Obras Póstumas

Áudio do Capítulo Aberto:

BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC

É ainda sob o golpe da dor profunda que nos causou a prematura

partida do fundador da Doutrina Espírita, que nos abalançamos a uma

tarefa, simples e fácil para suas mãos sábias e experientes, mas cujo peso

e gravidade nos esmagariam, se não contássemos com o auxílio eficaz dos

Espíritos bons e com a indulgência dos nossos leitores.

Quem, dentre nós, poderia, sem ser tachado de presunçoso, lisonjear-se

de possuir o espírito de método e organização de que se mostram iluminados

todos os trabalhos do mestre? Só a sua pujante inteligência podia concentrar

tantos materiais diversos, triturá-los e transformá-los, para os espalhar em se

guida, como orvalho benfazejo, sobre as almas desejosas de conhecer e de amar.

Incisivo, conciso, profundo, sabia agradar e fazer-se compreendido

numa linguagem simples e elevada, ao mesmo tempo, tão distanciada do

estilo familiar quanto das obscuridades da metafísica.

Multiplicando-se incessantemente, pudera até agora bastar a tudo.

Entretanto, o cotidiano alargamento de suas relações e o contínuo desen

volvimento do Espiritismo lhe faziam sentir a necessidade de reunir em

torno de si alguns auxiliares inteligentes e preparava simultaneamente a

nova organização da Doutrina e de seus labores, quando nos deixou, para

ir, num mundo melhor, receber a sanção da missão que desempenhara e

coletar elementos para uma nova obra de devotamente e sacrifício.

Era sozinho!... Chamar-nos-emos legião e, por muito fracos e inex

perientes que sejamos, nutrimos a convicção íntima de que nos conserva

remos à altura da situação, se, partindo dos princípios estabelecidos e de

incontestável evidência, nos consagrarmos a executar, tanto quanto nos

seja possível e de acordo com as necessidades do momento, os projetos que

ele pretendia realizar no futuro.

Enquanto nos mantivermos nas suas pegadas e todos os de boa von

tade se unirem, num esforço comum pelo progresso e pela regeneração

intelectual e moral da Humanidade, conosco estará o Espírito do grande

filósofo a nos secundar com a sua influência poderosa, dado lhe seja pos

sível suprir à nossa insuficiência e nos possamos mostrar dignos do seu

concurso, dedicando-nos à obra com a mesma abnegação e a mesma since

ridade que ele, embora sem tanta ciência e inteligência.

Em sua bandeira, inscrevera o mestre estas palavras: Trabalho, soli

dariedade, tolerância. Sejamos, como ele, infatigáveis; sejamos, acordemen

te com os seus anseios, tolerantes e solidários e não temamos seguir-lhe o

exemplo, reconsiderando, quantas vezes forem precisas, os princípios ain

da controvertidos. Apelemos ao concurso e às luzes de todos. Tentemos

avançar, antes com segurança e certeza do que com rapidez, e não ficarão

infrutíferos os nossos esforços, se, como estamos persuadidos, e seremos os

primeiros a dar disso exemplo, cada um cuidar de cumprir o seu dever, pon

do de lado todas as questões pessoais, a fim de contribuir para o bem geral.

Sob auspícios mais favoráveis não poderíamos entrar na nova fase que se abre para o Espiritismo, do que dando a conhecer aos nossos leitores, num rápido escorço, o que foi, durante toda a sua vida, o homem íntegro e honrado, o sábio inteligente e fecundo, cuja memória se transmi

tirá aos séculos vindouros com a auréola dos benfeitores da Humanidade.

Nascido em Lyon, a 3 de outubro de 1804, de uma família antiga

que se distinguiu na magistratura e na advocacia, Allan Kardec (Hippolyte

Léon Denizard Rivail) não seguiu essas carreiras. Desde a primeira juventu

de, sentiu-se inclinado ao estudo das Ciências e da Filosofia.

Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdun (Suíça), tornou-se um

dos mais eminentes discípulos desse célebre professor e um dos zelosos

propagandistas do seu sistema de educação, que tão grande influência exer

ceu sobre a reforma do ensino na França e na Alemanha.

Dotado de notável inteligência e atraído para o ensino, pelo seu ca

ráter e pelas suas aptidões especiais, já aos 14 anos ensinava o que sabia

àqueles dos seus condiscípulos que haviam aprendido menos do que ele.

Foi nessa escola que lhe desabrocharam as ideias que mais tarde o coloca

riam na classe dos homens progressistas e dos livres-pensadores.

Nascido sob a religião católica, mas educado num país protestante,

os atos de intolerância que por isso teve de suportar, no tocante a essa

circunstância, cedo o levaram a conceber a ideia de uma reforma religiosa,

na qual trabalhou em silêncio durante longos anos com o intuito de alcan

çar a unificação das crenças. Faltava-lhe, porém, o elemento indispensável

à solução desse grande problema.

O Espiritismo veio, a seu tempo, imprimir-lhe especial direção aos

trabalhos.

Concluídos seus estudos, voltou para a França. Conhecendo a fundo a língua alemã, traduziu para a Alemanha diferentes obras de educação e de

moral e, o que é muito característico, as obras de Fénelon, que o tinham

seduzido de modo particular.

Era membro de várias sociedades sábias, entre outras, da Academia

Real de Arras, que, em o concurso de 1831, lhe premiou uma notável me

mória sobre a seguinte questão: Qual o sistema de estudos mais de harmonia

com as necessidades da época?

De 1835 a 1840, fundou, em sua casa, à rua de Sèvres, cursos gra

tuitos de Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia etc., empresa

digna de encômios em todos os tempos, mas, sobretudo, numa época em

que só um número muito reduzido de inteligências ousava enveredar por

esse caminho.

Preocupado sempre com o tornar atraentes e interessantes os siste

mas de educação, inventou, ao mesmo tempo, um método engenhoso de

ensinar a contar e um quadro mnemônico da História de França, tendo

por objetivo fixar na memória as datas dos acontecimentos de maior relevo

e as descobertas que celebrizaram cada reinado.

Entre as suas numerosas obras de educação, citaremos as seguin

tes: Plano proposto para melhoramento da instrução pública (1828); Curso

prático e teórico de Aritmética, segundo o método de Pestalozzi, para uso

dos professores e das mães de família (1824);1 Gramática francesa clássica

(1831); Manual dos exames para os títulos de capacidade; Soluções racionais

das questões e problemas de aritmética e de geometria (1846); Catecismo gra

matical da língua francesa (1848); Programa dos cursos usuais de química,

física, astronomia, fisiologia, que professava no Liceu Polimático; Ditados

normais dos exames da municipalidade e da Sorbonne, seguidos de Ditados

especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849), obra muito apreciada na

época do seu aparecimento e da qual ainda recentemente eram tiradas

novas edições.

Antes que o Espiritismo lhe popularizasse o pseudônimo de Allan

Kardec, já ele se ilustrara, como se vê, por meio de trabalhos de natureza

muito diferente, porém tendo todos, como objetivo, esclarecer as massas e

prendê-las melhor às respectivas famílias e países.

Pelo ano de 1855,2 posta em foco a questão das manifestações dos

Espíritos, Allan Kardec se entregou a observações perseverantes sobre esse

fenômeno, cogitando principalmente de lhe deduzir as consequências fi

losóficas. Entreviu, desde logo, o princípio de novas Leis Naturais: as que

regem as relações entre o mundo visível e o Mundo Invisível. Reconheceu,

na ação deste último, uma das forças da Natureza, cujo conhecimento

haveria de lançar luz sobre uma imensidade de problemas tidos por insolú

veis, e lhe compreendeu o alcance, do ponto de vista religioso.

Suas obras principais sobre esta matéria são: O livro dos espíritos,

referente à parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu a 18 de abril de

1857; O livro dos médiuns, relativo à parte experimental e científica (jan.

1861); O evangelho segundo o espiritismo, concernente à parte moral (abr.

1864); O céu e o inferno, ou A justiça de Deus segundo o espiritismo (agosto

de 1865); A gênese, os milagres e as predições (janeiro de 1868); a Revista

Espírita: Jornal de estudos psicológicos, periódico mensal começado a 1o

de janeiro de 1858. Fundou em Paris, a 1o de abril de 1858, a primeira so

ciedade espírita regularmente constituída, sob a denominação de Sociedade

Parisiense de Estudos Espíritas, cujo fim exclusivo era o estudo de quanto

possa contribuir para o progresso da nova ciência. Allan Kardec se defen

deu, com inteiro fundamento, de coisa alguma haver escrito debaixo da

influência de ideias preconcebidas ou sistemáticas. Homem de caráter frio

e calmo, observou os fatos e de suas observações deduziu as leis que os

regem. Foi o primeiro a apresentar a teoria relativa a tais fatos e a formar

com eles um corpo de doutrina, metódico e regular.

Demonstrando que os fatos erroneamente qualificados de sobrena

turais se acham submetidos a leis, ele os incluiu na ordem dos fenômenos

da Natureza, destruindo assim o último refúgio do maravilhoso e um dos

elementos da superstição.

Durante os primeiros anos em que se tratou de fenômenos espíritas,

estes constituíram antes objeto de curiosidade do que de meditações sérias.

O livro dos espíritos fez que o assunto fosse considerado sob aspecto muito

diverso. Abandonaram-se as mesas girantes, que tinham sido apenas um

prelúdio, e começou-se a atentar na Doutrina, que abrange todas as ques

tões de interesse para a Humanidade.

Data do aparecimento de O livro dos espíritos a fundação do Espi

ritismo que, até então, só contara com elementos esparsos, sem coorde

nação, e cujo alcance nem toda gente pudera apreender. A partir daquele

momento, a Doutrina prendeu a atenção de homens sérios e tomou rápido

desenvolvimento. Em poucos anos, aquelas ideias conquistaram numero

sos aderentes em todas as camadas sociais e em todos os países. Esse êxito

sem precedentes decorreu sem dúvida da simpatia que tais ideias desper

taram, mas também é devido, em grande parte, à clareza com que foram

expostas e que é um dos característicos dos escritos de Allan Kardec.

“Evitando as fórmulas abstratas da Metafísica, ele soube fazer que

todos o lessem sem fadiga, condição essencial à vulgarização de uma

ideia. Sobre todos os pontos controversos, sua argumentação, de cerrada

lógica, poucas ensanchas oferece à refutação e predispõe à convicção. As

provas materiais que o Espiritismo apresenta da existência da alma e da

vida futura tendem a destruir as ideias materialistas e panteístas. Um dos

princípios mais fecundos dessa Doutrina e que deriva do precedente é o

da pluralidade das existências, já entrevisto por uma multidão de filósofos

antigos e modernos e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles

Fourier, Eugène Sue e outros. Conservara-se, todavia, em estado de hi

pótese e de sistema, enquanto o Espiritismo lhe demonstra a realidade e

prova que nesse princípio reside um dos atributos essenciais da Huma

nidade. Dele promana a explicação de todas as aparentes anomalias da

vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais,

facultando ao homem saber donde vem, para onde vai, para que fim se

acha na Terra e por que aí sofre.

As ideias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos nas vidas

anteriores; a marcha dos povos e a da Humanidade, pela ação dos homens

dos tempos idos e que revivem, depois de terem progredido; as simpatias e

antipatias, pela natureza das relações anteriores. Essas relações, que religam

a grande família humana de todas as épocas, dão por base, aos grandes

princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de solidariedade

universal, as próprias Leis da Natureza, e não mais uma simples teoria.

“Em vez do postulado: Fora da Igreja não há salvação, que alimenta a

separação e a animosidade entre as diferentes seitas religiosas e que há feito

correr tanto sangue, o Espiritismo tem como divisa: Fora da Caridade não

há salvação, isto é, a igualdade entre os homens perante Deus, a tolerância,

a liberdade de consciência e a benevolência mútua.

Em vez da fé cega, que anula a liberdade de pensar, ele diz: Fé inabalável só o é

a que pode encarar face a face a razão, em todas as épocas da Humanidade. À fé,

uma base se faz necessária e essa base é a inteligência perfeita daquilo em que se

tem de crer. Para crer, não basta ver, é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega

já não é para este século. É precisamente ao dogma da fé cega que se deve o ser hoje

tão grande o número de incrédulos, porque ela quer impor-se e exige a abolição

de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio (O

evangelho segundo o espiritismo).

Trabalhador infatigável, sempre o primeiro a tomar da obra e o últi

mo a deixá-la, Allan Kardec sucumbiu, a 31 de março de 1869, quando se

preparava para uma mudança de local, imposta pela extensão considerável

de suas múltiplas ocupações. Diversas obras que ele estava quase a termi

nar, ou que aguardavam oportunidade para vir a lume, demonstrarão um

dia, ainda mais, a extensão e o poder das suas concepções.

Morreu conforme viveu: trabalhando. Sofria, desde longos anos,

de uma enfermidade do coração, que só podia ser combatida por meio

do repouso intelectual e pequena atividade material. Consagrado, po

rém, todo inteiro à sua obra, recusava-se a tudo o que pudesse absorver

um só que fosse de seus instantes, à custa das suas ocupações prediletas.

Deu-se com ele o que se dá com todas as almas de forte têmpera: a lâ

mina gastou a bainha.

O corpo se lhe entorpecia e se recusava aos serviços que o Espírito

lhe reclamava, enquanto este último, cada vez mais vivo, mais enérgico,

mais fecundo, ia sempre alargando o círculo de sua atividade.

Nessa luta desigual não podia a matéria resistir eternamente. Acabou

sendo vencida: rompeu-se o aneurisma e Allan Kardec caiu fulminado.

Um homem houve de menos na Terra, mas um grande nome tomava lugar

entre os que ilustraram este século; um grande Espírito fora retemperar-se

no Infinito, onde todos os que ele consolara e esclarecera lhe aguardavam

impacientes a volta!

“A morte”, dizia, “faz pouco tempo, redobra os seus golpes nas filei

ras ilustres!... A quem virá ela agora libertar?”

Ele foi, como tantos outros, recobrar-se no Espaço, procurar elemen

tos novos para restaurar o seu organismo gasto por uma vida de incessantes

labores. Partiu com os que serão os fanais da nova geração, para voltar em

breve com eles a continuar e acabar a obra deixada em dedicadas mãos.

O homem já aqui não está; a alma, porém, permanecerá entre nós.

Será um protetor seguro, uma luz a mais, um trabalhador incansável que

as falanges do Espaço conquistaram. Como na Terra, sem ferir a quem

quer que seja, ele fará que cada um lhe ouça os conselhos oportunos;

abrandará o zelo prematuro dos ardorosos, amparará os sinceros e os de

sinteressados e estimulará os tíbios. Vê agora e sabe tudo o que ainda há

pouco previa! Já não está sujeito às incertezas, nem aos desfalecimentos

e nos fará partilhar da sua convicção, fazendo-nos tocar com o dedo a

meta, apontando-nos o caminho, naquela linguagem clara, precisa, que o

tornou aureolado nos anais literários.

Já não existe o homem, repetimo-lo. Entretanto, Allan Kardec é

imortal e a sua memória, seus trabalhos, seu Espírito estarão sempre com

os que empunharem forte e vigorosamente o estandarte que ele soube sem

pre fazer respeitado.

Uma individualidade pujante constituiu a obra. Era o guia e o fanal

de todos. Na Terra, a obra substituirá o obreiro. Os crentes não se congre

garão em torno de Allan Kardec; congregar-se-ão em torno do Espiritismo,

tal como ele o estruturou e, com os seus conselhos, sua influência, avan

çaremos, a passos firmes, para as fases ditosas prometidas à Humanidade

regenerada.

Revista espíRita, maio 1863

Profissão de fé espírita raciocinada

1 – Deus

1. Há um Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

A prova da existência de Deus temo-la neste axioma: Não há efeito

sem causa. Vemos constantemente uma imensidade de efeitos, cuja causa

não está na Humanidade, pois que a Humanidade é impotente para pro

duzi-los, ou, sequer, para os explicar. A causa está acima da Humanidade.

É a essa causa que se chama Deus, Jeová, Alá, Brahma, Fo-Hi, Grande

Espírito etc.

Tais efeitos absolutamente não se produzem ao acaso, fortuitamente

e em desordem. Desde a organização do mais pequenino inseto e da mais

insignificante semente, até a lei que rege os mundos que circulam no es

paço, tudo atesta uma ideia diretora, uma combinação, uma previdência,

uma solicitude que ultrapassam todas as combinações humanas. A causa é,

pois, soberanamente inteligente.

2. Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente

justo e bom.

Deus é eterno. Se tivesse tido começo, alguma coisa houvera exis

tido antes dele, ou Ele teria saído do nada, ou, então, um ser anterior o

teria criado. É assim que, degrau a degrau, remontamos ao infinito na

eternidade.

É imutável. Se estivesse sujeito à mudança, nenhuma estabilidade

teriam as leis que regem o Universo.

É imaterial. Sua natureza difere de tudo o a que chamamos matéria,

pois, do contrário, Ele estaria sujeito às flutuações e transformações da

matéria e, então, já não seria imutável.

É único. Se houvesse muitos deuses, haveria muitas vontades e, nesse

caso, não haveria unidade de vistas, nem unidade de poder na ordenação

do Universo.

É onipotente, porque é único. Se Ele não dispusesse de poder soberano,

alguma coisa ou alguém haveria mais poderoso do que Ele; não teria feito

todas as coisas e as que Ele não houvesse feito seriam obra de outro deus.

É soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das Leis Di

vinas se revela nas mais mínimas coisas como nas maiores e essa sabedoria

não permite se duvide nem da sua justiça, nem da sua bondade.

3. Deus é infinito em todas as suas perfeições.

Se supuséssemos imperfeito um só dos atributos de Deus, se lhe

tirássemos a menor parcela de eternidade, de imutabilidade, de imateria

lidade, de unidade, de onipotência, de justiça e de bondade, poderíamos

imaginar um ser que possuísse o que lhe faltasse, e esse ser, mais perfeito

do que ele, é que seria Deus.

2 – A AlmA

4. Há no homem um princípio inteligente a que se chama ALMA ou ESPÍ

RITO, independente da matéria, e que lhe dá o senso moral e a faculdade de pensar.

Se o pensamento fosse propriedade da matéria, teríamos a matéria

bruta a pensar. Ora, como ninguém nunca viu a matéria inerte dotada de

faculdades intelectuais; como, quando o corpo morre, não mais pensa,

forçoso é se conclua que a alma independe da matéria e que os órgãos não

passam de instrumentos com que o homem manifesta seu pensamento.

5. As doutrinas materialistas são incompatíveis com a moral e subversi

vas da ordem social.

Se, conforme pretendem os materialistas, o pensamento fosse segre

gado pelo cérebro, como a bílis o é pelo fígado, seguir-se-ia que, morto o

corpo, a inteligência do homem e todas as suas qualidades morais recairiam

no nada; que os nossos parentes, os amigos e todos quantos houvessem

tido a nossa afeição estariam irremissivelmente perdidos; que o homem de

gênio careceria de mérito, pois que somente ao acaso da sua organização

seria devedor das faculdades transcendentes que revela; que entre o imbecil

e o sábio apenas haveria a diferença de mais ou menos substância cerebral.

As consequências dessa doutrina seriam que, nada podendo esperar

para depois desta vida, nenhum interesse teria o homem em fazer o bem;

que muito natural seria procurasse ele a maior soma possível de gozos,

mesmo à custa dos outros; que o sentimento mais racional seria o egoís

mo; que aquele que fosse persistentemente desgraçado na Terra, nada de

melhor teria a fazer do que se matar, porquanto, destinado a mergulhar no

nada, isso não lhe seria nem pior, nem melhor, ao passo que de tal forma

abreviaria seus sofrimentos.

A doutrina materialista é, pois, a sanção do egoísmo, origem de to

dos os vícios; a negação da caridade — origem de todas as virtudes e base

da ordem social — e seria ainda a justificação do suicídio.

6. O Espiritismo prova a existência da alma.

Provam a existência da alma os atos inteligentes do homem, por isso

que eles hão de ter uma causa inteligente, e não uma causa inerte. Que ela

independe da matéria está demonstrado de modo patente pelos fenômenos

espíritas que a mostram agindo por si mesma e o está, sobretudo, pelo seu

insulamento durante a vida, o que lhe permite manifestar-se, pensar e agir

sem o corpo.

Pode-se dizer que, se a Química separou os elementos da água; se,

dessa maneira, pôs a descoberto as propriedades desses elementos e se

pode, à sua vontade, fazer e desfazer um corpo composto, o Espiritismo,

igualmente, pode isolar os dois elementos constitutivos do homem: o Es

pírito e a matéria, a alma e o corpo, separá-los e reuni-los à vontade, o que

não deixa dúvida sobre a independência de uma e outro.

7. A alma do homem sobrevive ao corpo e conserva a sua individualidade após a morte deste.

Se a alma não sobrevivesse ao corpo, o homem só teria por perspec

tiva o nada, do mesmo modo que se a faculdade de pensar fosse produto

da matéria. Se não conservasse a sua individualidade, isto é, se se dissolves

se no reservatório comum chamado o grande todo, como as gotas d’água

no oceano, seria igualmente, para o homem, o nada do pensamento e as

consequências seriam absolutamente as mesmas que se não houvesse alma.

A sobrevivência desta à morte do corpo está provada de maneira

irrecusável e até certo ponto palpável pelas comunicações espíritas. Sua

individualidade é demonstrada pelo caráter e pelas qualidades peculiares

a cada um. Essas qualidades, que distinguem umas das outras as almas,

lhes constituem a personalidade. Se as almas se confundissem num todo

comum, uniformes seriam as suas qualidades.

Além dessas provas inteligentes, há também a prova material das

manifestações visuais, ou aparições, tão frequentes e autênticas, que não é

lícito pô-las em dúvida.

8. A alma do homem é ditosa ou desgraçada depois da morte, conforme

haja feito o bem ou o mal durante a vida.

Admitindo-se um Deus soberanamente justo, não se pode admitir que

as almas tenham todas a mesma sorte. Se a posição futura do criminoso

houvesse de ser a mesma que a do homem virtuoso, excluída estaria toda a

utilidade da prática do bem. Ora, supor que Deus não faz diferença entre o

que pratica o bem e o que pratica o mal fora negar-lhe a justiça. Nem sempre

recebendo punição o mal e recompensa o bem, durante a vida terrena, deve--se concluir daí que a justiça será feita depois, sem o que Deus não seria justo.

As penas e os gozos futuros estão, ademais, provados pelas comunica

ções que os homens podem estabelecer com as almas dos que aqui viveram

e que vêm descrever o estado em que se encontram, ditoso ou infeliz, a

natureza de suas alegrias ou de seus sofrimentos e enumerar-lhes as causas.

9. Deus, alma, sobrevivência e individualidade da alma após a morte

do corpo, penas e recompensas futuras constituem os princípios fundamentais

de todas as religiões.

O Espiritismo junta às provas morais desses princípios as provas ma

teriais dos fatos e da experimentação e corta cerce os sofismas do materia

lismo. Em presença dos fatos, cessa toda razão de ser da incredulidade. É

assim que o Espiritismo restitui a fé aos que a tenham perdido e dissipa as

dúvidas dos incrédulos.

3 – Criação

10. Deus é o Criador de todas as coisas.

Esta proposição é corolário da prova da existência de Deus (no 1).

11. O princípio das coisas reside nos arcanos de Deus.

Profissão de fé espírita raciocinada

Tudo diz que Deus é o autor de todas as coisas, mas como e quando

as criou Ele? A matéria existe, como Ele, de toda a eternidade? Igno

ramo-lo. Acerca de tudo o que Ele não julgou conveniente revelar-nos,

apenas se podem erguer sistemas mais ou menos prováveis. Dos efeitos

que observamos, podemos remontar a algumas causas. Há, porém, um li

mite que não nos é possível transpor. Querer ir além é, simultaneamente,

perder tempo e cair em erro.

12. O homem tem por guia, na pesquisa do desconhecido, os atributos

de Deus.

Para a investigação dos mistérios que nos é permitido sondar por meio

do raciocínio, há um critério certo, um guia infalível: os atributos de Deus.

Desde que se admite que Deus é eterno, imutável, bom; que é infini

to nas suas perfeições, toda doutrina ou teoria, científica ou religiosa, que

tenda a lhe tirar qualquer parcela de um só dos seus atributos, será necessa

riamente falsa, pois que tende à negação da divindade mesma.

13. Os mundos materiais tiveram começo e terão fim.

Quer a matéria exista de toda a eternidade, como Deus, quer tenha

sido criada numa época qualquer, é evidente, segundo o que se passa co

tidianamente às nossas vistas, que são temporárias as transformações da

matéria e que dessas transformações resultam diferentes corpos, que inces

santemente nascem e se destroem.

Como produtos que são da aglomeração e da transformação da ma

téria, os diversos mundos hão de ter tido, como todos os corpos materiais,

começo e terão fim, na conformidade de leis que desconhecemos. Pode a

Ciência, até certo ponto, formular as leis que lhes presidiram à formação e

remontar ao estado primitivo deles. Toda teoria filosófica em contradição

com os fatos que a Ciência comprova é necessariamente falsa, a menos que

prove estar em erro a Ciência.

14. Criando os mundos materiais, também criou Deus seres inteli

gentes a que damos o nome de Espíritos.

15. Desconhecemos a origem e o modo de criação dos Espíritos;

apenas sabemos que eles são criados simples e ignorantes, isto é, sem ciên

cia e sem conhecimento do bem e do mal, porém perfectíveis e com igual

aptidão para tudo adquirirem e tudo conhecerem com o tempo. A prin

cípio, eles se encontram numa espécie de infância, carentes de vontade

própria e sem consciência perfeita de sua existência.

16. À medida que o Espírito se distancia do ponto de partida, desen

volvem-se-lhe as ideias, como na criança, e, com as ideias, o livre-arbítrio,

isto é, a liberdade de fazer ou não fazer, de seguir este ou aquele caminho

para seu adiantamento, o que é um dos atributos essenciais do Espírito.

17. O objetivo final de todos os Espíritos consiste em alcançar a

perfeição de que é suscetível a criatura. O resultado dessa perfeição está no

gozo da suprema felicidade que lhe é consequente e a que chegam mais ou

menos rapidamente, conforme o uso que fazem do livre-arbítrio.

18. Os Espíritos são os agentes da potência divina; constituem a

força inteligente da Natureza e concorrem para a execução dos desígnios

do Criador, tendo em vista a manutenção da harmonia geral do Universo

e das leis imutáveis que regem a Criação.

19. Para colaborarem, como agentes da potência divina na obra

dos mundos materiais, os Espíritos revestem transitoriamente um corpo

material.

Os Espíritos encarnados constituem a Humanidade. A alma do ho

mem é um Espírito encarnado.

20. A vida espiritual é a vida normal do Espírito: é eterna; a vida cor

poral é transitória e passageira: não é mais do que um instante na eternidade.

21. A encarnação dos Espíritos está nas Leis da Natureza; é neces

sária ao adiantamento deles e à execução das obras de Deus. Pelo traba

lho, que a existência corpórea lhes impõe, eles aperfeiçoam a inteligência

e adquirem, cumprindo a Lei de Deus, os méritos que os conduzirão à

felicidade eterna.

Daí resulta que, concorrendo para a obra geral da Criação, os Espí

ritos trabalham pelo seu próprio progresso.

22. O aperfeiçoamento do Espírito é fruto do seu próprio labor; ele

avança na razão da sua maior ou menor atividade ou da sua boa vontade

em adquirir as qualidades que lhe falecem.

23. Não podendo o Espírito, numa só existência, adquirir todas as

qualidades morais e intelectuais que hão de conduzi-lo à meta, ele chega

a essa aquisição por meio de uma série de existências, em cada uma das

quais dá alguns passos para a frente na senda do progresso e se escoima de

algumas imperfeições.

Profissão de fé espírita raciocinada

24. Para cada nova existência, o Espírito traz o que ganhou em in

teligência e em moralidade nas suas existências pretéritas, assim como os

germens das imperfeições de que ainda se não expungiu.

25. Quando um Espírito empregou mal uma existência, isto é,

quando nenhum progresso realizou na senda do bem, essa existência lhe

resulta sem proveito, ele tem que a recomeçar em condições mais ou me

nos penosas, por efeito da sua negligência ou má vontade.

26. Devendo o Espírito, em cada existência corpórea, adquirir algu

ma coisa no sentido do bem e despojar-se de alguma coisa no sentido do

mal, segue-se que, após certo número de encarnações, ele se acha depurado

e alcança o estado de puro Espírito.

