluídica está na razão direta não somente da energia da vontade,
mas, sobretudo, da qualidade do fluido introduzido e, segundo o que dei
xamos dito, que essa qualidade depende da instrução e das qualidades mo
rais do magnetizador. Daí se segue que um magnetizador ordinário, que
atuasse maquinalmente, apenas por magnetizar, fraco ou nenhum efeito
produziria. É de toda a necessidade um magnetizador espírita, que atue
com conhecimento de causa, com a intenção de obter, não o sonambulis
mo ou uma cura orgânica, porém, os resultados que vimos de descrever.
É, além disso, evidente que uma ação magnética dirigida neste sentido
não pode deixar de ser muito proveitosa nos casos de obsessão ordinária,
porque, então, se o magnetizador tem a auxiliá-lo a vontade do obsidiado,
o Espírito se vê combatido por dois adversários em lugar de um.
Cumpre também dizer que amiúde se atribuem aos Espíritos malda
des de que eles são inocentes. Alguns estados doentios e certas aberrações
que se lançam à conta de uma causa oculta, derivam do Espírito do próprio
indivíduo. As contrariedades que de ordinário cada um concentra em si
mesmo, principalmente os desgostos amorosos, dão lugar, com frequência,
a atos excêntricos, que fora errôneo considerar-se fruto da obsessão. O
homem não raramente é o obsessor de si mesmo.
Acrescentemos, por fim, que algumas obsessões tenazes, sobretudo
em pessoas de mérito, fazem às vezes parte das provações a que essas pes
soas estão sujeitas. Acontece mesmo que a obsessão, quando simples, é
uma tarefa imposta ao obsidiado, qual a de trabalhar pela regeneração do
obsessor, como um pai pela de um filho vicioso (Para maiores particulari
dades, veja-se O livro dos médiuns).
Em geral, a prece é poderoso meio auxiliar da libertação dos obsi
diados; nunca, porém, a prece só de palavras, dita com indiferença e como
uma fórmula banal, será eficaz em semelhante caso. Faz-se mister uma
prece ardente, que seja ao mesmo tempo uma como magnetização mental.
Pelo pensamento, pode-se encaminhar para o paciente uma corrente fluí
dica salutar, cuja potência guarda relação com a intenção. A prece, pois,
não tem apenas por efeito invocar um auxílio estranho, mas exercer uma
ação fluídica. O que uma pessoa, só, não pode fazer, podem-no, quase
sempre, muitas pessoas unidas pela intenção numa prece coletiva e reitera
da, visto que o número aumenta a potencialidade da ação.
59. A experiência comprova a ineficácia do exorcismo, nos casos de
possessão, e provado está que quase sempre aumenta o mal, em vez de
atenuá-lo. A razão se encontra em que a influência está toda no ascendente
moral exercido sobre os maus Espíritos, e não num ato exterior, na virtude
das palavras e dos gestos. O exorcismo consiste em cerimônias e fórmulas
de que zombam os maus Espíritos que, entretanto, cedem à autoridade
moral que se lhes impõe. Eles veem que os querem dominar por meios
impotentes, que pensam intimidá-los por um vão aparato e, então, se em
penham em mostrar-se os mais fortes e para isso redobram de esforços.
São quais cavalos espantadiços que dão em terra com o cavaleiro inábil e
que obedecem quando topam com um que os governa. Ora, aqui, quem
realmente manda é o homem de coração mais puro, porque é a ele que os
bons Espíritos de preferência atendem.
60. O que pode um Espírito fazer com um indivíduo, podem-no
muitos Espíritos com muitos indivíduos simultaneamente e dar à obsessão
caráter epidêmico. Uma nuvem de maus Espíritos invade uma localidade
e aí se manifestam de diversas maneiras. Foi uma epidemia desse gênero
que se abateu sobre a Judeia ao tempo do Cristo. Ora, o Cristo, pela sua
imensa superioridade moral, tinha sobre os demônios ou maus Espíritos
tal autoridade, que bastava lhes ordenasse que se retirassem para que eles o
fizessem e, para isso, não empregava fórmulas nem gestos ou sinais.
61. O Espiritismo se funda na observação dos fatos que resultam
das relações entre o mundo visível e o Mundo Invisível. Estando na ordem
dos da natureza, esses fatos se produziram em todas as épocas e abundam
principalmente nos livros sagrados de todas as religiões, pois que serviram
de base à maioria das crenças. Por não os terem os homens compreendido,
é que a Bíblia e os Evangelhos apresentam tantas passagens obscuras e que
foram interpretadas em sentidos diferentes. O Espiritismo traz a chave que
lhes facilitará a inteligência.
Dos homens duplos e das aparições de pessoas vivas
É fato hoje comprovado e perfeitamente explicado que o Espíri
to, isolando-se de um corpo vivo, pode, com auxílio do seu envoltório
fluido-perispirítico, aparecer em lugar diferente do em que está o corpo
material. Até o presente, porém, a teoria, de acordo com a experiência,
parece demonstrar que essa separação somente durante o sono se dá, ou,
pelo menos, durante a inatividade dos sentidos corpóreos. Se são exatos,
os fatos seguintes provam que ela igualmente se produz no estado de vi
gília. Extraímo-las da obra alemã: Os fenômenos místicos da vida humana,
por Maximiliano Perty, professor da Universidade de Berne, publicada em
1861 (Leipzig e Heidelberg).
1. “Um camponês proprietário foi visto, pelo seu cocheiro, na cava
lariça, com o olhar dirigido para os animais, no momento mesmo em que
estava a comungar na Igreja. Narrando o fato, mais tarde, ao seu pastor,
perguntou-lhe este em que pensava ele no momento da comunhão. —
Para dizer a verdade — respondeu o camponês —, pensava nos meus ani
mais. — Aí está explicada a sua aparição — replicou o eclesiástico.”
Estava com a verdade o pastor, porquanto, sendo o pensamento atri
buto essencial do Espírito, tem este que se achar onde se ache o seu pensa
mento. A questão é saber se, no estado de vigília, pode o desprendimento
do perispírito ser suficientemente grande para produzir uma aparição, o
que implicaria um como desdobramento do Espírito, uma de cujas partes
animaria o corpo fluídico e a outra o corpo material. Nada terá isto de
impossível, se considerarmos que, quando o pensamento se concentra num
ponto distante, o corpo apenas atua maquinalmente, por efeito de uma
espécie de impulsão mecânica, o que se verifica, sobretudo, com as pessoas
distraídas. A vida espiritual acompanha o Espírito. É, pois, provável que o
homem de quem se trata haja tido, naquele momento, uma distração forte
e que os seus animais o preocupavam mais do que a comunhão.
Este outro fato é da mesma categoria; apresenta, porém, uma parti
cularidade mais notável:
2. “O juiz de cantão, J..., em Fr... mandou certo dia seu amanuense
a uma aldeia dos arredores. Passado algum tempo, ele o viu entrar de novo,
tomar de um livro no armário e folheá-lo. Perguntou-lhe bruscamente por
que ainda não fora onde o mandara. A essas palavras, o amanuense desapa
receu. O livro cai no chão e o juiz o coloca em cima de uma mesa, aberto
como caíra. À tarde, de regresso o amanuense, o juiz o interrogou sobre
se lhe acontecera alguma coisa em caminho, se tinha voltado à sala onde
naquele momento se achavam. — Não — respondeu o amanuense —; fiz
a viagem na companhia de um amigo; ao atravessarmos a floresta, puse
mo-nos a discutir acerca de uma planta que encontráramos e eu lhe disse
que, se estivesse em casa, fácil me seria mostrar-lhe uma página de Lineu
que me daria razão.
Era justamente esse o livro que ficara aberto na página indicada.”
Por muito extraordinário que pareça o fato, não se poderia taxá-lo de
materialmente impossível, por isso que ainda longe estamos de conhecer to
dos os fenômenos da vida espiritual. Contudo, faz-se mister a confirmação.
Num caso desses, seria preciso comprovar, de maneira positiva, o estado do
corpo no momento da aparição. Até prova em contrário, duvidamos de que
o fato seja possível, desde que o corpo se ache em atividade inteligente.
Os que seguem bem mais extraordinários são e francamente confes
samos que nos inspiram dúvidas ainda maiores. Compreende-se facilmen
te que a aparição do Espírito de uma pessoa viva seja vista por uma terceira
pessoa, porém não que um indivíduo possa ver a sua própria aparição,
principalmente nas condições abaixo referidas.
3. “O secretário do governo, Triptis, em Weimar, indo à chancela
ria, em busca de um maço de documentos de que muito precisava, de
parou lá consigo, já sentado na sua cadeira habitual e tendo diante de si
os documentos. Assustado, volta para casa e manda seu empregado com
ordem de apanhar os documentos que se achavam no lugar do costume. O
empregado vai e igualmente vê o patrão sentado na sua cadeira.”
4. “Becker, professor de Matemática em Rostok, estava à mesa com
alguns amigos, entre os quais surge uma questão teológica. Becker vai à sua
biblioteca em busca de uma obra que decidiria a questão e dá consigo as
sentado no lugar costumeiro. Olhando por cima dos ombros do seu outro
eu, verifica que este lhe aponta a seguinte passagem da Bíblia, num volume
aberto: ‘Arranja tua casa, pois tens de morrer.’ Volta para junto de seus
amigos que em vão se esforçam por lhe demonstrar que era loucura ligar a
menor importância àquela visão. — Ele morreu no dia seguinte.”
5. “Hoppack, autor da obra: Materiais para o estudo da psicologia,
diz que o padre Steinmetz, com visitas em casa, estando no seu quarto, se
viu a si próprio em seu jardim, no lugar que lhe era preferido. Apontando
para si mesmo e depois para o seu semelhante, disse: ‘Aqui está Steinmetz,
o mortal; lá está o imortal.’”
6. “F..., da cidade de Z..., que foi juiz mais tarde, achando-se, quan
do moço, em vilegiatura no campo, uma moça da casa lhe pediu fosse bus
car ao seu quarto um guarda-sol. Ele foi e viu a moça sentada à sua mesa
de trabalho, porém mais pálida do que quando a deixara. Olhava para a
frente. F..., apesar do medo de que foi presa, apanhou o guarda-sol, que
estava ao lado dela, e o levou. Vendo-o de semblante transtornado, disse--lhe a moça: ‘Confesse que viu alguma coisa, que me viu no quarto. Não
se aflija, não estou para morrer. Sou dupla (em alemão: Doppelgaenger, que
quer dizer, literalmente: alguém que anda duplo). Em pensamento, eu es
tava junto do meu trabalho e já muitas vezes dei com a minha imagem ao
meu lado. Nada fazemos uma à outra.’”
7. “O conde D... e as sentinelas pretenderam ter visto uma noite a
imperatriz Elisabeth da Rússia, sentada em seu trono, na sala onde este
se erguia, em trajes de grande gala, estando ela deitada e a dormir no seu
aposento. A dama de honra, que se achava de serviço, convencida do fato,
foi despertá-la. A imperatriz se dirigiu também para a sala do trono e viu lá
a sua imagem. Ordenou a uma sentinela que fizesse fogo; imediatamente
desapareceu a imagem. A imperatriz morreu três meses depois.”
8. “Um estudante, chamado Elger, tornou-se muito melancólico,
depois de se ter visto a si mesmo com o costume vermelho que habitual
mente usava. Nunca via o seu rosto, mas apenas os contornos de uma
forma vaporosa que se lhe assemelhava e sempre ao cair da tarde ou ao luar.
Via a imagem no lugar onde estivera por longo tempo a estudar.”
9. “Uma governanta francesa, Émilie Sagée, perdeu 19 vezes esse
cargo, porque aparecia por toda parte em duplo. As moças de um pensio
nato em Neuwelke, na Livônia, viram-na algumas vezes no salão ou no
jardim, ao mesmo tempo que, em realidade, ela se achava algures. Doutras
vezes, viam, diante do quadro-negro, duas senhoritas Sagée, uma ao lado
da outra, exatamente iguais, fazendo os mesmos movimentos, com a única
diferença de que só a verdadeira Sagée tinha na mão um pedaço de giz,
com que escrevia no quadro.”
A obra do Sr. Perty contém grande número de fatos deste gênero. É
de notar-se que, em todos os casos citados, o princípio inteligente se mostra
do mesmo modo ativo nos dois indivíduos e, até, mais ativo no ser material,
quando o contrário é que deveria dar-se. Mas o que nos parece radicalmente
impossível é que haja antagonismo, divergência de ideias, de pensamentos
e de sentimentos nos dois seres. Entretanto, essa divergência é manifesta,
sobretudo, no fato no 4, em o qual um previne o outro de sua morte, e no
no 7, em que a imperatriz manda fazer fogo contra o seu outro eu.
Admitindo-se a divisão do perispírito e uma força fluídica suficiente
a manter a atividade normal no corpo; supondo-se também a divisão do
princípio inteligente, ou uma irradiação sua capaz de animar os dois seres
e de lhe facultar uma espécie de ubiquidade, esse princípio, que é uno,
tem que se conservar idêntico; não poderia, pois, haver, de um lado, uma
vontade que não existisse do outro, a menos se admita que haja Espíritos
gêmeos, como há corpos gêmeos, isto é, que dois Espíritos se identifiquem
para encarnar num só corpo, o que não é concebível.
Se, em todas essas histórias fantásticas, alguma coisa há que se deva
guardar, também há muito que repudiar, havendo ainda a parte pertencen
te à lenda. Longe de nos induzir a aceitá-las cegamente, o Espiritismo nos
ajuda a separar o verdadeiro do falso, o possível do impossível, mediante
leis que nos revela, concernentes à constituição e ao papel do elemento
espiritual. Não nos apressemos, todavia, em rejeitar a priori tudo o que
não compreendemos, porque muito distante estamos de conhecer todas as
leis e porque a Natureza ainda nos não patenteou todos os seus segredos.
O Mundo Invisível é um campo ainda novo de observações e seríamos
presunçosos se pretendêssemos haver sondado todas as suas profundezas,
quando incessantemente novas maravilhas se ostentam aos nossos olhos.
Entretanto, há fatos cuja impossibilidade material a lógica e as leis conhe
cidas demonstram. Tal, por exemplo, o que vem relatado na Revista Espí
rita de fevereiro de 1859, sob a epígrafe: Meu amigo Hermann. Trata-se de
um jovem alemão da alta roda, delicado, atencioso, de bom caráter, que,
todas as tardes, ao pôr do sol, caía em estado de morte aparente, durante
o qual seu Espírito despertava nos antípodas, na Austrália, em o corpo de
um bandido que acabava sendo enforcado.
O simples bom senso demonstra que, admitida como possível essa
dualidade corpórea, o mesmo Espírito não pode ser, alternativamente, um
homem honesto, durante o dia, num corpo e, à noite, um bandido, noutro
corpo. Quem diga que o Espiritismo acredita em tais histórias prova que
não o conhece, pois que, ao contrário, ele fornece os meios de evidenciar
a absurdidade delas. Mas, ao mesmo tempo que demonstra o erro de uma
crença, prova que muitas vezes essa crença repousa num princípio verda
deiro, desfigurado ou exagerado pela superstição. Cumpre se destaque o
fruto da casca que o envolve.
Que contos ridículos se não engendraram sobre o raio, antes que se
conhecesse a lei da eletricidade! Outro tanto se dá no que concerne às re
lações do mundo visível com o Mundo Invisível. Tornando conhecida a lei
que preside a essas relações, o Espiritismo as coloca no terreno da realida
de. Esta realidade, porém, ainda é excessiva para os que não admitem nem
almas, nem Mundo Invisível. Ao ver desses, é superstição tudo o que sai
dos limites do mundo visível e tangível. Tal a razão por que achincalham
o Espiritismo.
Nota – A questão, muito interessante, dos homens duplos e a dos agêneres, que
àquela se liga intimamente, até agora a ciência espírita as relegou para segundo
plano, à falta de documentos para completa elucidação de uma e outra. Essas ma
nifestações, por muito singulares que sejam, por incríveis que pareçam à primeira
vista, sancionadas pelas narrativas dos mais sérios historiadores da Antiguidade
e da Idade Média, confirmadas por fatos recentes, anteriores ao advento do Es
piritismo, ou contemporâneos, de modo nenhum podem ser postas em dúvida.
O livro dos médiuns, no artigo intitulado: Visitas espirituais entre pessoas vivas, e
a Revista Espírita, em muitas passagens, confirmam a realidade de tais manifes
tações de forma absolutamente incontestável. De um confronto e de um exame
aprofundado de todos esses fatos, talvez ressaltasse uma solução pelo menos par
cial da questão e a eliminação de algumas das dificuldades que parecem envolvê-la.
Muito gratos ficaríamos àqueles dos nossos correspondentes que se dignassem de
fazer dessa questão um estudo especial, quer pessoalmente, quer por intermédio
dos Espíritos, e de nos comunicarem o resultado de suas pesquisas, no interesse,
bem entendido, da difusão da verdade.
Percorrendo rapidamente os anos anteriores da Revista e considerando os fatos assi
nalados e as teorias enunciadas para explicá-los, chegamos à conclusão de que talvez
conviesse separar os fenômenos em duas categorias bem distintas, o que permitiria
se lhes dessem explicações diferentes e se demonstrasse que são mais aparentes do
que reais as impossibilidades que se levantam contra a aceitação pura e simples dos
mesmos fenômenos. (Vejam-se a respeito os artigos da Revista Espírita de janeiro
de 1859, O louquinho de Bayonne; fevereiro de 1859, Os agêneres e Meu amigo
Hermann; maio de 1859, O laço entre o Espírito e o corpo; novembro de 1859, A
alma errante; janeiro de 1860, O Espírito de um lado e o corpo do outro; março de
1860, Estudo sobre o Espírito das pessoas vivas, O doutor V... e a senhorita S...; abril
de 1860, O fabricante de São Petersburgo, Aparições tangíveis; novembro de 1860,
História de Maria de Agreda; julho de 1861, Uma aparição providencial etc. etc).
A faculdade de expansão dos fluidos perispiríticos já está sobejamente demonstrada
pelas mais dolorosas operações cirúrgicas realizadas em doentes adormecidos, quer
pelo clorofórmio e o éter, quer pelo magnetismo animal. Não raro, com efeito,
estes últimos conversam de coisas agradáveis com os assistentes, ou se transportam
para longe, em Espírito, enquanto o corpo se retorce com todas as aparências de
estar experimentando as mais horríveis torturas. A máquina humana, imobilizada
no todo ou em parte, é retalhada pelo escalpelo brutal do cirurgião, os músculos se
agitam, crispam-se os nervos e transmitem a sensação ao aparelho cerebroespinhal,
mas a alma, que é quem, no estado normal, sente a dor e a manifesta exteriormen
te, afastada, por alguns momentos, do corpo sujeito à operação, dominada por
outras ideias, por outras ações, só muito surdamente é avisada do que se passa no
seu envoltório mortal e se conserva perfeitamente insensível. Quantas vezes não
se têm visto soldados gravemente feridos, absorvidos pelo ardor do combate, a
perder sangue e forças, combaterem por muito tempo ainda, sem se aperceberem
de seus ferimentos? Um homem vivamente preocupado recebe um golpe violento
sem sentir coisa alguma, e só quando cessa a abstração da sua inteligência, reco
nhece tê-lo atingido a sensação dolorosa que experimenta. A quem não aconteceu
ainda, durante uma profunda contenção do Espírito, passar pelo meio de uma
multidão tumultuosa e ululante, sem nada ver, nem ouvir, embora o nervo óptico
e o aparelho auditivo hajam percebido e transmitido à alma as sensações?
Pelos casos que precedem e por uma imensidade de fatos que seria ocioso re
produzir aqui, mas que a todos é possível conhecer e apreciar, torna-se fora de
dúvida que o corpo pode desempenhar suas funções orgânicas, estando longe o
Espírito, levado por preocupações de outra ordem. Indefinidamente expansível,
conservando ao corpo a elasticidade e a atividade necessárias à sua existência, o pe
rispírito acompanha constantemente o Espírito durante a sua prolongada viagem
pelo mundo ideal.
Se, ademais, considerarmos a propriedade, muito conhecida, que ele possui, de
condensar-se, propriedade que lhe permite tornar-se visível sob aparências cor
póreas aos médiuns videntes e, embora mais raramente, a quem quer que se ache
presente no lugar para onde o Espírito se haja transportado, não poderemos pôr
em dúvida a possibilidade do fenômeno da ubiquidade.
Temos, pois, como demonstrado que uma pessoa viva pode aparecer simultanea
mente em dois lugares afastados um do outro: num, com o seu corpo real; no ou
tro, com o seu perispírito momentaneamente condensado sob a aparência de suas
formas materiais. Entretanto, de acordo nisto, como sempre, com Allan Kardec,
não podemos admitir a ubiquidade, senão quando reconhecemos identidade per
feita nos modos por que se comporta o ser aparente. Tais, por exemplo, os fatos
anteriormente citados, nos 1 e 2. Quanto aos fatos que se seguem a esses e que
consideramos inexplicáveis, se lhes aplicamos a teoria da ubiquidade, logo nos
parecem, senão indiscutíveis, pelo menos admissíveis, desde que considerados de
outro ponto de vista.
Nenhum dos nossos leitores ignora que os Espíritos desencarnados têm a facul
dade de mostrar-se, sob aparência material, em certas circunstâncias e, em parti
cular, aos médiuns videntes. Contudo, em bom número de casos, tais como os
das aparições visíveis e tangíveis para uma multidão, ou para umas tantas pessoas,
evidente se faz que a percepção da aparição não é devida à faculdade mediúnica
dos assistentes, mas à realidade da aparência corpórea do Espírito e, nessa circuns
tância, como nos casos de ubiquidade, essa aparência corpórea resulta da conden
sação do aparelho perispirítico. Ora, se, as mais das vezes, os Espíritos, para se
tomarem reconhecíveis, se apresentam tais quais eram em vida, com as vestes que
habitualmente usavam, impossível não há de ser que se apresentem vestidos de
modo diferente, ou mesmo sob aspectos quaisquer, como, por exemplo, O louqui
nho de Bayonne, que aparecia ora sob a sua forma pessoal, ora com a figura de um
irmão seu, já igualmente morto, ora sob o aspecto de pessoas vivas e até presentes.
O Espírito tinha o cuidado de fazer lhe reconhecessem a identidade, sem embargo
das várias formas sob que se apresentava. Nada, porém, teria ele feito, se não fosse
evidente que as testemunhas da manifestação estavam persuadidas de que assis
tiam a um fenômeno de ubiquidade.
Se, considerando como um precedente esse fato, que absolutamente não é único,
procurarmos explicar os de nos 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9, talvez se nos torne possível
aceitar-lhes a realidade, ao passo que, admitida a ubiquidade, a incompatibilidade
das ideias, o antagonismo dos sentimentos e a atividade do organismo das duas
partes não nos permitem considerá-los possíveis.
No fato no 4 se, em vez de imaginarmos o professor Becker em presença do seu
sósia, admitirmos que ele tinha diante de si um Espírito que lhe aparecia com o
seu aspecto, deixa de haver qualquer antagonismo e o fenômeno entra no domínio
do possível. O mesmo se dá com o fato no 7. Não se compreende que Elisabeth
da Rússia haja mandado atirar sobre a sua própria imagem, mas admite-se per
feitamente que o haja feito contra um Espírito que tomara a sua aparência para
mistificá-la. Alguns Espíritos tomam às vezes nomes de empréstimo e adotam o
estilo e as formas de dizer de outro, para alcançarem a confiança dos médiuns e
conseguirem penetrar nos grupos. Que haveria de impossível que a um Espírito
orgulhoso aprouvesse tomar a forma da imperatriz Elisabeth e sentar-se no seu
trono, a fim de dar vã satisfação aos seus sonhos ambiciosos? O mesmo se pode
dizer com relação a outros fatos.
Esta explicação damo-la apenas pelo que possa valer. Não passa, para nós, de uma
suposição bastante plausível; não é a solução real do problema. Mas qual a apre
sentamos, ela nos parece de natureza a esclarecer a questão, de atrair para esta as
luzes da discussão e da refutação. A esse título é que a submetemos aos nossos lei
tores. Possam as reflexões que provoque, as meditações a que abra ensejo cooperar
para a elucidação de um problema que apenas esfloramos, deixando que outros
mais dignos de o fazerem dissipem a obscuridade que ainda a envolvem.
Controvérsias sobre a ideia da existência de seres intermediários entre o homem e Deus
N., 4 de fevereiro de 1867.
Caro Mestre,
Algum tempo já faz que não dou sinal de vida. Muito ocupado sem
pre, durante a minha estada em Lyon, não pude ter conhecimento tão
perfeito, quanto desejara, do estado atual da Doutrina, neste grande cen
tro. A uma única reunião espírita assisti. Entretanto, cheguei a comprovar
que, neste meio, a primitiva fé continua sendo qual deve ser nos corações
verdadeiramente sinceros.
Em diversos outros Centros do Meio-dia, ouvi discutirem a seguin
te opinião externada por alguns magnetizadores: que muitos fenômenos,
ditos espíritas, são simples efeitos de sonambulismo e que o Espiritismo
mais não fez do que se substituir ao magnetismo, ou, antes, do que lhe
substituir ridiculamente o nome. É, como vedes, um novo ataque dirigido
contra a mediunidade. Assim, segundo essas pessoas, tudo o que escre
vem os médiuns resulta das faculdades da alma encarnada; é esta quem,
desprendendo-se momentaneamente, lê o pensamento das pessoas presen
tes; é ela quem vê, a distância, e prevê os acontecimentos; quem, por meio
de um fluido magnético-espiritual, agita, levanta, derriba mesas, ouve os
sons etc. Tudo, em suma, assentaria na essência anímica, sem a intervenção
de seres puramente espirituais.
Direis que não vos dou nenhuma novidade. Eu mesmo, com efeito,
tenho ouvido, desde alguns anos, a sustentação dessa tese por parte de al
guns magnetizadores. Agora, porém, procuram implantar essas ideias que,
a meu ver, são contrárias à verdade. É sempre errôneo cair nos extremos e
tanto exagero há em tudo atribuir-se ao Magnetismo, quanto haveria, da
parte dos espíritas, em negarem as leis do Magnetismo. Não se poderiam
arrebatar à matéria as leis magnéticas, como não se poderiam arrebatar ao
Espírito as leis puramente espirituais.
Onde acaba o poder da alma sobre os corpos? Qual a parte dessa
força inteligente nos fenômenos do Magnetismo? Qual a do organismo?
Aí estão questões de muito interesse, questões graves para a Filosofia, como
para a Medicina.
Aguardando a solução desses problemas, citar-vos-ei algumas pas
sagens de Charpignon, o doutor de Orléans, partidário da transmissão do
pensamento. Vereis que ele se reconhece impotente para demonstrar que,
na visão propriamente dita, a causa reside na extensão do simpático orgânico,
como o pretendem muitos autores.
Diz, à p. 289:
Acadêmicos, duplicai o trabalho dos vossos candidatos; moralistas, promulgai leis
para a sociedade, para o mundo, esse mundo que de tudo ri, que quer os seus go
zos, desprezando as Leis de Deus e os direitos do homem e que zomba dos vossos
esforços, porque tem a seu serviço uma força de que não suspeitais e que deixastes
crescesse de tal maneira, que não sois senhores de contê-la.
À p. 323:
Compreendemos muito bem, até aqui, o modo de transmissão do pensamen
to, mas somos incapazes de compreender, por meio dessas Leis de simpatia
harmônica, o sistema pelo qual o homem forma em si mesmo tal ou tal pen
samento, tal ou tal imagem, e a solicitação de objetos exteriores. Isso está
fora das propriedades do organismo e a Psicologia, achando nessa faculdade
rememorativa ou criadora, conforme o desejo do homem, alguma coisa de
antagônico com as propriedades do organismo, fá-la depender de um ser subs
tancial, diferente da matéria. Começamos, então, a encontrar, no fenômeno
do pensamento, algumas lacunas entre a capacidade das leis fisiológicas do
organismo e o resultado obtido. O rudimento do fenômeno, se assim nos
podemos exprimir, é bem fisiológico, mas a sua extensão, verdadeiramente
prodigiosa, não o é. E, aqui, necessário se torna admitir que o homem goza de
uma faculdade que não pertence a nenhum dos dois elementos materiais de
que, até o presente, o temos visto composto. O observador de boa-fé reconhe
cerá, pois, uma terceira parte que entrará na composição do homem, parte que
começa a se lhe revelar, do ponto de vista da Psicologia magnética, por meio de
caracteres novos, e que se relacionam com o que os filósofos atribuem à alma.
A existência, porém, da alma se encontra mais fortemente demonstrada pelo es
tudo de algumas outras faculdades do sonambulismo magnético. Assim, a visão
a distância, quando completa e nitidamente destacada da transmissão do pensa
mento, não poderia, segundo a nossa maneira de ver, explicar-se pela extensão do
simpático orgânico.
Depois, à p. 330:
“Tínhamos, como se vê, grandes motivos para avançar que o estu
do dos fenômenos magnéticos guarda fortes relações com a Filosofia e a
Psicologia. Assinalamos um trabalho a ser feito e a fazê-lo convidamos os
homens da especialidade”.
Nas páginas seguintes, trata dos seres imateriais e de suas possíveis
relações com as nossas individualidades.
Para nós, é fora de dúvida e precisamente por motivo das leis psicológicas que
esboçamos neste trabalho, que a alma humana pode ser esclarecida diretamente,
ou por Deus, ou por uma outra inteligência. Cremos que essa comunicação so
brenatural pode dar-se, assim no estado normal, como no estado extático, seja
espontâneo, seja artificial.
“Mas insistimos em dizer que a previsão natural no homem é limita
da e não poderia ser tão precisa, tão constante e tão amplamente exposta,
como as previsões feitas pelos profetas sagrados, ou por homens que ti
nham a inspirá-los uma inteligência superior à alma humana”.
A Ciência e a crença no mundo sobrenatural são dois termos antagônicos, mas
apressamo-nos a dizê-lo, são-no em consequência das exagerações que surgiram
dos dois lados. É possível, ao nosso parecer, que a Ciência e a lei façam aliança;
então, o espírito humano se achará no nível da sua perfectibilidade terrestre.
O Antigo, tanto quanto o Novo Testamento, assim como os anais de todos os
povos, estão cheios de fatos que não se podem explicar, a não ser pela ação de seres
superiores ao homem. Aliás, os estudos de Antropologia, de Metafísica e de Onto
logia provam a realidade da existência de seres imateriais entre o homem e Deus e
a possibilidade de eles influírem sobre a espécie humana.
Agora, a opinião de uma das principais autoridades em Magnetismo,
sobre a existência de seres fora da Humanidade. Extraímo-la da correspon
dência de Deleuze com o Dr. Billot:
O único fenômeno que parece comprovar a comunicação com os seres imateriais
são as aparições, das quais há muitos exemplos. Como estou convencido da imor
talidade da alma, não encontro razões para negar a possibilidade da aparição das
pessoas que, tendo deixado esta vida, se preocupam com os que aqui lhes foram caros
e vêm apresentar-se-lhes, para lhes darem salutares conselhos.
O Dr. Ordinaire, de Mâcon, outra autoridade na matéria, assim se
exprime:
O fogo sagrado, a influência secreta (de Boïleau), a inspiração, não provêm, pois,
de tal ou tal contextura, como o pretendem os frenologistas, mas de uma alma
poética, em relação com um Gênio ainda mais poético. O mesmo com relação à
música, à pintura etc. Essas inteligências superiores não seriam almas desprendidas
da matéria e que se elevam gradualmente, à medida que se depuram, até a grande,
a universal inteligência que as abrange todas, até Deus? Não tomariam lugar as
nossas almas, após diversas migrações, entre esses seres materiais?
Diz o mesmo autor:
Do que precede, concluímos: que o estudo da alma ainda está na infância; que,
existindo, do pólipo ao homem, uma série de inteligências e sendo certo que nada
em a Natureza se interrompe bruscamente, é racional que exista, do homem a
Deus, outra série de inteligências. O homem é o elo que liga as inteligências in
feriores, associadas à matéria, às inteligências superiores, imateriais. Do homem
a Deus desdobra-se uma série semelhante à que vai do pólipo ao homem, isto é,
uma série de seres etéreos, mais ou menos perfeitos, no gozo de especialidades
diversas, com empregos e funções variadas.
Que essas inteligências superiores se revelam tangivelmente no sonambulismo
artificial;
Que essas inteligências têm relações íntimas com as nossas almas;
Que a essas inteligências é que devemos os remorsos, quando praticamos o mal, e o
contentamento, quando praticamos uma boa ação;
Que a essas inteligências é que os homens superiores devem as boas inspirações;
Que a essas inteligências é que os extáticos devem a faculdade de prever o futuro e
de anunciar acontecimentos porvindouros;
Enfim, que, para atuar sobre essas inteligências e torná-las propícias, ação podero
sa têm a virtude e a prece.
Nota – A opinião de tais homens, e eles não são os únicos, tem decerto um valor
que ninguém poderia contestar; porém, nunca passaria de uma opinião mais ou
menos racional, se a observação não a confirmasse. O Espiritismo está todo nas
ideias que acabamos de citar; apenas, ele as completa por meio de observações
especiais e as coordena, imprimindo-lhes a sanção da experiência.
Os que se obstinam em negar a existência do Mundo Espiritual, sem poderem, con
tudo, negar os fatos, se esfalfam por lhes encontrar a causa exclusivamente no mundo
corpóreo. Mas uma teoria, para ser verdadeira, tem que explicar todos os fatos a que
diz respeito; um único fato contraditório a destrói, porquanto não há exceções nas Leis
da Natureza. Foi o que aconteceu à maioria das que no princípio se imaginaram para
explicar os fenômenos espíritas. Quase todas caíram, uma a uma, diante de fatos que
elas não abrangiam. Depois de haverem experimentado, sem resultado algum, todos
os sistemas, forçoso se tornou volverem às teorias espíritas, como as mais concludentes,
porque, não tendo sido formuladas prematuramente e sobre observações feitas à pres
sa, abrangem todas as variedades, todos os matizes dos fenômenos. O que fez fossem
aceitas tão rapidamente pela maioria das gentes foi que cada um achou nelas a solução
completa e satisfatória para o que inutilmente procuram resolver por outras vias.
Entretanto, muitos ainda as repelem, o que é comum a todas as grandes ideias
novas que mudam os hábitos e as crenças, as quais todas esbarraram durante longo
tempo em contraditores obstinados, mesmo entre os homens mais esclarecidos.
Um dia, porém, chega em que o que é verdadeiro sobreleva o que é falso e todos se
admiram da oposição que lhe moveram, tão natural parece o que fora repelido. O
mesmo se dará com o Espiritismo, sendo de notar-se que de todas as grandes ideias
que hão revolucionado o mundo, nenhuma conquistou em tão pouco tempo tão
grande número de adeptos em todos os países e em todas as camadas sociais. Tal
a razão por que os espíritas, cuja fé não é cega, antes se funda na observação, não
se preocupam nem com os seus contraditores, nem com os que lhes partilham das
ideias. Eles ponderam que, ressaltando das próprias Leis da Natureza, em vez de
basear-se numa derrogação dessas leis, não pode a Doutrina deixar de prevalecer,
desde que essas leis sejam reconhecidas.
Como todos sabem, não é nova a ideia da existência de seres intermediários entre
Deus e o homem. Em geral, porém, toda gente supunha que esses seres cons
tituíam uma criação à parte. As religiões os designaram pelos nomes de anjos
e demônios, os pagãos lhes chamavam deuses. Provando que tais seres não são
senão as almas dos homens em diferentes graus da escala espiritual, o Espiritismo
reintegra a criação na unidade grandiosa que é a essência mesma das Leis divinas.
Em vez de uma imensidade de criações estacionárias, que implicariam, da parte da
Divindade, capricho ou parcialidade, ele mostra haver uma única, essencialmente
progressiva, sem privilégio para qualquer criatura, elevando-se cada individualida
de do estado de embrião ao de desenvolvimento completo, como o gérmen que
da semente se eleva ao estado de árvore. O Espiritismo, pois, revela a unidade, a
harmonia e a justiça na Criação. Segundo ele, os demônios são as almas atrasadas,
ainda prenhes dos vícios da Humanidade; os anjos são essas mesmas almas depu
radas e desmaterializadas; entre esses dois pontos extremos, a multidão das almas
nos diferentes graus da escala progressiva. Estabelece desse modo a solidariedade
entre o Mundo Espiritual e o mundo corpóreo.
Quanto à questão proposta: “Nos fenômenos espíritas ou sonambúlicos, qual o
limite onde cessa a ação própria da alma e começa a dos Espíritos?” — diremos
que semelhante limite não existe, ou, melhor, que nada tem de absoluto. Desde
que não há espécies distintas, que a alma é apenas um Espírito encarnado, e o
Espírito apenas uma alma desprendida dos liames terrenos; que uma e outro
são um mesmo ser em meios diferentes, as faculdades e aptidões têm que ser as
mesmas. O sonambulismo é um estado transitório entre a encarnação e a desen
carnação, um estado de desprendimento parcial, um pé antecipadamente posto
no Mundo Espiritual.
A alma encarnada, ou, se o preferirem o próprio Espírito do sonâmbulo ou do
médium, pode, portanto, fazer quase o que fará a alma desencarnada e até mais,
se for mais adiantado, com a única diferença, todavia, de que, estando mais livre
pelo seu desprendimento completo, a alma tem percepções especiais inerentes ao
seu estado.
É por vezes muito difícil distinguir, num dado efeito, o que provém diretamente
da alma do médium do que promana de uma causa estranha, porque com fre
quência as duas ações se confundem e convalidam. É assim que nas curas por im
posição das mãos, o Espírito do médium pode atuar por si só, ou com a assistência
de outro Espírito; que a inspiração poética ou artística pode ter dupla origem.
Mas do fato de ser difícil fazer-se uma distinção como essa não se segue seja ela
impossível. Não raro, a dualidade é evidente e, em todos os casos, quase sempre
ressalta de atenta observação.
Causa e natureza da
clarividência sonambúlica
Explicação do fenômeno da lucidez
Sendo de natureza diversa das que ocorrem no estado de vigília, as
percepções que se verificam no estado sonambúlico não podem ser trans
mitidas pelos mesmos órgãos. É sabido que neste caso a visão não se efetua
por meio dos olhos que, aliás, se conservam, em geral, fechados e que até
podem ser abrigados dos raios luminosos, de maneira a afastar todo motivo
de suspeita. Ademais, a visão a distância e através dos corpos opacos exclui
a possibilidade do uso dos órgãos ordinários da vista. Forçoso é, pois, se
admita que no estado de sonambulismo um sentido novo se desenvolve,
como sede de faculdades e de percepções novas, que desconhecemos e das
quais não nos podemos aperceber, senão por analogia e pelo raciocínio.
Bem se vê que nada de impossível há nisso, mas qual a sede desse novo sen
tido? Não é fácil determiná-la com exatidão. Nem mesmo os sonâmbulos
fornecem a tal respeito qualquer indicação precisa. Uns há que, para verem
melhor, aplicam os objetos sobre o epigástrio, outros sobre a fronte, outros
no occipital. O sentido de que se trata não parece, portanto, circunscrito
a um lugar determinado; é, todavia, certo que a sua maior atividade reside
nos centros nervosos. O que é positivo é que o sonâmbulo vê. Por onde e
como? É o que nem ele mesmo pode explicar.
Notemos, porém, que, no estado sonambúlico, os fenômenos da
visão e as sensações que o acompanham são essencialmente diferentes do
que se passa no estado ordinário, pelo que não nos serviremos do termo
ver, senão por comparação e por nos faltar naturalmente um com que
designemos uma coisa desconhecida. Um povo composto de cegos de
nascença certo careceria de uma palavra para designar a luz e referiria as
sensações que ela produz a alguma das que lhe fossem familiares por lhes
estar ele sujeito.
Alguém procurava explicar a um cego a impressão viva e deslum
brante da luz sobre os olhos. Compreendo, disse ele, é como o som de uma
trombeta. Outro, um pouco mais prosaico sem dúvida, ao qual queriam
fazer que compreendesse a emissão dos raios luminosos em feixes ou co
res, respondeu: Ah! sim, é como um pão de açúcar. Estamos nas mesmas
condições, relativamente à lucidez sonambúlica: somos verdadeiros cegos
e, do mesmo modo que estes últimos com relação à luz, comparamo-la ao
que tem mais analogia com a nossa faculdade visual. Mas, se quisermos
estabelecer uma analogia absoluta entre essas duas faculdades e julgar de
uma pela outra, forçosamente nos enganaremos, como os dois cegos que
acabamos de citar. É esse o erro de quase todos os que procuram preten
samente convencer-se pela experiência: intentam submeter a clarividência
sonambúlica às mesmas provas que a vista ordinária, sem ponderarem
que entre elas a única relação existente é a do nome que lhes damos. Daí,
como os resultados nem sempre lhes correspondem à expectativa, acham
mais simples negar.
Se procedermos por analogia, diremos que o fluido magnético, dis
seminado por toda a Natureza e cujos focos principais parece que são os
corpos animados, é o veículo da clarividência sonambúlica, como o fluido
luminoso é o veículo das imagens que a nossa faculdade visual percebe.
Ora, assim como o fluido luminoso torna transparentes corpos que ele
atravessa livremente, o fluido magnético, penetrando todos os corpos sem
exceção, torna inexistentes os corpos opacos para os sonâmbulos. Tal a ex
plicação mais simples e mais material da lucidez, falando do nosso ponto
de vista. Temo-la como certa, porquanto o fluido magnético incontestavel
mente desempenha importante papel nesse fenômeno; ela, entretanto, não
poderia elucidar todos os fatos. Há outra que os abrange todos, mas, para
expô-la, fazem-se indispensáveis algumas explicações preliminares.
Na visão a distância, o sonâmbulo não distingue um objeto ao longe,
como o faríamos nós com o auxílio de uma luneta. Não é que o objeto, por
uma ilusão de óptica, se aproxime dele, ELE É QUE SE APROXIMA DO
OBJETO. O sonâmbulo vê o objeto exatamente como se este se achasse a
seu lado; vê-se a si mesmo no lugar que ele observa; numa palavra: trans
porta-se para esse lugar. Seu corpo, no momento, parece extinto, a palavra
lhe sai mais surda, o som da sua voz apresenta qualquer coisa de singular; a
vida animal também parece que se lhe extingue; a vida espiritual está toda
no lugar aonde o transporta o seu próprio pensamento: somente a matéria
permanece onde estava. Há pois uma certa porção do ser que se lhe separa
do corpo e se transporta instantaneamente através do espaço, conduzida
pelo pensamento e pela vontade. Evidentemente, é imaterial essa porção; a
não ser assim, produziria alguns dos efeitos que a matéria produz. É a essa
parcela de nós mesmos que chamamos: a alma.
É a alma que confere ao sonâmbulo as maravilhosas faculdades de
que ele goza. A alma é quem, dadas certas circunstâncias, se manifesta,
isolando-se em parte e temporariamente do seu invólucro corpóreo. Para
quem quer que haja observado com atenção os fenômenos do sonambulis
mo em toda a sua pureza, é patente a existência da alma, tornando-se-lhe
uma insensatez demonstrada até a evidência a ideia de que tudo em nós
acaba com a vida animal. Pode-se, pois, dizer com alguma razão que o
magnetismo e o materialismo são incompatíveis. Se alguns magnetizadores
se afastam desta regra e professam as doutrinas materialistas, é sem dúvida
que se hão cingido a um estudo muito superficial dos fenômenos físicos do
Magnetismo e não procuram seriamente a solução do problema da visão
a distância. Como quer que seja, nunca vimos um único sonâmbulo que
não se mostrasse penetrado de profundo sentimento religioso, fossem quais
fossem suas opiniões no estado vígil.
Voltemos à teoria da lucidez. Sendo a alma o princípio básico das
faculdades do sonâmbulo, necessariamente nela é que reside a clarividên
cia, e não nesta ou naquela parte circunscrita do corpo material. Essa a
razão por que o sonâmbulo não pode indicar o órgão dessa faculdade,
como designaria os olhos, se se tratasse da visão exterior. Ele vê por todo
o seu ser moral, isto é, por toda a sua alma, visto que a clarividência é um
dos atributos de todas as partes da alma, como a luz é um dos atributos de
todas as partes do fósforo. Onde quer, pois, que a alma possa penetrar, há
clarividência; essa a causa da lucidez dos sonâmbulos através de todos os
corpos, sob os mais espessos envoltórios e a todas as distâncias.
Uma objeção, como é natural, se apresenta a esse sistema e apressa
mo-nos a responder a ela. Se as faculdades sonambúlicas são as mesmas da
alma desprendida da matéria, por que não são constantes essas faculdades?
Por que alguns sonâmbulos são mais lúcidos do que outros? Por que, num
mesmo indivíduo, a lucidez é variável? Concebe-se a imperfeição física de
um órgão, mas não se concebe a da alma.
Esta se acha presa ao corpo por laços misteriosos que não nos fora
dado conhecer antes que o Espiritismo houvesse demonstrado a existência
e o papel do perispírito. Tendo sido esta questão tratada de modo especial
na Revista Espírita e nas obras fundamentais da Doutrina, não nos esten
deremos aqui sobre ela, limitando-nos a dizer que é pelos nossos órgãos
materiais que a alma se manifesta ao exterior. Em nosso estado normal,
essas manifestações ficam naturalmente subordinadas à imperfeição do
instrumento, do mesmo modo que o melhor artífice não pode fazer obra
perfeita com utensílios ruins. Assim, por muito admirável que seja a estru
tura do nosso corpo, qualquer que tenha sido a providência da Natureza,
com relação ao nosso organismo, para o exercício das funções vitais, acima
desses órgãos sujeitos a todas as perturbações da matéria, há a sutileza da
nossa alma. Enquanto, pois, ela se conserva presa ao corpo, sofre-lhe os
entraves e as vicissitudes.
O fluido magnético não é a alma; é um liame, um intermediário
entre a alma e o corpo. Atuando mais ou menos sobre a matéria é que
ele torna mais ou menos livre a alma, donde a diversidade das faculdades
sonambúlicas. O sonâmbulo é o homem despojado apenas de uma parte
das suas vestiduras e cujos movimentos são embaraçados pelo que lhe resta
dessas vestiduras.
Somente quando tem alijado de si os últimos restos da ganga ter
rena, como a borboleta que abandona a sua crisálida, encontra-se a alma
na plenitude de si mesma e goza de liberdade completa no uso de suas
faculdades. Se houvesse um magnetizador bastante poderoso para dar li
berdade absoluta à alma, romper-se-ia o liame terrestre e a morte imediata
se seguiria. O sonambulismo, portanto, fez que puséssemos o pé na vida
futura; ergueu uma ponta do véu sob que se ocultam as verdades que o
Espiritismo nos faz hoje entrever. Não na conheceremos, todavia, em sua
essência, senão quando nos houvermos desembaraçado por completo da
cobertura material que neste mundo a obscurece.
A segunda vista
Conhecimento do futuro – Previsões
Desde que no estado sonambúlico as manifestações da alma se tor
nam, de certo modo, ostensivas, fora absurdo supor que no estado nor
mal ela se ache confinada, de modo absoluto, em seu envoltório, como
o caramujo em sua concha. Não é de maneira alguma a influência mag
nética que a desenvolve; essa influência nada mais faz do que a tornar
patente pela ação que exerce sobre os órgãos corporais. Ora, nem sempre
o estado sonambúlico é condição indispensável a essa manifestação. As
faculdades que se revelam nesse estado desenvolvem-se algumas vezes
espontaneamente, no estado normal, em certos indivíduos. Resulta-lhes
daí a faculdade de verem as coisas distantes, por onde quer que a alma
estenda sua ação; veem, se podemos servir-nos desta expressão, através da
vista ordinária; e os quadros que descrevem, os fatos que narram se lhes
apresentam como efeitos de uma miragem. É o fenômeno a que se dá o
nome de segunda vista. No sonambulismo, a clarividência deriva da mes
ma causa; a diferença está em que, nesse estado, ela é isolada, independe
da vista corporal, ao passo que é simultânea nos que dessa faculdade são
dotados em estado de vigília.
Quase nunca é permanente a segunda vista. Em geral, o fenômeno
se produz espontaneamente, em dados momentos, sem ser por efeito da
vontade, e provoca uma espécie de crise que, algumas vezes, modifica sen
sivelmente o estado físico. O indivíduo parece olhar sem ver; toda a sua
fisionomia reflete uma como exaltação.
É de notar-se que as pessoas dotadas dessa faculdade não suspeitam
possuí-la. Ela se lhes afigura natural, como a de ver com os olhos. Consi
deram-na um atributo de seu ser e nunca uma coisa excepcional. Cumpre
acrescentar que muito amiúde o esquecimento se segue a essa lucidez pas
sageira, cuja lembrança, cada vez mais imprecisa, acaba por desvanecer-se
como a de um sonho.
Há infinitos graus na potencialidade da segunda vista, desde a sen
sação confusa, até a percepção tão nítida quanto no sonambulismo. Há
carência de um termo para designar-se esse estado especial e, sobretudo,
os indivíduos suscetíveis de experimentá-lo. Tem-se empregado a palavra
vidente, que, embora não exprima com exatidão a ideia, adotaremos até
nova ordem, em falta de outra melhor.
Se agora confrontarmos os fenômenos de segunda vista com os da
clarividência sonambúlica, compreenderemos que o vidente possa perce
ber coisas que lhe estejam fora do alcance da visão ordinária, do mesmo
modo que o sonâmbulo vê, a distância, acompanha o curso dos aconteci
mentos, aprecia-lhes a tendência e, em certos casos, lhes prevê o desenlace.
Esse dom da segunda vista é que, em estado rudimentar, dá a certas
pessoas o tato, a perspicácia, uma espécie de segurança aos atos, o que se
pode com justeza denominar: golpe de vista moral. Mais desenvolvido,
ele acorda os pressentimentos, ainda mais desenvolvido, faz ver aconteci
mentos que já se realizaram, ou que estão prestes a realizar-se; finalmente,
quando chega ao apogeu, é o êxtase vígil.
Como já dissemos, o fenômeno da segunda vista é quase sempre na
tural e espontâneo; parece, entretanto, que se produz com mais frequência
sob o império de determinadas circunstâncias. Os tempos de crise, de cala
midades, de grandes emoções, tudo, enfim, que sobre-excita o moral, que
provoca o desenvolvimento. Dir-se-ia que a Providência, diante de perigos
iminentes, multiplica em torno das criaturas a faculdade de prevê-los.
Videntes sempre os houve em todos os tempos e em todas as nações,
parecendo, no entanto, que alguns povos são mais naturalmente predis
postos a tê-los. Dizem que na Escócia é muito comum o dom da segunda
vista. Não se lhe nota a existência entre a gente do campo e os que habitam
nas montanhas.
Os videntes têm sido diversamente considerados, conforme os tem
pos, os costumes e o grau de civilização. Para os céticos, eles não passam de
cérebros desarranjados, de alucinados; as seitas religiosas os arvoraram em
profetas, sibilas, oráculos; nos séculos de superstição e ignorância, eram fei
ticeiros e acabavam nas fogueiras. Para o homem sensato, que acredita no
poder infinito da Natureza e na bondade inesgotável do Criador, a dupla
vista é uma faculdade inerente à espécie humana, por meio da qual Deus
nos revela a existência da nossa essência espiritual. Quem não reconheceria
um dom dessa natureza em Joana d’Arc e em toda uma multidão de outras
personagens que a história qualifica de inspiradas?
Muito se tem falado de pessoas que, deitando as cartas, disseram coi
sas de surpreendente verdade. De modo nenhum pretendemos fazer-nos
apologista dos ledores da “buena-dicha” que exploram a credulidade dos
Espíritos fracos e cuja linguagem ambígua se presta a todas as combina
ções de uma imaginação abalada, mas não é de todo impossível que certas
pessoas, fazendo disso um ofício, tenham o dom da segunda vista, mesmo
mau grado seu. Sendo assim, as cartas, entre as suas mãos, não passam
de um meio, de um pretexto, de uma base de conversação. Elas falam de
acordo com o que veem, e não com o que indicam as cartas para as quais
apenas olham.
O mesmo se dá com outros meios de adivinhação, tais como as li
nhas da mão, a clara de ovo e outros símbolos místicos. Os sinais das mãos
talvez tenham mais valor do que todos os outros meios, não por si mesmos,
mas porque, tomando e palpando a mão do consultante, o pretenso adivi
nho, se é dotado de dupla vista, estabelece relação mais direta com aquele,
como se verifica nas consultas sonambúlicas.
Podem incluir-se os médiuns videntes na categoria das pessoas que
possuem a dupla vista. Com efeito, do mesmo modo que estas últimas,
aqueles julgam ver com os olhos, mas, na realidade, a alma é que vê e
por essa razão é que eles veem tão bem com os olhos abertos como com
os olhos fechados. Segue-se, necessariamente, que um cego poderia ser
médium vidente, tanto quanto um que tenha perfeita a vista. Constituiria
estudo interessante indagar se essa faculdade é mais frequente nos cegos.
Somos levado a crê-lo, dado que, como se pode verificar experimental
mente, a privação de comunicar-se com o meio exterior, por falta de certos
sentidos, confere em geral poder maior à faculdade de abstração da alma
e, consequentemente, maior desenvolvimento ao sentido íntimo pelo qual
ela se põe em relação com o Mundo Espiritual.
Podem, pois, os médiuns videntes ser identificados às pessoas que
gozam da vista espiritual, mas seria porventura demasiado considerar essas
pessoas como médiuns, porquanto a mediunidade se caracteriza unicamen
te pela intervenção dos Espíritos, não se podendo ter como ato mediúnico
o que alguém faz por si mesmo. Aquele que possui a vista espiritual vê pelo
seu próprio Espírito, não sendo de necessidade, para o surto da sua facul
dade, o concurso de um Espírito estranho.
Isto posto, examinemos até que ponto a faculdade da dupla vista
pode permitir se descubram coisas ocultas e se penetre no futuro.
Desde todos os tempos, os homens hão querido conhecer o futuro
e volumes se poderiam escrever sobre os meios que a superstição inventou
para erguer o véu que encobre o nosso destino. Muito sábia foi a Natureza
no-lo ocultando. Cada um de nós tem a sua missão providencial na grande
colmeia humana e concorre para a obra comum na sua esfera de atividade.
Se soubéssemos de antemão o fim de cada coisa, é fora de dúvida que a har
monia geral ficaria perturbada. A segurança de um porvir ditoso tiraria ao
homem toda a atividade, pois que nenhum esforço precisaria ele empregar
para alcançar o objetivo que sempre colima: o seu bem-estar. Paralisar-se--iam todas as forças físicas e morais. As mesmas consequências produziria
a certeza da infelicidade, em virtude do desânimo que ganharia a criatura.
Ninguém se disporia a lutar contra a sentença definitiva do destino. O
conhecimento absoluto do futuro seria, portanto, um presente funesto,
que nos conduziria ao dogma da fatalidade, o mais perigoso de todos,
o mais antipático ao desenvolvimento das ideias. A incerteza quanto ao
momento do nosso fim neste mundo é que nos faz trabalhar até o último
batimento do nosso coração. O viajante levado por um veículo se entrega
ao movimento que o fará chegar ao ponto demandado, sem pensar em lhe
impor qualquer desvio, por estar certo da sua impotência para consegui-lo.
O mesmo se daria com o homem que conhecesse o seu destino irrevogável.
Se os videntes pudessem infringir essa Lei da Providência, igualar-se-iam à
Divindade. Por isso mesmo, não é essa a missão que lhes cabe.
No fenômeno da dupla vista, por se achar a alma parcialmente li
berta do envoltório material, que lhe limita as faculdades, não há duração,
nem distância; visto que lhe é dado abranger o espaço e o tempo, tudo se
lhe confunde no presente. Livre dos entraves da carne, ela julga dos efeitos
e das causas melhor do que nós, que não podemos fazer outro tanto; vê as a
consequências das coisas presentes e pode levar-nos a pressenti-las. É neste
sentido que se deve entender o dom de presciência atribuído aos videntes.
Suas previsões resultam de ter a alma consciência mais nítida do que existe,
e não de uma predição de coisas fortuitas, sem ligação com o presente. É
por dedução lógica do conhecido que ela chega ao desconhecido, depen
dente muitas vezes da nossa maneira de proceder. Quando um perigo nos
ameaça, se somos avisados, ficamos em condições de tentar tudo o que seja
preciso para evitá-lo, cabendo-nos a liberdade de fazê-lo ou não.
Em tal caso, o vidente tem diante de si um perigo que se nos acha
oculto; ele o assinala, indica o meio de afastá-lo, pois de outro modo o
acontecimento segue o seu curso.
Suponhamos que uma carruagem enveredou por uma estrada que
vai dar num precipício que o condutor não pode perceber. É evidente
que, se nada ocorrer que a desvie, ela ali se precipitará. Suponhamos tam
bém que um homem colocado de maneira a divisar a estrada em toda a
sua extensão, vendo o perigo que corre o viajante, consegue avisá-lo a
tempo de ele se desviar. O perigo estará conjurado. Da sua posição, domi
nando o espaço, o observador vê o que o viajante, cuja visão os acidentes
do terreno circunscrevem, não logra divisar. Pode ele ver se uma causa
fortuita obstará à queda do outro; conhece então, previamente, o que se
dará e prediz o acontecimento.
Imaginemos que esse homem, do alto de uma montanha, divise ao
longe, pela estrada, uma tropa inimiga dirigindo-se para uma aldeia a que
pretende atear fogo. Fácil lhe será, levados em conta o espaço e a veloci
dade, prever quando a tropa chegará. Se, então, descendo à aldeia, disser
apenas: A tal hora a aldeia será incendiada, caso o fato ocorra, ele passa
rá, aos olhos da multidão ignorante, por adivinho, feiticeiro; entretanto,
apenas viu o que os outros não podiam ver e deduziu, do que vira, as
consequências.
Ora, o vidente, como esse homem, apreende e acompanha o curso
dos acontecimentos; não lhes prevê o resultado porque possua o dom de
adivinhar: ele o vê e, desde então, pode dizer-vos se estais no bom caminho,
indicar-vos outro melhor e anunciar o que se vos deparará no extremo do
que seguis. É, para vós, o fio de Ariadne, mostrando a saída do labirinto.
Como se vê, longe está isso da predição propriamente dita, conforme
a entendemos na acepção vulgar do termo. Nada foi tirado ao livre-arbítrio
do homem, que conserva sempre a liberdade de agir ou não, de evitar ou
deixar que os acontecimentos se deem, por sua vontade, ou por sua inércia;
indica-se-lhe um meio de chegar ao fim, cabendo-lhe utilizá-lo. Supô-lo
submetido a uma fatalidade inexorável, com relação aos menores aconte
cimentos da vida, é despojá-lo do seu mais belo atributo: a inteligência;
é assimilá-lo ao bruto. O vidente, pois, não é um adivinho; é um ser que
percebe o que não vemos; é, para nós, o cão do cego. Nada nisto há, por
tanto, que se contraponha aos desígnios da Providência quanto ao segredo
de nosso destino; é ela própria quem nos dá um guia.
Tal o ponto de vista donde se deve considerar o conhecimento do
futuro, por parte das pessoas dotadas de dupla vista. Se fosse fortuito esse
futuro, se dependesse do a que se chama acaso, se nenhuma ligação tivesse
com as circunstâncias presentes, nenhuma clarividência poderia penetrá-lo
e nenhuma certeza, nesse caso, ofereceria qualquer previsão. O vidente (re
ferimo-nos ao que verdadeiramente o é), o vidente sério, e não o charlatão
que simula sê-lo, o verdadeiro vidente, não diz o que o vulgo denomina
“buena-dicha”; ele apenas prevê as consequências que decorrerão do pre
sente; nada mais e já é muito.
Quantos erros, quantos passos em falso, quantas tentativas inúteis
não evitaríamos, se tivéssemos sempre um guia seguro a nos esclarecer;
quantos homens se acham deslocados na vida, por não se haverem lançado
no caminho que a Natureza lhes traçara às faculdades! Quantos sofrem
malogros por terem seguido os conselhos de uma obstinação irrefletida!
Uma pessoa houvera podido dizer-lhes: “Não empreendais isso, porque
as vossas faculdades intelectuais são insuficientes, porque não convém ao
vosso caráter, nem à vossa constituição física, ou, ainda, porque não sereis
secundados, como fora preciso; ou, então, porque vos enganais sobre o
alcance do que pretendeis e topareis com este embaraço que não preve
des.” Noutras circunstâncias, ter-lhes-ia dito: “Sair-vos-eis bem de tal em
preendimento, se vos conduzirdes desta ou daquela maneira; se evitardes
dar tal passo que não pode comprometer-vos.” Sondando as disposições
e os caracteres, poderia dizer: “Desconfiai de tal armadilha que vos que
rem preparar”, acrescentando, em seguida: “Estais prevenidos, fiz o que me
cumpria; mostrei-vos o perigo; se sucumbirdes, não acuseis a sorte, nem a
fatalidade, nem a Providência; acusai-vos unicamente a vós mesmos. Que
pode fazer o médico, quando o doente não lhe dá atenção aos conselhos?”
Introdução ao estudo da fotografia e da telegrafia do pensamento
É fato incontestável a ação fisiológica de indivíduo a indivíduo, com
ou sem contato. Semelhante ação evidentemente só pode ser exercida por
um agente intermediário, do qual é reservatório o nosso corpo; os nossos
olhos e os nossos dedos, principais órgãos de emissão e de direção. Esse
agente invisível é necessariamente um fluido. Quais a sua natureza e a sua
essência? Quais as suas propriedades íntimas? Será um fluido especial, ou
uma modificação da eletricidade, ou de algum outro fluido conhecido?
Não será antes o a que hoje damos o nome de fluido cósmico, quando se
acha esparso na atmosfera, e fluido perispirítico, quando individualizado?
Esta questão, aliás, é secundária.
O fluido perispirítico é imponderável, como a luz, a eletricidade e
o calórico. É-nos invisível, no nosso estado normal, e somente por seus
efeitos se revela.
Torna-se, porém, visível a quem se ache no estado de sonambulismo
lúcido e, mesmo, no estado de vigília, às pessoas dotadas de dupla vista.
No estado de emissão, ele se apresenta sob a forma de feixes luminosos,
muito semelhante à luz elétrica difundida no vácuo. A isso, em suma, se
limita a sua analogia com este último fluido, porquanto não produz, pelo
menos ostensivamente, nenhum dos fenômenos físicos que conhecemos.
No estado ordinário, denota matizes diversos, conforme os indivíduos que
o emitem: ora vermelho fraco, ora azulado, ou acinzentado, qual ligeira
bruma. As mais das vezes, espalha sobre os corpos circunjacentes uma co
loração amarelada, mais ou menos forte.
Sobre essa questão, são idênticos os relatos dos sonâmbulos e dos
videntes. Teremos ainda ocasião de tratar disso, quando falarmos das qua
lidades que ao fluido imprimem o móvel que o põe em movimento e o
adiantamento do indivíduo que o emite.
Nenhum corpo lhe opõe obstáculo; ele os penetra e atravessa todos.
Até agora nenhum se conhece que seja capaz de o isolar. Somente a von
tade lhe pode ampliar ou restringir a ação. A vontade, com efeito, é o seu
mais poderoso princípio. Pela vontade, dirigem-se-lhe os eflúvios através
do espaço, saturam-se dele alguns objetos, ou faz-se que ele se retire dos
lugares onde superabunda. Digamos, de passagem, que é neste princípio
que se funda a força magnética. Parece, enfim, que ele é o veículo da vista
psíquica, como o fluido luminoso o é da vista ordinária.
O fluido cósmico, conquanto emane de uma fonte universal, se indivi
dualiza, por assim dizer, em cada ser e adquire propriedades características, que
permitem distingui-lo de todos os outros. Nem mesmo a morte apaga esses
caracteres de individualização, que persistem por longos anos após a cessação
da vida, coisa de que já pudemos convencer-nos. Cada um de nós tem, pois,
o seu fluido próprio, que o envolve e acompanha em todos os movimentos,
como a atmosfera acompanha cada planeta. É muito variável a extensão da
irradiação dessas atmosferas individuais. Achando-se o Espírito em estado de
absoluto repouso, pode essa irradiação ficar circunscrita nos limites de alguns
passos, mas, atuando a vontade, pode alcançar distâncias infinitas. A vontade
como que dilata o fluido, do mesmo modo que o calor dilata os gases. As
diferentes atmosferas individuais se entrecruzam e misturam, sem jamais se
confundirem, exatamente como as ondas sonoras que se conservam distintas,
a despeito da imensidade de sons que simultaneamente abalam o ar. Pode-se,
por conseguinte, dizer que cada indivíduo é centro de uma onda fluídica, cuja
extensão se acha em relação com a força da vontade, do mesmo modo que
cada ponto vibrante é centro de uma onda sonora, cuja extensão está na razão
direta da força de vibração. A vontade é a causa propulsora do fluido, como o
choque é a causa de vibração do ar e propulsora das ondas sonoras.
Das qualidades peculiares a cada fluido resulta uma espécie de har
monia ou desacordo entre eles, uma tendência a se unirem ou evitarem,
uma atração ou repulsão, numa palavra: as simpatias ou antipatias que se
experimentam, muitas vezes sem manifestas causas determinantes. Se nos
colocamos na esfera de atividade de um indivíduo, a sua presença não raro
se nos revela pela impressão agradável ou desagradável que nos produz o
seu fluido. Se estamos entre pessoas de cujos sentimentos não partilhamos,
cujos fluidos não se harmonizam com os nossos, penosa reação entra a
oprimir-nos e sentimo-nos ali como nota dissonante num concerto! Se, ao
contrário, muitos indivíduos se acham reunidos em comunhão de vistas e
de intenções, os sentimentos de cada um se exaltam na proporção mesma
da massa das forças atuantes. Quem não conhece a força de arrastamento
que domina as aglomerações onde há homogeneidade de pensamentos e
de vontades? Ninguém pode imaginar a quantas influências estamos assim
submetidos, à nossa revelia.
Não podem essas influências ser a causa determinante de certas
ideias, dessas ideias que em dado momento se nos tornam comuns e a
outras pessoas, desses pressentimentos que nos levam a dizer: paira alguma
coisa no ar, pressagiando tal ou tal acontecimento? Enfim, certas sensações
indefiníveis de bem-estar ou de mal-estar moral, de alegria ou tristeza, não
serão efeitos da reação do meio fluídico em que nos encontramos, dos eflú
vios simpáticos ou antipáticos que recebemos e que nos envolvem como as
emanações de um corpo odorífico? Não podemos pronunciar-nos afirma
tivamente, de modo absoluto, sobre essas questões, mas é forçoso convir,
pelo menos, em que a teoria do fluido cósmico, individualizado em cada
ser sob o nome de fluido perispirítico, abre um campo inteiramente novo
para a solução de uma imensidade de problemas até agora insolúveis.