27. É indeterminado o número das existências corpóreas; depende

da vontade do Espírito reduzir esse número, trabalhando ativamente pelo

seu progresso moral.

28. No intervalo das existências corpóreas, o Espírito é errante e vive

a vida espiritual. A erraticidade carece de duração determinada.

29. Quando, num mundo, os Espíritos têm realizado a soma de pro

gresso que o estado desse mundo lhe faculta efetuar, deixam-no e passam a

encarnar noutro mais adiantado, onde entesouram novos conhecimentos e

assim por diante, até que, de nenhuma utilidade mais lhe sendo a encarna

ção em corpos materiais, entram a viver exclusivamente a vida espiritual,

em que também progridem noutro sentido e por outros meios. Galgando

o ponto culminante do progresso, gozam da felicidade suprema. Admi

tidos nos Conselhos do Onipotente, identificam-se com o pensamento

deste e se tornam seus mensageiros, seus ministros diretos para o governo

dos mundos, tendo sob suas ordens os outros Espíritos ainda em diferentes

graus de adiantamento.

Manifestações dos Espíritos

Caráter e consequências religiosas das manifestações dos Espíritos

1. As almas ou Espíritos dos que aqui viveram constituem o Mundo

Invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. Daí resulta que,

desde que há homens, há Espíritos e que, se estes últimos têm o poder de

manifestar-se, devem tê-lo tido em todas as épocas. É o que comprovam a

História e as religiões de todos os povos. Entretanto, nestes últimos tem

pos, as manifestações dos Espíritos assumiram grande desenvolvimento e

tomaram um caráter mais acentuado de autenticidade, porque estava nos

desígnios da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do mate

rialismo, por meio de provas evidentes, permitindo que os que deixaram a

Terra viessem atestar sua existência e revelar-nos a situação ditosa ou infeliz

em que se encontravam.

2. Vivendo o mundo visível em meio do Mundo Invisível, com o

qual se acha em contato perpétuo, segue-se que eles reagem incessante

mente um sobre o outro, reação que constitui a origem de uma imensida

de de fenômenos, que foram considerados sobrenaturais, por se não lhes

conhecer a causa.

A ação do Mundo Invisível sobre o mundo visível e reciprocamente é

uma das leis, uma das forças da Natureza, tão necessária à harmonia univer

sal, quanto a lei de atração. Se ela cessasse, a harmonia estaria perturbada,

conforme sucede num maquinismo, donde se suprima uma peça. Derivan

do de uma Lei da Natureza semelhante ação, nada têm, evidentemente, de

sobrenaturais os fenômenos que ela opera. Pareciam tais, porque desco

nhecida era a causa que os produzia. O mesmo se deu com alguns efeitos

da eletricidade, da luz etc.

3. Todas as religiões têm por base a existência de Deus e por fim o

futuro do homem depois da morte. Esse futuro, que é de capital interes

se para a criatura, se acha necessariamente ligado à existência do Mundo

Invisível, pelo que o conhecimento desse mundo há constituído, desde

todos os tempos, objeto de suas pesquisas e preocupações. A atenção do

homem foi naturalmente atraída pelos fenômenos que tendem a provar

a existência daquele mundo e nenhuns houve jamais tão concludentes,

como os das manifestações dos Espíritos por meio das quais os próprios

habitantes de tal mundo revelaram suas existências. Por isso foi que esses

fenômenos se tornaram básicos para a maior parte dos dogmas de todas

as religiões.

4. Tendo instintivamente a intuição de uma potência superior, o ho

mem foi sempre levado, em todos os tempos, a atribuir à ação direta dessa

potência os fenômenos cuja causa lhe era desconhecida e que passavam, a

seus olhos, por prodígios e efeitos sobrenaturais. Os incrédulos consideram

essa tendência uma consequência da predileção que tem o homem pelo

maravilhoso; não procuram, porém, a origem desse amor do maravilho

so. Ela, no entanto, reside muito simplesmente na intuição mal definida

de uma ordem de coisas extracorpóreas. Com o progresso da Ciência e o

conhecimento das Leis da Natureza, esses fenômenos passaram pouco a

pouco do domínio do maravilhoso para o dos efeitos naturais, de sorte que

o que outrora parecia sobrenatural já não o é hoje e o que ainda o é hoje

não mais o será amanhã.

Os fenômenos decorrentes da manifestação dos Espíritos fornece

ram, pela sua natureza mesma, larga contribuição aos fatos reputados ma

ravilhosos. Tempo, contudo, viria em que, conhecida a lei que os rege, eles

entrariam, como os outros, na ordem dos fatos naturais. Esse tempo che

gou e o Espiritismo, dando a conhecer essa Lei, apresentou a chave para a

interpretação da maior parte das passagens incompreendidas das escrituras

sagradas que a isso aludem e dos fatos tidos por miraculosos.

5. O caráter do fato miraculoso é ser insólito e excepcional; é uma

derrogação das Leis da Natureza. Desde, pois, que um fenômeno se re

produz em condições idênticas, segue-se que está submetido a uma lei e,

então, já não é miraculoso. Pode essa lei ser desconhecida, mas, por isso,

não é menos real a sua existência. O tempo se encarregará de revelá-la.

O movimento do sol, ou, melhor, da Terra, sustado por Josué, seria

um verdadeiro milagre, porquanto implicaria a derrogação manifesta da

lei que rege o movimento dos astros. Mas se o fato pudesse reproduzir-se

em dadas condições, é que estaria sujeito a uma lei e deixaria, conseguin

temente, de ser milagre.

6. É errôneo assustar-se a Igreja com o fato de restringir-se o círculo

dos fatos miraculosos, porquanto Deus prova melhor o seu poder e a sua

grandeza por meio do admirável conjunto de suas leis do que por algumas

infrações dessas mesmas leis. E tanto mais errôneo é o seu temor, quanto

ela atribui ao demônio o poder de operar prodígios, donde resultaria que,

podendo interromper o curso das Leis Divinas, o demônio seria tão po

deroso quanto Deus. Ousar dizer que o Espírito do mal pode suspender o

curso das Leis de Deus é blasfêmia e sacrilégio.

Longe de perder qualquer coisa de sua autoridade por passarem os

fatos qualificados de milagrosos à ordem dos fatos naturais, a Religião so

mente pode ganhar com isso; primeiramente, porque, se um fato é tido fal

samente por miraculoso, há aí um erro e a Religião somente pode perder,

se se apoiar num erro, sobretudo se se obstinasse em considerar milagre o

que não o seja; em segundo lugar, porque, não admitindo a possibilidade

dos milagres, muitas pessoas negam os fatos qualificados de milagrosos,

negando, conseguintemente, a Religião que em tais fatos se estriba. Se, ao

contrário, a possibilidade dos mesmos fatos for demonstrada como efeitos

das Leis Naturais, já não haverá cabimento para que alguém os repila, nem

repila a Religião que os proclame.

7. Nenhuma crença religiosa, por lhes ser contrária, pode infirmar os

fatos que a Ciência comprova de modo peremptório. Não pode a Religião

deixar de ganhar em autoridade acompanhando o progresso dos conheci

mentos científicos, como não pode deixar de perder, se se conservar retar

datária, ou a protestar contra esses mesmos conhecimentos em nome dos

seus dogmas, visto que nenhum dogma poderá prevalecer contra as Leis da

Natureza, ou anulá-las. Um dogma que se funde na negação de uma Lei da

Natureza não pode exprimir a verdade.

O Espiritismo, que se funda no conhecimento de leis até agora in

compreendidas, não vem destruir os fatos religiosos, porém sancioná-los,

dando-lhes uma explicação racional. Vem destruir apenas as falsas conse

quências que deles foram deduzidas, em virtude da ignorância daquelas

leis, ou de as terem interpretado erradamente.

8. A ignorância das Leis da Natureza, com o levar o homem a pro

curar causas fantásticas para fenômenos que ele não compreende, é a

origem das ideias supersticiosas, algumas das quais são devidas aos fenô

menos espíritas mal compreendidos. O conhecimento das leis que regem

os fenômenos destrói essas ideias supersticiosas, encaminhando as coisas

para a realidade e demonstrando, com relação a elas, o limite do possível

e do impossível.

I – O perispírito como princípio das manifestações

9. Os Espíritos, como já foi dito, têm um corpo fluídico, a que se dá

o nome de perispírito. Sua substância é haurida do fluido universal ou cós

mico, que o forma e alimenta, como o ar forma e alimenta o corpo material

do homem. O perispírito é mais ou menos etéreo, conforme os mundos e o

grau de depuração do Espírito. Nos mundos e nos Espíritos inferiores, ele é

de natureza mais grosseira e se aproxima muito da matéria bruta.

10. Durante a encarnação, o Espírito conserva o seu perispírito,

sendo-lhe o corpo apenas um segundo envoltório mais grosseiro, mais re

sistente, apropriado aos fenômenos a que tem de prestar-se e do qual o

Espírito se despoja por ocasião da morte.

O perispírito serve de intermediário ao Espírito e ao corpo. É o órgão

de transmissão de todas as sensações. Relativamente às que vêm do exte

rior, pode-se dizer que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite

e o Espírito, que é o ser sensível e inteligente, a recebe. Quando o ato é

de iniciativa do Espírito, pode dizer-se que o Espírito quer, o perispírito

transmite e o corpo executa.

11. O perispírito não se acha encerrado nos limites do corpo, como

numa caixa. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o ex

terior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera que o pen

samento e a força da vontade podem dilatar mais ou menos. Daí se segue

que pessoas há que, sem estarem em contato corporal, podem achar-se em

contato pelos seus perispíritos e permutar a seu mau grado impressões e,

algumas vezes, pensamentos, por meio da intuição.

12. Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o perispírito

desempenha importante papel em todos os fenômenos psicológicos e, até

certo ponto, nos fenômenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências

médicas tiverem na devida conta o elemento espiritual na economia do

ser, terão dado grande passo e horizontes inteiramente novos se lhes pa

tentearão. As causas de muitas moléstias serão a esse tempo descobertas e

encontrados poderosos meios de combatê-las.

13. Por meio do perispírito é que os Espíritos atuam sobre a matéria

inerte e produzem os diversos fenômenos mediúnicos. Sua natureza etérea

não é que a isso obstaria, pois se sabe que os mais poderosos motores se

nos deparam nos fluidos mais rarefeitos e nos mais imponderáveis. Não

há, pois, motivo de espanto quando, com essa alavanca, os Espíritos pro

duzem certos efeitos físicos, tais como pancadas e ruídos de toda espécie,

levantamento, transporte ou lançamento de objetos. Para explicarem-se

esses fatos, não há porque recorrer ao maravilhoso, nem ao sobrenatural.

14. Atuando sobre a matéria, podem os Espíritos manifestar-se de

muitas maneiras diferentes: por efeitos físicos, quais os ruídos e a movi

mentação de objetos; pela transmissão do pensamento, pela visão, pela

audição, pela palavra, pelo tato, pela escrita, pelo desenho, pela música etc.

Numa palavra, por todos os meios que sirvam a pô-los em comunicação

com os homens.

15. Podem ser espontâneas ou provocadas as manifestações dos Es

píritos. As primeiras dão-se inopinadamente e de improviso. Produzem-se,

muitas vezes, entre pessoas de todo estranhas às ideias espíritas. Nalguns

casos e sob o império de certas circunstâncias, pode a vontade provocar

as manifestações, soba influência de pessoas dotadas, para tal efeito, de

faculdades especiais.

As manifestações espontâneas sempre se produziram, em todas as

épocas e em todos os países. Sem dúvida, já na Antiguidade se conhecia

o meio de as provocar, mas esse meio constituía privilégio de certas cas

tas que somente a raros iniciados o revelavam, sob condições rigorosas,

escondendo-o ao vulgo, a fim de o dominar pelo prestígio de um poder

oculto. Ele, contudo, se perpetuou, através das idades até os nossos dias,

entre alguns indivíduos, mas quase sempre desfigurado pela superstição,

ou de mistura com as práticas ridículas da magia, o que contribuiu para

o desacreditar. Nada mais fora até então senão germens lançados aqui e

ali. A Providência reservara para a nossa época o conhecimento completo

e a vulgarização desses fenômenos, para os expurgar das ligas impuras e

torná-los úteis ao melhoramento da Humanidade, madura agora para os

compreender e lhes tirar as consequências.

2 – Manifestações visuais

16. Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é invisí

vel, tendo isso de comum com uma imensidade de fluidos que sabemos

existir, mas que nunca vimos. Pode também, como alguns fluidos, sofrer

modificações que o tornam perceptível à vista, quer por uma espécie de

condensação, quer por uma mudança na disposição molecular. Pode mes

mo adquirir as propriedades de um corpo sólido e tangível e retomar ins

tantaneamente seu estado etéreo e invisível. É possível fazer-se ideia desse

efeito pelo que acontece com o vapor, que passa do estado de invisibilidade

ao estado brumoso, depois ao líquido, em seguida ao sólido e vice-versa.

Esses diferentes estados do perispírito resultam da vontade do Espíri

to, e não de uma causa física exterior, como se dá com os gases. Quando um

Espírito aparece, é que ele põe seu perispírito no estado próprio a torná-lo

visível. Entretanto, nem sempre basta a vontade para fazê-lo visível: é preci

so, para que se opere a modificação do perispírito, o concurso de umas tan

tas circunstâncias que dele independem. É preciso, ademais, que ao Espírito

seja permitido fazer-se visível a tal pessoa, permissão que nem sempre lhe

é concedida, ou somente o é em determinadas circunstâncias, por motivos

que nos escapam (Veja-se: O livro dos médiuns, Segunda Parte, cap. VI).

Outra propriedade do perispírito, peculiar essa à sua natureza etérea,

é a penetrabilidade. Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo; ele as atravessa

todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. Daí vem que não há

como impedir que os Espíritos entrem num recinto inteiramente fechado.

Eles visitam o preso no seu cárcere tão facilmente como visitam a um que

está no campo a trabalhar.

17. As manifestações visuais ocorrem ordinariamente durante o

sono, por meio dos sonhos: são as visões. As aparições propriamente di

tas dão-se no estado de vigília, estando aqueles que as percebem no gozo

pleno de suas faculdades e da liberdade de usar delas. Apresentam-se,

em geral, sob forma vaporosa e diáfana, algumas vezes vaga e imprecisa.

Frequentemente, não passam, à primeira vista, de um clarão esbranquiça

do, cujos contornos pouco a pouco se acentuam. Doutras vezes, as formas

se apresentam nitidamente desenhadas, distinguindo-se os menores traços

do rosto, ao ponto de poder-se descrevê-lo com precisão. Os ademanes e o

aspecto assemelham-se aos que o Espírito tinha quando vivo.

18. Podendo assumir todas as aparências, o Espírito se apresenta de

baixo daquela que mais reconhecível o possa tornar, se o quiser. É assim

que, embora como Espírito nenhuma enfermidade corpórea lhe reste, ele se

mostrará estropiado, coxo, ferido com cicatrizes, se isso for necessário a lhe

comprovar a identidade. O mesmo se observa com relação ao traje. O dos

Espíritos que nada conservam das fraquezas terrenas, aquele de ordinário

consta de amplos panos flutuantes e de uma cabeleira ondulante e graciosa.

Amiúde os Espíritos se apresentam com os atributos característicos

de sua elevação, como: uma auréola, asas os que podem ser considerados

anjos, resplandecente aspecto luminoso, enquanto outros trajam as que

recordam suas ocupações terrestres. Assim, um guerreiro aparecerá com

a sua armadura, um sábio com livros, um assassino com um punhal etc.

A figura dos Espíritos Superiores é bela, nobre e serena; os mais inferiores

têm qualquer coisa de feroz e bestial e, por vezes, ainda mostram vestígios

dos crimes que cometeram ou dos suplícios por que passaram, sendo-lhes

essas aparências uma realidade, isto é, julgam-se quais aparecem, o que é

para eles um castigo.

19. O Espírito que quer ou pode realizar uma aparição toma por

vezes uma forma ainda mais precisa, de semelhança perfeita com um sólido

corpo humano, de sorte a causar ilusão completa e dar a crer que está ali

um ser corpóreo.

Nalguns casos e dadas certas circunstâncias, a tangibilidade pode

tornar-se real, isto é, pode-se tocar, apalpar a aparição, senti-la resistente

como um corpo vivo e com o calor que se observa neste, o que não impede

que ela se desvaneça com a rapidez do relâmpago. Pode, pois, uma pessoa

estar em presença de um Espírito, trocar com ele palavras e gestos ordiná

rios e supor que se trata de um simples mortal, sem suspeitar sequer que

tem diante de si um Espírito.

20. Qualquer que seja o aspecto sob que se apresente um Espíri

to, ainda que sob forma tangível, pode ele, no instante em que isso se

dê, somente ser visível para algumas pessoas. Pode, pois, numa reunião,

mostrar-se apenas a um ou a diversos dos que nela estejam. De dois indiví

duos que se achem lado a lado, pode acontecer que um o veja e toque e o

outro nem o veja, nem o sinta.

O fenômeno da aparição a uma só pessoa, entre muitas que se encon

trem reunidas, explica-se por ser necessária, para que ele se produza, uma

combinação do fluido perispiritual do Espírito com o da pessoa. E, para que

isso se dê, é preciso que haja entre esses fluidos uma espécie de afinidade

que permita a combinação. Se o Espírito não encontra a necessária aptidão

orgânica, o fenômeno da aparição não pode reproduzir-se; se existe a apti

dão, o Espírito tem a liberdade de aproveitá-la ou não. Daí resulta que, se

duas pessoas igualmente dotadas quanto a essa aptidão se encontram juntas,

pode o Espírito operar a combinação fluídica apenas com aquela das duas

a quem ele queira mostrar-se. Se não a operar com a outra, esta não o verá.

É como se se tratasse de dois indivíduos cujos olhos estivessem vendados: se

um terceiro quiser mostrar-se a um dos dois apenas, somente dos olhos des

se retirará a venda. A um, porém, que fosse cego, nada adiantaria a retirada

da venda: ele, por isso, não adquiriria a faculdade de ver.

21. São muito raras as aparições tangíveis, sendo, no entanto, fre

quentes as vaporosas. São-no, sobretudo, no momento da morte. O Es

pírito que se libertou como que tem pressa de ir rever seus parentes e

amigos, quiçá para avisá-los de que acaba de deixar a Terra e dizer-lhes

que continua a viver. Recorra cada um às suas lembranças e verificará que

muitos fatos autênticos desse gênero, aos quais não foi dada a devida aten

ção, ocorreram, não somente à noite, mas em pleno dia e em completo

estado de vigília.

3 – Transfiguração. Invisibilidade

22. O perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades

que o dos Espíritos. Como já foi dito, o daquelas não se acha confinado no

corpo: irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fluídica.

Ora, pode suceder que, em certos casos e dadas as mesmas circunstâncias,

ele sofra uma transformação análoga à já descrita: a forma real e material

do corpo se desvanece sob aquela camada fluídica, se assim nos podemos

exprimir, e toma por momentos uma aparência inteiramente diversa, mes

mo a de outra pessoa ou a do Espírito que combina seus fluidos com os do

indivíduo, podendo também dar a um semblante feio um aspecto bonito

e radioso. Tal o fenômeno que se designa pelo nome de “transfiguração”,

bastante frequente e que se produz, principalmente, quando as circunstân

cias ocorrentes provocam mais abundante expansão de fluido.

O fenômeno da transfiguração pode operar-se com intensidades

muito diferentes, conforme o grau de depuração do perispírito, grau que

sempre corresponde ao da elevação moral do Espírito. Cinge-se às vezes a

uma simples mudança no aspecto geral da fisionomia, enquanto doutras

vezes dá ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida.

A forma material pode conseguintemente desaparecer sob o fluido pe

rispirítico, sem que se faça para isso necessário que o fluido assuma outro

aspecto. Por vezes, apenas oculta um corpo inerte ou vivo, tornando-o invi

sível para uma ou para muitas pessoas, como o faria uma camada de vapor.

Tomamos as coisas atuais unicamente como termos de comparação,

sem pretendermos uma analogia absoluta, que não existe.

23. Estes fenômenos talvez pareçam singulares, mas somente por

não se conhecerem ainda as propriedades do fluido perispirítico. Este é,

para nós, um novo corpo, que há de possuir propriedades novas e que não

se podem estudar senão pelos processos ordinários da Ciência, mas que

não deixam, por isso, de ser propriedades naturais, só tendo de maravilho

sa a novidade.

4 – Emancipação da alma

24. Durante o sono, apenas o corpo repousa; o Espírito, esse não

dorme; aproveita-se do repouso do primeiro e dos momentos em que a

sua presença não é necessária para atuar isoladamente e ir aonde quiser,

no gozo então da sua liberdade e da plenitude das suas faculdades. Du

rante a encarnação, o Espírito jamais se acha completamente separado do

corpo; qualquer que seja a distância a que se transporte, conserva-se preso

sempre àquele por um laço fluídico que serve para fazê-lo voltar à prisão

corpórea, desde que a sua presença ali se torne necessária. Esse laço só a

morte o rompe.

O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o homem se acha

por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre.

Tiveram sonos inteligentes os Espíritos que, desencarnando, logo se desligam da

matéria. Esses Espíritos, quando dormem, vão para junto dos seres que lhes são su

periores. Com estes viajam, conversam e se instruem. Trabalham mesmo em obras

que se lhes deparam concluídas, quando volvem, morrendo na Terra, ao Mundo

Espiritual. Ainda esta circunstância é de molde a vos ensinar que não deveis temer

a morte, pois que todos os dias morreis, como disse um santo.

Isto, pelo que concerne aos Espíritos elevados. Pelo que respeita ao grande nú

mero de homens que, morrendo, têm que passar longas horas na perturbação, na

incerteza de que tantos já vos falaram, esses vão, enquanto dormem, ou a mundos

inferiores à Terra, aonde os chamam velhas afeições, ou em busca de gozos quiçá

mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam. Vão beber doutrinas ainda

mais vis, mais ignóbeis, mais funestas do que as que professam entre vós. E o que

gera a simpatia na Terra é o fato de sentir-se o homem, ao despertar, ligado pelo

coração àqueles com quem acaba de passar oito ou nove horas de ventura ou de

prazer. Também as antipatias invencíveis se explicam pelo fato de sentirmos em

nosso íntimo que os entes com quem antipatizamos têm uma consciência diversa

da nossa. Conhecemo-los sem nunca os termos visto com os olhos. É ainda o que

explica a indiferença de muitos homens. Não cuidam de conquistar novos amigos,

por saberem que muitos têm que os amam e lhes querem. Numa palavra: o sono

influi mais do que supondes na vossa vida.

Graças ao sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo

dos Espíritos. Por isso é que os Espíritos Superiores assentem, sem grande repug

nância, em encarnar entre vós. Quis Deus que, tendo de estar em contato com o

vício, pudessem eles ir retemperar-se na fonte do bem, a fim de igualmente não

falirem, quando se propõem a instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes

abriu, para que possam ir ter com seus amigos do Céu; é o recreio depois do tra

balho, enquanto esperam a grande libertação, a libertação final, que os restituirá

ao meio que lhes é próprio.

O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono. Notai, porém, que

nem sempre sonhais. Que quer isso dizer? Que nem sempre vos lembrais do que

vistes, ou de tudo o que havias visto, enquanto dormíeis. É que não tendes então

a alma no pleno desenvolvimento de suas faculdades. Muitas vezes, apenas vos fica

a lembrança da perturbação que o vosso Espírito experimenta à sua partida ou

no seu regresso, acrescida da que resulta do que fizestes ou do que vos preocupa

quando despertos. A não ser assim, como explicaríeis os sonhos absurdos, que tan

to os sábios, quanto as mais humildes e simples criaturas têm? Acontece também

que os maus Espíritos se aproveitam dos sonhos para atormentar as almas fracas

e pusilânimes.

Em suma, dentro em pouco vereis vulgarizar-se outra espécie de sonhos. Con

quanto tão antiga como a de que vimos falando, vós a desconheceis. Refiro-me

aos sonhos de Joana, ao de Jacó, aos dos profetas judeus e aos de alguns adivinhos

indianos. São recordações guardadas por almas que se desprendem quase inteira

mente do corpo, recordações dessa segunda vida a que ainda há pouco aludíamos

(O livro dos espíritos, q. 402).

25. A independência e a emancipação da alma se manifestam, de

maneira evidente, sobretudo no fenômeno do sonambulismo natural e

magnético, na catalepsia e na letargia. A lucidez sonambúlica não é senão a

faculdade, que a alma tem, de ver e sentir sem o concurso dos órgãos mate

riais. É um de seus atributos essa faculdade e reside em todo o seu ser, não

passando os órgãos do corpo de estreitos canais por onde lhe chegam certas

percepções. A visão a distância, que alguns sonâmbulos possuem, provém

de um deslocamento da alma, que então vê o que se passa nos lugares a

que se transporta. Em suas peregrinações, ela se acha sempre revestida do

seu perispírito, agente de suas sensações, mas que nunca se desliga com

pletamente do corpo, como já ficou dito. O afastamento da alma produz a

inércia do corpo, que às vezes parece sem vida.

26. Esse afastamento ou desprendimento pode também operar-se, em

graus diversos, no estado de vigília. Mas, então, jamais o corpo goza inteira

mente da sua atividade normal; há sempre uma certa absorção, um alhea

mento mais ou menos completo das coisas terrestres. O corpo não dorme,

caminha, age, mas os olhos olham sem ver, dando a compreender que a alma

está algures. Como no sonambulismo, ela vê as coisas distantes; tem percep

ções e sensações que desconhecemos; às vezes, tem a presciência de alguns

acontecimentos futuros pela ligação que percebe existir entre eles e os fatos

presentes. Penetrando no Mundo Invisível, vê os Espíritos com quem lhe é

possível entabular conversação e cujos pensamentos lhe é dado transmitir.

À sua volta ao estado normal, de ordinário sobrevém o esquecimento

do que se passou. Algumas vezes, porém, ela conserva uma lembrança mais

ou menos vaga do ocorrido, como se tivesse tido um sonho.

27. Não raro, a emancipação da alma amortece tanto as sensações

físicas, que chega a produzir verdadeira insensibilidade que, nos momentos

de exaltação, lhe possibilita suportar com indiferença as mais vivas do

res. Provém essa insensibilidade do desprendimento do perispírito, agente

transmissor das sensações corporais. Ausente, o Espírito não sente as feri

das feitas no corpo.

28. Em sua manifestação mais simples, a faculdade que a alma tem

de emancipar-se produz o que se denomina o devaneio em vigília. A al

gumas pessoas, essa emancipação também dá a presciência, que se traduz

pelos pressentimentos; em grau mais avançado de desprendimento, produz

o fenômeno conhecido pelo nome de “segunda vista”, “vista dupla”, ou

“sonambulismo vígil”.

29. O êxtase é a emancipação da alma no grau máximo.

No sonho e no sonambulismo, o Espírito anda em giro pelos mundos terres

tres. No êxtase, penetra em um mundo desconhecido, o dos Espíritos etéreos,

com os quais entra em comunicação, sem que, todavia, lhe seja lícito ultrapassar

certos limites, porque, se os transpusesse, totalmente se partiriam os laços que o

prendem ao corpo. Cerca-o então resplendente e desusado fulgor, inebriam-no

harmonias que na Terra se desconhecem, indefinível bem-estar o invade: goza

antecipadamente da beatitude celeste e bem se pode dizer que pousa um pé no

limiar da eternidade.

No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo. Fica-lhe somen

te, pode-se dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma se lhe acha presa unicamente

por um fio, que mais um pequenino esforço quebraria sem remissão (O livro dos

espíritos, q. 455).

30. Como em nenhum dos outros graus de emancipação da alma, o

êxtase não é isento de erros, pelo que as revelações dos estáticos longe estão

de exprimir sempre a verdade absoluta. A razão disso reside na imperfeição

do espírito humano; somente quando ele há chegado ao cume da escala

pode julgar das coisas lucidamente; antes não lhe é dado ver tudo, nem

tudo compreender. Se, após o fenômeno da morte, quando o desprendi

mento é completo, ele nem sempre vê com justeza; se muitos há que se

conservam imbuídos dos prejuízos da vida, que não compreendem as coi

sas do mundo visível, onde se encontram, com mais forte razão o mesmo

há de suceder com o Espírito ainda retido na carne.