Em seu movimento de translação, cada um de nós leva consigo a sua
atmosfera fluídica, como o caracol leva a sua concha; esse fluido, porém,
deixa vestígios da sua passagem; deixa um como sulco luminoso, inacessí
vel aos nossos sentidos, no estado de vigília, mas que serve para que os so
nâmbulos, os videntes e os Espíritos desencarnados reconstituam os fatos
ocorridos e examinem os móveis que os ocasionaram.
Toda ação física ou moral, patente ou oculta, de um ser sobre si mes
mo, ou sobre outro, pressupõe, de um lado, uma força atuante e, de outro,
uma sensibilidade passiva. Em todas as coisas, duas forças iguais se neutra
lizam e a fraqueza cede à força. Ora, não sendo todos os homens dotados
da mesma energia fluídica, ou, por outra, não tendo o fluido perispirítico,
em todos, a mesma potência ativa, explicado fica por que, em alguns, essa
potência é quase irresistível, ao passo que, noutros, é nula; por que algumas
pessoas são muito acessíveis à sua ação, enquanto outras lhe são refratárias.
Essa superioridade e essa inferioridade relativas dependem evidente
mente do organismo, mas fora erro acreditar-se que estão na razão direta
da força ou da fraqueza física. A experiência prova que os homens mais
robustos às vezes sofrem as influências fluídicas mais facilmente do que
outros de constituição muito mais delicada, ao passo que com frequência
se descobrem entre estes últimos uma força que a frágil aparência deles não
permitiria se suspeitasse. De muitas formas se pode explicar essa diversida
de no modo de agir.
O poder fluídico aplicado à ação recíproca dos homens uns sobre os
outros, isto é, ao Magnetismo, pode depender: 1o) da quantidade de flui
do que cada um possua; 2o) da natureza intrínseca do fluido de cada um,
abstração feita da quantidade; 3o) do grau de energia da força impulsiva;
porventura, até, dessas três causas reunidas. Na primeira hipótese, aquele
que tem mais fluido dá-lo-ia ao que tem menos, recebendo-o deste em
menor quantidade. Haveria nesse caso analogia perfeita com a permuta de
calórico entre dois corpos que se colocam em equilíbrio de temperatura.
Qualquer que seja a causa daquela diferença, podemos aperceber-nos do
efeito que ela produz, imaginando três pessoas cujo poder representaremos
pelos números 10, 5 e 1. O 10 agirá sobre o 5 e sobre o 1, porém mais
energicamente sobre o 1 do que sobre o 5; este atuará sobre o 1 mas será
impotente para atuar sobre o 10; o 1, finalmente, não atuará sobre ne
nhum dos dois outros. Será essa talvez a razão por que certos pacientes são
sensíveis à ação de tal magnetizador e insensíveis à de tal outro.
Pode-se também, até certo ponto, explicar esse fenômeno, apoiado
nas considerações precedentes. Dissemos, com efeito, que os fluidos in
dividuais são simpáticos ou antipáticos, uns com relação aos outros. Ora,
não poderia dar-se que a ação recíproca de dois indivíduos estivesse na
razão da simpatia dos fluidos, isto é, da tendência destes a se confundirem
por uma espécie de harmonia, como as ondas sonoras produzidas pelos
corpos vibrantes? Indubitavelmente essa harmonia ou simpatia dos fluidos
é uma condição, ainda que não indispensável em absoluto, pelo menos
muito preponderante, e quando há desacordo ou antipatia, a ação não
pode deixar de ser fraca ou até nula. Este sistema explica bem as condições
prévias da ação, mas não diz de que lado está a força e, admitindo-o, somos
forçados a recorrer à nossa primeira suposição.
Em suma, que o fenômeno se dê por uma ou outra dessas causas,
isso não leva a nenhuma consequência. O fato existe; é o essencial. Os da
luz se explicam igualmente pela teoria da emissão e pela das ondulações; os
da eletricidade, pelos fluidos positivo e negativo, vítreo e resinoso.
Em próximo estudo, apoiando-nos nas considerações que temos ex
pendido, procuraremos definir o que entendemos por fotografia e telegra
fia do pensamento.
Fotografia e telegrafia do pensamento
A fotografia e a telegrafia do pensamento são questões até agora pou
co explanadas. Como todas as que não apresentam ligação com as leis que,
por sua essência, devem ser universalmente difundidas, foram relegadas
para segundo plano, não obstante serem de capital importância e poderem
os elementos que elas contêm concorrer para a elucidação de muitos pro
blemas que ainda se acham sem solução.
Quando um artista de talento executa um quadro, obra magistral a
que consagrou todo o gênio que progressivamente adquiriu, dá primeira
mente os traços gerais, de sorte que se compreenda, desde o esboço, todo
o partido que espera tirar dali. Só depois de haver elaborado minuciosa
mente o seu plano geral é que entra nas minúcias; e, embora a este último
trabalho deva, talvez, dispensar maiores cuidados do que àquele outro,
tal não lhe seria possível, se não houvera esboçado antes o seu quadro. O
mesmo sucede em Espiritismo. As leis fundamentais, os princípios gerais,
cujas raízes existem no espírito de todo ser criado, foram elaborados desde
a origem. Todas as outras questões, quaisquer que sejam, dependem das
primeiras. Por isso é que, durante certo tempo, forçoso se torna pôr de lado
o estudo dessas questões.
Com efeito, poder-se-ia logicamente falar de fotografia e de telegrafia
do pensamento, antes de estar demonstrada a existência da alma que ma
nobra os elementos fluídicos e a dos fluidos que permitem se estabeleçam
relações entre duas almas distintas? Ainda hoje, talvez, mal começamos a
estar suficientemente esclarecidos para a elaboração de tão vastos proble
mas! Entretanto, não se acharão deslocadas aqui algumas considerações de
natureza a preparar as bases para um estudo mais completo.
Limitado em suas ideias e aspirações, tendo circunscritos os seus ho
rizontes, o homem precisa concretar todas as coisas e pôr-lhes etiquetas, a
fim de guardar delas apreciável lembrança e basear seus futuros estudos nos
dados que haja reunido. Pelo sentido da vista foi que lhe vieram as primei
ras noções do conhecimento. Foi a imagem de um objeto que lhe ensinou a
existência desse objeto. Quando conheceu muitos objetos, tirou deduções
das impressões diferentes que eles lhe produziam no íntimo do ser, fixou na
inteligência a quintessência deles por meio do fenômeno da memória. Ora,
que é a memória, senão um espécie de álbum mais ou menos volumoso,
que se folheia para encontrar de novo as ideias apagadas e reconstituir os
acontecimentos que se foram? Esse álbum tem marcas nos pontos capitais.
De alguns fatos o indivíduo imediatamente se recorda; para recordar-se de
outros, é-lhe necessário folhear por longo tempo o álbum.
A memória é como um livro! Aquele em que lemos algumas passa
gens facilmente no-las apresenta aos olhos; as folhas virgens ou raramente
perlustradas têm que ser folheadas uma a uma, para que consigamos re
constituir um fato sobre o qual pouco tenhamos demorado a atenção.
Quando o Espírito encarnado se lembra, sua memória lhe apre
senta, de certo modo, a fotografia do fato que ele procura. Em geral, os
encarnados que o cercam nada veem; o álbum se acha em lugar inacessível
ao olhar deles, mas os Espíritos o veem e folheiam conosco. Em dadas
circunstâncias, podem mesmo, deliberadamente, ajudar a nossa pesquisa,
ou perturbá-la.
O que se produz de um encarnado para um desencarnado também
se verifica do desencarnado para o vidente. Quando se evoca a lembrança
de certos fatos da existência de um Espírito, apresenta-se-lhe a fotografia
desses fatos; e o vidente, cuja situação espiritual é análoga à do Espírito li
vre, vê como ele e, até, em determinadas circunstâncias, vê o que o Espírito
não vê por si mesmo, tal como um desencarnado pode folhear a memória
de um encarnado, sem que este tenha disso consciência e lembrar-lhe fatos
de há muito esquecidos. Quanto aos pensamentos abstratos, por isso mes
mo que existem, tomam corpo para impressionar o cérebro; têm de agir
naturalmente sobre este e, de certo modo, gravar-se nele. Ainda neste caso,
como no primeiro, parece perfeita a semelhança entre os fatos da Terra e
os do Espaço.
Já tendo sido o fenômeno da fotografia do pensamento objeto de
algumas reflexões nossas na Revista, para maior clareza reproduziremos al
guns trechos do artigo em que o assunto foi tratado e que completaremos
com outras observações novas.
Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre aqueles
como o som atua sobre o ar; eles nos trazem o pensamento como o ar nos
traz o som. Pode-se, pois, dizer, com verdade, que há ondas nos fluidos e
radiações de pensamento, que se cruzam sem se confundirem, como há, no
ar, ondas e radiações sonoras.
Ainda mais: criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no en
voltório perispirítico como num espelho, ou, então, como essas imagens de
objetos terrestres que se refletem nos vapores do ar tomando aí um corpo e,
de certo modo, fotografando-se. Se um homem, por exemplo, tiver a ideia
de matar alguém, embora seu corpo material se conserve impassível, seu
corpo fluídico é acionado por essa ideia e a reproduz com todos os matizes.
Ele executa fluidicamente o gesto, o ato que o indivíduo premeditou. Seu
pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira se desenha, como
num quadro, tal qual lhe está na mente.
É, assim que os mais secretos movimentos da alma repercutem no
invólucro fluídico. É assim que uma alma pode ler noutra alma como num
livro e ver o que não é perceptível aos olhos corporais. Estes veem as im
pressões interiores que se refletem nos traços fisionômicos: a cólera, a ale
gria, a tristeza; a alma, porém, vê nos traços da alma os pensamentos que
não se exteriorizam.
Entretanto, se, vendo a intenção, pode a alma pressentir a execução
do ato que lhe será a consequência, não pode, contudo, determinar o mo
mento em que ele será executado, nem lhe precisar os pormenores, nem
mesmo afirmar que ele se realize, porque ulteriores circunstâncias podem
modificar os planos concebidos e mudar as disposições. Ela não pode ver o
que ainda não está no pensamento; o que vê é a preocupação ocasional ou
habitual do indivíduo, seus desejos, seus projetos, suas intenções boas ou
más. Daí os erros nas previsões de alguns videntes.
Quando um acontecimento está subordinado ao livre-arbítrio de um
homem, eles apenas podem pressentir-lhe a probabilidade, de acordo com
o pensamento que veem, mas não podem afirmar que se dará de tal forma,
ou em tal momento. A maior ou menor exatidão nas previsões depende,
além disso, da extensão e da clareza da vista psíquica. Em alguns indiví
duos, desencarnados ou encarnados, limita-se a um ponto ou é difusa, ao
passo que em outros é nítida e abrange todo o conjunto dos pensamentos
e das vontades que hajam de concorrer para a realização de um fato. Mas,
acima de tudo, há sempre a vontade superior que pode, em sua sabedoria,
permitir uma revelação ou impedi-la. Neste último caso, um véu impene
trável é lançado sobre a mais perspicaz vista psíquica (Veja, em A gênese, o
cap. XVI, Teoria da presciência).
A teoria das criações fluídicas e, por conseguinte, da fotografia do
pensamento, é uma conquista do moderno Espiritismo e pode, doravan
te, considerar-se como firmada em princípio, ressalvadas as aplicações de
minúcias, que hão de resultar da observação. Este fenômeno é incontes
tavelmente a origem das visões fantásticas e desempenha grande papel em
certos sonhos.
Quem na Terra sabe de que maneira se estabeleceram os primeiros
meios de comunicação do pensamento? Como foram inventados ou, an
tes, descobertos, dado que nada se inventa, pois que tudo existe em estado
latente, cabendo aos homens apenas os meios de pôr em ação as forças que
a Natureza lhes oferece? Quem sabe quanto tempo foi necessário para que
os homens usassem da palavra de modo perfeitamente inteligível?
Aquele que soltou o primeiro grito inarticulado tinha sem dúvida
uma certa consciência do que queria exprimir, mas os a quem ele se dirigiu
nada a princípio compreenderam. Só ao cabo de longo lapso de tempo se
verificou a existência de palavras convencionadas, depois a de frases abre
viadas e, por fim, discursos inteiros. Quantos milhares de anos não foram
necessários para que a Humanidade chegasse ao ponto em que hoje se en
contra! Cada progresso nos modos de comunicação, nas relações entre os
homens, foi sempre assinalado por uma melhora no estado social dos seres.
À medida que as relações de indivíduo a indivíduo se tornam mais estrei
tas, mais regulares, a necessidade se faz sentir de uma nova e mais rápida
forma de linguagem, mais apropriada a pôr os homens em comunicação
instantânea e universalmente uns com os outros. Por que não teria cabi
mento no mundo moral, de encarnado a encarnado, por meio da telegrafia
humana, o que ocorre no mundo físico, por meio da telegrafia elétrica? Por
que as relações ocultas que ligam, de maneira mais ou menos consciente,
os pensamentos dos homens e dos Espíritos, por meio da telegrafia espiri
tual, não se generalizariam entre os homens, de modo consciente?
A telegrafia humana! Aí está uma coisa de molde certamente a pro
vocar o riso dos que se negam a admitir o que não caia sob os sentidos
materiais. Mas que importam as zombarias dos presunçosos? As suas ne
gações, por mais que eles as multipliquem, não obstarão a que as Leis
Naturais sigam seu curso, nem a que se encontrem novas aplicações dessas
leis, à medida que a inteligência humana se ache em estado de lhes expe
rimentar os efeitos.
O homem exerce ação direta sobre as coisas, assim como sobre as
pessoas que o cercam. Frequentemente, uma pessoa de quem se faz pouco
caso a exerce decisiva sobre outras de reputação muito superior. Isto decor
re de que na Terra se veem muito mais máscaras do que semblantes e de
que aí o olhar tem a obscurecê-lo a vaidade, o interesse pessoal e todas as
paixões más. A experiência demonstra que se pode atuar sobre o espírito
dos homens, à revelia deles. Um pensamento superior, fortemente pensado,
permita-se-nos a expressão, pode, pois, conforme a sua força e a sua eleva
ção, tocar de perto ou de longe homens que nenhuma ideia fazem da ma
neira por que ele lhes chega, do mesmo modo que muitas vezes aquele que
o emite não faz ideia do efeito produzido pela sua emissão. É esse um jogo
constante das inteligências humanas e da ação recíproca de umas sobre as
outras. Juntai-lhe a das inteligências dos desencarnados e imaginai, se o
conseguirdes, o poder incalculável dessa força composta de tantas forças
reunidas.
Se se pudesse suspeitar do imenso mecanismo que o pensamento
aciona e dos efeitos que ele produz de um indivíduo a outro, de um grupo
de seres a outro grupo e, afinal, da ação universal dos pensamentos das
criaturas umas sobre as outras, o homem ficaria assombrado! Sentir-se-ia
aniquilado diante dessa infinidade de pormenores, diante dessas inúmeras
redes ligadas entre si por uma potente vontade e atuando harmonicamente
para alcançar um único objetivo: o progresso universal.
Pela telegrafia do pensamento, ele apreciará em todo o seu valor a
Lei da Solidariedade, ponderando que não há um pensamento, seja crimi
noso, seja virtuoso, ou de outro gênero, que não tenha ação real sobre o
conjunto dos pensamentos humanos e sobre cada um deles. Se o egoísmo
o levava a desconhecer as consequências, para outrem, de um pensamento
perverso, pessoalmente seu, por esse mesmo egoísmo ele se verá induzido a
ter bons pensamentos, para elevar o nível moral da generalidade das criatu
ras, atentando nas consequências que sobre si mesmo produziria um mau
pensamento de outrem.
Que serão, senão consequência da telegrafia do pensamento, esses
choques misteriosos que nos advertem da alegria ou do sofrimento de um
ente caro, que se acha longe de nós? Não é a um fenômeno do mesmo
gênero que devemos os sentimentos de simpatia ou de repulsão que nos
arrastam para certos Espíritos e nos afastam de outros?
Há certamente aí um campo imenso para o estudo e a observação,
mas do qual ainda não podemos perceber senão as massas. O estudo dos
pormenores resultará de um conhecimento mais completo das leis que re
gem a ação dos fluidos, uns sobre os outros.
Estudo sobre a natureza do Cristo
UM – Fontes das provas sobre a natureza do Cristo
A questão da natureza do Cristo foi debatida desde e os primeiros
séculos do Cristianismo e pode-se dizer que ainda não se acha solucionada,
pois que continua a ser objeto de discussão. Foi a divergência das opi
niões sobre este ponto que deu origem à maioria das seitas que dividiram
a Igreja há dezoito séculos, sendo de notar-se que todos os chefes dessas
seitas foram bispos ou membros titulados do clero. Eram, por conseguinte,
homens esclarecidos, muitos deles escritores de talento, abalizados na ciên
cia teológica, que não achavam concludentes as razões invocadas a favor
do dogma da divindade do Cristo. Entretanto, como hoje, as opiniões se
firmaram mais sobre abstrações do que sobre fatos. Sobretudo, o que se
procurou foi saber o que o dogma continha de plausível, ou de irracional,
deixando-se, geralmente de um lado e de outro, de assinalar os fatos capa
zes de lançar sobre a questão uma luz decisiva.
Mas onde encontrar esses fatos, senão nos atos e nas palavras de Jesus?
Nada tendo Ele escrito, seus únicos historiadores foram os Apósto
los que, tampouco, escreveram coisa alguma quando o Cristo ainda vivia.
Nenhum historiador profano, seu contemporâneo, havendo falado a seu
respeito, nenhum documento mais existe, além dos Evangelhos, sobre a
sua vida e a sua doutrina. Aí somente é que se há de procurar a chave do
problema. Todos os escritos posteriores, sem exclusão dos de Paulo, são
apenas, e não podem deixar de ser, simples comentários ou apreciações,
reflexos de opiniões pessoais, muitas vezes contraditórias, que, em caso
algum, poderiam ter a autoridade da narrativa dos que receberam direta
mente do Mestre as instruções.
Sobre esta questão, como sobre as de todos os dogmas em geral, o
acordo entre os Pais da Igreja e outros escritores sacros não seria de in
vocar-se como argumento preponderante, nem como prova irrecusável a
favor da opinião de uns e outros, uma vez que nenhum deles citou um só
fato, fora do Evangelho, concernente a Jesus; que nenhum deles descobriu
documentos novos que seus predecessores desconhecessem.
Os autores sacros nada mais conseguiram do que girar dentro do
mesmo círculo, produzindo apreciações pessoais, deduzindo corolários
acordemente com seus pontos de vista, comentando sob novas formas e
com maior ou menor desenvolvimento as opiniões contrárias às suas. Per
tencendo ao mesmo partido, tiveram todos de escrever no mesmo senti
do, senão nos mesmos termos, sob pena de serem declarados heréticos,
como o foram Orígenes e tantos mais. Naturalmente, a Igreja só incluiu
no número dos seus Pais os escritores ortodoxos, do seu ponto de vista; so
mente exalçou, santificou e colecionou aqueles que lhe tomaram a defesa,
ao passo que repudiou os outros e lhes destruiu quanto pôde os escritos.
Nada, pois, de concludente exprime o acordo dos Pais da Igreja, visto que
formam uma unanimidade arranjada a dedo, mediante a eliminação dos
elementos contrários. Se se fizesse um confronto de tudo o que foi escrito
pró e contra, difícil se tornaria dizer para que lado se inclinaria a balança.
Isto nada tira ao mérito pessoal dos sustentadores da ortodoxia, nem
ao valor que demonstraram como escritores e homens conscienciosos.
Sendo advogados de uma mesma causa e defendendo-a com incontestável
talento, haviam forçosamente de adotar as mesmas conclusões. Longe de
intentarmos apontá-los no que quer que fosse, apenas quisemos refutar o
valor das consequências que se pretende tirar do acordo de suas opiniões.
No exame, que vamos fazer, da questão da divindade do Cristo, pon
do de lado as sutilezas da escolástica, que unicamente serviram para tudo
embaralhar sem esclarecer coisa alguma, apoiar-nos-emos exclusivamente
nos fatos que ressaltam do texto do Evangelho e que, examinados friamen
te, conscienciosamente e sem espírito de partido, superabundantemente
facultam todos os meios de convicção que se possam desejar.
Ora, entre esses fatos, outros não há mais preponderantes, nem mais
concludentes, do que as próprias palavras do Cristo, palavras que ninguém
poderá refutar, sem infirmar a veracidade dos Apóstolos. Pode-se inter
pretar de diferentes maneiras uma parábola, uma alegoria, mas afirmações
precisas, sem ambiguidades, repetidas cem vezes, não poderiam ter duplo
sentido. Ninguém pode pretender saber melhor do que Jesus o que Ele
quis dizer, como ninguém pode pretender estar mais bem informado do
que Ele sobre a sua própria natureza. Desde que Ele comenta suas palavras
e as explica para evitar todo equívoco, é a Ele que devemos recorrer, a me
nos lhe neguemos a superioridade que lhe é atribuída e nos sobreponha
mos à sua própria inteligência. Se Ele foi obscuro em certos pontos, por
usar de linguagem figurada, no que concerne à sua pessoa não há equívoco
possível. Antes de examinar as palavras, vejamos os atos.
DOIS – Os milagres provam a divindade do Cristo?
Segundo a Igreja, a divindade do Cristo está firmada pelos milagres,
que testemunham um poder sobrenatural. Esta consideração pode ter tido
certo peso numa época em que o maravilhoso era aceito sem exame; hoje,
porém, que a Ciência levou suas investigações até as Leis da Natureza,
há mais incrédulos do que crentes nos milagres, para cujo descrédito não
contribuíram pouco o abuso das imitações fraudulentas e a exploração que
dessas imitações se há feito. A fé nos milagres foi destruída pelo próprio
uso que deles fizeram, donde resultou que muitas pessoas consideram ago
ra os do Evangelho como puramente lendários.
A própria Igreja, aliás, tira aos milagres todo o alcance como prova
da divindade do Cristo, declarando que o demônio os pode operar tão
prodigiosos quanto aqueles outros. Se tal poder tem o demônio, evidente
se torna que os fatos desse gênero carecem em absoluto de caráter exclu
sivamente divino. Se ele pode fazer coisas espantosas, capazes até de ilu
dir os eleitos, como poderão simples mortais distinguir os bons milagres
dos maus? Não será de temer que, observando fatos similares, confundam
Deus e Satanás?
Dar a Jesus semelhante rival em habilidade é grande desazo, mas, em
matéria de contradições e de inconsequências, não se consideravam as coi
sas com muita atenção numa época em que para os fiéis seria um caso de
consciência o pensarem por si mesmos e discutirem o menor artigo que se lhes
impusesse à crença. Não se contava então com o progresso e ninguém cuidava
de que pudesse ter fim o reinado da fé cega e ingênua, reinado cômodo, qual o
do bel-prazer. O papel tão preponderante que a Igreja se obstinou em atribuir
ao demônio produziu consequências desastrosas para a fé, à medida que os
homens se foram sentindo capazes de ver com seus próprios olhos. Depois
de ter sido explorado com êxito durante algum tempo, ele se tornou o alvião
posto no velho edifício das crenças e uma das causas da incredulidade. Pode
dizer-se que a Igreja, com o tomá-lo por auxiliar indispensável, alimentou em
seu seio aquele que se voltaria contra ela e lhe minaria os fundamentos.
Outra consideração não menos grave é a de que os fatos milagrosos
não constituem privilégio exclusivo da religião cristã. Não há, com efeito,
religião alguma, idólatra ou pagã, que não tenha seus milagres tão maravi
lhosos e tão autênticos para os respectivos adeptos, quanto os do Cristia
nismo. E a Igreja se privou do direito de os contestar, desde que atribuiu às
potências infernais o poder de os operar.
No sentido teológico, o caráter essencial do milagre é o de ser uma ex
ceção aberta nas Leis da Natureza, o que, conseguintemente, o torna inex
plicável mediante essas mesmas leis. Deixa de ser milagre um fato, desde
que possa explicar-se e que se ache ligado a uma causa conhecida. Desse
modo foi que as descobertas da Ciência colocaram no domínio do natural
muitos efeitos que eram qualificados de prodígios, enquanto se lhes desco
nheciam as causas. Mais tarde, o conhecimento do princípio espiritual, da
ação dos fluidos sobre a economia geral, do Mundo Invisível dentro do qual
vivemos, das faculdades da alma, da existência e das propriedades do peris
pírito, facultou a explicação dos fenômenos de ordem psíquica, provando
que esses fenômenos não constituem, mais do que os outros, derrogações
das Leis da Natureza, que, ao contrário, decorrem quase sempre de apli
cações destas leis. Todos os efeitos do magnetismo, do sonambulismo, do
êxtase, da dupla vista, do hipnotismo, da catalepsia, da anestesia, da trans
missão do pensamento, a presciência, as curas instantâneas, as possessões, as
obsessões, as aparições e transfigurações etc., que formam a quase totalidade
dos milagres do Evangelho, pertencem àquela categoria de fenômenos.
Sabe-se agora que tais efeitos resultam de especiais aptidões e dispo
sições psicológicas; que se hão produzido em todos os tempos e no seio de
todos os povos e que foram considerados sobrenaturais pela mesma razão
que todos aqueles cuja causa não se percebia. Isto explica por que todas as
religiões tiveram seus milagres, que mais não são que fatos naturais, quase
sempre, porém, ampliados até o absurdo pela credulidade e reduzidos ago
ra ao seu justo valor pelos conhecimentos atuais, que permitem se destaque
deles a parte devida à lenda.
A possibilidade da maioria dos fatos que o Evangelho cita como ope
rados por Jesus se acha hoje completamente demonstrada pelo Magnetismo
e pelo Espiritismo, como fenômenos naturais. Pois que eles se produzem às
nossas vistas, quer espontaneamente, quer quando provocados, nada há de
anormal em que Jesus possuísse faculdades idênticas às dos nossos magnetiza
dores, curadores, sonâmbulos, videntes, médiuns etc. Do momento em que
essas mesmas faculdades se encontram, em diferentes graus, numa multidão
de indivíduos que nada têm de divino, até em heréticos e idólatras, elas não
implicam, de maneira alguma, a existência de uma natureza sobre-humana.
Se o próprio Jesus qualifica de milagres os seus atos, é que nisto, como em
muitas outras coisas, lhe cumpria apropriar sua linguagem aos conhecimentos
dos seus contemporâneos. Como poderiam estes apreender os matizes de uma
palavra que ainda hoje nem todos compreendem? Para o vulgo, eram milagres
as coisas extraordinárias que Ele fazia e que pareciam sobrenaturais, naquele
tempo e mesmo muito tempo depois. Ele não podia dar-lhes outro nome. Fato
digno de nota é que se serviu dessa denominação para atestar a missão que re
cebera de Deus, segundo suas próprias expressões, porém nunca se prevaleceu
dos milagres para se apresentar como possuidor do poder divino.10
Importa, pois, se risquem os milagres do rol das provas sobre que
se pretende fundar a divindade da pessoa do Cristo. Vejamos agora se as
encontramos em suas palavras.
TRES – As palavras de Jesus provam a sua divindade?
Dirigindo-se a alguns de seus discípulos que disputavam para saber qual
dentre eles era o maior, disse-lhes Ele, chamando para junto de si uma criança:
Quem quer que me receba, recebe aquele que me enviou, porquanto aquele que for
o menor entre todos vós será o maior de todos (Lucas, 9:48).
Quem quer que receba em meu nome a uma criancinha como esta, a mim me
recebe; e aquele que me recebe não me recebe a mim, mas recebe aquele que me
enviou (Marcos, 9:37).
Jesus lhes disse então: Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis, porque foi de
Deus que saí e foi de sua parte que vim; pois, não vim de mim mesmo, foi Ele que
me enviou (João, 8:42).
Jesus então lhes disse: Ainda estou convosco por um pouco de tempo e vou em
seguida para aquele que me enviou (João, 7:33).
Aquele que vos ouve, a mim me ouve; aquele que vos despreza, a mim me despre
za; e aquele que me despreza, despreza aquele que me enviou (Lucas, 10:16).
O dogma da divindade de Jesus se baseou na igualdade absoluta
entre a sua pessoa e Deus, pois que Ele próprio é Deus. É este um artigo
de fé. Ora, estas palavras, que Jesus tantas vezes repetiu: Aquele que me
enviou, não só comprovam uma dualidade de pessoas, mas também,
como já o dissemos, excluem a igualdade absoluta entre elas, porquanto
aquele que é enviado necessariamente está subordinado ao que envia.
Com o obedecer, aquele pratica um ato de submissão. Um embaixador,
falando do seu soberano, dirá: Meu senhor, aquele que me envia, mas se
quem vem é o soberano em pessoa, falará em seu próprio nome e não
dirá: Aquele que me enviou, visto que ele não pode enviar-se a si mesmo.
Jesus o disse em termos categóricos: Não vim de mim mesmo; foi Ele
quem me enviou.
Estas palavras: Aquele que me despreza, despreza aquele que me enviou,
não implicam absolutamente a igualdade, nem, ainda menos, a identidade.
Em todos os tempos, o insulto a um embaixador foi considerado como
feito ao próprio soberano. Os Apóstolos tinham a palavra de Jesus, como
este a de Deus. Quando Ele lhes diz: Aquele que vos ouve, a mim me ouve,
certamente não queria dizer que seus Apóstolos e Ele fossem uma só e a
mesma pessoa, igual em todas as coisas.
A dualidade das pessoas, assim como o estado secundário e de su
bordinação de Jesus com relação a Deus, ressaltam, ademais, sem equívoco
possível, das seguintes passagens:
Fostes vós que permanecestes sempre firmes comigo nas minhas tentações. — Eis
por que vos preparo o reino, como meu Pai mo preparou, a fim de que comais e
bebais à minha mesa no meu reino e que estejais sentados em tronos, para julgar
as doze tribos de Israel (Lucas, 22:28 a 30).
De mim digo o que vi junto de meu Pai; e vós, vós fazeis o que ouvistes de vosso
pai (João, 8:38).
Ao mesmo tempo, apareceu uma nuvem que os cobriu e dessa nuvem saiu uma
voz que fez se ouvissem estas palavras: Este é meu filho bem-amado; escutai-o (Trans
figuração: Marcos, 9:7).
Ora, quando o Filho do homem vier em sua majestade, acompanhado de todos
os anjos, assentar-se-á no trono de sua glória; — e, achando-se reunidas todas as
nações, separará umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos bodes; —
colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. — Então, o Rei dirá aos
que estiverem à sua direita: Vinde, vós que fostes abençoados por meu Pai, possuir
o reino que vos foi preparado desde o começo do mundo (Mateus, 25:31 a 34).
Aquele que me confessar e me reconhecer diante dos homens, Eu também o re
conhecerei e confessarei diante de meu Pai que está nos Céus; — aquele que me
renunciar diante dos homens, também Eu mesmo o renunciarei diante de meu Pai
que está nos Céus (Mateus, 10:32 e 33).
Ora, Eu vos declaro que aquele que me confessar e me reconhecer perante os ho
mens, o Filho do homem também o reconhecerá perante os anjos de Deus; — mas se
algum me repudiar perante os homens, Eu também o repudiarei perante os anjos de
Deus (Lucas, 12:8 e 9).
Pois, se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, desse também se
envergonhará o Filho do homem, quando estiver na sua glória e na de seu Pai e dos
santos anjos (Lucas, 9:26).
Nestas duas últimas passagens parece mesmo que Jesus coloca acima
de si os santos anjos componentes do tribunal celeste, perante o qual seria
Ele o defensor dos bons e o acusador dos maus.
Mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha es
querda, não me compete a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem
meu Pai o tenha preparado (Mateus, 20:23).
Ora, estando reunidos os fariseus, Jesus lhes fez esta pergunta: Que
vos parece do Cristo? De quem é Ele filho? Eles responderam: De Davi. —
Como é então, retrucou Ele, que Davi lhe chama em espírito seu senhor,
nestes termos: O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita, até
que Eu reduza teus inimigos a te servirem de escabelo para os pés? — Ora,
se Davi lhe chama seu Senhor, como é Ele seu filho? (Mateus, 22:41 a 45).
Mas, ensinando no templo, Jesus lhes disse: Como é que os escribas
dizem que o Cristo é filho de Davi, uma vez que o próprio Davi diz a seu
Senhor: Senta-te à minha direita, até que Eu haja reduzido teus inimigos a
te servirem de escabelo para os pés? — Pois, se o próprio Davi lhe chama
seu Senhor, como é Ele seu filho? (Marcos, 12:35 a 37; Lucas, 20:41 a 44).
Por essas palavras, Jesus consagra o princípio da diferença hierárqui
ca que existe entre o Pai e o Filho. Ele podia ser filho de Davi por filiação
corporal, como descendente de sua raça e foi por isso que teve o cuidado
de acrescentar: Como lhe chama ele em espírito seu Senhor? Se há uma
diferença hierárquica entre o pai e o filho, Jesus, como filho de Deus, não
pode ser igual a Deus.
Ele confirma esta interpretação e reconhece a sua inferioridade com
relação a Deus, em termos que não deixam lugar a dúvidas.
Ouvistes o que foi dito: Eu me vou e volto a vós. Se me amásseis, rejubilaríeis, pois
que vou para meu Pai, porque meu Pai É MAIOR DO QUE EU” (João, 14:28).
Aproxima-se então um mancebo e lhe diz: Bom Mestre, que bem devo fazer para
alcançar a vida eterna? Jesus lhe respondeu: Por que me chamas bom? Não há
senão somente Deus que é bom. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos
(Mateus, 19:16 e 17; Marcos, 10:17 e 18; Lucas, 18:18 e 19).
Não só Jesus não se deu, em nenhuma circunstância, por igual a
Deus, como, neste passo, afirma positivamente o contrário: considera-se
inferior a Deus em bondade. Ora, declarar que Deus lhe está acima, pelo
poder e pelas qualidades morais, é dizer que Ele não é Deus. As passagens
que seguem apoiam as que citamos e também são bastante explícitas.
Não tenho falado por mim mesmo; meu Pai, que me enviou, foi quem me prescreveu,
por mandamento seu, o que devo dizer e como devo falar; — e sei que o seu manda
mento é a vida eterna; o que, pois, Eu digo é segundo o que meu Pai me ordenou
que o diga (João, 12:49 e 50).
Jesus lhes respondeu: Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. —
Aquele que quiser fazer a vontade de Deus reconhecerá se a minha doutrina é dele,
ou se falo por mim mesmo. — Aquele que fala por impulso próprio procura a sua
própria glória, mas o que, procura a glória daquele que o enviou é veraz, não há
nele injustiça (João, 7:16 a 18).
Aquele que não me ama não guarda a minha palavra, e a palavra que tendes ouvido
não é minha, mas de meu Pai que me enviou (João, 14:24).
Não credes que estou em meu Pai e que meu Pai está em mim? O que vos digo,
não o digo de mim mesmo; meu Pai que mora em mim, faz Ele próprio as obras que
Eu faço (João, 14:10).
O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. — Pelo que respeita
ao dia e à hora, ninguém o sabe, nem os anjos que estão no Céu nem mesmo o
Filho, mas somente o Pai (Marcos, 13:32; Mateus, 24:35 e 36).
Jesus então lhes disse: Quando houverdes elevado ao alto o Filho do homem, co
nhecereis o que Eu sou, porquanto nada faço de mim mesmo, mas digo o que meu
Pai me ensinou; e aquele que me enviou está comigo e não me deixou só, porque
faço sempre o que lhe é agradável (João, 8:28 e 29).
Desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele
que me enviou (João, 6:38).
Nada posso fazer de mim mesmo. Julgo segundo ouço e o meu juízo é justo, por
que não procuro satisfazer à minha vontade, mas à vontade daquele que me enviou
(João, 5:30).
Mas, de mim, tenho um testemunho maior que o de João, porquanto as obras que
meu Pai me deu o poder de fazer, as obras, digo, que Eu faço dão testemunho de
mim, que foi meu Pai que me enviou (João, 5:36).
Mas agora procurais dar-me morte, a mim que vos tenho dito a verdade que apren
di de Deus; é o que Abraão não fez (João, 8:40).
Desde que Ele nada diz de si mesmo; que a doutrina que prega não
é sua, que ela lhe veio de Deus, que lhe ordenou viesse dá-la a conhecer;
que não faz senão o que Deus lhe deu o poder de fazer; que a verdade que
ensina Ele a aprendeu de Deus, a cuja vontade se acha sujeito, é que Ele não
é Deus, mas, apenas, seu enviado, seu messias e seu subordinado.
Fora-lhe impossível recusar, de maneira mais positiva, qualquer as
similação sua a Deus, nem determinar o seu papel principal em termos
mais precisos. Não há nos trechos acima pensamentos ocultos sob o véu da
alegoria, que só à força de interpretações se possam descobrir. São pensa
mentos expressos em seu sentido próprio, sem ambiguidade.
Se objetarem que Deus, por não ter querido dar-se a conhecer na pes
soa de Jesus, provocou uma ilusão acerca da sua individualidade, poder-se-ia
perguntar em que se funda semelhante opinião, quem tem autoridade para
lhe sondar o fundo do pensamento e para lhe dar às palavras um sentido
contrário ao que elas exprimem. Pois que, em vida de Jesus, ninguém o con
siderava como Deus; que todos, ao contrário, o consideravam um messias,
se Ele não quisesse que o conhecessem qual era, bastar-lhe-ia nada dizer.
Das suas afirmações espontâneas, deve-se concluir que Ele não era Deus,
ou que, se o era, voluntariamente e sem utilidade, fez uma afirmação falsa.
É de notar-se que João, o Evangelista sobre cuja autoridade mais
buscaram apoiar-se os instituidores do dogma da divindade do Cristo, é
precisamente o que oferece os mais numerosos e mais positivos argumen
tos em contrário. É do que pode convencer-se qualquer pessoa, lendo as
passagens seguintes, que nada acrescentam, é certo, às provas já citadas,
mas as corroboram porque de tais passagens ressalta evidente a dualidade e
a desigualdade das duas entidades:
Por esse motivo, os judeus perseguiam a Jesus e queriam matá-lo, isto é, porque
fizera tais coisas em dia de sábado. — Mas Jesus lhes disse: Meu Pai obra até o
presente e Eu também obro (João, 5:16 e 17).
Porquanto o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o poder de julgar, a fim
de que todos honrem ao Filho, como honram ao Pai. Aquele que não honra ao
Filho, não honra ao Pai que o enviou.
Em verdade, em verdade, digo-vos que aquele que ouve a minha palavra e crê
naquele que me enviou tem a vida eterna e não cai na condenação; antes, já passou
da morte à vida.
Em verdade, em verdade, digo-vos que a hora vem, e ela já veio, em que os mortos
ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a escutarem viverão; pois, assim como o
Pai tem a vida em si mesmo, também deu ao Filho ter a vida em si mesmo — e lhe
deu o poder de julgar, porque Ele é o Filho do homem (João, 5:22 a 27).
E o Pai que me enviou há dado, Ele próprio, testemunho de mim. Nunca jamais
lhe ouvistes a voz, nem vistes a face. — E a sua palavra não permanecerá em vós
porque não credes no que Ele enviou (João, 5:37 e 38).
Quando Eu julgasse, o meu julgamento seria digno de fé, porquanto não estou só;
meu Pai que me enviou está comigo (João, 8:16).
Havendo Jesus dito estas coisas, elevou os olhos ao céu e disse: Meu Pai, a hora é
vinda; glorifica a teu Filho, a fim de que teu Filho te glorifique. — Como lhe deste
poder sobre todos os homens, a fim de que Ele dê a vida eterna a todos os que
lhe deste. — Ora a vida eterna consiste em te conhecer a ti que és o úNico deus
verdadeiro e a Jesus Cristo que Tu enviaste.
Eu te tenho glorificado na Terra; acabei a obra de que me encarregaste. — E Tu,
meu Pai, glorifica-me, pois, agora também em ti mesmo dessa glória que tive em
ti antes que o mundo fosse.
Dentro em pouco já não estarei no mundo, mas, quanto a eles, estão ainda no
mundo, e Eu regresso a ti. Pai santo, conservo em teu nome os que me deste, a fim
de que eles sejam como nós.
Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como
Eu próprio não sou do mundo.
Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade mesma. — Assim como me en
viaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo — e me santifico a mim mesmo
por eles, a fim de que também eles sejam santificados na verdade.
Não peço apenas por eles, mas também pelos que em mim hão de crer pela palavra
deles; — a fim de que estejam todos unidos, como Tu, meu Pai, estás em mim e
Eu em ti; que eles, do mesmo modo, sejam um em nós, a fim de que o mundo creia
que Tu me enviaste.
Meu Pai, desejo que, lá onde Eu estou, os que Tu me deste também estejam co
migo, a fim de que contemplem a minha glória, glória que me deste, porque me
amaste antes da Criação do mundo.
Pai justo, o mundo não te há conhecido; Eu, porém, te tenho conhecido; e estes
conheceram que Tu me enviaste. — Fiz que eles conhecessem o teu nome, e ainda
farei que o conheçam, a fim de que o amor com que me tens amado esteja neles e Eu
próprio neles esteja (João, 17:1 a 5, 11, 14, 17 a 21, 24 a 26; Prece de Jesus).
É por isto que meu Pai me ama, porque deixo a vida para a retomar. – Ninguém ma
arrebata; sou Eu que a deixo de mim mesmo; tenho o poder de a deixar e tenho o
poder de a retomar. É o mandamento que recebi do meu Pai (João, 10:17 e 18).
Tiraram a pedra e Jesus, erguendo os olhos para o céu, disse estas palavras: Meu
Pai, rendo-te graças por me haveres exalçado. — Eu, de mim, sabia que Tu me exal
çarias sempre, mas digo isto para esta gente que me cerca, a fim de que creia que
foste Tu que me enviaste (João, 11:41 e 42. Morte de Lázaro).
Não mais vos falarei, porquanto o príncipe do mundo vai vir, embora nada haja em
mim que lhe pertença, mas para que o mundo conheça que amo a meu Pai e que
faço o que meu Pai me ordena (João, 14:30 e 31).
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como Eu, que
tenho guardado os mandamentos de meu Pai, permaneço no seu amor (João, 15:10).
Então, soltando grande brado, Jesus disse: Meu Pai, às tuas mãos entrego o meu
ser. E, tendo pronunciado essas palavras, expirou (Lucas, 23:46).
Se Jesus, ao morrer, entrega sua alma às mãos de Deus, é que Ele
tinha uma alma distinta de Deus, submissa a Deus. Logo, Ele não era Deus.
As palavras que se seguem indiciam, da parte de Jesus, certa fraqueza
humana, certa apreensão quanto aos sofrimentos e à morte que lhe vão ser in
fligidos, o que contrasta com a natureza divina que lhe atribuem. Elas, porém,
demonstram, ao mesmo tempo, uma submissão de inferior para superior.
Então, chegou Jesus a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos:
Sentai-vos aqui, enquanto vou ali orar. – E, tendo levado consigo Pedro e os dois
filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a estar em grande aflição. — Disse-lhes
então: Minha alma se acha em mortal tristeza; ficai aqui e velai comigo. — E, indo
para um pouco mais longe, prosternou-se com o rosto em terra e orou dizendo:
Meu Pai, se for possível, faze de mim se afaste este cálice; entretanto, não seja como
Eu quero, mas como Tu queiras. — Veio em seguida ter com os seus discípulos e,
achando-os adormecidos, disse a Pedro: Pois quê! não pudestes velar uma hora
comigo? — Vigiai e orai, a fim de não cairdes em tentação. O Espírito é pronto,
mas a carne é fraca. — Foi-se de novo, para orar segunda vez, dizendo: Meu Pai, se
este cálice não pode passar, sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade (Mateus, 26:36
a 42, Jesus no Jardim das Oliveiras).
Então, disse-lhes: Minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e velai. —
E, tendo-se afastado um pouco, prosternou-se em terra, rogando que, se fosse
possível, aquela hora se afastasse dele. — Dizia: Abba, meu Pai, tudo te é possível,
transporta para longe de mim este cálice, mas que se faça a tua vontade, e não a
minha (Marcos, 14:34 a 36).
Chegando àquele lugar, disse-lhes: Orai, a fim de não sucumbirdes à tentação. —
E, tendo-se afastado deles cerca de um arremesso de pedra, ajoelhou-se, dizendo:
Meu Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; entretanto, não se faça a minha
vontade, mas a tua. — Então, apareceu-lhe um anjo do Céu a fortalecê-lo. — Ha
vendo entrado em agonia, redobrava suas preces. — Veio-lhe um suor de gotas de
sangue, que corria até o chão (Lucas, 22:40 a 44).
Pela hora nona, soltou Jesus um grande brado, dizendo: Eli! Eli! Lamma Sa
bachtani? Que quer dizer: Meu Deus! Meu Deus! por que me abandonaste? (Ma
teus, 27:46).
E, pela hora nona, lançou Jesus um grande brado, dizendo: Meu Deus, Meu Deus!
por que me abandonaste? (Marcos, 15:34).
As passagens que vamos transcrever poderiam deixar alguma dúvida
e dar ensejo a crer-se numa identificação de Deus com a pessoa de Jesus,
mas, além de que não poderiam prevalecer contra os termos precisos das
que precedem, trazem consigo a devida retificação.
Perguntaram-lhe: Quem és Tu então? Jesus lhes respondeu: Sou o princípio de todas
as coisas, Eu que vos falo. — Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas aquele que me
enviou é verdadeiro e Eu não digo senão o que dele aprendi (João, 8:25 e 26).
O que meu Pai me deu é maior do que todas as coisas e ninguém o pode arrebatar
das mãos de meu Pai. Meu Pai e Eu somos um (João, 10:29 e 30).
Quer isto dizer que seu Pai e Ele são um pelo pensamento, pois que
Ele exprime o pensamento de Deus, pois que tem a palavra de Deus.
Então, os judeus tomaram de pedras para lapidá-lo. — Jesus lhes disse: Muitas
obras boas tenho feito diante de vós, pelo poder de meu Pai. Por qual delas quereis
lapidar-me? — Os judeus lhe responderam: Não é por nenhuma boa obra que
te lapidamos, mas por causa da tua blasfêmia, porque, sendo homem, Tu te fazes
Deus. — Jesus lhes replicou: Não está escrito na vossa lei: Tenho dito que sois deu
ses? — Ora, se ela chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus era dirigida e
não podendo a escritura ser destruída, como dizeis que blasfemo, Eu a quem meu
Pai santificou e enviou ao mundo, porque disse que sou filho de Deus? — Se não
faço as obras de meu Pai, não me creiais; se, porém, as faço, quando não queirais
crer em mim, crede nas minhas obras, a fim de saberdes e crerdes que meu Pai está
em mim e Eu nele (João, 10:31 a 38).
Noutro capítulo, dirigindo-se a seus discípulos, diz: “Nesse dia, re
conhecereis que estou em meu Pai e vós em mim e Eu em vós (João, 14:20).
Destas palavras, não há concluir-se que Deus e Jesus são uma única
entidade, pois, de outro modo, também se teria de concluir, das mesmas
palavras, que os Apóstolos e Deus eram um.
QUATRO – Palavras de Jesus depois de sua morte
Jesus lhe respondeu: Não me toques, porquanto ainda não subi a meu Pai; vai,
porém, ter com meus irmãos e dize-lhes de minha parte: Subo a meu Pai e vosso Pai,
a Meu deus e vosso Deus (João, 20:17. Aparição a Maria Madalena).
Mas aproximando-se, Jesus lhes falou assim: Todo o poder me foi dado no Céu e
na Terra (Mateus, 28:18. Aparição aos Apóstolos).
Ora, sois testemunhas destas coisas. — Vou enviar-vos o dom de meu Pai, que vos
foi prometido (Lucas, 24:48 e 49. Aparição aos Apóstolos).
Tudo, pois, nas palavras de Jesus, quer as que Ele disse em vida,
quer as de depois de sua morte, acusa uma dualidade de entidades perfei
tamente distintas, assim como o profundo sentimento da sua inferioridade
e da sua subordinação em face do Ente Supremo. Pela sua insistência em
afirmá-lo espontaneamente, sem a isso ser constrangido ou provocado por
quem quer que fosse, parece ter querido protestar de antemão contra o pa
pel que, segundo a sua previsão, lhe seria atribuído. Se houvesse guardado
silêncio sobre a sua personalidade, o campo teria ficado aberto a todas as
suposições, como a todos os sistemas. A precisão, porém, da sua linguagem
afasta todas as incertezas.
Que autoridade maior se pode pretender do que a das suas próprias
palavras? Quando Ele diz categoricamente: Eu sou ou não sou isto ou aqui
lo, quem ousaria arrogar-se o direito de desmenti-lo, embora para colocá--lo mais alto do que Ele a si mesmo se coloca? Quem pode racionalmente
pretender estar mais esclarecido do que Ele sobre a sua própria natureza?
Que interpretações podem prevalecer contra afirmações tão formais e mul
tiplicadas como estas:
Não vim de mim mesmo, mas aquele que me enviou é o único Deus verdadeiro.
— Foi de sua parte que vim. — Digo o que vi junto a meu Pai. — Não me cabe
a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o preparou. — Vou
para meu Pai, porque meu Pai é maior do que Eu. — Por que me chamas bom?
Bom não há senão somente Deus. — Não tenho falado por mim mesmo; meu Pai,
que me enviou, foi quem me prescreveu, por mandamento seu, o que devo dizer. – A doutrina que prego não é minha, mas daquele que me enviou. — A palavra
que tendes ouvido não é minha, mas de meu Pai que me enviou. — Nada faço de
mim mesmo; digo unicamente o que meu Pai me ensinou. — Nada posso fazer de
mim mesmo. — Não cuido de fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que
me enviou. — Tenho-vos dito a verdade que aprendi de Deus. — Meu alimento
é fazer a vontade daquele que me enviou. — Tu que és o único Deus verdadeiro e
Jesus Cristo a quem enviaste. — Meu Pai, nas tuas mãos entrego a minha alma. —
Meu Pai, se for possível, faze que de mim se afaste este cálice. — Subo para meu
Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.
Quando se leem tais palavras, fica-se a perguntar como há podi
do vir, sequer, à mente de alguém a ideia de atribuir-lhes sentido diame
tralmente oposto ao que elas exprimem tão claramente, de conceber uma
identificação completa, de natureza e de poder, entre o Senhor e aquele que
se declara seu servidor. Neste grande processo, que dura há quase quinze
séculos, quais as peças de convicção? Os Evangelhos — não há outras —,
os quais, no ponto em litígio, não dão lugar a qualquer equívoco. A do
cumentos autênticos, que não se podem contestar, sem arguir de falsa a
veracidade dos evangelistas e do próprio Jesus, documentos que se apoiam
em testemunhos oculares, que é que contrapõem? Uma doutrina teórica
puramente especulativa, nascida, três séculos mais tarde, de uma polêmica
travada sobre a natureza abstrata do Verbo, doutrina essa rigorosamente
combatida durante muitos séculos e que só prevaleceu pela pressão de um
poder civil absoluto.
CINCO – Dupla natureza de Jesus
Poder-se-ia objetar que, em virtude da dupla natureza de Jesus, suas
palavras exprimiam seu sentir como homem, e não como Deus. Sem, neste
momento, examinarmos por que encadeamento de circunstâncias chega
ram, muito mais tarde, à hipótese dessa dupla natureza, admitamo-la, por
um instante, e vejamos se, em vez de elucidar a questão, ela não a complica
ainda mais, ao ponto de torná-la insolúvel.
O que, em Jesus, haveria de humano era o corpo, a parte material.
Deste ponto de vista, compreende-se que Ele haja podido sofrer e tenha
mesmo sofrido como homem. A alma, o Espírito, a mente, numa palavra,
a parte espiritual do Ser é o que haveria nele de divino. Se Ele sentia e sofria
como homem, como Deus é que pensaria e falaria. Falava como homem
ou como Deus? Eis uma questão importante, pela autoridade excepcional
dos seus ensinamentos. Se falava como homem, suas palavras são passíveis
de controvérsia; se falava como Deus, são indiscutíveis e temos de aceitá-las
e de com elas conformar-nos, sob pena de deserção e de heresia. O mais
ortodoxo será aquele que mais se aproximar delas.
Dir-se-á que, sob o seu envoltório corporal, Jesus não tinha cons
ciência da sua natureza divina? Mas se fosse assim, Ele não teria, sequer,
pensado como Deus, sua natureza divina houvera permanecido em esta
do latente; só a natureza humana teria presidido à sua missão, aos seus
atos morais, como aos seus atos materiais. É, pois, impossível abstrair--se da sua natureza divina durante a sua vida, sem se lhe enfraquecer a autoridade.
Mas se Ele falou como Deus, por que esse incessante protesto contra
a sua natureza divina que, em tal caso, Ele não podia ignorar? Ter-se-ia
então enganado, o que seria pouco divino, ou teria cientemente enganado
o mundo, o que ainda o seria menos. Parece-nos difícil sair desse dilema.
Se se admitir que falou ora como homem, ora como Deus, a questão
se complica, pela impossibilidade de distinguir-se o que vinha do homem
e o que procedia de Deus.
Dado que Ele tivesse motivos para dissimular sua verdadeira natu
reza durante a missão que desempenhava, o meio mais simples teria sido
não falar dela, ou exprimir-se, como o fez noutras circunstâncias, de modo
vago e parabólico, sobre os pontos cujo conhecimento estava reservado ao
futuro. Ora, este não é aqui o caso, pois que as palavras acima nenhuma
ambiguidade apresentam.
Enfim, se, apesar de todas estas considerações, ainda se pudesse su
por que, quando vivo, Ele ignorava a sua verdadeira natureza, outro tan
to já não se pode admitir se desse, depois da sua ressurreição, visto que,
quando aparece a seus discípulos, já não é o homem quem fala, é o Espí
rito desprendido da matéria, que já havia de ter recobrado a plenitude de
suas faculdades espirituais e a consciência do seu estado normal, da sua
identificação com a divindade. Entretanto, foi então que disse: “Subo para
meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus!”
A subordinação de Jesus é ainda indicada pela sua qualidade mes
ma de mediador, que implica a existência de uma pessoa distinta. É
Ele quem intercede junto a seu Pai; quem se oferece em sacrifício para
remissão dos pecadores. Ora, se Ele é o próprio Deus, ou se fosse em
tudo igual a este, não precisaria interceder, porquanto ninguém interce
de junto a si mesmo.
SEIS – Opinião dos Apóstolos
Até aqui, apoiamo-nos exclusivamente nas palavras do Cristo, como
único elemento peremptório de convicção, porque, fora daí, somente há
opiniões pessoais.
De todas essas opiniões, as de maior valor são, incontestavelmente,
as dos Apóstolos, uma vez que estes o assistiram em sua missão e uma vez
também que, se Ele lhes houvesse dado instruções secretas, respeito à sua
natureza, alguns traços dessas instruções se descobririam nos escritos deles.
Tendo vivido na sua intimidade, melhor do que ninguém haviam eles de
conhecê-lo. Vejamos, pois, de que maneira o consideraram.
Ó israelitas, escutai as palavras que vos vou dizer: Sabeis que Jesus de Nazaré foi
um homem que Deus tornou célebre entre vós, pelas maravilhas, prodígios e milagres
que o mesmo Deus fez por seu intermédio no meio de vós. — Entretanto, vós o
crucificastes e lhe destes morte pelas mãos dos maus, tendo-vos Ele sido entregue
por ordem expressa da vontade de Deus e por decreto da sua presciência. — Mas
Deus o ressuscitou, detendo as dores do inferno, por impossível que Ele aí perma
necesse. — Porque Davi disse em seu nome: Eu tinha o Senhor presente sempre
diante de mim, a fim de que eu não fosse abalado. — É por isso que o meu coração
se rejubilou, que a minha língua cantou cânticos de alegria e que a minha carne
mesma repousará em esperança; — porque não deixareis minha alma no inferno
e não permitireis que o vosso Santo experimente a corrupção. — Vós me fizestes
conhecer o caminho da vida e me enchereis da alegria que dá a vista do vosso
semblante (Atos dos apóstolos, 2:22 a 28. Prédica de Pedro).
Depois então que foi elevado pelo poder de Deus e que recebeu o cumprimento da
promessa que o Pai lhe fizera de enviar o Santo Espírito, Ele espalhou esse Espírito
Santo que agora vedes e ouvis; — porquanto Davi não subiu ao Céu. — Ora, ele
próprio disse: O Senhor disse a meu Senhor: senta-te à minha direita — até que Eu
haja reduzido teus inimigos a te servirem de escabelo. — Que, pois, toda a casa de
Israel saiba, com absoluta certeza, que Deus fez Senhor e Cristo a esse Jesus que vós
crucificastes (Atos dos apóstolos, 2:33 a 36. Prédica de Pedro).
Moisés disse a nossos pais: o Senhor vosso Deus vos suscitará dentre os vossos irmãos
um profeta como eu. Escutai-o em tudo o que Ele disser. — Quem não escutar esse
profeta será exterminado do meio do povo.
Foi por vós primeiramente que Deus suscitou seu Filho e vo-lo enviou para vos
abençoar, a fim de que cada um se convertesse da sua má vida (Atos dos apóstolos,
3:22, 23 e 26. Prédica de S. Pedro).
Declaramos a todos vós e a todo o povo de Israel que é pelo nome de nosso Senhor
Jesus Cristo de Nazaré, a quem crucificastes e que Deus ressuscitou dentre os mortos;
é por Ele que este homem está agora curado, como o vedes, diante de vós (Atos dos
apóstolos, 4:10. Prédica de Pedro).
Os reis da terra se levantaram e os príncipes se uniram contra o Senhor e contra o
seu Cristo. — Herodes e Pôncio Pilatos com os gentios e o povo de Israel verda
deiramente se conluiaram contra o vosso santo Filho Jesus, a quem consagrastes
por vossa unção, para fazer tudo o que o vosso poder e o vosso conselho haviam
ordenado que fosse feito (Atos dos apóstolos, 4:26 a 28. Prece dos Apóstolos).
Pedro e os outros Apóstolos responderam: Cumpre obedecer antes a Deus do que
aos homens. — O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus que vós fizestes morrer pen
durando-o no madeiro. — Foi a Ele que Deus elevou pela sua destra, como o Príncipe
e o Salvador, para dar a Israel a graça da penitência e a remissão dos pecados (Atos
dos apóstolos, 5:29 a 31. Resposta dos Apóstolos ao sumo sacerdote).
Foi esse Moisés que disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre os vossos
irmãos um profeta como eu, escutai-o.
Mas o Altíssimo não habita em templos feitos pelas mãos dos homens, segundo
esta palavra do profeta: — O céu é meu trono e a terra meu escabelo. Que casa
me edificareis, diz o Senhor? e qual poderia ser o lugar de meu repouso? (Atos dos
apóstolos, 7:37, 48 e 49. Discurso de Estêvão).
Mas estando Estêvão cheio do Espírito Santo e elevando os olhos ao céu, viu a
glória de Deus e a Jesus que estava de pé à direita de Deus, e disse: Vejo abertos os
céus e o Filho do homem que está de pé à direita de Deus.
Então, lançando grandes brados e tapando os ouvidos, todos juntos se lançaram
sobre ele; e, tendo-o arrastado para fora dos muros da cidade, o lapidaram; e as
testemunhas, tomando-lhe as vestes, as puseram aos pés de um mancebo cha
mado Saulo (mais tarde Paulo). — Enquanto o lapidavam, Estêvão invocava a
Jesus, dizendo: Senhor Jesus, recebe meu Espírito (Atos dos apóstolos, 7:55 a 59.
Martírio de Estêvão).
Estas citações comprovam claramente o caráter que os Apóstolos
atribuíam a Jesus. A ideia exclusiva que ressalta desses textos é a da sua su
bordinação a Deus, da constante supremacia de Deus, sem que coisa algu
ma aí revele um pensamento de assimilação qualquer, de natureza e de poder.
Para eles, Jesus era um homem profeta, escolhido e abençoado por Deus.
Não foi, pois, entre os Apóstolos que teve origem a crença na divindade de
Jesus. Paulo, que não conheceu a Jesus, mas que, de ardoroso perseguidor,
se tornou o mais zeloso e o mais eloquente discípulo da nova fé e cujos es
critos prepararam os primeiros formulários da religião cristã, não é menos
explícito a respeito. Há nele o mesmo sentimento de dois seres distintos e
da supremacia do Pai sobre o Filho.
Paulo, servidor de Jesus Cristo, Apóstolo da vocação divina, escolhido e destinado
a anunciar o Evangelho de Deus — que Ele antes prometera por seus profetas nas
escrituras santas — no tocante a seu filho, que lhe nasceu, segundo a carne, do sangue e
da raça de Davi; — que foi predestinado a ser Filho de Deus, num soberano poder,
segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos; no tocante,
digo, a Jesus Cristo, nosso Senhor; — por quem recebemos a graça do apostolado,
para fazer que obedeçam à fé todas as nações pela virtude do seu nome; — no rol
das quais também estais vós, tendo sido chamados por Jesus Cristo; — a vós que
estais em Roma, que sois queridos de Deus e chamados a ser santos; que Deus,
nosso Pai, e Jesus Cristo, nosso Senhor, vos deem a graça e a paz (Romanos, 1:1 a 7).
Estando assim justificados pela fé, tenhamos a paz com Deus por Jesus Cristo, nosso
Senhor.
Porque, quando ainda estávamos nos langores do pecado, Jesus Cristo morreu por
ímpios como nós, no tempo destinado por Deus.
Jesus Cristo não deixou de morrer por nós no tempo destinado por Deus. Assim,
estando agora justificados pelo seu sangue, seremos, com mais forte razão, isenta
dos por Ele da cólera de Deus.
E não somente fomos reconciliados, como até nos glorificamos em Deus por Jesus
Cristo, nosso Senhor, por quem obtivemos essa reconciliação.
Se muitos morreram pelo pecado de um só, a misericórdia e o dom de Deus se
derramaram, com mais forte razão, mais abundantemente sobre muitos pela graça
de um só homem, que é Jesus Cristo (Romanos, 5:1, 6, 9, 11 e 15).
Se somos filhos, somos também herdeiros, heRdeiRos de Deus e coeRdeiRos de
Jesus Cristo, contanto, porém, que soframos com Ele (Romanos, 8:17).
Se confessais de boca que Jesus Cristo é o Senhor e se credes de coração que Deus
o ressuscitou dentre os mortos, sereis salvos (Romanos, 10:9).
Em seguida virá a consumação de todas as coisas, quando Ele houver entregue o seu
reino a Deus e Pai e houver destruído todo império, toda dominação, todo poder
— porquanto Jesus Cristo tem de reinar, até que seu Pai haja posto sob seus pés
todos os seus inimigos. — Ora, a morte será o último inimigo a ser destruído, pois
a escritura diz que Deus tudo lhe pôs debaixo dos pés e tudo lhe sujeitou, sendo
indubitável que daí se deve excetuar aquele que submeteu todas as coisas. — Quan
do, pois, todas as coisas estiverem submetidas ao Filho, então o Filho estará, Ele
mesmo, submetido àquele que lhe terá submetido todas as coisas, a fim de que Deus
seja tudo em todos (I Coríntios, 15:24 a 28).
Mas vemos que Jesus, que fora tornado, por um pouco de tempo, inferior aos an
jos, foi coroado de glória e de honras, devido à morte que Ele sofreu; Deus em sua
bondade, tendo querido que Ele morresse por todos — por ser Ele bem digno de
Deus, para quem e por quem são todas as coisas, quis que, por querer conduzir à
glória muitos filhos, Ele consumasse e aperfeiçoasse pelo sofrimento aquele que havia
de ser o chefe e o autor da salvação deles.
Assim, o que santifica e os que são santificados vêm todos de um mesmo princípio; por
isso é que Ele não se vexa de lhes chamar irmãos — dizendo: Anunciarei o teu nome
aos meus irmãos; entoar-te-ei louvores no meio da assembleia do teu povo. — E, algures:
porei nele a minha confiança. E, noutro lugar: eis-me aqui com os filhos que Deus me deu.
Eis por que necessário se tornou que Ele fosse em tudo semelhante a seus irmãos,
para ser, diante de Deus, um pontífice compassivo e fiel em seu ministério, a fim de
expiar os pecados do povo. — Pois, é das penas e dos sofrimentos mesmos, pelos
quais foi tentado e experimentado, que Ele tira a virtude e a força de socorrer os
que também são tentados (Hebreus, 2:9 a 13, 17, 18).
Portanto, meus santos irmãos, vós que tendes parte na vocação celeste, considerai
a Jesus, que é o Apóstolo e o Pontífice da religião que professamos; — que é fiel
àquele que o estabeleceu nesse cargo, como Moisés lhe foi fiel em toda a sua casa;
— porquanto Ele foi julgado digno de uma glória tanto maior do que a de Moisés,
quanto aquele que edificou a casa é mais estimável do que a própria casa; visto
não haver casa que não tenha sido construída por alguém. Ora, aquele que é o
arquiteto e o criador de todas as coisas é Deus (Hebreus, 3:1 a 4).
SETE – Predição dos profetas, com relação a Jesus
Além das afirmações de Jesus e da opinião dos Apóstolos, há um teste
munho cujo valor os crentes mais ortodoxos não poderiam contestar, pois que o
apontam constantemente como artigo de fé: é o do próprio Deus, isto é, o dos
profetas falando por inspiração e anunciando a vinda do Messias. Ora, aqui vão
as passagens da Bíblia consideradas como predição desse grande acontecimento.
Eu o vejo, porém não agora; olho-o, porém não de perto; uma estrela proveio de
Jacó e um cetro se elevou de Israel e traspassará os chefes de Moabe e destruirá
todos os filhos de Sete (Números, 24:17).
Eu lhes suscitarei um profeta, como tu, dentre seus irmãos e porei na sua boca as
minhas palavras e Ele dirá o que Eu lhe houver ordenado. E dar-se-á que àquele
que não escutar as palavras que Ele houver dito em meu nome, a esse pedirei contas
(Deuteronômio, 18:18 e 19).
Acontecerá, pois, quando chegarem os dias de te ires com teus pais, que farei
levantar-se a tua posteridade depois de ti, um de teus filhos, e estabelecerei o seu
reino. Ele me construirá uma casa e Eu firmarei o seu trono para sempre. Ser-lhe--ei pai e Ele me será filho e dele não retirarei a minha misericórdia, como a retirei
daquele que foi antes de ti, e o estabelecerei na minha casa e no meu reino para
sempre e seu trono se afirmará para sempre (Paralipômenos,11 17:11 a 14).
Eis por que o Senhor mesmo vos dará um sinal: uma virgem ficará grávida e parirá
um filho e Ele se chamará Emmanuel (Isaías, 7:14).
Pois o menino nos nasceu, o Filho nos foi dado e o império foi posto sobre seus
ombros e chamar-se-lhe-á, seu nome, o Admirável, o Conselheiro, o Deus forte, o
Poderoso, o Pai da eternidade, o Príncipe da paz (Isaías, 9:6).
Aqui está meu servidor, Eu o sustentarei; é meu eleito, minha alma pôs nele sua afei
ção; nele pus o meu Espírito; Ele exercerá a justiça entre as nações.
“Ele absolutamente não se retirará, nem se precipitará, até que Eu haja estabeleci
do a justiça na terra e os seres se submeterão à sua lei (Isaías, 42:1 a 4).
Ele gozará do trabalho de sua alma e dele se fartará; e meu servo justo a muitos
justificará, pelo conhecimento que terão dele e ele próprio lhes arrebatará as ini
quidades (Isaías, 53:11).
Rejubila-te ao extremo, filha de Sião; solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis
que o teu Rei a ti virá, justo e salvador humilde e montado num jumento, sobre o
potro de uma jumenta. E Eu farei desaparecer os carros de guerra de Efraim e os
cavalos de Jerusalém e o arco do combate também desaparecerá e o Rei falará de
paz às nações. E sua dominação se estenderá de um mar a outro mar e do rio aos
extremos da terra (Zacarias, 9:9 e 10).
E ele (o Cristo) se manterá e governará pela força do Eterno e com a magnificên
cia do nome do Eterno seu Deus. E eles voltarão e agora Ele será glorificado até as
extremidades da terra e será Ele quem fará a paz (Miqueias, 5:4).
A distinção entre Deus e seu futuro enviado se acha aí caracterizada
do modo mais formal. Deus o designa por seu servidor, conseguintemente
por seu subordinado. Nada há, em suas palavras, que implique a ideia
de igualdade de poder, nem de consubstancialidade entre os dois seres.
Ter-se-ia Deus enganado e teriam visto com mais exatidão do que Ele
os homens que vieram três séculos depois de Jesus Cristo? Tal parece ser a
pretensão deles.
OITO – O Verbo se fez carne
No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era
Deus. — Ele estava no princípio com Deus. — Todas as coisas foram fei
tas por Ele e nada do que foi feito o foi sem Ele. — Nele estava a vida e a
vida era a luz dos homens. — E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a
compreenderam.
Houve um homem enviado de Deus, que se chamava João. — Ele veio para servir
de testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por ele. —
Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho daquele que era a luz.
Aquele era a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo,
e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não o conheceu. — Ele veio à sua casa
e os seus não o receberam. — Mas Ele deu a todos que o receberam o poder
de se tornarem filhos de Deus, àqueles que creem no seu nome, os quais não
nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem,
mas de Deus mesmo.
E o Verbo foi feito carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, qual a que o
Filho único havia de receber do Pai; e Ele, digo, habitou entre nós, cheio de graça
e de verdade (João, 1:1 a 14).
Esta passagem dos Evangelhos é a única que, à primeira vista, parece
encerrar implicitamente uma ideia de identificação entre Deus e a pessoa
de Jesus; é também a que serviu de base, mais tarde, à controvérsia a tal
respeito. A questão da divindade de Jesus surgiu gradativamente; nasceu
das discussões levantadas a propósito das interpretações que alguns deram
às palavras Verbo e Filho. Só no quarto século uma parte da Igreja a adotou,
em princípio. Semelhante dogma resultou, pois, de decisão dos homens, e
não de uma revelação divina.
É de notar-se, antes de tudo, que as palavras acima citadas são de
João, e não de Jesus, e que, ainda quando se admita que não tenham sido
alteradas, elas não exprimem, na realidade, mais que uma opinião pessoal,
uma indução, em que se depara com o misticismo habitual da sua lingua
gem; não poderiam, pois, prevalecer contra as reiteradas afirmações do
próprio Jesus.
Mesmo, porém, aceitando-as tais quais são, elas não resolvem de
modo algum a questão no sentido da divindade, porquanto se aplicariam
igualmente a Jesus, criatura de Deus.
Com efeito, o Verbo é Deus, porque é a palavra de Deus. Tendo rece
bido diretamente de Deus a palavra, com a missão de a revelar aos homens,
ele a assimilou. A palavra divina, de que se penetrara, encarnou nele; Ele a
trouxe consigo ao nascer e assim é que João pôde com razão dizer: O Verbo
foi feito carne e habitou entre nós. Jesus podia, pois, ter sido encarregado de
transmitir a palavra de Deus, sem ser o próprio Deus, como um embaixa
dor transmite as palavras do seu soberano, sem ser o soberano. Segundo
o dogma da divindade, é Deus quem fala; na outra hipótese, Ele fala pela
boca do seu enviado, o que nada tira à autoridade das suas palavras.
Mas quem autoriza esta suposição, de preferência a outra? A única
autoridade competente para decidir a questão é a das próprias palavras de
Jesus, quando diz: “Não tenho falado por mim mesmo; aquele que me enviou
foi quem me prescreveu, por seu mandamento, o que tenho de dizer. — A dou
trina que prego não é minha, mas daquele que me enviou; a palavra que tendes
ouvido não é palavra minha, mas de meu Pai que me enviou”. A ninguém
fora possível exprimir-se com mais clareza e precisão.
A qualidade de Messias ou Enviado, que lhe é atribuída em todo
o curso dos Evangelhos, implica uma posição subordinada com relação
àquele que ordena; o que obedece não pode ser igual ao que manda. João
caracteriza esta posição secundária e, por conseguinte, estabelece a duali
dade de entidades, quando diz: “E vimos a sua glória, tal como o Filho único
devia recebê-la do Pai”, visto que aquele que recebe não pode ser o que dá
e aquele que dá a glória não pode ser o igual daquele que a recebe. Se Jesus
é Deus, possui a glória por si mesmo e não a espera de ninguém; se Deus
e Jesus são um único ser sob dois nomes diferentes, entre Eles não poderia
existir supremacia, nem subordinação. Ora, não havendo paridade absolu
ta de posições, segue-se que são dois seres distintos.
A qualificação de Messias Divino não exprime que haja mais igualda
de entre o mandatário e o mandante do que a de enviado real entre um rei
e seu representante.
Jesus era um messias divino pelo duplo motivo de que de Deus é que
tinha a sua missão e de que suas perfeições o punham em relação direta
com Deus.
NOVE – O Filho de Deus e o Filho do homem
O título de Filho de Deus, longe de implicar igualdade, é, muito ao
contrário, indício de uma submissão. Ora, ninguém é submetido a si mes
mo, mas a alguém.
Para que Jesus fosse, em absoluto, igual a Deus, fora preciso que Ele
existisse, como Deus, de toda a eternidade, isto é, que fosse incriado. Ora,
o dogma diz que Deus o gerou desde toda a eternidade, mas quem diz gerou
diz criou. Fosse ou não desde toda a eternidade, Ele não deixa por isso de
ser uma criatura e de estar, como tal, subordinada ao seu Criador. É a ideia
que implicitamente se contém no termo Filho.
Nasceu Jesus no tempo? Ou, por outra: houve um tempo, na
eternidade passada, em que Ele não existia? ou é Ele coeterno com o
Pai? Tais as sutilezas sobre que disputaram durante séculos. Em que
autoridade se apoia a doutrina da coeternidade, que passou ao esta
do de dogma? Na opinião dos homens que a engendraram. Mas esses
homens em que autoridade fundaram semelhante opinião? Não foi na
de Jesus, pois que este se declara subordinado; não foi na dos profetas
que o anunciam como o enviado e o servo de Deus. Em que documen
tos desconhecidos, mais autênticos do que os Evangelhos, encontraram
eles tal doutrina? Parece que só na consciência e na superioridade de
suas próprias luzes.
Deixemos, pois, essas discussões vãs, que a nada conduzem e cuja
própria solução, fosse esta possível, não tornaria melhores os homens.
Digamos que Jesus é Filho de Deus, como todas as criaturas, que Ele cha
ma a Deus Pai, como nós aprendemos a tratá-lo de nosso Pai. É o Filho
bem-amado de Deus, porque, tendo alcançado a perfeição, que aproxima
de Deus a criatura, possui toda a confiança e toda a afeição de Deus. Ele
se diz Filho único, não porque seja o único ser que haja chegado à perfei
ção, mas porque era o único predestinado a desempenhar aquela missão
na Terra.
Se pode parecer que a qualificação de Filho de Deus apoia a doutrina
da divindade, o mesmo já não se dá com a de Filho do homem, que também
Jesus deu a si mesmo, em sua missão, e que constituiu objeto de muitos
comentários.
Para lhe compreendermos o verdadeiro sentido, temos que remon
tar à Bíblia, na qual a encontramos dada pelo próprio Deus ao profeta
Ezequiel.
Tal a imagem do Senhor, que me foi apresentada. Ao ver aquelas coisas, caí de
rosto em terra e ouvi uma voz que me falou assim: Filho do homem, tem-te de pé
e Eu falarei contigo. — E, tendo-me falado dessa maneira, o Espírito entrou em
mim e me firmou nos pés e ouvi que me falava, dizendo: Filho do homem, envio-te
aos filhos de Israel, a um povo apóstata, que se retirou de mim. Violaram até hoje,
eles e seus pais, a aliança que Eu com eles fizera (Ezequiel, 2:1 a 3).
Filho do homem, eis que eles te prepararam grilhões; acorrentar-te-ão e dali não
sairás (Ezequiel, 3:25).
O Senhor me dirigiu então a palavra, dizendo: — E tu, Filho do homem, ouve o
que diz o Senhor Deus à terra de Israel: o fim vem; vem esse fim nos quatro cantos
da terra (Ezequiel, 7:1 e 2).
No décimo dia do décimo mês do nono ano, o Senhor me dirigiu a palavra, di
zendo: — Filho do homem, marca bem este dia em que o rei de Babilônia reuniu
suas tropas diante de Jerusalém (Ezequiel, 24:1 e 2).
Disse-me ainda o Senhor estas palavras: — Filho do homem, vou ferir-vos
com uma chaga e tirar-vos o que há de mais agradável aos vossos olhos, mas
não me fareis lamentações fúnebres; não chorareis e lágrimas não vos correrão
pelas faces. — Gemereis em segredo e não vos enlutareis, como se faz pelos
mortos; a vossa coroa se conservará presa à vossa cabeça e tereis nos pés as
vossas sandálias; não cobrireis o vosso rosto e não comereis as viandas que se
dão aos que se acham de luto. — Falei então pela manhã ao povo e à tarde
minha mulher morreu. No dia seguinte, fiz o que Deus me ordenara (Ezequiel,
24:15 a 18).
O Senhor ainda me falou e disse: — Filho do homem, profetiza com referência aos
pastores de Israel; profetiza e dize aos pastores: Eis o que diz o Senhor Deus: Ai dos
pastores de Israel que se apascentam a si mesmos; os pastores não apascentam seus
rebanhos? (Ezequiel, 34:1 e 2).
Então, eu o ouvi que me falava, dentro da casa; e o homem que me estava próximo
disse: — Filho do homem, está aqui o lugar do meu trono, o lugar onde porei
meus pés e onde ficarei para sempre no meio dos filhos de Israel e a casa de Israel
não profanará mais o meu santo nome no futuro, nem eles, nem seus reis, com as
suas idolatrias, com os sepulcros de seus reis, nem com as nobres descendências
(Ezequiel, 43:6 e 7).
Porque Deus não ameaça como o homem e não entra em furor como o Filho do
Homem (Judite, 8:15).
É evidente que a qualificação de Filho do Homem quer aqui dizer: que
nasceu do homem, por oposição ao que está fora da Humanidade. A última
citação, tirada do livro de Judite, não permite dúvida quanto ao significado
da expressão, usada em sentido muito literal. Deus somente assim designa
a Ezequiel, certamente para lhe lembrar que, malgrado o dom de profecia
que lhe fora concedido, ele não deixava de pertencer à Humanidade e a fim
de que não se considerasse de natureza excepcional.
Jesus dá a si mesmo essa qualificação com persistência notável, pois
só em circunstâncias muito raras Ele se diz Filho de Deus. Em sua boca, não
pode ter ela outra significação, que não lembrar que também Ele pertence à
Humanidade, identificando-se desse modo aos profetas que o precederam
e aos quais se comparou, aludindo à sua morte, quando disse: Jerusalém,
que matas os profetas! A insistência com que Ele se designa por Filho do
homem parece um protesto antecipado contra a qualidade que, segundo
previa, lhe seria dada mais tarde, a fim de ficar bem determinado que essa
qualidade não saíra de seus lábios.
É de notar-se que, durante essa interminável polêmica que apai
xonou os homens por longa série de séculos e que ainda continua, que
acendeu fogueiras e fez correr rios de sangue, o que se discutia era uma
abstração, a natureza de Jesus, da qual se fizera a pedra angular do edifício,
embora deste não falassem e hajam olvidado uma coisa, a que o Cristo
disse ser toda a lei e os profetas: o amor de Deus e do próximo e a caridade,
que Ele estabeleceu como condição expressa da salvação. Aferraram-se à
questão da afinidade de Jesus com Deus e emudeceram com relação às
virtudes que Ele recomendou e exemplificou.
O próprio Deus ficou apagado, ante a exaltação da personalidade
do Cristo. No símbolo de Niceia, diz-se apenas: Cremos num só Deus
etc. Mas como é esse Deus? Nenhuma menção ali há dos seus atributos
essenciais: a soberana bondade e a soberana justiça. É que estas palavras
teriam sido a condenação dos dogmas que consagram a sua parcialidade
para com certas criaturas, a sua inexorabilidade, o seu ciúme, a sua cólera,
o seu espírito de vindita, e com que justificaram as crueldades cometidas
em seu nome.
Se o símbolo de Niceia, que se tornou o fundamento da fé católica,
estava conforme ao espírito do Cristo, por que o anátema com que ele
termina? Não está aí uma prova de que ele é obra da paixão dos homens?
A que se deve, aliás, a sua adoção? À pressão do imperador Constantino,
que dele fez uma questão mais política do que religiosa. Sem sua ordem,
o concílio de Niceia não se houvera realizado; sem a intimidação que ele
exerceu, é mais que provável que o Arianismo levasse a melhor. Tudo, pois,
dependeu da autoridade soberana de um homem, que não pertence à Igre
ja, que reconheceu, mais tarde, o erro político que cometera e que inutil
mente procurou voltar atrás, conciliando os partidos. Unicamente daquela
autoridade dependeu não haver arianos em vez de católicos e de não ser
hoje o Arianismo a ortodoxia e o Catolicismo a heresia.
Após dezoito séculos de lutas e disputas vãs, no curso das quais foi
posta inteiramente de lado a parte mais essencial do ensino do Cristo, a
única que podia garantir a paz para a Humanidade, toda gente se acha can
sada dessas discussões estéreis, que só a perturbações conduziram, gerando
a incredulidade, e cujo objeto já não satisfaz à razão.
A opinião geral manifesta hoje uma tendência acentuada a voltar às
ideias fundamentais da Igreja primitiva e à parte moral dos ensinamentos
do Cristo, por ser a única que pode tornar melhores os homens. Essa é
clara, positiva e não pode abrir ensejo a nenhuma controvérsia. Se, desde o
princípio, a Igreja houvesse tomado esse caminho, seria agora onipotente
em vez de estar em declínio. Houvera congregado a imensa maioria dos
homens, em lugar de ter sido esfacelada pelas facções.
Quando marcharem sob essa bandeira, os homens se darão as mãos
fraternalmente, em vez de se anatematizarem e amaldiçoarem, por ques
tões que quase nunca compreendem.
Aquela tendência da opinião é sinal de que chegou o momento de
ser levada a questão para o verdadeiro terreno.
Teoria da beleza
Será a beleza coisa convencional e relativa a cada tipo? O que, para
certos povos, constitui a beleza, não será, para outros, horrenda fealdade?
Os negros se consideram mais belos que os brancos e vice-versa. Nesse con
flito de gostos, haverá uma beleza absoluta? Em que consiste ela? Somos,
realmente, mais belos do que os hotentotes e os cafres? Por quê?
Esta questão que, à primeira vista, parece estranha ao objeto dos
nossos estudos, a eles, no entanto, se prende de modo direto e entende com
o futuro mesmo da Humanidade. Ela nos foi sugerida, assim como a sua
solução, pela seguinte passagem de um livro muito interessante e muito
instrutivo, intitulado: As revoluções inevitáveis no globo e na humanidade,
de Charles Richard.
O autor combate a opinião dos que sustentam a degenerescência fí
sica do homem, desde os tempos primitivos; refuta vitoriosamente a crença
na existência de uma primitiva raça de gigantes e empreende provar que,
do ponto de vista físico e do talhe, os homens de hoje valem os antigos, se
é que não os ultrapassam.
Tratando da beleza das formas, exprime-se ele assim, nas páginas 41
e seguintes:
Pelo que toca à beleza do rosto, à graça da fisionomia, ao conjunto que constitui a
estética do corpo, ainda é mais fácil de comprovar-se a melhoria operada.
Basta, para isso, que se lance um olhar sobre os tipos que as medalhas e as estátuas
antigas nos transmitiram intactas através dos séculos.
A iconografia de Visconti e o museu do conde de Clarol são, entre muitas outras,
duas fontes donde com facilidade se podem tirar variados elementos para este
interessante estudo.
O que mais solicita a atenção nesse conjunto de figuras é a rudeza dos traços, a
animalidade da expressão, a crueza do olhar. O observador sente, com involuntário
frêmito, que tem diante de si gente que o cortaria em pedaços, para dá-los de co
mer às suas moreias, como o fazia Polion, rico apreciador de boas iguarias, cidadão
de Roma e familiar de Augusto.
O primeiro Brutus (Lucius Junius), o que mandou cortar a cabeça a seus filhos
e assistiu a sangue-frio ao suplício de ambos, assemelha-se a uma fera. Seu perfil
sinistro tem da águia e do mocho o que esses dois carniceiros do ar apresentam de
mais feroz. Vendo-o, ninguém pode duvidar de que haja merecido a ignominiosa
honra que a História lhe conferiu. Assim como matou os dois filhos, também teria
estrangulado a própria mãe, pelo mesmo motivo.
O segundo Brutus (Marcus), que apunhalou César, seu pai adotivo, precisamente
na hora em que este mais contava com o seu reconhecimento e o seu amor, lem
bra, pelos traços, um asno fanático; não mostra, sequer, a beleza sinistra que o
artista descobre muitas vezes, essa energia extremada que impele ao crime.
Cícero, o orador brilhante, escritor espiritual e profundo, que deixou tão grande
recordação da sua passagem por este mundo, tem um rosto acachapado e vulgar,
que certamente tornava muito menos agradável vê-lo, do que ouvi-lo.
Júlio César, o grande, o incomparável vencedor, o herói dos massacres, que deu
entrada no reino das sombras com um cortejo de dois milhões de almas por ele
previamente despachadas para lá, era tão feio como o seu predecessor, mas de
outro gênero. Seu rosto magro e ossudo, posto sobre um pescoço comprido e en
feado por um gogó saliente, parecia-se mais com um grande Gilles13 do que com
um grande guerreiro.
Galba, Vespasiano, Nerva, Caracala, Alexandre Severo, Balbino, não eram apenas
feios, mas horrendos. É com dificuldade que, nesse museu dos antigos tipos da
nossa espécie, o observador logra descobrir, aqui ou ali, algumas figuras que pos
sam merecer um olhar de simpatia.
As de Cipião, o Africano, de Pompeu, de Cômodo, de Heliogábalo, de Antinous,
o pequeno de Adriano, são desse reduzido número. Sem serem belos, no sentido
moderno da palavra, essas figuras são, entretanto, regulares e de agradável aspecto.
As mulheres não são melhor tratadas do que os homens e dão ensejo às mesmas
notas. Lívia, filha de Augusto, tem o perfil pontudo de uma fuinha; Agripina faz
medo e Messalina, como que para desconcertar a Cabanis e Lavater, parece uma
gordanchuda serviçal, mais amante de sopas suculentas do que de outra coisa.
Os gregos, é preciso dizê-lo, são, em geral, menos mal talhados que os romanos. As
figuras de Temístocles e de Milcíades, entre outros, podem comparar-se aos mais
belos tipos modernos. Mas Alcibíades, o avô longínquo dos nossos Richelieu e dos
nossos Lauzun, cujas façanhas galantes, por si sós, enchem a crônica de Atenas,
tinha, como Messalina, muito pouco do físico que corresponderia às suas ativida
des. Ao ver-lhe os traços solenes e a fronte grave, quem quer que seja o tomaria
antes por um jurisconsulto agarrado a um texto de lei do que pelo audacioso con
quistador, que foi, de mulheres, que se fazia exilar em Esparta, unicamente para
enganar o pobre rei Ágis e, depois, vangloriar-se de ter sido amante de uma rainha.
Sem embargo da pequena vantagem que, quanto a esse ponto, se possa conceder
aos gregos sobre os romanos, quem se der ao trabalho de comparar esses velhos
tipos com os do nosso tempo, reconhecerá sem esforço que nesse sentido, como
em todos os outros, houve progresso. Apenas, convém não esquecer, nessa compa
ração, que aqui se trata de classes privilegiadas, sempre mais belas do que as outras
e que, por conseguinte, os tipos modernos que se hajam de contrapor aos antigos
deverão ser escolhidos nos salões, e não nas pocilgas. É que a pobreza, ah! em todos
os tempos e sob todos os aspectos, jamais foi bela e não o é, precisamente, para nos
envergonhar e forçar-nos a um dia nos libertarmos dela.
Não quero, pois, dizer, longe disso, que a fealdade haja desaparecido inteiramente
das nossas frontes e que a marca divina se acha afinal posta em todas as máscaras
que velam uma alma. Longe de mim avançar uma afirmação que muito facilmente
poderia ser contestada por toda gente. A minha pretensão se limita a verificar que,
num período de dois mil anos, coisa tão pouca para uma Humanidade que tanto tem
de viver, a fisionomia da espécie melhorou de maneira já sensível.
Creio, além disso, que as mais belas figuras da Antiguidade são inferiores às que
podemos diariamente admirar em nossas reuniões públicas, em nossas festas e até
no trânsito das ruas. Se não fosse o receio de ofender certas modéstias e também o
de excitar certos ciúmes, confirmaria a evidência do fato com algumas centenas de
exemplos conhecidos de todos, no mundo contemporâneo.
Os oradores do passado enchem constantemente a boca com a famosa Vênus de
Médici, que lhes parece o ideal da beleza feminina, sem se aperceberem de que
essa mesma Vênus passeia todos os domingos pelas avenidas d’Arles, em mais de
cinquenta exemplares, e poucas serão as nossas cidades, sobretudo do Sul, que não
possuam algumas...
...Em tudo o que vimos de dizer, limitamo-nos a comparar o nosso tipo atual com
o dos povos que nos precederam de apenas alguns milhares de anos. Se, porém,
remontarmos mais longe através das idades, penetrando nas camadas terrestres
onde dormem os despojos das primeiras raças que habitaram o nosso globo, a
vantagem a nosso favor se tornará de tal modo sensível que qualquer negação a
esse propósito se desvanecerá por si mesma.
Sob aquela influência teológica que deteve Copérnico e Tycho Brahe, que per
seguiu Galileu e que, nestes tempos mais próximos, obscureceu por um instante
o gênio do próprio Cuvier, a Ciência hesitava em sondar os mistérios das épocas
antediluvianas. A narrativa bíblica, admitida ao pé da letra, no mais estreito sen
tido, parecia haver dito a última palavra acerca da nossa origem e dos séculos que
nos separam dela. Mas a verdade, impiedosa nos seus acrescentamentos, acabou
rompendo a veste de ferro em que a queriam aprisionar para sempre e pondo a nu
formas até então ocultas.
O homem que vivia, antes do dilúvio, em companhia dos mastodontes, do urso das
cavernas e de outros grandes mamíferos hoje desaparecidos, o homem fóssil, numa
palavra, por tão longo tempo negado, foi encontrado afinal, ficando fora de dúvida
a sua existência. Os recentes trabalhos dos geólogos, particularmente os de Boucher
de Perthes,14 de Filippi e de Lyell, permitem se apreciem os caracteres físicos desse ve
nerável avô do gênero humano. Ora, a despeito dos contos imaginados pelos poetas,
sobre a beleza originária; malgrado o respeito que lhe é devido, como chefe antigo da
nossa raça, a Ciência é obrigada a atestar que ele era de prodigiosa fealdade.
Seu ângulo facial não passava de 70o; suas mandíbulas, de considerável volume,
eram armadas de dentes longos e salientes; tinha fugidia a fronte e as têmporas
achatadas, o nariz esborrachado, largas as narinas. Em resumo, esse venerável pai
devia assemelhar-se bem mais a um orangotango do que aos seus afastados filhos
de hoje; a tal ponto que, se não lhe houvessem achado ao lado as achas de sílex que
fabricara e, em alguns casos, animais que ainda apresentavam traços das feridas
causadas por essas armas informes, fora de duvidar-se do papel que ele desempe
nhava na nossa filiação terrestre. Não somente sabia fabricar achas de sílex, como
também clavas e pontas de dardos, da mesma matéria.
A galantaria antediluviana chegava mesmo a confeccionar braceletes e colares de
pedrinhas arredondadas para adorno, naqueles tempos longínquos, dos braços e
pescoços do sexo encantador, que depois se tornou muito mais exigente, como
todos podem testemunhar.
Não sei o que a respeito pensarão as elegantes dos nossos dias, cujas espáduas cin
tilam de diamantes; quanto a mim, confesso-o, não me posso forrar a uma emoção
profunda, ao pensar nesse primeiro esforço que o homem, mal diferenciado do
bruto, fez para agradar à sua companheira, pobre e nua como ele, no seio de uma
Natureza inóspita, sobre a qual a sua raça há de reinar um dia. Ó distanciados
avós! Se já sabíeis amar, com as vossas faces rudimentares, como poderíamos nós
duvidar da vossa paternidade, ante esse sinal divino da nossa espécie?
É, pois, manifesto que aqueles humanos informes são nossos pais, uma vez que
nos deixaram traços da sua inteligência e do seu amor, atributos essenciais que nos
separam da besta. Podemos, então, examinando-os atentamente, despojados das
aluviões que os cobrem, medir, como a compasso, o progresso físico que a nossa
espécie realizou, desde o seu aparecimento na Terra. Ora, esse progresso, que, faz
pouco, podia ser contestado pelo espírito de sistema e pelos prejuízos de educação,
assume tal evidência que não há mais como deixar de o reconhecer e proclamar.
Alguns milhares de anos podiam permitir dúvidas, algumas centenas de séculos as
dissipam irrevogavelmente...
...Quão jovens e recentes somos em todas as coisas! Ainda ignoramos o nosso lugar
e o nosso caminho na imensidade do Universo e ousamos negar progressos que, por
falta de tempo, ainda não puderam ser reconhecidos. Crianças que somos, tenha
mos um pouco de paciência e os séculos, aproximando-nos da meta, nos revelarão
esplendores que, no seu afastamento, escapam aos nossos olhos apenas entreabertos.
Mas, desde já, proclamemos em altas vozes, pois que a Ciência no-lo permite,
o fato capital e consolador do progresso lento, mas seguro, do nosso tipo físico,
rumo a esse ideal que os grandes artistas entreviram, graças às inspirações que o
Céu lhes envia, revelando-lhes seus segredos. O ideal não é produto ilusório da
imaginação, um sonho fugitivo destinado a dar, de tempos a tempos, compensa
ção às nossas misérias. É um fim assinado por Deus aos nossos aperfeiçoamentos,
fim infinito, porque só o infinito, em todos os casos, pode satisfazer ao nosso
espírito e oferecer-lhe uma carreira digna dele.
Destas judiciosas observações, resulta que a forma dos corpos se mo
dificou em sentido determinado e segundo uma lei, à medida que o ser
moral se desenvolveu; que a forma exterior está em relação constante com
o instinto e os apetites do ser moral; que, quanto mais seus instintos se
aproximam da animalidade, tanto mais a forma igualmente dela se apro
xima; enfim, que, à medida que os instintos materiais se depuram e dão
lugar a sentimentos morais, o envoltório material, que já não se destina à
satisfação de necessidades grosseiras, toma formas cada vez menos pesadas,
mais delicadas, de harmonia com a elevação e a delicadeza das ideias. A
perfeição da forma é, assim, consequência da perfeição do Espírito: donde
se pode concluir que o ideal da forma há de ser a que revestem os Espíritos
em estado de pureza, a com que sonham os poetas e os verdadeiros artistas,
porque penetram, pelo pensamento, nos mundos superiores.
Diz-se, de há muito, que o semblante é o espelho da alma. Esta ver
dade, que se tornou axioma, explica o fato vulgar de desaparecerem certas
fealdades sob o reflexo das qualidades morais do Espírito e o de, muito
amiúde, se preferir uma pessoa feia, dotada de eminentes qualidades, a
outra que apenas possui a beleza plástica. É que semelhante fealdade con
siste unicamente em irregularidades de forma, mas sem excluir a finura dos
traços, necessária à expressão dos sentimentos delicados.
Do que precede se pode concluir que a beleza real consiste na forma
que mais afastada se apresenta da animalidade e que melhor reflete a supe
rioridade intelectual e moral do Espírito, que é o ser principal. Influindo
o moral, como influi, sobre o físico, que ele apropria às suas necessidades
físicas e morais, segue-se: 1o) que o tipo da beleza consiste na forma mais
própria à expressão das mais altas qualidades morais e intelectuais; 2o) que,
à medida que o homem se elevar moralmente, seu envoltório se irá avizi
nhando do ideal da beleza, que é a beleza angélica.
O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um
gato, mas não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros,
seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir
as paixões violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados
matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito fino.15
Daí o podermos, sem fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que
os negros e os hotentotes. Mas também pode ser que, para as gerações
futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com relação a nós. E
quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, elas não os tomarão
pelos de alguma espécie de animais.
Lido que foi na Sociedade de Paris, este artigo se tornou obje
to de grande número de comunicações, apresentando todas as mesmas
conclusões. Transcreveremos apenas as duas seguintes, por serem as mais
desenvolvidas:
Paris, 4 de fevereiro de 1869.
(Médium: Sra. Malet)
Ponderastes com acerto que a fonte primária de toda bondade e de toda inte
ligência é também a fonte de toda beleza. — O amor gera a beleza de todas as
coisas, sendo, ele próprio, a perfeição. — O Espírito tem por dever adquirir essa
perfeição, que é a sua essência e o seu destino. Ele tem que se aproximar, por seu
trabalho, da inteligência soberana e da bondade infinita; tem, pois, também que
revestir a forma cada vez mais perfeita, que caracteriza os seres perfeitos.
Se, nas vossas sociedades infelizes, no vosso globo ainda mal equilibrado, a espé
cie humana está tão longe dessa beleza física, é porque a beleza moral ainda está
em começo de desenvolvimento. A conexão entre essas duas belezas é fato certo,
lógico e do qual já neste mundo a alma tem a intuição. Com efeito, sabeis todos
quão penoso é o aspecto de uma encantadora fisionomia, cujo encanto, porém, o
caráter desmente. Se ouvis falar de uma pessoa de mérito comprovado, logo lhe
atribuis os mais simpáticos traços e ficais dolorosamente impressionados, quando
verificais que a realidade desmente as vossas previsões.
Que concluir daí, senão que, como todas as coisas que o futuro guarda de reserva,
a alma tem a presciência da beleza, à medida que a Humanidade progride e se
que tem como base a igualdade entre os homens, pois que todos somos Espíritos em busca de evolu
ção, as raças seriam apenas “roupagens” que vestimos durante determinada encarnação.
aproxima do seu tipo divino. Não busqueis tirar, da aparente decadência em que
se acha a raça mais adiantada deste globo, argumentos contrários a essa afirmação.
Sim, é verdade que a espécie parece degenerar, abastardar-se; sobre vós se abatem
as enfermidades antes da velhice; mesmo a infância sofre as moléstias que habitual
mente só se manifestam noutra idade da vida. É isso, no entanto, simples transição.
A vossa época é má; ela acaba e gera: acaba um período doloroso e gera uma época
de regeneração física, de adiantamento moral, de progresso intelectual. A nova raça,
de que já falei, terá mais faculdades, mais recursos para os serviços do espírito; será
maior, mais forte, mais bela. Desde o princípio, pôr-se-á de harmonia com as ri
quezas da Criação que a vossa raça, descuidosa e fatigada, desdenha ou ignora. Ter--lhe-eis feito grandes coisas, das quais ela aproveitará, avançando pela estrada das
descobertas e dos aperfeiçoamentos, com um ardor febril cujo poder desconheceis.
Mais adiantados também em bondade, os vossos descendentes farão desta infeliz
terra o que não haveis sabido fazer: um mundo ditoso, onde o pobre não será repe
lido, nem desprezado, mas socorrido por vastas e liberais instituições. Já desponta
a aurora dessas ideias; chega-nos, por momentos, a claridade delas.
Amigos, eis afinal o dia em que a luz brilhará na Terra obscura e miserável, em
que a raça será boa e bela, de acordo com o grau de adiantamento que haja al
cançado, em que o sinal posto na fronte do homem já não será o da reprovação,
mas um sinal de alegria e de esperança. Então, os Espíritos adiantados virão, em
multidões, tomar lugar entre os colonos deste globo; estarão em maioria e tudo
lhes cederá ao passo. Far-se-á a renovação e a face do globo será mudada, por
quanto essa raça será grande e poderosa e o momento em que ela vier assinalará
o começo dos tempos venturosos.
pamphile
Paris, 4 de fevereiro de 1869.
A beleza, do ponto de vista puramente humano, é uma questão muito discutível e
muito discutida. Para a apreciarmos bem, precisamos estudá-la como amador de
sinteressado. Aquele que estiver sob o encantamento não pode ter voz no capítulo.
Também entra em linha de conta o gosto de cada um, nas apreciações que se fazem.
Belo, realmente belo só é o que o é sempre e para todos; e essa beleza eterna,
infinita, é a manifestação divina em seus aspectos incessantemente variados; é
Deus em suas obras e nas suas leis! Eis aí a única beleza absoluta. É a harmonia
das harmonias e tem direito ao título de absoluta, porque nada de mais belo se
pode conceber.
Quanto ao que se convencionou chamar belo e que é verdadeiramente digno desse
título, não deve ser considerado senão como coisa essencialmente relativa, por
quanto sempre se pode conceber alguma coisa mais bela, mais perfeita. Somente
uma beleza existe e uma única perfeição: Deus. Fora dele, tudo o que adornarmos
com esses atributos não passa de pálido reflexo do belo único, de um aspecto har
monioso das mil e uma harmonias da Criação.
Há tantas harmonias, quantos objetos criados, quantas belezas típicas, por conse
guinte, determinando o ponto culminante da perfeição que qualquer das subdi
visões do elemento animado pode alcançar. — A pedra é bela e bela de modos
diversos. — Cada espécie mineral tem suas harmonias e o elemento que reúne todas
as harmonias da espécie possui a maior soma de beleza que a espécie possa alcançar.
A flor tem suas harmonias; também ela pode possuí-las todas ou insuladamente e
ser diferentemente bela, mas somente será bela quando as harmonias que concor
rem para a sua criação se acharem harmonicamente fusionadas. — Dois tipos de
beleza podem produzir, por fusão, um ser híbrido, informe, de aspecto repulsivo.
— Há então cacofonia! Todas as vibrações, insuladamente, eram harmônicas, mas
a diferença de tonalidade entre elas produziu um desacordo, ao encontrarem-se as
ondas vibrantes; daí o monstro!
Descendo a escala criada, cada tipo animal dá lugar às mesmas observações e a fero
cidade, a manha, até a inveja poderão dar origem a belezas especiais, se estiver sem
mistura o princípio que determina a forma. A harmonia, mesmo no mal, produz
o belo. Há o belo satânico e o belo angélico; a beleza enérgica e a beleza resignada.
Cada sentimento, cada feixe de sentimentos, contanto que seja harmônico, produz um
particular tipo de beleza, cujos aspectos humanos são todos, não degenerescências, mas
esboços. É, pois, certo dizermos, não que somos mais belos, porém que nos aproxima
mos cada vez mais da beleza real, à medida que nos elevamos para a perfeição.
Todos os tipos se unem harmonicamente no perfeito. Daí o ser este o belo abso
luto. — Nós que progredimos possuímos apenas uma beleza relativa, debilitada e
combatida pelos elementos desarmônicos da nossa natureza.
lavateR
A música celeste
Certo dia, numa reunião familiar, o chefe da família lera uma pas
sagem de O livro dos espíritos concernente à música celeste. Uma de suas
filhas, boa musicista, pôs-se a dizer consigo mesma: Mas não há música
no Mundo Invisível! Parecia-lhe isso impossível; entretanto, não externou
seu pensamento. Na noite do mesmo dia, escreveu ela espontaneamente a
comunicação seguinte:
Esta manhã, minha filha, teu pai te leu uma passagem de O livro dos espíritos. Trata
va-se de música e tu aprendeste que a do Céu é muito mais bela do que a da Terra.
Os Espíritos acham-na muito superior à vossa. Tudo isto é verdade; no entanto, di
zias intimamente: Como poderia Bellini vir dar-me conselhos e ouvir a minha mú
sica? Foi provavelmente algum Espírito leviano e farsista (Alusão aos conselhos que
o Espírito Bellini às vezes lhe dava sobre música). Enganas-te, minha filha. Quando
os Espíritos tomam sob a sua proteção um encarnado, o objetivo que colimam é
fazê-lo adiantar-se.
Assim, Bellini já não acha bela a sua música, porque não a pode comparar à do Es
paço, mas, vendo a tua aplicação e o teu amor a essa arte, se te dá conselhos, é por
sincera satisfação. Ele deseja que o teu professor seja recompensado de todo o seu es
forço. Achando suas composições muito infantis, em face das sublimes harmonias do
Mundo Invisível, ele aprecia o teu talento, que se pode qualificar de grande aí nesse
mundo. Acredita, minha filha, os sons dos vossos instrumentos, as vossas mais belas
vozes não poderiam dar-vos a menor ideia da música celeste e da sua suave harmonia.
Passados alguns instantes, disse a moça: “Papai, papai, vou ador
mecer, vou cair”. Logo se lançou numa poltrona, exclamando: “Ó papai,
papai, que música deliciosa!... Desperta-me, senão eu me vou”.
Não sabendo os assistentes, aterrorizados, como fazer para despertá--la, disse ela: “Água, água”.
Com efeito, algumas gotas que lhe salpicaram no rosto deram pron
to resultado. Atordoada a princípio, voltou lentamente a si, sem a mínima
consciência do que se passara.
Ainda na mesma noite, achando-se só, o pai da donzela recebeu do
Espírito São Luís a explicação seguinte:
Quando lias à tua filha a passagem de O livro dos espíritos referente à música ce
leste, ela se conservava em dúvida; não compreendia que no Mundo Espiritual
pudesse haver música. Eis por que depois eu lhe disse que era verdade. Não tendo
a minha afirmativa podido persuadi-la, Deus permitiu que, para convencer-se, ela
caísse em sono sonambúlico. Então, desprendendo-se do corpo adormecido, seu
Espírito se lançou pelo Espaço e foi admitido nas regiões etéreas, onde ficou em
êxtase produzido pela impressão da harmonia celeste. Por isso foi que exclamou:
‘Que música! que música!’ Sentindo-se, porém, transportada a regiões cada vez
mais elevadas do Mundo Espiritual, pediu que a despertassem, indicando o meio
de o conseguirem: com água.
Tudo se faz pela vontade de Deus. O Espírito de tua filha não mais duvidará.
Embora, despertado, não guarde lembrança nítida do que se passou, seu Espírito
sabe agora onde está a verdade.
Agradecei a Deus os favores de que cumula esta criança. Agradecei-lhe o dignar-se
fazer-vos conhecer cada vez mais a sua onipotência e a sua bondade. Que suas
bênçãos se derramem sobre vós e sobre este médium, ditoso entre mil!”
Nota – Perguntar-se-á talvez que convicção pode ter resultado para aquela moça
do que lhe foi dado ouvir, uma vez que de nada se lembra. Se, no estado de vigília,
os pormenores se lhe apagaram da memória, seu Espírito se recorda. Ficou-lhe uma
intuição, bastante para lhe modificar as ideias. Em vez de fazer-lhes oposição, ela
aceitará sem dificuldade as explicações que lhe foram dadas, porque as compreen
derá e intuitivamente as reconhecerá de acordo com o seu sentimento íntimo.
O que se passou neste fato isolado, pelo espaço de alguns minutos, durante a breve
excursão que o Espírito da moça realizou pelo Mundo Espiritual, é análogo ao
que se dá no intervalo de uma existência a outra, quando o Espírito que encarna
possui luzes sobre um assunto qualquer. Ele se apropria sem dificuldade de todas
as ideias referentes a esse assunto, se bem que, como homem, não se recorde da
maneira por que as adquiriu. Ao contrário, as ideias, para cuja assimilação ainda
não se acha maduro, dificilmente lhe entram no cérebro.
Assim se explica a facilidade com que certas pessoas assimilam as ideias espíritas.
Em tais pessoas, essas ideias nada mais fazem que despertar as que já elas pos
suíam. As criaturas a que nos referimos são espíritas de nascença, como outros são
poetas, músicos ou matemáticos. Logo às primeiras palavras, compreendem e não
necessitam de fatos materiais para se convencerem. É, não há duvidar, um sinal de
adiantamento moral e de desenvolvimento espiritual.
Na comunicação acima se lê: “Agradecei a Deus os favores de que cumula esta
criança; que suas bênçãos desçam sobre este médium, ditoso entre mil”. Poder--se-ia supor que estas palavras indicam a concessão de um favor, uma preferência,
um privilégio, quando o Espiritismo ensina que, sendo Deus soberanamente jus
to, nenhuma de suas criaturas é privilegiada e que Ele não facilita o caminho mais
a uns do que a outros. Sem nenhuma dúvida a mesma senda está aberta a todos,
mas nem todos a percorrem com a mesma rapidez e com o mesmo resultado;
nem todos aproveitam igualmente das instruções que recebem. O Espírito da
moça em questão, embora jovem como encarnado, já com certeza muito vivera
e progredira bastante.
Os bons Espíritos, achando-a dócil aos seus ensinamentos, se comprazem em ins
truí-la, como faz o professor ao aluno em quem descobre boas disposições. É nesse
sentido que o médium é ditoso entre muitos outros que, para seu adiantamento
moral, nenhum fruto colhem da mediunidade de que são dotados. Não há, pois,
neste caso, nem favor, nem privilégio; unicamente uma recompensa. Se o seu
Espírito deixasse de ser digno dela, dentro em pouco teria afastado de si seus bons
guias e se veria cercado de uma multidão de Espíritos maus.
Música espírita
“Recentemente, na sede da Sociedade Espírita de Paris, o presidente me deu a
honra de pedir a minha opinião sobre o estado atual da música e sobre as modi
ficações que lhe poderiam advir por influência das crenças espíritas. Se de pronto
não cedi a esse apelo benévolo e simpático, foi, crede-o, meus senhores, por uma
causa de ordem superior.
Os músicos são homens como os outros, mais homens, talvez, e, nessas condi
ções, falíveis e sujeitos a pecar. Nunca estive isento de fraquezas e, se Deus me fez
longa a vida, a fim de que eu tivesse tempo de me arrepender, a embriaguez do
êxito, a complacência dos amigos e as lisonjas dos cortejadores muitas vezes me
tiraram o meio de efetivar esse arrependimento. Um maestro é uma potência neste
mundo, onde o prazer desempenha tão importante papel. Àquele cuja arte con
siste em deleitar os ouvidos e enternecer os corações muitas ciladas se lhe armam
diante dos passos, nas quais cai o infeliz. Ele se inebria da ebriez dos outros; os
aplausos lhe tapam as ouças e ei-lo a caminhar direto para o abismo, sem procurar
um ponto de apoio para resistir ao arrastamento.
Entretanto, sem embargo dos meus erros, eu depositava fé em Deus; eu cria na
alma que vibrava em mim e, libertando-se da gaiola sonora, ela presto se reco
nheceu em meio das harmonias da Criação e confundiu sua prece com as que se
elevam da Natureza ao Infinito, da Criação ao Ser incriado!...
Sou feliz pelo sentimento que a minha vinda ao seio dos espíritas provocou,
porque foi a simpatia que o determinou, e, se a princípio só a curiosidade me
atraiu, é ao meu reconhecimento que devereis a explanação do tema que me
propuseram.
Eu ali estava, pronto a falar, supondo tudo saber, quando, abatido o meu orgulho,
a minha ignorância se me patenteou. Fiquei mudo e a escutar. Voltei, instruí-me e,
quando às palavras de verdade, ditas pelos vossos mentores, se juntaram a reflexão
e a meditação, disse eu de mim para comigo:
O grande maestro Rossini, o criador de tantas obras-primas segundo os homens,
nada mais fez, ah! do que debulhar algumas das pérolas menos perfeitas do escrí
nio musical criado pelo Mestre dos mestres. Rossini reuniu notas, compôs melo
dias, bebeu da taça que contém todas as harmonias, roubou algumas centelhas
ao fogo sagrado, mas esse fogo sagrado nem ele, nem outros o criaram! — Nada
inventamos: copiamos do grande livro da Natureza e a multidão aplaude, quando
não apresentamos por demais deformada a partitura.
Uma dissertação sobre a música celeste! Quem poderia de tal coisa encarregar-se?
Que Espírito sobre-humano poderia fazer vibrar a matéria em uníssono com essa
arte encantadora? Que cérebro humano, que Espírito encarnado poderia apanhar--lhe os matizes infinitamente variados? Quem possui a esse ponto o sentimento
da harmonia?... Não, o homem não está feito em tais condições!... Mais tarde!...
muito mais tarde!...
Por agora, virei, talvez dentro em pouco, satisfazer ao vosso desejo e dar-vos a
minha apreciação sobre o estado atual da música e dizer-vos das transformações,
dos progressos que o Espiritismo poderá fazer que ela experimente. — Hoje, é
ainda muitíssimo cedo. O assunto é vasto, já o estudei, mas ele ainda me excede.
Quando dele me houver assenhoreado, se isso for possível, ou, melhor, quando eu
haja entrevisto tanto quanto o estado de meu espírito me permitir, eu vos satis
farei. Um pouco mais de tempo. Se somente um músico pode falar da música do
futuro, deve fazê-lo como mestre e Rossini não quer falar dela como um escolar.
RossiNi – Médium: Desliens
“Foi explicado o silêncio que guardei sobre a questão que o Mestre da Doutrina
Espírita me propôs. Era conveniente que, antes de entrar em tão difícil assunto, eu
me concentrasse, reunisse as minhas lembranças e condensasse os elementos que
me estavam ao alcance. Não me cabia estudar a música, tinha apenas de classificar
com método os argumentos, a fim de apresentar um resumo capaz de dar ideia da
minha concepção da harmonia. Esse trabalho, que não fiz sem dificuldade, se acha
concluído e estou pronto a submetê-lo à apreciação dos espíritas.
A harmonia é difícil de definir-se; muitas vezes, confundem-na com a música,
com os sons, como resultante de um arranjo de notas e das vibrações dos instru
mentos que reproduzem esse arranjo. Mas não é isso a harmonia, do mesmo modo
que a chama não é a luz. A chama resulta da combinação de dois gases: é tangível;
a luz que ela projeta é um efeito dessa combinação, e não a própria chama: não
é tangível. Aqui, o efeito é superior à causa. O mesmo se dá com a harmonia; ela
resulta de um arranjo musical, é um efeito igualmente superior à causa. Esta é
brutal e tangível; o efeito é sutil e intangível.
Pode-se conceber a luz sem chama e compreender a harmonia sem música. A alma
é apta a perceber a harmonia, excluído todo o concurso de instrumentação, como
é apta a ver a luz sem o concurso de combinações materiais. A luz é um sentido
íntimo que a alma possui: quanto mais desenvolvido ele, tanto melhor percebe
ela a luz. A harmonia é igualmente um sentido íntimo da alma, que a percebe em
relação com o desenvolvimento desse sentido. Fora do mundo material, isto é, fora
das causas tangíveis, a luz e a harmonia são de essência divina. A posse de uma e
outra está na razão dos esforços empregados para adquiri-las. Se comparo a luz e
a harmonia, é para me fazer mais bem compreendido e também porque esses dois
sublimes gozos da alma são filhos de Deus e, portanto, irmãos.
É tão complexa a harmonia do Espaço, tem tantos graus que eu conheço e muitos
outros mais que se me conservam ocultos no éter infinito, que aquele que se acha
colocado a certa altura de percepções é como que tomado de espanto ao contemplar
essas diversas harmonias, que constituiriam, se reunidas, a mais insuportável caco
fonia; enquanto, ao contrário, percebidas separadamente, constituem a harmonia
particular a cada grau. Nos graus inferiores, essas harmonias são elementares e gros
seiras; levam ao êxtase, nos graus superiores. Tal harmonia, que choca um Espírito
de percepções sutis, encanta um outro de percepções grosseiras e, quando é dado
ao Espírito inferior deleitar-se com os encantos das harmonias superiores, o êxtase
o arrebata e a prece lhe penetra o íntimo. O encantamento o transporta às elevadas
esferas do mundo moral; ele entra a viver uma vida superior à sua e assim desejara
continuar a viver para sempre. Mas desde que a harmonia deixe de penetrá-lo, ele
desperta, ou, se o preferirem, adormece. Em todo caso, volta à realidade da sua situa
ção e, dos lamentos que lhe escapam por haver descido, se exala uma prece ao Eter
no, a pedir-lhe forças para de novo subir. Aí tem ele um grande motivo de emulação.
Não tentarei explicar os efeitos musicais que o Espírito produz atuando sobre
o éter; o que é certo é que o Espírito produz os sons que queira e que não pode
querer o que não sabe. Assim, pois, aquele que compreende muito, que tem em
si a harmonia, que se acha dela saturado, que goza do seu sentido íntimo, desse
nada impalpável, dessa abstração que é a concepção da harmonia, atua quando
quer sobre o fluido universal que, instrumento fiel, reproduz o que ele concebe
e deseja. O éter vibra sob a ação da vontade do Espírito; a harmonia, que este
último traz em si, concretiza-se, por assim dizer; evola-se, doce e suave, como o
perfume da violeta, ou ruge como a tempestade, ou estala como o raio, ou solta
queixumes como a brisa. É rápida qual relâmpago, ou lenta como a neblina; tem
os despedaçamentos de um soluço, ou é contínua como a relva; é precipitada qual
catarata, ou calma como um lago; murmura como um regato, ou ronca como uma
torrente. Ora apresenta a rudeza agreste das montanhas, ora a frescura de um oá
sis; é alternativamente triste e melancólica como a noite, leda e jovial como o dia;
caprichosa como a criança, consoladora como uma mãe e protetora como um pai;
desordenada como a paixão, límpida como o amor e grandiosa como a Natureza.
Quando chega a este último terreno, confunde-se com a prece, glorifica a Deus e
leva ao arroubamento aquele mesmo que a produz, ou a concebe.
Oh! comparação! comparação! Por que havemos de ser obrigados a servir-nos de ti! Por
que havemos de dobrar-nos à necessidade degradante de buscar, de tomar de emprés
timo à natureza tangível imagens grosseiras, para fazermos compreensível a sublime
harmonia em que o Espírito se deleita! E, a despeito das comparações, não se consegue
dar ideia dessa abstração, sentimento quando causa, sensação quando se torna efeito.
O Espírito que tem o sentimento da harmonia é como o Espírito que tem a ri
queza intelectual: um e outro gozam constantemente da propriedade inalienável
que granjearam. O Espírito inteligente, que ensina a sua ciência aos que ignoram,
experimenta a ventura de ensinar, porque sabe que torna felizes aqueles a quem
instrui; o Espírito que faz ressoar no éter os acordes da harmonia que traz em si
experimenta a felicidade de ver satisfeitos os que o escutam.
A harmonia, a ciência e a virtude são as três grandes concepções do Espírito: a
primeira o arrebata, a segunda o esclarece, a terceira o eleva. Possuídas em toda a
plenitude, elas se confundem e constituem a pureza. Ó Espíritos puros que as pos
suís! descei às nossas trevas e iluminai a nossa caminhada. Mostrai-nos a estrada
que tomastes, a fim de que sigamos as vossas pegadas!
Quando penso que esses Espíritos, cuja existência mal posso compreender, são seres
finitos, átomos, em face do eterno Senhor do Universo, a minha razão se confunde
ao cogitar da grandeza de Deus e da bem-aventurança infinita, de que ele goza em si
mesmo, pelo só fato de ser infinita a sua pureza, pois que tudo o que a criatura ad
quire não é mais que uma parcela do que emana do Criador. Ora, se a parcela chega
a fascinar pela vontade, a cativar e a deslumbrar pela suavidade, a resplandecer pela
virtude, que não produzirá a fonte eterna e infinita donde provém a criatura? Se o
Espírito, ser criado, chega a extrair da sua pureza tanta felicidade, que ideia se há de
ter da que o Criador tira da sua pureza absoluta? Problema eterno!
O compositor que concebe a harmonia a traduz na grosseira linguagem chamada
música; concreta a sua ideia e a escreve. O artista aprende a forma e escolhe o
instrumento que lhe permita exprimir a ideia. Acionado pelo instrumento, o ar a
transporta ao ouvido do ouvinte e o ouvido a transmite à alma. Mas o compositor
foi impotente para expressar inteiramente a harmonia que concebera, por falta de
uma língua apropriada. O executante, a seu turno, não compreendeu toda a ideia
escrita e o instrumento indócil de que ele se serve não lhe permite traduzir tudo o
que haja compreendido. O ouvido é afetado pelo ar grosseiro que o cerca e a alma,
enfim, recebe, por um órgão rebelde, a horrível tradução da ideia desabrochada
na alma do maestro. Essa ideia era o seu sentimento íntimo. Embora desvirtuada
pelos agentes da instrumentação e da percepção, ela sempre causa sensações nos
que a ouvem traduzida; essas sensações são a harmonia.
A música as produziu; elas são efeito da música. Esta é posta a serviço do senti
mento para ocasionar a sensação. O sentimento, na composição, é a harmonia; a
sensação, no ouvinte, é também a harmonia, com a diferença de que é concebida
por um e recebida pelo outro. A música é o médium da harmonia; ela a recebe
e a dá, como o refletor é o médium da luz, como tu és o médium dos Espíritos.
Transmite-a mais ou menos deformada, conforme seja bem ou mal executada, do
mesmo modo que o refletor envia mais ou menos bem a luz, conforme seja mais
ou menos brilhante e polido, do mesmo modo que o médium exprime mais ou
menos bem os pensamentos dos Espíritos, conforme seja mais ou menos maleável.
Agora, que a harmonia está bem compreendida na sua significação, que se sabe ser
ela concebida pela alma e transmitida à alma, compreender-se-á a diferença que
existe entre a harmonia da Terra e a do Espaço.
Na Terra, tudo é grosseiro: o instrumento de tradução e o instrumento de percep
ção. Entre nós, tudo é sutil: vós tendes o ar, nós temos o éter; tendes um órgão que
obstrui e vela; nós temos a percepção direta. Entre vós, o autor é traduzido; entre
nós, ele opera sem intermediário e numa língua que exprime todas as concepções.
Entretanto, essas harmonias têm a mesma fonte de origem, como a luz da lua tem
a mesma fonte de origem que a do sol; a harmonia da Terra não é mais do que
reflexo da harmonia do Espaço.
É tão indefinível a harmonia, quanto a felicidade, o temor, a cólera. É um sentimen
to. Só a pode compreender quem a possui e só a possui quem a tenha adquirido. O
homem jovial não pode explicar a sua jovialidade; o que é timorato não pode expli
car a sua timidez; podem expor os fatos que esses sentimentos provocam, defini-los,
descrevê-los, mas os sentimentos, esses se conservam inexplicados. O fato que a um
causa alegria, nada a outro produzirá; o objeto que ocasiona o temor em um deter
minará a coragem noutro. As mesmas causas geram efeitos contrários; em Física isto
não existe, em Metafísica existe. Existe, porque o sentimento é propriedade da alma
e as almas diferem de sensibilidade entre si, de impressionabilidade, de liberdade.
A música, que é a causa segunda da harmonia percebida, penetra e transporta a
um, deixando frio e indiferente a outro. É que o primeiro se acha em estado de
receber a impressão que a harmonia produz, ao passo que o segundo se acha em
estado oposto; ele ouve o ar que vibra, mas não compreende a ideia que ele lhe
traz. Este chega a entediar-se e a adormecer, enquanto aquele outro se entusias
ma e chora. Evidentemente, o homem que goza as delícias da harmonia é muito
mais elevado, mais depurado, do que aquele em quem ela não logra penetrar; sua
alma, mais apta a sentir, desprende-se mais facilmente e a harmonia lhe auxilia o
desprendimento; transporta-a e lhe permite ver melhor o mundo moral. Deve-se
concluir daí que a música é essencialmente moralizadora, uma vez que traz a har
monia às almas e que a harmonia as eleva e engrandece.
Toda gente reconhece a influência da música sobre a alma e sobre o seu progresso.
Mas a razão dessa influência é em geral ignorada. Sua explicação está toda neste
fato: que a harmonia coloca a alma sob o poder de um sentimento que a desmate
rializa. Este sentimento existe em certo grau, mas desenvolve-se sob a ação de um
sentimento similar mais elevado. Aquele que esteja desprovido de tal sentimento
é conduzido gradativamente a adquiri-lo: acaba deixando-se penetrar por ele e
arrastar ao mundo ideal, onde esquece, por instantes, os prazeres inferiores que
prefere à divina harmonia.
Agora, se considerarmos que a harmonia sai do concerto do Espírito, deduziremos
que a música exerce salutar influência sobre a alma e a alma que a concebe também
exerce influência sobre a música. A alma virtuosa, que nutre a paixão do bem,
do belo, do grandioso e que adquiriu harmonia, produzirá obras-primas capazes
de penetrar as mais endurecidas almas e de comovê-las. Se o compositor é terra
a terra, como poderá exprimir a virtude de que desdenha, o belo que ignora e o
grandioso que não compreende? Suas composições refletirão seus gostos sensuais,
sua leviandade, sua negligência. Serão ora licenciosas, ora obscenas, ora cômicas,
ora burlescas; comunicarão aos ouvintes os sentimentos que exprimirem e os per
verterão, em vez de melhorá-los.
O Espiritismo, com o moralizar os homens, exercerá, pois, grande influência sobre
a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que transfundirão suas virtudes
ao fazerem ouvidas suas composições.
Rir-se-á menos; chorar-se-á mais; a hilaridade cederá lugar à emoção, a fealdade à
beleza e o cômico à grandiosidade.
Por outro lado, os ouvintes que o Espiritismo dispuser a receber facilmente a har
monia gozarão, ouvindo a música séria, de verdadeiro encanto; desprezarão a mú
sica frívola e licenciosa, que seduz as massas. Quando o grotesco e o obsceno forem
varridos pelo belo e pelo bem, desaparecerão os compositores daquela ordem, por
quanto, sem ouvintes, nada ganharão, e é para ganhar que eles se emporcalham.
Oh! sim, o Espiritismo terá influência sobre a música! Como poderia não ser
assim? Seu advento transformará a arte, depurando-a. Sua origem é divina, sua
força o levará a toda parte onde haja homens para amar, para elevar-se e para
compreender. Ele se tornará o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores,
compositores, poetas irão buscar nele suas inspirações e ele lhas fornecerá, porque
é rico, é inesgotável.
O Espírito do maestro Rossini voltará, numa nova existência, a continuar a arte
que ele considera a primeira de todas. O Espiritismo será seu símbolo e o inspira
dor de suas composições.
RossiNi – Médium: NivarT
O caminho da vida
A questão da pluralidade das existências há desde longo tempo preo
cupado os filósofos e mais de um reconheceu na anterioridade da alma a
única solução possível para os mais importantes problemas da Psicologia.
Sem esse princípio, eles se encontraram detidos a cada passo, encurralados
num beco sem saída, donde somente puderam escapar com o auxílio da
pluralidade das existências.
A maior objeção que podem fazer a essa teoria é a da ausência de lem
branças das existências anteriores. Com efeito, uma sucessão de existências
inconscientes umas das outras; deixar um corpo para tomar outro sem a
memória do passado equivaleria ao nada, visto que seria o nada quanto ao
pensamento; seria uma multiplicidade de novos pontos de partida, sem
ligação entre si; seria a ruptura incessante de todas as afeições que fazem
o encanto da vida presente, a mais doce e consoladora esperança do futu
ro; seria, afinal, a negação de toda a responsabilidade moral. Semelhante
doutrina seria tão inadmissível e tão incompatível com a Justiça Divina,
quanto a de uma única existência com a perspectiva de uma eternidade de
penas por algumas faltas temporárias. Compreende-se então que os que
formam semelhante ideia da reencarnação a repilam, mas não é assim que
o Espiritismo no-la apresenta.
A existência espiritual da alma, diz ele, é a sua existência normal,
com indefinida lembrança retrospectiva. As existências corpóreas são ape
nas intervalos, curtas estações na existência espiritual, sendo a soma de
todas as estações apenas uma parcela mínima da existência normal, ab
solutamente como se, numa viagem de muitos anos, de tempos a tempos
o viajor parasse durante algumas horas. Embora pareça que, durante as
existências corporais, há solução de continuidade, por ausência de lem
brança, a ligação efetivamente se estabelece no curso da vida espiritual, que
não sofre interrupção. A solução de continuidade, realmente, só existe para
a vida corpórea exterior e de relação, e a ausência, aí, da lembrança prova
a sabedoria da Providência que assim evitou fosse o homem por demais
desviado da vida real, onde ele tem deveres a cumprir, mas quando o corpo
se acha em repouso, durante o sono, a alma levanta o voo parcialmente e
restabelece-se então a cadeia interrompida apenas durante a vigília.
A isto ainda se pode opor uma objeção, perguntando que proveito
pode o homem tirar de suas existências anteriores, para melhorar-se, dado
que ele não se lembra das faltas que haja cometido. O Espiritismo respon
de, primeiro, que a lembrança de existências desgraçadas, juntando-se às
misérias da vida presente, ainda mais penosa tornaria esta última. Desse
modo, poupou Deus às suas criaturas um acréscimo de sofrimentos. Se
assim não fosse, qual não seria a nossa humilhação, ao pensarmos no que já
fôramos! Para o nosso melhoramento, aquela recordação seria inútil. Du
rante cada existência, sempre damos alguns passos para a frente, adquiri
mos algumas qualidades e nos despojamos de algumas imperfeições. Cada
uma de tais existências é, portanto, um novo ponto de partida, em que
somos qual nos houvermos feito, em que nos tomamos pelo que somos,
sem nos preocuparmos com o que tenhamos sido. Se, numa existência
anterior, fomos antropófagos, que importa isso, desde que já não o somos?
Se tivemos um defeito qualquer, de que já não conservamos vestígio, aí está
uma conta saldada, de que não mais nos cumpre cogitar. Suponhamos que,
ao contrário, se trate de um defeito apenas meio corrigido: o restante ficará
para a vida seguinte e a corrigi-lo é do que nesta devemos cuidar.
Tomemos um exemplo: um homem foi assassino e ladrão, e foi pu
nido, quer na vida corpórea, quer na vida espiritual; ele se arrepende e cor
rige do primeiro pendor, porém, não do segundo. Na existência seguinte,
será apenas ladrão, talvez um grande ladrão, porém, não mais assassino.
Mais um passo para diante e já não será mais que um ladrão obscuro;
pouco mais tarde já não roubará, mas poderá ter a veleidade de roubar, que
a sua consciência neutralizará. Depois, um derradeiro esforço e, havendo
desaparecido todo vestígio da enfermidade moral, será um modelo de pro
bidade. Que lhe importa então o que ele foi? A lembrança de ter acabado
no cadafalso não seria uma tortura e uma humilhação constantes?
Aplicai este raciocínio a todos os vícios, a todos os desvios, e podereis
ver como a alma se melhora, passando e tornando a passar pelos cadinhos
da encarnação. Não terá sido Deus mais justo com o tornar o homem
árbitro da sua própria sorte, pelos esforços que empregue por se melhorar,
do que se fizesse que sua alma nascesse ao mesmo tempo que seu corpo e o
condenasse a tormentos perpétuos por erros passageiros, sem lhe conceder
meios de purificar-se de suas imperfeições? Pela pluralidade das existências,
nas suas mãos está o seu futuro. Se ele gasta longo tempo a se melhorar,
sofre as consequências dessa maneira de proceder: é a suprema justiça; a
esperança, porém, jamais lhe é interdita.
A seguinte comparação é de molde a tornar compreensíveis as peri
pécias da vida da alma:
Suponhamos uma estrada longa, em cuja extensão se encontram,
de distância em distância, mas com intervalos desiguais, florestas que se
tem de atravessar e, à entrada de cada uma, a estrada, larga e magnífica,
se interrompe, para só continuar à saída. O viajor segue por essa estrada
e penetra na primeira floresta. Aí, porém, não dá com caminho aberto;
depara-se-lhe, ao contrário, um dédalo inextricável em que ele se perde. A
claridade do sol há desaparecido sob a espessa ramagem das árvores. Ele
vagueia, sem saber para onde se dirige. Afinal, depois de inauditas fadigas,
chega aos confins da floresta, mas extenuado, dilacerado pelos espinhos,
machucado pelos pedrouços. Lá, descobre de novo a estrada e prossegue a
sua jornada, procurando curar-se das feridas.
Mais adiante, segunda floresta se lhe antolha, onde o esperam as
mesmas dificuldades. Mas ele já possui um pouco de experiência e dela sai
menos contundido. Noutra, topa com um lenhador que lhe indica a dire
ção que deve seguir para se não transviar. A cada nova travessia, aumenta a
sua habilidade, de maneira que transpõe cada vez mais facilmente os obs
táculos. Certo de que à saída encontrará de novo a boa estrada, firma-se
nessa certeza; depois, já sabe orientar-se para achá-la com mais facilidade.