Há por vezes, nos extáticos, mais exaltação que verdadeira lucidez, ou,

melhor, a exaltação lhes prejudica a lucidez, razão por que suas revelações

são com frequência mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e outras

ridículas. Também Espíritos inferiores se aproveitam dessa exaltação, que é

sempre uma causa de fraqueza quando não há quem saiba governá-la, para

dominar o extático, e, para conseguirem seus fins, assumem aos olhos deste

aparências que o aferram às suas ideias e preconceitos, de modo que suas

visões e revelações não vêm a ser mais do que reflexos de suas crenças. É um

escolho a que só escapam os Espíritos de ordem elevada, escolho diante do

qual o observador deve manter-se em guarda.

31. Pessoas há cujo perispírito se identifica de tal maneira com o cor

po, que só com extrema dificuldade se opera o desprendimento da alma,

mesmo por ocasião da morte; são, em geral, as que viveram mais para a

matéria; são também aquelas para as quais a morte é mais penosa, mais

cheia de angústias, mais longa e dolorosa a agonia. Outras há, porém, cujas

almas, ao contrário, se acham presas ao corpo por liames tão frágeis, que a

separação se efetua sem abalos, com a maior facilidade e frequentemente

antes que se dê a morte do corpo. Ao aproximar-se-lhes o termo da vida,

essas almas entreveem o mundo onde vão penetrar e pelo qual aspiram no

momento da libertação completa.

5 – Aparição de pessoas vivas. Bicorporeidade

32. A faculdade, que a alma possui, de emancipar-se e de despren

der-se do corpo durante a vida pode dar lugar a fenômenos análogos aos

que os Espíritos desencarnados produzem. Enquanto o corpo se acha mer

gulhado em sono, o Espírito, transportando-se a diversos lugares, pode

tornar-se visível e aparecer sob forma vaporosa, quer em sonho, quer em

estado de vigília. Pode igualmente apresentar-se sob forma tangível, ou,

pelo menos, com uma aparência tão idêntica à realidade, que possível se

torna a muitas pessoas estar com a verdade, ao afirmarem tê-lo visto ao

mesmo tempo em dois pontos diversos. Ele, com efeito, estava em ambos,

mas apenas num se achava o corpo verdadeiro, achando-se no outro o Es

pírito. Foi este fenômeno, aliás muito raro, que deu origem à crença nos

homens duplos e que se denomina de bicorporeidade.

Por muito extraordinário que seja, tal fenômeno, como todos os ou

tros, se compreende na ordem dos fenômenos naturais, pois que decorre

das propriedades de perispírito e de uma Lei Natural.

6 – Dos médiuns

33. Médiuns são pessoas aptas a sentir a influência dos Espíritos e a

transmitir os pensamentos destes.

Toda pessoa que, num grau qualquer, experimente a influência dos

Espíritos é, por esse simples fato, médium. Essa faculdade é inerente ao

homem e, por conseguinte, não constitui privilégio exclusivo, donde se

segue que poucos são os que não possuam um rudimento de tal faculdade.

Pode-se, pois, dizer que toda gente, mais ou menos, é médium. Contudo,

segundo o uso, esse qualificativo só se aplica àqueles em quem a faculdade

mediúnica se manifesta por efeitos ostensivos, de certa intensidade.

34. O fluido perispirítico é o agente de todos os fenômenos espíritas,

que só se podem produzir pela ação recíproca dos fluidos que emitem o

médium e o Espírito. O desenvolvimento da faculdade mediúnica depen

de da natureza mais ou menos expansiva do perispírito do médium e da

maior ou menor facilidade da sua assimilação pelo dos Espíritos; depende,

portanto, do organismo e pode ser desenvolvida quando exista o princípio;

não pode, porém, ser adquirida quando o princípio não exista. A predis

posição mediúnica independe do sexo, da idade e do temperamento. Há

médiuns em todas as categorias de indivíduos, desde a mais tenra idade,

até a mais avançada.

35. As relações entre os Espíritos e os médiuns se estabelecem por

meio dos respectivos perispíritos, dependendo a facilidade dessas relações

do grau de afinidade existente entre os dois fluidos. Alguns há que se com

binam facilmente, enquanto outros se repelem, donde se segue que não

basta ser médium para que uma pessoa se comunique indistintamente

com todos os Espíritos. Há médiuns que só com certos Espíritos podem

comunicar-se ou com Espíritos de certas categorias, e outros que não o

podem a não ser pela transmissão do pensamento, sem qualquer manifes

tação exterior.

36. Por meio da combinação dos fluidos perispiríticos o Espírito,

por assim dizer, se identifica com a pessoa que ele deseja influenciar; não

só lhe transmite o seu pensamento, como também chega a exercer sobre ela

uma influência física, fazê-la agir ou falar à sua vontade, obrigá-la a dizer

o que ele queira, servir-se, numa palavra, dos órgãos do médium, como se

seus próprios fossem. Pode, enfim, neutralizar a ação do próprio Espírito

da pessoa influenciada e paralisar-lhe o livre-arbítrio. Os bons Espíritos se

servem dessa influência para o bem, e os maus para o mal.

37. Podem os Espíritos manifestar-se de uma infinidade de maneiras,

mas não o podem senão com a condição de acharem uma pessoa apta a re

ceber e transmitir impressões deste ou daquele gênero, segundo as aptidões

que possua. Ora, como não há nenhuma que possua no mesmo grau todas as

aptidões, resulta que umas obtêm efeitos que a outras são impossíveis. Dessa

diversidade de aptidões decorre que há diferentes espécies de médiuns.

38. Nem sempre é necessária a intervenção da vontade do médium.

O Espírito que quer manifestar-se procura o indivíduo apto a receber-lhe

a impressão e dele se serve, muitas vezes a seu mau grado. Outras pessoas,

ao contrário, conscientes de suas faculdades, podem provocar certas mani

festações. Daí duas categorias de médiuns: médiuns inconscientes e médiuns

facultativos.

No caso dos primeiros, a iniciativa é dos Espíritos; no segundo, é

dos médiuns.

39. Os médiuns facultativos só se encontram entre pessoas que têm

conhecimento mais ou menos completo dos meios de comunicação com

os Espíritos, o que lhes possibilita servir-se, por vontade própria, de suas

faculdades; os médiuns inconscientes, ao contrário, existem entre as que ne

nhuma ideia fazem do Espiritismo, nem dos Espíritos, até mesmo entre

as mais incrédulas e que servem de instrumento, sem o saberem e sem o

quererem. Os fenômenos espíritas de todos os gêneros podem operar-se

por influência destes últimos, que sempre existiram, em todas as épocas e

no seio de todos os povos. A ignorância e a credulidade lhes atribuíram um

poder sobrenatural e, conforme os tempos e os lugares, fizeram deles san

tos, feiticeiros, loucos ou visionários. O Espiritismo mostra que com eles

apenas se dá a manifestação espontânea de uma faculdade natural.

40. Entre as diferentes espécies de médiuns, distinguem-se princi

palmente: os de efeitos físicos; os sensitivos ou impressivos; os audientes, falan

tes, videntes, inspirados, sonambúlicos, curadores, escreventes ou psicógrafos.

Aqui unicamente trataremos das espécies essenciais.7

41. Médiuns de efeitos físicos – São os mais aptos, especialmente, à

produção de fenômenos materiais, como o movimento de corpos inertes,

os ruídos, a deslocação, o levantamento e a translação de objetos etc. Es

tes fenômenos podem ser espontâneos ou provocados. Em todos os casos,

exigem o concurso voluntário ou involuntário de médiuns dotados de fa

culdades especiais. Em geral, têm por agentes Espíritos de ordem inferior,

uma vez que os Espíritos elevados só se preocupam com comunicações

inteligentes e instrutivas.

42. Médiuns sensitivos ou impressivos – Dá-se esta denominação às pes

soas suscetíveis de pressentir a presença dos Espíritos, por impressão vaga,

um como ligeiro atrito em todos os membros, fato que não logram explicar.

Tal sutileza pode essa faculdade adquirir, que aquele que a possui reconhece,

pela impressão que experimenta, não só a natureza, boa ou má, do Espírito

que lhe está ao lado, mas também a sua individualidade, como o cego reco

nhece instintivamente a aproximação de tal ou tal pessoa. Um Espírito bom

causa sempre uma impressão branda e agradável; a de um Espírito mau, ao

contrário, é penosa, aflitiva e desagradável: há um como cheiro de impureza.

43. Médiuns audientes – Esses ouvem os Espíritos; é, algumas vezes,

como se escutassem uma voz interna que lhes ressoasse no foro íntimo;

doutras vezes, é uma voz exterior, clara e distinta, qual a de uma pessoa

viva. Os médiuns audientes também podem conversar com os Espíritos.

Quando se habituam a comunicar-se com certos Espíritos, eles os reconhe

cem imediatamente pelo som da voz. Aquele que não é médium audiente

pode comunicar-se com um Espírito por via de um médium audiente que

lhe transmite as palavras.

44. Médiuns falantes – Os médiuns audientes, que nada mais fazem

do que transmitir o que ouvem, não são propriamente médiuns falantes,

os quais, as mais das vezes, nada ouvem. Com eles, o Espírito atua sobre

os órgãos da palavra, como atuam sobre a mão dos médiuns escreventes.

Querendo comunicar-se, o Espírito se serve do órgão que acha mais ma

leável: de um, utiliza-se da mão; de outro, da palavra; de um terceiro, da

audição. Em geral, o médium falante se exprime sem ter consciência do

que diz e diz amiúde coisas inteiramente fora do âmbito de suas ideias ha

bituais, de seus conhecimentos e, até, fora do alcance da sua inteligência.

Não é raro verem-se pessoas iletradas e de inteligência vulgar expressar-se,

em tais momentos, com verdadeira eloquência e tratar, com incontestável

superioridade, de questões sobre as quais seriam incapazes de emitir, no

estado ordinário, uma opinião.os

Se bem esteja perfeitamente acordado quando exerce a sua facul

dade, raro é que o médium falante guarde lembrança do que disse. Nem

sempre, porém, é integral a sua passividade. Alguns há que têm intuição do

que dizem, no próprio instante em que proferem as palavras.

Estas, no médium falante, são o instrumento de que se serve o Es

pírito com quem uma pessoa estranha pode entrar em comunicação, do

mesmo modo que o pode fazer com o concurso de um médium audiente.

Entre o médium falante e o médium audiente, há a diferença de que este

fala voluntariamente para repetir o que ouve, ao passo que o outro fala

involuntariamente.

45. Médiuns videntes – Dá-se esta qualificação às pessoas que, em

estado normal e perfeitamente despertas, gozam da faculdade de ver os

Espíritos. A possibilidade de vê-los em sonho resulta, sem contestação, de

uma espécie de mediunidade, mas não são médiuns videntes propriamente

ditos. Expusemos a teoria deste fenômeno no capítulo: Visões e aparições de

O livro dos médiuns.8

São muito frequentes as aparições dos Espíritos às pessoas que os

amaram, ou os conheceram na Terra. Conquanto os que costumam tê-las

possam ser considerados médiuns videntes, esta denominação, em regra,

só é dada aos que gozam, de modo mais ou menos permanente, da facul

dade de ver quase que todos os Espíritos. Nesse número, há os que apenas

veem os Espíritos que são evocados e que eles conseguem descrever com

minuciosa exatidão. Descrevem-lhes os gestos com todos os pormenores,

os traços fisionômicos, o vestuário e até os sentimentos de que parecem

animados. Há outros em quem essa faculdade revela caráter ainda mais

geral: são os que veem toda a população espírita ambiente a movimentar--se, como se tratasse, poder-se-ia dizer, de seus negócios. Esses médiuns

nunca estão sós; cerca-os sempre uma sociedade a cuja escolha podem

proceder, livremente, porquanto podem, pela ação da vontade própria,

afastar os Espíritos que lhes não convenha ter próximos de si, ou atrair os

que lhes são simpáticos.

46. Médiuns sonambúlicos – Pode-se considerar o sonambulismo

como uma variedade da faculdade mediúnica ou, antes, são duas ordens

de fenômenos que frequentemente se encontram ligados. O sonâmbulo

age sob a influência do seu próprio Espírito; sua própria alma é que, em

momentos de emancipação, vê, ouve e percebe além dos limites dos sen

tidos. O que ele exprime haure-o de si mesmo; suas ideias são, em geral,

mais justas do que no estado normal, mais extensos os seus conhecimentos,

porque livre se lhe acha a alma. Em suma, ele vive antecipadamente a vida

dos Espíritos. O médium, ao contrário, é instrumento de uma inteligência

estranha; é passivo e o que diz não vem do seu próprio eu.

Em resumo: o sonâmbulo externa seus próprios pensamentos e o

médium exprime os de outrem. Mas o Espírito que se comunica com um

médium qualquer também pode comunicar-se com um sonambúlico. É

até frequente o estado de emancipação da alma, durante o sonambulis

mo, tornar mais fácil essa comunicação. Muitos sonâmbulos veem perfei

tamente os Espíritos e os descrevem com tanta precisão, como os médiuns

videntes; podem conversar com eles e transmitir-nos seus pensamentos;

se o que dizem está fora do âmbito de seus conhecimentos pessoais, é que

outros Espíritos lho sugerem.

47. Médiuns inspirados – Nestes médiuns, muito menos aparentes

são do que nos outros os sinais exteriores da mediunidade; é toda inte

lectual e moral a ação que os Espíritos exercem sobre eles e se revela nas

menores circunstâncias da vida, como nas maiores concepções. Sobretudo

debaixo desse aspecto é que se pode dizer que todos são médiuns, porquan

to ninguém há que não tenha Espíritos protetores e familiares a empre

gar todos os esforços por lhe sugerir salutares ideias. No inspirado, difícil

muitas vezes se torna distinguir as ideias que lhe são próprias do que lhe é

sugerido. A espontaneidade é principalmente o que caracteriza esta última.

Nos grandes trabalhos da inteligência é onde mais se evidencia a

inspiração. Os homens de gênio, de todas as categorias, artistas, sábios,

literatos, oradores, são sem dúvida Espíritos adiantados, capazes, por si

mesmos, de compreender e conhecer grandes coisas; ora, precisamente

porque são considerados capazes, é que os Espíritos que visam à execução

de certos trabalhos lhes sugerem as ideias necessárias, de sorte que na

maioria dos casos eles são médiuns sem o saberem. Têm, contudo, vaga

intuição de uma assistência estranha, porquanto aquele que apela para

a inspiração nada mais faz do que uma evocação. Se não esperasse ser

atendido, por que exclamaria, como tão amiúde sucede: ‘Meu bom gênio,

vem em meu auxílio!’

48. Médiuns de pressentimentos – Pessoas há que, em dadas circuns

tâncias, têm uma imprecisa intuição das coisas futuras. Essa intuição pode

provir de uma espécie de dupla vista, que faculta se entrevejam as conse

quências das coisas presentes, mas, doutras vezes, resulta de comunicações

ocultas, que fazem de tais pessoas uma variedade dos médiuns inspirados.

49. Médiuns proféticos – É igualmente uma variedade dos médiuns

inspirados. Recebem, com a permissão de Deus e com mais precisão do

que os médiuns de pressentimentos, a revelação das coisas futuras, de inte

resse geral, que eles recebem o encargo de tornar conhecidas aos homens,

para lhes servir de ensinamento.

De certo modo, o pressentimento é dado à maioria dos homens,

para uso pessoal deles; o dom de profecia, ao contrário, é excepcional e

implica a ideia de uma missão na Terra.

Todavia, se há verdadeiros profetas, maior é o número dos falsos,

que tomam os devaneios da sua imaginação como revelações, quando não

são velhacos que por ambição se fazem passar como profetas.

“O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Po

deis reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus atos. Impossível é que

Deus se sirva da boca do mentiroso para ensinar a verdade” (O livro dos

espíritos, q. 624).

50. Médiuns escreventes ou psicógrafos – Essa denominação é dada

às pessoas que escrevem sob a influência dos Espíritos. Assim como um

Espírito pode atuar sobre os órgãos vocais de um médium falante e fazê-lo

pronunciar palavras, também pode servir-se da sua mão para fazê-lo escre

ver. A mediunidade psicográfica apresenta três variedades bem distintas: os

médiuns mecânicos, os intuitivos e os semimecânicos.

Com o médium mecânico, o Espírito lhe atua diretamente sobre a

mão, impulsionando-a. O que caracteriza este gênero de mediunidade é a

inconsciência absoluta, por parte do médium, do que sua mão escreve. O

movimento desta independe da vontade do escrevente; movimenta-se sem

interrupção, a despeito do médium, enquanto o Espírito tem alguma coisa

a dizer, e para desde que este último haja concluído.

Com o médium intuitivo, à transmissão do pensamento serve de in

termediário o Espírito do médium. O outro Espírito, nesse caso, não atua

sobre a mão para movê-la, atua sobre a alma, identificando-se com ela e

imprimindo-lhe sua vontade e suas ideias. A alma recebe o pensamento

do Espírito comunicante e o transcreve. Nesta situação, o médium escreve

voluntariamente e tem consciência do que escreve, embora não grafe seus

próprios pensamentos.

Torna-se frequentemente difícil distinguir o pensamento do médium

do que lhe é sugerido, o que leva muitos médiuns deste gênero a duvidar da

sua faculdade. Podem reconhecer-se os pensamentos sugeridos pelo fato de

não serem nunca preconcebidos; eles surgem à proporção que o médium vai

escrevendo e não raro são opostos à ideia que este previamente concebera.

Podem mesmo estar fora dos conhecimentos e da capacidade do médium.

Há grande analogia entre a mediunidade intuitiva e a inspiração; a

diferença consiste em que a primeira se restringe quase sempre a questões de

atualidade e pode aplicar-se ao que esteja fora das capacidades intelectuais

do médium; por intuição, pode este último tratar de um assunto que lhe seja

completamente estranho. A inspiração se estende por um campo mais vasto

e geralmente vem em auxílio das capacidades e das preocupações do Espírito

encarnado. Os traços da mediunidade são, de regra, menos evidentes.

O médium semimecânico, ou semi-intuitivo participa dos outros dois

gêneros. No médium puramente mecânico, o movimento da mão indepen

de da sua vontade; no médium intuitivo, o movimento é voluntário e fa

cultativo. O médium semimecânico sente na mão uma impulsão dada mau

grado seu, mas ao mesmo tempo tem consciência do que escreve, à medida

que as palavras se formam. Com o primeiro, o pensamento vem depois do

ato de escrever; com o segundo, precede-o; com o terceiro, acompanha-o.

51. Não sendo o médium mais do que um instrumento que recebe e

transmite o pensamento de um Espírito estranho, que obedece à impulsão

mecânica que lhe é dada, nada há que ele não possa fazer fora do campo de

seus conhecimentos, se possui a maleabilidade e a aptidão mediúnica ne

cessárias. Assim é que há médiuns desenhistas, pintores, músicos, versejadores,

embora estranhos às artes do desenho, da pintura, da música e da poesia;

médiuns iletrados, que escrevem sem saber ler, nem escrever, médiuns po

lígrafos, que reproduzem escritas de diversos gêneros e, algumas vezes, com

perfeita exatidão, a que o Espírito tinha quando encarnado; médiuns poli

glotas, que escrevem ou falam em línguas que lhes são desconhecidas etc.

52. Médiuns curadores – Consiste a mediunidade desta espécie na

faculdade que certas pessoas possuem de curar pelo simples contato, pela

imposição das mãos, pelo olhar, por um gesto, mesmo sem o concurso de

qualquer medicamento. Semelhante faculdade incontestavelmente tem o

seu princípio na força magnética; difere desta, entretanto, pela energia e

instantaneidade da ação ao passo que as curas magnéticas exigem um trata

mento metódico, mais ou menos longo. Todos os magnetizadores são mais

ou menos aptos a curar, se sabem proceder convenientemente; dispõem da

ciência que adquiriram. Nos médiuns curadores, a faculdade é espontânea

e alguns a possuem sem nunca ter ouvido falar de magnetismo.

A faculdade de curar pela imposição das mãos deriva evidentemente

de uma força excepcional de expansão, mas diversas causas concorrem para

aumentá-la, entre as quais são de colocar-se, na primeira linha: a pureza

dos sentimentos, o desinteresse, a benevolência, o desejo ardente de pro

porcionar alívio, a prece fervorosa e a confiança em Deus; numa palavra:

todas as qualidades morais. A força magnética é puramente orgânica; pode,

como a força muscular, ser partilha de toda gente, mesmo do homem per

verso, mas só o homem de bem se serve dela exclusivamente para o bem,

sem ideias ocultas de interesse pessoal, nem de satisfação de orgulho ou

de vaidade. Mais depurado, o seu fluido possui propriedades benfazejas e

reparadoras, que não pode ter o do homem vicioso ou interesseiro.

Todo efeito mediúnico, como já foi dito, resulta da combinação dos

fluidos que emitem um Espírito e um médium. Pela sua conjugação esses

fluidos adquirem propriedades novas, que separadamente não teriam, ou,

pelo menos, não teriam no mesmo grau. A prece, que é uma verdadeira

evocação, atrai os bons Espíritos, sempre solícitos em secundar os esforços

do homem bem-intencionado; o fluido benéfico dos primeiros se casa fa

cilmente com o do segundo, ao passo que o do homem vicioso se junta ao

dos maus Espíritos que o cercam.

O homem de bem, que não dispusesse da força fluídica, pouca coisa

conseguiria fazer por si mesmo, só lhe restando apelar para a assistência dos

Espíritos bons, pois quase nula seria a sua ação pessoal; uma grande força

fluídica, aliada à maior soma possível de qualidades morais, pode operar,

em matéria de curas, verdadeiros prodígios.

53. A ação fluídica, ademais, é poderosamente secundada pela con

fiança do doente, e Deus quase sempre lhe recompensa a fé, concedendo--lhe o bom êxito.

54. Somente a superstição pode emprestar qualquer virtude a certas

palavras e unicamente Espíritos ignorantes ou mentirosos podem alimentar

semelhantes ideias, prescrevendo fórmulas. Pode, entretanto, acontecer

que, para pessoas pouco esclarecidas e incapazes de compreender as coisas

puramente espirituais, o uso de uma fórmula de prece ou de determinada

prática contribua a lhes infundir confiança. Nesse caso, porém, não é na

fórmula que está a eficácia, e sim na fé que aumentou com a ideia ligada

ao emprego da fórmula.

55. Não se devem confundir os médiuns curadores com os médiuns

receitistas, que são simples médiuns escreventes, cuja especialidade consiste

em servirem mais facilmente de intérpretes aos Espíritos para as prescrições

médicas; absolutamente mais não fazem que transmitir o pensamento do

Espírito, sem exercerem, de si mesmos, nenhuma influência.

7 – Da obsessão e da possessão

56. A obsessão consiste no domínio que os maus Espíritos assumem

sobre certas pessoas, com o objetivo de as escravizar e submeter à vontade

deles, pelo prazer que experimentam em fazer o mal.

Quando um Espírito, bom ou mau, quer atuar sobre um indivíduo,

envolve-o, por assim dizer, no seu perispírito, como se fora um manto.

Interpenetrando-se os fluidos, os pensamentos e as vontades dos dois se

confundem e o Espírito, então, se serve do corpo do indivíduo, como se

fosse seu, fazendo-o agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, quais os

médiuns. Se o Espírito é bom, sua atuação é suave, benfazeja, não impele

o indivíduo senão à prática de atos bons; se é mau, força-o a ações más. Se

é perverso e malfazejo, aperta-o como numa teia, paralisa-lhe até a vontade

e mesmo o juízo, que ele abafa com o seu fluido, como se abafa o fogo sob

uma camada d’água. Fá-lo pensar, falar, agir em seu lugar, impele-o, a seu

mau grado, a atos extravagantes ou ridículos; magnetiza-o, em suma, lan

ça-o num estado de catalepsia moral e o indivíduo se torna um instrumen

to da sua vontade. Tal a origem da obsessão, da fascinação e da subjugação

que se produzem em graus muito diversos de integridade. À subjugação,

quando no paroxismo, é que vulgarmente dão o nome de possessão. É de

notar-se que, nesse estado, o indivíduo tem muitas vezes consciência de

que o que faz é ridículo, mas é forçado a fazê-lo, tal como se um homem

mais vigoroso do que ele o obrigasse a mover, contra a vontade, os braços,

as pernas e a língua.

57. Pois que os Espíritos existiram em todos os tempos, também

desde todos os tempos representaram o mesmo papel, porque esse papel é

da natureza e a prova está no grande número que sempre houve de pessoas

obsidiadas, ou possessas, se o preferirem, antes que se falasse de Espíritos,

ou que, nos dias atuais, se ouvisse falar de Espiritismo, nem de médiuns. É,

pois, espontânea a ação dos Espíritos, bons ou maus; a destes produz uma

imensidade de perturbações na economia moral e mesmo física, perturba

ções que, por ignorância da verdadeira causa, atribuíam a causas errôneas.

Os Espíritos maus são inimigos invisíveis, tanto mais perigosos, quanto da

ação deles não se suspeitava. Desmascarando-os, o Espiritismo revela uma

nova causa de certos males da Humanidade. Conhecida a causa, não mais

se procurará combater o mal por meios que já se sabem inúteis; procurar--se-ão outros mais eficazes. Ora, que foi o que fez se descobrisse aquela

causa? A mediunidade. Foi pela mediunidade que esses inimigos ocultos

traíram a sua presença; ela foi para eles o que o microscópio foi para os in

finitamente pequenos: revelou todo um mundo. O Espiritismo não atraiu

os maus Espíritos: desvendou-os e forneceu os meios de se lhes paralisar a

ação e, por conseguinte, de afastá-los. Não foi ele quem trouxe o mal, visto

que o mal existe desde todos os tempos; ele, ao contrário, dá remédio ao

mal, apontando-lhe a causa. Uma vez reconhecida a ação do Mundo Invi

sível, ter-se-á a explicação de um sem-número de fenômenos incompreen

didos e a Ciência, enriquecida com o conhecimento dessa nova lei, verá

abrir-se diante de si novos horizontes. Quando chegará ela a isso? Quando

deixar de professar o materialismo, porquanto o materialismo lhe detém o

voo, opondo-lhe intransponível barreira.

58. Pois que há Espíritos maus que obsidiam e Espíritos bons que

protegem, perguntam muitos se os primeiros são mais poderosos do que

os segundos.

Não é que o bom Espírito seja mais fraco; o médium é que não tem

força bastante para alijar de si o manto que lhe atiraram em cima, para se

desprender dos braços que o enlaçam e nos quais, cumpre dizê-lo, às vezes

se compraz. Neste caso, compreende-se que o bom Espírito não possa levar

vantagem, pois que o outro é preferido. Admitamos, porém, que a vítima

deseje desembaraçar-se do envoltório fluídico que penetra o seu, como a

umidade penetra as roupas. Esse desejo nem sempre bastará. A própria

vontade nem sempre é suficiente.

Trata-se de lutar contra um adversário. Ora, quando dois homens

lutam corpo a corpo, aquele que dispõe de mais fortes músculos é que

abate o outro. Com um Espírito tem-se de lutar, não corpo a corpo, mas

Espírito a Espírito e é ainda o mais forte que triunfa. Aqui, a força reside

na autoridade que se possa exercer sobre o obsessor e essa autoridade está

subordinada à superioridade moral. Esta é como o Sol que dissipa o ne

voeiro pela potencialidade dos seus raios. Esforçar-se por ser bom, por se

tornar melhor se já é bom, por purificar-se de suas imperfeições, por, numa

palavra, elevar-se moralmente o mais possível, tal o meio de o encarnado

adquirir o poder de mandar sobre os Espíritos inferiores, para os afastar.

De outro modo estes zombarão das suas injunções (Ver O livro dos mé

diuns, it. 252 e 279).

Entretanto, objetar-se-á, por que os Espíritos protetores não lhes or

denam que se retirem? Sem dúvida, podem fazê-lo e algumas vezes o fazem.

Mas, permitindo a luta, deixam ao atacado o mérito da vitória. Se consen

tem que se debatam criaturas que, sob certos aspectos, têm seus merecimen

tos, é para lhes experimentar a perseverança e para levá-las a adquirir mais

força no campo do bem. A luta é uma espécie de ginástica moral.