A estrada finaliza no cume de uma montanha altíssima, donde ele descor
tina todo o caminho que percorreu desde o ponto de partida. Vê também
as diferentes florestas que atravessou e se lembra das vicissitudes por que
passou, mas essa lembrança não lhe é penosa, porque chegou ao termo da
caminhada. É qual velho soldado que, na calma do lar doméstico, recorda
as batalhas a que assistiu. Aquelas florestas que pontilhavam a estrada lhe
são como que pontos negros sobre uma fita branca e ele diz a si mesmo:
“Quando eu estava naquelas florestas, nas primeiras, sobretudo, como me
pareciam longas de atravessar! Figurava-se-me que nunca chegaria ao fim;
tudo ao meu derredor me parecia gigantesco e intransponível. E quando
penso que, sem aquele bondoso lenhador que me pôs no bom caminho,
talvez eu ainda lá estivesse! Agora, que contemplo essas mesmas florestas
do ponto onde me acho, como se me apresentam pequeninas! Afigura-se--me que de um passo teria podido transpô-las; ainda mais, a minha vista
as penetra e lhes distingo os menores detalhes; percebo até os passos em
falso que dei”.
Diz-lhe então um ancião:
— Meu filho, eis-te chegado ao termo da viagem, mas um repouso
indefinido causar-te-á tédio mortal e tu te porias a ter saudades das vicis
situdes que experimentaste e que te davam atividade aos membros e ao
Espírito. Vês daqui grande número de viajantes na estrada que percorreste
e que, como tu, correm o risco de transviar-se; tens experiência, nada mais
temas: vai-lhes ao encontro e procura com teus conselhos guiá-los, a fim
de que cheguem depressa.
— Irei com alegria — replica o nosso homem —; entretanto, per
gunto: por que não há uma estrada direta desde o ponto de partida até
aqui? Isso forraria aos viajantes o terem de atravessar aquelas abomináveis
florestas.
— Meu filho — retruca o ancião —, atenta bem e verás que muitos
evitam a travessia de algumas delas: são os que, tendo adquirido mais de
pronto a experiência necessária, sabem tomar um caminho mais direto e
mais curto para chegarem aqui. Essa experiência, porém, é fruto do tra
balho que as primeiras travessias lhes impuseram, de sorte que eles aqui
aportam em virtude do mérito próprio. Que é o que saberias, se por lá não
houvesses passado? A atividade que houveste de desenvolver, os recursos de
imaginação que precisaste empregar para abrir caminho aumentaram os
teus conhecimentos e desenvolveram a tua inteligência. Sem que tal se des
se, serias tão noviço quanto o eras à partida. Ademais, procurando safar-te
dos tropeços, contribuíste para o melhoramento das florestas que atraves
saste. O que fizeste foi pouca coisa, imperceptível mesmo; pensa, contudo,
nos milhares de viajores que fazem outro tanto e que, trabalhando para si
mesmos, trabalham, sem o perceberem, para o bem comum. Não é justo
que recebam o salário de suas penas no repouso de que gozam aqui? Que
direito lhes caberia a esse repouso, se nada houvessem feito?
— Meu pai — responde o viajor —, numa das florestas, encontrei
um homem que me disse: “Na orla há um imenso abismo a ser transposto
de um salto, mas, de mil, apenas um o consegue; todos os outros lhe caem
no fundo, numa fornalha ardente e ficam perdidos sem remissão. Esse
abismo eu não o vi”.
— Meu filho, é que ele não existe, pois, do contrário, seria uma cilada
abominável, armada a todos os que para cá se dirigem. Bem sei que lhes
cabe vencer dificuldades, mas igualmente sei que cedo ou tarde as vencerão.
Se eu houvera criado impossibilidades para um só que fosse, sabendo que
esse sucumbiria, teria praticado uma crueldade, que avultaria imenso, se
atingisse a maioria dos viajores. Esse abismo é uma alegoria, cuja explica
ção vais receber. Olha para a estrada e observa os intervalos das florestas.
Entre os viajantes, alguns vês que caminham com passo lento e semblante
jovial; vê aqueles amigos, que se tinham perdido de vista nos labirintos da
floresta, como se sentem ditosos, por se haverem de novo encontrado ao
deixarem-na. A par deles, porém, outros há que se arrastam penosamente;
estão estropiados e imploram a compaixão dos que passam, pois que sofrem
atrozmente das feridas de que, por culpa própria, se cobriram, atravessando
os espinheiros. Curar-se-ão, no entanto, e isso lhes constituirá uma lição da
qual tirarão proveito na floresta seguinte, donde sairão menos machucados.
O abismo simboliza os males que eles experimentam e, dizendo que de mil
apenas um o transpõe, aquele homem teve razão, porquanto enorme é o
número dos imprudentes; errou, porém, quando disse que aquele que ali
cair não mais sairá. Para chegar a mim, o que tombou encontra sempre uma
saída. Vai, meu filho, vai mostrar essa saída aos que estão no fundo do abis
mo; vai amparar os feridos que se arrastam pela estrada e mostrar o caminho
aos que se embrenharam pelas florestas.
A estrada é a imagem da vida espiritual da alma e em cujo percurso
esta é mais ou menos feliz. As florestas são as existências corpóreas, em que
ela trabalha pelo seu adiantamento, ao mesmo tempo que na obra geral. O
caminheiro que chega ao fim e que volta para ajudar os que vêm atrasados
figura os anjos guardiães, os missionários de Deus, que se sentem venturo
sos em vê-lo, como também no desdobrarem suas atividades para fazer o
bem e obedecer ao supremo Senhor.
As cinco alternativas da Humanidade
Bem poucos homens vivem despreocupados do dia seguinte. Ora, se
cada um se inquieta pelo que virá após o dia que está transcorrendo, com
mais forte razão é natural se preocupe com o que haverá depois do grande
dia da vida, pois já não se trata de alguns instantes, mas da eternidade.
Viveremos ou não viveremos, findo esse grande dia? Não há meio-termo; é
uma questão de vida e de morte; é a suprema alternativa!...
Se interrogarmos o sentimento íntimo da quase universalidade dos
homens, todos responderão: “Viveremos.” Essa esperança constitui uma
consolação. Entretanto, uma pequena minoria se esforça, sobretudo de al
gum tempo para cá, por lhes provar que não viverão. Fez prosélitos essa
escola, força é confessá-lo, e principalmente entre os que, temendo a res
ponsabilidade do futuro, acham mais cômodo gozar sem constrangimen
to do presente, sem se perturbarem com a perspectiva das consequências.
Essa, porém, é a opinião de uma pequena minoria.
Se havemos de viver, como viveremos? Em que condições viremos
a encontrar-nos? Aqui, os sistemas variam, de acordo com as ideias reli
giosas e filosóficas. Podem, no entanto, reduzir-se a cinco todas as capitais
alternativas, que passamos a sumariar, a fim de que se torne mais fácil a
comparação e cada um possa escolher a que lhe pareça mais racional e me
lhor corresponda às suas aspirações pessoais e às exigências da sociedade.
As cinco alternativas são as que resultam das doutrinas do materialismo, do
panteísmo, do deísmo, do dogmatismo e do Espiritismo.
UM – Doutrina materialista
A inteligência do homem é uma propriedade da matéria; nasce e mor
re com o organismo. O homem nada é antes, nem depois da vida corporal.
Consequências. Sendo o homem apenas matéria, os gozos materiais são
as únicas coisas reais e desejáveis; as afeições morais carecem de futuro; os laços
morais, a morte os quebra sem remissão e para as misérias da vida não há com
pensação; o suicídio vem a ser o fim racional e lógico da existência, quando
não se pode esperar atenuação para os sofrimentos; inútil qualquer constrangi
mento para vencer os maus pendores; viver cada um para si o melhor possível,
enquanto aqui estiver; estupidez vexar-se e sacrificar o repouso, o bem-estar
por causa de outros, isto é, por causa de seres que a seu turno serão aniquilados
e que ninguém tornará a ver; deveres sociais sem fundamento, o bem e o mal
meras convenções; por freio social unicamente a força material da lei civil.
Nota – Não será talvez inútil lembrar aqui, aos nossos leitores, algumas passagens
do artigo O materialismo e o Direito que publicamos na Revista de agosto de 1868.
Exibindo-se como não o tinha feito em nenhuma outra época e se apresentando
como supremo regulador dos destinos morais da Humanidade, o materialismo teve
por efeito apavorar as massas pelas consequências inevitáveis de suas doutrinas para
a ordem social. Por isto mesmo provocou, em favor das ideias espiritualistas, uma
enérgica reação, que deve provar-lhe que está longe de ter simpatias tão gerais quan
to supõe, e que se ilude singularmente se espera um dia impor suas leis ao mundo.
Seguramente as crenças espiritualistas dos tempos passados são insuficientes para
este século; elas não estão no nível intelectual da nossa geração; sobre muitos pon
tos estão em contradição com os dados positivos da Ciência; deixam no espírito
um vazio incompatível com a necessidade do positivo que domina na sociedade
moderna; além disso, cometem o erro imenso de se imporem pela fé cega e de
proscreverem o livre-exame. Daí, sem a menor dúvida, o desenvolvimento da in
credulidade no maior número; é muito evidente que se os homens não fossem
alimentados, desde a infância, senão por ideias susceptíveis de serem confirmadas
mais tarde pela razão, não haveria incrédulos. Quantas pessoas, reconduzidas à
crença pelo Espiritismo, nos disseram: “Se sempre nos tivessem apresentado Deus,
a alma e a vida futura de maneira racional, jamais teríamos duvidado!”
Pelo fato de um princípio receber uma aplicação má ou falsa, segue-se que se deva
rejeitá-lo? Isto acontece com coisas espirituais, como com a legislação de todas as
instituições sociais: é necessário apropriá-las aos tempos, sob pena de sucumbir.
Mas em vez de apresentar algo de melhor que o velho espiritualismo clássico, o
materialismo preferiu tudo suprimir, o que o dispensava de procurar, e parecia mais
cômodo àqueles a quem importuna a ideia de Deus e do futuro. Que pensariam de
um médico que, achando que o regime de um convalescente não é bastante subs
tancial para o seu temperamento, lhe prescrevesse não comer absolutamente nada?
O que é de admirar é encontrar na maioria dos materialistas da escola moderna
esse espírito de intolerância levado aos últimos limites, logo eles que reivindicam
sem cessar o direito de liberdade de consciência. [...]
Há, neste momento, da parte de certo partido, uma oposição furibunda contra
as ideias espiritualistas em geral, nas quais o Espiritismo se acha naturalmente en
globado. O que ele busca não é um Deus melhor e mais justo, é o Deus matéria,
menos constrangedor, porque não tem que lhe dar contas. Ninguém contesta a
esse partido o direito de ter sua opinião, de discutir as opiniões contrárias, mas o
que não se lhe poderia conceder é a pretensão, no mínimo singular, para homens
que se apresentam como apóstolos da liberdade, de impedir que os outros creiam
à sua maneira e de discutir as doutrinas que não partilham. Intolerância por into
lerância, uma não vale mais que a outra.
DOIS – Doutrina panteísta
O princípio inteligente, ou alma, independente da matéria, é extraído,
ao nascer, do todo universal; individualiza-se em cada ser durante a vida e vol
ta, por efeito da morte, à massa comum, como as gotas de chuva ao oceano.
Consequências. Sem individualidade e sem consciência de si mesmo,
o ser é como se não existisse. As consequências morais desta doutrina são
exatamente as mesmas que as da doutrina materialista.
Nota – Certo número de panteístas admitem que a alma, tirada, ao nascer, do
todo universal, conserva a sua individualidade por tempo indefinido e somen
te volta à massa depois de haver chegado aos últimos degraus da perfeição. As
consequências desta variedade de crença são absolutamente as mesmas que as da
doutrina panteísta propriamente dita, pois de todo inútil é que alguém se dê ao
trabalho de adquirir alguns conhecimentos, cuja consciência terá de perder, pelo
aniquilar-se após um tempo relativamente curto. Se a alma, em geral, se nega a ad
mitir semelhante concepção, quão mais penosamente não haveria ela de sentir-se
chocada, ponderando que o instante em que alcançasse o conhecimento e a perfei
ção supremos seria o em que se veria condenada a perder o fruto de todos os seus
labores, perdendo a sua individualidade.
TRES – Doutrina deísta
O deísmo compreende duas categorias bem distintas de crentes: os
deístas independentes e os deístas providencialistas.
Os primeiros creem em Deus; admitem todos os seus atributos como
criador. Deus, dizem eles, estabeleceu as leis gerais que regem o Universo,
mas, uma vez estabelecidas, essas leis funcionam por si sós e aquele que as
promulgou de mais nada se ocupa. As criaturas fazem o que querem ou o
que podem, sem que Ele se inquiete. Não há providência; não se ocupando
Deus conosco, nada temos que lhe agradecer, nem que lhe pedir.
Os que negam qualquer intervenção providencial na vida do homem
são como crianças que se julgam muito ajuizadas para se libertarem da tu
tela, dos conselhos e da proteção de seus pais, ou que pensam não deverem
estes ocupar-se mais com eles, desde que os puseram no mundo.
Sob o pretexto de glorificarem a Deus, demasiado grande, dizem,
para se abaixar até as suas criaturas, fazem dele um grande egoísta e o rebai
xam até o nível dos animais que abandonam suas crias à natureza.
Essa crença é resultado do orgulho; é sempre a ideia de que esta
mos submetidos a um poder superior que fere o amor-próprio e do qual
procuram eximir-se. Enquanto uns negam absolutamente esse poder, ou
tros consentem em reconhecer-lhe a existência, embora condenando-a à
nulidade.
Há uma diferença essencial entre o deísta independente, do qual aca
bamos de falar, e o deísta providencialista. Este último, com efeito, crê não
só na existência e no poder criador de Deus, na origem das coisas, como
também crê na sua intervenção incessante na Criação e a Ele ora, mas não
admite o culto exterior e o dogmatismo atual.
QUATRO – Doutrina dogmática
A alma, independente da matéria, é criada por ocasião do nasci
mento do ser; sobrevive e conserva a individualidade após a morte; desde
esse momento, tem irrevogavelmente determinada a sua sorte; nulos lhe
são quaisquer progressos ulteriores; ela será, pois, por toda a eternidade,
intelectual e moralmente, o que era durante a vida. Sendo os maus con
denados a castigos perpétuos e irremissíveis no inferno, completamente
inútil lhes resulta todo arrependimento; parece assim que Deus se nega a
conceder-lhes a possibilidade de repararem o mal que fizeram. Os bons são
recompensados com a visão de Deus e a contemplação perene no Céu. Os
casos que possam merecer o Céu ou o inferno, por toda a eternidade, são
deixados à decisão e ao juízo de homens falíveis, aos quais é dada a facul
dade de absolver ou condenar.
Nota – Se a esta proposição final objetassem que Deus julga em última instância,
poder-se-ia perguntar que valor tem a decisão proferida pelos homens, uma vez
que ela pode ser infirmada.
Separação definitiva e absoluta dos condenados e dos eleitos. Inuti
lidade dos socorros morais e das consolações para os condenados. Criação
de anjos ou almas privilegiadas, isentas de todo trabalho para chegarem à
perfeição etc. etc.
Consequências. Esta doutrina deixa sem solução os graves problemas
seguintes:
1o) Donde vêm as disposições inatas, intelectuais e morais, que fa
zem com que os homens nasçam bons ou maus, inteligentes ou idiotas?
2o) Qual a sorte das crianças que morrem em tenra idade? Por que vão
elas para uma vida bem-aventurada, sem o trabalho a que os outros ficam su
jeitos durante longos anos? Por que são recompensadas sem terem podido fa
zer o bem, ou são privadas de uma felicidade perfeita, sem terem feito o mal?
3o) Qual a sorte dos cretinos e dos idiotas que não têm consciência
de seus atos?
4o) Onde a justiça das misérias e das enfermidades de nascença, uma
vez que não resultam de nenhum ato da vida presente?
5o) Qual a sorte dos selvagens e de todos os que forçosamente mor
rem no estado de inferioridade moral em que foram colocados pela natu
reza mesma, se não lhes é dado progredirem ulteriormente?
6o) Por que cria Deus umas almas mais favorecias do que outras?
7o) Por que chama Ele a si prematuramente os que teriam podido
melhorar-se, se vivessem mais tempo, visto que não lhes é permitido pro
gredirem depois da morte?
8o) Por que criou Deus anjos em estado de perfeição sem trabalho, ao
passo que outras criaturas são submetidas às mais rudes provações em que
têm maiores probabilidades de sucumbir, do que de sair vitoriosas etc. etc.?
CINCO – Doutrina Espírita
O princípio inteligente independe da matéria. A alma individual
preexiste e sobrevive ao corpo. O ponto de partida ou de origem é o mesmo
para todas as almas, sem exceção; todas são criadas simples e ignorantes e
sujeitas a progresso indefinido. Nada de criaturas privilegiadas e mais favo
recidas do que outras. Os anjos são seres que chegaram à perfeição, depois
de haverem passado, como todas as outras criaturas, por todos os graus da
inferioridade. As almas ou Espíritos progridem mais ou menos rapidamen
te, mediante o uso do livre-arbítrio, pelo trabalho e pela boa vontade.
A vida espiritual é a vida normal; a vida corpórea é uma fase tem
porária da vida do Espírito, que durante ela se reveste de um envoltório
material, de que se despe por ocasião da morte.
O Espírito progride no estado corporal e no estado espiritual. O
estado corpóreo é necessário ao Espírito, até que haja galgado certo grau
de perfeição. Ele aí se desenvolve pelo trabalho a que é submetido pe
las suas próprias necessidades e adquire conhecimentos práticos especiais.
Sendo insuficiente uma só existência corporal para que adquira todas as
perfeições, retoma um corpo tantas vezes quantas lhe forem necessárias e
de cada vez encarna com o progresso que haja realizado em suas existências
precedentes e na vida espiritual. Quando, num mundo, alcança tudo o que
aí pode obter, deixa-o para ir a outros mundos, intelectual e moralmente
mais adiantados, cada vez menos materiais, e assim por diante, até a perfei
ção de que é suscetível a criatura.
O estado ditoso ou inditoso dos Espíritos é inerente ao adiantamen
to moral deles; a punição que sofrem é consequência do seu endurecimen
to no mal, de sorte que, com o perseverarem no mal, eles se punem a si
mesmos, mas a porta do arrependimento nunca se lhes fecha e eles podem,
desde que o queiram, volver ao caminho do bem e efetuar, com o tempo,
todos os progressos.
As crianças que morrem em tenra idade podem ser Espíritos mais
ou menos adiantados, porquanto já tiveram outras existências em que ou
praticaram o bem ou cometeram ações más. A morte não os livra das pro
vas que hajam de sofrer e, em tempo oportuno, eles voltam a uma nova
existência na Terra, ou em mundos superiores, conforme o grau de eleva
ção que tenham atingido.
A alma dos cretinos e dos idiotas é da mesma natureza que a de qual
quer outro encarnado; possuem, muitas vezes, grande inteligência; sofrem
pela deficiência dos meios de que dispõem para entrar em relação com os
seus companheiros de existência, como os mudos sofrem por não poderem
falar. É que abusaram da inteligência em existências pretéritas e aceitaram
voluntariamente a situação de impotência para usar dela, a fim de expia
rem o mal que praticaram etc. etc
A morte espiritual
A questão da morte espiritual é um dos novos princípios que assina
lam os progressos da ciência espírita. A maneira por que foi apresentada
em certa teoria pessoal determinou, no primeiro momento, a sua rejeição,
porque parecia implicar o aniquilamento, em dado tempo, do eu indivi
dual e assimilar as transformações da alma às da matéria, cujos elementos
se desagregam para formar novos corpos. Os seres ditosos e aperfeiçoados
seriam, na realidade, novos seres, o que é inadmissível. A equidade das
penas e dos gozos futuros só se evidencia com a perpetuidade dos seres
ascendendo a escala do progresso e depurando-se pelo trabalho e pelos
esforços da vontade própria.
Tais as consequências que se podiam tirar, a priori, daquela teoria.
Entretanto, devemos convir em que ela não foi apresentada com a empáfia
de um orgulhoso que pretendesse impor o seu sistema. Disse modestamen
te o autor que apenas desejava lançar uma ideia no terreno da discussão,
dado que dessa ideia poderia surgir uma verdade nova.
Ao parecer dos nossos eminentes guias espirituais, ele teria pecado
menos quanto ao fundo do que quanto à forma, que se prestou a uma falsa
interpretação. Isso nos determina a estudar seriamente a questão. É o que
tentaremos fazer, baseando-nos na observação dos fatos que ressaltam da
situação do Espírito, em duas épocas, para ele, capitais: a da sua descida à
vida corpórea e a do seu regresso à vida espiritual.
Por ocasião da morte corpórea, o Espírito entra em perturbação e
perde a consciência de si mesmo, de sorte que jamais testemunha o último
suspiro do seu corpo. Pouco a pouco a perturbação se dissipa e o Espírito
se recobra, como um homem que desperta de profundo sono. Sua primeira
sensação é a de estar livre do fardo carnal; segue-se o espanto, ao reparar no
novo meio em que se encontra. Acha-se na situação de um a quem se cloro
formiza para uma amputação e que, ainda adormecido, é levado para outro
lugar. Ao acordar, ele se sente livre do membro que o fazia sofrer; muitas
vezes, procura-o, surpreendido de não mais o possuir. Do mesmo modo,
o Espírito, no primeiro momento, procura o corpo que tinha; descobre-o
a seu lado; reconhece que é o seu e espanta-se de estar dele separado e só
gradativamente se apercebe da sua nova situação.
Nesse fenômeno, apenas se operou uma mudança de situação mate
rial. Quanto ao moral, o Espírito é exatamente o que era algumas horas an
tes; por nenhuma modificação sensível passou; suas faculdades, suas ideias,
seus gostos, seus pendores, seu caráter são os mesmos e as transformações
que possa experimentar só gradativamente se operarão, pela influência do
que o cerca. Em resumo, unicamente para o corpo houve morte; para o
Espírito, apenas sono houve.
Na reencarnação, as coisas se passam de outra maneira.
No momento da concepção do corpo que se lhe destina, o Espírito é
apanhado por uma corrente fluídica que, semelhante a uma rede, o toma e
aproxima da sua nova morada. Desde então, ele pertence ao corpo, como
este lhe pertencerá até que morra. Todavia, a união completa, o apossa
mento real somente se verifica por ocasião do nascimento.
Desde o instante da concepção, a perturbação ganha o Espírito; suas
ideias se tornam confusas; suas faculdades se somem; a perturbação cresce
à medida que os liames se apertam; torna-se completo nas últimas fases da
gestação, de sorte que o Espírito não aprecia o ato de nascimento do seu
corpo, como não aprecia o da morte deste; nenhuma consciência tem, nem
de um, nem de outro.
Desde que a criança respira, a perturbação começa a dissipar-se, as
ideias voltam pouco a pouco, mas em condições diversas das verificadas
quando da morte do corpo.
No ato da reencarnação, as faculdades do Espírito não ficam ape
nas entorpecidas por uma espécie de sono momentâneo, conforme se dá
quando do regresso à vida espiritual; todas, sem exceção, passam ao estado
de latência. A vida corpórea tem por fim desenvolvê-las mediante o exer
cício, mas nem todas se podem desenvolver simultaneamente, porque o
exercício de uma poderia prejudicar o de outra, ao passo que, por meio
do desenvolvimento sucessivo, umas se firmam nas outras. Convém, pois,
que algumas fiquem em repouso, enquanto outras aumentam. Esta a ra
zão por que, na sua nova existência, pode o Espírito apresentar-se sob
aspecto muito diferente, sobretudo se pouco adiantado for, do que tinha
na existência precedente.
Num, a faculdade musical, por exemplo, será mais ativa; ele conce
berá, perceberá e, portanto, fará tudo o que for necessário ao desenvolvi
mento dessa faculdade; noutra existência, tocará a vez à pintura, às ciências
exatas, à poesia etc. Enquanto estas novas faculdades se exercitarem, a da
música estará latente, mas conservando o progresso que realizou. Resulta
daí que quem foi artista numa existência, poderá ser um sábio, um homem
de estado, ou um estrategista noutra, sendo nulo do ponto de vista artístico
e reciprocamente.
O estado latente das faculdades na reencarnação explica o esque
cimento das existências precedentes, enquanto, por ocasião da morte,
achando-se as faculdades em estado de sono pouco durável, a lembrança
da vida que acaba de transcorrer é completa, ao despertar o Espírito na
vida espiritual.
As faculdades que se manifestam estão naturalmente em relação com
a posição que o Espírito tem de ocupar no mundo e com as provas que haja
escolhido. Entretanto, acontece muitas vezes que os preconceitos sociais o
desloquem, o que faz que certas pessoas estejam intelectual e moralmente
acima ou abaixo da posição que ocupam. Esse deslocamento, pelos en
traves que acarreta, faz parte das provas; cessará com o progresso. Numa
ordem social avançada, tudo se regula de acordo com a lógica das Leis Na
turais e aquele que apenas tiver aptidão para fabricar sapatos não será, por
direito de nascimento, chamado a governar os povos.
Voltemos à criança. Até nascer, todas as faculdades se lhe encontram
em estado latente, nenhuma consciência de si mesmo tem o Espírito. As
que devam desenvolver-se não desabrocham de súbito no ato de nascer; o
desenvolvimento delas acompanha o dos órgãos que terão de servir para
as suas manifestações; por meio da atividade íntima em que se põem, elas
impulsionam o desenvolvimento dos órgãos que lhes correspondem, do
mesmo modo que o broto, ao nascer, força a casca da árvore. Daí resulta
que, na primeira infância, o Espírito não goza em plenitude de nenhuma
de suas faculdades, não só como encarnado, mas também como Espírito
livre. Ele é verdadeiramente infantil, como o corpo a que se acha liga
do, sem, contudo, estar neste comprimido penosamente. A não ser assim,
Deus houvera feito da encarnação um suplício para todos os Espíritos,
bons ou maus.
O mesmo, porém, não acontece com o idiota ou o cretino. Nestes,
não se tendo os órgãos desenvolvido paralelamente às faculdades, o Espírito
acaba por achar-se na posição de um homem preso por laços que lhe tiram
a liberdade dos movimentos. Tal a razão por que se pode evocar o Espírito
de um idiota e obter respostas sensatas, ao passo que o de uma criança de
muito pouca idade, ou que ainda não veio à luz, é incapaz de responder.
Todas as faculdades, todas as aptidões se encontram em gérmen no
Espírito, desde a sua criação, mas em estado rudimentar, como todos os
órgãos no primeiro filete do feto informe, como todas as partes da árvore
na semente. O selvagem que mais tarde se tornará homem civilizado pos
sui, pois, em si os germens que, um dia, farão dele um sábio, um grande
artista, ou um grande filósofo.
À medida que esses germens chegam à maturidade, a Providência
lhes dá, para a vida terrestre, um corpo apropriado às suas novas aptidões.
É assim que o cérebro de um europeu é organizado de modo mais comple
to, provido de maior número de teclas, do que o do selvagem. Para a vida
espiritual, dá-lhes um corpo fluídico, ou perispírito, mais sutil e impres
sionável por novas sensações. À proporção que o Espírito se engrandece, a
Natureza o provê dos instrumentos que lhe são necessários.
No sentido de desorganização, de desagregação das partes, de dis
persão dos elementos, não há morte, senão para o invólucro material e o
invólucro fluídico, mas, quanto à alma, ou Espírito, esse não pode morrer
para progredir; de outro modo, ele perderia a sua individualidade, o que
equivaleria ao nada. No sentido de transformação, regeneração, pode di
zer-se que o Espírito morre a cada encarnação, para ressuscitar com atribu
tos novos, sem deixar de ser o eu que era. Tal, por exemplo, um camponês
que enriquece e se torna importante senhor. Trocou a choupana por um
palácio, as roupas modestas por vestuários de brocado. Todos os seus hábi
tos mudaram, seus gostos, sua linguagem, até o seu caráter. Numa palavra,
o camponês morreu, enterrou as vestes de grosseiro estofo, para renascer
homem de sociedade, sendo sempre, no entanto, o mesmo indivíduo, po
rém transformado.
Cada existência corpórea é, pois, para o Espírito, um meio de pro
gredir mais ou menos sensivelmente. De volta ao mundo dos Espíritos,
leva para lá novas ideias; um horizonte moral mais dilatado; percepções
mais agudas, mais delicadas. Vê e compreende o que antes não via, nem
compreendia; sua visão que, a princípio, não ia além da última existência
que tivera, passa a abranger sucessivamente as suas existências pretéritas,
como o homem que sobe uma montanha e para quem o nevoeiro se vai
dissipando, abrange com o olhar um horizonte cada vez mais vasto.
A cada novo estágio na erraticidade, novas maravilhas do Mundo
Invisível se desdobram diante do seu olhar, porque, em cada um desses
estágios, um véu se rasga. Ao mesmo tempo, seu envoltório fluídico se
depura; torna-se mais leve, mais brilhante e mais tarde resplandecerá. É
quase um novo Espírito; é o camponês desbastado e transformado. Morreu
o Espírito velho, mas o eu é sempre o mesmo.
É assim, cremos, que convém se entenda a morte espiritual.
A vida futura
A vida futura já deixou de ser um problema. É um fato apurado pela
razão e pela demonstração para a quase totalidade dos homens, porquanto
os que a negam formam ínfima minoria, sem embargo do ruído que ten
tam fazer. Não é, pois, a sua realidade o que nos propomos demonstrar
aqui. Fora repetir-nos, sem acrescentarmos coisa alguma à convicção geral.
Admitido que está o princípio, como primícias, o a que nos propomos é
examinar-lhe a influência sobre a ordem social e a moralização, segundo a
maneira por que é encarada.
As consequências do princípio contrário, isto é, do nadismo, já são por
demais conhecidas e bastante compreendidas, para que se torne necessário
desenvolvê-las de novo. Apenas diremos que, se estivesse demonstrada a ine
xistência da vida futura, nenhum outro fim teria a vida presente, senão o da
manutenção de um corpo que, amanhã, dentro de uma hora, poderá deixar
de existir, ficando tudo, nesse caso, inteiramente acabado. A consequência
lógica de semelhante condição para a Humanidade seria concentrarem-se to
dos os pensamentos na incrementação dos gozos materiais, sem atenção aos
prejuízos de outrem. Por que, então, haveria alguém de suportar privações,
de impor-se sacrifícios? Por que haveria de constranger-se para se melhorar,
para se corrigir de defeitos? Seria também a absoluta inutilidade do remor
so, do arrependimento, uma vez que nada se deveria esperar. Seria, afinal, a
consagração do egoísmo e da máxima: O mundo pertence aos mais fortes e aos
mais espertos. Sem a vida futura, a moral não passa de mero constrangimento,
de um código convencional, arbitrariamente imposto; nenhuma raiz teria ela
no coração. Uma sociedade fundada em tal crença só teria por elo, a prender--lhe os membros, a força e bem depressa cairia em dissolução.
Não se objete que, entre os negadores da vida futura, há pessoas
honestas, incapazes de cientemente causar dano a quem quer que seja e
suscetíveis dos maiores devotamentos. Digamos, antes de tudo, que, en
tre muitos incrédulos, a negação do porvir é mais fanfarronada, jactância,
orgulho de passarem por Espíritos fortes do que resultado de uma con
vicção absoluta. No foro íntimo de suas consciências, há uma dúvida a
importuná-los, pelo que procuram eles atordoar-se. Não é, porém, sem
dissimulação que pronunciam o terrível nada, que os priva do fruto de
todos os trabalhos da inteligência e despedaça para sempre as mais caras
afeições. Muitos dos que mais forte deblateram são os primeiros a tremer
ante a ideia do desconhecido; por isso mesmo, quando se lhes aproxima o
momento fatal de entrarem nesse desconhecido, bem poucos são os que
adormecem no derradeiro sono, na firme persuasão de que não despertarão
algures, visto que a Natureza jamais abdica dos seus direitos.
Afirmamos, pois, que, na maioria dos incrédulos, a incredulidade
é muito relativa, isto é, que, não lhes estando satisfeita a razão, nem com
os dogmas, nem com as crenças religiosas, e nada tendo encontrado, em
parte alguma, com que enchessem o vazio que se lhes fizera no íntimo,
eles concluíram que nada há e edificaram sistemas com que justificassem a
negação. Não são, conseguintemente, incrédulos, senão por falta de coisa
melhor. Os absolutamente incrédulos são raríssimos, se é que existem.
Uma latente e inconsciente intuição do futuro é, portanto, capaz de
deter grande número deles no declive do mal e uma imensidade de atos
se poderiam citar, mesmo da parte dos mais endurecidos, testificantes da
existência desse sentimento secreto que os domina, a seu mau grado.
Cumpre também dizer que, seja qual for o grau da incredulidade,
o respeito humano é o que torna reservadas as pessoas de certa condição
social. A posição que ocupam os obriga a uma linha de proceder muito dis
creta; temem acima de tudo a desconsideração e o desdém que, fazendo-os
perder, por decaírem da categoria em que se encontram, as atenções do
mundo, os privariam dos gozos de que desfrutam; se carecem de um fundo
de virtudes, pelo menos têm destas o verniz. Mas aos que nenhuma razão
se apresenta para se preocuparem com a opinião dos outros, aos que zom
bam do “que dirão”, e não há contestar que esses formam a maioria, que
freio se pode impor ao transbordamento das paixões brutais e dos apetites
grosseiros? Em que base assentar a teoria do bem e do mal, a necessidade
de eles reformarem seus maus pendores, o dever de respeitarem o que per
tence aos outros, quando eles próprios nada possuem? Qual pode ser o
estímulo à honradez, para criaturas a quem se haja persuadido que não
passam de simples animais? A lei, respondem, aí está para contê-los, mas a
lei não é um código de moral que toque o coração; é uma força cuja ação
eles suportam e que iludem, se o podem. Se lhe caem sob o guante, isso é
por eles tido como resultado de má sorte ou de inabilidade, a que tratam
de remediar na primeira ocasião.
Os que pretendem que os incrédulos têm mais mérito em fazer o
bem, por não esperarem nenhuma recompensa numa vida futura, em que
não creem, se valem de um sofisma igualmente mal fundado. Também os
crentes dizem que é pouco meritório o bem praticado com vistas em van
tagens que possam colher. Vão mesmo mais longe, porquanto se acham
persuadidos de que o mérito pode ser completamente anulado, tal o móvel
que determine a ação. A perspectiva da vida futura não exclui o desinteres
se nas boas obras, porque a ventura que elas proporcionam está, antes de
tudo, subordinada ao grau de adiantamento moral do indivíduo. Ora, os
orgulhosos e os ambiciosos se contam entre os menos aquinhoados. Mas os
incrédulos que praticam o bem são tão desinteressados como o pretendem?
Será que, nada esperando do outro mundo também deste nada esperam?
O amor-próprio não tem no caso a sua parte? Serão eles insensíveis aos
aplausos dos homens? Se tal acontecesse, estariam num grau de perfeição
rara e não cremos haja muitos que a tanto sejam induzidos unicamente
pelo culto da matéria.
Objeção mais séria é esta: Se a crença na vida futura é um elemento
moralizador, como é que aqueles a quem se prega isso desde que vêm ao
mundo são igualmente tão maus?
Primeiramente, quem nos diz que sem isso não seriam piores? Não
há duvidar, desde que se considerem os resultados inevitáveis da populari
zação do nadismo. Não se comprova, ao contrário, observando-se as dife
rentes graduações da Humanidade, desde a selvajaria até a civilização, que
o progresso intelectual e moral vai à frente, produzindo o abrandamento
dos costumes e uma concepção mais racional da vida futura? Essa concep
ção, no entanto, por muito imperfeita, ainda não pode exercer a influência
que necessariamente terá, à medida que for mais bem compreendida e que
se adquiram noções mais exatas sobre o futuro que nos está reservado.
Por muito sólida que seja a crença na imortalidade, o homem não se
preocupa com a sua alma, senão de um ponto de vista místico. A vida futu
ra, definida com extrema falta de clareza, só muito vagamente o impressio
na; não passa de um objetivo que se perde muito ao longe, e não um meio,
porque a sorte lhe está irrevogavelmente assinada e em parte alguma lha
apresentam como progressiva, donde se conclui que aquilo que formos, ao
sair daqui, sê-lo-emos por toda a eternidade. Aliás, o quadro que traçam da
vida futura, as condições determinantes da felicidade ou da desventura que
lá se experimentam, longe estão, sobretudo num século de exame, como o
nosso, de satisfazer completamente à razão. Acresce que ela não se prende
muito diretamente à vida terrestre, nenhuma solidariedade havendo entre
as duas, mas, antes, um abismo, de maneira que aquele que se preocupa
principalmente com uma das duas quase sempre perde a outra de vista.
Sob o império da fé cega, essa crença abstrata bastara às inspirações
dos homens que, então, se deixavam conduzir. Hoje, porém, sob o reinado
do livre-exame, eles querem conduzir-se por si mesmos, ver com seus pró
prios olhos e compreender. Aquelas vagas noções da vida futura já não estão
à altura das novas ideias e já não correspondem às necessidades que o pro
gresso criou. Com o desenvolvimento das ideias, tudo tem que progredir
em torno do homem, porque tudo se liga, tudo é solidário em a Natureza:
ciências, crenças, cultos, legislações, meios de ação. O movimento para a
frente é irresistível, porque é lei da existência dos seres. O que quer que
fique para trás, abaixo do nível social, é posto de lado, como vestuário que
se tornou imprestável e, finalmente, arrastado pela onda que se avoluma.
O mesmo acontece com as ideias pueris sobre a vida futura, com que
os nossos pais se contentavam; persistir hoje em impô-las seria propagar a
incredulidade. Para que a opinião geral a aceite e para que ela exerça sua
ação moralizadora, a vida futura tem que ser apresentada sob o aspecto de
coisa positiva, de certo modo tangível e capaz de suportar qualquer exame,
satisfazendo à razão, sem nada deixar na sombra. No momento em que a
precariedade das noções sobre o porvir abria a porta à dúvida e à incredu
lidade, novos meios de investigação foram conferidos ao homem, para pe
netrar esse mistério e fazer-lhe compreender a vida futura na sua realidade,
em seu positivismo, nas suas relações íntimas com a vida corpórea.
Por que, em geral, se cuida tão pouco da vida futura? Trata-se, no
entanto, de uma atualidade, pois que todos os dias milhares de homens
partem para esse destino desconhecido. Tendo cada um de nós de partir
por sua vez e podendo a hora da partida soar de um momento para outro,
parece natural que todos se preocupem com o que sucederá. Por que não
se dá isso? Precisamente porque é desconhecido o destino e porque, até
o presente, ninguém tinha meio de conhecê-lo. A Ciência, inexorável, o
desalojou dos lugares onde o tinham limitado. Está ele perto? Está longe?
Acha-se perdido no infinito? As filosofias de antanho nada respondem,
porque nada sabem a respeito. Diz-se então: “Será o que for”. Indiferença.
Ensinam-nos que seremos felizes ou infelizes, conforme houvermos
vivido bem ou mal. Mas isso é tão vago! Em que consistem essa felici
dade e essa infelicidade? O quadro que de uma e outra nos traçam tão
em desacordo está com a ideia que fazemos da Justiça de Deus, tão cheio
de contradições, de inconsequências, de impossibilidades radicais, que
involuntariamente a dúvida se apresenta, senão a incredulidade absoluta.
Ademais, pondera-se que os que se enganaram com relação aos lugares in
dicados para moradas futuras também podem ter sido induzidos em erro,
quanto às condições que estatuem para a felicidade e para o sofrimento.
Aliás, como seremos nesse outro mundo? Seremos seres concretos ou abs
tratos? Teremos uma forma ou uma aparência? Se nada de material tiver
mos, como poderemos experimentar sofrimentos materiais? Se os ditosos
nada tiverem que fazer, a ociosidade perpétua, em vez de uma recompensa,
será um suplício, a menos que se admita o Nirvana do budismo, que não é
mais desejável do que aquela ociosidade.
O homem não se preocupará com a vida futura, senão quando vir
nela um fim claro e positivamente definido, uma situação lógica, em cor
respondência com todas as suas aspirações, que resolva todas as dificulda
des do presente e em que não se lhe depare coisa alguma que a razão não
possa admitir. Se ele se preocupa com o dia seguinte, é porque a vida do
dia seguinte se liga intimamente à vida do dia anterior; uma e outra são
solidárias; ele sabe que do que fizer hoje depende a sua posição amanhã e
que do que fizer amanhã dependerá a sua posição no dia imediato e assim
por diante.
Tal tem de ser para ele a vida futura, quando esta não mais se achar
perdida nas nebulosidades da abstração e for uma atualidade palpável, com
plemento necessário da vida presente, uma das fases da vida geral, como os
dias são fases da vida corporal. Quando vir o presente reagir sobre o futuro,
pela força das coisas, e, sobretudo, quando compreender a reação do futuro
sobre o presente; quando, em suma, verificar que o passado, o presente e o
futuro se encadeiam por inflexível necessidade, como o ontem, o hoje e o
amanhã na vida atual, oh! então suas ideias mudarão completamente, por
que ele verá na vida futura não só um fim, como também um meio; não
um efeito distante, mas atual. Então, igualmente, essa crença exercerá sem
dúvida, e por uma consequência toda natural, ação preponderante sobre o
estado social e sobre a moralização da Humanidade.
Tal o ponto de vista donde o Espiritismo nos faz considerar a vida
futura.
Questões e problemas
As expiações coletivas16
Questão – O Espiritismo explica perfeitamente a causa dos sofrimentos
individuais, como consequências imediatas das faltas cometidas na existên
cia precedente, ou como expiação do passado, mas, uma vez que cada um só
é responsável pelas suas próprias faltas, não se explicam satisfatoriamente as
desgraças coletivas que atingem as aglomerações de indivíduos, às vezes, uma
família inteira, toda uma cidade, toda uma nação, toda uma raça, e que se
abatem tanto sobre os bons, como sobre os maus, assim sobre os inocentes, como
sobre os culpados.
Resposta – Todas as leis que regem o Universo, sejam físicas ou mo
rais, materiais ou intelectuais, foram descobertas, estudadas, compreen
didas, partindo-se do estudo da individualidade e do da família para o de
todo o conjunto, generalizando-as gradualmente e comprovando-se-lhes a
universalidade dos resultados.
Outro tanto se verifica hoje com relação às leis que o estudo do Es
piritismo dá a conhecer. Podem aplicar-se, sem medo de errar, as leis que
regem o indivíduo à família, à nação, às raças, ao conjunto dos habitantes
dos mundos, os quais formam individualidades coletivas. Há as faltas do
indivíduo, as da família, as da nação; e cada uma, qualquer que seja o seu
caráter, se expia em virtude da mesma lei. O algoz expia, relativamente
à sua vítima, quer indo a encontrar-se em sua presença no espaço, quer
vivendo em contato com ela numa ou em muitas existências sucessivas,
até a reparação do mal praticado. O mesmo sucede quando se trata de
crimes cometidos solidariamente por certo número de pessoas. As expia
ções também são solidárias, o que não suprime a expiação simultânea das
faltas individuais.
Três caracteres há em todo homem: o do indivíduo, do ser em si mes
mo; o de membro da família e, finalmente, o de cidadão. Sob cada uma dessas
três faces pode ele ser criminoso e virtuoso, isto é, pode ser virtuoso como pai
de família, ao mesmo tempo que criminoso como cidadão e reciprocamente.
Daí as situações especiais que para si cria nas suas sucessivas existências.
Salvo alguma exceção, pode-se admitir como regra geral que todos
aqueles que numa existência vêm a estar reunidos por uma tarefa comum
já viveram juntos para trabalhar com o mesmo objetivo e ainda reunidos se
acharão no futuro, até que hajam atingido a meta, isto é, expiado o passa
do, ou desempenhado a missão que aceitaram.
Graças ao Espiritismo, compreendeis agora a justiça das provações
que não decorrem dos atos da vida presente, porque reconheceis que elas
são o resgate das dívidas do passado. Por que não haveria de ser assim
com relação às provas coletivas? Dizeis que os infortúnios de ordem geral
alcançam assim o inocente como o culpado, mas não sabeis que o inocente
de hoje pode ser o culpado de ontem? Quer ele seja atingido individual
mente, quer coletivamente, é que o mereceu. Depois, como já o dissemos,
há as faltas do indivíduo e as do cidadão; a expiação de umas não isenta
da expiação das outras, pois que toda dívida tem que ser paga até a última
moeda. As virtudes da vida privada diferem das da vida pública. Um, que é
excelente cidadão, pode ser péssimo pai de família; outro, que é bom pai de
família, probo e honesto em seus negócios, pode ser mau cidadão, ter so
prado o fogo da discórdia, oprimido o fraco, manchado as mãos em crimes
de lesa-sociedade. Essas faltas coletivas é que são expiadas coletivamente
pelos indivíduos que para elas concorreram, os quais se encontram de novo
reunidos, para sofrerem juntos a pena de talião, ou para terem ensejo de
reparar o mal que praticaram, demonstrando devotamento à causa públi
ca, socorrendo e assistindo aqueles a quem outrora maltrataram. Assim, o
que é incompreensível, inconciliável com a Justiça de Deus, se torna claro
e lógico mediante o conhecimento dessa lei.
A solidariedade, portanto, que é o verdadeiro laço social, não o é ape
nas para o presente; estende-se ao passado e ao futuro, pois que as mesmas s
individualidades se reuniram, reúnem e reunirão, para subir juntas a escala
do progresso, auxiliando-se mutuamente. Eis aí o que o Espiritismo faz
compreensível, por meio da equitativa Lei da Reencarnação e da continui
dade das relações entre os mesmos seres.
clélia duplaNtieR
Nota – Conquanto se subordine aos conhecidos princípios de responsabilidade
pelo passado e da continuidade das relações entre os Espíritos, esta comunica
ção encerra uma ideia de certo modo nova e de grande importância. A distinção
que estabelece entre a responsabilidade decorrente das faltas individuais ou
coletivas, das da vida privada e da vida pública, explica certos fatos ainda mal
conhecidos e mostra de maneira mais precisa a solidariedade existente entre os
seres e entre as gerações.
Assim, muitas vezes um indivíduo renasce na mesma família, ou, pelo me
nos, os membros de uma família renascem juntos para constituir uma família
nova noutra posição social, a fim de apertarem os laços de afeição entre si, ou
reparar agravos recíprocos. Por considerações de ordem mais geral, a criatura
renasce no mesmo meio, na mesma nação, na mesma raça, quer por simpatia,
quer para continuar, com os elementos já elaborados, estudos começados,
para se aperfeiçoar, prosseguir trabalhos encetados e que a brevidade da vida
não lhe permitiu acabar. A reencarnação no mesmo meio é a causa determi
nante do caráter distintivo dos povos e das raças. Embora melhorando-se, os
indivíduos conservam o matiz primário, até que o progresso os haja comple
tamente transformado.
Os franceses de hoje são, pois, os do século passado, os da Idade Média, os dos
tempos druídicos; são os exatores e as vítimas do feudalismo; os que submeteram
outros povos e os que trabalharam pela emancipação deles, que se encontram na
França transformada, onde uns expiam, na humilhação, o seu orgulho de raça e
onde outros gozam o fruto de seus labores. Quando se consideram todos os cri
mes desses tempos em que a vida dos homens e a honra das famílias em nenhuma
conta eram tidas, em que o fanatismo acendia fogueiras em honra da divindade;
quando se pensa em todos os abusos de poder, em todas as injustiças que se co
metiam com desprezo dos mais sagrados direitos, quem pode estar certo de não
haver participado mais ou menos de tudo isso e admirar-se de assistir a grandes e
terríveis expiações coletivas?
Mas dessas convulsões sociais uma melhora sempre resulta; os Espíritos se escla
recem pela experiência; o infortúnio é o estimulante que os impele a procurar
um remédio para o mal; na erraticidade, refletem, tomam novas resoluções e,
quando voltam, fazem coisa melhor. É assim que, de geração em geração, o
progresso se efetua.
Não se pode duvidar de que haja famílias, cidades, nações, raças culpadas, porque,
dominadas por instintos de orgulho, de egoísmo, de ambição, de cupidez, enve
redam por mau caminho e fazem coletivamente o que um indivíduo faz insulada
mente. Uma família se enriquece à custa de outra; um povo subjuga outro povo,
levando-lhe a desolação e a ruína; uma raça se esforça por aniquilar outra raça.
Essa a razão por que há famílias, povos e raças sobre os quais desce a pena de talião.
“Quem matou com a espada perecerá pela espada” são palavras do Cristo, palavras
que se podem traduzir assim: Aquele que fez correr sangue verá o seu também
derramado; aquele que levou o facho do incêndio ao que era de outrem, verá o
incêndio ateado no que lhe pertence; aquele que despojou será despojado; aquele
que escraviza e maltrata o fraco será a seu turno escravizado e maltratado, quer se
trate de um indivíduo, quer de uma nação, ou de uma raça, porque os membros
de uma individualidade coletiva são solidários assim no bem como no mal que em
comum praticaram.
Ao passo que o Espiritismo dilata o campo da solidariedade, o materialismo o
restringe às mesquinhas proporções da efêmera existência do homem, fazendo
da mesma solidariedade um dever social sem raízes, sem outra sanção além da
boa vontade e do interesse pessoal do momento. É uma simples teoria, simples
máxima filosófica, cuja prática nada há que a imponha. Para o Espiritismo, a soli
dariedade é um fato que assenta numa Lei Universal da Natureza, que liga todos
os seres do passado, do presente e do futuro e a cujas consequências ninguém pode
subtrair-se. É esta uma coisa que todo homem pode compreender, por menos
instruído que seja.
Quando todos os homens compreenderem o Espiritismo, compreenderão tam
bém a verdadeira solidariedade e, conseguintemente, a verdadeira fraternidade.
Uma e outra então deixarão de ser simples deveres circunstanciais, que cada um
prega as mais das vezes no seu próprio interesse, e não no de outrem. O reinado
da solidariedade e da fraternidade será forçosamente o da justiça para todos e o da
justiça será o da paz e da harmonia entre os indivíduos, as famílias, os povos e as
raças. Virá esse reinado? Duvidar do seu advento seria negar o progresso. Se com
pararmos a sociedade atual, nas nações civilizadas, com o que era na Idade Média,
reconheceremos grande a diferença. Ora, se os homens avançaram até aqui, por
que haveriam de parar? Observando-se o percurso que eles hão feito apenas de um
século para cá, poder-se-á avaliar o que farão daqui a mais outro século.
As convulsões sociais são revoltas dos Espíritos encarnados contra o mal que os
acicata, índice de suas aspirações a esse Reino de Justiça pelo qual anseiam, sem,
todavia, se aperceberem claramente do que querem e dos meios de consegui-lo.
Por isso é que se movimentam, agitam, tudo subvertem a torto e a direito, criam
sistemas, propõem remédios mais ou menos utópicos, cometem mesmo injustiças
sem conta, por espírito, ao que dizem, de justiça, esperando que desse movimento
saia, porventura, alguma coisa. Mais tarde, definirão melhor suas aspirações e o
caminho se lhes aclarará.
Quem quer que desça ao âmago dos princípios do Espiritismo filosófico, que
considere os horizontes que ele desvenda, as ideias a que dá origem e os senti
mentos que desenvolve, não duvidará da parte preponderante que há de ter na
regeneração, pois que, precisamente e pela força das coisas, ele conduz ao objetivo
a que a Humanidade aspira: ao reino da justiça, pela extinção dos abusos que lhe
hão obstado ao progresso e pela moralização das massas. Se os que sonham com
a restauração do passado não entendessem assim, não se aferrariam tanto a esse
sonho; deixá-lo-iam morrer tranquilamente, como há sucedido a muitas utopias.
Isto, por si só, devera dar que pensar a certos zombadores, fazendo-os ponderar
que talvez haja aí alguma coisa mais séria do que imaginam. Mas há pessoas que
de tudo riem, que ririam mesmo de Deus, se o vissem na Terra. Também há os que
têm medo de que aos seus olhos se apresente a alma que se obstinam em negar.
Qualquer que seja a influência que um dia o Espiritismo chegue a exercer sobre
as sociedades, não se suponha que ele venha a substituir uma aristocracia por
outra, nem a impor leis; primeiramente, porque, proclamando o direito absoluto
à liberdade de consciência e do livre-exame em matéria de fé, quer, como crença,
ser livremente aceito, por convicção, e não por meio de constrangimento. Pela sua
natureza, não pode, nem deve exercer nenhuma pressão. Proscrevendo a fé cega,
quer ser compreendido. Para ele, absolutamente não há mistérios, mas uma fé ra
cional, que se baseia em fatos e que deseja a luz. Não repudia nenhuma descoberta
da Ciência, dado que a Ciência é a coletânea das Leis da Natureza e que, sendo de
Deus essas leis, repudiar a Ciência fora repudiar a obra de Deus.
Em segundo lugar, estando a ação do Espiritismo no seu poder moralizador,
não pode ele assumir nenhuma forma autocrática, porque então faria o que
condena. Sua influência será preponderante, pelas modificações que trará às
ideias, às opiniões, aos caracteres, aos costumes dos homens e às relações so
ciais. E maior será essa influência, pela circunstância de não ser imposta. Forte
como filosofia, o Espiritismo só teria que perder, neste século de raciocínio,
se se transformasse em poder temporal. Não será ele, portanto, que fará as
instituições do mundo regenerado; os homens é que as farão, sob o império
das ideias de justiça, de caridade, de fraternidade e de solidariedade, mais bem
compreendidas, graças ao Espiritismo.
Essencialmente positivo em suas crenças, ele repele todo misticismo, desde que
não se estenda esta denominação, como o fazem os que em nada creem, à crença
em Deus, na alma e na vida futura. Induz, é certo, os homens a se ocuparem
seriamente com a vida espiritual, mas porque essa é a vida normal, sendo nela
que se têm de cumprir os nossos destinos, pois que a vida terrestre é transitória,
passageira. Pelas provas que apresenta da realidade da vida espiritual, ensina aos
homens a não atribuírem mais que relativa importância às coisas deste mundo,
dando-lhes assim força e coragem para suportar com paciência as vicissitudes da
vida terrena. Ensina-lhes que, morrendo, não deixam para sempre este mundo;
que podem a ele voltar, a fim de aperfeiçoarem sua educação intelectual e moral,
a menos que já estejam bastante adiantados para merecerem passar a um mun
do melhor; que os trabalhos e progressos que realizem, ou para cuja realização
contribuam, lhes aproveitarão, concorrendo para que melhorada se lhes torne
a posição futura. Mostra-lhes dessa forma que é de todo o interesse deles não o
desprezarem. Se lhes repugna voltar aqui, uma vez que possuem o livre-arbítrio,
deles depende o fazerem o que é necessário a se tornarem habitantes de outros
orbes, mas que não se iludam sobre as condições que devem preencher para me
recerem uma mudança de residência! Não será por meio de algumas fórmulas,
expressas em palavras ou atos, que o conseguirão, sim por efeito de uma reforma
séria e radical de suas imperfeições, modificando-se, despojando-se das paixões
más, adquirindo dia a dia novas qualidades, ensinando a todos, pelo exemplo,
a linha de proceder que levará solidariamente todos os homens à ventura, pela
fraternidade, pela tolerância, pelo amor.
A Humanidade se compõe de personalidades, que constituem as existências in
dividuais, e das gerações, que constituem as existências coletivas. Umas e outras
avançam na senda do progresso, por variadas fases de provações que, portanto,
são individuais para as pessoas e coletivas para as gerações. Do mesmo modo que,
para o encarnado, cada existência é um passo à frente, cada geração marca um grau
de progresso para o conjunto. É irresistível esse progresso do conjunto e arrasta
as massas, ao mesmo tempo que modifica e transforma em instrumento de rege
neração os erros e prejuízos de um passado que tem de desaparecer. Ora, como
as gerações se compõem dos indivíduos que já viveram nas gerações precedentes,
segue-se que o progresso delas é a resultante do progresso dos indivíduos.
Mas quem demonstrará, poderão dizer, a existência de solidariedade entre a ge
ração atual e as que a precederam, ou entre ela e as que lhe sucederão? Como se
poderia provar que eu já vivi na Idade Média, por exemplo, e que voltarei a tomar
parte nos acontecimentos que se produzirão na sucessão dos tempos?
Nas obras fundamentais da Doutrina e na Revista, o princípio da pluralidade das
existências já foi exaustivamente demonstrado, para que ainda nos detivéssemos
aqui a demonstrá-lo. Nos fatos da vida cotidiana fervilham provas e uma demons
tração quase matemática. Limitamo-nos, pois, a concitar os pensadores a que
atentem nas provas morais que decorrem do raciocínio e da indução.
Será, porventura, necessário vejamos uma coisa, para que nela acreditemos? Ob
servando efeitos, não se pode adquirir a certeza material da causa?
Afora a da experiência, a única senda legítima que se abre para essa investiga
ção consiste em remontar do efeito à causa. A justiça nos oferece notabilíssimo
exemplo desse princípio, quando empreende descobrir os indícios dos meios que
serviram à perpetração de um crime, as intenções que se agregam à culpabilidade
do malfeitor. Este não foi apanhado em flagrante e, contudo, é condenado por
esses indícios.
A Ciência, que pretende caminhar tão só pela via da experiência, afirma todos os
dias princípios que mais não são do que induções das causas por meio unicamente
da observação dos efeitos.
Em Geologia, determina-se a idade das montanhas. Porventura assistiram os geó
logos ao surto delas? Viram formar-se as camadas de sedimento que lhes determi
nam a idade?
Os conhecimentos astronômicos, físicos e químicos permitem se avaliem o peso
dos planetas, suas densidades, seus volumes, a velocidade que os anima, a natureza
dos elementos que os compõem; entretanto, os sábios não fizeram experiências
diretas e é à analogia e à indução que devemos tão belas e preciosas descobertas.
Os homens de antanho, baseados nos testemunhos de seus sentidos, afirmavam
ser o Sol que gira em torno da Terra. No entanto, esse testemunho os enganava e
prevaleceu o raciocínio.
O mesmo se dará com os princípios que o Espiritismo sustenta, desde que se
disponham a estudá-los, sem prevenções, e, então, a Humanidade entrará, real e
rapidamente, numa era de progresso e de regeneração, porque, já não se sentindo
isolados entre dois abismos, o desconhecido do passado e a incerteza do porvir, os
indivíduos trabalharão com energia por aperfeiçoar e multiplicar os elementos da
felicidade que tem de ser obra deles, porque reconhecerão que não é devida ao aca
so a posição que ocupam no mundo e que eles próprios gozarão, no futuro e em
melhores condições, do fruto de seus labores e de suas vigílias. É que o Espiritismo
lhes ensinará que, se as faltas coletivamente cometidas são expiadas solidariamen
te, os progressos realizados em comum são igualmente solidários, princípio em
virtude do qual desaparecerão as dissensões de raças, de famílias e de indivíduos
e a Humanidade, livre das faixas da infância, avançará célere e virilmente, para a
conquista de seus verdadeiros destinos.
O egoísmo e o orgulho
Suas causas, seus efeitos e os meios de destruí-los
É bem sabido que a maior parte das misérias da vida tem origem
no egoísmo dos homens. Desde que cada um pensa em si antes de pen
sar nos outros e cogita antes de tudo de satisfazer aos seus desejos, cada
um naturalmente cuida de proporcionar a si mesmo essa satisfação, a
todo custo, e sacrifica sem escrúpulo os interesses alheios, assim nas
mais insignificantes coisas, como nas maiores, tanto de ordem moral
quanto de ordem material. Daí todos os antagonismos sociais, todas as
lutas, todos os conflitos e todas as misérias, visto que cada um só trata
de despojar o seu próximo.
O egoísmo, por sua vez, se origina do orgulho. A exaltação da perso
nalidade leva o homem a considerar-se acima dos outros. Julgando-se com
direitos superiores, melindra-se com o que quer que, a seu ver, constitua
ofensa a seus direitos. A importância que, por orgulho, atribui à sua pessoa,
naturalmente o torna egoísta.
O egoísmo e o orgulho nascem de um sentimento natural: o instinto
de conservação. Todos os instintos têm sua razão de ser e sua utilidade,
porquanto Deus nada pode ter feito inútil. Ele não criou o mal; o homem
é quem o produz, abusando dos dons de Deus, em virtude do seu livre-ar
bítrio. Contido em justos limites, aquele sentimento é bom em si mesmo.
A exageração é o que o torna mau e pernicioso. O mesmo acontece com
todas as paixões que o homem frequentemente desvia do seu objetivo pro
videncial. Ele não foi criado egoísta, nem orgulhoso por Deus, que o criou
simples e ignorante; o homem é que se fez egoísta e orgulhoso, exagerando
o instinto que Deus lhe outorgou para sua conservação.
Não podem os homens ser felizes, se não viverem em paz, isto é, se
não os animar um sentimento de benevolência, de indulgência e de condes
cendência recíprocas; numa palavra: enquanto procurarem esmagar-se uns
aos outros. A caridade e a fraternidade resumem todas as condições e todos
os deveres sociais; uma e outra, porém, pressupõem a abnegação. Ora, a ab
negação é incompatível com o egoísmo e o orgulho; logo, com esses vícios,
não é possível a verdadeira fraternidade, nem, por conseguinte, igualdade,
nem liberdade, dado que o egoísta e o orgulhoso querem tudo para si.
Eles serão sempre os vermes roedores de todas as instituições pro
gressistas; enquanto dominarem, ruirão aos seus golpes os mais generosos
sistemas sociais, os mais sabiamente combinados. É belo, sem dúvida, pro
clamar-se o reinado da fraternidade, mas para que fazê-lo, se uma causa
destrutiva existe? É edificar em terreno movediço; o mesmo fora decretar a
saúde numa região malsã. Em tal região, para que os homens passem bem,
não bastará se mandem médicos, pois que estes morrerão como os outros;
insta destruir as causas da insalubridade. Para que os homens vivam na
Terra como irmãos, não basta se lhes deem lições de moral; importa des
truir as causas de antagonismo, atacar a raiz do mal: o orgulho e o egoísmo.
Essa a chaga sobre a qual deve concentrar-se toda a atenção dos que
desejem seriamente o bem da Humanidade. Enquanto subsistir semelhan
te obstáculo, eles verão paralisados todos os seus esforços, não só por uma
resistência de inércia, como também por uma força ativa que trabalhará in
cessantemente no sentido de destruir a obra que empreendam, por isso que
toda ideia grande, generosa e emancipadora arruína as pretensões pessoais.
Impossível, dir-se-á, destruir o orgulho e o egoísmo, porque são ví
cios inerentes à espécie humana. Se fosse assim, houvéramos de desesperar
de todo progresso moral; entretanto, desde que se considere o homem nas
diferentes épocas transcorridas, não há negar que evidente progresso se
efetuou. Ora, se ele progrediu, ainda naturalmente progredirá. Por outro
lado, não se encontrará homem nenhum sem orgulho, nem egoísmo? Não
se veem, ao contrário, criaturas de índole generosa, em quem parecem ina
tos os sentimentos do amor ao próximo, da humildade, do devotamente
e da abnegação? O número delas, positivamente, é menor do que o dos
egoístas; se assim não fosse, não seriam estes últimos os fautores da lei.
Há muito mais criaturas dessas do que se pensa e, se parecem tão pouco
numerosas, é porque o orgulho se põe em evidência, ao passo que a virtude
modesta se conserva na obscuridade.
Se, portanto, o orgulho e o egoísmo se contassem entre as condições
necessárias da Humanidade, como a da alimentação para sustento da vida,
não haveria exceções. O ponto essencial, pois, é conseguir que a exceção
passe a constituir regra; para isso, trata-se, antes de tudo, de destruir as
causas que produzem e entretêm o mal.
Dessas causas, a principal reside evidentemente na ideia falsa que o
homem faz da sua natureza, do seu passado e do seu futuro. Por não saber
donde vem, ele se crê mais do que é; e não sabendo para onde vai, concentra
na vida terrena todo o seu pensar; acha-a tão agradável, quanto possível; an
seia por todas as satisfações, por todos os gozos; essa a razão por que atropela
sem escrúpulo o seu semelhante, se este lhe opõe alguma dificuldade. Mas,
para isso, é preciso que ele predomine; a igualdade daria, a outros, direitos
que ele só quer para si; a fraternidade lhe imporia sacrifícios em detrimen
to do seu bem-estar; a liberdade também ele só a quer para si e somente a
concede aos outros quando não lhe fira de modo algum as prerrogativas.
Alimentando todos as mesmas pretensões, têm resultado os perpétuos con
flitos que os levam a pagar bem caro os raros gozos que logram obter.
Identifique-se o homem com a vida futura e completamente mudará
a sua maneira de ver, como a do indivíduo que apenas por poucas horas
haja de permanecer numa habitação má e que sabe que, ao sair, terá outra,
magnífica, para o resto de seus dias.
A importância da vida presente, tão triste, tão curta, tão efêmera, se
apaga, para ele, ante o esplendor do futuro infinito que se lhe desdobra às
vistas. A consequência natural e lógica dessa certeza é sacrificar o homem
um presente fugidio a um porvir duradouro, ao passo que antes ele tudo
sacrificava ao presente. Tomando por objetivo a vida futura, pouco lhe im
porta estar um pouco mais ou um pouco menos nesta outra; os interesses
mundanos passam a ser o acessório, em vez de ser o principal; ele trabalha
no presente com o fito de assegurar a sua posição no futuro, tanto mais
quando sabe em que condições poderá ser feliz.
Pelo que toca aos interesses terrenos, podem os humanos criar-lhe obs
táculos: ele tem que os afastar e se torna egoísta pela força mesma das coisas.
Se lançar os olhos para o alto, para uma felicidade a que ninguém pode obstar,
interesse nenhum se lhe deparará em oprimir a quem quer que seja e o egoís
mo se lhe torna carente de objeto. Todavia, restará o estimulante do orgulho.
A causa do orgulho está na crença, em que o homem se firma, da sua
superioridade individual. Ainda aí se faz sentir a influência da concentra
ção dos pensamentos sobre a vida corpórea. Naquele que nada vê adiante
de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja
e o orgulho fica sem contrapeso.
A incredulidade não só carece de meios para combater o orgulho,
como o estimula e lhe dá razão, negando a existência de um poder supe
rior à Humanidade. O incrédulo apenas crê em si mesmo; é, pois, natural
que tenha orgulho. Enquanto, nos golpes que o atingem, unicamente vê
uma obra do acaso e se ergue para combatê-la, aquele que tem fé percebe
a mão de Deus e se submete. Crer em Deus e na vida futura é, conseguin
temente, a primeira condição para moderar o orgulho; porém, não basta.
Juntamente com o futuro, é necessário ver o passado, para fazer ideia
exata do presente.
Para que o orgulhoso deixe de crer na sua superioridade, cumpre se
lhe prove que ele não é mais do que os outros e que estes são tanto quanto
ele; que a igualdade é um fato, e não apenas uma bela teoria filosófica; que
estas verdades ressaltam da preexistência da alma e da reencarnação.