Muitas pessoas prefeririam certamente outra receita mais fácil para

repelirem os maus Espíritos: por exemplo, algumas palavras que se profe

rissem, ou alguns sinais que se fizessem, o que seria mais simples do que

corrigir-se alguém de seus defeitos. Sentimos muito; porém, nenhum meio

eficaz conhecemos de vencer-se um inimigo, senão o fazer-se mais forte que

ele. Quando estamos doentes, temos que resignar-nos a tomar um me

dicamento, por muito amargo que seja, mas também, se tivermos tido a

coragem de bebê-lo, como nos sentimos bem e fortes! Temos pois que nos

persuadir de que não há, para alcançarmos aquele resultado, nem palavras

sacramentais, nem fórmulas, nem talismãs, nem sinais materiais quaisquer.

De tudo isso riem-se os maus Espíritos e não raro se comprazem em indicar

alguns, tendo sempre o cuidado de afirmá-los infalíveis, para melhormente

captarem a confiança daqueles a quem querem iludir, porque, então, estes,

confiantes nas virtudes do processo aconselhado, se entregam sem receio.

Antes de pretender, quem quer que seja, domar um Espírito mau,

precisa cuidar de domar-se a si mesmo. De todos os meios de adquirir-se

força para chegar a isso, o mais eficiente é a vontade secundada pela pre

ce, a prece do coração, entenda-se, e não a de palavras, das quais a boca

participa mais do que o pensamento. Precisamos pedir ao nosso anjo guar

dião e aos bons Espíritos que nos assistam na luta; não basta, porém, lhes

peçamos que afastem o Espírito mau; devemos lembrar-nos desta máxima:

ajuda-te a ti mesmo e o Céu te ajudará e rogar-lhes, sobretudo, a força que

nos falta para vencermos os nossos maus pendores, que são, para nós, pio

res que os maus Espíritos, porquanto são esses pendores que os atraem,

como a podridão atrai as aves de rapina. Orando também pelo Espírito ob

sessor, retribuir-lhe-emos com o bem o mal que nos queira e nos mostrare

mos melhores do que ele, o que já é uma superioridade. Com perseverança,

acaba-se as mais das vezes por induzi-lo à posse de melhores sentimentos e

a transformá-lo de perseguidor em amigo grato.

Em resumo: a prece fervorosa e os esforços sérios que a criatura faça

por melhorar-se constituem os únicos meios de ela afastar os maus Espí

ritos, que reconhecem como seus senhores aqueles que praticam o bem,

enquanto as fórmulas lhes provocam o riso, do mesmo modo que a cólera e

a impaciência os excitam. Precisa o perseguido cansá-los, demonstrando-se

mais paciente do que eles.

Por vezes acontece que a subjugação avulta até o ponto de paralisar a

vontade do obsidiado, do qual nenhum concurso sério se pode esperar. Aí,

principalmente, é que a intervenção de terceiros se torna necessária, quer

por meio da prece, quer pela ação magnética. Mas também a força dessa

intervenção depende do ascendente moral que os interventores possam ter

sobre os Espíritos; se não valerem mais do que estes, improfícua será a ação

que desenvolvam. A ação magnética, no caso, tem por efeito introduzir no

fluido do obsidiado um fluido melhor e eliminar o do mau Espírito. Ao

operar, deve o magnetizador objetivar duplo fim: o de opor a uma força

moral outra força moral e produzir sobre o paciente uma espécie de reação

química, para nos servirmos de uma comparação material, expelindo um

fluido com o auxílio de outro fluido. Dessa forma, não só opera um des

prendimento salutar, como igualmente fortalece os órgãos enfraquecidos

por longa e vigorosa constrição. Compreende-se, em suma, que o poder

da ação fluídica está na razão direta não somente da energia da vontade,

mas, sobretudo, da qualidade do fluido introduzido e, segundo o que dei

xamos dito, que essa qualidade depende da instrução e das qualidades mo

rais do magnetizador. Daí se segue que um magnetizador ordinário, que

atuasse maquinalmente, apenas por magnetizar, fraco ou nenhum efeito

produziria. É de toda a necessidade um magnetizador espírita, que atue

com conhecimento de causa, com a intenção de obter, não o sonambulis

mo ou uma cura orgânica, porém, os resultados que vimos de descrever.

É, além disso, evidente que uma ação magnética dirigida neste sentido

não pode deixar de ser muito proveitosa nos casos de obsessão ordinária,

porque, então, se o magnetizador tem a auxiliá-lo a vontade do obsidiado,

o Espírito se vê combatido por dois adversários em lugar de um.

Cumpre também dizer que amiúde se atribuem aos Espíritos malda

des de que eles são inocentes. Alguns estados doentios e certas aberrações

que se lançam à conta de uma causa oculta, derivam do Espírito do próprio

indivíduo. As contrariedades que de ordinário cada um concentra em si

mesmo, principalmente os desgostos amorosos, dão lugar, com frequência,

a atos excêntricos, que fora errôneo considerar-se fruto da obsessão. O

homem não raramente é o obsessor de si mesmo.

Acrescentemos, por fim, que algumas obsessões tenazes, sobretudo

em pessoas de mérito, fazem às vezes parte das provações a que essas pes

soas estão sujeitas. Acontece mesmo que a obsessão, quando simples, é

uma tarefa imposta ao obsidiado, qual a de trabalhar pela regeneração do

obsessor, como um pai pela de um filho vicioso (Para maiores particulari

dades, veja-se O livro dos médiuns).

Em geral, a prece é poderoso meio auxiliar da libertação dos obsi

diados; nunca, porém, a prece só de palavras, dita com indiferença e como

uma fórmula banal, será eficaz em semelhante caso. Faz-se mister uma

prece ardente, que seja ao mesmo tempo uma como magnetização mental.

Pelo pensamento, pode-se encaminhar para o paciente uma corrente fluí

dica salutar, cuja potência guarda relação com a intenção. A prece, pois,

não tem apenas por efeito invocar um auxílio estranho, mas exercer uma

ação fluídica. O que uma pessoa, só, não pode fazer, podem-no, quase

sempre, muitas pessoas unidas pela intenção numa prece coletiva e reitera

da, visto que o número aumenta a potencialidade da ação.

59. A experiência comprova a ineficácia do exorcismo, nos casos de

possessão, e provado está que quase sempre aumenta o mal, em vez de

atenuá-lo. A razão se encontra em que a influência está toda no ascendente

moral exercido sobre os maus Espíritos, e não num ato exterior, na virtude

das palavras e dos gestos. O exorcismo consiste em cerimônias e fórmulas

de que zombam os maus Espíritos que, entretanto, cedem à autoridade

moral que se lhes impõe. Eles veem que os querem dominar por meios

impotentes, que pensam intimidá-los por um vão aparato e, então, se em

penham em mostrar-se os mais fortes e para isso redobram de esforços.

São quais cavalos espantadiços que dão em terra com o cavaleiro inábil e

que obedecem quando topam com um que os governa. Ora, aqui, quem

realmente manda é o homem de coração mais puro, porque é a ele que os

bons Espíritos de preferência atendem.

60. O que pode um Espírito fazer com um indivíduo, podem-no

muitos Espíritos com muitos indivíduos simultaneamente e dar à obsessão

caráter epidêmico. Uma nuvem de maus Espíritos invade uma localidade

e aí se manifestam de diversas maneiras. Foi uma epidemia desse gênero

que se abateu sobre a Judeia ao tempo do Cristo. Ora, o Cristo, pela sua

imensa superioridade moral, tinha sobre os demônios ou maus Espíritos

tal autoridade, que bastava lhes ordenasse que se retirassem para que eles o

fizessem e, para isso, não empregava fórmulas nem gestos ou sinais.

61. O Espiritismo se funda na observação dos fatos que resultam

das relações entre o mundo visível e o Mundo Invisível. Estando na ordem

dos da natureza, esses fatos se produziram em todas as épocas e abundam

principalmente nos livros sagrados de todas as religiões, pois que serviram

de base à maioria das crenças. Por não os terem os homens compreendido,

é que a Bíblia e os Evangelhos apresentam tantas passagens obscuras e que

foram interpretadas em sentidos diferentes. O Espiritismo traz a chave que

lhes facilitará a inteligência.

Dos homens duplos e das aparições de pessoas vivas

É fato hoje comprovado e perfeitamente explicado que o Espíri

to, isolando-se de um corpo vivo, pode, com auxílio do seu envoltório

fluido-perispirítico, aparecer em lugar diferente do em que está o corpo

material. Até o presente, porém, a teoria, de acordo com a experiência,

parece demonstrar que essa separação somente durante o sono se dá, ou,

pelo menos, durante a inatividade dos sentidos corpóreos. Se são exatos,

os fatos seguintes provam que ela igualmente se produz no estado de vi

gília. Extraímo-las da obra alemã: Os fenômenos místicos da vida humana,

por Maximiliano Perty, professor da Universidade de Berne, publicada em

1861 (Leipzig e Heidelberg).

1. “Um camponês proprietário foi visto, pelo seu cocheiro, na cava

lariça, com o olhar dirigido para os animais, no momento mesmo em que

estava a comungar na Igreja. Narrando o fato, mais tarde, ao seu pastor,

perguntou-lhe este em que pensava ele no momento da comunhão. —

Para dizer a verdade — respondeu o camponês —, pensava nos meus ani

mais. — Aí está explicada a sua aparição — replicou o eclesiástico.”

Estava com a verdade o pastor, porquanto, sendo o pensamento atri

buto essencial do Espírito, tem este que se achar onde se ache o seu pensa

mento. A questão é saber se, no estado de vigília, pode o desprendimento

do perispírito ser suficientemente grande para produzir uma aparição, o

que implicaria um como desdobramento do Espírito, uma de cujas partes

animaria o corpo fluídico e a outra o corpo material. Nada terá isto de

impossível, se considerarmos que, quando o pensamento se concentra num

ponto distante, o corpo apenas atua maquinalmente, por efeito de uma

espécie de impulsão mecânica, o que se verifica, sobretudo, com as pessoas

distraídas. A vida espiritual acompanha o Espírito. É, pois, provável que o

homem de quem se trata haja tido, naquele momento, uma distração forte

e que os seus animais o preocupavam mais do que a comunhão.

Este outro fato é da mesma categoria; apresenta, porém, uma parti

cularidade mais notável:

2. “O juiz de cantão, J..., em Fr... mandou certo dia seu amanuense

a uma aldeia dos arredores. Passado algum tempo, ele o viu entrar de novo,

tomar de um livro no armário e folheá-lo. Perguntou-lhe bruscamente por

que ainda não fora onde o mandara. A essas palavras, o amanuense desapa

receu. O livro cai no chão e o juiz o coloca em cima de uma mesa, aberto

como caíra. À tarde, de regresso o amanuense, o juiz o interrogou sobre

se lhe acontecera alguma coisa em caminho, se tinha voltado à sala onde

naquele momento se achavam. — Não — respondeu o amanuense —; fiz

a viagem na companhia de um amigo; ao atravessarmos a floresta, puse

mo-nos a discutir acerca de uma planta que encontráramos e eu lhe disse

que, se estivesse em casa, fácil me seria mostrar-lhe uma página de Lineu

que me daria razão.

Era justamente esse o livro que ficara aberto na página indicada.”

Por muito extraordinário que pareça o fato, não se poderia taxá-lo de

materialmente impossível, por isso que ainda longe estamos de conhecer to

dos os fenômenos da vida espiritual. Contudo, faz-se mister a confirmação.

Num caso desses, seria preciso comprovar, de maneira positiva, o estado do

corpo no momento da aparição. Até prova em contrário, duvidamos de que

o fato seja possível, desde que o corpo se ache em atividade inteligente.

Os que seguem bem mais extraordinários são e francamente confes

samos que nos inspiram dúvidas ainda maiores. Compreende-se facilmen

te que a aparição do Espírito de uma pessoa viva seja vista por uma terceira

pessoa, porém não que um indivíduo possa ver a sua própria aparição,

principalmente nas condições abaixo referidas.

3. “O secretário do governo, Triptis, em Weimar, indo à chancela

ria, em busca de um maço de documentos de que muito precisava, de

parou lá consigo, já sentado na sua cadeira habitual e tendo diante de si

os documentos. Assustado, volta para casa e manda seu empregado com

ordem de apanhar os documentos que se achavam no lugar do costume. O

empregado vai e igualmente vê o patrão sentado na sua cadeira.”

4. “Becker, professor de Matemática em Rostok, estava à mesa com

alguns amigos, entre os quais surge uma questão teológica. Becker vai à sua

biblioteca em busca de uma obra que decidiria a questão e dá consigo as

sentado no lugar costumeiro. Olhando por cima dos ombros do seu outro

eu, verifica que este lhe aponta a seguinte passagem da Bíblia, num volume

aberto: ‘Arranja tua casa, pois tens de morrer.’ Volta para junto de seus

amigos que em vão se esforçam por lhe demonstrar que era loucura ligar a

menor importância àquela visão. — Ele morreu no dia seguinte.”

5. “Hoppack, autor da obra: Materiais para o estudo da psicologia,

diz que o padre Steinmetz, com visitas em casa, estando no seu quarto, se

viu a si próprio em seu jardim, no lugar que lhe era preferido. Apontando

para si mesmo e depois para o seu semelhante, disse: ‘Aqui está Steinmetz,

o mortal; lá está o imortal.’”

6. “F..., da cidade de Z..., que foi juiz mais tarde, achando-se, quan

do moço, em vilegiatura no campo, uma moça da casa lhe pediu fosse bus

car ao seu quarto um guarda-sol. Ele foi e viu a moça sentada à sua mesa

de trabalho, porém mais pálida do que quando a deixara. Olhava para a

frente. F..., apesar do medo de que foi presa, apanhou o guarda-sol, que

estava ao lado dela, e o levou. Vendo-o de semblante transtornado, disse--lhe a moça: ‘Confesse que viu alguma coisa, que me viu no quarto. Não

se aflija, não estou para morrer. Sou dupla (em alemão: Doppelgaenger, que

quer dizer, literalmente: alguém que anda duplo). Em pensamento, eu es

tava junto do meu trabalho e já muitas vezes dei com a minha imagem ao

meu lado. Nada fazemos uma à outra.’”

7. “O conde D... e as sentinelas pretenderam ter visto uma noite a

imperatriz Elisabeth da Rússia, sentada em seu trono, na sala onde este

se erguia, em trajes de grande gala, estando ela deitada e a dormir no seu

aposento. A dama de honra, que se achava de serviço, convencida do fato,

foi despertá-la. A imperatriz se dirigiu também para a sala do trono e viu lá

a sua imagem. Ordenou a uma sentinela que fizesse fogo; imediatamente

desapareceu a imagem. A imperatriz morreu três meses depois.”

8. “Um estudante, chamado Elger, tornou-se muito melancólico,

depois de se ter visto a si mesmo com o costume vermelho que habitual

mente usava. Nunca via o seu rosto, mas apenas os contornos de uma

forma vaporosa que se lhe assemelhava e sempre ao cair da tarde ou ao luar.

Via a imagem no lugar onde estivera por longo tempo a estudar.”

9. “Uma governanta francesa, Émilie Sagée, perdeu 19 vezes esse

cargo, porque aparecia por toda parte em duplo. As moças de um pensio

nato em Neuwelke, na Livônia, viram-na algumas vezes no salão ou no

jardim, ao mesmo tempo que, em realidade, ela se achava algures. Doutras

vezes, viam, diante do quadro-negro, duas senhoritas Sagée, uma ao lado

da outra, exatamente iguais, fazendo os mesmos movimentos, com a única

diferença de que só a verdadeira Sagée tinha na mão um pedaço de giz,

com que escrevia no quadro.”

A obra do Sr. Perty contém grande número de fatos deste gênero. É

de notar-se que, em todos os casos citados, o princípio inteligente se mostra

do mesmo modo ativo nos dois indivíduos e, até, mais ativo no ser material,

quando o contrário é que deveria dar-se. Mas o que nos parece radicalmente

impossível é que haja antagonismo, divergência de ideias, de pensamentos

e de sentimentos nos dois seres. Entretanto, essa divergência é manifesta,

sobretudo, no fato no 4, em o qual um previne o outro de sua morte, e no

no 7, em que a imperatriz manda fazer fogo contra o seu outro eu.

Admitindo-se a divisão do perispírito e uma força fluídica suficiente

a manter a atividade normal no corpo; supondo-se também a divisão do

princípio inteligente, ou uma irradiação sua capaz de animar os dois seres

e de lhe facultar uma espécie de ubiquidade, esse princípio, que é uno,

tem que se conservar idêntico; não poderia, pois, haver, de um lado, uma

vontade que não existisse do outro, a menos se admita que haja Espíritos

gêmeos, como há corpos gêmeos, isto é, que dois Espíritos se identifiquem

para encarnar num só corpo, o que não é concebível.

Se, em todas essas histórias fantásticas, alguma coisa há que se deva

guardar, também há muito que repudiar, havendo ainda a parte pertencen

te à lenda. Longe de nos induzir a aceitá-las cegamente, o Espiritismo nos

ajuda a separar o verdadeiro do falso, o possível do impossível, mediante

leis que nos revela, concernentes à constituição e ao papel do elemento

espiritual. Não nos apressemos, todavia, em rejeitar a priori tudo o que

não compreendemos, porque muito distante estamos de conhecer todas as

leis e porque a Natureza ainda nos não patenteou todos os seus segredos.

O Mundo Invisível é um campo ainda novo de observações e seríamos

presunçosos se pretendêssemos haver sondado todas as suas profundezas,

quando incessantemente novas maravilhas se ostentam aos nossos olhos.

Entretanto, há fatos cuja impossibilidade material a lógica e as leis conhe

cidas demonstram. Tal, por exemplo, o que vem relatado na Revista Espí

rita de fevereiro de 1859, sob a epígrafe: Meu amigo Hermann. Trata-se de

um jovem alemão da alta roda, delicado, atencioso, de bom caráter, que,

todas as tardes, ao pôr do sol, caía em estado de morte aparente, durante

o qual seu Espírito despertava nos antípodas, na Austrália, em o corpo de

um bandido que acabava sendo enforcado.

O simples bom senso demonstra que, admitida como possível essa

dualidade corpórea, o mesmo Espírito não pode ser, alternativamente, um

homem honesto, durante o dia, num corpo e, à noite, um bandido, noutro

corpo. Quem diga que o Espiritismo acredita em tais histórias prova que

não o conhece, pois que, ao contrário, ele fornece os meios de evidenciar

a absurdidade delas. Mas, ao mesmo tempo que demonstra o erro de uma

crença, prova que muitas vezes essa crença repousa num princípio verda

deiro, desfigurado ou exagerado pela superstição. Cumpre se destaque o

fruto da casca que o envolve.

Que contos ridículos se não engendraram sobre o raio, antes que se

conhecesse a lei da eletricidade! Outro tanto se dá no que concerne às re

lações do mundo visível com o Mundo Invisível. Tornando conhecida a lei

que preside a essas relações, o Espiritismo as coloca no terreno da realida

de. Esta realidade, porém, ainda é excessiva para os que não admitem nem

almas, nem Mundo Invisível. Ao ver desses, é superstição tudo o que sai

dos limites do mundo visível e tangível. Tal a razão por que achincalham

o Espiritismo.

Nota – A questão, muito interessante, dos homens duplos e a dos agêneres, que

àquela se liga intimamente, até agora a ciência espírita as relegou para segundo

plano, à falta de documentos para completa elucidação de uma e outra. Essas ma

nifestações, por muito singulares que sejam, por incríveis que pareçam à primeira

vista, sancionadas pelas narrativas dos mais sérios historiadores da Antiguidade

e da Idade Média, confirmadas por fatos recentes, anteriores ao advento do Es

piritismo, ou contemporâneos, de modo nenhum podem ser postas em dúvida.

O livro dos médiuns, no artigo intitulado: Visitas espirituais entre pessoas vivas, e

a Revista Espírita, em muitas passagens, confirmam a realidade de tais manifes

tações de forma absolutamente incontestável. De um confronto e de um exame

aprofundado de todos esses fatos, talvez ressaltasse uma solução pelo menos par

cial da questão e a eliminação de algumas das dificuldades que parecem envolvê-la.

Muito gratos ficaríamos àqueles dos nossos correspondentes que se dignassem de

fazer dessa questão um estudo especial, quer pessoalmente, quer por intermédio

dos Espíritos, e de nos comunicarem o resultado de suas pesquisas, no interesse,

bem entendido, da difusão da verdade.

Percorrendo rapidamente os anos anteriores da Revista e considerando os fatos assi

nalados e as teorias enunciadas para explicá-los, chegamos à conclusão de que talvez

conviesse separar os fenômenos em duas categorias bem distintas, o que permitiria

se lhes dessem explicações diferentes e se demonstrasse que são mais aparentes do

que reais as impossibilidades que se levantam contra a aceitação pura e simples dos

mesmos fenômenos. (Vejam-se a respeito os artigos da Revista Espírita de janeiro

de 1859, O louquinho de Bayonne; fevereiro de 1859, Os agêneres e Meu amigo

Hermann; maio de 1859, O laço entre o Espírito e o corpo; novembro de 1859, A

alma errante; janeiro de 1860, O Espírito de um lado e o corpo do outro; março de

1860, Estudo sobre o Espírito das pessoas vivas, O doutor V... e a senhorita S...; abril

de 1860, O fabricante de São Petersburgo, Aparições tangíveis; novembro de 1860,

História de Maria de Agreda; julho de 1861, Uma aparição providencial etc. etc).

A faculdade de expansão dos fluidos perispiríticos já está sobejamente demonstrada

pelas mais dolorosas operações cirúrgicas realizadas em doentes adormecidos, quer

pelo clorofórmio e o éter, quer pelo magnetismo animal. Não raro, com efeito,

estes últimos conversam de coisas agradáveis com os assistentes, ou se transportam

para longe, em Espírito, enquanto o corpo se retorce com todas as aparências de

estar experimentando as mais horríveis torturas. A máquina humana, imobilizada

no todo ou em parte, é retalhada pelo escalpelo brutal do cirurgião, os músculos se

agitam, crispam-se os nervos e transmitem a sensação ao aparelho cerebroespinhal,

mas a alma, que é quem, no estado normal, sente a dor e a manifesta exteriormen

te, afastada, por alguns momentos, do corpo sujeito à operação, dominada por

outras ideias, por outras ações, só muito surdamente é avisada do que se passa no

seu envoltório mortal e se conserva perfeitamente insensível. Quantas vezes não

se têm visto soldados gravemente feridos, absorvidos pelo ardor do combate, a

perder sangue e forças, combaterem por muito tempo ainda, sem se aperceberem

de seus ferimentos? Um homem vivamente preocupado recebe um golpe violento

sem sentir coisa alguma, e só quando cessa a abstração da sua inteligência, reco

nhece tê-lo atingido a sensação dolorosa que experimenta. A quem não aconteceu

ainda, durante uma profunda contenção do Espírito, passar pelo meio de uma

multidão tumultuosa e ululante, sem nada ver, nem ouvir, embora o nervo óptico

e o aparelho auditivo hajam percebido e transmitido à alma as sensações?

Pelos casos que precedem e por uma imensidade de fatos que seria ocioso re

produzir aqui, mas que a todos é possível conhecer e apreciar, torna-se fora de

dúvida que o corpo pode desempenhar suas funções orgânicas, estando longe o

Espírito, levado por preocupações de outra ordem. Indefinidamente expansível,

conservando ao corpo a elasticidade e a atividade necessárias à sua existência, o pe

rispírito acompanha constantemente o Espírito durante a sua prolongada viagem

pelo mundo ideal.

Se, ademais, considerarmos a propriedade, muito conhecida, que ele possui, de

condensar-se, propriedade que lhe permite tornar-se visível sob aparências cor

póreas aos médiuns videntes e, embora mais raramente, a quem quer que se ache

presente no lugar para onde o Espírito se haja transportado, não poderemos pôr

em dúvida a possibilidade do fenômeno da ubiquidade.

Temos, pois, como demonstrado que uma pessoa viva pode aparecer simultanea

mente em dois lugares afastados um do outro: num, com o seu corpo real; no ou

tro, com o seu perispírito momentaneamente condensado sob a aparência de suas

formas materiais. Entretanto, de acordo nisto, como sempre, com Allan Kardec,

não podemos admitir a ubiquidade, senão quando reconhecemos identidade per

feita nos modos por que se comporta o ser aparente. Tais, por exemplo, os fatos

anteriormente citados, nos 1 e 2. Quanto aos fatos que se seguem a esses e que

consideramos inexplicáveis, se lhes aplicamos a teoria da ubiquidade, logo nos

parecem, senão indiscutíveis, pelo menos admissíveis, desde que considerados de

outro ponto de vista.

Nenhum dos nossos leitores ignora que os Espíritos desencarnados têm a facul

dade de mostrar-se, sob aparência material, em certas circunstâncias e, em parti

cular, aos médiuns videntes. Contudo, em bom número de casos, tais como os

das aparições visíveis e tangíveis para uma multidão, ou para umas tantas pessoas,

evidente se faz que a percepção da aparição não é devida à faculdade mediúnica

dos assistentes, mas à realidade da aparência corpórea do Espírito e, nessa circuns

tância, como nos casos de ubiquidade, essa aparência corpórea resulta da conden

sação do aparelho perispirítico. Ora, se, as mais das vezes, os Espíritos, para se

tomarem reconhecíveis, se apresentam tais quais eram em vida, com as vestes que

habitualmente usavam, impossível não há de ser que se apresentem vestidos de

modo diferente, ou mesmo sob aspectos quaisquer, como, por exemplo, O louqui

nho de Bayonne, que aparecia ora sob a sua forma pessoal, ora com a figura de um

irmão seu, já igualmente morto, ora sob o aspecto de pessoas vivas e até presentes.

O Espírito tinha o cuidado de fazer lhe reconhecessem a identidade, sem embargo

das várias formas sob que se apresentava. Nada, porém, teria ele feito, se não fosse

evidente que as testemunhas da manifestação estavam persuadidas de que assis

tiam a um fenômeno de ubiquidade.

Se, considerando como um precedente esse fato, que absolutamente não é único,

procurarmos explicar os de nos 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9, talvez se nos torne possível

aceitar-lhes a realidade, ao passo que, admitida a ubiquidade, a incompatibilidade

das ideias, o antagonismo dos sentimentos e a atividade do organismo das duas

partes não nos permitem considerá-los possíveis.

No fato no 4 se, em vez de imaginarmos o professor Becker em presença do seu

sósia, admitirmos que ele tinha diante de si um Espírito que lhe aparecia com o

seu aspecto, deixa de haver qualquer antagonismo e o fenômeno entra no domínio

do possível. O mesmo se dá com o fato no 7. Não se compreende que Elisabeth

da Rússia haja mandado atirar sobre a sua própria imagem, mas admite-se per

feitamente que o haja feito contra um Espírito que tomara a sua aparência para

mistificá-la. Alguns Espíritos tomam às vezes nomes de empréstimo e adotam o

estilo e as formas de dizer de outro, para alcançarem a confiança dos médiuns e

conseguirem penetrar nos grupos. Que haveria de impossível que a um Espírito

orgulhoso aprouvesse tomar a forma da imperatriz Elisabeth e sentar-se no seu

trono, a fim de dar vã satisfação aos seus sonhos ambiciosos? O mesmo se pode

dizer com relação a outros fatos.

Esta explicação damo-la apenas pelo que possa valer. Não passa, para nós, de uma

suposição bastante plausível; não é a solução real do problema. Mas qual a apre

sentamos, ela nos parece de natureza a esclarecer a questão, de atrair para esta as

luzes da discussão e da refutação. A esse título é que a submetemos aos nossos lei

tores. Possam as reflexões que provoque, as meditações a que abra ensejo cooperar

para a elucidação de um problema que apenas esfloramos, deixando que outros

mais dignos de o fazerem dissipem a obscuridade que ainda a envolvem.

Controvérsias sobre a ideia da existência de seres intermediários entre o homem e Deus

N., 4 de fevereiro de 1867.

Caro Mestre,

Algum tempo já faz que não dou sinal de vida. Muito ocupado sem

pre, durante a minha estada em Lyon, não pude ter conhecimento tão

perfeito, quanto desejara, do estado atual da Doutrina, neste grande cen

tro. A uma única reunião espírita assisti. Entretanto, cheguei a comprovar

que, neste meio, a primitiva fé continua sendo qual deve ser nos corações

verdadeiramente sinceros.

Em diversos outros Centros do Meio-dia, ouvi discutirem a seguin

te opinião externada por alguns magnetizadores: que muitos fenômenos,

ditos espíritas, são simples efeitos de sonambulismo e que o Espiritismo

mais não fez do que se substituir ao magnetismo, ou, antes, do que lhe

substituir ridiculamente o nome. É, como vedes, um novo ataque dirigido

contra a mediunidade. Assim, segundo essas pessoas, tudo o que escre

vem os médiuns resulta das faculdades da alma encarnada; é esta quem,

desprendendo-se momentaneamente, lê o pensamento das pessoas presen

tes; é ela quem vê, a distância, e prevê os acontecimentos; quem, por meio

de um fluido magnético-espiritual, agita, levanta, derriba mesas, ouve os

sons etc. Tudo, em suma, assentaria na essência anímica, sem a intervenção

de seres puramente espirituais.

Direis que não vos dou nenhuma novidade. Eu mesmo, com efeito,

tenho ouvido, desde alguns anos, a sustentação dessa tese por parte de al

guns magnetizadores. Agora, porém, procuram implantar essas ideias que,

a meu ver, são contrárias à verdade. É sempre errôneo cair nos extremos e

tanto exagero há em tudo atribuir-se ao Magnetismo, quanto haveria, da

parte dos espíritas, em negarem as leis do Magnetismo. Não se poderiam

arrebatar à matéria as leis magnéticas, como não se poderiam arrebatar ao

Espírito as leis puramente espirituais.

Onde acaba o poder da alma sobre os corpos? Qual a parte dessa

força inteligente nos fenômenos do Magnetismo? Qual a do organismo?

Aí estão questões de muito interesse, questões graves para a Filosofia, como

para a Medicina.

Aguardando a solução desses problemas, citar-vos-ei algumas pas

sagens de Charpignon, o doutor de Orléans, partidário da transmissão do

pensamento. Vereis que ele se reconhece impotente para demonstrar que,

na visão propriamente dita, a causa reside na extensão do simpático orgânico,

como o pretendem muitos autores.

Diz, à p. 289:

Acadêmicos, duplicai o trabalho dos vossos candidatos; moralistas, promulgai leis

para a sociedade, para o mundo, esse mundo que de tudo ri, que quer os seus go

zos, desprezando as Leis de Deus e os direitos do homem e que zomba dos vossos

esforços, porque tem a seu serviço uma força de que não suspeitais e que deixastes

crescesse de tal maneira, que não sois senhores de contê-la.

À p. 323:

Compreendemos muito bem, até aqui, o modo de transmissão do pensamen

to, mas somos incapazes de compreender, por meio dessas Leis de simpatia

harmônica, o sistema pelo qual o homem forma em si mesmo tal ou tal pen

samento, tal ou tal imagem, e a solicitação de objetos exteriores. Isso está

fora das propriedades do organismo e a Psicologia, achando nessa faculdade

rememorativa ou criadora, conforme o desejo do homem, alguma coisa de

antagônico com as propriedades do organismo, fá-la depender de um ser subs

tancial, diferente da matéria. Começamos, então, a encontrar, no fenômeno

do pensamento, algumas lacunas entre a capacidade das leis fisiológicas do

organismo e o resultado obtido. O rudimento do fenômeno, se assim nos

podemos exprimir, é bem fisiológico, mas a sua extensão, verdadeiramente

prodigiosa, não o é. E, aqui, necessário se torna admitir que o homem goza de

uma faculdade que não pertence a nenhum dos dois elementos materiais de

que, até o presente, o temos visto composto. O observador de boa-fé reconhe

cerá, pois, uma terceira parte que entrará na composição do homem, parte que

começa a se lhe revelar, do ponto de vista da Psicologia magnética, por meio de

caracteres novos, e que se relacionam com o que os filósofos atribuem à alma.

A existência, porém, da alma se encontra mais fortemente demonstrada pelo es

tudo de algumas outras faculdades do sonambulismo magnético. Assim, a visão

a distância, quando completa e nitidamente destacada da transmissão do pensa

mento, não poderia, segundo a nossa maneira de ver, explicar-se pela extensão do

simpático orgânico.

Depois, à p. 330:

“Tínhamos, como se vê, grandes motivos para avançar que o estu

do dos fenômenos magnéticos guarda fortes relações com a Filosofia e a

Psicologia. Assinalamos um trabalho a ser feito e a fazê-lo convidamos os

homens da especialidade”.

Nas páginas seguintes, trata dos seres imateriais e de suas possíveis

relações com as nossas individualidades.

P. 349:

Para nós, é fora de dúvida e precisamente por motivo das leis psicológicas que

esboçamos neste trabalho, que a alma humana pode ser esclarecida diretamente,

ou por Deus, ou por uma outra inteligência. Cremos que essa comunicação so

brenatural pode dar-se, assim no estado normal, como no estado extático, seja

espontâneo, seja artificial.

P. 351:

“Mas insistimos em dizer que a previsão natural no homem é limita

da e não poderia ser tão precisa, tão constante e tão amplamente exposta,

como as previsões feitas pelos profetas sagrados, ou por homens que ti

nham a inspirá-los uma inteligência superior à alma humana”.

P. 391:

A Ciência e a crença no mundo sobrenatural são dois termos antagônicos, mas

apressamo-nos a dizê-lo, são-no em consequência das exagerações que surgiram

dos dois lados. É possível, ao nosso parecer, que a Ciência e a lei façam aliança;

então, o espírito humano se achará no nível da sua perfectibilidade terrestre.

P. 396:

O Antigo, tanto quanto o Novo Testamento, assim como os anais de todos os

povos, estão cheios de fatos que não se podem explicar, a não ser pela ação de seres

superiores ao homem. Aliás, os estudos de Antropologia, de Metafísica e de Onto

logia provam a realidade da existência de seres imateriais entre o homem e Deus e

a possibilidade de eles influírem sobre a espécie humana.

Agora, a opinião de uma das principais autoridades em Magnetismo,

sobre a existência de seres fora da Humanidade. Extraímo-la da correspon

dência de Deleuze com o Dr. Billot:

O único fenômeno que parece comprovar a comunicação com os seres imateriais

são as aparições, das quais há muitos exemplos. Como estou convencido da imor

talidade da alma, não encontro razões para negar a possibilidade da aparição das

pessoas que, tendo deixado esta vida, se preocupam com os que aqui lhes foram caros

e vêm apresentar-se-lhes, para lhes darem salutares conselhos.

O Dr. Ordinaire, de Mâcon, outra autoridade na matéria, assim se

exprime:

O fogo sagrado, a influência secreta (de Boïleau), a inspiração, não provêm, pois,

de tal ou tal contextura, como o pretendem os frenologistas, mas de uma alma

poética, em relação com um Gênio ainda mais poético. O mesmo com relação à

música, à pintura etc. Essas inteligências superiores não seriam almas desprendidas

da matéria e que se elevam gradualmente, à medida que se depuram, até a grande,

a universal inteligência que as abrange todas, até Deus? Não tomariam lugar as

nossas almas, após diversas migrações, entre esses seres materiais?

Diz o mesmo autor:

Do que precede, concluímos: que o estudo da alma ainda está na infância; que,

existindo, do pólipo ao homem, uma série de inteligências e sendo certo que nada

em a Natureza se interrompe bruscamente, é racional que exista, do homem a

Deus, outra série de inteligências. O homem é o elo que liga as inteligências in

feriores, associadas à matéria, às inteligências superiores, imateriais. Do homem

a Deus desdobra-se uma série semelhante à que vai do pólipo ao homem, isto é,

uma série de seres etéreos, mais ou menos perfeitos, no gozo de especialidades

diversas, com empregos e funções variadas.

Que essas inteligências superiores se revelam tangivelmente no sonambulismo

artificial;

Que essas inteligências têm relações íntimas com as nossas almas;

Que a essas inteligências é que devemos os remorsos, quando praticamos o mal, e o

contentamento, quando praticamos uma boa ação;

Que a essas inteligências é que os homens superiores devem as boas inspirações;

Que a essas inteligências é que os extáticos devem a faculdade de prever o futuro e

de anunciar acontecimentos porvindouros;

Enfim, que, para atuar sobre essas inteligências e torná-las propícias, ação podero

sa têm a virtude e a prece.

Nota – A opinião de tais homens, e eles não são os únicos, tem decerto um valor

que ninguém poderia contestar; porém, nunca passaria de uma opinião mais ou

menos racional, se a observação não a confirmasse. O Espiritismo está todo nas

ideias que acabamos de citar; apenas, ele as completa por meio de observações

especiais e as coordena, imprimindo-lhes a sanção da experiência.

Os que se obstinam em negar a existência do Mundo Espiritual, sem poderem, con

tudo, negar os fatos, se esfalfam por lhes encontrar a causa exclusivamente no mundo

corpóreo. Mas uma teoria, para ser verdadeira, tem que explicar todos os fatos a que

diz respeito; um único fato contraditório a destrói, porquanto não há exceções nas Leis

da Natureza. Foi o que aconteceu à maioria das que no princípio se imaginaram para

explicar os fenômenos espíritas. Quase todas caíram, uma a uma, diante de fatos que

elas não abrangiam. Depois de haverem experimentado, sem resultado algum, todos

os sistemas, forçoso se tornou volverem às teorias espíritas, como as mais concludentes,

porque, não tendo sido formuladas prematuramente e sobre observações feitas à pres

sa, abrangem todas as variedades, todos os matizes dos fenômenos. O que fez fossem

aceitas tão rapidamente pela maioria das gentes foi que cada um achou nelas a solução

completa e satisfatória para o que inutilmente procuram resolver por outras vias.

Entretanto, muitos ainda as repelem, o que é comum a todas as grandes ideias

novas que mudam os hábitos e as crenças, as quais todas esbarraram durante longo

tempo em contraditores obstinados, mesmo entre os homens mais esclarecidos.

Um dia, porém, chega em que o que é verdadeiro sobreleva o que é falso e todos se

admiram da oposição que lhe moveram, tão natural parece o que fora repelido. O

mesmo se dará com o Espiritismo, sendo de notar-se que de todas as grandes ideias

que hão revolucionado o mundo, nenhuma conquistou em tão pouco tempo tão

grande número de adeptos em todos os países e em todas as camadas sociais. Tal

a razão por que os espíritas, cuja fé não é cega, antes se funda na observação, não

se preocupam nem com os seus contraditores, nem com os que lhes partilham das

ideias. Eles ponderam que, ressaltando das próprias Leis da Natureza, em vez de

basear-se numa derrogação dessas leis, não pode a Doutrina deixar de prevalecer,

desde que essas leis sejam reconhecidas.

Como todos sabem, não é nova a ideia da existência de seres intermediários entre

Deus e o homem. Em geral, porém, toda gente supunha que esses seres cons

tituíam uma criação à parte. As religiões os designaram pelos nomes de anjos

e demônios, os pagãos lhes chamavam deuses. Provando que tais seres não são

senão as almas dos homens em diferentes graus da escala espiritual, o Espiritismo

reintegra a criação na unidade grandiosa que é a essência mesma das Leis divinas.

Em vez de uma imensidade de criações estacionárias, que implicariam, da parte da

Divindade, capricho ou parcialidade, ele mostra haver uma única, essencialmente

progressiva, sem privilégio para qualquer criatura, elevando-se cada individualida

de do estado de embrião ao de desenvolvimento completo, como o gérmen que

da semente se eleva ao estado de árvore. O Espiritismo, pois, revela a unidade, a

harmonia e a justiça na Criação. Segundo ele, os demônios são as almas atrasadas,

ainda prenhes dos vícios da Humanidade; os anjos são essas mesmas almas depu

radas e desmaterializadas; entre esses dois pontos extremos, a multidão das almas

nos diferentes graus da escala progressiva. Estabelece desse modo a solidariedade

entre o Mundo Espiritual e o mundo corpóreo.

Quanto à questão proposta: “Nos fenômenos espíritas ou sonambúlicos, qual o

limite onde cessa a ação própria da alma e começa a dos Espíritos?” — diremos

que semelhante limite não existe, ou, melhor, que nada tem de absoluto. Desde

que não há espécies distintas, que a alma é apenas um Espírito encarnado, e o

Espírito apenas uma alma desprendida dos liames terrenos; que uma e outro

são um mesmo ser em meios diferentes, as faculdades e aptidões têm que ser as

mesmas. O sonambulismo é um estado transitório entre a encarnação e a desen

carnação, um estado de desprendimento parcial, um pé antecipadamente posto

no Mundo Espiritual.

A alma encarnada, ou, se o preferirem o próprio Espírito do sonâmbulo ou do

médium, pode, portanto, fazer quase o que fará a alma desencarnada e até mais,

se for mais adiantado, com a única diferença, todavia, de que, estando mais livre

pelo seu desprendimento completo, a alma tem percepções especiais inerentes ao

seu estado.

É por vezes muito difícil distinguir, num dado efeito, o que provém diretamente

da alma do médium do que promana de uma causa estranha, porque com fre

quência as duas ações se confundem e convalidam. É assim que nas curas por im

posição das mãos, o Espírito do médium pode atuar por si só, ou com a assistência

de outro Espírito; que a inspiração poética ou artística pode ter dupla origem.

Mas do fato de ser difícil fazer-se uma distinção como essa não se segue seja ela

impossível. Não raro, a dualidade é evidente e, em todos os casos, quase sempre

ressalta de atenta observação.

Causa e natureza da

clarividência sonambúlica

Explicação do fenômeno da lucidez

Sendo de natureza diversa das que ocorrem no estado de vigília, as

percepções que se verificam no estado sonambúlico não podem ser trans

mitidas pelos mesmos órgãos. É sabido que neste caso a visão não se efetua

por meio dos olhos que, aliás, se conservam, em geral, fechados e que até

podem ser abrigados dos raios luminosos, de maneira a afastar todo motivo

de suspeita. Ademais, a visão a distância e através dos corpos opacos exclui

a possibilidade do uso dos órgãos ordinários da vista. Forçoso é, pois, se

admita que no estado de sonambulismo um sentido novo se desenvolve,

como sede de faculdades e de percepções novas, que desconhecemos e das

quais não nos podemos aperceber, senão por analogia e pelo raciocínio.

Bem se vê que nada de impossível há nisso, mas qual a sede desse novo sen

tido? Não é fácil determiná-la com exatidão. Nem mesmo os sonâmbulos

fornecem a tal respeito qualquer indicação precisa. Uns há que, para verem

melhor, aplicam os objetos sobre o epigástrio, outros sobre a fronte, outros

no occipital. O sentido de que se trata não parece, portanto, circunscrito

a um lugar determinado; é, todavia, certo que a sua maior atividade reside

nos centros nervosos. O que é positivo é que o sonâmbulo vê. Por onde e

como? É o que nem ele mesmo pode explicar.

Notemos, porém, que, no estado sonambúlico, os fenômenos da

visão e as sensações que o acompanham são essencialmente diferentes do

que se passa no estado ordinário, pelo que não nos serviremos do termo

ver, senão por comparação e por nos faltar naturalmente um com que

designemos uma coisa desconhecida. Um povo composto de cegos de

nascença certo careceria de uma palavra para designar a luz e referiria as

sensações que ela produz a alguma das que lhe fossem familiares por lhes

estar ele sujeito.

Alguém procurava explicar a um cego a impressão viva e deslum

brante da luz sobre os olhos. Compreendo, disse ele, é como o som de uma

trombeta. Outro, um pouco mais prosaico sem dúvida, ao qual queriam

fazer que compreendesse a emissão dos raios luminosos em feixes ou co

res, respondeu: Ah! sim, é como um pão de açúcar. Estamos nas mesmas

condições, relativamente à lucidez sonambúlica: somos verdadeiros cegos

e, do mesmo modo que estes últimos com relação à luz, comparamo-la ao

que tem mais analogia com a nossa faculdade visual. Mas, se quisermos

estabelecer uma analogia absoluta entre essas duas faculdades e julgar de

uma pela outra, forçosamente nos enganaremos, como os dois cegos que

acabamos de citar. É esse o erro de quase todos os que procuram preten

samente convencer-se pela experiência: intentam submeter a clarividência

sonambúlica às mesmas provas que a vista ordinária, sem ponderarem

que entre elas a única relação existente é a do nome que lhes damos. Daí,

como os resultados nem sempre lhes correspondem à expectativa, acham

mais simples negar.

Se procedermos por analogia, diremos que o fluido magnético, dis

seminado por toda a Natureza e cujos focos principais parece que são os

corpos animados, é o veículo da clarividência sonambúlica, como o fluido

luminoso é o veículo das imagens que a nossa faculdade visual percebe.

Ora, assim como o fluido luminoso torna transparentes corpos que ele

atravessa livremente, o fluido magnético, penetrando todos os corpos sem

exceção, torna inexistentes os corpos opacos para os sonâmbulos. Tal a ex

plicação mais simples e mais material da lucidez, falando do nosso ponto

de vista. Temo-la como certa, porquanto o fluido magnético incontestavel

mente desempenha importante papel nesse fenômeno; ela, entretanto, não

poderia elucidar todos os fatos. Há outra que os abrange todos, mas, para

expô-la, fazem-se indispensáveis algumas explicações preliminares.

Na visão a distância, o sonâmbulo não distingue um objeto ao longe,

como o faríamos nós com o auxílio de uma luneta. Não é que o objeto, por

uma ilusão de óptica, se aproxime dele, ELE É QUE SE APROXIMA DO

OBJETO. O sonâmbulo vê o objeto exatamente como se este se achasse a

seu lado; vê-se a si mesmo no lugar que ele observa; numa palavra: trans

porta-se para esse lugar. Seu corpo, no momento, parece extinto, a palavra

lhe sai mais surda, o som da sua voz apresenta qualquer coisa de singular; a

vida animal também parece que se lhe extingue; a vida espiritual está toda

no lugar aonde o transporta o seu próprio pensamento: somente a matéria

permanece onde estava. Há pois uma certa porção do ser que se lhe separa

do corpo e se transporta instantaneamente através do espaço, conduzida

pelo pensamento e pela vontade. Evidentemente, é imaterial essa porção; a

não ser assim, produziria alguns dos efeitos que a matéria produz. É a essa

parcela de nós mesmos que chamamos: a alma.

É a alma que confere ao sonâmbulo as maravilhosas faculdades de

que ele goza. A alma é quem, dadas certas circunstâncias, se manifesta,

isolando-se em parte e temporariamente do seu invólucro corpóreo. Para

quem quer que haja observado com atenção os fenômenos do sonambulis

mo em toda a sua pureza, é patente a existência da alma, tornando-se-lhe

uma insensatez demonstrada até a evidência a ideia de que tudo em nós

acaba com a vida animal. Pode-se, pois, dizer com alguma razão que o

magnetismo e o materialismo são incompatíveis. Se alguns magnetizadores

se afastam desta regra e professam as doutrinas materialistas, é sem dúvida

que se hão cingido a um estudo muito superficial dos fenômenos físicos do

Magnetismo e não procuram seriamente a solução do problema da visão

a distância. Como quer que seja, nunca vimos um único sonâmbulo que

não se mostrasse penetrado de profundo sentimento religioso, fossem quais

fossem suas opiniões no estado vígil.

Voltemos à teoria da lucidez. Sendo a alma o princípio básico das

faculdades do sonâmbulo, necessariamente nela é que reside a clarividên

cia, e não nesta ou naquela parte circunscrita do corpo material. Essa a

razão por que o sonâmbulo não pode indicar o órgão dessa faculdade,

como designaria os olhos, se se tratasse da visão exterior. Ele vê por todo

o seu ser moral, isto é, por toda a sua alma, visto que a clarividência é um

dos atributos de todas as partes da alma, como a luz é um dos atributos de

todas as partes do fósforo. Onde quer, pois, que a alma possa penetrar, há

clarividência; essa a causa da lucidez dos sonâmbulos através de todos os

corpos, sob os mais espessos envoltórios e a todas as distâncias.

Uma objeção, como é natural, se apresenta a esse sistema e apressa

mo-nos a responder a ela. Se as faculdades sonambúlicas são as mesmas da

alma desprendida da matéria, por que não são constantes essas faculdades?

Por que alguns sonâmbulos são mais lúcidos do que outros? Por que, num

mesmo indivíduo, a lucidez é variável? Concebe-se a imperfeição física de

um órgão, mas não se concebe a da alma.

Esta se acha presa ao corpo por laços misteriosos que não nos fora

dado conhecer antes que o Espiritismo houvesse demonstrado a existência

e o papel do perispírito. Tendo sido esta questão tratada de modo especial

na Revista Espírita e nas obras fundamentais da Doutrina, não nos esten

deremos aqui sobre ela, limitando-nos a dizer que é pelos nossos órgãos

materiais que a alma se manifesta ao exterior. Em nosso estado normal,

essas manifestações ficam naturalmente subordinadas à imperfeição do

instrumento, do mesmo modo que o melhor artífice não pode fazer obra

perfeita com utensílios ruins. Assim, por muito admirável que seja a estru

tura do nosso corpo, qualquer que tenha sido a providência da Natureza,

com relação ao nosso organismo, para o exercício das funções vitais, acima

desses órgãos sujeitos a todas as perturbações da matéria, há a sutileza da

nossa alma. Enquanto, pois, ela se conserva presa ao corpo, sofre-lhe os

entraves e as vicissitudes.

O fluido magnético não é a alma; é um liame, um intermediário

entre a alma e o corpo. Atuando mais ou menos sobre a matéria é que

ele torna mais ou menos livre a alma, donde a diversidade das faculdades

sonambúlicas. O sonâmbulo é o homem despojado apenas de uma parte

das suas vestiduras e cujos movimentos são embaraçados pelo que lhe resta

dessas vestiduras.

Somente quando tem alijado de si os últimos restos da ganga ter

rena, como a borboleta que abandona a sua crisálida, encontra-se a alma

na plenitude de si mesma e goza de liberdade completa no uso de suas

faculdades. Se houvesse um magnetizador bastante poderoso para dar li

berdade absoluta à alma, romper-se-ia o liame terrestre e a morte imediata

se seguiria. O sonambulismo, portanto, fez que puséssemos o pé na vida

futura; ergueu uma ponta do véu sob que se ocultam as verdades que o

Espiritismo nos faz hoje entrever. Não na conheceremos, todavia, em sua

essência, senão quando nos houvermos desembaraçado por completo da

cobertura material que neste mundo a obscurece.

A segunda vista

Conhecimento do futuro – Previsões

Desde que no estado sonambúlico as manifestações da alma se tor

nam, de certo modo, ostensivas, fora absurdo supor que no estado nor

mal ela se ache confinada, de modo absoluto, em seu envoltório, como

o caramujo em sua concha. Não é de maneira alguma a influência mag

nética que a desenvolve; essa influência nada mais faz do que a tornar

patente pela ação que exerce sobre os órgãos corporais. Ora, nem sempre

o estado sonambúlico é condição indispensável a essa manifestação. As

faculdades que se revelam nesse estado desenvolvem-se algumas vezes

espontaneamente, no estado normal, em certos indivíduos. Resulta-lhes

daí a faculdade de verem as coisas distantes, por onde quer que a alma

estenda sua ação; veem, se podemos servir-nos desta expressão, através da

vista ordinária; e os quadros que descrevem, os fatos que narram se lhes

apresentam como efeitos de uma miragem. É o fenômeno a que se dá o

nome de segunda vista. No sonambulismo, a clarividência deriva da mes

ma causa; a diferença está em que, nesse estado, ela é isolada, independe

da vista corporal, ao passo que é simultânea nos que dessa faculdade são

dotados em estado de vigília.

Quase nunca é permanente a segunda vista. Em geral, o fenômeno

se produz espontaneamente, em dados momentos, sem ser por efeito da

vontade, e provoca uma espécie de crise que, algumas vezes, modifica sen

sivelmente o estado físico. O indivíduo parece olhar sem ver; toda a sua

fisionomia reflete uma como exaltação.

É de notar-se que as pessoas dotadas dessa faculdade não suspeitam

possuí-la. Ela se lhes afigura natural, como a de ver com os olhos. Consi

deram-na um atributo de seu ser e nunca uma coisa excepcional. Cumpre

acrescentar que muito amiúde o esquecimento se segue a essa lucidez pas

sageira, cuja lembrança, cada vez mais imprecisa, acaba por desvanecer-se

como a de um sonho.

Há infinitos graus na potencialidade da segunda vista, desde a sen

sação confusa, até a percepção tão nítida quanto no sonambulismo. Há

carência de um termo para designar-se esse estado especial e, sobretudo,

os indivíduos suscetíveis de experimentá-lo. Tem-se empregado a palavra

vidente, que, embora não exprima com exatidão a ideia, adotaremos até

nova ordem, em falta de outra melhor.

Se agora confrontarmos os fenômenos de segunda vista com os da

clarividência sonambúlica, compreenderemos que o vidente possa perce

ber coisas que lhe estejam fora do alcance da visão ordinária, do mesmo

modo que o sonâmbulo vê, a distância, acompanha o curso dos aconteci

mentos, aprecia-lhes a tendência e, em certos casos, lhes prevê o desenlace.

Esse dom da segunda vista é que, em estado rudimentar, dá a certas

pessoas o tato, a perspicácia, uma espécie de segurança aos atos, o que se

pode com justeza denominar: golpe de vista moral. Mais desenvolvido,

ele acorda os pressentimentos, ainda mais desenvolvido, faz ver aconteci

mentos que já se realizaram, ou que estão prestes a realizar-se; finalmente,

quando chega ao apogeu, é o êxtase vígil.

Como já dissemos, o fenômeno da segunda vista é quase sempre na

tural e espontâneo; parece, entretanto, que se produz com mais frequência

sob o império de determinadas circunstâncias. Os tempos de crise, de cala

midades, de grandes emoções, tudo, enfim, que sobre-excita o moral, que

provoca o desenvolvimento. Dir-se-ia que a Providência, diante de perigos

iminentes, multiplica em torno das criaturas a faculdade de prevê-los.

Videntes sempre os houve em todos os tempos e em todas as nações,

parecendo, no entanto, que alguns povos são mais naturalmente predis

postos a tê-los. Dizem que na Escócia é muito comum o dom da segunda

vista. Não se lhe nota a existência entre a gente do campo e os que habitam

nas montanhas.

Os videntes têm sido diversamente considerados, conforme os tem

pos, os costumes e o grau de civilização. Para os céticos, eles não passam de

cérebros desarranjados, de alucinados; as seitas religiosas os arvoraram em

profetas, sibilas, oráculos; nos séculos de superstição e ignorância, eram fei

ticeiros e acabavam nas fogueiras. Para o homem sensato, que acredita no

poder infinito da Natureza e na bondade inesgotável do Criador, a dupla

vista é uma faculdade inerente à espécie humana, por meio da qual Deus

nos revela a existência da nossa essência espiritual. Quem não reconheceria

um dom dessa natureza em Joana d’Arc e em toda uma multidão de outras

personagens que a história qualifica de inspiradas?

Muito se tem falado de pessoas que, deitando as cartas, disseram coi

sas de surpreendente verdade. De modo nenhum pretendemos fazer-nos

apologista dos ledores da “buena-dicha” que exploram a credulidade dos

Espíritos fracos e cuja linguagem ambígua se presta a todas as combina

ções de uma imaginação abalada, mas não é de todo impossível que certas

pessoas, fazendo disso um ofício, tenham o dom da segunda vista, mesmo

mau grado seu. Sendo assim, as cartas, entre as suas mãos, não passam

de um meio, de um pretexto, de uma base de conversação. Elas falam de

acordo com o que veem, e não com o que indicam as cartas para as quais

apenas olham.

O mesmo se dá com outros meios de adivinhação, tais como as li

nhas da mão, a clara de ovo e outros símbolos místicos. Os sinais das mãos

talvez tenham mais valor do que todos os outros meios, não por si mesmos,

mas porque, tomando e palpando a mão do consultante, o pretenso adivi

nho, se é dotado de dupla vista, estabelece relação mais direta com aquele,

como se verifica nas consultas sonambúlicas.

Podem incluir-se os médiuns videntes na categoria das pessoas que

possuem a dupla vista. Com efeito, do mesmo modo que estas últimas,

aqueles julgam ver com os olhos, mas, na realidade, a alma é que vê e

por essa razão é que eles veem tão bem com os olhos abertos como com

os olhos fechados. Segue-se, necessariamente, que um cego poderia ser

médium vidente, tanto quanto um que tenha perfeita a vista. Constituiria

estudo interessante indagar se essa faculdade é mais frequente nos cegos.