Sem a preexistência da alma, o homem é induzido a acreditar que
Deus, dado creia em Deus, lhe conferiu vantagens excepcionais; quando
não crê em Deus, rende graças ao acaso e ao seu próprio mérito. Inician
do-o na vida anterior da alma, a preexistência lhe ensina a distinguir, da
vida corporal, transitória, a vida espiritual, infinita; ele fica sabendo que
as almas saem todas iguais das mãos do Criador; que todas têm o mesmo
ponto de partida e a mesma finalidade, que todas hão de alcançar, em mais
ou menos tempo, conforme os esforços que empreguem; que ele próprio
não chegou a ser o que é, senão depois de haver, por longo tempo e penosa
mente, vegetado, como os outros, nos degraus inferiores da evolução; que,
entre os mais atrasados e os mais adiantados, não há senão uma questão
de tempo; que as vantagens do nascimento são puramente corpóreas e
independem do Espírito; que o simples proletário pode, noutra existência,
nascer num trono e o maior potentado renascer proletário.
Se levar em conta unicamente a vida planetária, ele vê apenas as desi
gualdades sociais do momento, que são as que o impressionam; se, porém,
deitar os olhos sobre o conjunto da vida do Espírito, sobre o passado e o fu
turo, desde o ponto de partida até o de chegada, aquelas desigualdades se so
mem e ele reconhece que Deus nenhuma vantagem concedeu a qualquer de
seus filhos em prejuízo dos outros; que deu parte igual a todos e não achanou
o caminho mais para uns do que para outros; que o que se apresenta menos
adiantado do que ele na Terra pode tomar-lhe a dianteira, se trabalhar mais do
que ele por aperfeiçoar-se; reconhecerá, finalmente, que, nenhum chegando
ao termo senão por seus esforços, o princípio da igualdade é um princípio de
justiça e uma Lei da Natureza, perante a qual cai o orgulho do privilégio.
Provando que os Espíritos podem renascer em diferentes condições
sociais, quer por expiação, quer por provação, a reencarnação ensina que
naquele a quem tratamos com desdém pode estar um que foi nosso supe
rior ou nosso igual noutra existência, um amigo ou um parente. Se o sou
besse, o que com ele se defronta o trataria com atenções, mas, nesse caso,
nenhum mérito teria; por outro lado, se soubesse que o seu amigo atual
foi seu inimigo, seu servo ou seu escravo, sem dúvida o repeliria. Ora, não
quis Deus que fosse assim, pelo que lançou um véu sobre o passado. Deste
modo, o homem é levado a ver, em todos, irmãos seus e seus iguais, donde
uma base natural para a fraternidade; sabendo que pode ser tratado como
haja tratado os outros, a caridade se lhe torna um dever e uma necessidade
fundados na própria natureza.
Jesus assentou o princípio da caridade, da igualdade e da fraterni
dade, fazendo dele uma condição expressa para a salvação, mas estava re
servado à terceira manifestação da vontade de Deus, ao Espiritismo, pelo
conhecimento que faculta da vida espiritual, pelos novos horizontes que
desvenda e pelas leis que revela, sancionar esse princípio, provando que ele
não encerra uma simples doutrina moral, mas uma Lei da Natureza que
o homem tem o máximo interesse em praticar. Ora, ele a praticará desde
que, deixando de encarar o presente como o começo e o fim, compreenda
a solidariedade que existe entre o presente, o passado e o futuro. No campo
imenso do infinito, que o Espiritismo lhe faz entrever, anula-se a sua im
portância capital e ele percebe que, por si só, nada vale e nada é; que todos
têm necessidade uns dos outros e que uns não são mais do que os outros:
duplo golpe, no seu egoísmo e no seu orgulho.
Para isso, é-lhe necessária a fé, sem a qual permanecerá na rotina do
presente, não a fé cega, que foge à luz, restringe as ideias e, em consequência,
alimenta o egoísmo. É-lhe necessária a fé inteligente, racional, que procura
a claridade, e não as trevas, que ousadamente rasga o véu dos mistérios e
alarga o horizonte. Essa fé, elemento básico de todo progresso, é que o Es
piritismo lhe proporciona, fé robusta, porque assente na experiência e nos
fatos, porque lhe fornece provas palpáveis da imortalidade da sua alma, lhe
mostra donde ele vem, para onde vai e por que está na Terra e, finalmente,
lhe firma as ideias, ainda incertas, sobre o seu passado e sobre o seu futuro.
Uma vez que haja entrado decisivamente por esse caminho, já não
tendo o que os incite, o egoísmo e o orgulho se extinguirão pouco a pouco,
por falta de objetivo e de alimento, e todas as relações sociais se modifica
rão sob o influxo da caridade e da fraternidade bem compreendidas.
Poderá isso dar-se por efeito de brusca mudança? Não, fora impos
sível: nada se opera bruscamente em a Natureza; jamais a saúde volta de
súbito a um enfermo; entre a enfermidade e a saúde, há sempre a convales
cença. Não pode o homem mudar instantaneamente o seu ponto de vista
e volver da Terra para o céu o olhar; o infinito o confunde e deslumbra; ele
precisa de tempo para assimilar as novas ideias.
O Espiritismo é, sem contradita, o mais poderoso elemento de mo
ralização, porque mina pela base o egoísmo e o orgulho, facultando um
ponto de apoio à moral. Há feito milagres de conversão; é certo que ainda
são apenas curas individuais, e não raro parciais. O que, porém, ele há
produzido com relação a indivíduos constitui penhor do que produzirá
um dia sobre as massas. Não lhe é possível arrancar de um só golpe as
ervas daninhas. Ele dá a fé e a fé é a boa semente, mas mister se faz que
ela tenha tempo de germinar e de frutificar, razão por que nem todos os
espíritas já são perfeitos.
Ele tomou o homem em meio da vida, no fogo das paixões, em
plena força dos preconceitos e se, em tais circunstâncias, operou prodí
gios, que não será quando o tomar ao nascer, ainda virgem de todas as
impressões malsãs; quando a criatura sugar com o leite a caridade e tiver a
fraternidade a embalá-lo; quando, enfim, toda uma geração for educada e
alimentada com ideias que a razão, desenvolvendo-se, fortalecerá, em vez
de falsear? Sob o domínio destas ideias, a cimentarem a fé comum a todos,
não mais esbarrando o progresso no egoísmo e no orgulho, as instituições
se reformarão por si mesmas e a Humanidade avançará rapidamente para
os destinos que lhe estão prometidos na Terra, aguardando os do Céu.
200
Liberdade, igualdade, fraternidade
Liberdade, igualdade, fraternidade. Estas três palavras constituem,
por si sós, o programa de toda uma ordem social que realizaria o mais
absoluto progresso da Humanidade, se os princípios que elas exprimem
pudessem receber integral aplicação. Vejamos quais os obstáculos que, no
estado atual da sociedade, se lhes opõem e, ao lado do mal, procuremos
o remédio.
A fraternidade, na rigorosa acepção do termo, resume todos os de
veres dos homens, uns para com os outros. Significa: devotamento, abne
gação, tolerância, benevolência, indulgência. É, por excelência, a caridade
evangélica e a aplicação da máxima: “Proceder para com os outros, como
quereríamos que os outros procedessem para conosco”. O oposto do egoís
mo. A fraternidade diz: “Um por todos e todos por um”. O egoísmo diz:
“Cada um por si”. Sendo estas duas qualidades a negação uma da outra,
tão impossível é que um egoísta proceda fraternalmente para com os seus
semelhantes, quanto a um avarento ser generoso, quanto a um indivíduo
de pequena estatura atingir a de um outro alto. Ora, sendo o egoísmo a
chaga dominante da sociedade, enquanto ele reinar soberanamente, im
possível será o reinado da fraternidade verdadeira. Cada um a quererá em
seu proveito; não quererá, porém, praticá-la em proveito dos outros, ou, se
o fizer, será depois de se certificar de que não perderá coisa alguma.
Considerada do ponto de vista da sua importância para a realização
da felicidade social, a fraternidade está na primeira linha: é a base. Sem ela,
não poderiam existir a igualdade, nem a liberdade séria. A igualdade decor
re da fraternidade e a liberdade é consequência das duas outras.
Com efeito, suponhamos uma sociedade de homens bastante de
sinteressados, bastante bons e benévolos para viverem fraternalmente, sem
haver entre eles nem privilégios, nem direitos excepcionais, pois de outro
modo não haveria fraternidade. Tratar a alguém de irmão é tratá-lo de
igual para igual; é querer quem assim o trate, para ele, o que para si pró
prio quereria. Num povo de irmãos, a igualdade será a consequência de
seus sentimentos, da maneira de procederem, e se estabelecerá pela força
mesma das coisas. Qual, porém, o inimigo da igualdade? O orgulho, que
faz queira o homem ter em toda parte a primazia e o domínio, que vive
de privilégios e exceções, poderá suportar a igualdade social, mas não a
fundará nunca e na primeira ocasião a desmantelará. Ora, sendo também
o orgulho uma das chagas da sociedade, enquanto não for banido, oporá
obstáculo à verdadeira igualdade.
A liberdade, dissemo-lo, é filha da fraternidade e da igualdade. Fa
lamos da liberdade legal, e não da liberdade natural, que, de direito, é im
prescritível para toda criatura humana, desde o selvagem até o civilizado.
Os homens que vivam como irmãos, com direitos iguais, animados do
sentimento de benevolência recíproca, praticarão entre si a justiça, não
procurarão causar danos uns aos outros e nada, por conseguinte, terão que
temer uns dos outros. A liberdade nenhum perigo oferecerá, porque nin
guém pensará em abusar dela em prejuízo de seus semelhantes. Mas como
poderiam o egoísmo, que tudo quer para si, e o orgulho, que incessante
mente quer dominar, dar a mão à liberdade que os destronaria? O egoísmo
e o orgulho são, pois, os inimigos da liberdade, como o são da igualdade e
da fraternidade.
A liberdade pressupõe confiança mútua. Ora, não pode haver con
fiança entre pessoas dominadas pelo sentimento exclusivista da persona
lidade. Não podendo cada uma satisfazer-se a si própria senão à custa de
outrem, todas estarão constantemente em guarda umas contra as outras.
Sempre receosas de perderem o a que chamam seus direitos, a dominação
constitui a condição mesma da existência de todas, pelo que armarão con
tinuamente ciladas à liberdade e a coarctarão quanto puderem.
Aqueles três princípios são, pois, conforme acima dissemos, solidá
rios entre si e se prestam mútuo apoio; sem a reunião deles o edifício social
não estaria completo. O da fraternidade não pode ser praticado em toda
a pureza, com exclusão dos dois outros, porquanto, sem a igualdade e a
liberdade, não há verdadeira fraternidade. A liberdade sem a fraternidade é
rédea solta a todas as más paixões, que desde então ficam sem freio; com a
fraternidade, o homem nenhum mau uso faz da sua liberdade: é a ordem;
sem a fraternidade, usa da liberdade para dar curso a todas as suas torpezas:
é a anarquia, a licença. Por isso é que as nações mais livres se veem obrigadas
a criar restrições à liberdade. A igualdade, sem a fraternidade, conduz aos
mesmos resultados, visto que a igualdade reclama a liberdade; sob o pretex
to de igualdade, o pequeno rebaixa o grande, para lhe tomar o lugar, e se
torna tirano por sua vez; tudo se reduz a um deslocamento de despotismo.
Seguir-se-á daí que, enquanto os homens não se acharem imbuídos
do sentimento de fraternidade, será necessário tê-los em servidão? Dar-se-á
sejam inaptas as instituições fundadas sobre os princípios de igualdade e de
liberdade? Semelhante opinião fora mais que errônea; seria absurda. Nin
guém espera que uma criança se ache com o seu crescimento completo para
lhe ensinar a andar. Quem, ademais, os tem sob tutela? Serão homens de
ideias elevadas e generosas, guiados pelo amor do progresso? Serão homens
que se aproveitem da submissão dos seus inferiores para lhes desenvolver o
senso moral e elevá-los pouco a pouco à condição de homens livres? Não;
são, em sua maioria, homens ciosos do seu poder, a cuja ambição e cupidez
outros homens servem de instrumentos mais inteligentes do que animais e
que, então, em vez de emancipá-los, os conservam, por todo o tempo que
for possível, subjugados e na ignorância.
Porém, esta ordem de coisas muda de si mesma, pelo poder irre
sistível do progresso. A reação é não raro violenta e tanto mais terrível,
enquanto o sentimento da fraternidade, imprudentemente sufocado, não
logra interpor o seu poder moderador; a luta se empenha entre os que que
rem tomar e os que querem reter; daí um conflito que se prolonga às vezes
por séculos. Afinal, um equilíbrio fictício se estabelece; há qualquer coisa
de melhor. Sente-se, porém, que as bases sociais não estão sólidas; a cada
passo o solo treme, por isso que ainda não reinam a liberdade e a igualda
de, sob a égide da fraternidade, porque o orgulho e o egoísmo continuam
empenhados em fazer se malogrem os esforços dos homens de bem.
Todos vós que sonhais com essa idade de ouro para a Humanidade
trabalhai, antes de tudo, na construção da base do edifício, sem pensardes
em lhe colocar a cúpula; ponde-lhe nas primeiras fiadas a fraternidade
na sua mais pura acepção. No entanto, para isso, não basta decretá-la e
inscrevê-la numa bandeira; faz-se mister que ela esteja no coração dos
homens e não se muda o coração dos homens por meio de ordenações.
Do mesmo modo que para fazer que um campo frutifique, é necessário se
lhe arranquem os pedrouços e os tocos, aqui também é preciso trabalhar
sem descanso por extirpar o vírus do orgulho e do egoísmo, pois que aí
se encontra a causa de todo o mal, o obstáculo real ao reinado do bem.
Eliminai das leis, das instituições, das religiões, da educação até os últimos
vestígios dos tempos de barbárie e de privilégios, bem como todas as cau
sas que alimentam e desenvolvem esses eternos obstáculos ao verdadeiro
progresso, os quais, por assim dizer, bebemos com o leite e aspiramos por
todos os poros na atmosfera social. Somente então os homens compreen
derão os deveres e os benefícios da fraternidade e também se firmarão por
si mesmos, sem abalos, nem perigos, os princípios complementares, os da
igualdade e da liberdade.
Será possível a destruição do orgulho e do egoísmo? Responderemos
alto e terminantemente: SIM. Do contrário, forçoso seria determinar um
ponto de parada ao progresso da Humanidade. Que o homem cresce em
inteligência, é fato incontestável; terá ele chegado ao ponto culminante,
além do qual não possa ir? Quem ousaria sustentar tão absurda tese? Pro
gride ele em moralidade? Para responder a esta questão, basta se compa
rem as épocas de um mesmo país. Por que teria ele atingido o limite do
progresso moral, e não o do progresso intelectual? Sua aspiração por uma
melhor ordem de coisas é indício da possibilidade de alcançá-la. Aos que
são progressistas cabe acelerar esse movimento por meio do estudo e da
utilização dos meios mais eficientes.
As aristocracias
Aristocracia vem do grego aristos, o melhor, e kratos, poder. Aristocra
cia, pois, em sua acepção literal, significa: poder dos melhores. Há-se de con
vir em que o sentido primitivo tem sido por vezes singularmente deturpado,
mas vejamos que influência o Espiritismo pode exercer na sua aplicação.
Para esse efeito, tomemos as coisas no ponto de partida e acompanhemo-las
através das idades, a fim de deduzirmos daí o que acontecerá mais tarde.
Em nenhum tempo, nem no seio de nenhum povo, os homens,
em sociedade, hão podido prescindir de chefes; com estes deparamos nas
tribos mais selvagens. Decorre isto de que, em razão da diversidade das
aptidões e dos caracteres inerentes à espécie humana, há por toda parte ho
mens incapazes, que precisam ser dirigidos, homens fracos que reclamam
proteção, paixões que exigem repressão. Daí a necessidade imperiosa de
uma autoridade. É sabido que, nas sociedades primitivas, essa autoridade
foi conferida aos chefes de família, aos antigos, aos anciãos; numa palavra:
aos patriarcas. Essa a primeira de todas as aristocracias.
Tornando-se numerosas as sociedades, a autoridade patriarcal veio
a ficar impotente em certas circunstâncias. As querelas entre povoações
vizinhas deram lugar a combates; fez-se mister, para dirigi-las, não mais os
velhos, porém homens fortes, vigorosos e inteligentes; daí os chefes milita
res. Vitoriosos, estes chefes foram investidos da autoridade, esperando os
seus comandados que com a valentia deles estariam garantidos contra os
ataques dos inimigos. Muitos, abusando da posição a que tinham sido ele
vados, se apossavam dela por si mesmos. Depois, os vencedores passaram a
impor-se aos vencidos, ou os reduziram à escravidão. Daí a autoridade da
força bruta, que foi a segunda aristocracia.
Os fortes, com os bens que possuíam, transmitiram muito natu
ralmente a seus filhos a autoridade de que desfrutavam; e os fracos, nada
ousando dizer, se habituaram pouco a pouco a ter esses filhos por herdeiros
dos direitos que os pais haviam conquistado e a considerá-los seus superio
res. Veio assim a divisão da sociedade em duas classes: a dos superiores e a
dos inferiores, a dos que mandam e a dos que obedecem. Estabeleceu-se de
tal modo a aristocracia do nascimento, que tão poderosa e preponderante
se tornou, quanto a da força, visto que, se não tinha por si a força, como
nos primeiros tempos, em que importava fizesse cada um o sacrifício da
sua pessoa, dispunha de uma força mercenária. Na posse de todo o poder,
ela naturalmente se arrogou todos os privilégios.
Para conservação destes, era necessário lhes dessem o prestígio da
legalidade; ela então fez leis em seu próprio proveito, o que lhe era fácil,
pois que ninguém mais as fazia. Como isto, entretanto, não bastasse, jun
tou aos privilégios o prestígio do direito divino, para torná-los respeitáveis
e invioláveis. A fim de lhes assegurar o respeito das classes submetidas, que
cada vez mais numerosas se faziam e mais difíceis de ser contidas, mesmo
pela força, um único meio havia: impedi-las de ver claro, isto é, conservá--las na ignorância.
Se a classe superior houvesse podido manter a classe inferior sem
se ocupar com coisa alguma, tê-la-ia governado facilmente durante ainda
longo tempo, mas como a segunda fosse obrigada a trabalhar para viver, e
trabalhar tanto mais quanto mais premida se achava, resultou que a neces
sidade de encontrar incessantemente novos recursos, de lutar contra uma
concorrência invasora, de procurar novos mercados para os produtos, lhe
desenvolveu a inteligência e fez com que as próprias causas, de que os da
classe superior se serviam para trazê-la sujeita, a esclarecessem. Não se pa
tenteia aí o dedo da Providência?
A classe submetida viu com clareza as coisas; viu a fraca consistência
que lhe opunham e, sentindo-se forte pelo número, aboliu os privilégios
e proclamou a igualdade perante a lei. Este princípio, no seio de alguns
povos, marcou o fim do reinado da aristocracia de nascimento, que passou
a ser apenas nominal e honorífica, porquanto já não confere direitos legais.
Elevou-se então uma nova potência, a do dinheiro, porque com di
nheiro se dispõe dos homens e das coisas. Era um Sol nascente e diante do
qual todos se inclinaram, como outrora se curvavam diante de um brasão.
O que não se concedia ao título, concedia-se à riqueza e a riqueza teve
igualmente seus privilégios. Logo, porém, se aperceberam de que, para
conseguir a riqueza, certa dose de inteligência era necessária, não sendo
necessária muita para herdá-la, e de que os descendentes são quase sem
pre mais hábeis em a consumir do que em ganhá-la, de que os próprios
meios de enriquecimento nem sempre são irreprocháveis, donde resultou
ir o dinheiro perdendo pouco a pouco o seu prestígio moral e tender essa
potência a ser substituída por outra, por uma aristocracia mais justa: a da
inteligência, diante da qual todos podem curvar-se, sem se envilecerem,
porque ela pertence tanto ao pobre quanto ao rico.
Será a última? Será a mais alta expressão da Humanidade civilizada?
Não.
A inteligência nem sempre constitui penhor de moralidade e o ho
mem mais inteligente pode fazer péssimo uso de suas faculdades. Doutro
lado, a moralidade, isolada, pode, muita vez, ser incapaz. A reunião dessas
duas faculdades, inteligência e moralidade, é, pois, necessária a criar uma
preponderância legítima, a que a massa se submeterá cegamente, porque
lhe inspirará plena confiança, pelas suas luzes e pela sua justiça.
Será essa a última aristocracia, a que se apresentará como conse
quência, ou, antes, como sinal do advento do reinado do bem na Terra.
Ela se erguerá muito naturalmente pela força mesma das coisas. Quando
os homens de tal categoria forem bastante numerosos para formarem uma
maioria imponente, a massa lhes confiará seus interesses.
Como vimos, todas as aristocracias tiveram sua razão de ser; nas
ceram do estado da Humanidade; assim há de acontecer com o que se
tornará uma necessidade. Todas preencheram ou preencherão seu tempo,
conforme os países, porque nenhuma teve por base o princípio moral; só
este princípio pode constituir uma supremacia durável, porque terá a ani
má-la sentimentos de justiça e caridade. A essa aristocracia chamaremos:
aristocracia intelecto-moral.
Mas semelhante estado de coisas será possível com o egoísmo, o or
gulho, a cupidez que reinam soberanos na Terra? Responderemos termi
nantemente: sim, não só é possível, como se implantará, por ser inevitável.
Já hoje a inteligência domina; é soberana, ninguém o pode contes
tar. É tão verdade isto, que já se vê o homem do povo chegar aos cargos
de primeira ordem. Essa aristocracia não será mais justa, mais lógica, mais
racional do que a da força bruta, do nascimento, ou do dinheiro? Por que,
então, seria impossível que se lhe juntasse a moralidade? — Porque, dizem
os pessimistas, o mal domina sobre a Terra. — Quem ousará dizer que o
bem nunca o sobrepujará? Os costumes e, por conseguinte, as instituições
sociais, não valem cem vezes mais hoje do que na Idade Média? Cada
século não se assinala por um progresso? Por que, então, a Humanidade
pararia, quando ainda tem tanto que fazer? Por instinto natural, os homens
procuram o seu bem-estar; se não o acharem completo no reino da inte
ligência, procurá-lo-ão algures, e onde poderão encontrá-lo, senão no rei
no da moralidade? Para isso, torna-se preciso que a moralidade sobrepuje
numericamente. Não há contestar que muitíssimo se tem que fazer, mas,
ainda uma vez, fora tola pretensão dizer-se que a Humanidade chegou ao
apogeu, quando é vista a avançar continuamente pela senda do progresso.
Digamos, antes de tudo, que os bons, na Terra, não são absoluta
mente tão raros como se julga; os maus são numerosos, é infelizmente
verdade; o que, porém, faz pareçam eles ainda mais numerosos é que têm
mais audácia e sentem que essa audácia lhes é indispensável ao bom êxito.
De tal modo, entretanto, compreendem a preponderância do bem, que,
não podendo praticá-lo, com ele se mascaram.
Os bons, ao contrário, não fazem alarde das suas boas qualidades;
não se põem em evidência, donde o parecerem tão pouco numerosos. Pes
quisai, no entanto, os atos íntimos praticados sem ostentação e, em todas
as camadas sociais, deparareis com criaturas de natureza boa e leal em nú
mero bastante a vos tranquilizar o coração, de maneira a não desesperardes
da Humanidade. Depois, cumpre também dizê-lo, entre os maus, muitos
há que apenas o são por arrastamento e que se tornariam bons, desde que
submetidos a uma influência boa. Admitamos que, em 100 indivíduos,
haja 25 bons e 75 maus; destes últimos, 50 se contam que o são por fra
queza e que seriam bons, se observassem bons exemplos e, sobretudo, se
tivessem sido bem encaminhados desde a infância; dos 25 maus, nem to
dos serão incorrigíveis.
No estado atual das coisas, os maus estão em maioria e ditam a lei
aos bons. Suponhamos que uma circunstância qualquer opere a conversão
de 50 por cento deles: os bons ficarão em maioria e a seu turno ditarão a
lei; dos 25 outros, francamente maus, muitos sofrerão a influência daque
les, restando apenas alguns incorrigíveis sem preponderância.
Tomemos um exemplo, para ilustrar o que acabamos de dizer: Há
povos no seio dos quais o assassínio e o roubo são a normalidade, consti
tuindo exceção o bem. Nos povos mais adiantados e mais bem governados
da Europa, o crime é a exceção; acuado pelas leis, ele nenhuma influência
exerce sobre a sociedade. O que nesses povos ainda predomina são os vícios
de caráter: o orgulho, o egoísmo, a cupidez com seus cortejos.
Por que, progredindo esses povos, os vícios não se tornariam a exce
ção, como o são hoje os crimes, ao passo que os povos inferiores galgariam
o nosso nível? Negar a possibilidade dessa marcha ascendente fora negar o
progresso.
Certamente, chegar a tal estado de coisas não pode ser obra de um
dia, mas se há uma causa capaz de apressar-lhe o advento, essa causa é,
sem nenhuma dúvida, o Espiritismo. Fator, por excelência, da fraternidade
humana, por mostrar que as provas da vida atual são a consequência lógica
e racional dos atos praticados nas existências anteriores, por fazer de cada
homem o artífice voluntário da sua própria felicidade, a vulgarização uni
versal do Espiritismo dará em resultado, necessariamente, uma elevação
sensível do nível moral da atualidade.
Apenas elaborados e coordenados, já os princípios gerais da nossa
filosofia hão congregado, em imponente comunhão de ideias, milhões de
adeptos espalhados por toda a Terra.
Os progressos realizados pela sua influência, as transformações indivi
duais e locais que eles têm provocado em menos de quinze anos, permitem
apreciemos as modificações imensas e radicais que operarão no futuro.
Mas se, graças ao desenvolvimento e à aceitação geral dos ensinos dos
Espíritos, o nível moral da Humanidade tende constantemente a elevar-se,
singularmente se iludiria quem supusesse que a moralidade preponderará
sobre a inteligência. O Espiritismo, com efeito, não quer que o aceitem
cegamente; reclama a discussão e a luz.
“Em vez da fé cega, que aniquila a liberdade de pensar, diz ele: Fé
inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da
Humanidade. A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita
daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo,
compreender” (O evangelho segundo o espiritismo). Com bom direito, pois,
podemos considerar o Espiritismo como um dos mais fortes precursores da
aristocracia do futuro, isto é, da aristocracia intelecto-moral.
Os desertores
Se é certo que todas as grandes ideias contam apóstolos fervorosos e
dedicados, não menos certo é que mesmo as melhores dentre elas têm seus
desertores. O Espiritismo não podia escapar aos efeitos da fraqueza hu
mana. Ele também teve os seus e a esse respeito não serão inúteis algumas
observações.
Nos primeiros tempos, muitos se equivocaram sobre a natureza e os
fins do Espiritismo e não lhe perceberam o alcance. Antes de tudo mais,
excitou a curiosidade; muitos eram os que não viam nas manifestações
espíritas mais do que simples objeto de diversão; divertiram-se com os Es
píritos, enquanto estes quiseram diverti-los. Constituíam um passatempo,
muitas vezes complementar das reuniões familiares.
Esta maneira por que a princípio a coisa se apresentou foi uma tática
hábil dos Espíritos. Sob a forma de divertimento, a ideia penetrou por toda
parte e semeou germens, sem espavorir as consciências timoratas. Brinca
ram com a criança, mas a criança tinha de crescer.
Quando aos Espíritos facetos sucederam os Espíritos sérios, morali
zadores; quando o Espiritismo se tornou ciência, filosofia, as pessoas super
ficiais deixaram de achá-lo divertido; para os que se preocupam sobretudo
com a vida material, era um censor importuno e embaraçoso, pelo que não
poucos o puseram de lado. Não há que deplorar a existência desses deserto
res, porquanto as criaturas frívolas não passam de pobres auxiliares, seja no
que for. Todavia, essa primeira fase não se pode considerar tempo perdido.
Graças àquele disfarce, a ideia se popularizou cem vezes mais do que se
houvera, desde o primeiro momento, revestido severa forma, e daqueles
meios levianos e displicentes saíram graves pensadores.
Postos em moda pelo atrativo da curiosidade, constituindo um en
godo, os fenômenos tentaram a cupidez dos que andam à cata do que
surge como novidade, na esperança de encontrar aí uma porta aberta. As
manifestações pareceram coisa maravilhosamente explorável e não faltou
quem pensasse em fazer delas um auxiliar de seus negócios; para outros,
eram uma variante da arte da adivinhação, um processo, talvez mais seguro
do que a cartomancia, a quiromancia, a borra de café etc. etc., para se co
nhecer o futuro e descobrir coisas ocultas, uma vez que, segundo a opinião
então corrente, os Espíritos tudo sabiam.
Vendo, afinal, essas pessoas que a especulação lhes escapava dentre
os dedos e dava em mistificação, que os Espíritos não vinham ajudá-las a
enriquecer, nem lhes indicar números que seriam premiados nas loterias,
ou revelar-lhes a boa sorte, ou levá-las a descobrir tesouros, ou a receber
heranças, nem ainda facultar-lhes uma invenção frutuosa de que tirassem
patente, suprir-lhes em suma a ignorância e dispensá-las do trabalho inte
lectual e material, os Espíritos para nada serviam e suas manifestações não
passavam de ilusões. Tanto essas pessoas deferiram louvores ao Espiritis
mo, durante todo o tempo em que esperaram auferir dele algum proveito,
quanto o denegriram desde que chegou a decepção. Mais de um dos críti
cos que o vituperam tê-lo-iam elevado às nuvens, se ele houvesse feito que
descobrissem um tio rico na América, ou que ganhassem na Bolsa. Das
categorias dos desertores, é essa a mais numerosa, mas compreende-se que
os que a formam não podem ser qualificados de espíritas.
Também essa fase apresentou sua utilidade. Mostrando o que não se
devia esperar do concurso dos Espíritos, ela deu a conhecer o objetivo sé
rio do Espiritismo e depurou a Doutrina. Sabem os Espíritos que as lições
da experiência são as mais proveitosas; se, logo de começo, eles dissessem:
Não peçais isto ou aquilo, porque nada conseguires, ninguém mais lhes
daria crédito. Essa a razão por que deixaram que as coisas tomassem o
rumo que tomaram: foi para que da observação ressaltasse a verdade. As
decepções desanimaram os exploradores e contribuíram para que o núme
ro deles diminuísse. Eram parasitos de que elas, as decepções, livraram o
Espiritismo, e não adeptos sinceros.
Alguns indivíduos, mais perspicazes do que outros, entreviram o
homem na criança que acabava de nascer e temeram-na, como Herodes
temeu o menino Jesus. Não se atrevendo a atacar de frente o Espiritismo,
esses indivíduos incitaram agentes com o encargo de o abraçarem para
asfixiá-lo; agentes que se mascaram para em toda parte se intrometerem,
para suscitarem habilmente a desafeição nos centros e espalharem, den
tro destes, com furtiva mão, o veneno da calúnia, acendendo, ao mesmo
tempo, o facho da discórdia, inspirando atos comprometedores, tentando
desencaminhar a Doutrina, a fim de torná-la ridícula ou odiosa e simular
em seguida defecções.
Outros ainda são mais habilidosos: pregando a união, semeiam a
separação; destramente levantam questões irritantes e ferinas; despertam
o ciúme da preponderância entre os diferentes grupos; deleitar-se-iam,
vendo-os apedrejar-se e erguer bandeira contra bandeira, a propósito de
algumas divergências de opiniões sobre certas questões de forma ou de
fundo, as mais das vezes provocadas intencionalmente. Todas as doutrinas
têm tido seus Judas; o Espiritismo não poderia deixar de ter os seus e eles
ainda não lhe faltaram.
Esses são espíritas de contrabando, mas que também foram de algu
ma utilidade: ensinaram ao verdadeiro espírita a ser prudente, circunspecto
e a não se fiar nas aparências.
Por princípio, deve-se desconfiar dos entusiasmos demasiado febris:
são quase sempre fogo de palha, ou simulacros, ardores ocasionais, que su
prem com a abundância de palavras a falta de atos. A verdadeira convicção
é calma, refletida, motivada; revela-se, como a verdadeira coragem, pelos
fatos, isto é, pela firmeza, pela perseverança e, sobretudo, pela abnegação.
O desinteresse moral e material é a legítima pedra de toque da sinceridade.
Tem esta um cunho sui generis; exterioriza-se por matizes muitas
vezes mais fáceis de ser compreendidos do que definidos; é sentida por
efeito dessa transmissão do pensamento, cuja lei o Espiritismo regulou,
sem que a falsidade chegue nunca a simulá-la completamente, visto não
lhe ser possível mudar a natureza das correntes fluídicas que projeta de
si. Ela, a sinceridade, considera erro dar troco à baixa e servil lisonja, que
somente seduz as almas orgulhosas, lisonja por meio da qual precisamente
a falsidade se trai para com as almas elevadas.
Jamais pôde o gelo imitar o calor.
Se passarmos à categoria dos espíritas propriamente ditos, ainda
aí depararemos com certas fraquezas humanas, das quais a doutrina não
triunfa imediatamente. As mais difíceis de vencer-se são o egoísmo e o
orgulho, as duas paixões originárias do homem. Entre os adeptos con
victos, não há deserções, na lídima acepção do termo, visto como aquele
que desertasse, por motivo de interesse ou qualquer outro, nunca teria
sido sinceramente espírita; pode, entretanto, haver desfalecimentos. Pode
dar-se que a coragem e a perseverança fraqueiem diante de uma decepção,
de uma ambição frustrada, de uma preeminência não alcançada, de uma
ferida no amor-próprio, de uma prova difícil. Há o recuo ante o sacrifício
do bem-estar, ante o receio de comprometer os interesses materiais, ante
o medo do “que dirão?”; há o ser-se abatido por uma mistificação, tendo
como consequência, não o afastamento, mas o esfriamento; há o querer
viver para si, e não para os outros, o beneficiar-se da crença, mas sob a
condição de que isso nada custe.
Sem dúvida, podem os que assim procedem ser crentes, mas, sem
contestação, crentes egoístas, nos quais a fé não ateou o fogo sagrado do
devotamento e da abnegação; às suas almas custa o desprenderem-se da
matéria. Fazem nominalmente número, porém não há contar com eles.
Todos os outros são espíritas que em verdade merecem esse qualifi
cativo. Aceitam por si mesmos todas as consequências da Doutrina e são
reconhecíveis pelos esforços que empregam por melhorar-se. Sem despre
zarem, além dos limites do razoável, os interesses materiais, estes são, para
eles, o acessório, e não o principal; não consideram a vida terrena senão
como travessia mais ou menos penosa; estão certos de que do emprego útil
ou inútil que lhe derem depende o futuro; têm por mesquinhos os gozos
que ela proporciona, em face do objetivo esplêndido que entreveem no
Além; não se intimidam com os obstáculos com que topem no caminho;
veem nas vicissitudes e decepções provas que não lhes causam desânimo,
porque sabem que o repouso será o prêmio do trabalho. Daí vem que não
se verificam entre eles deserções, nem falências.
Por isso mesmo, os bons Espíritos protegem manifestamente os que
lutam com coragem e perseverança, aqueles cujo devotamente é sincero e
sem ideias preconcebidas; ajudam-nos a vencer os obstáculos e suavizam
as provas que não possam evitar-lhes, ao passo que, não menos manifesta
mente, abandonam os que se afastam deles e sacrificam a causa da verdade
às suas ambições pessoais.
Deveremos incluir também entre os desertores do Espiritismo os
que se retiram porque a nossa maneira de ver não lhes satisfaz; os que,
por acharem muito lento ou muito rápido o nosso método, pretendem
alcançar mais depressa e em melhores condições a meta a que visamos?
Certamente que não, se têm por guia a sinceridade e o desejo de propagar
a verdade. — Sim, se seus esforços tendem unicamente a se porem eles em
evidência e a chamar sobre si a atenção pública, para satisfação do amor--próprio e de interesses pessoais!...
Tendes um modo de ver diferente do nosso, não simpatizais com os
princípios que admitimos! Nada prova que estais mais próximos da verda
de do que nós. Pode-se divergir de opinião em matéria de ciência; inves
tigai do vosso lado, como nós investigamos do nosso; o futuro dará a ver
qual de nós está em erro ou com a razão. Não pretendemos ser os únicos a
reunir as condições fora das quais não são possíveis estudos sérios e úteis;
o que temos feito podem outros, sem dúvida, fazer. Que os homens inte
ligentes se agreguem a nós, ou se congreguem longe de nós, pouco impor
ta!... Se os centros de estudos se multiplicarem, tanto melhor; será um sinal
de incontestável progresso, que aplaudiremos com todas as nossas forças.
Quanto às rivalidades, às tentativas que façam por nos suplantarem,
temos um meio infalível de não as temer. Trabalhamos para compreender,
por enriquecer a nossa inteligência e o nosso coração; lutamos com os ou
tros, mas lutamos com caridade e abnegação. O amor do próximo inscrito
em nosso estandarte é a nossa divisa; a pesquisa da verdade, venha donde
vier, o nosso único objetivo. Com tais sentimentos, enfrentamos a zomba
ria dos nossos adversários e as tentativas dos nossos competidores. Se nos
enganarmos, não teremos o tolo amor-próprio que nos leve a obstinar-nos
em ideias falsas; há, porém, princípios acerca dos quais podemos todos
estar seguros de nos não enganarmos nunca: o amor do bem, a abnegação,
a proscrição de todo sentimento de inveja e de ciúme. Estes princípios são
os nossos; vemos neles os laços que prenderão todos os homens de bem,
qualquer que seja a divergência de suas opiniões. Somente o egoísmo e a
má-fé erguem entre eles barreiras intransponíveis.
Mas qual será a consequência de semelhante estado de coisas? In
dubitavelmente, o proceder dos falsos irmãos poderá de momento acar
retar algumas perturbações parciais, pelo que todos os esforços devem ser
empregados para levá-las ao malogro, tanto quanto possível; essas pertur
bações, porém, pouco tempo necessariamente durarão e não poderão ser
prejudiciais ao futuro: primeiro, porque são simples manobras de oposição,
fadadas a cair pela força mesma das coisas; depois, digam o que disserem,
ou façam o que fizerem, ninguém seria capaz de privar a Doutrina do seu
caráter distintivo, da sua filosofia racional e lógica, da sua moral consola
dora e regeneradora. Hoje, estão lançadas de forma inabalável as bases do
Espiritismo; os livros escritos sem equívoco e postos ao alcance de todas as
inteligências serão sempre a expressão clara e exata do ensino dos Espíritos
e o transmitirão intacto aos que nos sucederem.
Insta não perder de vista que estamos num momento de transição e
que nenhuma transição se opera sem conflito. Ninguém, pois, deve espan
tar-se de que certas paixões se agitem, por efeito de ambições malogradas,
de interesses feridos, de pretensões frustradas. Pouco a pouco, porém, tudo
isso se extingue, a febre se abranda, os homens passam e as novas ideias
permanecem. Espíritas, se quereis ser invencíveis, sede benévolos e carido
sos; o bem é uma couraça contra a qual sempre se quebrarão as manobras
da malevolência!...
Nada, pois, temamos: o futuro nos pertence. Deixemos que os nos
sos adversários se debatam, apertados pela verdade que os ofusca; qualquer
oposição é impotente contra a evidência, que inevitavelmente triunfa pela
força mesma das coisas. É uma questão de tempo a vulgarização universal
do Espiritismo e neste século o tempo marcha a passo de gigante, sob a
impulsão do progresso.
allaN KaRdec
Nota – Como complemento deste artigo, publicamos uma instrução que sobre
o mesmo assunto Allan Kardec deu, logo que voltou ao mundo dos Espíritos.
Pareceu-nos interessante, para os nossos leitores, juntar às páginas eloquentes
e viris que se acabam de ler a opinião atual do organizador por excelência da
nossa filosofia.
Quando eu me achava corporalmente entre vós, disse muitas vezes que havia de
fazer aí uma história do Espiritismo, que não seria destituída de interesse. É este,
ainda agora, o meu parecer e os elementos que eu reunira para esse fim poderão
servir um dia à realização da minha ideia. É que eu, com efeito, me encontrava
mais bem colocado do que qualquer outro para apreciar o curioso espetáculo que a
descoberta e a vulgarização de uma grande verdade provocara. Pressentia outrora,
hoje sei, que ordem maravilhosa e que harmonia inconcebível presidem à con
centração de todos os documentos destinados a dar nascimento à nova obra. A
benevolência, a boa vontade, o devotamento absoluto de uns; a má-fé, a hipocri
sia, as maldosas manobras de outros, tudo concorre para garantir a estabilidade do
edifício que se eleva. Nas mãos das potestades superiores, que presidem a todos os
progressos, as resistências inconscientes ou simuladas, os ataques visando semear o
descrédito e o ridículo, se tornam elementos de elaboração.
Que não têm feito! Que é o que não têm posto em ação para asfixiar no berço a
criança!
A princípio o charlatanismo e a superstição quiseram, ora um, ora outra, apode
rar-se dos nossos princípios, a fim de os explorarem em proveito próprio; todos
os raios da imprensa se projetaram contra nós; chasquearam das coisas mais res
peitáveis; atribuíram aos Espíritos do mal os ensinos dos Espíritos mais dignos da
admiração e da veneração universais; entretanto, todos esses esforços conjugados
mais não conseguiram, senão proclamar a impotência dos nossos adversários.
É dentro dessa luta incessante contra os preconceitos firmados, contra erros acre
ditados, que se aprende a conhecer os homens. Eu sabia, ao consagrar-me à obra
da minha predileção, que me expunha ao ódio, à inveja e ao ciúme dos outros. O
caminho se achava inçado de dificuldades que de contínuo se renovavam. Nada
podendo contra a doutrina, atiravam-se ao homem, mas, por esse lado, eu me sen
tia forte, porque renunciara à minha personalidade. Que me importavam os esfor
ços da calúnia; a minha consciência e a grandeza do objetivo me faziam esquecer
de boa vontade as urzes e os espinhos da estrada. Os testemunhos de simpatia e de
estima, que recebi dos que me souberam apreciar, constituíram a mais estimável
recompensa que eu jamais ambicionara. Mas ah! Quantas vezes teria sucumbido
ao peso da minha tarefa, se a afeição e o reconhecimento de muitos não me hou
vessem feito olvidar a ingratidão e a injustiça de alguns, porquanto, se os ataques
contra mim dirigidos sempre me encontraram insensível, penosamente magoado
me sentia, devo dizê-lo, todas as vezes que descobria falsos amigos entre aqueles
com quem mais contava.
Se é justo censurar os que hão tentado explorar o Espiritismo ou desnaturá-lo em
seus escritos, sem o terem previamente estudado, quão mais culpados não são os
que, depois de lhe haverem assimilado todos os princípios, não contentes de se lhe
apartarem do seio, contra ele voltaram todos os seus esforços! É, sobretudo, para
os desertores dessa categoria que devemos implorar a misericórdia divina, pois
que apagaram voluntariamente o facho que os iluminava e com o qual podiam
esclarecer os outros. Eles, por isso, logo perdem a proteção dos bons Espíritos e,
conforme a triste experiência que temos feito, bem depressa chegam, de queda em
queda, às mais críticas situações!
Desde que voltei para o mundo dos Espíritos, tornei a ver alguns desses infe
lizes! Arrependem-se agora; lamentam a inação em que ficaram e a má vonta
de de que deram prova, sem lograrem, todavia, recuperar o tempo perdido!...
Tornarão em breve à Terra, com o firme propósito de concorrerem ativamente
para o progresso e se verão ainda em luta com as tendências antigas, até que
definitivamente triunfem.
Fora de crer que os espíritas de hoje, esclarecidos por esses exemplos, evitariam cair
nos mesmos erros. Assim, porém, não é. Ainda por longo tempo haverá irmãos
falsos e amigos desassisados, mas, tal como seus irmãos mais velhos, não conse
guirão fazer que o Espiritismo saia da sua diretriz. Embora causem algumas per
turbações momentâneas e puramente locais, nem por isso a Doutrina periclitará.
Ao contrário, os espíritas transviados bem depressa reconhecerão o erro em que
incidiram e virão colaborar com maior ardor na obra por um instante abandonada
e, atuando de acordo com os Espíritos Superiores que dirigem as transformações
humanitárias, caminharão a passo rápido para os ditosos tempos prometidos à
Humanidade regenerada.
allaN KaRdec17
Paris, novembro de 1869
Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo
É imprescritível o direito de exame e de crítica e o Espiritismo não
alimenta a pretensão de subtrair-se ao exame e à crítica como não tem a de
satisfazer a toda gente. Cada um é, pois, livre de o aprovar ou rejeitar, mas,
para isso, necessário se faz discuti-lo com conhecimento de causa. Ora, a
crítica tem por demais provado que lhe ignora os mais elementares prin
cípios, fazendo-o dizer precisamente o contrário do que ele diz, atribuin
do-lhe o que ele desaprova, confundindo-o com as imitações grosseiras e
burlescas do charlatanismo, enfim, apresentando, como regra de todos, as
excentricidades de alguns indivíduos. Também por demais a malignidade
há querido torná-lo responsável por atos repreensíveis ou ridículos, nos
quais o seu nome foi envolvido incidentemente, e disso se aproveita como
arma contra ele.
Antes de imputar a uma doutrina a culpa de incitar a um ato conde
nável qualquer, a razão e a equidade exigem que se examine se essa doutri
na contém máximas que justifiquem semelhante ato.
Para conhecer-se a parte de responsabilidade que, em dada circuns
tância, caiba ao Espiritismo, há um meio muito simples: proceder de boa-fé
a uma perquirição, não entre os adversários, mas na própria fonte, do que
ele aprova e do que condena. Isso é tanto mais fácil, quanto ele não tem
segredos; seus ensinos são patentes e quem quer que seja pode verificá-los.
Assim, se os livros da Doutrina Espírita condenam explícita e formal
mente um ato justamente reprovável; se, ao contrário, só encerram instruções
de natureza a orientar para o bem, segue-se que não foi neles que um indiví
duo culpado de malefícios se inspirou, ainda mesmo que os possua.
O Espiritismo não é solidário com aqueles a quem apraza dizerem-se
espíritas, do mesmo modo que a Medicina não o é com os que a explo
ram, nem a sã religião com os abusos e até crimes que se cometam em seu
nome. Ele não reconhece como seus adeptos senão os que lhe praticam os
ensinos, isto é, que trabalham por melhorar-se moralmente, esforçando-se
por vencer os maus pendores, por ser menos egoístas e menos orgulhosos,
mais brandos, mais humildes, mais caridosos para com o próximo, mais
moderados em tudo, porque é essa a característica do verdadeiro espírita.
Esta breve nota não tem por objeto refutar todas as falsas alegações
que se lançam contra o Espiritismo, nem lhe desenvolver e provar todos
os princípios, nem, ainda menos, tentar converter a esses princípios os que
professem opiniões contrárias, mas, apenas, dizer, em poucas palavras, o
que ele é e o que não é, o que admite e o que desaprova.
As crenças que propugna, as tendências que manifesta e o fim a que
visa se resumem nas proposições seguintes:
1o) O elemento espiritual e o elemento material são os dois princípios,
as duas forças vivas da Natureza, as quais se completam uma a outra e
reagem incessantemente uma sobre a outra, indispensáveis ambas ao fun
cionamento do mecanismo do Universo.
Da ação recíproca desses dois princípios se originam fenômenos que
cada um deles, isoladamente, não tem possibilidade de explicar.
À Ciência, propriamente dita, cabe a missão especial de estudar as
leis da matéria.
O Espiritismo tem por objeto o estudo do elemento espiritual em
suas relações com o elemento material e aponta na união desses dois prin
cípios a razão de uma imensidade de fatos até então inexplicados.
O Espiritismo caminha ao lado da Ciência, no campo da maté
ria: admite todas as verdades que a Ciência comprova, mas não se de
tém onde esta última para: prossegue nas suas pesquisas pelo campo da
espiritualidade.
2o) Sendo o elemento espiritual um estado ativo da Natureza, os fe
nômenos em que ele intervém estão submetidos a leis e são por isso mesmo
tão naturais quanto os que derivam da matéria neutra.
Alguns de tais fenômenos foram reputados sobrenaturais, apenas por
ignorância das leis que os regem. Em virtude desse princípio, o Espiritismo
não admite o caráter de maravilhoso atribuído a certos fatos, embora lhes
reconheça a realidade ou a possibilidade. Não há, para ele, milagres, no
sentido de derrogação das Leis Naturais, donde se segue que os espíritas
não fazem milagres e que é impróprio o qualificativo de taumaturgos que
umas tantas pessoas lhes dão.
O conhecimento das leis que regem o princípio espiritual prende-se
de modo direto à questão do passado e do futuro do homem. Cinge-se a
sua vida à existência atual? Ao entrar neste mundo, vem ele do nada e volta
para o nada ao deixá-lo? Já viveu e ainda viverá? Como viverá e em que con
dições? Numa palavra: donde vem ele e para onde vai? Por que está na Terra
e por que sofre aí? Tais as questões que cada um faz a si mesmo, porque
são para toda gente de capital interesse e às quais ainda nenhuma doutrina
deu solução racional. A que lhe dá o Espiritismo, baseada em fatos, por
satisfazer às exigências da lógica e da mais rigorosa justiça, constitui uma
das causas principais da rapidez de sua propagação.
O Espiritismo não é uma concepção pessoal, nem o resultado de
um sistema preconcebido. É a resultante de milhares de observações feitas
sobre todos os pontos do globo e que convergiram para um centro que os
coligiu e coordenou. Todos os seus princípios constitutivos, sem exceção
de nenhum, são deduzidos da experiência. Esta precedeu sempre a teoria.
Assim, desde o começo, o Espiritismo lançou raízes por toda parte. A
História nenhum exemplo oferece de uma doutrina filosófica ou religiosa
que, em dez anos, tenha conquistado tão grande número de adeptos. En
tretanto, não empregou, para se fazer conhecido, nenhum dos meios vul
garmente em uso; propagou-se por si mesmo, pelas simpatias que inspirou.
Outro fato não menos constante é que, em nenhum país, a sua dou
trina não surgiu das ínfimas camadas sociais; em todos os lugares ela se
propagou de cima para baixo na escala da sociedade e ainda é nas classes
esclarecidas que se acha quase exclusivamente espalhada, constituindo in
significante minoria, no seio de seus adeptos, as pessoas iletradas.
Verifica-se também que a disseminação do Espiritismo seguiu, desde
os seus primórdios, marcha sempre ascendente, a despeito de tudo quanto
fizeram seus adversários para entravá-la e para lhe desfigurar o caráter, com
o fito de desacreditá-lo na opinião pública. É mesmo de notar-se que tudo
o que hão tentado com esse propósito lhe favoreceu a difusão; o arruído que
provocaram por ocasião do seu advento fez que viessem a conhecê-lo muitas
pessoas que antes nunca ouviram falar dele; quanto mais procuraram dene
gri-lo ou ridiculizá-lo, tanto mais despertaram a curiosidade geral, e, como
todo exame só lhe pode ser proveitoso, o resultado foi que seus opositores
se constituíram, sem o quererem, ardorosos propagandistas seus. Se as dia
tribes nenhum prejuízo lhe acarretaram, é que os que o estudaram em suas
legítimas fontes o reconheceram muito diverso do que o tinham figurado.
Nas lutas que precisou sustentar, os imparciais lhe testificaram a mo
deração; ele nunca usou de represálias com os seus adversários, nem res
pondeu com injúrias às injúrias.
O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como
qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fun
damentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas não é
uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e
que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote
ou de sumo sacerdote. Estes qualificativos são de pura invenção da crítica.
É-se espírita pelo só fato de simpatizar com os princípios da Dou
trina e por conformar com esses princípios o proceder. Trata-se de uma
opinião como qualquer outra, que todos têm o direito de professar, como
têm o de ser judeus, católicos, protestantes, simonistas, voltairianos, carte
sianos, deístas e, até, materialistas.
O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito na
tural; reclama-a para os seus adeptos, do mesmo modo que para toda a
gente. Respeita todas as convicções sinceras e faz questão da reciprocidade.
Da liberdade de consciência decorre o direito de livre-exame em ma
téria de fé. O Espiritismo combate a fé cega, porque ela impõe ao homem
que abdique da sua própria razão; considera sem raiz toda fé imposta, don
de o inscrever entre suas máximas: Não é inabalável, senão a fé que pode
encarar de frente a razão em todas as épocas da Humanidade.
Coerente com seus princípios, o Espiritismo não se impõe a quem
quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe
suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram.
Não cuida de afastar pessoa alguma das suas convicções religiosas;
não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos
que, insatisfeitos com o que se lhes dá, pedem alguma coisa melhor.
Extratos, in extenso, o livro das Previsões concernentes ao espiritismo
Manuscrito composto com especial cuidado por Allan Kardec
e do qual nenhum capítulo fora ainda publicado.
A minha primeira iniciação no Espiritismo
Foi em 1854 que pela primeira vez ouvi falar das mesas girantes.
Encontrei um dia o magnetizador, Sr. Fortier, a quem eu conhecia desde
muito tempo e que me disse: “Já sabe da singular propriedade que se acaba
de descobrir no Magnetismo? Parece que já não são somente as pessoas
que se podem magnetizar, mas também as mesas, conseguindo-se que elas
girem e caminhem à vontade.” “É, com efeito, muito singular” — respon
di —; “mas, a rigor, isso não me parece radicalmente impossível. O fluido
magnético, que é uma espécie de eletricidade, pode perfeitamente atuar so
bre os corpos inertes e fazer que eles se movam.” Os relatos, que os jornais
publicaram, de experiências feitas em Nantes, em Marselha e em algumas
outras cidades, não permitiam dúvidas acerca da realidade do fenômeno.
Algum tempo depois, encontrei-me novamente com o Sr. Fortier,
que me disse: “Temos uma coisa muito mais extraordinária; não só se con
segue que uma mesa se mova, magnetizando-a, como também que fale.
Interrogada, ela responde.” “Isto agora” — repliquei-lhe —, “é outra ques
tão. Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem
cérebro para pensar, nervos para sentir e que possa tornar-se sonâmbula.
Até lá, permita que eu não veja no caso mais do que um conto para fazer--nos dormir em pé”.
Era lógico este raciocínio: eu concebia o movimento por efeito de uma
força mecânica, mas, ignorando a causa e a lei do fenômeno, afigurava-se-me
absurdo atribuir-se inteligência a uma coisa puramente material. Achava-me
na posição dos incrédulos atuais, que negam porque apenas veem um fato
que não compreendem. Há 50 anos, se a alguém dissessem, pura e sim
plesmente, que se podia transmitir um despacho telegráfico a 500 léguas
e receber a resposta dentro de uma hora, esse alguém se riria e não teriam
faltado excelentes razões científicas para provar que semelhante coisa era ma
terialmente impossível. Hoje, quando já se conhece a lei da eletricidade, isso
a ninguém espanta, nem sequer ao camponês. O mesmo se dá com todos os
fenômenos espíritas. Para quem quer que não conheça a lei que os rege, eles
parecem sobrenaturais, maravilhosos e, por conseguinte, impossíveis e ridí
culos. Uma vez conhecida a lei, desaparece a maravilha, o fato deixa de ter
o que repugne à razão, porque se prende à possibilidade de ele produzir-se.
Eu estava, pois, diante de um fato inexplicado, aparentemente con
trário às Leis da Natureza e que a minha razão repelia. Ainda nada vira,
nem observara; as experiências, realizadas em presença de pessoas honradas
e dignas de fé, confirmavam a minha opinião, quanto à possibilidade do
efeito puramente material; a ideia, porém, de uma mesa falante ainda não
me entrara na mente.
No ano seguinte, estávamos em começo de 1855, encontrei-me com
o Sr. Carlotti, amigo de 25 anos, que me falou daqueles fenômenos duran
te cerca de uma hora, com o entusiasmo que consagrava a todas as ideias
novas. Ele era corso, de temperamento ardoroso e enérgico, e eu sempre
lhe apreciara as qualidades que distinguem uma grande e bela alma, porém
desconfiava da sua exaltação. Foi o primeiro que me falou na intervenção
dos Espíritos e me contou tantas coisas surpreendentes que, longe de me
convencer, me aumentou as dúvidas. “Um dia, o senhor será dos nossos”,
concluiu. “Não direi que não”, respondi-lhe; “veremos isso mais tarde.”
Passado algum tempo, pelo mês de maio de 1855, fui à casa da so
nâmbula Sra. Roger, em companhia do Sr. Fortier, seu magnetizador. Lá
encontrei o Sr. Pâtier e a Sra. Plainemaison, que daqueles fenômenos me
falaram no mesmo sentido em que o Sr. Carlotti se pronunciara, mas em
tom muito diverso. O Sr. Pâtier era funcionário público, já de certa idade,
muito instruído, de caráter grave, frio e calmo; sua linguagem pausada,
isenta de todo entusiasmo, produziu em mim viva impressão e, quando
me convidou a assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra.
Plainemaison, à Rua Grange-Batelière, 18, aceitei imediatamente. A reu
nião foi marcada para terça-feira18 de maio às oito horas da noite.
Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que
giravam, saltavam e corriam em condições tais que não deixavam lugar
para qualquer dúvida. Assisti então a alguns ensaios, muito imperfeitos,
de escrita mediúnica numa ardósia, com o auxílio de uma cesta. Minhas
ideias estavam longe de precisar-se, mas havia ali um fato que necessaria
mente decorria de uma causa. Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades,
no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério,
como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.
Bem depressa, ocasião se me ofereceu de observar mais aten
tamente os fatos, como ainda o não fizera. Numa das reuniões da Sra.
Plainemaison, travei conhecimento com a família Baudin, que residia en
tão à Rua Rochechouart. O Sr. Baudin me convidou para assistir às sessões
hebdomadárias que se realizavam em sua casa e às quais me tornei desde
logo muito assíduo.
Eram bastante numerosas essas reuniões; além dos frequentadores
habituais, admitiam-se todos os que solicitavam permissão para assistir a
elas. Os médiuns eram as duas senhoritas Baudin, que escreviam numa ar
dósia com o auxílio de uma cesta, chamada carrapeta e que se encontra des
crita em O livro dos médiuns. Esse processo, que exige o concurso de duas
pessoas, exclui toda possibilidade de intromissão das ideias do médium.
Aí, tive ensejo de ver comunicações contínuas e respostas a perguntas for
muladas, algumas vezes, até, perguntas mentais, que acusavam, de modo
evidente, a intervenção de uma inteligência estranha.
Eram geralmente frívolos os assuntos tratados. Os assistentes se
ocupavam, principalmente, de coisas respeitantes à vida material, ao futuro,
numa palavra, de coisas que nada tinham de realmente sério; a curiosidade
e o divertimento eram os móveis capitais de todos. Dava o nome de Zéfiro
o Espírito que costumava manifestar-se, nome perfeitamente acorde com
o seu caráter e com o da reunião. Entretanto, era muito bom e se dissera
protetor da família. Se com frequência fazia rir, também sabia, quando
preciso, dar ponderados conselhos e manejar, se ensejo se apresentava, o
epigrama, espirituoso e mordaz. Relacionamo-nos de pronto e ele me ofe
receu constantes provas de grande simpatia. Não era um Espírito muito
adiantado, porém, mais tarde, assistido por Espíritos Superiores, me auxi
liou nos meus trabalhos. Depois, disse que tinha de reencarnar e dele não
mais ouvi falar.
Foi nessas reuniões que comecei os meus estudos sérios de Espiritis
mo, menos, ainda, por meio de revelações do que de observações. Apliquei
a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nun
ca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava,
deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por de
dução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida
uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão.
Foi assim que procedi sempre em meus trabalhos anteriores, desde a idade
de 15 a 16 anos. Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração
que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema
tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a
solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma
revolução nas ideias e nas crenças; fazia-se mister, portanto, andar com a
maior circunspeção, e não levianamente; ser positivista, e não idealista,
para não me deixar iludir.
Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi
que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não pos
suíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que
dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adianta
mento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Re
conhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho
de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias
prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.
O simples fato da comunicação com os Espíritos, dissessem eles o
que dissessem, provava a existência do Mundo Invisível ambiente. Já era
um ponto essencial, um imenso campo aberto às nossas explorações, a
chave de inúmeros fenômenos até então inexplicados. O segundo ponto,
não menos importante, era que aquela comunicação permitia se conheces
sem o estado desse mundo, seus costumes, se assim nos podemos exprimir.
Vi logo que cada Espírito, em virtude da sua posição pessoal e de seus co
nhecimentos, me desvendava uma face daquele mundo, do mesmo modo
que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes seus
de todas as classes, não podendo um só, individualmente, informar-nos de
tudo. Compete ao observador formar o conjunto, por meio dos documen
tos colhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e comparados
uns com outros. Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito
com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me in
formar, e não reveladores predestinados.
Tais as disposições com que empreendi meus estudos e neles pros
segui sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que constante
mente segui.
Até ali, as sessões em casa do Sr. Baudin nenhum fim determinado
tinham tido. Tentei lá obter a resolução dos problemas que me interessa
vam, do ponto de vista da Filosofia, da Psicologia e da natureza do Mundo
Invisível. Levava para cada sessão uma série de questões preparadas e meto
dicamente dispostas. Eram sempre respondidas com precisão, profundeza
e lógica. A partir de então, as sessões assumiram caráter muito diverso.
Entre os assistentes contavam-se pessoas sérias, que tomaram por elas vivo
interesse e, se me acontecia faltar, ficavam sem saberem o que fazer. As
perguntas fúteis haviam perdido, para a maioria, todo atrativo. Eu, a prin
cípio, cuidara apenas de instruir-me; mais tarde, quando vi que aquilo
constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a ideia
de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente. Foram
aquelas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e completa
das, constituíram a base de O livro dos espíritos.
No ano seguinte, em 1856, frequentei ao mesmo tempo as reuniões
espíritas que se celebravam à Rua Tiquetone, em casa do Sr. Roustan e
Srta. Japhet, sonâmbula. Eram sérias essas reuniões e se realizavam com or
dem. As comunicações eram transmitidas por intermédio da Srta. Japhet,
médium, com auxílio da cesta de bico.
Estava concluído, em grande parte, o meu trabalho e tinha as pro
porções de um livro. Eu, porém, fazia questão de submetê-lo ao exame
de outros Espíritos, com o auxílio de diferentes médiuns. Lembrei-me de
fazer dele objeto de estudo nas reuniões do Sr. Roustan. Ao cabo de algu
mas sessões, disseram os Espíritos que preferiam revê-lo na intimidade e
marcaram para tal efeito certos dias nos quais eu trabalharia em particular
com a Srta. Japhet, a fim de fazê-lo com mais calma e também de evitar as
indiscrições e os comentários prematuros do público.
Não me contentei, entretanto, com essa verificação; os Espíritos
assim mo haviam recomendado. Tendo-me as circunstâncias posto em
relação com outros médiuns, sempre que se apresentava ocasião, eu a apro
veitava para propor algumas das questões que me pareciam mais espinho
sas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram concurso a esse trabalho.
Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas
e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a pri
meira edição de O livro dos espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril
de 1857.
Pelos fins desse mesmo ano, às duas Srtas. Baudin se casaram; as
reuniões cessaram e a família se dispersou. Mas, então, já as minhas rela
ções começavam a dilatar-se e os Espíritos me multiplicaram os meios de
instrução, tendo em vista meus ulteriores trabalhos.
11 de dezembro de 1855
(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Sra. Baudin)
Meu Espírito protetor
Pergunta (Ao Espírito Z) – No mundo dos Espíritos algum haverá
que seja para mim um bom gênio?
Resposta – Sim.
P. – Será o Espírito de algum parente, ou de algum amigo?
R. – Nem uma coisa, nem outra.
P. – Quem foi ele na Terra?
R. – Um homem justo de muita sabedoria.
P. – Que devo fazer, para lhe granjear a benevolência?
R. – Todo o bem possível.
P. – Por que sinais poderei reconhecer a sua intervenção?
R. – Pela satisfação que experimentarás.
P. – Terei algum meio de o invocar e qual esse meio?
R. – Ter fé viva e chamá-lo com instância.
P. – Reconhecê-lo-ei, depois da minha morte, no mundo dos
Espíritos?
R. – Sobre isso não pode haver dúvida; será ele quem virá receber-te
e felicitar-te, se houveres desempenhado bem a tua tarefa.
Nota – Vê-se, por estas perguntas, que eu era ainda muito noviço acerca das coisas
do Mundo Espiritual.
P. – O Espírito de minha mãe me vem visitar algumas vezes?
R. – Vem e te protege quanto lhe é possível.
P. – Vejo-a frequentemente em sonho. Será uma lembrança e um
efeito da minha imaginação?
R. – Não; é mesmo ela que te aparece; deves compreendê-lo pela
emoção que sentes.
Nota – Isto é perfeitamente exato. Quando minha mãe me aparecia em sonho,
eu experimentava uma emoção indescritível, o que o médium não podia saber.
P. – Quando, faz algum tempo, evocamos S. e lhe perguntamos se
poderia ser o gênio protetor de um de nós, ele respondeu: “Mostre-se um
de vós digno disso, e estarei com esse; Z. vo-lo dirá”. Julgas que eu poderei
merecer esse favor?
R. – Se o quiseres.
P. – Que me é necessário para isso?
R. – Fazer todo o bem que possas e suportar com coragem as penas
da vida.
P. – Pela natureza da minha inteligência, terei aptidão para penetrar,
tanto quanto ao homem for permitido fazê-lo, as grandes verdades acerca
do nosso destino futuro?
R. – Sim, tens a aptidão necessária, mas o resultado dependerá da tua
perseverança no trabalho.
P. – Poderei concorrer para a propagação dessas verdades?
R. – Sem dúvida.
P. – Por que meios?
R. – Sabê-lo-ás mais tarde; enquanto esperas, trabalha.
25 de março de 1856
(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)
Meu guia espiritual
Morava eu, por essa época, na Rua dos Mártires, no 8, no segundo
andar, ao fundo. Uma noite, estando no meu gabinete a trabalhar, pequenas
pancadas se fizeram ouvir na parede que me separava do aposento vizinho.
A princípio, nenhuma atenção lhes dei; como, porém, elas se repetissem
mais fortes, mudando de lugar, procedi a uma exploração minuciosa dos
dois lados da parede, escutei para verificar se provinham do outro pavimen
to e nada descobri. O que havia de singular era que, de cada vez que eu me
punha a investigar, o ruído cessava, para recomeçar logo que eu retomava o
trabalho. Minha mulher chegou da rua por volta das dez horas; veio ao meu
gabinete e, ouvindo as pancadas, me perguntou o que era. “Não sei”, res
pondi-lhe, “há uma hora que isto dura.” Investigamos juntos, sem melhor
êxito. O ruído continuou até a meia-noite, quando fui deitar-me.
No dia seguinte, como houvesse sessão em casa do Sr. Baudin, narrei
o fato e pedi que mo explicassem.
Pergunta – Ouvistes, sem dúvida, o relato que acabo de fazer; po
deríeis dizer-me qual a causa daquelas pancadas que se fizeram ouvir com
tanta persistência?
Resposta – Era o teu Espírito familiar.
P. – Com que fim foi ele bater daquele modo?
R. – Queria comunicar-se contigo.
P. – Poderíeis dizer-me quem é ele?
R. – Podes perguntar-lhe a ele mesmo, pois que está aqui.
Nota – Nessa época, ainda se não fazia distinção nenhuma entre as diversas cate
gorias de Espíritos simpáticos. Dava-se-lhes a todos a denominação de Espíritos
familiares.
P. – Meu Espírito familiar, quem quer que tu sejas, agradeço-te o me
teres vindo visitar. Consentirás em dizer-me quem és?
R. – Para ti, chamar-me-ei A Verdade e todos os meses, aqui, durante
um quarto de hora, estarei à tua disposição.
P. – Ontem, quando bateste, estando eu a trabalhar, tinhas alguma
coisa de particular a dizer-me?
R. – O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho a que te aplicavas;
desagradava-me o que escrevias e quis fazer que o abandonasses.
Nota – O que eu estava escrevendo dizia respeito, precisamente, aos estudos que
empreendera acerca dos Espíritos e de suas manifestações.
P. – A tua desaprovação era referente ao capítulo que eu escrevia ou
ao conjunto do trabalho?
R. – Ao de ontem; submeto-o ao teu juízo; se o releres, re
conhecerás tuas faltas e as corrigirás.
P. – Eu mesmo não me sentia satisfeito com esse capítulo e o refiz
hoje. Está melhor?
R. – Está melhor, mas ainda não satisfaz. Relê da 3a a 30a linha e com
um grave erro depararás.
P. – Rasguei o que escrevera ontem.
R. – Não importa! Isso não impediu que a falta continuasse. Relê e
verás.
P. – O nome Verdade, que adotaste, constitui uma alusão à verdade
que eu procuro?
R. – Talvez; pelo menos, é um guia que te protegerá e ajudará.
P. – Poderei evocar-te em minha casa?
R. – Sim, para te assistir pelo pensamento, mas, para respostas escri
tas em tua casa, só daqui a muito tempo poderás obtê-las.
Nota – Com efeito, durante cerca de um ano, nenhuma comunicação escrita
obtive em minha casa e sempre que ali se encontrava um médium, com quem eu
esperava conseguir qualquer coisa, uma circunstância imprevista a isso se opunha.
Somente fora de minha casa lograva eu receber comunicações.
P. – Poderias vir mais amiúde e não apenas de mês em mês?
R. – Sim, mas não prometo senão uma vez mensalmente, até nova ordem.
P. – Terás animado na Terra alguma personagem conhecida?
R. – Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer
discrição; nada mais saberás a respeito.
Nota – À noite, de regresso a casa, dei-me pressa em reler o que escrevera. Quer
no papel que eu lançara à cesta, quer em nova cópia que fizera, se me deparou, na
30a linha, um erro grave, que me espantei de haver cometido. Desde então, ne
nhuma outra manifestação do mesmo gênero das anteriores se produziu. Tendo-se
tornado desnecessárias, por se acharem estabelecidas as minhas relações com o
meu Espírito protetor, elas cessaram. O intervalo de um mês, que ele assinara para
suas comunicações, só raramente foi mantido, no princípio. Mais tarde, deixou
de o ser, em absoluto. Fora sem dúvida um aviso de que eu tinha de trabalhar por
mim mesmo e para não estar constantemente a recorrer ao seu auxílio diante da
menor dificuldade.
9 de abril de 1856
(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)
Pergunta (à Verdade) – Criticaste outro dia o trabalho que eu havia
feito e tiveste razão. Reli-o e encontrei na 30a linha um erro contra o qual
protestaste por meio das pancadas que me fizeste ouvir. Isso me levou a
descobrir outros defeitos e a refazer o trabalho. Estás agora satisfeito?
Resposta – Acho-o melhor, mas aconselho-te que esperes um mês
para divulgá-lo.
P. – Que queres dizer, falando em divulgá-lo? Não tenho, bem sabes,
a intenção de publicá-lo já, se é que o haja de publicar.
R. – Quero dizer: mostrá-lo a terceiros. Busca um pretexto para re
cusar isso aos que te pedirem para vê-lo. Daqui até lá melhorarás o tra
balho. Faço-te esta recomendação para te poupar à crítica; precato o teu
amor-próprio.
P. – Disseste que serás para mim um guia, que me ajudará e prote
gerá. Compreendo essa proteção e o seu objetivo, dentro de certa ordem
de coisas, mas poderias dizer-me se essa proteção também alcança as coisas
materiais da vida?
R. – Nesse mundo, a vida material é muito de ter-se em conta; não
te ajudar a viver seria não te amar.
Nota – A proteção desse Espírito, cuja superioridade eu então estava longe de ima
ginar, jamais, de fato, me faltou. A sua solicitude e a dos bons Espíritos que agiam
sob suas ordens, se manifestou em todas as circunstâncias da minha vida, quer a me
remover dificuldades materiais, quer a me facilitar a execução dos meus trabalhos,
quer, enfim, a me preservar dos efeitos da malignidade dos meus antagonistas, que
foram sempre reduzidos à impotência. Se as tribulações inerentes à missão que me
cumpria desempenhar não me puderam ser evitadas, foram sempre suavizadas e
largamente compensadas por muitas satisfações morais gratíssimas.
30 de abril de 1856
(Em casa do Sr. Roustan – Médium: Srta. Japhet)
Primeira revelação da minha missão
Eu assistia, desde algum tempo, às sessões que se realizavam em casa
do Sr. Roustan e começara aí a revisão do meu trabalho, que posterior
mente formaria O livro dos espíritos. (Veja-se a Introdução). Numa dessas
sessões, muito íntima, a que, apenas assistiam sete ou oito pessoas, falavam
estas de diferentes coisas relativas aos acontecimentos capazes de acarretar
uma transformação social, quando o médium, tomando da cesta, esponta
neamente escreveu isto:
“Quando o bordão soar, abandoná-lo-eis; apenas aliviareis o vosso
semelhante; individualmente o magnetizareis, a fim de curá-lo. Depois,
cada um no posto que lhe foi preparado, porque de tudo se fará mister,
pois que tudo será destruído, ao menos temporariamente. Deixará de ha
ver religião e uma se fará necessária, mas verdadeira, grande, bela e digna
do Criador... Seus primeiros alicerces já foram colocados... Quanto a ti,
Rivail, a tua missão é aí (Livre, a cesta se voltou rapidamente para o meu
lado, como o teria feito uma pessoa que me apontasse com o dedo). A ti,
M..., a espada que não fere, porém mata; contra tudo o que é, serás tu o
primeiro a vir. Ele, Rivail, virá em segundo lugar: é o obreiro que recons
trói o que foi demolido”.
Nota – Foi essa a primeira revelação positiva da minha missão e confesso que,
quando vi a cesta voltar-se bruscamente para o meu lado e designar-me nominati
vamente, não me pude forrar a certa emoção.
O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas,
envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar muito em evidência.
Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte
nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo.
7 de maio de 1856
(Em casa do Sr. Roustan – Médium: Srta. Japhet)
Minha missão
Pergunta (a Hahnemann) – Outro dia, disseram-me os Espíritos que
eu tinha uma importante missão a cumprir e me indicaram o seu objeto.
Desejaria saber se confirmas isso.
Resposta – Sim e, se observares as tuas aspirações e tendências e o ob
jeto quase constante das tuas meditações, não te surpreenderás com o que
te foi dito. Tens que cumprir aquilo com que sonhas desde longo tempo.
É preciso que nisso trabalhes ativamente, para estares pronto, pois mais
próximo do que pensas vem o dia.
P. – Para desempenhar essa missão tal como a concebo, são-me ne
cessários meios de execução que ainda não se acham ao meu alcance.
R. – Deixa que a Providência faça a sua obra e serás satisfeito.
Acontecimentos
Pergunta – A comunicação há dias dada faz presumir, ao que pare
ce, acontecimentos muito graves. Poderás dar-nos algumas explicações a
respeito?
Resposta – Não podemos precisar os fatos. O que podemos dizer é
que haverá muitas ruínas e desolações, pois são chegados os tempos predi
tos de uma renovação da Humanidade.
P. – Quem causará essas ruínas? Será um cataclismo?
R. – Nenhum cataclismo de ordem material haverá, como o enten
deis, mas flagelos de toda espécie assolarão as nações; a guerra dizimará os
povos; as instituições vetustas se abismarão em ondas de sangue. Faz-se
mister que o velho mundo se esboroe, para que uma nova era se abra ao
progresso.
P. – A guerra não se circunscreverá então a uma região?
R. – Não, abrangerá a Terra.
P. – Nada, entretanto, neste momento, parece pressagiar uma tem
pestade próxima.
R. – As coisas estão por fio de teia de aranha, meio partido.
P. – Poder-se-á, sem indiscrição, perguntar donde partirá a primeira
centelha?
R. – Da Itália.
12 de maio de 1856
(Sessão pessoal em casa do Sr. Baudin)
Acontecimentos
Pergunta (à Verdade) – Que pensas de M...? É homem que venha a
influir nos acontecimentos?
Resposta – Muito ruído. Ele tem boas ideias; é homem de ação, mas
não é uma cabeça.
P. – Dever-se-á tomar ao pé da letra o que foi dito, isto é, que lhe
cabe o papel de destruir o que existe?
R. – Não; pretendeu-se apenas personificar nele o partido cujas
ideias ele representa.
P. – Posso manter com ele relações de amizade?
R. – Por enquanto, não; correrias perigos inúteis.
P. – Dispondo de um médium, diz M... que lhe determinaram a
marcha dos acontecimentos, para, por assim dizer, uma data fixa. Será
verdade?
R. – Sim, determinaram-lhe épocas, mas foram Espíritos levianos
que lhe responderam, Espíritos que não sabem mais do que ele e que lhe
exploram a exaltação. Sabes que não devemos precisar as coisas futuras. Os
acontecimentos pressentidos certamente se darão em tempo próximo, mas
que não pode ser determinado.
P. – Disseram os Espíritos que os tempos são chegados em que tais
coisas têm de acontecer: em que sentido se devem tomar essas palavras?
R. – Tratando-se de coisas de tanta gravidade, que são alguns anos
a mais ou a menos? Elas nunca ocorrem bruscamente, como o chispar de
um raio; são longamente preparadas por acontecimentos parciais que lhes
servem como que de precursores, quais os rumores surdos que precedem
a erupção de um vulcão. Pode-se, pois, dizer que os tempos são chegados,
sem que isso signifique que as coisas sucederão amanhã. Significa unica
mente que vos achais no período em que se verificarão.
P. – Confirmas o que foi dito, isto é, que não haverá cataclismos?
R. – Sem dúvida, não tendes que temer nem um dilúvio, nem o
abrasamento do vosso planeta, nem outros fatos desse gênero, porquan
to não se pode denominar cataclismos a perturbações locais que se têm
produzido em todas as épocas. Apenas haverá um cataclismo de natureza
moral, de que os homens serão os instrumentos.
10 de junho de 1856
(Em casa do Sr. Roustan – Médium: Srta. Japhet)
O livro dos espíritos
Pergunta (a Hahnemann) – Pois que dentro em breve teremos acaba
do a primeira parte do livro, lembrei-me de que, para andarmos mais de
pressa, eu poderia pedir a B... que me ajudasse, como médium; que achas?
Resposta – Acho que será melhor não te servires dele. — Por quê? —
Porque a verdade não pode ser interpretada pela mentira.
P. – Mesmo que o Espírito familiar de B... seja afeito à mentira, isso
não obstaria a que um bom Espírito se comunicasse pelo médium, desde
que se não evocasse outro Espírito.
R. – Sim, mas aqui o médium secunda o Espírito e, quando o Es
pírito é velhaco, ele se presta a auxiliá-lo. Aristo, seu intérprete, e B...
acabarão mal.
Nota – B..., bem moço, era um médium escrevente muito maleável, mas assis
tido por um Espírito muito orgulhoso e arrogante, que dava o nome de Aristo
e que lhe lisonjeava o amor-próprio. As previsões de Hahnemann se realizaram.
O moço, julgando ter na sua faculdade um meio de enriquecer, já atendendo
a consultas médicas, já realizando inventos e descobertas produtivas, somente
colheu decepções e mistificações. Passado algum tempo, ninguém mais ouviu
falar dele.
12 de junho de 1856
(Em casa do Sr. C... – Médium: Srta. Aline C...)
Minha missão
Pergunta (à Verdade) – Bom Espírito, eu desejara saber o que pensas
da missão que alguns Espíritos me assinaram. Dize-me, peço-te, se é uma
prova para o meu amor-próprio. Tenho, como sabes, o maior desejo de
contribuir para a propagação da verdade, mas, do papel de simples traba
lhador ao de missionário em chefe, a distância é grande e não percebo o
que possa justificar em mim graça tal, de preferência a tantos outros que
possuem talento e qualidades de que não disponho.
Resposta – Confirmo o que te foi dito, mas recomendo-te muita dis
crição, se quiseres sair-te bem. Tomarás mais tarde conhecimento de coisas
que te explicarão o que ora te surpreende. Não esqueças que podes triun
far, como podes falir. Neste último caso, outro te substituiria, porquanto
os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um homem. Nunca, pois,
fales da tua missão; seria a maneira de a fazeres malograr-se. Ela somente
pode justificar-se pela obra realizada e tu ainda nada fizeste. Se a cumprires,
os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou tarde, visto que pelos frutos é
que se verifica a qualidade da árvore.
P. – Nenhum desejo tenho certamente de me vangloriar de uma mis
são na qual dificilmente creio. Se estou destinado a servir de instrumento
aos desígnios da Providência, que ela disponha de mim. Nesse caso, recla
mo a tua assistência e a dos bons Espíritos, no sentido de me ajudarem e
ampararem na minha tarefa.
R. – A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de teu lado,
não fizeres o que for necessário. Tens o teu livre-arbítrio, do qual podes
usar como o entenderes. Nenhum homem é constrangido a fazer coisa
alguma.
P. – Que causas poderiam determinar o meu malogro? Seria a insu
ficiência das minhas capacidades?
R. – Não, mas a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e
perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e
transformar o mundo inteiro. Não suponhas que te baste publicar um
livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranquilamente
em casa. Tens que expor a tua pessoa. Suscitarás contra ti ódios terrí
veis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a
braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos
que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão
desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso
da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua,
com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até
da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo. Ora bem! não
poucos recuam quando, em vez de uma estrada florida, só veem sob
os passos urzes, pedras agudas e serpentes. Para tais missões, não bas
ta a inteligência. Faz-se mister, primeiramente, para agradar a Deus,
humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos,
os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens, são in
dispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são
de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo
conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas
intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposi
ção a todos os sacrifícios.
Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que de
pendem de ti.
espíRito veRdade
Eu – Espírito Verdade, agradeço os teus sábios conselhos. Aceito
tudo, sem restrição e sem ideia preconcebida.
Senhor! pois que te dignaste lançar os olhos sobre mim para cum
primento dos teus desígnios, faça-se a tua vontade! Está nas tuas mãos a
minha vida; dispõe do teu servo. Reconheço a minha fraqueza diante de
tão grande tarefa; a minha boa vontade não desfalecerá, as forças, porém,
talvez me traiam. Supre à minha deficiência; dá-me as forças físicas e mo
rais que me forem necessárias. Ampara-me nos momentos difíceis e, com o
teu auxílio e dos teus celestes mensageiros, tudo envidarei para correspon
der aos teus desígnios.
Nota – Escrevo esta nota a 1o de janeiro de 1867, dez anos e meio depois
que me foi dada a comunicação acima e atesto que ela se realizou em todos os
pontos, pois experimentei todas as vicissitudes que me foram preditas. Andei
em luta com o ódio de inimigos encarniçados, com a injúria, a calúnia, a in
veja e o ciúme; libelos infames se publicaram contra mim; as minhas melhores
instruções foram falseadas; traíram-me aqueles em quem eu mais confiança
depositava, pagaram-me com a ingratidão aqueles a quem prestei serviços. A
Sociedade de Paris se constituiu foco de contínuas intrigas urdidas contra mim
por aqueles mesmos que se declaravam a meu favor e que, de boa fisionomia
na minha presença, pelas costas me golpeavam. Disseram que os que se me
conservavam fiéis estavam à minha soldada e que eu lhes pagava com o dinheiro
que ganhava do Espiritismo. Nunca mais me foi dado saber o que é o repouso;
mais de uma vez sucumbi ao excesso de trabalho, tive abalada a saúde e com
prometida a existência.
Graças, porém, à proteção e assistência dos bons Espíritos que incessantemente
me deram manifestas provas de solicitude, tenho a ventura de reconhecer que
nunca senti o menor desfalecimento ou desânimo e que prossegui, sempre com o
mesmo ardor, no desempenho da minha tarefa, sem me preocupar com a maldade
de que era objeto. Segundo a comunicação do Espírito Verdade, eu tinha de con
tar com tudo isso e tudo se verificou.
Mas também, a par dessas vicissitudes, que de satisfações experimentei, vendo a
obra crescer de maneira tão prodigiosa! Com que compensações deliciosas foram
pagas as minhas tribulações! Que de bênçãos e de provas de real simpatia recebi
da parte de muitos aflitos a quem a Doutrina consolou! Este resultado não mo
anunciou o Espírito Verdade que, sem dúvida intencionalmente, apenas me mos
trara as dificuldades do caminho. Qual não seria, pois, a minha ingratidão, se me
queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal, não esta
ria com a verdade, porquanto o bem, refiro-me às satisfações morais, sobreleva
ram de muito o mal. Quando me sobrevinha uma decepção, uma contrariedade
qualquer, eu me elevava pelo pensamento acima da Humanidade e me colocava
antecipadamente na região dos Espíritos e desse ponto culminante, donde divi
sava o da minha chegada, as misérias da vida deslizavam por sobre mim sem me
atingirem. Tão habitual se me tornara esse modo de proceder, que os gritos dos
maus jamais me perturbaram.
17 de junho de 1856
(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)
O livro dos espíritos
Pergunta (à Verdade) – Uma parte da obra foi revista, quererás ter a
bondade de dizer o que dela pensas?
Resposta – O que foi revisto está bem, mas, quando a obra estiver
acabada, deverás tornar a revê-la, a fim de ampliá-la em certos pontos e
abreviá-la noutros.
P. – Entendes que deva ser publicada antes que os acontecimentos
preditos se tenham realizado?
R. – Uma parte, sim; tudo não, pois, afirmo-te, vamos ter capítulos
muito espinhosos. Por muito importante que seja esse primeiro trabalho,
ele não é, de certo modo, mais do que uma introdução. Assumirá proporções
que longe estás agora de suspeitar. Tu mesmo compreenderás que certas
partes só muito mais tarde e gradualmente poderão ser dadas a lume, à
medida que as novas ideias se desenvolverem e enraizarem. Dar tudo de
uma vez fora imprudente. Importa dar tempo a que a opinião se forme.
Toparás com alguns impacientes que procurarão empurrar-te para diante:
não lhes dês ouvidos. Vê, observa, sonda o terreno, dispõe-te a esperar e
faze como o general cauteloso que não ataca, senão quando chega o mo
mento favorável.
Nota (Escrita em janeiro de 1867) – Na época em que essa comunicação foi
dada, eu apenas tinha em vista O livro dos espíritos e longe estava, como disse
o Espírito, de imaginar as proporções que tomaria o conjunto do trabalho. Os
acontecimentos preditos só decorridos muitos anos teriam de verificar-se, tanto
que neste momento ainda não se deram. As obras que até agora apareceram foram
publicadas sucessivamente e eu fui induzido a elaborá-las, à medida que as novas
ideias se desenvolveram. Das que restam por fazer, a mais importante, a que se
poderá considerar a cúpula do edifício e que, com efeito, encerra os capítulos mais
espinhosos, não poderia ser publicada, sem prejuízo, antes do período dos desas
tres. Eu, então, um único livro via e não compreendia que esse pudesse cindir-se,
enquanto o Espírito aludia aos que teriam de seguir-se e cuja publicação prematu
ra apresentaria inconvenientes.
“Dispõe-te a esperar”, disse o Espírito; “não dês ouvidos aos impacientes que pro
curem empurrar-te para diante.” Os impacientes não faltaram e, se eu os escutara,
teria atirado o navio em cheio nos arrecifes. Coisa estranha! ao passo que uns me
incitavam a andar mais depressa, outros me acusavam de não ir tão devagar quan
to devia. Não dei ouvidos nem a uns, nem a outros, tomando sempre por bússola
a marcha das ideias.
De que confiança no futuro não me enchia eu, à proporção que via realizar-se o
que fora predito e que comprovava a profundeza e a sabedoria das instruções dos
meus protetores invisíveis!
11 de setembro de 1856
(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)
O livro dos espíritos
Depois de haver eu procedido à leitura de alguns capítulos de O
livro dos espíritos, concernentes às leis morais, o médium espontaneamente
escreveu:
“Compreendeste bem o objetivo do teu trabalho. O plano está bem
concebido. Estamos satisfeitos contigo. Continua, mas lembra-te, sobre
tudo quando a obra se achar concluída, de que te recomendamos que a
mandes imprimir e propagar. É de utilidade geral. Estamos satisfeitos e
nunca te abandonaremos. Crê em Deus e avante.”
muitos espíRitos
6 de maio de 1857
(Em casa da Sra. De Cardonne)
A tiara espiritual
Eu tivera ocasião de conhecer a Sra. de Cardonne nas sessões do Sr.
Roustan. Alguém me disse, creio que foi o Sr. Carlotti, que ela possuía
notável talento para ler nas mãos. Nunca acreditei que as linhas da mão
tenham uma significação qualquer, mas sempre acreditei que, para cer
tas pessoas dotadas de uma espécie de segunda vista, podia isso constituir
meio de estabelecerem uma relação que lhes permitisse, como aos sonâm
bulos, dizer algumas vezes coisas verdadeiras. Os sinais da mão nada mais
são, nesse caso, do que um pretexto, um meio de fixar a atenção, de de
senvolver a lucidez, como o são as cartas, a borra de café, os espelhos ditos
mágicos, para os indivíduos que dispõem dessa faculdade. A experiência
me confirmou de novo a justeza dessa opinião. Seja como for, aquela se
nhora, tendo-me convidado a ir visitá-la, acedi ao seu convite e eis aqui um
resumo do que ela me disse:
“Nascestes com grande abundância de recursos e de meios intelec
tuais... extraordinária força de raciocínio... Formou-se o vosso gosto; go
vernado pela cabeça, moderais a inspiração pelo raciocínio; subordinas o
instinto, a paixão, a intuição ao método, à teoria. Tivestes sempre pendor
para as ciências morais... Amor da verdade absoluta... Amor da Arte definida.
Tem número, medida e cadência o vosso estilo, mas, por vezes, tro
caríeis um pouco da sua precisão por uma certa poesia.
Como filósofo idealista, estivestes sujeito à opinião de outrem; como
filósofo crente, experimentais agora a necessidade de formar seita.
Benevolência judiciosa; necessidade imperiosa de aliviar, de socorrer,
de consolar; necessidade de independência.
Muito demoradamente vos corrigis da subitânea impulsão do vosso
humor.
Éreis singularmente apto para a missão que vos está confiada, por
quanto o vosso feitio é mais para vos tornardes o centro de imensos de
senvolvimentos do que capaz de trabalhos insulados... Vossos olhos têm o
olhar do pensamento.
Vejo aqui o sinal da tiara espiritual... É bem pronunciado... Vede”
(Olhei e nada vi de particular).
“Que entendeis”, perguntei-lhe, “por tiara espiritual? Querereis di
zer que serei papa? Se tal houvesse de acontecer, não seria decerto nesta
existência.”
Resposta – Deveis notar que eu disse tiara espiritual, o que significa:
autoridade moral e religiosa, e não soberania efetiva.
Reproduzi pura e simplesmente as palavras daquela senhora, por ela
mesma transcritas. Não me compete julgar se são exatas sobre todos os
pontos. Algumas, reconheço-as verdadeiras, porque estão de acordo com o
meu caráter e com as disposições do meu espírito.
Há, porém, uma passagem evidentemente errônea, a em que ela diz,
a propósito do meu estilo, que eu às vezes trocaria algo da minha precisão
por um pouco de poesia. Nenhum instinto poético existe em mim; o que
procuro, acima de tudo, o que me agrada, o que aprecio nos outros é a
clareza, a limpidez, a precisão e, longe de sacrificar esta à poesia, o que se
me poderia reprochar fora o sacrificar o sentimento poético à sequidão da
forma positiva. Preferi sempre o que fala à inteligência ao que apenas fala
à imaginação.
Quanto à tiara espiritual, O livro dos espíritos acabava de aparecer; a
Doutrina estava em seus primórdios e não podia ainda prejulgar dos resul
tados que ulteriormente daria. Nenhuma importância, pois, liguei a essa
revelação e me limitei a anotá-la a título informativo.
No ano seguinte a Sra. de Cardonne deixou Paris e não tornei a
vê-la, senão oito anos depois, em 1866, quando as coisas já tinham cami
nhado bastante. Disse-me ela:
— Lembra-se da minha predição acerca da tiara espiritual? Aí a tem
realizada.
— Como realizada? Que eu o saiba, não me acho no trono de Pedro.
— Não, decerto, mas também não foi isso o que lhe anunciei. O
senhor não é, de fato, o chefe da Doutrina, reconhecido pelos espíritas
do mundo inteiro? Não são os seus escritos que fazem lei? Não se contam
por milhões os seus correligionários? Em matéria de Espiritismo, haverá
alguém cujo nome tenha mais autoridade do que o seu? Os títulos de sumo
sacerdote, de pontífice, mesmo de papa, não lhe são dados espontanea
mente? São-no, sobretudo, pelos seus adversários e por ironia, bem o sei,
mas nem por isso o fato deixa de indicar de que gênero é a influência que
eles lhe reconhecem, porque pressentem qual o papel que lhe cabe. Assim,
esses títulos lhe ficarão.
Em suma, o senhor conquistou, sem a buscar, uma posição moral
que ninguém lhe pode tirar, dado que, sejam quais forem os trabalhos que
se elaborem depois dos seus, ou concomitantemente com eles, o senhor
será sempre o proclamado fundador da Doutrina. Logo, em realidade, está
com a tiara espiritual, isto é, com a supremacia moral. Reconheça, portan
to, que eu disse a verdade.
Acredita agora, mais um pouco, nos sinais das mãos?” — Menos que
nunca e estou convencido de que, se a senhora viu alguma coisa, não foi na
minha mão, mas no seu próprio espírito e vou prová-lo.
Admito que nas mãos, como nos pés, nos braços e nas outras partes
do corpo, existem certos sinais fisiognomônicos, mas cada órgão apresenta
sinais particulares, conforme o uso a que é sujeito e conforme as suas rela
ções com o pensamento. Os sinais das mãos não podem ser os mesmos que
os dos pés, dos braços, da boca, dos olhos etc.
Quanto ao pregueado da palma das mãos, a maior ou menor acen
tuação que apresentam resulta da natureza da pele e da maior ou menor
quantidade de tecido celular. Como essas partes em nenhuma correlação
fisiológica estão com os órgãos das faculdades intelectuais e morais, não
podem ser a expressão dessas faculdades. Mesmo admitindo-se que haja
essa correlação, elas poderiam fornecer indicações sobre o estado atual do
indivíduo, mas não poderiam constituir sinais de presságios de coisas fu
turas, nem de acontecimentos passados e independentes da vontade do
mesmo indivíduo. Na primeira hipótese, eu, a rigor, compreenderia que,
com o auxílio de tais lineamentos, se pudesse dizer que uma pessoa possui
esta ou aquela aptidão, este ou aquele pendor; o mais vulgar bom senso,
porém, repeliria a ideia de que se possa ver ali se ela foi casada ou não,
quantas vezes e o número de filhos que teve, se é viúva ou não, e outras
coisas semelhantes, como o pretende a maioria dos quiromantes.
Entre as linhas das mãos, há uma que toda gente conhece e que re
presenta bem um M. Se é bastante acentuada, pressagia, dizem, uma vida
infeliz (malheureuse); porém, a palavra malheur (infelicidade) é francesa
e ninguém se lembra de que, nas outras línguas, a palavra que a essa cor
responde não começa pela mesma letra, donde se segue que a linha em
questão deveria apresentar formas diferentes, de acordo com as línguas
dos povos.
Quanto à tiara espiritual, é, evidentemente, uma coisa especial,
excepcional e, até certo ponto, individual e eu estou convencido de que
a senhora não encontrou essa expressão no vocabulário de nenhum tra
tado de quiromancia. Como então lhe veio ela à mente? Pela intuição,
pela inspiração, por essa espécie de presciência peculiar à dupla vista de
que muitas pessoas são dotadas sem o suspeitarem. Sua atenção estava
concentrada nos lineamentos da mão, a senhora fixou o pensamento
num sinal em que outra pessoa teria visto coisa muito diversa, ou a
que a senhora mesmo atribuiria significação diferente, se se tratasse de
outro indivíduo.
17 de janeiro de 1857
(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)
Primeira notícia de uma nova encarnação
O Espírito prometera escrever-me uma carta por ocasião da entrada
do ano. Tinha, dizia, qualquer coisa de particular a me dizer. Havendo-lha
eu pedido numa das reuniões ordinárias, respondeu que a daria na intimi
dade ao médium, para que este ma transmitisse. É esta a carta:
“Caro amigo, não te quis escrever terça-feira última diante de toda a
gente, porque há certas coisas que só particularmente se podem dizer.
Eu queria, primeiramente, falar-te da tua obra, a que mandaste im
primir (O livro dos espíritos entrara para o prelo). Não te afadigues tanto, da
manhã à noite; passarás melhor e a obra nada perderá por esperar.
Segundo o que vejo, és muito capaz de levar a bom termo a tua em
presa e tens que fazer grandes coisas. Nada, porém, de exagero em coisa al
guma. Observa e aprecia tudo judiciosa e friamente. Não te deixes arrastar
pelos entusiastas, nem pelos muito apressados. Mede todos os teus passos,
a fim de chegares ao fim com segurança. Não creias em mais do que aquilo
que vejas; não desvies a atenção de tudo o que te pareça incompreensível;
virás a saber a respeito mais do que qualquer outro, porque os assuntos de
estudo serão postos sob as tuas vistas.
Mas ah! a verdade não será conhecida de todos, nem crida, senão
daqui a muito tempo! Nessa existência não verás mais do que a aurora do
êxito da tua obra. Terás que voltar, reencarnado noutro corpo, para comple
tar o que houveres começado e, então, dada te será a satisfação de ver em
plena frutificação a semente que houveres espalhado pela Terra.
Surgirão invejosos e ciosos que procurarão infamar-te e fazer-te opo
sição: não desanimes; não te preocupes com o que digam ou façam contra
ti; prossegue em tua obra; trabalha sempre pelo progresso da Humanidade,
que serás amparado pelos bons Espíritos, enquanto perseverares no bom
caminho.
Lembras-te de que, há um ano, prometi a minha amizade aos que,
durante o ano, tivessem tido um proceder sempre correto? Pois bem! de
claro que és um dos que escolhi entre todos.
Teu amigo que te quer e protege.”
Z.
Nota – Já tive ocasião de dizer que Z. não era um Espírito superior, porém muito
bom e muito benfazejo. Talvez fosse mais adiantado do que o deixava supor o nome
que tomara. Legitimavam essa suposição o caráter sério e a sabedoria de suas comu
nicações, conforme as circunstâncias. Sob a capa daquele nome, ele se permitia usar
de uma linguagem familiar apropriada ao meio onde se manifestava e dizer, como
frequentemente sucedia, duras verdades, sob a forma leve do epigrama. Como quer
que seja, dele guardei sempre grata recordação e muito reconhecimento pelas boas
advertências que sempre me deu e pelo devotamento que me testemunhou. Desa
pareceu com a dispersão da família Baudin, dizendo que em breve reencarnaria.
15 de novembro de 1857
(Em casa do Sr. Dufaux – Médium: Sra. E. Dufaux)
A Revista Espírita
Pergunta – Tenho a intenção de publicar um jornal espírita: julgais
que o conseguirei e me aconselhais a fazê-lo? A pessoa a quem me dirigi,
Sr. Tiedman, não parece resolvida a me prestar o seu concurso pecuniário.
Resposta – Consegui-lo-ás, com perseverança. A ideia é boa; preciso
se faz, porém, deixá-la amadurecer mais.
P. – Temo que outros me tomem a dianteira.
R. – Importa andar depressa.
P. – Não quero outra coisa, mas falta-me tempo. Tenho dois empre
gos que me são necessários, como o sabeis. Desejara renunciar a eles, a fim
de me consagrar inteiramente à minha tarefa, sem outras preocupações.
R. – Por enquanto, não deves abandonar coisa alguma; há sempre
tempo para tudo; move-te e conseguirás.
P. – Devo agir sem o concurso do Sr. Tiedman?
R. – Age com ou sem o seu concurso; não te consumas por sua causa.
Podes prescindir dele.
P. – Eu pretendia publicar um primeiro número como ensaio, a fim
de lançar o jornal e marcar data, e continuar mais tarde, se for possível.
Que vos parece?
R. – A ideia é boa, mas um só número não bastará; entretanto, é conve
niente, e mesmo necessário, para abrir caminho. Será preciso que lhe dispenses
muito cuidado, a fim de assentares as bases de um bom êxito durável. A apre
sentá-lo defeituoso, melhor será nada fazer, porquanto a primeira impressão
pode decidir do seu futuro. De começo, deves cuidar de satisfazer à curiosi
dade; reunir o sério ao agradável: o sério para atrair os homens de Ciência, o
agradável para deleitar o vulgo. Esta parte é essencial, porém a outra é mais
importante, visto que sem ela o jornal careceria de fundamento sólido. Em
suma, é preciso evitar a monotonia por meio da variedade, congregar a instru
ção sólida ao interesse que, para os trabalhos ulteriores, será poderoso auxiliar.
Nota – Apressei-me a redigir o primeiro número e fi-lo circular a 1o de janeiro de 1858,
sem haver dito nada a quem quer que fosse. Não tinha um único assinante e nenhum
fornecedor de fundos. Publiquei-o correndo eu, exclusivamente, todos os riscos e não
tive de que me arrepender, porquanto o resultado ultrapassou a minha expectativa. A
partir daquela data, os números se sucederam sem interrupção e, como previa o Espíri
to, esse jornal se tornou um poderoso auxiliar meu. Reconheci mais tarde que fora para
mim uma felicidade não ter tido quem me fornecesse fundos, pois assim me conservara
mais livre, ao passo que outro interessado houvera querido talvez impor-me suas ideias e
sua vontade e criar-me embaraços. Sozinho, eu não tinha que prestar contas a ninguém,
embora, pelo que respeitava ao trabalho, me fosse pesada a tarefa.
1o de abril de 1858
Fundação da Sociedade Espírita de Paris
Se bem não haja aqui nenhum caso de previsão, menciono, para
conservá-lo em lembrança, o da fundação da Sociedade, por motivo do
papel que ela representou na marcha do Espiritismo e das comunicações a
que deu lugar.
Havia cerca de seis meses, eu realizava, em minha casa, à Rua dos
Mártires, uma reunião com alguns adeptos, às terças-feiras. A Srta. E.
Dufaux era a médium principal. Conquanto o local não comportasse mais
de 15 ou 20 pessoas, até 30 lá se juntavam às vezes. Apresentavam grande
interesse tais reuniões, pelo caráter sério de que se revestiam e pelas ques
tões que ali se tratavam. Lá não raro compareciam príncipes estrangeiros e
outras personagens de alta distinção.
Nada cômoda pela sua disposição, a sala onde nos reuníamos se tor
nou em breve muito acanhada. Alguns dos frequentadores deliberaram co
tizar-se para alugar uma que mais conviesse. Então, fazia-se necessária uma
autorização legal, a fim de se evitar que a autoridade nos fosse perturbar. O
Sr. Dufaux, que se dava pessoalmente com o prefeito de Polícia, encarre
gou-se de tratar do caso. A autorização também dependia do Ministro do
Interior. Coube então ao general X..., que era, sem que ninguém o soubes
se, simpático às nossas ideias, embora sem as conhecer inteiramente, obter
a autorização. Esta, graças à sua influência, pôde ser concedida em quinze
dias, quando, de ordinário, leva três meses para ser dada.
A Sociedade ficou, em consequência, legalmente constituída e
passamos a reunir-nos todas as terças-feiras no compartimento que ela
alugara, no Palais Royal, galeria de Valois. Aí esteve um ano, de 1o de
abril de 1858 a 1o de abril de 1859. Não tendo permanecido lá por mais
tempo, entrou a reunir-se às sextas-feiras num dos salões do restaurante
Douix, no mesmo Palais Royal, galeria Montpensier, de 1o de abril de
1859 a 1o de abril de 1860, época em que se instalou num local seu, à
rua e passagem Sant’Ana, 59.
Formada a princípio de elementos pouco homogêneos e de pessoas de boa vontade, que eram aceitas com facilidade um tanto excessiva, a Sociedade se viu sujeita a muitas vicissitudes, que não foram dos menores percalços da minha tarefa.
24 de janeiro de 1860
(Em casa do Sr. Forbes – Médium: Sra. Forbes)
Duração dos meus trabalhos
Segundo a minha maneira de apreciar as coisas, calculava eu que
ainda me faltavam cerca de dez anos para conclusão dos meus trabalhos,
mas a ninguém falara disso. Achei-me, pois, muito surpreendido, ao rece
ber de um dos meus correspondentes de Limoges uma comunicação dada
espontaneamente, em que o Espírito, falando de meus trabalhos, dizia que
dez anos se passariam antes que eu os terminasse.
Pergunta (à Verdade) – Como é que um Espírito, comunicando-se
em Limoges, onde nunca fui, pôde dizer precisamente o que eu pensava
acerca da duração dos meus trabalhos?
Resposta – Nós sabemos o que te resta a fazer e, por conseguinte, o
tempo aproximado de que precisas para acabar a tua tarefa. É, portanto,
muito natural que alguns Espíritos o tenham dito em Limoges e algures,
para darem uma ideia da amplitude da coisa, pelo trabalho que exige.
Entretanto, não é absoluto o prazo de dez anos; pode ser prolongado
por alguns mais, em virtude de circunstâncias imprevistas e independentes
da tua vontade.
Nota (Escrita em dezembro de 1866) – Tenho publicado quatro volumes subs
tanciosos, sem falar de coisas acessórias. Os Espíritos instam para que eu publique
A gênese em 1867, antes das perturbações. Durante o período da grande pertur
bação terei de trabalhar nos livros complementares da Doutrina, que não poderão
aparecer senão depois da forte tormenta e para os quais me são precisos de três a
quatro anos. Isso nos leva, o mais cedo, a 1870, isto é, cerca de 10 anos.
28 de janeiro de 1860
(Em casa do Sr. Solichon – Médium: Srta. Solichon)
Acontecimentos. Papado
Pergunta (ao Espírito Ch.) – Foste embaixador em Roma e a esse tem
po predisseste a queda do governo papal. Que pensas hoje a esse respeito?
Resposta – Creio que se aproxima o tempo em que a minha profecia
se cumprirá, porém, não sem grandes dores. Tudo se complica; exacerbam--se as paixões e uma coisa que se poderia fazer sem comoção, empolgou a
todos, e de tal maneira que a cristandade inteira será abalada.
P. – Consentirias em dar-nos a tua opinião sobre o poder temporal
do Papa?
R. – Penso que o poder temporal do Papa não é necessário à sua
grandeza, nem ao seu poder moral; ao contrário, quanto menos súditos ele
contar, mais venerado será. Aquele que é o representante de Deus na Terra
está colocado muito alto para não precisar do realce do poder terreno. Di
rigir a Terra espiritualmente, tal a missão do pai dos cristãos.
P. – Achas que o Papa e o Sacro Colégio, mais bem esclarecidos, fa
rão tudo por evitar o cisma e a guerra intestina, embora seja apenas moral?
R. – Não o creio; todos esses homens são obstinados, ignorantes,
habituados a todos os gozos profanos; necessitam de dinheiro para satis
fazê-los e recearão que a nova ordem de coisas não permita que o ganhem
suficientemente. Por isso levam tudo ao extremo, pouco se incomodando
com o que venha a acontecer, por demasiadamente cegos para compreen
derem as consequências da sua maneira de proceder.
P. – Nesse conflito não será de temer-se que a infeliz Itália sucumba
e seja posta sob o cetro da Áustria?
R. – Não, é impossível. A Itália sairá vitoriosa da luta e a liberdade
raiará para essa terra gloriosa. Ela nos salvou da barbárie, foi nossa mestra
em tudo o que a inteligência tem de mais nobre e de mais elevado. Não
recairá absolutamente sob o jugo dos que a rebaixaram.
12 de abril de 1860
(Em casa do Sr. Dehau – Médium: Sr. Crozet)
(Comunicação espontânea obtida na minha ausência)
Minha missão
Pela sua firmeza e perseverança, o vosso Presidente desmanchou os
projetos dos que procuravam destruir-lhe o crédito e arruinar a Sociedade,
na esperança de desfecharem na Doutrina um golpe fatal. Honra lhe seja!
Fique ele certo de que estamos a seu lado e que os Espíritos de sabedoria se
sentirão felizes por poderem assisti-lo em sua missão. Quantos desejariam
desempenhar a sombra dessa missão, para receberem a sombra dos benefí
cios que decorrem dela!
Ela, porém, é perigosa e, para cumpri-la, são necessárias uma fé e
uma vontade inabaláveis, assim como abnegação e coragem para afrontar
as injúrias, os sarcasmos, as decepções e não se alterar com a lama que a in
veja e a calúnia atirem. Nessa posição, o menos que pode acontecer a quem
a ocupa é ser tratado de louco e de charlatão. Deixai que falem, deixai que
pensem livremente: tudo, exceto a felicidade eterna, dura pouco. Tudo vos
será levado em conta e ficai sabendo que, para ser-se feliz, é preciso que se
haja contribuído para a felicidade dos pobres seres de que Deus povoou
a vossa terra. Permaneça, pois, tranquila e serena a vossa consciência: é o
precursor da felicidade celeste.
15 de abril de 1860
(Marselha – Médium: Sr. Georges Genouillat)
(Comunicação transmitida pelo Sr. Brion Dorgeval)
Futuro do Espiritismo
O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra.
Ele reformará a legislação ainda tão frequentemente contrária às Leis di
vinas; retificará os erros da História; restaurará a religião do Cristo, que se
tornou, nas mãos dos padres, objeto de comércio e de tráfico vil; instituirá
a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai dire
tamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus
de um altar. Extinguirá para sempre o ateísmo e o materialismo, aos quais
alguns homens foram levados pelos incessantes abusos dos que se dizem
ministros de Deus, pregam a caridade com uma espada em cada mão,
sacrificam às suas ambições e ao espírito de dominação os mais sagrados
direitos da Humanidade.
um espíRito
10 de junho de 1860
(Em minha casa; médium: Sra. Schmidt)
Minha volta
Pergunta (à Verdade) – Acabo de receber de Marselha uma carta em
que se me diz que, no seminário dessa cidade, estão estudando seriamente
o Espiritismo e O livro dos espíritos. Que se deve augurar desse fato? Será
que o clero toma a coisa a peito?
Resposta – Não podes duvidar disso. Ele a toma muito a peito, porque
lhe prevê as consequências e grandes são as suas apreensões. Principalmente
a parte esclarecida do clero estuda o Espiritismo mais do que o supões; não
creias, porém, que seja por simpatia; ao contrário, é à procura de meios para
combatê-lo e eu te asseguro que rude será a guerra que lhe fará. Não te inco
modes; continua a obrar com prudência e circunspeção; tem-te em guarda
contra as ciladas que te armarão; evita cuidadosamente em tuas palavras e
nos teus escritos tudo o que possa fornecer armas contra ti.
Prossegue em teu caminho sem temor; ele está juncado de espinhos,
mas eu te afirmo que terás grandes satisfações, antes de voltares para junto
de nós “por um pouco”.
P. – Que queres dizer por essas palavras: “por um pouco”?
R. – Não permanecerás longo tempo entre nós. Terás que volver à
Terra para concluir a tua missão, que não podes terminar nesta existência.
Se fosse possível, absolutamente não sairias daí, mas é preciso que se cum
pra a Lei da Natureza. Ausentar-te-ás por alguns anos e, quando voltares,
será em condições que te permitam trabalhar desde cedo. Entretanto, há
trabalhos que convém os acabes antes de partires; por isso, dar-te-emos o
tempo que for necessário a concluí-los.
Nota – Calculando aproximadamente a duração dos trabalhos que ainda tenho
de fazer e levando em conta o tempo da minha ausência e os anos da infância e
da juventude, até a idade em que um homem pode desempenhar no mundo um
papel, a minha volta deverá ser forçosamente no fim deste século ou no princípio
do outro.
21 de setembro de 1861
(Em minha casa – Médium: Sr. d’A...)
Auto de fé em Barcelona. Apreensão dos livros
A pedido do Sr. Lachâtre, então residente em Barcelona, eu lhe en
viara certa quantidade de O livro dos espíritos, de O livro dos médiuns, das
coleções da Revista Espírita, além de diversas obras e brochuras espíritas,
perfazendo um total de cerca de 300 volumes. A expedição da encomenda
fora regularmente feita pelo seu correspondente em Paris, num caixão que
continha outras mercadorias e sem a menor infração da legalidade. À che
gada dos livros, fizeram que o destinatário pagasse os direitos de entrada,
mas, antes de os entregarem, houve que ser entregue uma relação das obras
ao bispo, pois, naquele país, a polícia de livraria competia à autoridade
eclesiástica. O bispo se achava então em Madri. Ao regressar, tomando
conhecimento da relação dos livros, ordenou que eles fossem apreendidos e
queimados em praça pública pela mão do carrasco. A execução da sentença
foi marcada para 9 de outubro de 1861.
Se se houvesse tentado introduzir aquelas obras como contrabando,
a autoridade espanhola teria o direito de dispor delas à sua vontade, mas
desde que absolutamente não havia fraude, nem surpresa, como o prova
va o pagamento espontâneo dos direitos, fora de rigorosa justiça que se
ordenasse a reexportação dos volumes, uma vez que não convinha se lhes
admitisse a entrada. Ficaram, porém, sem resultado as reclamações apre
sentadas por intermédio do cônsul francês em Barcelona. O Sr. Lachâtre
me perguntou se valeria a pena recorrer à autoridade superior. Opinei por
que se deixasse consumar o ato arbitrário; entendi, porém, acertado ouvir
a opinião do meu guia espiritual.
Pergunta (à Verdade) – Não ignoras, sem dúvida, o que acaba de pas
sar-se em Barcelona, com algumas obras espíritas. Quererás ter a bondade
de dizer-me se convirá prosseguir na reclamação para restituição delas?
Resposta – Por direito, podes reclamá-las e conseguirias que te fossem
restituídas, se te dirigisses ao Ministro de Estrangeiros da França. Mas, ao meu
parecer, desse auto de fé resultará maior bem do que o que adviria da leitura
de alguns volumes. A perda material nada é, a par da repercussão que seme
lhante fato produzirá em favor da Doutrina. Deves compreender quanto uma
perseguição tão ridícula, quanto atrasada, poderá fazer a bem do progresso do
Espiritismo na Espanha. A queima dos livros determinará uma grande expan
são das ideias espíritas e uma procura febricitante das obras dessa Doutrina.
As ideias se disseminarão lá com maior rapidez e as obras serão procuradas
com maior avidez, desde que as tenham queimado. Tudo vai bem.
P. – Convirá que eu escreva a respeito um artigo para o próximo
número da Revista?
R. – Espera o auto de fé.
9 de outubro de 1861
Auto de fé em Barcelona
Esta data ficará assinalada nos anais do Espiritismo, por motivo do
auto de fé praticado com os livros espíritas em Barcelona. Eis aqui um
extrato da ata da execução:
Neste dia, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia
da manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, no local onde são executados os
criminosos condenados ao derradeiro suplício e por ordem do bispo desta cidade,
foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber: O
livro dos espíritos, por Allan Kardec etc.
Os principais jornais da Espanha deram conta minuciosa do fato,
que os órgãos da imprensa liberal do país muito justamente profligaram.
É de notar-se que na França os periódicos liberais se limitaram a mencio
ná-lo sem comentários. O próprio Século, tão ardoroso em estigmatizar os
abusos do poder e os menores atos de intolerância do clero, não achou uma
palavra de reprovação para esse ato digno da Idade Média. Alguns jornais
da pequena imprensa acharam mesmo no caso motivo para risota. Pondo
de parte o que diz respeito à crença, havia ali uma questão de princípio,
de direito internacional, que interessava a todo o mundo, sobre a qual não
teriam tão levianamente guardado silêncio, se se tratasse de certas outras
obras. Eles não se furtam de censuras, quando está em causa a simples
exigência de uma estampilha para venda de um livro materialista; ora, o
restaurar a Inquisição as suas fogueiras com a solenidade de outrora, às
portas da França, apresentava bem maior gravidade. Por que, então, seme
lhante indiferença? É que estava em jogo uma Doutrina a cujos progressos
a incredulidade assiste com pavor. Reivindicar justiça para ela fora consa
grar-lhe o direito à proteção da autoridade e aumentar-lhe o crédito. Seja
como for, o auto de fé em Barcelona não deixou de produzir o esperado
efeito, pela repercussão que teve na Espanha, onde contribuiu fortemente
para propagar as ideias espíritas (Veja-se a Revista Espírita de novembro de
1861, Resquícios da Idade Média — O auto de fé de Barcelona).
O acontecimento abriu ensejo a muitas comunicações da parte dos
Espíritos. A que se segue foi dada espontaneamente na Sociedade de Paris,
a 19 de outubro, quando regressei de Bordeaux.
“Fazia-se mister alguma coisa que chocasse com violência certos Espí
ritos encarnados, para que se decidissem a ocupar-se com essa grande Dou
trina, que há de regenerar o mundo. Nada, para isto, se faz inutilmente na
Terra e nós que inspiramos o auto de fé em Barcelona, bem sabíamos que,
procedendo assim, forçávamos um grande passo para frente. Esse fato brutal,
inaudito nos tempos atuais, se consumou tendo por fim chamar a atenção dos
jornalistas que se mantinham indiferentes diante da agitação profunda que
abalava as cidades e os centros espíritas. Eles deixavam que falassem e fizessem
o que bem entendessem, mas obstinavam-se em passar por surdos e respon
diam com o mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. De
bom ou mau grado, hoje falam dele; uns, comprovando o histórico do fato de
Barcelona; outros, desmentindo-o, ensejaram uma polêmica que dará volta ao
mundo, de grande proveito para o Espiritismo. Essa a razão por que a retaguar
da da Inquisição fez hoje o seu último auto de fé. É que assim o quisemos.”
um espíRito.
Nota – De Barcelona enviaram-me uma aquarela feita in loco por um artista dis
tinto, representando a cena do auto de fé. Mandei fazer do quadro uma redução
fotográfica. Possuo também um pouco de cinza apanhada na fogueira, em que se
encontram fragmentos ainda legíveis de folhas queimadas. Conservei-os numa
urna de cristal.20,21
22 de dezembro de 1861
(Em minha casa: comunicação particular – Médium: Sr. d’A...)
Meu sucessor
Tendo uma conversação com os Espíritos levado a falar do meu su
cessor na direção do Espiritismo, formulei a questão seguinte:
Pergunta – Entre os adeptos, muitos há que se preocupam com o que
virá a ser do Espiritismo depois de mim e perguntam quem me substituirá
quando eu partir, uma vez que não se vê aparecer ninguém, de modo no
tório, para lhe tomar as rédeas.
Respondo que não nutro a pretensão de ser indispensável; que Deus
é extremamente sábio para não fazer que uma Doutrina destinada a rege
nerar o mundo assente sobre a vida de um homem; que, ademais, sempre
me avisaram que a minha tarefa é a de constituir a Doutrina e que para
isso tempo necessário me será concedido. A do meu sucessor será, pois,
mais fácil, porquanto já achará traçado o caminho, bastando que o siga.
Entretanto, se os Espíritos julgassem oportuno dizer-me a respeito alguma
coisa de mais positivo, eu muito grato lhes ficaria.
Resposta – Tudo isso é rigorosamente exato — eis o que se nos per
mite dizer-te a mais.
Tens razão em afirmar que não és indispensável; só o és ao ver dos
homens, porque era necessário que o trabalho de organização se concen
trasse nas mãos de um só, para que houvesse unidade; não o és, porém, aos
olhos de Deus. Foste escolhido e por isso é que te vês só, mas não és, como,
aliás, bem o sabes, a única entidade capaz de desempenhar essa missão. Se
20 Nota do autor: A Livraria espírita ainda os conserva.
o seu desempenho se interrompesse por uma causa qualquer, não faltariam
a Deus outros que te substituíssem. Assim, aconteça o que acontecer, o
Espiritismo não periclitará.
Enquanto o trabalho de elaboração não estiver concluído, será, pois,
necessário sejas o único em evidência: fazia-se mister uma bandeira em
torno da qual pudessem as gentes agrupar-se. Era preciso que te consi
derassem indispensável, para que a obra que te sair das mãos tenha mais
autoridade no presente e no futuro; era preciso mesmo que temessem pelas
consequências da tua partida.
Se aquele que te há de substituir fosse designado de antemão, a
obra, ainda não acabada, poderia sofrer entraves; formar-se-iam contra ti
oposições suscitadas pelo ciúme; discuti-lo-iam, antes que ele desse provas
de si; os inimigos da Doutrina procurariam barrar-lhe o caminho, resul
tando daí cismas e separações. Ele, portanto, se revelará, quando chegar
o momento.
Sua tarefa será assim facilitada, porque, como dizes, o caminho
estará todo traçado; se ele daí se afastasse, perder-se-ia a si próprio,
como já se perderam os que hão querido atravessar-se na estrada. A
referida tarefa, porém, será mais penosa noutro sentido, visto que ele
terá de sustentar lutas mais rudes. A ti te incumbe o encargo da con
cepção, a ele o da execução, pelo que terá de ser homem de energia e de
ação. Admira aqui a sabedoria de Deus na escolha de seus mandatários:
tu possuis as qualidades que eram necessárias ao trabalho que tens de
realizar, porém não possuis as que serão necessárias ao teu sucessor.
Tu precisas da calma, da tranquilidade do escritor que amadurece as
ideias no silêncio da meditação; ele precisará da força do capitão que
comanda um navio segundo as regras da Ciência. Exonerado do traba
lho de criação da obra sob cujo peso teu corpo sucumbirá, ele terá mais
liberdade para aplicar todas as suas faculdades ao desenvolvimento e à
consolidação do edifício.
P. – Poderás dizer-me se a escolha do meu sucessor já está feita?
R. – Está, sem o estar, dado que o homem, dispondo do livre-ar
bítrio, pode no último momento recuar diante da tarefa que ele próprio
elegeu. É também indispensável que dê provas de si, de capacidade, de de
votamento, de desinteresse e de abnegação. Se se deixasse levar apenas pela
ambição e pelo desejo de primar, seria certamente posto de lado.
P. – Frequentemente se há dito que muitos Espíritos encarnariam
para ajudar o movimento.
R. – Sem dúvida, muitos Espíritos terão essa missão, mas cada um
na sua especialidade, para agir, pela sua posição, sobre tal ou tal parte na
sociedade. Todos se revelarão por suas obras e nenhum por qualquer pre
tensão à supremacia.
Ségur, 9 de agosto de 1863
(Médium Sr. d’A...)
Imitação do evangelho
Nota – Eu a ninguém dera ciência do assunto do livro em que estava trabalhan
do. Conservara-lhe de tal modo em segredo o título, que o editor, Sr. Didier, só o
conheceu quando da impressão. Esse título foi, a princípio: Imitação do evangelho.
Mais tarde, por efeito de reiteradas observações do mesmo Sr. Didier e de algumas
outras pessoas, mudei-o para o de O evangelho segundo o espiritismo. Assim, as
reflexões contidas nas comunicações seguintes não podem ser tidas como fruto de
ideias preconcebidas do médium.
Pergunta – Que pensais da nova obra em que trabalho neste
momento?
Resposta – Esse livro de doutrina terá considerável influência, pois
que explanas questões capitais, e não só o mundo religioso encontrará nele
as máximas que lhe são necessárias, como também a vida prática das nações
haurirá dele instruções excelentes. Fizeste bem enfrentando as questões de
alta moral prática, do ponto de vista dos interesses gerais, dos interesses
sociais e dos interesses religiosos. A dúvida tem que ser destruída; a terra
e suas populações civilizadas estão prontas; já de há muito os teus amigos
de além-túmulo as arrotearam; lança, pois, a semente que te confiamos,
porque é tempo de que a Terra gravite na ordem irradiante das esferas e
que saia, afinal, da penumbra e dos nevoeiros intelectuais. Acaba a tua obra
e conta com a proteção do teu guia, guia de todos nós, e com o auxílio
devotado dos Espíritos que te são mais fiéis e em cujo número digna-te de
me incluir sempre.
P. – Que dirá o clero?
R. – O clero gritará — heresia —, porque verá que atacas decisi
vamente as penas eternas e outros pontos sobre os quais ele baseia a sua
influência e o seu crédito. Gritará tanto mais, quanto se sentirá muito
mais ferido do que com a publicação de O livro dos espíritos, cujos dados
principais, a rigor, poderia aceitar. Agora, porém, tu entraste por um novo
caminho, no qual não poderá ele acompanhar-te. O anátema secreto se
tornará oficial e os espíritas serão repelidos, como o foram os judeus e os
pagãos, pela Igreja Romana. Em compensação, os espíritas verão aumen
tar-se-lhes o número, em virtude dessa espécie de perseguição, sobretudo
com o qualificarem, os padres, de demoníaca uma Doutrina cuja morali
dade esplenderá como um raio de sol pela publicação mesma do teu novo
livro e dos que se seguirão.
Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o Espiritis
mo qual ele é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina
ensinada pelo Cristo. Aproxima-se a hora em que, à face do céu e da Terra,
terás de proclamar que o Espiritismo é a única tradição verdadeiramente
cristã e a única instituição verdadeiramente divina e humana. Ao te esco
lherem, os Espíritos conheciam a solidez das tuas convicções e sabiam que
a tua fé, qual muro de aço, resistiria a todos os ataques.
Entretanto, amigo, se a tua coragem ainda não desfaleceu sob a ta
refa tão pesada que aceitaste, fica sabendo que foste feliz até o presente,
mas que é chegada a hora das dificuldades. Sim, caro mestre, prepara-se a
grande batalha; o fanatismo e a intolerância, exacerbados pelo bom êxito
da tua propaganda, vão atacar-te e aos teus com armas envenenadas. Pre
para-te para a luta. Tenho, porém, fé em ti, como tu tens fé em nós, e sei
que a tua fé é das que transportam montanhas e fazem caminhar por sobre
as águas. Coragem, pois, e que a tua obra se complete. Conta conosco e
conta sobretudo com a grande alma do Mestre de todos nós, que te protege
de modo muito particular.
Paris, 14 de setembro de 1863.
Nota – Eu solicitara para mim uma comunicação sobre um assunto qualquer e
pedira que ela me fosse enviada para o meu retiro de Sainte-Adresse.
“Quero falar-te de Paris, embora isso não me pareça de manifesta
utilidade, uma vez que as minhas vozes íntimas se fazem ouvir em torno
de ti e que teu cérebro percebe as nossas inspirações, com uma facilidade
de que nem tu mesmo suspeitas. Nossa ação, principalmente a do Espírito
Verdade, é constante ao teu derredor e tal que não a podes negar. Assim
sendo, não entrarei em detalhes ociosos a respeito do plano de tua obra,
plano que, segundo meus conselhos ocultos, modificaste tão ampla e com
pletamente. Compreendes agora por que precisávamos ter-te sob as mãos,
livre de toda preocupação outra, que não a da Doutrina. Uma obra como
a que elaboramos de comum acordo necessita de recolhimento e de insu
lamento sagrado. Tenho vivo interesse pelo teu trabalho, que é um passo
considerável para a frente e abre, afinal, ao Espiritismo a estrada larga das
aplicações proveitosas, a bem da sociedade. Com esta obra, o edifício co
meça a libertar-se dos andaimes e já se lhe pode ver a cúpula a desenhar-se
no horizonte. Continua, pois, sem impaciência e sem fadiga; o monumen
to estará pronto na hora determinada.
Já tratamos contigo das questões incidentes do momento, isto é,
das questões religiosas. O Espírito Verdade te falou das rebeliões que já se
levantam na hora, presente. São necessárias essas hostilidades para manter
desperta a atenção dos homens, que tão facilmente se deixam desviar de
um assunto sério. Aos soldados que combatem pela causa, incessantemente
se juntarão combatentes novos, cujas palavras e escritos hão de causar sen
sação e levarão a perturbação e a confusão às fileiras dos adversários.
Adeus, caro companheiro de antanho, discípulo fiel da verdade, que
continua através da vida a obra a que outrora, diante do Espírito que te
ama e a quem venero, juramos consagrar as nossas forças e as nossas exis
tências, até que ela se achasse concluída. Saúdo-te.”
obseRvação – O plano da obra fora, de fato, completamente modificado, o
que sem dúvida o médium não podia saber, pois que ele estava em Paris e eu
em Sainte-Adresse. Tampouco podia saber que o Espírito Verdade me falara
da atitude de revolta do bispo de Argélia e outros. Todas essas circunstâncias
eram bem urdidas para me comprovar que os Espíritos tomavam parte em
meus trabalhos.
Paris, 30 de setembro de 1863
(Médium: Sr. d’A...)
A Igreja
Eis-te de volta, meu amigo, e não perdeste o teu tempo. À obra ainda,
pois não deves deixar se enferruje a tua bigorna. Forja, forja armas bem tem
peradas; repousa do trabalho feito, empreendendo trabalhos mais difíceis.
Todos os elementos serão postos ao teu alcance, à medida que for necessário.
É chegada a hora em que a Igreja tem de prestar contas do depósito
que lhe foi confiado, da maneira por que pratica os ensinos do Cristo, do
uso que fez da sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que
levou os espíritos. A hora é vinda em que ela tem de dar a César o que
é de César e de assumir a responsabilidade de todos os seus atos. Deus a
julgou, e a reconheceu inapta, daqui por diante, para a missão de progres
so que incumbe a toda autoridade espiritual. Somente por meio de uma
transformação absoluta lhe seria possível viver, mas resignar-se-á ela a essa
transformação? Não, pois que, então, já não seria a Igreja; para assimilar
as verdades e as descobertas da Ciência, teria de renunciar aos dogmas que
lhe servem de fundamentos; para volver à prática rigorosa dos preceitos do
Evangelho, teria de renunciar ao poder, à dominação, de trocar o fausto e
a púrpura pela simplicidade e a humildade apostólicas. Ela se acha nesta
alternativa: ou se suicida, transformando-se; ou sucumbe nas garras do
progresso, se permanecer estacionária.
Aliás, Roma já se mostra cheia de ansiedade e na Cidade Eterna se
sabe, por inegáveis revelações, que a Doutrina Espírita causará dor viva ao
papado, porque na Itália se prepara rigorosamente o cisma. Não é, pois, de
espantar o encarniçamento com que o clero se lança ao combate contra o
Espiritismo, impelido pelo instinto de conservação. Ele, porém, já verifi
cou que suas armas se embotam contra essa potência que surge; seus argu
mentos não têm podido resistir à lógica inflexível; só lhe resta o demônio,
mísero auxiliar seu no século XIX.
Ademais, a luta está aberta entre a Igreja e o progresso, mais do que
entre ela e o Espiritismo. Ela é batida em toda a linha pelo progresso ge
ral das ideias e sucumbirá sob os seus golpes, como tudo quanto sai fora
do seu nível. A marcha rápida das coisas há de fazer-vos pressentir que o
desenlace não demorará muito tempo. A própria Igreja parece compelida
fatalmente a precipitá-lo.
espíRito e.
Paris, 14 de outubro de 1863
(Médium: Sr. d’A...)
(Sobre o futuro de diferentes publicações)
Vida de Jesus por Renan
Pergunta (a Erasto) – Que efeito produzirá a Vida de Jesus, de Renan?
Resposta – Enorme efeito. Grande será a repercussão no clero, por
que esse livro derroca os próprios fundamentos do edifício em que ele se
abriga há dezoito séculos. Não se trata de um livro irrepreensível, longe
disso, porque reflete uma opinião exclusiva, que se circunscreve no cír
culo acanhado da vida material. Todavia, Renan não é materialista, mas
pertence a essa escola que, se não nega o princípio espiritual, também
não lhe atribui nenhum papel efetivo e direto no encaminhamento das
coisas do mundo. Ele é desses cegos inteligentes que explicam a seu modo
o que não podem ver; que, não compreendendo o mecanismo da visão a
distância, imaginam que só tocando-a se pode conhecer uma coisa. Por
isso é que reduziu o Cristo às proporções do mais vulgar dos homens, ne
gando-lhe todas as faculdades que constituem atributos do Espírito livre
e independente da matéria.
Entretanto, a par de erros capitais, sobretudo no que concerne à
espiritualidade, o livro contém observações muito justas, que até aqui ha
viam escapado aos comentadores e que, de certo ponto de vista, lhe dão
grande alcance. Seu autor se inclui nessa legião de Espíritos encarnados
que se podem classificar como demolidores do velho mundo, tendo por
missão nivelar o terreno sobre o qual se edificará um mundo novo mais
racional. Quis Deus que um escritor, justamente conceituado entre os
homens, do ponto de vista do talento, viesse projetar luz sobre algumas
questões obscuras e eivadas de preconceitos seculares, a fim de predispor
os Espíritos às novas crenças. Sem o suspeitar, Renan achanou o caminho
para o Espiritismo.
Paris, 30 de janeiro de 1866
(Grupo do Sr. Golovine – Médium: Sr. L...)
Precursores da tempestade
Permiti que um antigo dignitário da Táurida abençoe vossos dois
filhos. Possam eles, sob a égide das respectivas mães, tornar-se inteligentes
em tudo e ser para vós causa de reais satisfações! Desejo que sejam espíri
tas convictos, isto é, de tal modo se saturem da ideia de outras vidas, dos
princípios de fraternidade, de caridade e de solidariedade, que os aconteci
mentos, que se precipitarão quando eles estiverem em idade de consciência
e de razão, não os espantem, nem lhes enfraqueçam a confiança na Justiça
divina, em meio das provas por que tem a Humanidade de passar.