Somos levado a crê-lo, dado que, como se pode verificar experimental

mente, a privação de comunicar-se com o meio exterior, por falta de certos

sentidos, confere em geral poder maior à faculdade de abstração da alma

e, consequentemente, maior desenvolvimento ao sentido íntimo pelo qual

ela se põe em relação com o Mundo Espiritual.

Podem, pois, os médiuns videntes ser identificados às pessoas que

gozam da vista espiritual, mas seria porventura demasiado considerar essas

pessoas como médiuns, porquanto a mediunidade se caracteriza unicamen

te pela intervenção dos Espíritos, não se podendo ter como ato mediúnico

o que alguém faz por si mesmo. Aquele que possui a vista espiritual vê pelo

seu próprio Espírito, não sendo de necessidade, para o surto da sua facul

dade, o concurso de um Espírito estranho.

Isto posto, examinemos até que ponto a faculdade da dupla vista

pode permitir se descubram coisas ocultas e se penetre no futuro.

Desde todos os tempos, os homens hão querido conhecer o futuro

e volumes se poderiam escrever sobre os meios que a superstição inventou

para erguer o véu que encobre o nosso destino. Muito sábia foi a Natureza

no-lo ocultando. Cada um de nós tem a sua missão providencial na grande

colmeia humana e concorre para a obra comum na sua esfera de atividade.

Se soubéssemos de antemão o fim de cada coisa, é fora de dúvida que a har

monia geral ficaria perturbada. A segurança de um porvir ditoso tiraria ao

homem toda a atividade, pois que nenhum esforço precisaria ele empregar

para alcançar o objetivo que sempre colima: o seu bem-estar. Paralisar-se--iam todas as forças físicas e morais. As mesmas consequências produziria

a certeza da infelicidade, em virtude do desânimo que ganharia a criatura.

Ninguém se disporia a lutar contra a sentença definitiva do destino. O

conhecimento absoluto do futuro seria, portanto, um presente funesto,

que nos conduziria ao dogma da fatalidade, o mais perigoso de todos,

o mais antipático ao desenvolvimento das ideias. A incerteza quanto ao

momento do nosso fim neste mundo é que nos faz trabalhar até o último

batimento do nosso coração. O viajante levado por um veículo se entrega

ao movimento que o fará chegar ao ponto demandado, sem pensar em lhe

impor qualquer desvio, por estar certo da sua impotência para consegui-lo.

O mesmo se daria com o homem que conhecesse o seu destino irrevogável.

Se os videntes pudessem infringir essa Lei da Providência, igualar-se-iam à

Divindade. Por isso mesmo, não é essa a missão que lhes cabe.

No fenômeno da dupla vista, por se achar a alma parcialmente li

berta do envoltório material, que lhe limita as faculdades, não há duração,

nem distância; visto que lhe é dado abranger o espaço e o tempo, tudo se

lhe confunde no presente. Livre dos entraves da carne, ela julga dos efeitos

e das causas melhor do que nós, que não podemos fazer outro tanto; vê as a

consequências das coisas presentes e pode levar-nos a pressenti-las. É neste

sentido que se deve entender o dom de presciência atribuído aos videntes.

Suas previsões resultam de ter a alma consciência mais nítida do que existe,

e não de uma predição de coisas fortuitas, sem ligação com o presente. É

por dedução lógica do conhecido que ela chega ao desconhecido, depen

dente muitas vezes da nossa maneira de proceder. Quando um perigo nos

ameaça, se somos avisados, ficamos em condições de tentar tudo o que seja

preciso para evitá-lo, cabendo-nos a liberdade de fazê-lo ou não.

Em tal caso, o vidente tem diante de si um perigo que se nos acha

oculto; ele o assinala, indica o meio de afastá-lo, pois de outro modo o

acontecimento segue o seu curso.

Suponhamos que uma carruagem enveredou por uma estrada que

vai dar num precipício que o condutor não pode perceber. É evidente

que, se nada ocorrer que a desvie, ela ali se precipitará. Suponhamos tam

bém que um homem colocado de maneira a divisar a estrada em toda a

sua extensão, vendo o perigo que corre o viajante, consegue avisá-lo a

tempo de ele se desviar. O perigo estará conjurado. Da sua posição, domi

nando o espaço, o observador vê o que o viajante, cuja visão os acidentes

do terreno circunscrevem, não logra divisar. Pode ele ver se uma causa

fortuita obstará à queda do outro; conhece então, previamente, o que se

dará e prediz o acontecimento.

Imaginemos que esse homem, do alto de uma montanha, divise ao

longe, pela estrada, uma tropa inimiga dirigindo-se para uma aldeia a que

pretende atear fogo. Fácil lhe será, levados em conta o espaço e a veloci

dade, prever quando a tropa chegará. Se, então, descendo à aldeia, disser

apenas: A tal hora a aldeia será incendiada, caso o fato ocorra, ele passa

rá, aos olhos da multidão ignorante, por adivinho, feiticeiro; entretanto,

apenas viu o que os outros não podiam ver e deduziu, do que vira, as

consequências.

Ora, o vidente, como esse homem, apreende e acompanha o curso

dos acontecimentos; não lhes prevê o resultado porque possua o dom de

adivinhar: ele o vê e, desde então, pode dizer-vos se estais no bom caminho,

indicar-vos outro melhor e anunciar o que se vos deparará no extremo do

que seguis. É, para vós, o fio de Ariadne, mostrando a saída do labirinto.

Como se vê, longe está isso da predição propriamente dita, conforme

a entendemos na acepção vulgar do termo. Nada foi tirado ao livre-arbítrio

do homem, que conserva sempre a liberdade de agir ou não, de evitar ou

deixar que os acontecimentos se deem, por sua vontade, ou por sua inércia;

indica-se-lhe um meio de chegar ao fim, cabendo-lhe utilizá-lo. Supô-lo

submetido a uma fatalidade inexorável, com relação aos menores aconte

cimentos da vida, é despojá-lo do seu mais belo atributo: a inteligência;

é assimilá-lo ao bruto. O vidente, pois, não é um adivinho; é um ser que

percebe o que não vemos; é, para nós, o cão do cego. Nada nisto há, por

tanto, que se contraponha aos desígnios da Providência quanto ao segredo

de nosso destino; é ela própria quem nos dá um guia.

Tal o ponto de vista donde se deve considerar o conhecimento do

futuro, por parte das pessoas dotadas de dupla vista. Se fosse fortuito esse

futuro, se dependesse do a que se chama acaso, se nenhuma ligação tivesse

com as circunstâncias presentes, nenhuma clarividência poderia penetrá-lo

e nenhuma certeza, nesse caso, ofereceria qualquer previsão. O vidente (re

ferimo-nos ao que verdadeiramente o é), o vidente sério, e não o charlatão

que simula sê-lo, o verdadeiro vidente, não diz o que o vulgo denomina

“buena-dicha”; ele apenas prevê as consequências que decorrerão do pre

sente; nada mais e já é muito.

Quantos erros, quantos passos em falso, quantas tentativas inúteis

não evitaríamos, se tivéssemos sempre um guia seguro a nos esclarecer;

quantos homens se acham deslocados na vida, por não se haverem lançado

no caminho que a Natureza lhes traçara às faculdades! Quantos sofrem

malogros por terem seguido os conselhos de uma obstinação irrefletida!

Uma pessoa houvera podido dizer-lhes: “Não empreendais isso, porque

as vossas faculdades intelectuais são insuficientes, porque não convém ao

vosso caráter, nem à vossa constituição física, ou, ainda, porque não sereis

secundados, como fora preciso; ou, então, porque vos enganais sobre o

alcance do que pretendeis e topareis com este embaraço que não preve

des.” Noutras circunstâncias, ter-lhes-ia dito: “Sair-vos-eis bem de tal em

preendimento, se vos conduzirdes desta ou daquela maneira; se evitardes

dar tal passo que não pode comprometer-vos.” Sondando as disposições

e os caracteres, poderia dizer: “Desconfiai de tal armadilha que vos que

rem preparar”, acrescentando, em seguida: “Estais prevenidos, fiz o que me

cumpria; mostrei-vos o perigo; se sucumbirdes, não acuseis a sorte, nem a

fatalidade, nem a Providência; acusai-vos unicamente a vós mesmos. Que

pode fazer o médico, quando o doente não lhe dá atenção aos conselhos?”

Introdução ao estudo da fotografia e da telegrafia do pensamento

É fato incontestável a ação fisiológica de indivíduo a indivíduo, com

ou sem contato. Semelhante ação evidentemente só pode ser exercida por

um agente intermediário, do qual é reservatório o nosso corpo; os nossos

olhos e os nossos dedos, principais órgãos de emissão e de direção. Esse

agente invisível é necessariamente um fluido. Quais a sua natureza e a sua

essência? Quais as suas propriedades íntimas? Será um fluido especial, ou

uma modificação da eletricidade, ou de algum outro fluido conhecido?

Não será antes o a que hoje damos o nome de fluido cósmico, quando se

acha esparso na atmosfera, e fluido perispirítico, quando individualizado?

Esta questão, aliás, é secundária.

O fluido perispirítico é imponderável, como a luz, a eletricidade e

o calórico. É-nos invisível, no nosso estado normal, e somente por seus

efeitos se revela.

Torna-se, porém, visível a quem se ache no estado de sonambulismo

lúcido e, mesmo, no estado de vigília, às pessoas dotadas de dupla vista.

No estado de emissão, ele se apresenta sob a forma de feixes luminosos,

muito semelhante à luz elétrica difundida no vácuo. A isso, em suma, se

limita a sua analogia com este último fluido, porquanto não produz, pelo

menos ostensivamente, nenhum dos fenômenos físicos que conhecemos.

No estado ordinário, denota matizes diversos, conforme os indivíduos que

o emitem: ora vermelho fraco, ora azulado, ou acinzentado, qual ligeira

bruma. As mais das vezes, espalha sobre os corpos circunjacentes uma co

loração amarelada, mais ou menos forte.

Sobre essa questão, são idênticos os relatos dos sonâmbulos e dos

videntes. Teremos ainda ocasião de tratar disso, quando falarmos das qua

lidades que ao fluido imprimem o móvel que o põe em movimento e o

adiantamento do indivíduo que o emite.

Nenhum corpo lhe opõe obstáculo; ele os penetra e atravessa todos.

Até agora nenhum se conhece que seja capaz de o isolar. Somente a von

tade lhe pode ampliar ou restringir a ação. A vontade, com efeito, é o seu

mais poderoso princípio. Pela vontade, dirigem-se-lhe os eflúvios através

do espaço, saturam-se dele alguns objetos, ou faz-se que ele se retire dos

lugares onde superabunda. Digamos, de passagem, que é neste princípio

que se funda a força magnética. Parece, enfim, que ele é o veículo da vista

psíquica, como o fluido luminoso o é da vista ordinária.

O fluido cósmico, conquanto emane de uma fonte universal, se indivi

dualiza, por assim dizer, em cada ser e adquire propriedades características, que

permitem distingui-lo de todos os outros. Nem mesmo a morte apaga esses

caracteres de individualização, que persistem por longos anos após a cessação

da vida, coisa de que já pudemos convencer-nos. Cada um de nós tem, pois,

o seu fluido próprio, que o envolve e acompanha em todos os movimentos,

como a atmosfera acompanha cada planeta. É muito variável a extensão da

irradiação dessas atmosferas individuais. Achando-se o Espírito em estado de

absoluto repouso, pode essa irradiação ficar circunscrita nos limites de alguns

passos, mas, atuando a vontade, pode alcançar distâncias infinitas. A vontade

como que dilata o fluido, do mesmo modo que o calor dilata os gases. As

diferentes atmosferas individuais se entrecruzam e misturam, sem jamais se

confundirem, exatamente como as ondas sonoras que se conservam distintas,

a despeito da imensidade de sons que simultaneamente abalam o ar. Pode-se,

por conseguinte, dizer que cada indivíduo é centro de uma onda fluídica, cuja

extensão se acha em relação com a força da vontade, do mesmo modo que

cada ponto vibrante é centro de uma onda sonora, cuja extensão está na razão

direta da força de vibração. A vontade é a causa propulsora do fluido, como o

choque é a causa de vibração do ar e propulsora das ondas sonoras.

Das qualidades peculiares a cada fluido resulta uma espécie de har

monia ou desacordo entre eles, uma tendência a se unirem ou evitarem,

uma atração ou repulsão, numa palavra: as simpatias ou antipatias que se

experimentam, muitas vezes sem manifestas causas determinantes. Se nos

colocamos na esfera de atividade de um indivíduo, a sua presença não raro

se nos revela pela impressão agradável ou desagradável que nos produz o

seu fluido. Se estamos entre pessoas de cujos sentimentos não partilhamos,

cujos fluidos não se harmonizam com os nossos, penosa reação entra a

oprimir-nos e sentimo-nos ali como nota dissonante num concerto! Se, ao

contrário, muitos indivíduos se acham reunidos em comunhão de vistas e

de intenções, os sentimentos de cada um se exaltam na proporção mesma

da massa das forças atuantes. Quem não conhece a força de arrastamento

que domina as aglomerações onde há homogeneidade de pensamentos e

de vontades? Ninguém pode imaginar a quantas influências estamos assim

submetidos, à nossa revelia.

Não podem essas influências ser a causa determinante de certas

ideias, dessas ideias que em dado momento se nos tornam comuns e a

outras pessoas, desses pressentimentos que nos levam a dizer: paira alguma

coisa no ar, pressagiando tal ou tal acontecimento? Enfim, certas sensações

indefiníveis de bem-estar ou de mal-estar moral, de alegria ou tristeza, não

serão efeitos da reação do meio fluídico em que nos encontramos, dos eflú

vios simpáticos ou antipáticos que recebemos e que nos envolvem como as

emanações de um corpo odorífico? Não podemos pronunciar-nos afirma

tivamente, de modo absoluto, sobre essas questões, mas é forçoso convir,

pelo menos, em que a teoria do fluido cósmico, individualizado em cada

ser sob o nome de fluido perispirítico, abre um campo inteiramente novo

para a solução de uma imensidade de problemas até agora insolúveis.

Em seu movimento de translação, cada um de nós leva consigo a sua

atmosfera fluídica, como o caracol leva a sua concha; esse fluido, porém,

deixa vestígios da sua passagem; deixa um como sulco luminoso, inacessí

vel aos nossos sentidos, no estado de vigília, mas que serve para que os so

nâmbulos, os videntes e os Espíritos desencarnados reconstituam os fatos

ocorridos e examinem os móveis que os ocasionaram.

Toda ação física ou moral, patente ou oculta, de um ser sobre si mes

mo, ou sobre outro, pressupõe, de um lado, uma força atuante e, de outro,

uma sensibilidade passiva. Em todas as coisas, duas forças iguais se neutra

lizam e a fraqueza cede à força. Ora, não sendo todos os homens dotados

da mesma energia fluídica, ou, por outra, não tendo o fluido perispirítico,

em todos, a mesma potência ativa, explicado fica por que, em alguns, essa

potência é quase irresistível, ao passo que, noutros, é nula; por que algumas

pessoas são muito acessíveis à sua ação, enquanto outras lhe são refratárias.

Essa superioridade e essa inferioridade relativas dependem evidente

mente do organismo, mas fora erro acreditar-se que estão na razão direta

da força ou da fraqueza física. A experiência prova que os homens mais

robustos às vezes sofrem as influências fluídicas mais facilmente do que

outros de constituição muito mais delicada, ao passo que com frequência

se descobrem entre estes últimos uma força que a frágil aparência deles não

permitiria se suspeitasse. De muitas formas se pode explicar essa diversida

de no modo de agir.

O poder fluídico aplicado à ação recíproca dos homens uns sobre os

outros, isto é, ao Magnetismo, pode depender: 1o) da quantidade de flui

do que cada um possua; 2o) da natureza intrínseca do fluido de cada um,

abstração feita da quantidade; 3o) do grau de energia da força impulsiva;

porventura, até, dessas três causas reunidas. Na primeira hipótese, aquele

que tem mais fluido dá-lo-ia ao que tem menos, recebendo-o deste em

menor quantidade. Haveria nesse caso analogia perfeita com a permuta de

calórico entre dois corpos que se colocam em equilíbrio de temperatura.

Qualquer que seja a causa daquela diferença, podemos aperceber-nos do

efeito que ela produz, imaginando três pessoas cujo poder representaremos

pelos números 10, 5 e 1. O 10 agirá sobre o 5 e sobre o 1, porém mais

energicamente sobre o 1 do que sobre o 5; este atuará sobre o 1 mas será

impotente para atuar sobre o 10; o 1, finalmente, não atuará sobre ne

nhum dos dois outros. Será essa talvez a razão por que certos pacientes são

sensíveis à ação de tal magnetizador e insensíveis à de tal outro.

Pode-se também, até certo ponto, explicar esse fenômeno, apoiado

nas considerações precedentes. Dissemos, com efeito, que os fluidos in

dividuais são simpáticos ou antipáticos, uns com relação aos outros. Ora,

não poderia dar-se que a ação recíproca de dois indivíduos estivesse na

razão da simpatia dos fluidos, isto é, da tendência destes a se confundirem

por uma espécie de harmonia, como as ondas sonoras produzidas pelos

corpos vibrantes? Indubitavelmente essa harmonia ou simpatia dos fluidos

é uma condição, ainda que não indispensável em absoluto, pelo menos

muito preponderante, e quando há desacordo ou antipatia, a ação não

pode deixar de ser fraca ou até nula. Este sistema explica bem as condições

prévias da ação, mas não diz de que lado está a força e, admitindo-o, somos

forçados a recorrer à nossa primeira suposição.

Em suma, que o fenômeno se dê por uma ou outra dessas causas,

isso não leva a nenhuma consequência. O fato existe; é o essencial. Os da

luz se explicam igualmente pela teoria da emissão e pela das ondulações; os

da eletricidade, pelos fluidos positivo e negativo, vítreo e resinoso.

Em próximo estudo, apoiando-nos nas considerações que temos ex

pendido, procuraremos definir o que entendemos por fotografia e telegra

fia do pensamento.

Fotografia e telegrafia do pensamento

A fotografia e a telegrafia do pensamento são questões até agora pou

co explanadas. Como todas as que não apresentam ligação com as leis que,

por sua essência, devem ser universalmente difundidas, foram relegadas

para segundo plano, não obstante serem de capital importância e poderem

os elementos que elas contêm concorrer para a elucidação de muitos pro

blemas que ainda se acham sem solução.

Quando um artista de talento executa um quadro, obra magistral a

que consagrou todo o gênio que progressivamente adquiriu, dá primeira

mente os traços gerais, de sorte que se compreenda, desde o esboço, todo

o partido que espera tirar dali. Só depois de haver elaborado minuciosa

mente o seu plano geral é que entra nas minúcias; e, embora a este último

trabalho deva, talvez, dispensar maiores cuidados do que àquele outro,

tal não lhe seria possível, se não houvera esboçado antes o seu quadro. O

mesmo sucede em Espiritismo. As leis fundamentais, os princípios gerais,

cujas raízes existem no espírito de todo ser criado, foram elaborados desde

a origem. Todas as outras questões, quaisquer que sejam, dependem das

primeiras. Por isso é que, durante certo tempo, forçoso se torna pôr de lado

o estudo dessas questões.

Com efeito, poder-se-ia logicamente falar de fotografia e de telegrafia

do pensamento, antes de estar demonstrada a existência da alma que ma

nobra os elementos fluídicos e a dos fluidos que permitem se estabeleçam

relações entre duas almas distintas? Ainda hoje, talvez, mal começamos a

estar suficientemente esclarecidos para a elaboração de tão vastos proble

mas! Entretanto, não se acharão deslocadas aqui algumas considerações de

natureza a preparar as bases para um estudo mais completo.

Limitado em suas ideias e aspirações, tendo circunscritos os seus ho

rizontes, o homem precisa concretar todas as coisas e pôr-lhes etiquetas, a

fim de guardar delas apreciável lembrança e basear seus futuros estudos nos

dados que haja reunido. Pelo sentido da vista foi que lhe vieram as primei

ras noções do conhecimento. Foi a imagem de um objeto que lhe ensinou a

existência desse objeto. Quando conheceu muitos objetos, tirou deduções

das impressões diferentes que eles lhe produziam no íntimo do ser, fixou na

inteligência a quintessência deles por meio do fenômeno da memória. Ora,

que é a memória, senão um espécie de álbum mais ou menos volumoso,

que se folheia para encontrar de novo as ideias apagadas e reconstituir os

acontecimentos que se foram? Esse álbum tem marcas nos pontos capitais.

De alguns fatos o indivíduo imediatamente se recorda; para recordar-se de

outros, é-lhe necessário folhear por longo tempo o álbum.

A memória é como um livro! Aquele em que lemos algumas passa

gens facilmente no-las apresenta aos olhos; as folhas virgens ou raramente

perlustradas têm que ser folheadas uma a uma, para que consigamos re

constituir um fato sobre o qual pouco tenhamos demorado a atenção.

Quando o Espírito encarnado se lembra, sua memória lhe apre

senta, de certo modo, a fotografia do fato que ele procura. Em geral, os

encarnados que o cercam nada veem; o álbum se acha em lugar inacessível

ao olhar deles, mas os Espíritos o veem e folheiam conosco. Em dadas

circunstâncias, podem mesmo, deliberadamente, ajudar a nossa pesquisa,

ou perturbá-la.

O que se produz de um encarnado para um desencarnado também

se verifica do desencarnado para o vidente. Quando se evoca a lembrança

de certos fatos da existência de um Espírito, apresenta-se-lhe a fotografia

desses fatos; e o vidente, cuja situação espiritual é análoga à do Espírito li

vre, vê como ele e, até, em determinadas circunstâncias, vê o que o Espírito

não vê por si mesmo, tal como um desencarnado pode folhear a memória

de um encarnado, sem que este tenha disso consciência e lembrar-lhe fatos

de há muito esquecidos. Quanto aos pensamentos abstratos, por isso mes

mo que existem, tomam corpo para impressionar o cérebro; têm de agir

naturalmente sobre este e, de certo modo, gravar-se nele. Ainda neste caso,

como no primeiro, parece perfeita a semelhança entre os fatos da Terra e

os do Espaço.

Já tendo sido o fenômeno da fotografia do pensamento objeto de

algumas reflexões nossas na Revista, para maior clareza reproduziremos al

guns trechos do artigo em que o assunto foi tratado e que completaremos

com outras observações novas.

Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre aqueles

como o som atua sobre o ar; eles nos trazem o pensamento como o ar nos

traz o som. Pode-se, pois, dizer, com verdade, que há ondas nos fluidos e

radiações de pensamento, que se cruzam sem se confundirem, como há, no

ar, ondas e radiações sonoras.

Ainda mais: criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no en

voltório perispirítico como num espelho, ou, então, como essas imagens de

objetos terrestres que se refletem nos vapores do ar tomando aí um corpo e,

de certo modo, fotografando-se. Se um homem, por exemplo, tiver a ideia

de matar alguém, embora seu corpo material se conserve impassível, seu

corpo fluídico é acionado por essa ideia e a reproduz com todos os matizes.

Ele executa fluidicamente o gesto, o ato que o indivíduo premeditou. Seu

pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira se desenha, como

num quadro, tal qual lhe está na mente.

É, assim que os mais secretos movimentos da alma repercutem no

invólucro fluídico. É assim que uma alma pode ler noutra alma como num

livro e ver o que não é perceptível aos olhos corporais. Estes veem as im

pressões interiores que se refletem nos traços fisionômicos: a cólera, a ale

gria, a tristeza; a alma, porém, vê nos traços da alma os pensamentos que

não se exteriorizam.

Entretanto, se, vendo a intenção, pode a alma pressentir a execução

do ato que lhe será a consequência, não pode, contudo, determinar o mo

mento em que ele será executado, nem lhe precisar os pormenores, nem

mesmo afirmar que ele se realize, porque ulteriores circunstâncias podem

modificar os planos concebidos e mudar as disposições. Ela não pode ver o

que ainda não está no pensamento; o que vê é a preocupação ocasional ou

habitual do indivíduo, seus desejos, seus projetos, suas intenções boas ou

más. Daí os erros nas previsões de alguns videntes.

Quando um acontecimento está subordinado ao livre-arbítrio de um

homem, eles apenas podem pressentir-lhe a probabilidade, de acordo com

o pensamento que veem, mas não podem afirmar que se dará de tal forma,

ou em tal momento. A maior ou menor exatidão nas previsões depende,

além disso, da extensão e da clareza da vista psíquica. Em alguns indiví

duos, desencarnados ou encarnados, limita-se a um ponto ou é difusa, ao

passo que em outros é nítida e abrange todo o conjunto dos pensamentos

e das vontades que hajam de concorrer para a realização de um fato. Mas,

acima de tudo, há sempre a vontade superior que pode, em sua sabedoria,

permitir uma revelação ou impedi-la. Neste último caso, um véu impene

trável é lançado sobre a mais perspicaz vista psíquica (Veja, em A gênese, o

cap. XVI, Teoria da presciência).

A teoria das criações fluídicas e, por conseguinte, da fotografia do

pensamento, é uma conquista do moderno Espiritismo e pode, doravan

te, considerar-se como firmada em princípio, ressalvadas as aplicações de

minúcias, que hão de resultar da observação. Este fenômeno é incontes

tavelmente a origem das visões fantásticas e desempenha grande papel em

certos sonhos.

Quem na Terra sabe de que maneira se estabeleceram os primeiros

meios de comunicação do pensamento? Como foram inventados ou, an

tes, descobertos, dado que nada se inventa, pois que tudo existe em estado

latente, cabendo aos homens apenas os meios de pôr em ação as forças que

a Natureza lhes oferece? Quem sabe quanto tempo foi necessário para que

os homens usassem da palavra de modo perfeitamente inteligível?

Aquele que soltou o primeiro grito inarticulado tinha sem dúvida

uma certa consciência do que queria exprimir, mas os a quem ele se dirigiu

nada a princípio compreenderam. Só ao cabo de longo lapso de tempo se

verificou a existência de palavras convencionadas, depois a de frases abre

viadas e, por fim, discursos inteiros. Quantos milhares de anos não foram

necessários para que a Humanidade chegasse ao ponto em que hoje se en

contra! Cada progresso nos modos de comunicação, nas relações entre os

homens, foi sempre assinalado por uma melhora no estado social dos seres.

À medida que as relações de indivíduo a indivíduo se tornam mais estrei

tas, mais regulares, a necessidade se faz sentir de uma nova e mais rápida

forma de linguagem, mais apropriada a pôr os homens em comunicação

instantânea e universalmente uns com os outros. Por que não teria cabi

mento no mundo moral, de encarnado a encarnado, por meio da telegrafia

humana, o que ocorre no mundo físico, por meio da telegrafia elétrica? Por

que as relações ocultas que ligam, de maneira mais ou menos consciente,

os pensamentos dos homens e dos Espíritos, por meio da telegrafia espiri

tual, não se generalizariam entre os homens, de modo consciente?

A telegrafia humana! Aí está uma coisa de molde certamente a pro

vocar o riso dos que se negam a admitir o que não caia sob os sentidos

materiais. Mas que importam as zombarias dos presunçosos? As suas ne

gações, por mais que eles as multipliquem, não obstarão a que as Leis

Naturais sigam seu curso, nem a que se encontrem novas aplicações dessas

leis, à medida que a inteligência humana se ache em estado de lhes expe

rimentar os efeitos.

O homem exerce ação direta sobre as coisas, assim como sobre as

pessoas que o cercam. Frequentemente, uma pessoa de quem se faz pouco

caso a exerce decisiva sobre outras de reputação muito superior. Isto decor

re de que na Terra se veem muito mais máscaras do que semblantes e de

que aí o olhar tem a obscurecê-lo a vaidade, o interesse pessoal e todas as

paixões más. A experiência demonstra que se pode atuar sobre o espírito

dos homens, à revelia deles. Um pensamento superior, fortemente pensado,

permita-se-nos a expressão, pode, pois, conforme a sua força e a sua eleva

ção, tocar de perto ou de longe homens que nenhuma ideia fazem da ma

neira por que ele lhes chega, do mesmo modo que muitas vezes aquele que

o emite não faz ideia do efeito produzido pela sua emissão. É esse um jogo

constante das inteligências humanas e da ação recíproca de umas sobre as

outras. Juntai-lhe a das inteligências dos desencarnados e imaginai, se o

conseguirdes, o poder incalculável dessa força composta de tantas forças

reunidas.

Se se pudesse suspeitar do imenso mecanismo que o pensamento

aciona e dos efeitos que ele produz de um indivíduo a outro, de um grupo

de seres a outro grupo e, afinal, da ação universal dos pensamentos das

criaturas umas sobre as outras, o homem ficaria assombrado! Sentir-se-ia

aniquilado diante dessa infinidade de pormenores, diante dessas inúmeras

redes ligadas entre si por uma potente vontade e atuando harmonicamente

para alcançar um único objetivo: o progresso universal.

Pela telegrafia do pensamento, ele apreciará em todo o seu valor a

Lei da Solidariedade, ponderando que não há um pensamento, seja crimi

noso, seja virtuoso, ou de outro gênero, que não tenha ação real sobre o

conjunto dos pensamentos humanos e sobre cada um deles. Se o egoísmo

o levava a desconhecer as consequências, para outrem, de um pensamento

perverso, pessoalmente seu, por esse mesmo egoísmo ele se verá induzido a

ter bons pensamentos, para elevar o nível moral da generalidade das criatu

ras, atentando nas consequências que sobre si mesmo produziria um mau

pensamento de outrem.

Que serão, senão consequência da telegrafia do pensamento, esses

choques misteriosos que nos advertem da alegria ou do sofrimento de um

ente caro, que se acha longe de nós? Não é a um fenômeno do mesmo

gênero que devemos os sentimentos de simpatia ou de repulsão que nos

arrastam para certos Espíritos e nos afastam de outros?

Há certamente aí um campo imenso para o estudo e a observação,

mas do qual ainda não podemos perceber senão as massas. O estudo dos

pormenores resultará de um conhecimento mais completo das leis que re

gem a ação dos fluidos, uns sobre os outros.

Estudo sobre a natureza do Cristo

UM – Fontes das provas sobre a natureza do Cristo

A questão da natureza do Cristo foi debatida desde e os primeiros

séculos do Cristianismo e pode-se dizer que ainda não se acha solucionada,

pois que continua a ser objeto de discussão. Foi a divergência das opi

niões sobre este ponto que deu origem à maioria das seitas que dividiram

a Igreja há dezoito séculos, sendo de notar-se que todos os chefes dessas

seitas foram bispos ou membros titulados do clero. Eram, por conseguinte,

homens esclarecidos, muitos deles escritores de talento, abalizados na ciên

cia teológica, que não achavam concludentes as razões invocadas a favor

do dogma da divindade do Cristo. Entretanto, como hoje, as opiniões se

firmaram mais sobre abstrações do que sobre fatos. Sobretudo, o que se

procurou foi saber o que o dogma continha de plausível, ou de irracional,

deixando-se, geralmente de um lado e de outro, de assinalar os fatos capa

zes de lançar sobre a questão uma luz decisiva.

Mas onde encontrar esses fatos, senão nos atos e nas palavras de Jesus?

Nada tendo Ele escrito, seus únicos historiadores foram os Apósto

los que, tampouco, escreveram coisa alguma quando o Cristo ainda vivia.

Nenhum historiador profano, seu contemporâneo, havendo falado a seu

respeito, nenhum documento mais existe, além dos Evangelhos, sobre a

sua vida e a sua doutrina. Aí somente é que se há de procurar a chave do

problema. Todos os escritos posteriores, sem exclusão dos de Paulo, são

apenas, e não podem deixar de ser, simples comentários ou apreciações,

reflexos de opiniões pessoais, muitas vezes contraditórias, que, em caso

algum, poderiam ter a autoridade da narrativa dos que receberam direta

mente do Mestre as instruções.

Sobre esta questão, como sobre as de todos os dogmas em geral, o

acordo entre os Pais da Igreja e outros escritores sacros não seria de in

vocar-se como argumento preponderante, nem como prova irrecusável a

favor da opinião de uns e outros, uma vez que nenhum deles citou um só

fato, fora do Evangelho, concernente a Jesus; que nenhum deles descobriu

documentos novos que seus predecessores desconhecessem.

Os autores sacros nada mais conseguiram do que girar dentro do

mesmo círculo, produzindo apreciações pessoais, deduzindo corolários

acordemente com seus pontos de vista, comentando sob novas formas e

com maior ou menor desenvolvimento as opiniões contrárias às suas. Per

tencendo ao mesmo partido, tiveram todos de escrever no mesmo senti

do, senão nos mesmos termos, sob pena de serem declarados heréticos,

como o foram Orígenes e tantos mais. Naturalmente, a Igreja só incluiu

no número dos seus Pais os escritores ortodoxos, do seu ponto de vista; so

mente exalçou, santificou e colecionou aqueles que lhe tomaram a defesa,

ao passo que repudiou os outros e lhes destruiu quanto pôde os escritos.

Nada, pois, de concludente exprime o acordo dos Pais da Igreja, visto que

formam uma unanimidade arranjada a dedo, mediante a eliminação dos

elementos contrários. Se se fizesse um confronto de tudo o que foi escrito

pró e contra, difícil se tornaria dizer para que lado se inclinaria a balança.

Isto nada tira ao mérito pessoal dos sustentadores da ortodoxia, nem

ao valor que demonstraram como escritores e homens conscienciosos.

Sendo advogados de uma mesma causa e defendendo-a com incontestável

talento, haviam forçosamente de adotar as mesmas conclusões. Longe de

intentarmos apontá-los no que quer que fosse, apenas quisemos refutar o

valor das consequências que se pretende tirar do acordo de suas opiniões.

No exame, que vamos fazer, da questão da divindade do Cristo, pon

do de lado as sutilezas da escolástica, que unicamente serviram para tudo

embaralhar sem esclarecer coisa alguma, apoiar-nos-emos exclusivamente

nos fatos que ressaltam do texto do Evangelho e que, examinados friamen

te, conscienciosamente e sem espírito de partido, superabundantemente

facultam todos os meios de convicção que se possam desejar.

Ora, entre esses fatos, outros não há mais preponderantes, nem mais

concludentes, do que as próprias palavras do Cristo, palavras que ninguém

poderá refutar, sem infirmar a veracidade dos Apóstolos. Pode-se inter

pretar de diferentes maneiras uma parábola, uma alegoria, mas afirmações

precisas, sem ambiguidades, repetidas cem vezes, não poderiam ter duplo

sentido. Ninguém pode pretender saber melhor do que Jesus o que Ele

quis dizer, como ninguém pode pretender estar mais bem informado do

que Ele sobre a sua própria natureza. Desde que Ele comenta suas palavras

e as explica para evitar todo equívoco, é a Ele que devemos recorrer, a me

nos lhe neguemos a superioridade que lhe é atribuída e nos sobreponha

mos à sua própria inteligência. Se Ele foi obscuro em certos pontos, por

usar de linguagem figurada, no que concerne à sua pessoa não há equívoco

possível. Antes de examinar as palavras, vejamos os atos.

DOIS – Os milagres provam a divindade do Cristo?

Segundo a Igreja, a divindade do Cristo está firmada pelos milagres,

que testemunham um poder sobrenatural. Esta consideração pode ter tido

certo peso numa época em que o maravilhoso era aceito sem exame; hoje,

porém, que a Ciência levou suas investigações até as Leis da Natureza,

há mais incrédulos do que crentes nos milagres, para cujo descrédito não

contribuíram pouco o abuso das imitações fraudulentas e a exploração que

dessas imitações se há feito. A fé nos milagres foi destruída pelo próprio

uso que deles fizeram, donde resultou que muitas pessoas consideram ago

ra os do Evangelho como puramente lendários.

A própria Igreja, aliás, tira aos milagres todo o alcance como prova

da divindade do Cristo, declarando que o demônio os pode operar tão

prodigiosos quanto aqueles outros. Se tal poder tem o demônio, evidente

se torna que os fatos desse gênero carecem em absoluto de caráter exclu

sivamente divino. Se ele pode fazer coisas espantosas, capazes até de ilu

dir os eleitos, como poderão simples mortais distinguir os bons milagres

dos maus? Não será de temer que, observando fatos similares, confundam

Deus e Satanás?

Dar a Jesus semelhante rival em habilidade é grande desazo, mas, em

matéria de contradições e de inconsequências, não se consideravam as coi

sas com muita atenção numa época em que para os fiéis seria um caso de

consciência o pensarem por si mesmos e discutirem o menor artigo que se lhes

impusesse à crença. Não se contava então com o progresso e ninguém cuidava

de que pudesse ter fim o reinado da fé cega e ingênua, reinado cômodo, qual o

do bel-prazer. O papel tão preponderante que a Igreja se obstinou em atribuir

ao demônio produziu consequências desastrosas para a fé, à medida que os

homens se foram sentindo capazes de ver com seus próprios olhos. Depois

de ter sido explorado com êxito durante algum tempo, ele se tornou o alvião

posto no velho edifício das crenças e uma das causas da incredulidade. Pode

dizer-se que a Igreja, com o tomá-lo por auxiliar indispensável, alimentou em

seu seio aquele que se voltaria contra ela e lhe minaria os fundamentos.

Outra consideração não menos grave é a de que os fatos milagrosos

não constituem privilégio exclusivo da religião cristã. Não há, com efeito,

religião alguma, idólatra ou pagã, que não tenha seus milagres tão maravi

lhosos e tão autênticos para os respectivos adeptos, quanto os do Cristia

nismo. E a Igreja se privou do direito de os contestar, desde que atribuiu às

potências infernais o poder de os operar.

No sentido teológico, o caráter essencial do milagre é o de ser uma ex

ceção aberta nas Leis da Natureza, o que, conseguintemente, o torna inex

plicável mediante essas mesmas leis. Deixa de ser milagre um fato, desde

que possa explicar-se e que se ache ligado a uma causa conhecida. Desse

modo foi que as descobertas da Ciência colocaram no domínio do natural

muitos efeitos que eram qualificados de prodígios, enquanto se lhes desco

nheciam as causas. Mais tarde, o conhecimento do princípio espiritual, da

ação dos fluidos sobre a economia geral, do Mundo Invisível dentro do qual

vivemos, das faculdades da alma, da existência e das propriedades do peris

pírito, facultou a explicação dos fenômenos de ordem psíquica, provando

que esses fenômenos não constituem, mais do que os outros, derrogações

das Leis da Natureza, que, ao contrário, decorrem quase sempre de apli

cações destas leis. Todos os efeitos do magnetismo, do sonambulismo, do

êxtase, da dupla vista, do hipnotismo, da catalepsia, da anestesia, da trans

missão do pensamento, a presciência, as curas instantâneas, as possessões, as

obsessões, as aparições e transfigurações etc., que formam a quase totalidade

dos milagres do Evangelho, pertencem àquela categoria de fenômenos.

Sabe-se agora que tais efeitos resultam de especiais aptidões e dispo

sições psicológicas; que se hão produzido em todos os tempos e no seio de

todos os povos e que foram considerados sobrenaturais pela mesma razão

que todos aqueles cuja causa não se percebia. Isto explica por que todas as

religiões tiveram seus milagres, que mais não são que fatos naturais, quase

sempre, porém, ampliados até o absurdo pela credulidade e reduzidos ago

ra ao seu justo valor pelos conhecimentos atuais, que permitem se destaque

deles a parte devida à lenda.

A possibilidade da maioria dos fatos que o Evangelho cita como ope

rados por Jesus se acha hoje completamente demonstrada pelo Magnetismo

e pelo Espiritismo, como fenômenos naturais. Pois que eles se produzem às

nossas vistas, quer espontaneamente, quer quando provocados, nada há de

anormal em que Jesus possuísse faculdades idênticas às dos nossos magnetiza

dores, curadores, sonâmbulos, videntes, médiuns etc. Do momento em que

essas mesmas faculdades se encontram, em diferentes graus, numa multidão

de indivíduos que nada têm de divino, até em heréticos e idólatras, elas não

implicam, de maneira alguma, a existência de uma natureza sobre-humana.

Se o próprio Jesus qualifica de milagres os seus atos, é que nisto, como em

muitas outras coisas, lhe cumpria apropriar sua linguagem aos conhecimentos

dos seus contemporâneos. Como poderiam estes apreender os matizes de uma

palavra que ainda hoje nem todos compreendem? Para o vulgo, eram milagres

as coisas extraordinárias que Ele fazia e que pareciam sobrenaturais, naquele

tempo e mesmo muito tempo depois. Ele não podia dar-lhes outro nome. Fato

digno de nota é que se serviu dessa denominação para atestar a missão que re

cebera de Deus, segundo suas próprias expressões, porém nunca se prevaleceu

dos milagres para se apresentar como possuidor do poder divino.10

Importa, pois, se risquem os milagres do rol das provas sobre que

se pretende fundar a divindade da pessoa do Cristo. Vejamos agora se as

encontramos em suas palavras.

TRES – As palavras de Jesus provam a sua divindade?

Dirigindo-se a alguns de seus discípulos que disputavam para saber qual

dentre eles era o maior, disse-lhes Ele, chamando para junto de si uma criança:

Quem quer que me receba, recebe aquele que me enviou, porquanto aquele que for

o menor entre todos vós será o maior de todos (Lucas, 9:48).

Quem quer que receba em meu nome a uma criancinha como esta, a mim me

recebe; e aquele que me recebe não me recebe a mim, mas recebe aquele que me

enviou (Marcos, 9:37).

Jesus lhes disse então: Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis, porque foi de

Deus que saí e foi de sua parte que vim; pois, não vim de mim mesmo, foi Ele que

me enviou (João, 8:42).

Jesus então lhes disse: Ainda estou convosco por um pouco de tempo e vou em

seguida para aquele que me enviou (João, 7:33).

Aquele que vos ouve, a mim me ouve; aquele que vos despreza, a mim me despre

za; e aquele que me despreza, despreza aquele que me enviou (Lucas, 10:16).

O dogma da divindade de Jesus se baseou na igualdade absoluta

entre a sua pessoa e Deus, pois que Ele próprio é Deus. É este um artigo

de fé. Ora, estas palavras, que Jesus tantas vezes repetiu: Aquele que me

enviou, não só comprovam uma dualidade de pessoas, mas também,

como já o dissemos, excluem a igualdade absoluta entre elas, porquanto

aquele que é enviado necessariamente está subordinado ao que envia.

Com o obedecer, aquele pratica um ato de submissão. Um embaixador,

falando do seu soberano, dirá: Meu senhor, aquele que me envia, mas se

quem vem é o soberano em pessoa, falará em seu próprio nome e não

dirá: Aquele que me enviou, visto que ele não pode enviar-se a si mesmo.

Jesus o disse em termos categóricos: Não vim de mim mesmo; foi Ele

quem me enviou.

Estas palavras: Aquele que me despreza, despreza aquele que me enviou,

não implicam absolutamente a igualdade, nem, ainda menos, a identidade.

Em todos os tempos, o insulto a um embaixador foi considerado como

feito ao próprio soberano. Os Apóstolos tinham a palavra de Jesus, como

este a de Deus. Quando Ele lhes diz: Aquele que vos ouve, a mim me ouve,

certamente não queria dizer que seus Apóstolos e Ele fossem uma só e a

mesma pessoa, igual em todas as coisas.

A dualidade das pessoas, assim como o estado secundário e de su

bordinação de Jesus com relação a Deus, ressaltam, ademais, sem equívoco

possível, das seguintes passagens:

Fostes vós que permanecestes sempre firmes comigo nas minhas tentações. — Eis

por que vos preparo o reino, como meu Pai mo preparou, a fim de que comais e

bebais à minha mesa no meu reino e que estejais sentados em tronos, para julgar

as doze tribos de Israel (Lucas, 22:28 a 30).

De mim digo o que vi junto de meu Pai; e vós, vós fazeis o que ouvistes de vosso

pai (João, 8:38).

Ao mesmo tempo, apareceu uma nuvem que os cobriu e dessa nuvem saiu uma

voz que fez se ouvissem estas palavras: Este é meu filho bem-amado; escutai-o (Trans

figuração: Marcos, 9:7).

Ora, quando o Filho do homem vier em sua majestade, acompanhado de todos

os anjos, assentar-se-á no trono de sua glória; — e, achando-se reunidas todas as

nações, separará umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos bodes; —

colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. — Então, o Rei dirá aos

que estiverem à sua direita: Vinde, vós que fostes abençoados por meu Pai, possuir

o reino que vos foi preparado desde o começo do mundo (Mateus, 25:31 a 34).

Aquele que me confessar e me reconhecer diante dos homens, Eu também o re

conhecerei e confessarei diante de meu Pai que está nos Céus; — aquele que me

renunciar diante dos homens, também Eu mesmo o renunciarei diante de meu Pai

que está nos Céus (Mateus, 10:32 e 33).

Ora, Eu vos declaro que aquele que me confessar e me reconhecer perante os ho

mens, o Filho do homem também o reconhecerá perante os anjos de Deus; — mas se

algum me repudiar perante os homens, Eu também o repudiarei perante os anjos de

Deus (Lucas, 12:8 e 9).

Pois, se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, desse também se

envergonhará o Filho do homem, quando estiver na sua glória e na de seu Pai e dos

santos anjos (Lucas, 9:26).

Nestas duas últimas passagens parece mesmo que Jesus coloca acima

de si os santos anjos componentes do tribunal celeste, perante o qual seria

Ele o defensor dos bons e o acusador dos maus.

Mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha es

querda, não me compete a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem

meu Pai o tenha preparado (Mateus, 20:23).

Ora, estando reunidos os fariseus, Jesus lhes fez esta pergunta: Que

vos parece do Cristo? De quem é Ele filho? Eles responderam: De Davi. —

Como é então, retrucou Ele, que Davi lhe chama em espírito seu senhor,

nestes termos: O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita, até

que Eu reduza teus inimigos a te servirem de escabelo para os pés? — Ora,

se Davi lhe chama seu Senhor, como é Ele seu filho? (Mateus, 22:41 a 45).

Mas, ensinando no templo, Jesus lhes disse: Como é que os escribas

dizem que o Cristo é filho de Davi, uma vez que o próprio Davi diz a seu

Senhor: Senta-te à minha direita, até que Eu haja reduzido teus inimigos a

te servirem de escabelo para os pés? — Pois, se o próprio Davi lhe chama

seu Senhor, como é Ele seu filho? (Marcos, 12:35 a 37; Lucas, 20:41 a 44).

Por essas palavras, Jesus consagra o princípio da diferença hierárqui

ca que existe entre o Pai e o Filho. Ele podia ser filho de Davi por filiação

corporal, como descendente de sua raça e foi por isso que teve o cuidado

de acrescentar: Como lhe chama ele em espírito seu Senhor? Se há uma

diferença hierárquica entre o pai e o filho, Jesus, como filho de Deus, não

pode ser igual a Deus.

Ele confirma esta interpretação e reconhece a sua inferioridade com

relação a Deus, em termos que não deixam lugar a dúvidas.

Ouvistes o que foi dito: Eu me vou e volto a vós. Se me amásseis, rejubilaríeis, pois

que vou para meu Pai, porque meu Pai É MAIOR DO QUE EU” (João, 14:28).

Aproxima-se então um mancebo e lhe diz: Bom Mestre, que bem devo fazer para

alcançar a vida eterna? Jesus lhe respondeu: Por que me chamas bom? Não há

senão somente Deus que é bom. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos

(Mateus, 19:16 e 17; Marcos, 10:17 e 18; Lucas, 18:18 e 19).

Não só Jesus não se deu, em nenhuma circunstância, por igual a

Deus, como, neste passo, afirma positivamente o contrário: considera-se

inferior a Deus em bondade. Ora, declarar que Deus lhe está acima, pelo

poder e pelas qualidades morais, é dizer que Ele não é Deus. As passagens

que seguem apoiam as que citamos e também são bastante explícitas.

Não tenho falado por mim mesmo; meu Pai, que me enviou, foi quem me prescreveu,

por mandamento seu, o que devo dizer e como devo falar; — e sei que o seu manda

mento é a vida eterna; o que, pois, Eu digo é segundo o que meu Pai me ordenou

que o diga (João, 12:49 e 50).

Jesus lhes respondeu: Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. —

Aquele que quiser fazer a vontade de Deus reconhecerá se a minha doutrina é dele,

ou se falo por mim mesmo. — Aquele que fala por impulso próprio procura a sua

própria glória, mas o que, procura a glória daquele que o enviou é veraz, não há

nele injustiça (João, 7:16 a 18).

Aquele que não me ama não guarda a minha palavra, e a palavra que tendes ouvido

não é minha, mas de meu Pai que me enviou (João, 14:24).

Não credes que estou em meu Pai e que meu Pai está em mim? O que vos digo,

não o digo de mim mesmo; meu Pai que mora em mim, faz Ele próprio as obras que

Eu faço (João, 14:10).

O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. — Pelo que respeita

ao dia e à hora, ninguém o sabe, nem os anjos que estão no Céu nem mesmo o

Filho, mas somente o Pai (Marcos, 13:32; Mateus, 24:35 e 36).

Jesus então lhes disse: Quando houverdes elevado ao alto o Filho do homem, co

nhecereis o que Eu sou, porquanto nada faço de mim mesmo, mas digo o que meu

Pai me ensinou; e aquele que me enviou está comigo e não me deixou só, porque

faço sempre o que lhe é agradável (João, 8:28 e 29).

Desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele

que me enviou (João, 6:38).

Nada posso fazer de mim mesmo. Julgo segundo ouço e o meu juízo é justo, por

que não procuro satisfazer à minha vontade, mas à vontade daquele que me enviou

(João, 5:30).

Mas, de mim, tenho um testemunho maior que o de João, porquanto as obras que

meu Pai me deu o poder de fazer, as obras, digo, que Eu faço dão testemunho de

mim, que foi meu Pai que me enviou (João, 5:36).

Mas agora procurais dar-me morte, a mim que vos tenho dito a verdade que apren

di de Deus; é o que Abraão não fez (João, 8:40).

Desde que Ele nada diz de si mesmo; que a doutrina que prega não

é sua, que ela lhe veio de Deus, que lhe ordenou viesse dá-la a conhecer;

que não faz senão o que Deus lhe deu o poder de fazer; que a verdade que

ensina Ele a aprendeu de Deus, a cuja vontade se acha sujeito, é que Ele não

é Deus, mas, apenas, seu enviado, seu messias e seu subordinado.

Fora-lhe impossível recusar, de maneira mais positiva, qualquer as

similação sua a Deus, nem determinar o seu papel principal em termos

mais precisos. Não há nos trechos acima pensamentos ocultos sob o véu da

alegoria, que só à força de interpretações se possam descobrir. São pensa

mentos expressos em seu sentido próprio, sem ambiguidade.

Se objetarem que Deus, por não ter querido dar-se a conhecer na pes

soa de Jesus, provocou uma ilusão acerca da sua individualidade, poder-se-ia

perguntar em que se funda semelhante opinião, quem tem autoridade para

lhe sondar o fundo do pensamento e para lhe dar às palavras um sentido

contrário ao que elas exprimem. Pois que, em vida de Jesus, ninguém o con

siderava como Deus; que todos, ao contrário, o consideravam um messias,

se Ele não quisesse que o conhecessem qual era, bastar-lhe-ia nada dizer.

Das suas afirmações espontâneas, deve-se concluir que Ele não era Deus,

ou que, se o era, voluntariamente e sem utilidade, fez uma afirmação falsa.

É de notar-se que João, o Evangelista sobre cuja autoridade mais

buscaram apoiar-se os instituidores do dogma da divindade do Cristo, é

precisamente o que oferece os mais numerosos e mais positivos argumen

tos em contrário. É do que pode convencer-se qualquer pessoa, lendo as

passagens seguintes, que nada acrescentam, é certo, às provas já citadas,

mas as corroboram porque de tais passagens ressalta evidente a dualidade e

a desigualdade das duas entidades:

Por esse motivo, os judeus perseguiam a Jesus e queriam matá-lo, isto é, porque

fizera tais coisas em dia de sábado. — Mas Jesus lhes disse: Meu Pai obra até o

presente e Eu também obro (João, 5:16 e 17).

Porquanto o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o poder de julgar, a fim

de que todos honrem ao Filho, como honram ao Pai. Aquele que não honra ao

Filho, não honra ao Pai que o enviou.

Em verdade, em verdade, digo-vos que aquele que ouve a minha palavra e crê

naquele que me enviou tem a vida eterna e não cai na condenação; antes, já passou

da morte à vida.

Em verdade, em verdade, digo-vos que a hora vem, e ela já veio, em que os mortos

ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a escutarem viverão; pois, assim como o

Pai tem a vida em si mesmo, também deu ao Filho ter a vida em si mesmo — e lhe

deu o poder de julgar, porque Ele é o Filho do homem (João, 5:22 a 27).

E o Pai que me enviou há dado, Ele próprio, testemunho de mim. Nunca jamais

lhe ouvistes a voz, nem vistes a face. — E a sua palavra não permanecerá em vós

porque não credes no que Ele enviou (João, 5:37 e 38).

Quando Eu julgasse, o meu julgamento seria digno de fé, porquanto não estou só;

meu Pai que me enviou está comigo (João, 8:16).

Havendo Jesus dito estas coisas, elevou os olhos ao céu e disse: Meu Pai, a hora é

vinda; glorifica a teu Filho, a fim de que teu Filho te glorifique. — Como lhe deste

poder sobre todos os homens, a fim de que Ele dê a vida eterna a todos os que

lhe deste. — Ora a vida eterna consiste em te conhecer a ti que és o úNico deus

verdadeiro e a Jesus Cristo que Tu enviaste.

Eu te tenho glorificado na Terra; acabei a obra de que me encarregaste. — E Tu,

meu Pai, glorifica-me, pois, agora também em ti mesmo dessa glória que tive em

ti antes que o mundo fosse.

Dentro em pouco já não estarei no mundo, mas, quanto a eles, estão ainda no

mundo, e Eu regresso a ti. Pai santo, conservo em teu nome os que me deste, a fim

de que eles sejam como nós.

Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como

Eu próprio não sou do mundo.

Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade mesma. — Assim como me en

viaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo — e me santifico a mim mesmo

por eles, a fim de que também eles sejam santificados na verdade.

Não peço apenas por eles, mas também pelos que em mim hão de crer pela palavra

deles; — a fim de que estejam todos unidos, como Tu, meu Pai, estás em mim e

Eu em ti; que eles, do mesmo modo, sejam um em nós, a fim de que o mundo creia

que Tu me enviaste.

Meu Pai, desejo que, lá onde Eu estou, os que Tu me deste também estejam co

migo, a fim de que contemplem a minha glória, glória que me deste, porque me

amaste antes da Criação do mundo.

Pai justo, o mundo não te há conhecido; Eu, porém, te tenho conhecido; e estes

conheceram que Tu me enviaste. — Fiz que eles conhecessem o teu nome, e ainda

farei que o conheçam, a fim de que o amor com que me tens amado esteja neles e Eu

próprio neles esteja (João, 17:1 a 5, 11, 14, 17 a 21, 24 a 26; Prece de Jesus).

É por isto que meu Pai me ama, porque deixo a vida para a retomar. – Ninguém ma

arrebata; sou Eu que a deixo de mim mesmo; tenho o poder de a deixar e tenho o

poder de a retomar. É o mandamento que recebi do meu Pai (João, 10:17 e 18).

Tiraram a pedra e Jesus, erguendo os olhos para o céu, disse estas palavras: Meu

Pai, rendo-te graças por me haveres exalçado. — Eu, de mim, sabia que Tu me exal

çarias sempre, mas digo isto para esta gente que me cerca, a fim de que creia que

foste Tu que me enviaste (João, 11:41 e 42. Morte de Lázaro).

Não mais vos falarei, porquanto o príncipe do mundo vai vir, embora nada haja em

mim que lhe pertença, mas para que o mundo conheça que amo a meu Pai e que

faço o que meu Pai me ordena (João, 14:30 e 31).

Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como Eu, que

tenho guardado os mandamentos de meu Pai, permaneço no seu amor (João, 15:10).

Então, soltando grande brado, Jesus disse: Meu Pai, às tuas mãos entrego o meu

ser. E, tendo pronunciado essas palavras, expirou (Lucas, 23:46).

Se Jesus, ao morrer, entrega sua alma às mãos de Deus, é que Ele

tinha uma alma distinta de Deus, submissa a Deus. Logo, Ele não era Deus.