Por vezes, surpreende-vos o azedume com que os vossos adversários
vos atacam. Segundo eles, sois loucos, alucinados, tomais a ficção pela rea
lidade, ressuscitais o diabo e todos os erros da Idade Média.
Sabeis que responder a todos os ataques seria travar uma polêmica
sem resultado. O vosso silêncio prova a vossa força e, se não lhes derdes
ocasião de retrucar, acabarão calando-se.
O imprevisto é o que mais podeis temer. Se se desse uma mudança
de governo, no sentido do mais intolerante ultramontanismo, certamente
seríeis perseguidos, escarnecidos, condenados, expatriados. Mas os acon
tecimentos, mais fortes que as maquinações em surdina, preparam no ho
rizonte político um temporal bastante violento e, quando a tempestade
estalar, tratai de estar bem abrigados, de ser bem fortes e muito desinteres
sados. Haverá ruínas, invasões, delimitações de fronteiras e, desse naufrá
gio imenso, que virá da Europa, da Ásia, da América, somente escaparão,
ficai sabendo, as almas temperadas, os espíritos esclarecidos, tudo o que for
justiça, lealdade, honra, solidariedade.
São perfeitas as vossas sociedades, tais quais se acham organizadas?
Tendes aos milhões os vossos párias; a miséria enche incessantemente as
vossas prisões, os vossos lupanares, e abastece os cadafalsos. A Alemanha
assiste, como em todos os tempos, à emigração de seus habitantes às cen
tenas de milhares, o que não faz honra aos seus governos; o Papa, príncipe
temporal, espalha o erro pelo mundo, em vez do Espírito de Verdade, de
que ele se constituiu o emblema artificial. Por toda parte a inveja. Vejo in
teresses que se combatem e nenhum esforço pelo erguimento do ignoran
te. Os governos, minados por princípios egoístas, pensam em fortificar-se
contra a maré que sobe, maré que é a consciência humana, que afinal se
insurge, após séculos de expectativa, contra a minoria que explora as forças
vivas das nacionalidades.
Nacionalidades! Que a Rússia não encontre terrível escolho, um
Cabo das Tormentas, nessa palavra. Bem-amado país, não esqueçam os
teus homens de Estado que a grandeza de uma nação não consiste em ter
fronteiras indefinidas, muitas províncias e poucas aldeias, algumas grandes
cidades num oceano de ignorância, imensas planícies, desertas, estéreis,
inclementes como a inveja, como tudo o que é falso e emite sons falsos.
Pouco importa que o Sol não se esconda sobre as vossas conquistas, nem
por isso haverá menos deserdados, menos ranger de dentes, todo um infer
no ameaçador e de fauces escancaradas como a imensidade.
As nações, como os governos, têm o livre-arbítrio; como as simples
individualidades, elas sabem dirigir-se pelo amor, pela união, pela concór
dia. Entretanto, fornecerão à tempestade anunciada elementos elétricos
apropriados a melhor as destruir e desagregar.
iNoceNte
Em vida, arcebispo da Táurida.
Lyon, 30 de janeiro de 1866.
(Grupo Villon – Médium: Sr. G...)
A nova geração
A Terra freme de alegria; aproxima-se o dia do Senhor; todos os que
entre nós estão à frente disputam porfiadamente por entrar na liça. Já o Es
pírito de algumas valorosas almas encarnadas agitam seus corpos até quase
despedaçá-los. A carne interdita não sabe o que há de pensar, desconhecido
fogo a devora. Elas serão libertadas, porque chegaram os tempos. Uma
eternidade está a ponto de expirar, uma eternidade gloriosa vai despontar
em breve e Deus conta seus filhos.
O reinado do ouro cederá lugar a um reinado mais puro; o pensa
mento será dentro em pouco soberano e os Espíritos de escol, que hão
vindo desde remotas eras iluminar os séculos em que viveram e servir de
balizas aos séculos vindouros, encarnarão entre vós. Que digo? Muitos se
acham encarnados. A sábia palavra deles será uma chama destruidora, que
causará devastações irreparáveis no seio dos velhos abusos. Quantos prejuí
zos antigos vão desmoronar em bloco, quando o Espírito, como uma acha
de duplo gume, vier decepá-los pelos fundamentos.
Sim, os pais do progresso do espírito humano deixaram, uns, as
suas moradas radiosas; outros, grandes trabalhos, em que a felicidade se
junta ao prazer de instruir-se, para retomarem o bastão de peregrinos,
que apenas haviam deposto no limiar do templo da Ciência, e daqui a
pouco, dos quatro cantos do globo, os sábios oficiais ouvirão, apavora
dos, jovens imberbes a lhes retorquir, numa linguagem profunda, aos
argumentos que eles julgavam irrefutáveis. O sorriso zombeteiro já não
constituirá um escudo que valha e, sob pena de desmoralização, forçoso
será responder. Então, o círculo vicioso em que se metem os mestres da
vã filosofia mostrar-se-á completamente, porquanto os novos campeões
levam consigo não só um facho, que é a inteligência desimpedida dos
véus grosseiros, senão também muitos dentre eles gozarão desse estado
particular, que é privilégio das grandes almas, como Jesus, e que dá o
poder de curar e de operar essas maravilhas chamadas milagres. Diante
dos fatos materiais, em que o Espírito se mostra tão superior à matéria,
como negar os Espíritos? O materialismo será abatido em seus discursos
por uma palavra mais eloquente do que a sua e pelo fato patente, positi
vo e averiguado por todos, visto que grandes e pequenos, novos Tomés,
poderão tocar com o dedo.
O velho mundo carcomido estala por toda parte; o velho mundo
acaba e com ele todos esses velhos dogmas, que só reluzem ainda pelo dou
rado que os cobre. Espíritos valorosos, cabe-vos a tarefa de raspar esse ouro
falso. Para trás, vós que em vão quereis escorar o velho ídolo. Atingido de
todos os lados, ele vai ruir e vos arrastará na sua queda.
Para trás, todos vós negadores do progresso; para trás, com as vossas
crenças de uma época que se foi. Por que negais o progresso e vos esforçais
por detê-lo? É que, desejando sobrepujar, sobrepujar ainda e sempre, con
densastes o vosso pensamento em artigos de fé, clamando para a Humani
dade: “Serás sempre criança e nós, que temos a iluminação do alto, estamos
destinados a conduzir-te.”
No entanto, já tendes visto ficar-vos nas mãos as andadeiras da in
fância; e a criança salta diante de vós e ainda negais que ela possa caminhar
sozinha! Será chicoteando-a com as andadeiras destinadas a sustentá-la que
provareis a autoridade dos vossos argumentos? Não, e bem o sentis, mas é
tão agradável, a quem se diz infalível, crer que os outros ainda depositam
fé nessa infalibilidade, em que nem vós mesmos acreditais!
Ah! que de gemidos não se soltam no santuário! É aí que, pres
tando-se ouvido atento, se escutam os cochichos dolorosos. Que dizeis,
então, pobres obstinados? Que a mão de Deus se abate sobre a sua Igre
ja? Que por toda parte a imprensa livre vos ataca e pulveriza os vossos
argumentos? Onde estará o novo Crisóstomo, cuja potente palavra re
duzirá a nada esse dilúvio de raciocinadores? Em vão o esperais; nada
mais podem as vossas mais vigorosas e mais conceituadas penas. Elas se
obstinam em agarrar-se ao passado que se vai, quando a nova geração,
num impulso irresistível que a impele para a frente, exclama: “Não,
nada de passado; a nós, o futuro; nova aurora se ergue e é para lá que
tendem as nossas aspirações!”.
“Avante!”, diz ela; “alargai a estrada, os irmãos nos seguem. Ide com a
onda que nos arrasta; necessitamos do movimento, que é vida, ao passo que
vós nos apresentais a imobilidade, que é a morte. Os vossos santos mártires
absolutamente não estão mortos, para que lhes imobilizeis o presente. Eles
entreviram a nossa época e se lançaram à morte como à estrada que havia
de conduzi-los lá. A cada época o seu gênio. Queremos lançar-nos à vida,
porquanto os séculos vindouros, que divisamos, têm horror à morte.”
Eis aí, meus amigos, o que os valorosos Espíritos que presentemente
encarnam vão tornar compreensível. Este século não terminará sem que
muitos destroços junquem o solo. A guerra mortífera e fratricida desapa
recerá em breve diante da discussão; o espírito substituirá a força brutal.
Depois que todas essas almas generosas houverem combatido, voltarão ao
vosso Mundo Espiritual, para receberem a coroa do vencedor.
Aí está a meta, meus amigos. Por demais aguerridos são os campeões,
para que seja duvidoso o êxito. Deus escolheu a nata dos seus combatentes
e a vitória é alcançada para a Humanidade.
Rejubilai-vos, pois, todos vós que aspirais à felicidade e que desejais
participem dela os vossos irmãos, como vós mesmos: o dia chegou! A Terra
trepida de alegria, porquanto vai assistir ao começo do reinado da paz que
o Cristo, o Divino Mestre, prometeu, reinado cujos fundamentos Ele des
ceu a assentar.
um espíRito
Paris, 23 de abril de 1866.
(Comunicação particular – Médium: Sr. D...)
Instrução relativa à saúde do Sr. Allan Kardec
Enfraquecendo-se diariamente a saúde do Sr. Allan Kardec, em con
sequência de trabalhos excessivos, superiores às suas forças, vejo-me na
necessidade de repetir, novamente, o que já lhe dissera tantas vezes:
“Precisas de repouso; as forças humanas têm limites que o desejo
de que o ensino progrida te leva muitas vezes a ultrapassar. Estás errado,
porquanto, procedendo assim, não apressarás a marcha da Doutrina,
mas arruinarás a tua saúde e te colocarás na impossibilidade material de
acabar a tarefa que vieste desempenhar neste mundo. A tua enfermidade
atual não é mais do que resultado de um dispêndio incessante de forças
vitais, sem dar tempo a que se efetue a reparação necessária, e a um
aquecimento do sangue produzido pela falta absoluta de repouso. Sem
dúvida, nós te sustentamos, porém sob a condição de que não desfaças o
que fizermos. De que serve correr? Não te dissemos já muitas vezes que
cada coisa virá a seu tempo e que os Espíritos prepostos ao movimento
das ideias sabem fazer que surjam circunstâncias favoráveis, soando o
momento de agir?
Quando se faz preciso que todo espírita concentre suas forças para
a luta, pensas que seja do teu dever esgotar as tuas? Não. Em tudo tens
que dar o exemplo e teu lugar é na estacada, no momento do perigo.
Que farias lá, se, por enfraquecimento, o teu corpo não mais permitisse
que teu espírito se utilizasse das armas que a experiência e a revelação te
puseram nas mãos? — Ouve-me: deixa para mais tarde as grandes obras
destinadas a completar a que está esboçada nas tuas primeiras publica
ções; teus trabalhos ordinários e algumas pequenas brochuras de urgên
cia bastam para te absorver o tempo e devem constituir os únicos objetos
das tuas preocupações atuais.
Não te falo apenas em meu nome; sou aqui o delegado de todos
os Espíritos que tão poderosamente têm contribuído para a propagação
do ensino, mediante suas sábias instruções. Eles te dizem, por meu in
termédio, que esse atraso, que consideras prejudicial ao futuro da Dou
trina, é uma medida necessária, de mais de um ponto de vista, quer
porque certas questões ainda não se acham completamente elucidadas,
quer para preparar os Espíritos a melhor assimilá-las. É necessário que
outros tenham limpado o terreno, que se ache provada a insustenta
bilidade de certas teorias e que maior vácuo se haja produzido. Numa
palavra: o momento não é oportuno; poupa-te, portanto; quando for
tempo, indispensável te será todo o vigor de corpo e de espírito. Até
aqui, o Espiritismo foi alvo de muitas diatribes, levantou muitas tem
pestades. Julgas, porém, que toda essa agitação esteja abrandada, que
todos os ódios se tenham acalmado e tornado impotentes? Desilude-te,
o cadinho depurador ainda não expeliu todas as impurezas; o porvir lhe
reserva outras provas e as últimas crises não serão as menos penosas e
difíceis de suportar.
Sei que a tua situação particular te impõe uma imensidade de tra
balhos secundários que te consomem a maior parte do tempo. Os pedi
dos de toda espécie chovem sobre ti e tu te julgas no dever de atendê-los
quanto possível. Farei aqui o que não ousarias fazer por ti próprio: diri
gindo-me à generalidade dos espíritas, pedir-lhes-ei, no interesse mesmo
do Espiritismo, que te evitem toda sobrecarga de trabalho, capaz de con
sumir instantes que deves consagrar quase exclusivamente à terminação
da obra. Se a tua correspondência algo sofrer com isso, em compensação
o ensino ganhará.
Às vezes, necessário se torna sacrificar as satisfações individuais ao in
teresse geral. É uma medida urgente que todos os adeptos sinceros saberão
compreender e aprovar.
A volumosa correspondência que recebes é para ti um precioso
acervo de documentos e informações; ela te esclarece sobre a verdadeira
marcha e os progressos reais da Doutrina; é um termômetro imparcial;
proporciona-te, além disso, satisfações morais que por mais de uma vez
te têm sustentado a coragem, mostrando-te a adesão que encontram
tuas ideias, em todos os pontos do globo. Sob esse aspecto, a supera
bundância é um bem, e não um inconveniente, mas com a condição de
te auxiliar os trabalhos, e não de os embaraçar, criando-te um acréscimo
de ocupações.”
dR. demeuRe
Bom Dr. Demeure, agradeço os seus ponderados conselhos. Graças
à resolução que tomei de enviar, salvo casos excepcionais, a correspondên
cia habitual a um substituto, ela agora sofre menos e no futuro nada so
frerá, mas que hei de fazer da que se acha acumulada, mais de quinhentas
cartas, a qual, a despeito de toda a minha boa vontade, não posso chegar
a pôr em dia?
Resposta – É preciso, como se diz em linguagem comercial, lançá--las em bloco à conta de lucros e perdas. Noticiando esta providência pela
Revista, os teus correspondentes saberão o que fazer; compreender-lhe-ão
a necessidade e a considerarão justificada pelos conselhos que acabamos
de dar. Repito, seria impossível que as coisas continuassem como têm
ido. Tudo com isso sofreria: a tua saúde e a Doutrina. Convém, quando
necessário, saber fazer os sacrifícios indispensáveis. Tranquilizado, do
ravante, sobre este ponto, poderás entregar-te mais livremente aos teus
trabalhos ordinários. Eis o que te aconselha aquele que será sempre teu
amigo dedicado.
demeuRe
Cedendo a tão sábio conselho, pedimos àqueles dos nossos corres
pondentes com os quais estávamos desde longo tempo em atraso, que acei
tassem as nossas escusas e a manifestação do nosso pesar, por não termos
podido responder pormenorizadamente, como desejáramos, às suas aten
ciosas cartas e que se dignassem de receber, coletivamente, a expressão dos
nossos sentimentos fraternais.
Paris, 25 de abril de 1866.
(Resumo das comunicações dadas pelas Sras.
M... e T... em estado sonambúlico)
Regeneração da Humanidade23
Precipitam-se com rapidez os acontecimentos, pelo que já não vos
dizemos, como outrora: “Aproximam-se os tempos”. Agora, dizemos: “Os
tempos são chegados”.
Não suponhais que as nossas palavras se referem a um novo dilúvio,
nem a um cataclismo, nem a um revolvimento geral. Revoluções parciais
do globo se hão produzido em todas as épocas e ainda se produzem, porque
decorrem da sua constituição, mas não representam os sinais dos tempos.
Entretanto, tudo o que está predito no Evangelho tem de cumprir-se
e neste momento se cumpre, conforme o reconhecereis mais tarde. Não
tomeis, porém, os sinais anunciados, senão como figuras, que precisam ser
compreendidas segundo o espírito, e não segundo a letra. Todas as escritu
ras encerram grandes verdades sob o véu da alegoria e, por se terem apega
do à letra, é que os comentadores se transviaram. Faltou-lhes a chave para
lhes compreenderem o verdadeiro sentido. Essa chave está nas descobertas
da Ciência e nas leis do Mundo Invisível, que o Espiritismo vem revelar.
Daqui em diante, com o auxílio desses novos conhecimentos, o que era
obscuro se tornará claro e inteligível.
Tudo segue a ordem natural das coisas e as Leis imutáveis de Deus
não serão subvertidas. Não vereis milagres, nem prodígios, nem fatos so
brenaturais, no sentido vulgarmente dado a essas palavras.
Não olheis para o céu em busca dos sinais precursores, porquanto
nenhum vereis, e os que vo-los anunciarem estarão a enganar-vos. Olhai
em torno de vós, entre os homens: aí é que os descobrireis.
Não sentis que um como vento sopra sobre a Terra e agita todos os
Espíritos? O mundo se acha na expectativa e como que presa de um vago
pressentimento de que a tempestade se aproxima.
Não acrediteis, porém, no fim do mundo material. A Terra tem pro
gredido, desde a sua transformação; tem ainda que progredir e não que ser
destruída. A Humanidade, entretanto, chegou a um dos períodos de sua
transformação e o mundo terreno vai elevar-se na hierarquia dos mundos.
O que se prepara não é, pois, o fim do mundo material, mas o fim
do mundo moral. É o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do or
gulho, do egoísmo e do fanatismo que se esboroa. Cada dia leva consigo
alguns destroços. Tudo dele acabará com a geração que se vai e a gera
ção nova erguerá o novo edifício, que as gerações seguintes consolidarão e
completarão.
De mundo de expiação, a Terra se mudará um dia em mundo ditoso
e habitá-lo será uma recompensa, em vez de ser uma punição. O reinado
do bem sucederá ao reinado do mal.
Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso se faz que somen
te a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que unicamente
ao bem aspirem. Como já chegou esse tempo, uma grande emigração neste
momento se opera entre os que a habitam. Os que praticam o mal pelo
mal, alheios ao sentimento do bem, dela se verão excluídos, porque lhe
acarretariam novamente perturbações e confusões que constituiriam obs
táculo ao progresso. Irão expiar o seu endurecimento em mundos inferio
res, aos quais levarão os conhecimentos que adquiriram, tendo por missão
fazê-los adiantar-se. Substituí-los-ão na Terra Espíritos melhores que farão
reinem entre si a justiça, a paz, a fraternidade.
A Terra, dissemo-lo, não será transformada por um cataclismo que
aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a
nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança na ordem
natural das coisas. Tudo, pois, exteriormente, se passará como de costume,
com uma única diferença, embora capital: a de que uma parte dos Espíri
tos que nela encarnam não mais encarnarão. Em cada criança que nasça,
em lugar de um Espírito atrasado e propenso ao mal, encarnará um Espí
rito mais adiantado e propenso ao bem. Trata-se, portanto, muito menos
de uma nova geração corporal do que de uma nova geração de Espíritos.
Assim, desapontados ficarão os que contem que a transformação resulte de
efeitos sobrenaturais e maravilhosos.
A época atual é a da transição; os elementos das duas gerações se
confundem. Colocados no ponto intermédio, assistis à partida de uma e à
chegada da outra, e cada uma já se assinala no mundo pelos caracteres que
lhe são próprios.
As duas gerações que sucedem uma à outra têm ideias e modos de
ver inteiramente opostos. Pela natureza das disposições morais, porém, so
bretudo pelas disposições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir à qual
das duas pertence cada indivíduo.
Tendo de fundar a era do progresso moral, a nova geração se distin
gue por uma inteligência e uma razão, em geral, precoces, juntas ao senti
mento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável
de certo grau de adiantamento anterior. Não se comporá tão só de Espíri
tos eminentemente superiores, mas de Espíritos que, já tendo progredido,
estão predispostos a assimilar as ideias progressistas e aptos a secundar o
movimento regenerador.
O que, ao contrário, distingue os Espíritos atrasados é, primeira
mente, a revolta contra Deus, pela negação da Providência e de qualquer
poder acima da Humanidade; depois, pela propensão instintiva para as
paixões degradantes, para os sentimentos antifraternais do orgulho, do
ódio, do ciúme, da cupidez, enfim, a predominância de apego a tudo o
que é material.
Desses vícios é que a Terra tem de ser expurgada pelo afastamento
dos que recalcitram em emendar-se, visto que são incompatíveis com o
reino da fraternidade e os homens de bem sofreriam sempre com o contato
dessas criaturas. Livre deles a Terra, os outros caminharão desembaraça
damente para o futuro melhor, que lhes está reservado neste mundo, em
recompensa de seus esforços e da sua perseverança, enquanto uma depura
ção ainda mais completa não lhes abre o pórtico dos mundos superiores.
Com referência a essa emigração de Espíritos, ninguém pretenda
que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e relegados para
mundos inferiores. Muitos, ao contrário, aí hão de voltar, porque muitos
cederão ao império das circunstâncias e do exemplo; neles, a casca está
mais estragada do que o cerne. Uma vez subtraídos à influência da matéria
e dos prejuízos do mundo corporal, eles, em sua maioria, verão as coisas
de maneira inteiramente diversa da que as viam quando vivos, conforme
os numerosos casos que já tendes apreciado. Para isso, terão a ajudá-los os
Espíritos bons, que por eles se interessam e que se esforçam por esclare
cê-los e por lhes mostrar que errado era o caminho que trilhavam. Pelas
vossas preces e exortações, podeis contribuir muito para que se melhorem,
porque há perpétua solidariedade entre os mortos e os vivos.
Aqueles, conseguintemente, poderão voltar e se sentirão felizes, por
que isso lhes será uma recompensa. Que importa o que tenham sido e
feito, se animados de melhores sentimentos se encontram? Longe de se
mostrarem hostis à sociedade, serão seus auxiliares úteis, porquanto per
tencerão à geração nova.
Não haverá, pois, exclusão definitiva, senão dos Espíritos substan
cialmente rebeldes, daqueles que o orgulho e o egoísmo, mais do que a
ignorância, tornaram surdos aos apelos do bem e da razão. Esses mesmos,
porém, não estarão votados a perene inferioridade. Dia virá em que repu
diarão o passado e abrirão os olhos para a luz.
Assim, orai por esses endurecidos, a fim de que se emendem enquan
to ainda é tempo, visto que se aproxima o dia da expiação.
Infelizmente, a maioria, desconhecendo a voz de Deus, persistirá na
sua cegueira e a resistência que virá a opor mascarará, por meio de terríveis
lutas, o fim do reinado dos que a constituem. Desvairados, correrão à sua
própria perda; provocarão destruições que darão origem a um sem-número
de flagelos e de calamidades, de sorte que, sem o quererem, apressarão o
advento da era de renovação.
E, como se não se operasse com bastante rapidez a destruição, os
suicídios se multiplicarão em proporções inauditas, até entre as crianças. A
loucura jamais terá atingido tão grande quantidade de homens que, antes
mesmo de morrerem, estarão riscados do número dos vivos. São esses os
verdadeiros sinais dos tempos e tudo isso se cumprirá pelo encadeamento
das circunstâncias, como já o dissemos, sem que haja a mais ligeira derro
gação das Leis da Natureza.
Contudo, através da escura nuvem que vos envolve e em cujo seio
ronca a tempestade, já podeis ver despontando os primeiros raios da era
nova. A fraternidade lança seus fundamentos em todos os pontos do globo
e os povos estendem uns aos outros as mãos; a barbárie se familiariza no
contato com a civilização; os preconceitos de raças e de seitas, que causa
ram o derramamento de ondas de sangue, se vão extinguindo; o fanatismo,
a intolerância perdem terreno, ao passo que a liberdade de consciência se
introduz nos costumes e se torna um direito. Por toda parte fermentam
as ideias; percebe-se o mal e experimentam-se remédios para debelá-lo,
mas muitos caminham sem bússola e se perdem em utopias. O mundo
se acha empenhado num imenso trabalho de gestação que já dura há um
século; nesse trabalho, ainda confuso, nota-se, todavia, que predomina a
tendência para determinado fim: o da unidade e da uniformidade, que
predispõem à confraternização.
Também aí tendes sinais dos tempos. Mas, enquanto os outros são
os das agonias do passado, estes últimos são os primeiros vagidos da criança
que nasce, os precursores da aurora que o próximo século verá despontar,
pois que então a geração nova estará em toda a sua pujança. Tanto a fisio
nomia do século XIX difere da do XVIII, sob certos pontos de vista, quan
to a do XX diferirá da do século XIX, sob outros pontos de vista.
A fé inata será um dos caracteres distintivos da nova geração, não a fé
exclusiva e cega que divide os homens, mas a fé raciocinada, que esclarece e
fortifica, que os une e confunde num sentimento comum de amor a Deus
e ao próximo. Com a geração que se extingue desaparecerão os últimos ves
tígios da incredulidade e do fanatismo, igualmente contrários ao progresso
moral e social.
O Espiritismo é a senda que conduz à renovação, porque destrói os
dois maiores obstáculos que se opõem a essa renovação: a incredulidade e o
fanatismo; porque faculta uma fé sólida e esclarecida; desenvolve todos os
sentimentos e todas as ideias que correspondem aos modos de ver da nova
geração, pelo que, no coração dos representantes desta, ele se achará inato
e em estado de intuição. Assim, pois, a era nova vê-lo-á engrandecer-se e
prosperar pela força mesma das coisas. Tornar-se-á a base de todas as cren
ças, o ponto de apoio de todas as instituições.
Daqui até lá, que de lutas terá ainda de sustentar contra os seus
dois maiores inimigos: a incredulidade e o fanatismo que — coisa sin
gular! — se dão as mãos para abatê-lo. É que os dois lhe pressentem o
futuro e, em consequência, a ruína de ambos. Essa a razão por que o
temem; já o veem erguendo, sobre os destroços do velho mundo egoís
ta, a bandeira em torno da qual se reunirão todos os povos. Na divina
máxima: Fora da caridade não há salvação, eles leem a sua própria con
denação, porquanto essa máxima é o símbolo da nova aliança fraternal
proclamada pelo Cristo. Ela se lhes apresenta como as palavras fatais
do festim de Baltazar. Entretanto, deveriam bendizer essa máxima, por
quanto os defende de todas as represálias da parte dos que os perseguem.
Tal, porém, não se dá: uma força cega os impele a rejeitar a única coisa
capaz de salvá-los.
Que poderão contra o ascendente da opinião que os repudia? O
Espiritismo sairá triunfante da luta, ficai certos, porquanto ele está nas
Leis da Natureza, não podendo, por isso mesmo, perecer. Observai a
multiplicidade de meios por que a ideia se espalha e penetra em toda
parte; crede que esses meios não são fortuitos, mas providenciais. O
que, à primeira vista, devera ser-lhe prejudicial é exatamente o que lhe
auxilia a propagação.
Dentro em breve, surgirão campeões que em voz alta se proclamarão
tais, entre os de maior consideração e mais acreditados, os quais, com a
autoridade de seus nomes e de seus exemplos o apoiarão, impondo silêncio
aos que o detratem, pois ninguém ousará tratá-los de loucos. Esses homens
o estudam em silêncio e aparecerão quando for chegado o momento opor
tuno. Até lá, bom é se conservem afastados.
Dentro em pouco, também vereis as Artes se acercarem dele, como
de uma mina riquíssima, e traduzirem os pensamentos e os horizontes que
ele patenteia, por meio da pintura, da música, da poesia e da literatura. Já
se vos disse que haverá um dia a arte espírita, como houve a arte pagã e
a arte cristã. É uma grande verdade, pois os maiores gênios se inspirarão
nele. Em breve, vereis os primeiros esboços da arte espírita, que mais tarde
ocupará o lugar que lhe compete.
Espíritas, o futuro é vosso e de todos os homens de coração e devo
tados. Não vos assustem os obstáculos, porquanto nenhum há que possa
embaraçar os desígnios da Providência. Trabalhai sem descanso e agradecei
a Deus o ter-vos colocado na vanguarda da nova falange. É um posto de
honra que vós mesmos solicitastes e do qual é preciso vos mostreis dignos
pela vossa coragem, pela vossa perseverança e pelo vosso devotamento. Fe
lizes dos que sucumbirem nessa luta contra a força; a vergonha, ao contrá
rio, esperará, no mundo dos Espíritos, os que sucumbirem por fraqueza
ou pusilanimidade. As lutas, aliás, são necessárias para fortalecer a alma;
o contato com o mal faz que melhor se apreciem as vantagens do bem.
Sem as lutas, que estimulam as faculdades, o Espírito se entregaria a uma
despreocupação funesta ao seu adiantamento. As lutas contra os elementos
desenvolvem as forças físicas e a inteligência; as lutas contra o mal desen
volvem as forças morais.
Paris, 27 de abril de 1866.
(Em casa do Sr. Leymarie – Médium: Sr. L...)
Marcha gradativa do Espiritismo. Dissidências e obstáculos
Caros condiscípulos, o que é verdade tem que ser; nada pode opor-se
à irradiação de uma verdade; às vezes, podem encobri-la, torturá-la e fazer
com ela o que fazem os teredos nos diques holandeses, mas uma verdade
não assenta sobre estacarias: ela percorre o espaço; está no ar ambiente e,
se foi possível cegarem uma geração, há sempre novas encarnações, há re
crutas da erraticidade que trazem germens fecundos, e outros elementos, e
que sabem atrair a si todas as grandes coisas desconhecidas.
Não vos apresseis, amigos. Muitos dentre vós desejariam ir a vapor
e, nestes tempos de eletricidade, correr tanto quanto esta. Esquecidos das
Leis da Natureza, quereriam andar mais depressa do que o tempo. Refleti,
porém, e vereis quão sábio é Deus em tudo. Os elementos que constituem
o vosso planeta sofreram longa e laboriosa elaboração; antes que pudésseis
existir, foi preciso que tudo se constituísse de acordo com a aptidão dos
vossos órgãos. A matéria, os minerais, fundidos e refundidos, os gases, os
vegetais, pouco a pouco se harmonizaram e condensaram, a fim de permi
tirem que surgísseis na Terra. É a eterna Lei do Trabalho, que nunca cessou
de reger os seres inorgânicos, como os seres inteligentes.
O Espiritismo não pode fugir a essa lei, à lei da elaboração. Plantado
num solo ingrato, forçoso é que o cerquem as ervas más e os maus frutos.
Mas também todos os dias o terreno é desbravado, os maus ramos são ar
rancados ou cortados; o campo se destorroa insensivelmente e, quando o
viajante, fatigado das lutas da vida, encontrar a fartura e a paz à sombra de
um fresco oásis, se dessedentará e enxugará o suor, nesse reino lenta e sa
biamente preparado. Aí o rei é Deus, o dispensador generoso, o igualitário
judicioso, que bem sabe ser doloroso, mas fecundo, o trajeto que o viajor
seguirá; penoso, mas necessário. O Espírito formado na escola do trabalho
dela sai mais forte e mais apto para as grandes coisas. Aos que desfalecem,
ele diz: coragem e, como suprema esperança, lhes deixa entrever, mesmo
aos mais ingratos, um ponto de chegada, ponto salutar, caminho assinala
do pelas reencarnações.
Ride das declamações vãs; deixai que falem os dissidentes, que ber
rem os que não podem consolar-se de não serem os primeiros; todo esse
arruído não impedirá que o Espiritismo prossiga imperturbavelmente o
seu caminho. Ele é uma verdade e, qual rio, toda verdade tem que seguir
seu curso.
16 de agosto de 1867
(Sociedade de Paris – Médium: Sr. M..., em estado sonambúlico)
Publicações espíritas
Nota – O Sr. L... acabava de anunciar que se propunha a fazer obras espíritas para
vendê-las a preços fabulosamente reduzidos. Foi a esse respeito que o Sr. Morin
disse o que segue, em sono sonambúlico:
“Os espíritas já são hoje numerosos, mas muitos ainda não com
preendem o alcance eminentemente moralizador e emancipador do Espi
ritismo. O núcleo que sempre seguiu a boa estrada continua a sua marcha
lenta, mas segura; afasta-se de todos os propósitos preconcebidos e pouco
se ocupa com os que vão ficando pelo caminho.
Infelizmente, mesmo entre os que formam esse núcleo fiel, há os que
tudo acham magnífico, assim da parte dos outros, como da deles próprios
e, facilmente, benevolamente, se deixam levar pelas aparências e vão to
lamente prender-se no visco de seus inimigos, de uma personalidade que
diz despojar-se, dar seu sangue, seus bens, sua inteligência pelo triunfo
completo da ideia. Pois bem! relede a comunicação (comunicação que L...
acabava de escrever) e vereis que, da parte de certos indivíduos, tais sacrifí
cios não podem ser feitos sem segundas intenções.
Importa desconfiar das dedicações e das generosidades de ostenta
ção, como da veracidade de pessoas que dizem não mentir nunca.
Pretender dar uma coisa a preços impossíveis, sem prejuízo, é ocultar
especulação. Fazer ainda mais: dar de graça a título de excesso de zelo, a
título de brinde, todos os elementos de uma doutrina sublime é o cúmulo
da hipocrisia. Espíritas, tomai cuidado!”.
16 de agosto de 1867
(Sociedade de Paris – Médium: Sr. D...)
Acontecimentos
A sociedade em geral, ou, a bem dizer, a reunião de seres, tanto en
carnados como desencarnados, que compõem a população flutuante de um
mundo, numa palavra — a Humanidade —, mais não é que uma grande
criança coletiva que, como todo ser dotado de vida, passa por todas as fases
que se sucedem em cada um, desde o nascimento até a mais avançada idade.
Do mesmo modo que o desenvolvimento do indivíduo é acompanhado
de certas perturbações físicas e intelectuais, peculiares, particularmente, a
determinados períodos da vida, também a Humanidade tem suas crises de
crescimento, seus transtornos morais e intelectuais. Atravessais uma dessas
grandes épocas, que encerram um período e dão começo a outro. Partici
pando simultaneamente das coisas do passado e das do futuro, dos sistemas
que ruem e das verdades que se fundam, tende o cuidado, meus amigos,
de colocar-vos do lado da solidez, da progressividade e da lógica, se não
quiserdes ser arrastados ao sabor das ondas; tende o de abandonar palácios
suntuosos na aparência, mas vacilantes em suas bases e que não tardarão a
sepultar nas suas ruínas os infelizes que insensatamente não quiserem deles
sair, a despeito dos avisos de toda sorte que lhes são prodigalizados.
Todas as frontes se anuviam e a calma aparente de que gozais apenas
serve para acumular maior quantidade de elementos destruidores.
Algumas vezes, antes da tempestade que destrói os frutos dos suores
de um ano, surgem precursores que permitem se tomem as precauções
necessárias a evitar, tanto quanto possível, as devastações. Desta vez, as
sim não será. Parecerá que o céu, depois de estar sombreado, se aclara; as
nuvens fugirão; em seguida, de súbito, todos os furores, por longo tempo
comprimidos, se desencadearão com inaudita violência.
Ai dos que não hajam preparado para si um abrigo! Ai dos fanfarrões
que forem ao encontro do perigo com o braço desarmado e o peito des
coberto! Ai dos que afrontarem o perigo empunhando a taça! Que terrível
decepção os espera! A taça que empunham não lhes chegará aos lábios,
antes que eles sejam atingidos!
À obra, pois, espíritas, e não esqueçais que todos deveis ter prudên
cia e previdência. Tendes um escudo, sabei servir-vos dele. Tendes uma
âncora de salvação, não a desprezeis.
Ségur, 9 de setembro de 1867.
(Sessão íntima – Médium: Sr. D...)
Minha nova obra sobre a gênese
(Comunicação espontânea)
Primeiro, duas palavras com relação à obra em preparo. Como já o
temos dito muitas vezes, urge pô-la em execução sem demora e apressar-lhe
quanto possível a publicação. É preciso que a primeira impressão já se tenha
produzido nos espíritos, quando estalar o conflito europeu. Se ela tardasse,
os acontecimentos brutais poderiam desviar das obras puramente filosóficas
a atenção geral; e como essa obra se destina a desempenhar um papel na
elaboração em curso, necessário se torna não deixe de ser apresentada em
tempo oportuno. Entretanto, não conviria, por isso, restringir-lhe os desen
volvimentos. Dá-lhe toda a amplitude desejável; cada uma das suas menores
partes tem peso na balança da ação e, numa época tão decisiva como esta,
nada se deve desprezar, quer na ordem material, quer na ordem moral.
Pessoalmente, estou satisfeito com o trabalho, mas a minha opinião
pouco vale, a par da satisfação daqueles a quem ela transformará. O que,
sobretudo, me alegra são as consequências que produzirá sobre as massas,
tanto no Espaço, quanto na Terra.
Pergunta – Se nenhum contratempo sobrevier, a obra poderá apare
cer em dezembro. Prevês obstáculos?
Resposta – Não prevejo dificuldades intransponíveis. A tua saúde se
ria a principal; por isso é que te aconselhamos incessantemente que não
te descuides dela. Quanto a obstáculos exteriores, nenhum pressinto de
natureza séria.
dR. d...
22 de fevereiro de 1868.
(Comunicação particular – Médium: Sr. D...)
A gênese
Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu
conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese,
para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu
lhe disse:
— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito
do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão
mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a
reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de
quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?
Resposta – É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que
não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipa
damente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais.
Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me
compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém não lhe consagres exces
sivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais
claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.
Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos vo
lumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito
entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico
e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas
pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez
do que supões.
Nota – Numa comunicação de 18 de dezembro, fora dito: Será, certamente, um
grande êxito entre os teus êxitos. É notável que, com o intervalo de dois meses, outro
Espírito repita exatamente as mesmas palavras, dizendo: Quando nós te dizíamos
etc. Essa palavra nós prova que os Espíritos agem de acordo e que, às vezes, um só
fala por muitos.
Paris, 23 de fevereiro de 1868.
(Comunicação íntima dada ao Sr. C..., médium)
Acontecimentos
Ocupa-te desde já com o trabalho que tens esboçado sobre os
meios de seres um dia útil aos teus irmãos em crença e de servires à causa
da Doutrina, porque será possível que os acontecimentos que se desen
rolarão não te deixem lazeres bastantes para te consagrares ao referido
trabalho.
Esses próprios acontecimentos darão lugar a fases durante as quais o
pensamento humano poderá produzir-se com absoluta liberdade. Nesses
momentos, os cérebros em delírio, baldos de qualquer orientação sã, ge
rarão enormidades tais, que a notícia do próximo aparecimento da besta
do apocalipse a ninguém espantaria e passaria despercebida. A imprensa
vomitará todas as loucuras humanas, até se esgotarem as paixões a que ela
terá dado nascimento.
Semelhante época será favorável aos espíritas. Eles se arregimentarão,
prepararão seus materiais e suas armas. Ninguém pensará em molestá-los,
por isso que eles a ninguém causarão embaraço. Serão os únicos discípulos
do Espírito, os outros serão discípulos da matéria.
Paris, 4 de julho de 1868.
(Médium: Sr. D...)
Meus trabalhos pessoais. Conselhos diversos
Vão em bom andamento os teus trabalhos particulares; prossegue na
reimpressão da tua última obra; faze a tua tábua geral para o fim do ano; é
coisa de utilidade e, quanto ao mais, descansa em nós.
Está apenas em começo a impulsão que A gênese produziu e muitos
elementos, abalados por ela, se colocarão, dentro em pouco, sob a tua ban
deira. Outras obras sérias também aparecerão, para acabar de esclarecer o
juízo humano sobre a nova Doutrina.
Aprovo igualmente a publicação das cartas de Lavater. É uma coisa
pequenina, mas destinada a produzir grandes efeitos. Em suma, o ano será
fecundo para todos os amigos do progresso racional e liberal.
Também estou de inteiro acordo em que publiques o resumo que
pretendes fazer sob a forma de catecismo ou manual, mas acho que o deves
esmiuçar cuidadosamente. Quando estiveres para dá-lo à publicidade, não
esqueças de me consultar sobre o título; terei talvez uma boa indicação a
te oferecer e cujos termos dependerão dos acontecimentos já verificados.
Ao te aconselharmos ultimamente que não levasses muito tempo
para remodelar A gênese, dissemos que terias de fazer-lhe acréscimos em
diversos pontos, a fim de preencheres algumas lacunas e de condensares,
aqui e ali, a matéria, a fim de não tornares mais extenso o volume.
Não foram perdidas as nossas observações e muito nos alegrará o
colaborarmos na remodelação dessa obra, como nos alegrou o termos con
tribuído para a sua execução.
Recomendo-te hoje que revejas com atenção sobretudo os primei
ros capítulos, cujas ideias são todas excelentes, que nada contêm que
não seja verdadeiro, mas algumas de cujas expressões poderiam prestar--se a interpretações errôneas. Salvo essas retificações, que te aconselho
a não deixares de lado, porque os antagonistas se lançam às palavras,
quando não podem atacar as ideias, nada mais preciso indicar-te sobre o
assunto. Aconselho, entretanto, que não percas tempo; é preferível que
os volumes esperem pelo público, do que este por eles. Nada deprecia
mais uma obra do que a interrupção da sua venda. Impacientado por
não poder satisfazer aos pedidos que recebe, o editor, a quem assim
escapam ocasiões de vender o livro, se desinteressa das obras do autor
imprevidente. O público se cansa de esperar e a má impressão que daí
resulta custa a apagar-se.
Por outro lado, não é mau que gozes de uma certa liberdade de espí
rito para acudir às eventualidades que possam surgir ao teu derredor e para
dispensares teus cuidados a estudos particulares que, segundo os aconteci
mentos, podem ser suscitados atualmente ou relegados para tempos mais
propícios.
Tem-te, pois, pronto para tudo; desembaraça-te de todos os óbi
ces, quer para te consagrares a um trabalho especial, se a tranquilidade
geral o permite, quer para estares preparado a qualquer acontecimento,
se complicações imprevistas vierem tornar necessária, de tua parte, uma
determinação súbita. O ano próximo começará em breve; é preciso, pois,
que, pelos fins deste, dês a última demão à primeira parte da obra espíri
ta, a fim de teres livre o campo para a conclusão da tarefa que concerne
ao futuro.
Fora da caridade
não há salvação
Estes princípios, para mim, não existem apenas em teoria, pois que
os ponho em prática; faço tanto bem quanto o permite a minha posição;
presto serviços quando posso; os pobres nunca foram repelidos de minha
porta, ou tratados com dureza; foram recebidos sempre, a qualquer hora,
com a mesma benevolência; jamais me queixei dos passos que hei dado
para fazer um benefício; pais de família têm saído da prisão, graças aos
meus esforços. Certamente, não me cabe inventariar o bem que já pude
fazer, mas, do momento em que parecem esquecer tudo, é-me lícito, creio,
trazer à lembrança que a minha consciência me diz que nunca fiz mal a
ninguém, que hei praticado todo o bem que esteve ao meu alcance, e isto,
repito-o, sem me preocupar com a opinião de quem quer que seja.
A esse respeito trago tranquila a consciência; e a ingratidão com que
me hajam pago em mais de uma ocasião não constituirá motivo para que
eu deixe de praticá-lo. A ingratidão é uma das imperfeições da Humani
dade e, como nenhum de nós está isento de censuras, é preciso desculpar
os outros, para que nos desculpem, de sorte a podermos dizer como Jesus
Cristo: “atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado”. Continua
rei, pois, a fazer todo o bem que me seja possível, mesmo aos meus inimi
gos, porquanto o ódio não me cega. Sempre lhes estenderei as mãos, para
tirá-los de um precipício, se se oferecer oportunidade.
Eis como entendo a caridade cristã. Compreendo uma religião que
nos prescreve retribuamos o mal com o bem e, com mais forte razão, que
retribuamos o bem com o bem. Nunca, entretanto, compreenderia a que
nos prescrevesse que paguemos o mal com o mal .
(Pensamentos íntimos de Allan Kardec, num documento achado entre
os seus papéis)
Projeto – 1868
Um dos maiores obstáculos capazes de retardar a propagação da
Doutrina seria a falta de unidade. O único meio de evitá-la, senão quanto
ao presente, pelo menos quanto ao futuro, é formulá-la em todas as suas
partes e até nos mais mínimos detalhes, com tanta precisão e clareza, que
impossível se torne qualquer interpretação divergente.
Se a Doutrina do Cristo deu lugar a tantas controvérsias, se ainda
agora tão malcompreendida se acha e tão diversamente praticada, é isso
devido a que o Cristo se limitou a um ensinamento oral e a que seus
próprios Apóstolos apenas transmitiram princípios gerais, que cada um
interpretou de acordo com suas ideias ou interesses. Se Ele houvesse for
mulado a organização da Igreja cristã com a precisão de uma lei ou de um
regulamento, é incontestável que houvera evitado a maior parte dos cis
mas e das querelas religiosas, assim como a exploração que foi feita da re
ligião, em proveito das ambições pessoais. Resultou que, se o Cristianismo
constituiu, para alguns homens esclarecidos, uma causa de séria reforma
moral, não foi e ainda não é para muitos senão objeto de uma crença cega
e fanática, resultado que, em grande número de criaturas, gerou a dúvida
e a incredulidade absoluta.
Somente o Espiritismo, bem entendido e bem compreendido, pode
remediar esse estado de coisas e tornar-se, conforme disseram os Espíri
tos, a grande alavanca da transformação da Humanidade. A experiência
deve esclarecer-nos sobre o caminho a seguir. Mostrando-nos os incon
venientes do passado, ela nos diz claramente que o único meio de serem
evitados no futuro consiste em assentar o Espiritismo sobre as bases sólidas
de uma doutrina positiva que nada deixe ao arbítrio das interpretações.
As dissidências que possam surgir se fundirão por si mesmas na unidade
principal que se estabeleceria sobre as bases mais racionais, desde que es
sas bases sejam claras, e não vagamente definidas. Também ressalta destas
considerações que essa marcha, dirigida com prudência, representa o mais
poderoso meio de luta contra os antagonistas da Doutrina Espírita. Todos
os sofismas quebrar-se-ão de encontro a princípios aos quais a sã razão
nada acharia para opor.
Dois elementos hão de concorrer para o progresso do Espiritismo: o
estabelecimento teórico da Doutrina e os meios de a popularizar. O desen
volvimento cada dia maior, que ela toma, multiplica as nossas relações, que
somente tendem a ampliar-se, pelo impulso que lhe darão a nova edição de
O livro dos espíritos e a publicidade que se fará a esse propósito.
Para utilizarmos de maneira proveitosa essas relações, se, depois
de constituída a teoria, eu tivesse de concorrer para sua instalação, ne
cessário seria que, além da publicação de minhas obras, dispusesse de
meios para exercer uma ação mais direta. Ora, creio fora conveniente
que aquele que fundou a teoria pudesse ao mesmo tempo impulsioná-la,
porque então haveria mais unidade. Sob esse aspecto, a Sociedade tem
necessariamente que exercer grande influência, conforme o disseram os
próprios Espíritos; sua ação, porém, não será, em realidade, eficiente,
senão quando ela servir de centro e de ponto de ligação donde parta um
ensinamento preponderante sobre a opinião pública. Para isso, faz-se
mister uma organização mais forte e elementos que ela não possui. No
século em que estamos e tendo-se em vista o estado dos nossos costumes,
os recursos financeiros são o grande motor de todas as coisas, quando
empregados com discernimento. Na hipótese de que esses recursos, de
um modo ou doutro, me viessem às mãos, eis o plano que eu seguiria e
cuja execução seria proporcional à importância dos meios e subordinada
aos conselhos dos Espíritos.
Estabelecimento central
O mais urgente seria prover a Sociedade de um local conveniente
mente situado e disposto para as reuniões e recepções. Sem lhe dar um luxo
desnecessário e, ademais, sem cabimento, precisaria que nada aí denotas
se penúria, mas apresentasse um aspecto tal, que as pessoas de distinção
Projeto – 1868
pudessem estar lá sem se considerarem muito diminuídas. Além do aloja
mento particular onde eu habitasse, deveria possuir:
1o) Uma grande sala para as sessões da Sociedade e para as grandes
reuniões;
2o) Um salão de recepção;
3o) Um compartimento destinado às evocações íntimas, espécie de
santuário, que não seria profanado por nenhuma ocupação estranha;
4o) Um escritório para a Revista, os arquivos e os negócios da Sociedade.
Tudo isso disposto e preparado de maneira cômoda e condizente
com a sua destinação.
Criar-se-ia uma biblioteca composta de todas as obras e escritos pe
riódicos franceses e estrangeiros, antigos e modernos, relacionados com o
Espiritismo.
O salão de recepção estaria aberto todos os dias e a certas horas, para os
membros da Sociedade, que aí poderiam conferenciar livremente, ler os jornais
e consultar os arquivos e a biblioteca. Os adeptos estrangeiros, de passagem por
Paris, seriam aí recebidos, desde que fossem apresentados por um sócio.
Estabelecer-se-ia correspondência regular com os diferentes centros
da França e do estrangeiro.
Haveria um empregado secretário e um auxiliar de escritório.
Ensino espírita
Um curso regular de Espiritismo seria professado com o fim de de
senvolver os princípios da Ciência e de difundir o gosto pelos estudos sé
rios. Esse curso teria a vantagem de fundar a unidade de princípios, de
fazer adeptos esclarecidos, capazes de espalhar as ideias espíritas e de de
senvolver grande número de médiuns. Considero esse curso como de natu
reza a exercer capital influência sobre o futuro do Espiritismo e sobre suas
consequências.
Publicidade
Dar-se-ia maior desenvolvimento à Revista, quer aumentando-se-lhe
o número de páginas, quer tornando-se-lhe mais frequente a publicação.
Agregar-se-lhe-ia um redator remunerado.
Uma publicidade em larga escala, feita nos jornais de maior circu
lação, levaria ao mundo inteiro, até as localidades mais distantes, o co
nhecimento das ideias espíritas, despertaria o desejo de aprofundá-las e,
multiplicando-lhes os adeptos, imporia silêncio aos detratores, que logo
teriam de ceder, diante do ascendente da opinião geral.
Viagens
Dois ou três meses do ano seriam consagrados a viagens, em visita
aos diferentes Centros e a lhes imprimir boa direção.
Se os recursos o permitissem, instituir-se-ia uma caixa para custear as
despesas de viagem de certo número de missionários, esclarecidos e talen
tosos, que seriam encarregados de espalhar a Doutrina.
Uma organização completa e a assistência de auxiliares remunera
dos, com os quais eu pudesse contar, libertando-me de uma imensidade de
ocupações e preocupações, me dariam o lazer necessário para ativar os tra
balhos que ainda me restam por fazer e aos quais o atual estado das coisas
não permite que eu me consagre tão assiduamente como fora preciso, por
me faltar materialmente o tempo e por não serem suficientes para tanto as
minhas forças físicas.
Se porventura me estivesse reservado realizar este projeto, em cuja
execução eu teria de me haver com a mesma prudência de que usei no pas
sado, indubitavelmente alguns anos bastariam para fazer que a Doutrina
avançasse de alguns séculos.
A Constituição do Espiritismo, Allan Kardec a inseriu na Revista
de dezembro de 1868, mas sem os comentários que lhe acrescentou antes
de morrer e que reproduzimos textualmente. A morte corpórea o deteve,
quando se preparava para formular os Princípios fundamentais da Doutrina
Espírita reconhecidos como verdades definitivas, o que os nossos leitores cer
tamente lamentarão, como nós, porquanto esses princípios teriam comple
tado aquela Constituição por meio de apreciações lógicas e judiciosas. É o
último manuscrito do mestre e nós o lemos com profundo respeito.
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Constituição do Espiritismo
Exposição de motivos
UM – Considerações preliminares
O Espiritismo teve, como todas as coisas, o seu período de gestação
e, enquanto todas as questões, principais e acessórias, que dele derivam não
se acharem resolvidas, somente pode dar resultados incompletos. Entre
viu-se-lhe a finalidade, pressentiram-se-lhe as consequências, mas apenas
de modo vago. Da incerteza sobre pontos ainda não determinados haviam
forçosamente de nascer divergências sobre a maneira de os considerar; a
unificação tinha que ser obra do tempo e se efetuou gradualmente à medi
da que os princípios se foram elucidando. Unicamente quando tiver desen
volvido todas as partes em que se desdobra é que a Doutrina formará um
todo harmônico e só então se poderá julgar do que é o Espiritismo.
Enquanto ele não passava de uma opinião filosófica, não podia con
tar, da parte de seus adeptos, senão com a simpatia natural que a comu
nhão de ideias produz; nenhum laço sério podia existir entre eles, por falta
de um programa claramente traçado. Esta, evidentemente, a causa funda
mental da débil coesão e da instabilidade dos grupos e sociedades que logo
se formaram. Por isso mesmo, constantemente procuramos, e com todas
as nossas forças, afastar os espíritas do propósito de fundarem prematura
mente qualquer instituição especial com base na Doutrina, antes que esta
assentasse em alicerces sólidos. Fora exporem-se a fracassos inevitáveis, cujo
efeito teria sido desastroso, pela impressão que produziriam no público e
pelo desânimo em que lançariam os adeptos. Semelhantes fracassos talvez
retardassem de um século o progresso definitivo da Doutrina, a cuja im
potência se imputaria um insucesso devido, na realidade, à imprevidência.
Por não saberem esperar, a fim de chegarem no momento exato, os muito
apressados e os impacientes, em todos os tempos, hão comprometido as
melhores causas.24
Não se deve pedir às coisas senão o que elas podem dar, à medida
que se vão pondo em estado de produzir. Não se pode exigir de uma crian
ça o que se pode esperar de um adulto, nem de uma árvore que acaba de
ser plantada o que ela dará quando estiver em toda a sua pujança. O Espi
ritismo, em via de elaboração, somente resultados individuais podia dar;
os resultados coletivos e gerais serão fruto do Espiritismo completo, que
sucessivamente se desenvolverá.
Se bem não haja ele dito ainda sua última palavra sobre todos os
pontos, aproxima-se do seu complemento e soou a hora de se lhe oferecer
uma base forte e durável, suscetível, contudo, de receber todos os desen
volvimentos que as circunstâncias ulteriores comportem e que ofereça toda
a segurança aos que inquiram quem lhe tomará as rédeas, depois daquele
que lhe dirigiu os primeiros passos.
A Doutrina é, sem dúvida, imperecível, porque repousa nas Leis da
Natureza e porque, melhor do que qualquer outra, corresponde às legíti
mas aspirações dos homens. Entretanto, a sua difusão e a sua instalação
definitiva podem ser adiantadas ou retardadas por circunstâncias várias,
algumas das quais subordinadas à marcha geral das coisas, outras inerentes
à própria Doutrina, à sua constituição e à sua organização.
Conquanto a questão de substância seja preponderante em tudo e
acabe sempre por prevalecer, a questão de forma tem aqui importância ca
pital; poderia mesmo sobrepujar momentaneamente e suscitar embaraços
e atrasos, conforme a maneira por que fosse resolvida.
Houvéramos, pois, feito coisa incompleta e deixado grandes difi
culdades para o futuro, se não prevíssemos as que podem surgir. Com o
intuito de evitá-las foi que elaboramos um plano de organização, pondo
em jogo a experiência do passado, a fim de evitar os escolhos contra que se
chocaram a maioria das doutrinas que apareceram no mundo.
O plano aqui exposto concebemo-lo há longo tempo, porque sem
pre nos preocupamos com o futuro do Espiritismo. Fazemo-lo pressentir,
em diversas ocasiões, vagamente, é certo, mas o bastante para mostrar que
não é esta, hoje, uma concepção nova e que, trabalhando na parte teórica
da obra, não nos descuidávamos do lado prático.
DOIS– Dos cismas
Uma questão que desde logo se apresenta é a dos cismas que poderão
nascer no seio da Doutrina. Estará preservado deles o Espiritismo?
Não, certamente, porque terá, sobretudo no começo, de lutar contra
as ideias pessoais, sempre absolutas, tenazes, refratárias a se amalgamarem
com as ideias dos demais; e contra a ambição dos que, a despeito de tudo, se
empenham por ligar seus nomes a uma inovação qualquer; dos que criam
novidades só para poderem dizer que não pensam ou agem como os ou
tros, pois lhes sofre o amor-próprio por ocuparem uma posição secundária.
Se, porém, o Espiritismo não pode escapar às fraquezas humanas,
com as quais se tem de contar sempre, pode todavia neutralizar-lhes as
consequências e isto é o essencial.
É de notar-se que os vários sistemas divergentes, surgidos na origem
do Espiritismo, sobre a maneira de explicarem-se os fatos, foram desapare
cendo à medida que a Doutrina se completou por meio da observação e de
uma teoria racional. Hoje, raros partidários ainda contam esses primitivos
sistemas. É este um fato notório, do qual se pode concluir que as últimas
divergências se apagarão com a elucidação integral de todas as partes da
Doutrina. Mas haverá sempre os dissidentes, de ânimo prevenido e inte
ressados, por um motivo ou outro, a constituir bando à parte. Contra a
pretensão desses é que cumpre se premunam os demais.
Para assegurar-se, no futuro, a unidade, uma condição se faz indis
pensável: que todas as partes do conjunto da Doutrina sejam determinadas
com precisão e clareza, sem que coisa alguma fique imprecisa. Para isso,
procedemos de maneira que os nossos escritos não se prestem a interpreta
ções contraditórias e cuidaremos de que assim aconteça sempre. Quando
for dito peremptoriamente e sem ambiguidade que dois e dois são quatro,
ninguém poderá pretender que se quis dizer que dois e dois fazem cinco.
Conseguintemente, seitas poderão formar-se ao lado da Doutrina,
seitas que não lhe adotem os princípios ou todos os princípios, porém não
dentro da Doutrina, por efeito de interpretação dos textos, como tantas se
formaram sobre o sentido das próprias palavras do Evangelho. É este um
primeiro ponto de capital importância.
O segundo ponto está em não se sair do âmbito das ideias práticas.
Se é certo que a utopia da véspera se torna muitas vezes a verdade do dia
seguinte, deixemos que o dia seguinte realize a utopia da véspera, porém
não atravanquemos a Doutrina de princípios que possam ser considerados
quiméricos e fazer que a repilam os homens positivos.
O terceiro ponto, enfim, é inerente ao caráter essencialmente pro
gressivo da Doutrina. Pelo fato de ela não se embalar com sonhos irrealizá
veis, não se segue que se imobilize no presente. Apoiada tão só nas Leis da
Natureza, não pode variar mais do que estas Leis, mas, se uma nova lei for
descoberta, tem ela que se pôr de acordo com essa Lei. Não lhe cabe fechar
a porta a nenhum progresso, sob pena de se suicidar. Assimilando todas as
ideias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas ou
metafísicas, ela jamais será ultrapassada, constituindo isso uma das princi
pais garantias da sua perpetuidade.
Se, portanto, uma seita se formar à ilharga do Espiritismo, fundada
ou não em seus princípios, de duas uma: ou essa seita estará com a verdade,
ou não estará; se não estiver, cairá por si mesma, sob o ascendente da razão
e do senso comum, como já sucedeu a tantas outras, através dos séculos;
se suas ideias forem acertadas, mesmo que com relação a um único ponto,
a Doutrina, que apenas procura o bem e o verdadeiro onde quer que se
encontrem, as assimilará, de sorte que, em vez de ser absorvida, absorverá.
Se alguns de seus adeptos vierem a afastar-se, é que se acreditarão
capazes de fazer coisa melhor; se realmente fizerem algo melhor, ela se
esforçará por fazer outro tanto; se fizerem coisa má, deixará que a façam,
certa de que, cedo ou tarde, o bem sobrepuja o mal e o que é verdadeiro
predomina sobre o que é falso. Esta a única luta em que se empenhará.
Acrescentemos que a tolerância, fruto da caridade, que constitui a
base da Doutrina Espírita, lhe impõe como um dever respeitar todas as
crenças. Querendo ser aceita livremente, por convicção, e não por cons
trangimento, proclamando a liberdade de consciência um direito natural
imprescritível, diz: Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se
estou em erro, acabarei por pensar como os outros. Em virtude destes prin
cípios, não atirando pedras a ninguém, ela nenhum pretexto dará para
represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas pala
vras e de seus atos.
Não será, pois, invariável o programa da Doutrina, senão com refe
rência aos princípios que hoje tenham passado à condição de verdades com
provadas. Com relação aos outros, não os admitirá, como há feito sempre,
senão a título de hipóteses, até que sejam confirmados. Se lhe demonstra
rem que está em erro acerca de um ponto, ela se modificará nesse ponto.
A verdade absoluta é eterna e, por isso mesmo, invariável. Mas quem
poderá lisonjear-se de possui-la toda? No estado de imperfeição em que se
acham os nossos conhecimentos, o que hoje nos parece falso pode amanhã
ser reconhecido como verdadeiro, em consequência da descoberta de no
vas leis, e isso tanto na ordem moral quanto na ordem física. Contra essa
eventualidade, a Doutrina nunca deverá estar desprevenida. O princípio
progressivo, que ela inscreve no seu código, será a salvaguarda da sua pere
nidade e a sua unidade se manterá, exatamente porque ela não assenta no
princípio da imobilidade.
Esta, longe de ser uma força, se torna causa de fraqueza e de ruína,
para quem não acompanha o movimento geral; quebra a unidade, por
que os que querem avançar se separam dos que persistem em ficar atrás.
Acompanhando o movimento progressivo, cumpre fazê-lo com prudência
e evitar ir de cabeça baixa ao encontro dos devaneios da utopia e dos siste
mas; cumpre fazê-lo a tempo, nem muito cedo, nem muito tarde, e com
conhecimento de causa.
Indiscutivelmente uma doutrina assente sobre tais bases tem que ser
forte, em realidade, capaz de desafiar qualquer concorrência e de anular as
pretensões dos seus competidores.
Aliás, a experiência já comprovou o acerto desta previsão. Tendo
marchado sempre por esse caminho desde a sua origem, a Doutrina avan
ça constantemente, mas sem precipitação, verificando sempre se é sólido
o terreno em que pisa e medindo seus passos pelo estado da opinião. Há
feito como o navegante que não prossegue sem ter na mão a sonda e sem
consultar os ventos.
TRES – O chefe do Espiritismo
Mas quem será encarregado de manter o Espiritismo nessa senda?
Quem terá o lazer e a perseverança necessários a se consagrar ao trabalho
incessante que essa tarefa exige? Se o Espiritismo for entregue a si mesmo,
sem guia, não será de temer que se desvie da sua rota? e que a malevolência,
com a qual ainda estará por longo tempo em luta, não procure desfigu
rar-lhe o Espírito? É essa, com efeito, uma questão vital e cuja solução se
reveste do maior interesse para o futuro da Doutrina.
A necessidade de uma direção central superior, guarda vigilante da
unidade progressiva e dos interesses gerais da Doutrina, é tão evidente que
já causa inquietação o não ser visto, a surgir no horizonte, o seu condutor.
Compreende-se que, sem uma autoridade moral, capaz de centralizar os
trabalhos, os estudos e as observações, de dar a impulsão, de estimular os
zelos, de defender os fracos, de sustentar os ânimos vacilantes, de ajudar
com os conselhos da experiência, de fixar a opinião sobre os pontos incer
tos, o Espiritismo correria o risco de caminhar ao léu. Não somente essa
direção é necessária, como também preciso se faz que preencha condições
de força e de estabilidade suficientes para afrontar as tempestades.
Os que nenhuma autoridade admitem não compreendem os ver
dadeiros interesses da Doutrina. Se alguns pensam poder dispensar toda
direção, a maioria, os que não se creem infalíveis e não depositam confian
ça absoluta em suas próprias luzes, se sentem necessitados de um ponto
de apoio, de um guia, ainda que apenas para ajudá-los a caminhar com
segurança (Veja-se, na Revista Espírita de abril de 1866, O espiritismo
independente).
Reconhecida a necessidade de uma direção, de quem receberá pode
res o chefe para exercê-la? Será ele aclamado pela universalidade dos adep
tos? É coisa impraticável. Se se impuser por sua própria autoridade, uns o
aceitarão, enquanto outros o recusarão, e podem surgir vinte pretendentes,
levantando bandeira contra bandeira. Fora ao mesmo tempo o despotismo
e a anarquia. Semelhante ato seria próprio de um ambicioso e ninguém
conviria menos do que um ambicioso, por isso mesmo orgulhoso, para
chefiar uma doutrina que se baseia na abnegação, no devotamento, no
desinteresse, na humildade. Colocado fora do princípio fundamental da
Doutrina, outra coisa não poderia fazer, senão falsear-lhe o espírito. É o
que inevitavelmente se daria, se de antemão se não adotassem medidas
eficazes a prevenir esse inconveniente.
Admitamos, no entanto, houvesse um homem com todas as quali
dades necessárias ao desempenho do seu mandato e que, por uma senda
qualquer, chegasse à direção suprema. Os homens se sucedem e não se
assemelham; depois de um bom, poderia vir um mau. Com o indivíduo,
pode mudar o espírito da direção; sem maus desígnios, pode ele ter modos
de ver mais ou menos justos; se entender de fazer que prevaleçam suas
ideias pessoais, pode levar a Doutrina a transviar-se, suscitar dissidências e
as mesmas dificuldades se renovarão a cada mudança. É preciso não esque
cer que o Espiritismo ainda não está na plenitude da sua força. Do ponto
de vista da organização, é uma criança que mal começa a andar. Insta, pois,
sobretudo no princípio, premuni-lo contra os obstáculos do caminho.
Dir-se-á, porém, não virá estar à frente do Espiritismo um dos Es
píritos que, segundo foi anunciado, tem que tomar parte na obra de re
generação? É provável; todavia, como esses Espíritos não trarão na fronte
um sinal para serem reconhecidos; como não se farão reconhecer como
tais pela maioria, senão depois de terem morrido, conformemente ao que
houverem produzido durante a vida; como, ademais, não serão perpétuos,
mister se torna prever todas as eventualidades.
É sabido que eles terão uma missão multíplice; que serão de todos
os graus da escala espiritual e se encontrarão nos diversos ramos da econo
mia social, nos quais cada um exercerá influência a favor das novas ideias,
conforme a particularidade da sua posição; que todos, pois, trabalharão
pelo ascendente da Doutrina, aqui e ali, uns como chefes de Estado, outros
como legistas, outros como magistrados, sábios, literatos, oradores, indus
triais etc.; que cada um dará provas de si onde lhe caiba exercer sua ativi
dade, desde o proletário até o soberano, sem que qualquer coisa os distinga
do comum dos homens, a não serem suas obras. Se a um deles couber tomar
parte na direção, é provável que seja posto providencialmente na posição
apropriada a fazê-lo chegar lá pelos meios legais que forem adotados; cir
cunstâncias aparentemente fortuitas até lá o conduzirão, sem que de sua
parte haja desígnio premeditado, sem mesmo ter ele consciência de sua
missão (Revista Espírita: Os messias do espiritismo, fev./mar. 1868).
Em tal caso, o pior de todos os chefes seria o que se desse por eleito
de Deus. Como não é racional se admita que Deus confie tais missões a
ambiciosos ou a orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro
messias têm que ser, antes de tudo, a simplicidade, a humildade, a mo
déstia, numa palavra, o mais completo desinteresse material e moral. Ora,
a só pretensão de ser um messias constituiria a negação dessas qualidades
essenciais; provaria, naquele que se prevalecesse de semelhante título, ou
tola presunção, em havendo boa-fé, ou insigne impostura.
Não faltarão intrigantes, pseudoespíritas, que queiram elevar-se por
orgulho, ambição ou cupidez; outros que estadeiem pretensas revelações
com o auxílio das quais procurem salientar-se e fascinar as imaginações por
demais crédulas. É também de prever que, sob falsas aparências, indivíduos
haja que tentem apoderar-se do leme, com a ideia preconcebida de fazerem
soçobrar o navio, desviando-o da sua rota. O navio não soçobrará, mas
poderia sofrer prejudiciais atrasos que se devem evitar.
São esses, sem contestação, os maiores escolhos de que o Espiritismo
precisa preservar-se. Quanto maior consistência ele adquirir, tanto mais
ciladas lhe armarão seus adversários. É, portanto, dever de todos os espíri
tas sinceros anular as manobras da intriga que se possam urdir, assim nos
pequenos como nos grandes centros. Deverão eles, em primeiro lugar, re
pudiar, do modo mais absoluto, todo aquele que por si mesmo se apresente
qual messias, quer como chefe do Espiritismo, quer como simples apóstolo
da Doutrina. Pelo fruto é que se conhece a árvore; espere-se, pois, que a
árvore dê seu fruto, para decidir se ela é boa e veja-se também se os frutos
têm sabor (Ver O evangelho segundo o espiritismo, cap. XXI, it. 9: Caracteres
do verdadeiro profeta).
Houve quem propusesse que os candidatos fossem designados pelos
próprios Espíritos em cada grupo ou sociedade espírita. Além de que este
meio não obviaria a todos os inconvenientes, apresentaria outros, peculia
res a semelhante modo de proceder, que a experiência já demonstrou e que
fora supérfluo lembrar aqui. Não se deve perder de vista que a missão dos
Espíritos consiste em nos instruir, para que nos melhoremos, porém não
em se sobreporem ao nosso livre-arbítrio. Eles nos sugerem ideias, ajudam
com seus conselhos, principalmente no que concerne às questões morais,
mas deixam ao nosso raciocínio o encargo da execução das coisas materiais,
encargo a que não lhes cabe poupar-nos. Contentem-se os homens com
o serem assistidos e protegidos por Espíritos bons; não descarreguem, po
rém, sobre eles, a responsabilidade que incumbe ao encarnado.
Esse meio, aliás, suscitaria maiores embaraços do que se poderia su
por, pela dificuldade de fazer-se que todos os grupos participassem de se
melhante eleição. Seria uma complicação nas rodagens e estas tanto menos
suscetíveis se mostrarão de desarranjar-se, quanto mais simplificadas forem.
O problema é, pois, o de constituir-se uma direção central em con
dições, de força e estabilidade, que a ponham ao abrigo de todas as flu
tuações; que correspondam a todas as necessidades da causa e oponham
intransponível barreira às tramas da intriga e da ambição. Tal o objetivo do
plano de que vamos dar um rápido esboço.
QUATRO – Comissão central
Durante o período de elaboração, a direção do Espiritismo teve que
ser individual; era necessário que todos os elementos constitutivos da Dou
trina, saídos, no estado de embriões, de uma multidão de focos, se dirigis
sem para um centro comum, a fim de serem aí examinados e cotejados,
de sorte que um só pensamento presidisse à coordenação deles, a fim de
estabelecer-se a unidade no conjunto e a harmonia entre todas as partes.
Se não fosse assim, a Doutrina se teria assemelhado a um mecanismo cujas
rodas não se engrenam com precisão umas nas outras.
Já o temos dito, por ser verdade incontestável, hoje claramente de
monstrada: a Doutrina não podia sair, de um único centro, completamente
estruturada, da mesma maneira que toda a ciência astronômica não po
deria sair, inteiramente constituída, de um único observatório. Qualquer
centro que tentasse erguê-la exclusivamente sobre as suas observações faria
coisa incompleta e se acharia, com relação a uma infinidade de pontos,
em contradição com os outros. Se mil centros quisessem fazer cada um a
sua doutrina, não haveria duas iguais em todos os pontos. Se estivessem
de acordo quanto aos fundamentos, difeririam inevitavelmente quanto à
forma. Ora, como há muita gente que atenta mais na forma do que na
substância, tantas seriam as seitas quantas as formas diferentes. Somente
do conjunto e da comparação de todos os resultados parciais podia resultar
a unidade. Por isso é que era necessária a concentração dos trabalhos (A
gênese, cap. I: Caráter da revelação espírita, it. 51 e seguintes).
No entanto, o que era de vantagem por certo tempo mais tarde se
tornaria inconveniente. Hoje, que o trabalho de elaboração se acha con
cluído, no que concerne às questões fundamentais; que estabelecidos se en
contram os princípios gerais da Ciência, a direção, de individual que houve
de ser em começo, tem que se tornar coletiva, primeiramente, porque um
momento há de vir em que o seu peso excederá as forças de um homem
e, em segundo lugar, porque maior garantia apresenta um conjunto de
indivíduos, a cada um dos quais caiba apenas um voto e que nada podem
sem o concurso mútuo, do que um só indivíduo, capaz de abusar da sua
autoridade e de querer que predominem as suas ideias pessoais.
Em vez de um chefe único, a direção será confiada a uma comissão
central permanente, cuja organização e atribuições se definam de manei
ra a não dar azo ao arbítrio. Essa comissão se comporá, no máximo, de
doze membros titulares, que deverão, para tal efeito, preencher certas
condições indispensáveis, e de igual número de conselheiros. Ela se com
pletará a si mesma, segundo regras igualmente determinadas, à medida
que em seu seio se derem vagas por falecimentos ou por outras causas.
Uma disposição especial estabelecerá o modo por que serão nomeados os
doze primeiros.
A comissão nomeará o seu presidente por um ano.
Puramente administrativa será a autoridade do presidente. Ele diri
girá as deliberações da comissão, velará pela execução dos trabalhos e pelo
expediente, mas, fora das atribuições que os estatutos constitutivos lhe
conferirem, nenhuma decisão poderá tomar sem o concurso da comissão.
Portanto, não haverá possibilidade de abusos, nem alimentos para a am
bição, nem pretextos para intrigas ou ciúmes, nem supremacia chocante.
A comissão central será, pois, a cabeça, o verdadeiro chefe do Espi
ritismo, chefe coletivo, que nada poderá sem o assentimento da maioria.
Suficientemente numeroso para se esclarecer por meio da discussão, não o
será bastante para que haja confusão.
A autoridade da comissão central será temperada e seus atos fisca
lizados pelos congressos ou assembleias gerais, de que adiante falaremos.
Para a comunidade dos adeptos, a aprovação ou a desaprovação, o
consentimento ou a recusa, as decisões, em suma, de um corpo constituí
do, representando opinião coletiva, forçosamente terão uma autoridade
que jamais teriam, se emanassem de um só indivíduo, que apenas represen
ta uma opinião pessoal. É frequente uma pessoa rejeitar a opinião de outra,
por entender que se humilharia, caso se submetesse a essa opinião, e acatar
sem dificuldades a de muitos.
Fica bem entendido que aqui se trata de autoridade moral, no que
respeita à interpretação e aplicação dos princípios da Doutrina, e não de
um poder disciplinar qualquer. Essa autoridade será, em matéria de Espiri
tismo, o que é a de uma academia, em matéria de Ciência.
Para o público estranho, um corpo constituído tem maior ascen
dente e preponderância; contra os adversários, sobretudo, apresenta uma
força de resistência e dispõe de meios de ação com que um indivíduo não
poderia contar; aquele luta com vantagens infinitamente maiores. Uma
individualidade está sujeita a ser atacada e aniquilada; o mesmo já não se
dá com uma entidade coletiva.
Semelhante entidade oferece garantias de estabilidade, que não exis
te, quando tudo recai sobre uma cabeça única. Desde que o indivíduo se
ache impedido por uma causa qualquer, tudo fica paralisado. A entidade
coletiva, ao contrário, se perpetua incessantemente. Embora perca um ou
vários de seus membros, nada periclita.
A dificuldade, dirão, consistirá em reunir, de modo permanente,
doze pessoas que estejam sempre de acordo.
O essencial é que sejam acordes no tocante aos princípios funda
mentais. Ora, isso constituirá uma condição absoluta para que sejam ad
mitidas à direção, como para a de todos os que desta hajam de participar.
Sobre as questões pendentes de detalhes, pouco importa que divirjam,
porquanto a opinião da maioria é que prevalecerá. Àquele cuja maneira de
ver for acertada, não faltarão razões boas com que a justifique. Se algum,
contrariado por não conseguir que suas ideias predominem, se retirar, nem
por isso deixariam as coisas de seguir o seu curso e motivo não haveria para
se lhe deplorar a saída, pois que teria dado prova de uma suscetibilidade
orgulhosa, pouco espírita, e que poderia tornar-se origem de perturbações.
A causa mais comum de separatividade entre cointeressados é o con
flito de interesses e a possibilidade de uns suplantarem os outros, em pro
veito próprio. Esta causa não pode existir, do momento em que o prejuízo
de um em nada aproveitará aos outros; desde que todos são solidários e
somente podem perder, em vez de ganhar, com a desunião. É esta uma
questão de minúcia prevista na organização.
Admitamos que entre os membros da comissão haja um irmão falso,
um traidor, que os inimigos da causa tenham ganho para si: que logrará
ele fazer, não dispondo senão do seu voto nas decisões? Suponhamos que,
por impossível, toda a comissão enverede por mau caminho: aí estarão os
congressos para reconduzi-la à ordem.
A fiscalização dos atos da administração pertencerá aos congressos,
que poderão decretar a censura ou uma acusação contra a comissão central,
por infração do seu mandato, por violação dos princípios estabelecidos, ou
por medidas prejudiciais à Doutrina. Por isso é que se apelará da comissão
para o congresso, nas circunstâncias em que se julgue que a responsabilida
de da primeira está gravemente comprometida.
Sendo os congressos um freio para a comissão, na aprovação deles
haure esta última novas forças. É assim que o chefe coletivo depende, em
definitivo, da opinião geral e não pode, sem risco para si próprio, afastar-se
do caminho reto.
Serão estas as atribuições principais da comissão central:
1o) Cuidar dos interesses da Doutrina e da sua propagação; manter--lhe a utilidade, pela conservação da integridade dos princípios firmados;
prover ao desenvolvimento de suas consequências;
2o) O estudo dos novos princípios, suscetíveis de entrar no corpo da
Doutrina;25
3o) A concentração, em seu poder, de todos os documentos e infor
mações que interessem ao Espiritismo;
4o) A correspondência;
5o) A manutenção, a consolidação e a extensão dos laços de fraterni
dade entre os adeptos e as sociedades particulares dos diversos países;
6o) A direção da Revista, que será o jornal oficial do Espiritismo e à
qual se poderá juntar outra publicação periódica;
7o) O exame e apreciação das obras, dos artigos de jornais e de
todos os escritos que interessem à Doutrina: a refutação dos ataques, se
aparecerem;
8o) A publicação das obras fundamentais da Doutrina, nas condições
mais favoráveis à sua vulgarização; a elaboração e publicação das de que
daremos o plano e que não teremos tempo de executar em nossa atual exis
tência; a animação de que precisem as publicações que sejam de proveito
para a causa;
9o) A fundação e conservação da biblioteca, dos arquivos e do museu;
10o) A administração da caixa de socorros, do dispensário e do retiro;
11o) A administração dos negócios materiais;
12o) A direção das sessões da Sociedade;
13o) O ensino oral;
25 N.E.: Kardec parecia prever que muitos dos seus discípulos tenderiam para o estacionamento.
304
Constituição do Espiritismo
14o) As visitas e instruções às reuniões e sociedades particulares que
se colocarem sob o seu patrocínio;
15o) A convocação dos congressos e assembleias gerais.
Estas atribuições os membros da comissão as distribuirão entre si,
conforme a especialidade de cada um, sendo eles, se for preciso, assistidos
por certo número de auxiliares ou de simples empregados.
CINCO– Instituições acessórias e complementares
da comissão central
Muitas instituições complementares serão anexadas à comissão cen
tral, como dependências locais, à medida que as circunstâncias o permiti
rem, a saber:
1o) Uma biblioteca, onde se encontrem reunidas todas as obras que
interessem ao Espiritismo e que possam ser consultadas no local, ou cedi
das para leitura fora;
2o) Um museu, onde se achem colecionadas as primeiras obras de
arte espírita, os trabalhos mediúnicos mais notáveis, os retratos dos adeptos
a quem a causa muito deva pelo devotamento que lhe tenham demons
trado, os dos homens a quem o Espiritismo renda homenagens, embora
estranhos à Doutrina, como benfeitores da Humanidade, grandes gênios
missionários do progresso etc.
3o) Um dispensário destinado às consultas médicas gratuitas e ao tra
tamento de certas afecções, sob a direção de um médico diplomado;
4o) Uma caixa de socorros e de previdência em condições práticas;
5o) Um asilo;
6o) Uma sociedade de adeptos, que celebre sessões regulares.
Sem entrar num exame prematuro a respeito, convém dizer algu
mas palavras acerca de dois artigos, com relação aos quais poderão dar-se
equívocos.
A criação de uma caixa geral de socorros é impraticável e apresentaria
sérios inconvenientes, como já o demonstramos em artigo especial (Ver Revis
ta Espírita de julho de 1866). A comissão não deve, pois, tomar um caminho
que teria de abandonar ao cabo de pouco tempo, nem empreender coisa al
guma que não esteja certa de poder realizar. Ela precisa ser positiva e não se
embalar em ilusões quiméricas. Esse o meio de caminhar longo tempo e com
segurança. Para isso, cumpre-lhe ficar sempre dentro dos limites do possível.
A caixa de socorros a criar-se não pode e não deve ser mais do que
uma instituição local, de ação circunscrita e cuja prudente organização sir
va de modelo às do mesmo gênero que as sociedades particulares venham
a criar. Pela sua multiplicidade é que elas prestarão serviços eficazes, e não
pela centralização dos meios de ação.
Será alimentada: 1o) pelas parcelas, que se lhe destinem, tiradas da
renda da caixa geral do Espiritismo; 2o) pelos donativos especiais que lhe
forem feitos. Ela capitalizará as somas que receber, de maneira a constituir
para si um rendimento. Com essa renda é que prestará os socorros tempo
rários ou vitalícios e cumprirá as obrigações do seu mandato, estipuladas
no regulamento da sua constituição.
O projeto de um asilo, na acepção completa do termo, não pode
rá ter execução logo de começo, pelos capitais que reclamaria semelhante
fundação e, ademais, porque é preciso dar à administração tempo de se
firmar e de atuar com regularidade, antes de complicar suas atribuições
com empreendimentos que possam malograr-se. Fora imprudência tentar
muitas coisas, antes de estar certa de dispor dos meios de execução. É o que
facilmente se compreenderá, desde que se pense em todos os pormenores
inerentes a estabelecimentos desse gênero. Convém, sem dúvida, alimentar
boas intenções, mas, antes de tudo, mister se faz poder realizá-las.
SEIS – Amplitude de ação da comissão central
No princípio, um centro de elaboração das ideias espíritas se formou
por si mesmo, sem desígnio premeditado, pela força das coisas, mas sem
nenhum caráter oficial. Ele era necessário, porquanto, se não existira, qual
seria o ponto de ligação dos espíritas disseminados por diferentes países?
Não podendo comunicar suas ideias, suas impressões, suas observações a
todos os outros centros particulares, esparsos a seu turno e não raro sem
consistência, ficariam insulados, com o que a difusão da Doutrina sofreria.
Era, pois, indispensável um ponto de concentração, do qual tudo se irra
diasse. O desenvolvimento das ideias espíritas, longe de tornar inútil esse
centro, ainda melhor fará sentir a sua necessidade, porque tanto maior será
a dos espíritas se aproximarem e formarem feixe, quanto mais considerável
for o número deles. A constituição do Espiritismo, regularizando o estado
das coisas, terá por efeito fazê-lo produzir maiores vantagens e preencher as
lacunas que apresente. O centro que essa organização criará não será uma
individualidade, mas um foco de atividade coletiva, atuando no interesse
geral e onde se apaga toda autoridade pessoal.
Mas qual será a amplitude do círculo de atividade desse centro?
Destinar-se-á a reger o mundo e a tornar-se árbitro universal da verdade?
Alimentar semelhante pretensão fora compreender mal o espírito do Espi
ritismo que, pela razão mesma de proclamar os princípios do livre-exame
e da liberdade de consciência, repele a ideia de arvorar-se em autocracia;
logo que o fizesse, teria enveredado por uma senda fatal.
O Espiritismo sustenta princípios que, por se fundarem nas Leis da
Natureza, e não em abstrações metafísicas, tendem a tornar-se, e um dia
certamente o serão, os da universalidade dos homens; todos os aceitarão,
porque encontrarão neles verdades palpáveis e demonstradas, como aceita
ram a teoria do movimento da Terra, mas pretender-se que o Espiritismo
chegue a estar, por toda parte, organizado da mesma forma; que os espíri
tas do mundo inteiro se sujeitarão a um regime uniforme, a uma mesma
forma de proceder; que terão de esperar lhes venha de um ponto fixo a luz,
ponto em que deverão fixar os olhos, fora utopia tão absurda como a de
pretender-se que todos os povos da Terra formem um dia uma única nação,
governada por um só chefe, regida pelo mesmo código de leis e submetida
aos mesmos usos. Há, é certo, leis gerais que podem ser comuns a todos os
povos, mas que sempre, quanto às minúcias da aplicação e da forma, serão
apropriadas aos costumes, aos caracteres, aos climas de cada um.
Outro tanto se dará com o Espiritismo organizado. Os espíritas do
mundo todo terão princípios comuns, que os ligarão à grande família pelo
sagrado laço da fraternidade, mas cujas aplicações variarão segundo as re
giões, sem que, por isso, a unidade fundamental se rompa; sem que se
formem seitas dissidentes a atirar pedras e lançar anátemas umas às outras,
o que seria absolutamente antiespírita. Poderão, pois, formar-se, e inevita
velmente se formarão, centros gerais em diferentes países, ligados apenas
pela comunidade da crença e pela solidariedade moral, sem subordinação
de uns aos outros, sem que o da França, por exemplo, nutra a pretensão de
impor-se aos espíritas americanos e vice-versa.
É perfeitamente justa a comparação, de que acima nos valemos, com
os observatórios. Há-os em diferentes pontos do globo; todos, seja qual for
a nação a que pertençam, se fundam em princípios gerais firmados pela
Astronomia, o que, entretanto, não os torna tributários uns dos outros.
Cada um regula como entende os respectivos trabalhos. Permutam suas
observações e cada um se utiliza da Ciência e das descobertas dos outros.
Assim acontecerá com os centros gerais do Espiritismo; serão os observató
rios do Mundo Invisível, que permutarão entre si o que obtiverem de bom
e de aplicável aos costumes dos países onde funcionarem, uma vez que o
objetivo que eles colimam é o bem da Humanidade, e não a satisfação de
ambições pessoais. O Espiritismo é uma questão de fundo; prender-se à
forma seria puerilidade indigna da grandeza do assunto. Daí vem que os
centros que se acharem penetrados do verdadeiro espírito do Espiritismo
deverão estender as mãos uns aos outros, fraternalmente, e unir-se para
combater os inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo.
SETE – Os estatutos constitutivos
A redação dos estatutos constitutivos deve preceder a toda execu
ção. Se for confiada a uma assembleia, preciso é que antecipadamente se
determinem as condições que devam preencher os que sejam encarrega
dos do trabalho. A falta de base prévia, a divergência de pontos de vista,
possivelmente as pretensões individuais, sem falar das intrigas dos adversá
rios, poderiam produzir dissídios. Trabalho de tão grande alcance não pode
improvisar-se; demanda longa elaboração, conhecimento das necessidades
reais da Doutrina, conhecimento esse adquirido por meio da experiência e
de sérias meditações. Para que haja unidade de vistas, harmonia e coorde
nação de todas as partes do conjunto, tem ele que promanar da iniciativa
individual, ressalvada a possibilidade de receber mais tarde a sanção dos
interessados. De princípio, porém, será necessária uma regra, um rumo
traçado, um objetivo determinado. Estabelecida a regra, caminha-se com
segurança, sem tateamentos, nem hesitações.
Todavia, como a ninguém é dado possuir a luz universal, nem fazer
perfeito o que quer que seja; como um homem pode equivocar-se acerca
de suas próprias ideias, enquanto outros podem ver o que ele não vê; como
seria abusiva a pretensão de quem quisesse impor-se por qualquer título,
os estatutos serão submetidos à revisão do congresso que haja de reunir-se
mais proximamente, o qual poderá fazer-lhe as retificações que pareçam
convenientes.
No entanto, uma constituição, por muito boa que seja, não poderia
ser perpétua. O que é bom para certa época pode tornar-se deficiente em
época posterior. As necessidades variam com as épocas e com o desenvolvi
mento das ideias. Se não se quiser que com o tempo ela caia em desuso, ou
que venha a ser postergada pelas ideias progressistas, será necessário cami
nhe com essas ideias. Dá-se com as doutrinas filosóficas e com as socieda
des particulares o que acontece em política e em Religião: acompanhar ou
não o movimento propulsivo é uma questão de vida ou de morte. No caso
de que aqui se trata, fora grave erro acorrentar o futuro por meio de uma
regra que se declarasse inflexível.
Não menos grave erro seria introduzir com muita frequência, na
constituição orgânica, modificações que acabariam por privá-la de esta
bilidade. Faz-se mister proceder com ponderação e circunspeção. Só uma
experiência de certa duração pode permitir se julgue da utilidade real das
modificações. Ora, quem pode em tal caso ser juiz? Não será um único ho
mem, que geralmente só do seu ponto de vista vê as coisas; tampouco será
o autor do trabalho primitivo, porque poderá ser demasiado complacente
na apreciação da sua obra. Serão os próprios interessados, porque experi
mentam de modo direto e permanente os efeitos da instituição e podem
perceber por onde ela peca.
A revisão dos estatutos constitutivos se fará pelos congressos ordinários,
transformados para esse efeito em congressos orgânicos, em determinadas
épocas, e assim se prosseguirá indefinidamente, de maneira a conservá-los,
sem interrupção, ao nível das necessidades e do progresso das ideias, ainda
que a mil anos daqui.
Sendo periódicas e conhecidas antecipadamente as épocas de revi
são, não haverá cabimento para se fazerem apelos, nem convocações espe
ciais. A revisão constituirá não apenas um direito, mas também um dever
do congresso da época indicada; inscrever-se-á, de antemão, na sua ordem
do dia, de sorte que não estará subordinada à boa vontade de quem quer
que seja e ninguém poderá arrogar-se o direito de decidir, firmado na sua
autoridade particular, se a revisão é ou não oportuna. Se, depois de lidos os
estatutos, o congresso julgar desnecessária qualquer modificação, declará--los-á mantidos na íntegra.
Sendo forçosamente limitado o número dos membros dos congres
sos, atenta a impossibilidade material de reunir neles todos os interessados,
para que os que se reúnam não fiquem privados das luzes dos ausentes, to
dos estes poderão, qualquer que seja o lugar do mundo onde se encontrem,
enviar à comissão central, no intervalo de dois congressos orgânicos, suas
observações, que serão postas em ordem do dia do congresso vindouro.
Nenhum movimento apreciável das ideias se esboça em período me
nor do que um quarto de século. De vinte cinco em vinte cinco anos,
pois, é que a constituição orgânica do Espiritismo será submetida à revisão.
Sem ser demasiado longo, esse lapso de tempo é suficiente a permitir se
apreciem as necessidades novas e não se causem perturbações por efeito de
modificações muito frequentes.
Contudo, como nos primeiros anos é que se verificará o maior tra
balho de elaboração; é que o movimento a operar-se nessa ocasião pode
fazer surjam necessidades imprevistas, até que a sociedade haja firmado
seus passos; e é que importa se aproveitem, sem grande demora, as lições
da experiência, mais aproximadas serão as épocas de revisão, porém sem
pre determinadas previamente, até o fim do século atual. No intervalo
dos trinta primeiros anos, a constituição se terá completado e retificado
suficientemente, para gozar de relativa estabilidade. Então é que, sem in
conveniente, poderão começar os períodos de vinte cinco anos.
Desta maneira, a obra individual primitiva, que abrira o caminho, se
tornará obra coletiva de todos os interessados, com as vantagens inerentes a
esses dois modos, sem os seus inconvenientes. Ela se modificará sob o im
pério das ideias progressivas e da experiência, mas sem abalos, sem precipi
tações, porque obedecerá ao princípio estabelecido na própria constituição.
OITO – Do programa das crenças
A condição absoluta de vitalidade para toda reunião ou associação,
qualquer que seja o seu objetivo, é a homogeneidade, isto é, a unidade de
vistas, de princípios e de sentimentos, a tendência para um mesmo fim
determinado, numa palavra: a comunhão de ideias. Todas as vezes que
alguns homens se congregam em nome de uma ideia vaga jamais chegam
a entender-se, porque cada um apreende essa ideia de maneira diferente.
Toda reunião formada de elementos heterogêneos traz em si os germens da
sua dissolução, porque se compõe de interesses divergentes, materiais, ou
de amor-próprio, tendentes a fins diversos que se entrechocam e rarissi
mamente se mostram dispostos a fazer concessões ao interesse comum, ou
mesmo à razão; que suportam a opinião da maioria, se outra coisa não lhes
é possível, mas que nunca se aliam francamente.
Assim foi sempre, até o advento do Espiritismo. Formado gradativa
mente, como todas as ciências, em consequência de observações sucessivas,
sua aceitação tem ganho pouco a pouco maior amplitude. O qualificativo
de espírita, aplicado sucessivamente a todos os graus de crença, comporta
uma infinidade de matizes, desde o da simples crença nas manifestações,
até as mais altas deduções morais e filosóficas; desde aquele que, detendo--se na superfície, não vê nas manifestações mais do que um passatempo,
até aquele que procura a concordância dos seus princípios com as leis uni
versais e a aplicação dos mesmos princípios aos interesses gerais da Huma
nidade; enfim, desde aquele que não vê nas manifestações senão um meio
de exploração em proveito próprio, até o que haure delas elementos para
seu próprio melhoramento moral.
Dizer-se alguém espírita, mesmo espírita convicto, não indica, pois,
de modo algum, a medida da crença; essa palavra exprime muito, com
relação a uns, e muito pouco, relativamente a outros. Uma assembleia para
a qual se convocassem todos os que se dizem espíritas apresentaria um
amálgama de opiniões divergentes, que não poderiam assimilar-se recipro
camente, e nada de sério chegaria a realizar, sem falar dos interessados a
suscitarem no seu seio as discussões a que ela abrisse ensejo.
Essa falta de precisão, inevitável no começo e durante o período de
elaboração, há frequentemente causado equívocos lamentáveis, fazendo se
atribuísse à Doutrina o que não passava de abuso ou transviamento. Pela
falsa aplicação que diariamente se faz do qualificativo de espírita é que a
crítica, pouco inquirindo do fundo das coisas e ainda menos do lado sério
do Espiritismo, encontrou nele matéria para zombarias. Diga-se espírita
um indivíduo, ou pretenda fazer Espiritismo como os prestidigitadores
pretendem fazer física, embora seja um saltimbanco, e logo se considera
representante da Doutrina. Uma distinção, é certo, se tem feito entre os
bons e os maus, os verdadeiros e os falsos espíritas, os espíritas mais ou me
nos esclarecidos, mais ou menos convencidos, os espíritas de coração etc.
Mas essas designações, sempre vagas, nada de autêntico revelam, nada que
os caracterize, quando não se conhecem os indivíduos e ainda não se teve
ocasião de os julgar por suas obras.
Pode-se, pois, ser enganado pelas aparências, das quais resulta que a
qualificação de espírita, não comportando mais que uma aplicação falha,
não constitui recomendação absoluta e essa incerteza lança nos espíritas
uma espécie de desconfiança, que impede se estabeleça entre os adeptos
um laço sério de confraternização.
Hoje, quando nenhuma dúvida mais se legitima sobre os pontos fun
damentais da Doutrina, nem sobre os deveres que tocam a todos os adeptos
sérios, a qualidade de espírita pode ter um caráter definido, de que antes
carecia. É possível estabelecer-se um formulário de profissão de fé e a ade
são, por escrito, a esse programa será testemunho autêntico da maneira de
considerar o Espiritismo. Essa adesão, comprovando a unidade dos princí
pios, será, além do mais, o laço que unirá os adeptos numa grande família,
sem distinção de nacionalidades, sob o império de uma mesma fé, de uma
comunhão de pensamentos, de modos de ver e de aspirações. A crença no
Espiritismo já não será simples aquiescência, muitas vezes parcial, a uma
ideia vaga, porém uma adesão motivada, feita com conhecimento de causa
e comprovada por um título oficial, deferido ao aderente. Para evitar os
inconvenientes da falta de precisão, quanto ao qualificativo de espírita, os
signatários da profissão de fé tomarão o título de espíritas professos.
Assentando numa base precisa e definida, essa qualificação a ne
nhum equívoco dá lugar, permitindo que os adeptos que professem os
mesmos princípios e caminhem pela mesma senda se reconheçam, sem
outra formalidade mais do que a declaração de sua qualidade e, se for pre
ciso, a apresentação do seu título.
Um formulário de profissão de fé, circunstanciado e claramente ex
presso será o caminho traçado; o título de espírita professo será a palavra de
ligação.
Mas, perguntar-se-á, esse título constituirá garantia bastante contra
os de sinceridade duvidosa?
É impossível obter-se garantia absoluta contra a má-fé, porquanto
pessoas há que tratam com descaso os atos mais solenes; convenhamos, to
davia, em que essa garantia vale mais do que qualquer outra que não exista.
Aliás, aquele que, sem escrúpulos, se faz passar pelo que não é — quando
a questão é só de palavras que voam —, muitas vezes recua diante de uma
afirmação escrita, que deixa vestígios e que lhe pode ser apresentada no
caso de ele afastar-se do caminho reto. Se, entretanto, alguns haja que
não se deixem deter por essa consideração, mínimo seria o número deles
e nenhuma influência teriam. Ademais, essa hipótese estará prevista nos
estatutos, que lhe consagrarão um dispositivo especial.
Tal providência inevitavelmente afastará das reuniões sérias as pessoas
que aí não estariam em seus devidos lugares. Se ela tivesse por efeito o afasta
mento de alguns espíritas de boa-fé, estes seriam dos que não se acham bas
tante senhores de si mesmos, para se declararem tais, ou dos timoratos, que
temem pôr-se em evidência, ou, ainda, dos que jamais são os primeiros a pro
nunciar-se, em quaisquer circunstâncias, antes de verem que rumo tomam as
coisas. Com o tempo, uns se esclarecerão de modo mais completo e os outros
tomarão coragem. Nem uns, nem outros, no entanto, poderão contar-se entre
os firmes defensores da causa. Quanto àqueles cuja ausência fora verdadeira
mente de lamentar, será pequeno o número deles e diminuirá continuamente.
Nada sendo perfeito neste mundo, as melhores coisas têm seus in
convenientes. Se se houvesse de rejeitar tudo o que não esteja isento de
inconveniências, nada se admitiria. Em tudo se faz preciso contrapesar as
vantagens e desvantagens. Ora, é por demais evidente que, aqui, as primei
ras sobrepujam as segundas.
Que nem todos os que se qualificam de espíritas se submeterão à
constituição, é certo; por isso mesmo, ela existirá apenas para os que a acei
tarem livremente e voluntariamente, porquanto não nutrirá a pretensão de
impor-se a quem quer que seja.
Uma vez que o Espiritismo não é compreendido da mesma forma
por toda a gente, a constituição apela para os que o encaram do seu ponto
de vista, com o objetivo de lhe dar apoio, quando se achem isolados, e
de fortalecer os laços da grande família pela unidade da crença. Mas fiel
ao princípio de liberdade de consciência, que a Doutrina proclama como
direito natural, ela respeitará todas as convicções sinceras e não anatemati
zará os que sustentem ideias diferentes das suas, nem deixará de aproveitar
as luzes que possam brilhar fora do seu seio.
O essencial é, portanto, conhecer os que seguem a mesma trilha.
Mas como sabê-lo com exatidão? É materialmente impossível consegui-lo
por meio de interrogatórios individuais, acrescendo que ninguém pode ser
investido do direito de perscrutar as consciências. O único meio, o mais
simples, o mais legal, seria estabelecer um formulário de princípios, resu
mindo o estado dos conhecimentos atuais que ressaltam da observação e
que têm a sancioná-los o ensino geral dos Espíritos, ensino a que cada um é
livre de aderir ou não. A adesão escrita é uma profissão de fé, que dispensa
qualquer outra investigação, deixando a cada um inteira liberdade.
Conseguintemente, a constituição do Espiritismo tem como com
plemento necessário, no que concerne à crença, um programa de princípios
definidos, sem o qual seria obra sem alcance e sem futuro. Este programa,
fruto da experiência adquirida, será o marco indicador do caminho. Para
perlustrá-lo com segurança, a par da constituição orgânica, faz-se necessá
ria uma constituição da fé, um credo, se o preferirem, que seja o ponto de
referência de todos os adeptos.
Contudo, nem esse programa, nem a constituição orgânica podem
ou devem acorrentar o futuro, sob pena de sucumbirem, cedo ou tarde, sob
as coações do progresso. Fundado de acordo com o estado presente dos co
nhecimentos, tem ele que se modificar e completar à medida que novas ob
servações lhe demonstrarem as deficiências ou os defeitos. As modificações,
entretanto, não lhe devem ser introduzidas levianamente, nem com precipi
tação. Hão de ser obra dos congressos orgânicos que, à revisão periódica dos
estatutos constitutivos, acrescentará a do formulário dos princípios.
Marchando constantemente de harmonia com o progresso, consti
tuição e credo subsistirão na sucessão dos tempos.
NOVE – Vias e meios
É de lastimar, sem dúvida, que tenhamos de entrar em considerações
de ordem material, para alcançarmos um objetivo todo espiritual. Cum
pre, porém, observemos que a espiritualidade mesma da obra se prende
à questão da Humanidade terrena e do seu bem-estar; que já não se trata
somente da emissão de algumas ideias filosóficas, mas de fundar alguma
coisa de positivo e de durável. Imaginar que ainda estamos nos tempos
em que alguns apóstolos podiam pôr-se a caminho com um bastão de
viagem, sem cogitarem de saber onde pousariam, nem do que comeriam,
fora alimentar uma ilusão que bem depressa amarga decepção destruiria.
Para alguém fazer qualquer coisa de sério, tem que se submeter às necessi
dades impostas pelos costumes da época em que vive e essas necessidades
são muito diversas das dos tempos da vida patriarcal. O próprio interesse
do Espiritismo exige, pois, que se apreciem os meios de ação, para não ser
forçoso parar a meio do caminho. Apreciemo-los, portanto, uma vez que
estamos num século em que é preciso calcular tudo.
São em grande número, como se vê, as atribuições da comissão
central, para necessitarem de uma verdadeira administração. Tendo cada
um de seus membros funções ativas e assíduas, se apenas a constituíssem
homens de boa vontade, os trabalhos seriam prejudicados, porquanto
ninguém teria o direito de censurar os negligentes. Para regularidade dos
trabalhos e normalidade do expediente, necessário se torna contar com
homens de cuja assiduidade se possa estar certo e que não considerem suas
funções como simples atos de comprazer. De quanto mais independência
eles forem senhores, pelos seus recursos pessoais, tanto menos se deixarão
prender por ocupações quaisquer; se não dispuserem de tempo, não po
derão consagrá-lo àquelas funções. Importa, pois, que sejam retribuídos,
assim como o pessoal administrativo. A Doutrina com isso ganhará em
força, em estabilidade, em pontualidade, do mesmo passo que constituirá
um meio de prestar serviços a pessoas que dela necessitem.
Ponto essencial, na economia de toda administração previdente,
é que sua existência não dependa de produtos eventuais que possam fa
zer falta, mas de recursos certos, regulares, de maneira que sua marcha,
aconteça o que acontecer, não seja embaraçada. Insta, pois, que as pes
soas que forem chamadas a lhe prestar concurso, não se sintam inquietas
pelo futuro que as aguarde. Ora, a experiência demonstra que se devem
considerar essencialmente aleatórios os recursos que apenas tenham por
base o produto de cotas ou contribuições, sempre facultativas, quais
quer que sejam os compromissos contraídos, e de cobrança sempre difí
cil. Assentar despesas permanentes e regulares sobre recursos eventuais,
implicaria falta de previdência, que mais tarde se haveria de deplorar.
Menos graves são, sem dúvida, as consequências, quando se trate de
fundações temporárias, destinadas a durar quanto possam; aqui, porém,
é uma questão de futuro. A sorte de uma administração como esta não
pode ficar subordinada aos azares de um negócio comercial; precisa ser,
desde o seu início, senão tão florescente, pelo menos tão estável quanto
o será daqui a um século.
Em tal caso, a mais vulgar prudência manda se capitalizem, de for
ma inalienável, os recursos, à proporção que vão sendo obtidos, a fim de
constituir-se uma renda perpétua, a coberto de todas as eventualidades.
Regulando a administração a sua despesa pela renda que aufira, não pode
a sua existência, em nenhum caso, achar-se comprometida, pois que dis
porá sempre de meios para funcionar. Pode, no começo, organizar-se em
menor escala; o número de membros da comissão poderá ser limitado
provisoriamente a cinco ou seis, o pessoal e os gastos administrativos redu
zidos ao mínimo possível, sem prejuízo do desenvolvimento dos recursos.
A preparar o caminho para essa instalação é que consagramos até
agora o fruto dos nossos trabalhos, conforme dissemos acima. Se os nossos
recursos pessoais não nos permitem fazer mais, temos, pelo menos, a satis
fação de haver colocado a primeira pedra.
Figuremos então que, de um modo ou doutro, a comissão central,
em dado tempo, esteja em condições de funcionar, o que pressupõe uma
renda de 25 a 30.000 francos. Restringindo, em começo, as suas despesas,
os recursos de toda espécie de que disponha, em capitais e produtos even
tuais, constituirão a Caixa Geral do Espiritismo, que será objeto de uma
contabilidade rigorosa. Reguladas as despesas obrigatórias, o excedente da
renda irá aumentar o capital comum. Proporcionalmente, com os recur
sos desse capital é que a comissão proverá às diversas despesas proveitosas
ao desenvolvimento da Doutrina, sem que jamais faça dele aplicação pes
soal, nem fonte de especulação para qualquer de seus membros. Ademais,
o emprego dos fundos e escrituração serão submetidos à verificação de
comissários especiais, designados, para esse efeito, pelos congressos ou
assembleias gerais.
A comissão terá por um de seus primeiros cuidados ocupar-se com
as publicações, desde que seja possível, sem esperar que o possa fazer com
o auxílio das rendas. Os fundos a isso destinados não serão, em realidade,
mais que um adiantamento, pois que voltarão à caixa, em virtude da ven
da das obras, cujo produto reverterá ao capital comum. É um negócio de
administração.
DEZ – Allan Kardec e a nova constituição
Como prelúdio da nova constituição do Espiritismo, que ele ela
borava, e a externação da sua maneira de ver com referência à sua posição
pessoal, têm perfeito cabimento neste preâmbulo as considerações que pas
samos a reproduzir, extraídas da exposição que, a propósito da Caixa do
Espiritismo, ele fez à Sociedade de Paris, em 5 de maio de 1865:
“Muito se há falado dos proventos que eu retirava das minhas obras.
Certamente, nenhuma pessoa séria acredita nos meus milhões, a despeito
da afirmação dos que diziam saber de boa fonte que eu mantinha um
trem principesco, carruagens a quatro e que em minha casa se andava
por cima de tapetes d’Aubusson (Ver Revista Espírita, jun. 1862, Assim
se escreve a História! – Os milhões do Sr. Allan Kardec). Além disso, não
obstante o que disse o autor de uma brochura que conheceis, provando,
por meio de cálculos hiperbólicos, que o meu orçamento de receita ul
trapassa a lista civil do mais poderoso soberano da Europa, porquanto,
só na França, vinte milhões de espíritas são meus tributários (Ver Revista
Espírita, jul. 1863, Orçamento do Espiritismo), há um fato mais autêntico
do que os seus cálculos, isto é: que eu nada nunca pedi a ninguém, que
nunca ninguém me deu nada para mim pessoalmente; numa palavra:
que não vivo a expensas de quem quer que seja, pois que, das somas que
voluntariamente se me confiaram no interesse do Espiritismo, nenhuma
parcela foi desviada em meu proveito.26
As minhas imensas riquezas proviriam, pois, das minhas obras es
píritas. Conquanto essas obras tenham alcançado inesperado êxito, quem
quer que esteja um pouco iniciado em negócios de livraria sabe que não é
com livros filosóficos que se ganham milhões em cinco ou seis anos, quan
do sobre as vendas não se tem mais do que os direitos de autor, que não
passam de alguns cêntimos por exemplar. Mas, avultado ou mínimo, sen
do esse lucro fruto do meu trabalho, ninguém tem o direito de se imiscuir
no emprego que lhe dou.
Comercialmente falando, estou na posição de qualquer homem que
colha o fruto de seu trabalho; corro os azares de todo escritor que tanto
pode ser bem-sucedido, como pode sofrer um malogro.
Quem quer que tenha visto a nossa habitação outrora e a veja hoje
poderá atestar que nada mudou na nossa maneira de viver, depois que en
trei a ocupar-me com o Espiritismo; ela é agora absolutamente tão simples
quanto o era antigamente. É portanto, manifesto que meus lucros, quais
quer que tenham sido, não deram para nos proporcionar os gozos do luxo.
Que se segue daí?
Tirando-me da obscuridade, o Espiritismo me lançou num novo
rumo; em pouco tempo, vi-me arrastado por um movimento que me acha
va longe de prever. Quando concebi a ideia de O livro dos espíritos, era
minha intenção não me pôr de modo algum em evidência e permanecer
desconhecido, mas, para logo ultrapassados os limites que eu imaginara,
isso não me foi possível; tive de renunciar ao meu gosto pelo insulamento,
sob pena de abdicar da obra empreendida e que crescia de dia para dia;
foi-me preciso ceder à impulsão e tomar-lhe as rédeas. À proporção que
ela se desenvolvia, mais vasto horizonte se desdobrava diante de mim e lhe
distanciava os lindes. Compreendi então a imensidade da minha tarefa e a
importância do trabalho que me restava fazer para completá-la. As dificul
dades e os obstáculos, longe de me atemorizarem, redobraram as minhas
energias. Divisei o fim objetivado e resolvi atingi-lo, com a assistência dos
bons Espíritos. Sentia que não tinha tempo a perder e não perdi, nem
em visitas inúteis, nem em cerimônias estéreis. Foi a obra de minha vida.
Dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe o meu repouso, a minha saúde,
porque diante de mim o futuro estava escrito em letras irrecusáveis.
Sem me afastar do meu gênero de vida, nem por isso essa posição
excepcional deixou de criar-me necessidades a que só os meus recursos
pessoais, muito limitados, não me permitiam prover. Seria difícil a outrem
imaginar a multiplicidade das despesas que aquela posição acarreta e que,
sem ela, eu teria evitado.
Pois bem! Senhores, o que me proporcionou suprimento aos meus
recursos foi o produto das minhas obras. Digo-o com satisfação, foi com o
meu próprio trabalho, com o fruto das minhas vigílias que provi, em sua
maior parte pelo menos, às necessidades materiais da instalação da Dou
trina. Levei assim uma larga contribuição à Caixa do Espiritismo; os que
ajudam a propagação das obras não poderão, conseguintemente, dizer que
trabalham para me enriquecer, porque o produto da venda de todo livro,
de toda assinatura da Revista redunda em proveito da Doutrina, e não do
indivíduo.
Mas prover ao presente não era tudo; importava também pensar
no futuro e preparar uma fundação que, depois de mim, pudesse auxiliar
aquele que me substituísse na grande tarefa que terá de desempenhar. Essa
fundação, a cujo respeito ainda devo guardar silêncio, se prende à proprie
dade que possuo e é em vista disso que aplico, em melhorá-la, uma parte
do que ganho. Como estou longe dos milhões com que me gratificaram,
duvido muito que, sem embargo das minhas economias, os meus recursos
me permitam jamais dar a essa fundação o complemento que eu desejara
ela tivesse, ainda em minha vida. Uma vez, porém, que a sua realização
está nos desígnios dos meus guias espirituais, se eu próprio não o fizer, é
provável que, um dia ou outro, isso se fará. Enquanto aguardo, vou elabo
rando os planos a que ela obedecerá.
Longe de mim, senhores, a ideia de me envaidecer, ainda que de
leve, com o que acabo de expor-vos. Foi necessária a pertinácia de certas
diatribes, para que eu me decidisse, embora a contragosto, a quebrar o si
lêncio acerca de alguns fatos que me concernem. Mais tarde, todos aqueles
que à malignidade aprouve desnaturar serão evidenciados, por meio de
documentos autênticos. Ainda não chegou a oportunidade para essas ex
plicações. A única coisa que por enquanto me importava era que ficásseis
esclarecidos com relação ao destino dos fundos que a Providência faz que
passem pelas minhas mãos, qualquer que seja a proveniência deles. Não me
considero mais do que um depositário, até mesmo do que ganho; portan
to, com mais forte razão, daquilo que me é confiado.
Perguntou-me alguém certo dia, sem curiosidade, bem entendido,
por mero interesse pela coisa em si, o que eu faria de um milhão de francos,
se o tivesse. Respondi-lhe que, presentemente, o emprego dessa soma teria
de ser totalmente diverso do que houvera sido no princípio. Outrora, eu
com ela teria feito a propaganda, mediante larga publicidade; agora, reco
nheço que isso seria inútil, pois que os nossos adversários se encarregaram de
custeá-la. Não me pondo então à disposição grandes recursos, os Espíritos
quiseram provar que o Espiritismo devia seus triunfos à sua própria força.
Hoje, ampliado como está o horizonte e quando, sobretudo, o fu
turo se desdobrou, são de ordem muito diferente as necessidades que se
fazem sentir. Um capital, como o figurado, teria emprego mais útil. Sem
entrar em pormenores que seriam prematuros, direi apenas que uma parte
se destinaria a converter a minha propriedade numa casa especial de re
tiro espírita, cujos habitantes colheriam os benefícios da nossa doutrina
moral; outra a constituir uma renda inalienável, destinada: 1o) a manter o
estabelecimento; 2o) a assegurar uma existência independente àquele que
me sucedesse e aos que o ajudassem no desempenho da sua missão; 3o) a
atender às necessidades correntes do Espiritismo, sem os riscos de auxílios
eventuais, como sou obrigado a fazer, pois que a maior parte de seus recur
sos decorrem do meu trabalho, que terá termo.
Aí está o que eu faria, mas, se tal satisfação não me é dada, sei que, de
um modo ou de outro, os Espíritos que dirigem o movimento proverão a
todas as necessidades em tempo oportuno. Por isso, de forma nenhuma me
inquieto e só me ocupo com o que, para mim, é o essencial: o acabamento
dos trabalhos que me restam por terminar”.
Ao que ele então dizia, acrescentou recentemente Allan Kardec:
“Quando a comissão estiver organizada, dela faremos parte como
simples membro seu, dando-lhe a nossa colaboração, sem reivindicar, para
nós, nem supremacia, nem título, nem qualquer privilégio.
Embora membro ativo da comissão, não pesaremos de forma algu
ma no seu orçamento, nem por honorários, nem por despesas de viagens,
nem por qualquer outra causa. Se nunca a ninguém nada pedimos para
nós, ainda menos o faríamos nesta circunstância. Nosso tempo, nossa vida,
todas as nossas forças físicas e intelectuais pertencem à Doutrina. Declara
mos, pois, formalmente, que nenhuma parcela dos recursos de que dispu
ser a comissão será desviada em proveito nosso.
Dar-lhe-emos, ao contrário, a nossa contribuição:
1o) abrindo mão, em seu favor, do que produzam as nossas obras,
feitas e por fazer;
2o) doando-lhe valores mobiliários e imobiliários.
Achando-se organizado o Espiritismo pela constituição da comissão
central, nossas obras se tornarão propriedade do Espiritismo, na pessoa
dessa mesma comissão, que as gerirá e cuidará da publicação delas, pelos
meios mais apropriados a popularizá-las. Ela também deverá cuidar de que
sejam traduzidas nas principais línguas estrangeiras.
A Revista foi, até agora, e não podia deixar de ser, uma obra pessoal,
visto que fazia parte das nossas obras doutrinárias, constituindo os anais
do Espiritismo. Por seu intermédio é que todos os princípios novos foram
elaborados e entregues ao estudo. Era, pois, necessário que conservasse seu
caráter individual, para que se estabelecesse a unidade.
Fomos, por diversas vezes, solicitados a fazê-la circular mais amiú
de; por muito lisonjeiro, porém, que nos fosse esse desejo, não pudemos
atendê-lo, primeiramente, porque o tempo material não nos consentia esse
acréscimo de trabalho e, em segundo lugar, porque importava não perdesse
ela o seu caráter essencial, que não é o de um jornal propriamente dito.
Hoje, que a nossa obra pessoal se aproxima do seu termo, as neces
sidades já não são as mesmas; a Revista se tornará, como as nossas outras
obras, feitas e por fazer, propriedade coletiva da comissão, que lhe tomará
a direção, para maior vantagem do Espiritismo, sem que, por isso, renun
ciemos a lhe prestar a nossa colaboração.
Para completar a obra doutrinária, falta-nos publicar vários tra
balhos, que não formam a parte menos difícil, nem menos penosa.
Conquanto já disponhamos de todos os elementos para os executar e o
programa de cada um esteja traçado até o último capítulo, poderíamos
dispensar-lhes mais acurada atenção e ativá-los, se, por instituída a co
missão central, estivéssemos livres de outros cuidados que nos absorvem
grande parte do tempo.
O primeiro período do Espiritismo foi consagrado ao estudo dos
princípios e das leis, que em seu conjunto tinham de constituir a Doutrina;
numa palavra: a preparar os materiais, ao mesmo tempo que à vulgarização
da ideia. Foi o do plantio da semente que, semelhante à da Parábola do
Evangelho, não frutificaria igualmente por toda parte. A criança cresceu;
tornou-se adulto e chegado é o momento em que, amparado por adeptos
sinceros e devotados, tem que avançar para o objetivo que lhe está posto,
sem ser obstado pelos retardatários.
Mas como fazer essa seleção? Quem ousaria assumir a responsabi
lidade de um julgamento a incidir sobre as consciências individuais? O
melhor seria que a seleção se fizesse por si mesma e o meio era bem simples:
bastava desfraldar um estandarte e dizer — sigam-no os que o adotem.
Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um
direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender,
a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante
em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode quei
xar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para
atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar
as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita
(Ver Revista Espírita, abril de 1866).
Depois de tudo o que fica dito, facilmente se compreenderá quão
impossível e prematuro fora estabelecer essa constituição logo no princí
pio. Se a Doutrina Espírita se houvera formado em conjunto, como toda
concepção pessoal, teria sido completada desde o primeiro dia e, então,
nada mais simples do que constituí-la. No entanto, tendo ela surgido gra
dualmente, em consequência de aquisições sucessivas, a sua constituição
teria congregado todos os amantes de novidades; em breve, porém, estaria
abandonado pelos que não lhe aceitassem todas as consequências.
Entretanto, alguns porventura dirão: não estais assim provocando uma
cisão entre os adeptos? Abrindo dois campos, não enfraqueceis a falange?
Nem todos os que se dizem espíritas pensam do mesmo modo sobre
todos os pontos; a divisão existe, de fato, e é muito mais prejudicial, por
que pode acontecer que não se saiba se, num espírita, está um aliado ou
um antagonista. O que faz a força é a universalidade: ora, uma união fran
ca não poderia existir entre pessoas interessadas, moral ou materialmente,
em não seguir o mesmo caminho e que não objetivam o mesmo fim. Dez
homens unidos por um pensamento comum são mais fortes do que cem
que não se entendam. Em tal caso, a miscelânea de vistas divergentes tira
a força de coesão entre os que desejariam andar juntos, exatamente como
um líquido que, infiltrando-se num corpo, ergue obstáculo à agregação das
moléculas desse corpo.
Se a constituição tem por efeito diminuir momentaneamente o nú
mero aparente dos espíritas, terá, por outro lado, como consequência, dar
mais força aos que caminharem de comum acordo para a realização do
grande objetivo humanitário que o Espiritismo há de alcançar. Eles se co
nhecerão e se estenderão mutuamente as mãos, de um extremo a outro do
mundo.
Terá, além disso, por efeito opor barreira às ambições que, se se
impusessem, tentariam desviá-lo em proveito próprio. Tudo está calcu
lado, visando esse resultado, pela supressão de toda autocracia ou supre
macia pessoal.
Credo espíritaPreâmbulo
Os males da Humanidade provêm da imperfeição dos homens;
pelos seus vícios é que eles se prejudicam uns aos outros. Enquanto
forem viciosos, serão infelizes, porque a luta dos interesses gerará cons
tantes misérias.
Sem dúvida, boas leis contribuem para melhorar o estado social, mas
são impotentes para tornar venturosa a Humanidade, porque mais não
fazem do que comprimir as paixões ruins, sem as eliminar. Em segundo
lugar, porque são mais repressivas do que moralizadoras e só reprimem os
mais salientes atos maus, sem lhes destruir as causas. Aliás, a bondade das
leis guarda relação com a bondade dos homens; enquanto estes se conser
varem dominados pelo orgulho e pelo egoísmo, farão leis em benefício de
suas ambições pessoais. A lei civil apenas modifica a superfície; somente a
lei moral pode penetrar o foro íntimo da consciência e reformá-lo.
Reconhecido, pois, que o atrito oriundo do contato dos vícios é que
faz infortunados os homens, o único remédio para seus males está em se
melhorarem eles moralmente. Uma vez que nas imperfeições se encontra
a causa dos males, a felicidade aumentará na proporção em que as imper
feições diminuírem.
Por melhor que seja uma instituição social, sendo maus os homens,
eles a falsearão e lhe desfigurarão o espírito para a explorarem em proveito
próprio. Quando os homens forem bons, organizarão boas instituições,
que serão duráveis, porque todos terão interesse em conservá-las.
A questão social não tem, pois, por ponto de partida a forma de tal
ou qual instituição; ela está toda no melhoramento moral dos indivíduos
e das massas. Aí é que se acha o princípio, a verdadeira chave da felicidade
do gênero humano, porque então os homens não mais cogitarão de se
prejudicarem reciprocamente. Não basta se cubra de verniz a corrupção, é
indispensável extirpar a corrupção.
O princípio do melhoramento está na natureza das crenças, porque
estas constituem o móvel das ações e modificam os sentimentos. Também
está nas ideias inculcadas desde a infância e que se identificam com o Es
pírito; está ainda nas ideias que o desenvolvimento ulterior da inteligência
e da razão podem fortalecer, nunca destruir. É pela educação, mais do que
pela instrução, que se transformará a Humanidade.
O homem que se esforça seriamente por se melhorar assegura para si
a felicidade, já nesta vida. Além da satisfação que proporciona à sua cons
ciência, ele se isenta das misérias materiais e morais, que são a consequência
inevitável das suas imperfeições. Terá calma, porque as vicissitudes só de
leve o roçarão. Gozará de saúde, porque não estragará o seu corpo com os
excessos. Será rico, porque rico é sempre todo aquele que sabe contentar-se
com o necessário. Terá a paz do espírito, porque não experimentará neces
sidades fictícias, nem será atormentado pela sede das honrarias e do supér
fluo, pela febre da ambição, da inveja e do ciúme. Indulgente para com as
imperfeições alheias, menos sofrimentos lhe causarão elas, que, antes, lhe
inspirarão piedade, e não cólera. Evitando tudo o que possa prejudicar o
seu próximo, por palavras e por atos, procurando, ao invés, fazer tudo o que
possa ser útil e agradável aos outros, ninguém sofrerá com o seu contato.
Garante a sua felicidade na vida futura, porque quanto mais ele se
depurar, tanto mais se elevará na hierarquia dos seres inteligentes e cedo
abandonará esta terra de provações, por mundos superiores, porquanto o
mal que haja reparado nesta vida não terá que o reparar em outras existên
cias; porquanto, na erraticidade, só encontrará seres amigos e simpáticos
e não será atormentado pela visão incessante dos que contra ele tenham
motivos de queixa.
Vivam juntos alguns homens, animados desses sentimentos, e serão
tão felizes quanto o comporta a nossa terra. Ganhem assim, passo a passo,
esses sentimentos todo um povo, toda uma raça, toda a Humanidade e o
nosso globo tomará lugar entre os mundos ditosos.
Será isto uma utopia, uma quimera? Sê-lo-á para aquele que não crê
no progresso da alma; não o será, para aquele que crê na sua perfectibili
dade indefinita.
O progresso geral é a resultante de todos os progressos individuais,
mas o progresso individual não consiste apenas no desenvolvimento da
inteligência, na aquisição de alguns conhecimentos. Nisso mais não há do
que uma parte do progresso, que não conduz necessariamente ao bem, pois
que há homens que usam mal do seu saber. O progresso consiste, sobretu
do, no melhoramento moral, na depuração do Espírito, na extirpação dos
maus germens que em nós existem. Esse o verdadeiro progresso, o único
que pode garantir a felicidade ao gênero humano, por ser o oposto mesmo
do mal. Muito mal pode fazer o homem de inteligência mais cultivada;
aquele que se houver adiantado moralmente só o bem fará. É, pois, do
interesse de todos o progresso moral da Humanidade.
Mas que importam a melhora e a felicidade das gerações futuras,
àquele que acredita que tudo se acaba com a vida? Que interesse tem ele
em se aperfeiçoar, em se constranger, em domar suas paixões inferiores,
em se privar do que quer que seja em benefício de outrem? Nenhum. A
própria lógica lhe diz que seu interesse está em gozar depressa e por todos
os meios possíveis, visto que amanhã, talvez, ele nada mais será.
A doutrina do nadismo é a paralisia do progresso humano, porque
circunscreve as vistas do homem ao imperceptível ponto da presente exis
tência; porque lhe restringe as ideias e as concentra forçosamente na vida
material. Com essa doutrina, o homem nada sendo antes, nem depois,
cessando com a vida todas as relações sociais, a solidariedade é vã palavra,
a fraternidade uma teoria sem base, a abnegação em favor de outrem mero
embuste, o egoísmo, com a sua máxima — cada um por si, um direito
natural; a vingança, um ato de razão; a felicidade, privilégio do mais forte
e dos mais astuciosos; o suicídio, o fim lógico daquele que, baldo de re
cursos e de expedientes, nada mais espera e não pode safar-se do tremedal.
Uma sociedade fundada sobre o nadismo traria em si o gérmen de sua
próxima dissolução.
Outros, porém, são os sentimentos daquele que tem fé no futuro;
que sabe que nada do que adquiriu em saber e em moralidade lhe estará
perdido; que o trabalho de hoje dará seus frutos amanhã; que ele próprio
fará parte das gerações porvindouras, mais adiantadas e mais ditosas. Sabe
que, trabalhando para os outros, trabalha para si mesmo. Sua visão não se
detém na Terra, abrange a infinidade dos mundos que lhe servirão um dia
de morada; entrevê o glorioso lugar que lhe caberá, como o de todos os
seres que alcançam a perfeição.
Com a fé na vida futura, dilata-se-lhe o círculo das ideias; o porvir
lhe pertence; o progresso pessoal tem um fim, uma utilidade real. Da con
tinuidade das relações entre os homens nasce a solidariedade; a fraternida
de se funda numa Lei da Natureza e no interesse de todos.
A crença na vida futura é, pois, elemento de progresso, porque esti
mula o Espírito; somente ela pode dar ao homem coragem nas suas provas,
porque lhe fornece a razão de ser dessas provas, perseverança na luta contra
o mal, porque lhe assina um objetivo. A formar essa crença no espírito das
massas é, portanto, o em que devem aplicar-se os que a possuem.
Entretanto, ela é inata no homem. Todas as religiões a proclamam.
Por que, então, não deu, até hoje, os resultados que se deviam esperar? É
que, em geral, a apresentam em condições que a razão não pode aceitar.
Conforme a pintam, ela rompe todas as relações com o presente; desde
que tenha deixado a Terra, a criatura se torna estranha à Humanidade:
nenhuma solidariedade existe entre os mortos e os vivos; o progresso é pu
ramente individual; cada um, trabalhando para o futuro, unicamente para
si trabalha, só em si pensa e isso mesmo para uma finalidade vaga, que nada
tem de definido, nada de positivo, sobre que o pensamento se firme com
segurança; enfim, porque é mais uma esperança que uma certeza material.
Daí resulta, para uns, a indiferença, para outros, uma exaltação mística
que, isolando da Terra o homem, é essencialmente prejudicial ao progresso
real da Humanidade, porquanto negligencia os cuidados que reclama o
progresso material, para o qual a Natureza lhe impõe o dever de contribuir.
Todavia, por muito incompletos que sejam os resultados, não deixam
de ser efetivos. Quantos homens não se sentiram encorajados e sustentados
na senda do bem por essa vaga esperança! Quantos não se detiveram no
declive do mal, pelo temor de comprometer o seu futuro! Quantas virtudes
nobres essa crença não desenvolveu! Não desdenhemos as crenças do passa
do, por imperfeitas que sejam, quando conduzem ao bem: elas estavam em
correspondência com o grau de adiantamento da Humanidade.
Porém, tendo progredido, a Humanidade reclama crenças em har
monia com as novas ideias. Se os elementos da fé permanecem estacionários
e ficam distanciados pelo espírito, perdem toda influência; e o bem que
hajam produzido, em certo tempo, não pode prosseguir, porque aqueles
elementos já não se acham à altura das circunstâncias.
Para que a doutrina da vida futura doravante dê os frutos que se de
vem esperar, é preciso, antes de tudo, que satisfaça completamente à razão;
que corresponda à ideia que se faz da sabedoria, da justiça e da bondade
de Deus; que não possa ser desmentida de modo algum pela Ciência. É
preciso que a vida futura não deixe no espírito nem dúvida, nem incerteza;
que seja tão positiva quanto a vida presente, que é a sua continuação, do
mesmo modo que o amanhã é a continuação do dia anterior. É necessário
seja vista, compreendida e, por assim dizer, tocada com o dedo. Faz-se mis
ter, enfim, que seja evidente a solidariedade entre o passado, o presente e o
futuro, através das diversas existências.
Tal a ideia que da vida futura apresenta o Espiritismo. O que a
essa ideia dá força é que ela absolutamente não é uma concepção hu
mana com o mérito apenas de ser mais racional, sem contudo oferecer
mais certeza do que as outras. É o resultado de estudos feitos sobre os
testemunhos oferecidos por Espíritos de diferentes categorias, nas suas
manifestações, que permitiram se explorasse a vida extracorpórea em to
das as suas fases, desde o extremo superior ao extremo inferior da escala
dos seres. As peripécias da vida futura, por conseguinte, já não consti
tuem uma simples teoria, ou uma hipótese mais ou menos provável: de
correm de observações. São os habitantes do Mundo Invisível que vêm,
eles próprios, descrever os seus respectivos estados e há situações que a
mais fecunda imaginação não conceberia, se não fossem patenteadas aos
olhos do observador.
Ministrando a prova material da existência e da imortalidade da
alma, iniciando-nos em os mistérios do nascimento, da morte, da vida fu
tura, da vida universal, tornando-nos palpáveis as inevitáveis consequên
cias do bem e do mal, a Doutrina Espírita, melhor do que qualquer outra,
põe em relevo a necessidade da melhoria individual. Por meio dela, sabe
o homem donde vem, para onde vai, por que está na Terra; o bem tem
um objetivo, uma utilidade prática. Ela não se limita a preparar o homem
para o futuro, forma-o também para o presente, para a sociedade. Melho
rando-se moralmente, os homens prepararão na Terra o reinado da paz e
da fraternidade.
A Doutrina Espírita é assim o mais poderoso elemento de moraliza
ção, por se dirigir simultaneamente ao coração, à inteligência e ao interesse
pessoal bem compreendido.
Por sua mesma essência, o Espiritismo participa de todos os ramos
dos conhecimentos físicos, metafísicos e morais. São inúmeras as questões
que ele envolve, as quais, no entanto, podem resumir-se nos pontos se
guintes que, considerados verdades inconcussas, formam o programa das
crenças espíritas.
Princípios fundamentais da Doutrina Espírita,
reconhecidos como verdades inconcussas
A morte corpórea de Allan Kardec interrompeu as Obras póstumas
desse eminente Espírito. Este volume termina com um ponto de interro
gação e muitos leitores desejariam vê-lo respondido logicamente, como
o sabia fazer o douto professor em matéria de Espiritismo. Sem dúvida,
assim deveria ser.
No Congresso Espírita e Espiritualista Internacional de 1890, de
clararam seus membros que, desde 1869, estudos perseverantes haviam
revelado coisas novas e que, segundo o ensinamento preconizado por Allan
Kardec, alguns dos princípios do Espiritismo, sobre os quais o mestre ba
seava seu ensino, tinham de ser revistos e postos de acordo com os progres
sos da Ciência, em geral, nos últimos 20 anos.
Essa corrente de ideias, comum aos membros daquele Congresso,
vindos de todas as partes da Terra, provou que um volume novo precisava
ser elaborado, para conjugar o ensino de Allan Kardec com o que nos pro
porciona constantemente a pesquisa da verdade.
Essa será a obra da Comissão de propaganda. Muito contamos com os
bons conselhos dos irmãos que no Congresso demonstraram a sua compe
tência acerca das mais altas questões filosóficas, para auxiliarem a Comissão
nessa elaboração de um trabalho coletivo e incessantemente progressivo.
Esse volume terá por sua vez que ser revisto, quando um novo Congresso
assim o decidir.
“A Ciência”, disse Allan Kardec, “tem por finalidade constituir a ver
dadeira gênese, segundo as Leis da Natureza.
As descobertas da Ciência, longe de rebaixá-lo, glorificam a Deus.
Elas somente destroem o que os homens construíram sobre as ideias falsas
que hão feito de Deus.
O Espiritismo, avançando com o progresso, jamais será ultrapas
sado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro
acerca de um ponto, ele se modificará nesse ponto; se uma verdade nova
se revelar, ele a aceitará” (A gênese, cap. I – Caráter da Revelação Espírita).
p.-G. leymaRie