As palavras que se seguem indiciam, da parte de Jesus, certa fraqueza

humana, certa apreensão quanto aos sofrimentos e à morte que lhe vão ser in

fligidos, o que contrasta com a natureza divina que lhe atribuem. Elas, porém,

demonstram, ao mesmo tempo, uma submissão de inferior para superior.

Então, chegou Jesus a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus discípulos:

Sentai-vos aqui, enquanto vou ali orar. – E, tendo levado consigo Pedro e os dois

filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a estar em grande aflição. — Disse-lhes

então: Minha alma se acha em mortal tristeza; ficai aqui e velai comigo. — E, indo

para um pouco mais longe, prosternou-se com o rosto em terra e orou dizendo:

Meu Pai, se for possível, faze de mim se afaste este cálice; entretanto, não seja como

Eu quero, mas como Tu queiras. — Veio em seguida ter com os seus discípulos e,

achando-os adormecidos, disse a Pedro: Pois quê! não pudestes velar uma hora

comigo? — Vigiai e orai, a fim de não cairdes em tentação. O Espírito é pronto,

mas a carne é fraca. — Foi-se de novo, para orar segunda vez, dizendo: Meu Pai, se

este cálice não pode passar, sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade (Mateus, 26:36

a 42, Jesus no Jardim das Oliveiras).

Então, disse-lhes: Minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e velai. —

E, tendo-se afastado um pouco, prosternou-se em terra, rogando que, se fosse

possível, aquela hora se afastasse dele. — Dizia: Abba, meu Pai, tudo te é possível,

transporta para longe de mim este cálice, mas que se faça a tua vontade, e não a

minha (Marcos, 14:34 a 36).

Chegando àquele lugar, disse-lhes: Orai, a fim de não sucumbirdes à tentação. —

E, tendo-se afastado deles cerca de um arremesso de pedra, ajoelhou-se, dizendo:

Meu Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; entretanto, não se faça a minha

vontade, mas a tua. — Então, apareceu-lhe um anjo do Céu a fortalecê-lo. — Ha

vendo entrado em agonia, redobrava suas preces. — Veio-lhe um suor de gotas de

sangue, que corria até o chão (Lucas, 22:40 a 44).

Pela hora nona, soltou Jesus um grande brado, dizendo: Eli! Eli! Lamma Sa

bachtani? Que quer dizer: Meu Deus! Meu Deus! por que me abandonaste? (Ma

teus, 27:46).

E, pela hora nona, lançou Jesus um grande brado, dizendo: Meu Deus, Meu Deus!

por que me abandonaste? (Marcos, 15:34).

As passagens que vamos transcrever poderiam deixar alguma dúvida

e dar ensejo a crer-se numa identificação de Deus com a pessoa de Jesus,

mas, além de que não poderiam prevalecer contra os termos precisos das

que precedem, trazem consigo a devida retificação.

Perguntaram-lhe: Quem és Tu então? Jesus lhes respondeu: Sou o princípio de todas

as coisas, Eu que vos falo. — Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas aquele que me

enviou é verdadeiro e Eu não digo senão o que dele aprendi (João, 8:25 e 26).

O que meu Pai me deu é maior do que todas as coisas e ninguém o pode arrebatar

das mãos de meu Pai. Meu Pai e Eu somos um (João, 10:29 e 30).

Quer isto dizer que seu Pai e Ele são um pelo pensamento, pois que

Ele exprime o pensamento de Deus, pois que tem a palavra de Deus.

Então, os judeus tomaram de pedras para lapidá-lo. — Jesus lhes disse: Muitas

obras boas tenho feito diante de vós, pelo poder de meu Pai. Por qual delas quereis

lapidar-me? — Os judeus lhe responderam: Não é por nenhuma boa obra que

te lapidamos, mas por causa da tua blasfêmia, porque, sendo homem, Tu te fazes

Deus. — Jesus lhes replicou: Não está escrito na vossa lei: Tenho dito que sois deu

ses? — Ora, se ela chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus era dirigida e

não podendo a escritura ser destruída, como dizeis que blasfemo, Eu a quem meu

Pai santificou e enviou ao mundo, porque disse que sou filho de Deus? — Se não

faço as obras de meu Pai, não me creiais; se, porém, as faço, quando não queirais

crer em mim, crede nas minhas obras, a fim de saberdes e crerdes que meu Pai está

em mim e Eu nele (João, 10:31 a 38).

Noutro capítulo, dirigindo-se a seus discípulos, diz: “Nesse dia, re

conhecereis que estou em meu Pai e vós em mim e Eu em vós (João, 14:20).

Destas palavras, não há concluir-se que Deus e Jesus são uma única

entidade, pois, de outro modo, também se teria de concluir, das mesmas

palavras, que os Apóstolos e Deus eram um.

QUATRO – Palavras de Jesus depois de sua morte

Jesus lhe respondeu: Não me toques, porquanto ainda não subi a meu Pai; vai,

porém, ter com meus irmãos e dize-lhes de minha parte: Subo a meu Pai e vosso Pai,

a Meu deus e vosso Deus (João, 20:17. Aparição a Maria Madalena).

Mas aproximando-se, Jesus lhes falou assim: Todo o poder me foi dado no Céu e

na Terra (Mateus, 28:18. Aparição aos Apóstolos).

Ora, sois testemunhas destas coisas. — Vou enviar-vos o dom de meu Pai, que vos

foi prometido (Lucas, 24:48 e 49. Aparição aos Apóstolos).

Tudo, pois, nas palavras de Jesus, quer as que Ele disse em vida,

quer as de depois de sua morte, acusa uma dualidade de entidades perfei

tamente distintas, assim como o profundo sentimento da sua inferioridade

e da sua subordinação em face do Ente Supremo. Pela sua insistência em

afirmá-lo espontaneamente, sem a isso ser constrangido ou provocado por

quem quer que fosse, parece ter querido protestar de antemão contra o pa

pel que, segundo a sua previsão, lhe seria atribuído. Se houvesse guardado

silêncio sobre a sua personalidade, o campo teria ficado aberto a todas as

suposições, como a todos os sistemas. A precisão, porém, da sua linguagem

afasta todas as incertezas.

Que autoridade maior se pode pretender do que a das suas próprias

palavras? Quando Ele diz categoricamente: Eu sou ou não sou isto ou aqui

lo, quem ousaria arrogar-se o direito de desmenti-lo, embora para colocá--lo mais alto do que Ele a si mesmo se coloca? Quem pode racionalmente

pretender estar mais esclarecido do que Ele sobre a sua própria natureza?

Que interpretações podem prevalecer contra afirmações tão formais e mul

tiplicadas como estas:

Não vim de mim mesmo, mas aquele que me enviou é o único Deus verdadeiro.

— Foi de sua parte que vim. — Digo o que vi junto a meu Pai. — Não me cabe

a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o preparou. — Vou

para meu Pai, porque meu Pai é maior do que Eu. — Por que me chamas bom?

Bom não há senão somente Deus. — Não tenho falado por mim mesmo; meu Pai,

que me enviou, foi quem me prescreveu, por mandamento seu, o que devo dizer. – A doutrina que prego não é minha, mas daquele que me enviou. — A palavra

que tendes ouvido não é minha, mas de meu Pai que me enviou. — Nada faço de

mim mesmo; digo unicamente o que meu Pai me ensinou. — Nada posso fazer de

mim mesmo. — Não cuido de fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que

me enviou. — Tenho-vos dito a verdade que aprendi de Deus. — Meu alimento

é fazer a vontade daquele que me enviou. — Tu que és o único Deus verdadeiro e

Jesus Cristo a quem enviaste. — Meu Pai, nas tuas mãos entrego a minha alma. —

Meu Pai, se for possível, faze que de mim se afaste este cálice. — Subo para meu

Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.

Quando se leem tais palavras, fica-se a perguntar como há podi

do vir, sequer, à mente de alguém a ideia de atribuir-lhes sentido diame

tralmente oposto ao que elas exprimem tão claramente, de conceber uma

identificação completa, de natureza e de poder, entre o Senhor e aquele que

se declara seu servidor. Neste grande processo, que dura há quase quinze

séculos, quais as peças de convicção? Os Evangelhos — não há outras —,

os quais, no ponto em litígio, não dão lugar a qualquer equívoco. A do

cumentos autênticos, que não se podem contestar, sem arguir de falsa a

veracidade dos evangelistas e do próprio Jesus, documentos que se apoiam

em testemunhos oculares, que é que contrapõem? Uma doutrina teórica

puramente especulativa, nascida, três séculos mais tarde, de uma polêmica

travada sobre a natureza abstrata do Verbo, doutrina essa rigorosamente

combatida durante muitos séculos e que só prevaleceu pela pressão de um

poder civil absoluto.

CINCO – Dupla natureza de Jesus

Poder-se-ia objetar que, em virtude da dupla natureza de Jesus, suas

palavras exprimiam seu sentir como homem, e não como Deus. Sem, neste

momento, examinarmos por que encadeamento de circunstâncias chega

ram, muito mais tarde, à hipótese dessa dupla natureza, admitamo-la, por

um instante, e vejamos se, em vez de elucidar a questão, ela não a complica

ainda mais, ao ponto de torná-la insolúvel.

O que, em Jesus, haveria de humano era o corpo, a parte material.

Deste ponto de vista, compreende-se que Ele haja podido sofrer e tenha

mesmo sofrido como homem. A alma, o Espírito, a mente, numa palavra,

a parte espiritual do Ser é o que haveria nele de divino. Se Ele sentia e sofria

como homem, como Deus é que pensaria e falaria. Falava como homem

ou como Deus? Eis uma questão importante, pela autoridade excepcional

dos seus ensinamentos. Se falava como homem, suas palavras são passíveis

de controvérsia; se falava como Deus, são indiscutíveis e temos de aceitá-las

e de com elas conformar-nos, sob pena de deserção e de heresia. O mais

ortodoxo será aquele que mais se aproximar delas.

Dir-se-á que, sob o seu envoltório corporal, Jesus não tinha cons

ciência da sua natureza divina? Mas se fosse assim, Ele não teria, sequer,

pensado como Deus, sua natureza divina houvera permanecido em esta

do latente; só a natureza humana teria presidido à sua missão, aos seus

atos morais, como aos seus atos materiais. É, pois, impossível abstrair--se da sua natureza divina durante a sua vida, sem se lhe enfraquecer a autoridade.

Mas se Ele falou como Deus, por que esse incessante protesto contra

a sua natureza divina que, em tal caso, Ele não podia ignorar? Ter-se-ia

então enganado, o que seria pouco divino, ou teria cientemente enganado

o mundo, o que ainda o seria menos. Parece-nos difícil sair desse dilema.

Se se admitir que falou ora como homem, ora como Deus, a questão

se complica, pela impossibilidade de distinguir-se o que vinha do homem

e o que procedia de Deus.

Dado que Ele tivesse motivos para dissimular sua verdadeira natu

reza durante a missão que desempenhava, o meio mais simples teria sido

não falar dela, ou exprimir-se, como o fez noutras circunstâncias, de modo

vago e parabólico, sobre os pontos cujo conhecimento estava reservado ao

futuro. Ora, este não é aqui o caso, pois que as palavras acima nenhuma

ambiguidade apresentam.

Enfim, se, apesar de todas estas considerações, ainda se pudesse su

por que, quando vivo, Ele ignorava a sua verdadeira natureza, outro tan

to já não se pode admitir se desse, depois da sua ressurreição, visto que,

quando aparece a seus discípulos, já não é o homem quem fala, é o Espí

rito desprendido da matéria, que já havia de ter recobrado a plenitude de

suas faculdades espirituais e a consciência do seu estado normal, da sua

identificação com a divindade. Entretanto, foi então que disse: “Subo para

meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus!”

A subordinação de Jesus é ainda indicada pela sua qualidade mes

ma de mediador, que implica a existência de uma pessoa distinta. É

Ele quem intercede junto a seu Pai; quem se oferece em sacrifício para

remissão dos pecadores. Ora, se Ele é o próprio Deus, ou se fosse em

tudo igual a este, não precisaria interceder, porquanto ninguém interce

de junto a si mesmo.

SEIS – Opinião dos Apóstolos

Até aqui, apoiamo-nos exclusivamente nas palavras do Cristo, como

único elemento peremptório de convicção, porque, fora daí, somente há

opiniões pessoais.

De todas essas opiniões, as de maior valor são, incontestavelmente,

as dos Apóstolos, uma vez que estes o assistiram em sua missão e uma vez

também que, se Ele lhes houvesse dado instruções secretas, respeito à sua

natureza, alguns traços dessas instruções se descobririam nos escritos deles.

Tendo vivido na sua intimidade, melhor do que ninguém haviam eles de

conhecê-lo. Vejamos, pois, de que maneira o consideraram.

Ó israelitas, escutai as palavras que vos vou dizer: Sabeis que Jesus de Nazaré foi

um homem que Deus tornou célebre entre vós, pelas maravilhas, prodígios e milagres

que o mesmo Deus fez por seu intermédio no meio de vós. — Entretanto, vós o

crucificastes e lhe destes morte pelas mãos dos maus, tendo-vos Ele sido entregue

por ordem expressa da vontade de Deus e por decreto da sua presciência. — Mas

Deus o ressuscitou, detendo as dores do inferno, por impossível que Ele aí perma

necesse. — Porque Davi disse em seu nome: Eu tinha o Senhor presente sempre

diante de mim, a fim de que eu não fosse abalado. — É por isso que o meu coração

se rejubilou, que a minha língua cantou cânticos de alegria e que a minha carne

mesma repousará em esperança; — porque não deixareis minha alma no inferno

e não permitireis que o vosso Santo experimente a corrupção. — Vós me fizestes

conhecer o caminho da vida e me enchereis da alegria que dá a vista do vosso

semblante (Atos dos apóstolos, 2:22 a 28. Prédica de Pedro).

Depois então que foi elevado pelo poder de Deus e que recebeu o cumprimento da

promessa que o Pai lhe fizera de enviar o Santo Espírito, Ele espalhou esse Espírito

Santo que agora vedes e ouvis; — porquanto Davi não subiu ao Céu. — Ora, ele

próprio disse: O Senhor disse a meu Senhor: senta-te à minha direita — até que Eu

haja reduzido teus inimigos a te servirem de escabelo. — Que, pois, toda a casa de

Israel saiba, com absoluta certeza, que Deus fez Senhor e Cristo a esse Jesus que vós

crucificastes (Atos dos apóstolos, 2:33 a 36. Prédica de Pedro).

Moisés disse a nossos pais: o Senhor vosso Deus vos suscitará dentre os vossos irmãos

um profeta como eu. Escutai-o em tudo o que Ele disser. — Quem não escutar esse

profeta será exterminado do meio do povo.

Foi por vós primeiramente que Deus suscitou seu Filho e vo-lo enviou para vos

abençoar, a fim de que cada um se convertesse da sua má vida (Atos dos apóstolos,

3:22, 23 e 26. Prédica de S. Pedro).

Declaramos a todos vós e a todo o povo de Israel que é pelo nome de nosso Senhor

Jesus Cristo de Nazaré, a quem crucificastes e que Deus ressuscitou dentre os mortos;

é por Ele que este homem está agora curado, como o vedes, diante de vós (Atos dos

apóstolos, 4:10. Prédica de Pedro).

Os reis da terra se levantaram e os príncipes se uniram contra o Senhor e contra o

seu Cristo. — Herodes e Pôncio Pilatos com os gentios e o povo de Israel verda

deiramente se conluiaram contra o vosso santo Filho Jesus, a quem consagrastes

por vossa unção, para fazer tudo o que o vosso poder e o vosso conselho haviam

ordenado que fosse feito (Atos dos apóstolos, 4:26 a 28. Prece dos Apóstolos).

Pedro e os outros Apóstolos responderam: Cumpre obedecer antes a Deus do que

aos homens. — O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus que vós fizestes morrer pen

durando-o no madeiro. — Foi a Ele que Deus elevou pela sua destra, como o Príncipe

e o Salvador, para dar a Israel a graça da penitência e a remissão dos pecados (Atos

dos apóstolos, 5:29 a 31. Resposta dos Apóstolos ao sumo sacerdote).

Foi esse Moisés que disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre os vossos

irmãos um profeta como eu, escutai-o.

Mas o Altíssimo não habita em templos feitos pelas mãos dos homens, segundo

esta palavra do profeta: — O céu é meu trono e a terra meu escabelo. Que casa

me edificareis, diz o Senhor? e qual poderia ser o lugar de meu repouso? (Atos dos

apóstolos, 7:37, 48 e 49. Discurso de Estêvão).

Mas estando Estêvão cheio do Espírito Santo e elevando os olhos ao céu, viu a

glória de Deus e a Jesus que estava de pé à direita de Deus, e disse: Vejo abertos os

céus e o Filho do homem que está de pé à direita de Deus.

Então, lançando grandes brados e tapando os ouvidos, todos juntos se lançaram

sobre ele; e, tendo-o arrastado para fora dos muros da cidade, o lapidaram; e as

testemunhas, tomando-lhe as vestes, as puseram aos pés de um mancebo cha

mado Saulo (mais tarde Paulo). — Enquanto o lapidavam, Estêvão invocava a

Jesus, dizendo: Senhor Jesus, recebe meu Espírito (Atos dos apóstolos, 7:55 a 59.

Martírio de Estêvão).

Estas citações comprovam claramente o caráter que os Apóstolos

atribuíam a Jesus. A ideia exclusiva que ressalta desses textos é a da sua su

bordinação a Deus, da constante supremacia de Deus, sem que coisa algu

ma aí revele um pensamento de assimilação qualquer, de natureza e de poder.

Para eles, Jesus era um homem profeta, escolhido e abençoado por Deus.

Não foi, pois, entre os Apóstolos que teve origem a crença na divindade de

Jesus. Paulo, que não conheceu a Jesus, mas que, de ardoroso perseguidor,

se tornou o mais zeloso e o mais eloquente discípulo da nova fé e cujos es

critos prepararam os primeiros formulários da religião cristã, não é menos

explícito a respeito. Há nele o mesmo sentimento de dois seres distintos e

da supremacia do Pai sobre o Filho.

Paulo, servidor de Jesus Cristo, Apóstolo da vocação divina, escolhido e destinado

a anunciar o Evangelho de Deus — que Ele antes prometera por seus profetas nas

escrituras santas — no tocante a seu filho, que lhe nasceu, segundo a carne, do sangue e

da raça de Davi; — que foi predestinado a ser Filho de Deus, num soberano poder,

segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos; no tocante,

digo, a Jesus Cristo, nosso Senhor; — por quem recebemos a graça do apostolado,

para fazer que obedeçam à fé todas as nações pela virtude do seu nome; — no rol

das quais também estais vós, tendo sido chamados por Jesus Cristo; — a vós que

estais em Roma, que sois queridos de Deus e chamados a ser santos; que Deus,

nosso Pai, e Jesus Cristo, nosso Senhor, vos deem a graça e a paz (Romanos, 1:1 a 7).

Estando assim justificados pela fé, tenhamos a paz com Deus por Jesus Cristo, nosso

Senhor.

Porque, quando ainda estávamos nos langores do pecado, Jesus Cristo morreu por

ímpios como nós, no tempo destinado por Deus.

Jesus Cristo não deixou de morrer por nós no tempo destinado por Deus. Assim,

estando agora justificados pelo seu sangue, seremos, com mais forte razão, isenta

dos por Ele da cólera de Deus.

E não somente fomos reconciliados, como até nos glorificamos em Deus por Jesus

Cristo, nosso Senhor, por quem obtivemos essa reconciliação.

Se muitos morreram pelo pecado de um só, a misericórdia e o dom de Deus se

derramaram, com mais forte razão, mais abundantemente sobre muitos pela graça

de um só homem, que é Jesus Cristo (Romanos, 5:1, 6, 9, 11 e 15).

Se somos filhos, somos também herdeiros, heRdeiRos de Deus e coeRdeiRos de

Jesus Cristo, contanto, porém, que soframos com Ele (Romanos, 8:17).

Se confessais de boca que Jesus Cristo é o Senhor e se credes de coração que Deus

o ressuscitou dentre os mortos, sereis salvos (Romanos, 10:9).

Em seguida virá a consumação de todas as coisas, quando Ele houver entregue o seu

reino a Deus e Pai e houver destruído todo império, toda dominação, todo poder

— porquanto Jesus Cristo tem de reinar, até que seu Pai haja posto sob seus pés

todos os seus inimigos. — Ora, a morte será o último inimigo a ser destruído, pois

a escritura diz que Deus tudo lhe pôs debaixo dos pés e tudo lhe sujeitou, sendo

indubitável que daí se deve excetuar aquele que submeteu todas as coisas. — Quan

do, pois, todas as coisas estiverem submetidas ao Filho, então o Filho estará, Ele

mesmo, submetido àquele que lhe terá submetido todas as coisas, a fim de que Deus

seja tudo em todos (I Coríntios, 15:24 a 28).

Mas vemos que Jesus, que fora tornado, por um pouco de tempo, inferior aos an

jos, foi coroado de glória e de honras, devido à morte que Ele sofreu; Deus em sua

bondade, tendo querido que Ele morresse por todos — por ser Ele bem digno de

Deus, para quem e por quem são todas as coisas, quis que, por querer conduzir à

glória muitos filhos, Ele consumasse e aperfeiçoasse pelo sofrimento aquele que havia

de ser o chefe e o autor da salvação deles.

Assim, o que santifica e os que são santificados vêm todos de um mesmo princípio; por

isso é que Ele não se vexa de lhes chamar irmãos — dizendo: Anunciarei o teu nome

aos meus irmãos; entoar-te-ei louvores no meio da assembleia do teu povo. — E, algures:

porei nele a minha confiança. E, noutro lugar: eis-me aqui com os filhos que Deus me deu.

Eis por que necessário se tornou que Ele fosse em tudo semelhante a seus irmãos,

para ser, diante de Deus, um pontífice compassivo e fiel em seu ministério, a fim de

expiar os pecados do povo. — Pois, é das penas e dos sofrimentos mesmos, pelos

quais foi tentado e experimentado, que Ele tira a virtude e a força de socorrer os

que também são tentados (Hebreus, 2:9 a 13, 17, 18).

Portanto, meus santos irmãos, vós que tendes parte na vocação celeste, considerai

a Jesus, que é o Apóstolo e o Pontífice da religião que professamos; — que é fiel

àquele que o estabeleceu nesse cargo, como Moisés lhe foi fiel em toda a sua casa;

— porquanto Ele foi julgado digno de uma glória tanto maior do que a de Moisés,

quanto aquele que edificou a casa é mais estimável do que a própria casa; visto

não haver casa que não tenha sido construída por alguém. Ora, aquele que é o

arquiteto e o criador de todas as coisas é Deus (Hebreus, 3:1 a 4).

SETE – Predição dos profetas, com relação a Jesus

Além das afirmações de Jesus e da opinião dos Apóstolos, há um teste

munho cujo valor os crentes mais ortodoxos não poderiam contestar, pois que o

apontam constantemente como artigo de fé: é o do próprio Deus, isto é, o dos

profetas falando por inspiração e anunciando a vinda do Messias. Ora, aqui vão

as passagens da Bíblia consideradas como predição desse grande acontecimento.

Eu o vejo, porém não agora; olho-o, porém não de perto; uma estrela proveio de

Jacó e um cetro se elevou de Israel e traspassará os chefes de Moabe e destruirá

todos os filhos de Sete (Números, 24:17).

Eu lhes suscitarei um profeta, como tu, dentre seus irmãos e porei na sua boca as

minhas palavras e Ele dirá o que Eu lhe houver ordenado. E dar-se-á que àquele

que não escutar as palavras que Ele houver dito em meu nome, a esse pedirei contas

(Deuteronômio, 18:18 e 19).

Acontecerá, pois, quando chegarem os dias de te ires com teus pais, que farei

levantar-se a tua posteridade depois de ti, um de teus filhos, e estabelecerei o seu

reino. Ele me construirá uma casa e Eu firmarei o seu trono para sempre. Ser-lhe--ei pai e Ele me será filho e dele não retirarei a minha misericórdia, como a retirei

daquele que foi antes de ti, e o estabelecerei na minha casa e no meu reino para

sempre e seu trono se afirmará para sempre (Paralipômenos,11 17:11 a 14).

Eis por que o Senhor mesmo vos dará um sinal: uma virgem ficará grávida e parirá

um filho e Ele se chamará Emmanuel (Isaías, 7:14).

Pois o menino nos nasceu, o Filho nos foi dado e o império foi posto sobre seus

ombros e chamar-se-lhe-á, seu nome, o Admirável, o Conselheiro, o Deus forte, o

Poderoso, o Pai da eternidade, o Príncipe da paz (Isaías, 9:6).

Aqui está meu servidor, Eu o sustentarei; é meu eleito, minha alma pôs nele sua afei

ção; nele pus o meu Espírito; Ele exercerá a justiça entre as nações.

“Ele absolutamente não se retirará, nem se precipitará, até que Eu haja estabeleci

do a justiça na terra e os seres se submeterão à sua lei (Isaías, 42:1 a 4).

Ele gozará do trabalho de sua alma e dele se fartará; e meu servo justo a muitos

justificará, pelo conhecimento que terão dele e ele próprio lhes arrebatará as ini

quidades (Isaías, 53:11).

Rejubila-te ao extremo, filha de Sião; solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis

que o teu Rei a ti virá, justo e salvador humilde e montado num jumento, sobre o

potro de uma jumenta. E Eu farei desaparecer os carros de guerra de Efraim e os

cavalos de Jerusalém e o arco do combate também desaparecerá e o Rei falará de

paz às nações. E sua dominação se estenderá de um mar a outro mar e do rio aos

extremos da terra (Zacarias, 9:9 e 10).

E ele (o Cristo) se manterá e governará pela força do Eterno e com a magnificên

cia do nome do Eterno seu Deus. E eles voltarão e agora Ele será glorificado até as

extremidades da terra e será Ele quem fará a paz (Miqueias, 5:4).

A distinção entre Deus e seu futuro enviado se acha aí caracterizada

do modo mais formal. Deus o designa por seu servidor, conseguintemente

por seu subordinado. Nada há, em suas palavras, que implique a ideia

de igualdade de poder, nem de consubstancialidade entre os dois seres.

Ter-se-ia Deus enganado e teriam visto com mais exatidão do que Ele

os homens que vieram três séculos depois de Jesus Cristo? Tal parece ser a

pretensão deles.

OITO – O Verbo se fez carne

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era

Deus. — Ele estava no princípio com Deus. — Todas as coisas foram fei

tas por Ele e nada do que foi feito o foi sem Ele. — Nele estava a vida e a

vida era a luz dos homens. — E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a

compreenderam.

Houve um homem enviado de Deus, que se chamava João. — Ele veio para servir

de testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por ele. —

Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho daquele que era a luz.

Aquele era a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo,

e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não o conheceu. — Ele veio à sua casa

e os seus não o receberam. — Mas Ele deu a todos que o receberam o poder

de se tornarem filhos de Deus, àqueles que creem no seu nome, os quais não

nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem,

mas de Deus mesmo.

E o Verbo foi feito carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, qual a que o

Filho único havia de receber do Pai; e Ele, digo, habitou entre nós, cheio de graça

e de verdade (João, 1:1 a 14).

Esta passagem dos Evangelhos é a única que, à primeira vista, parece

encerrar implicitamente uma ideia de identificação entre Deus e a pessoa

de Jesus; é também a que serviu de base, mais tarde, à controvérsia a tal

respeito. A questão da divindade de Jesus surgiu gradativamente; nasceu

das discussões levantadas a propósito das interpretações que alguns deram

às palavras Verbo e Filho. Só no quarto século uma parte da Igreja a adotou,

em princípio. Semelhante dogma resultou, pois, de decisão dos homens, e

não de uma revelação divina.

É de notar-se, antes de tudo, que as palavras acima citadas são de

João, e não de Jesus, e que, ainda quando se admita que não tenham sido

alteradas, elas não exprimem, na realidade, mais que uma opinião pessoal,

uma indução, em que se depara com o misticismo habitual da sua lingua

gem; não poderiam, pois, prevalecer contra as reiteradas afirmações do

próprio Jesus.

Mesmo, porém, aceitando-as tais quais são, elas não resolvem de

modo algum a questão no sentido da divindade, porquanto se aplicariam

igualmente a Jesus, criatura de Deus.

Com efeito, o Verbo é Deus, porque é a palavra de Deus. Tendo rece

bido diretamente de Deus a palavra, com a missão de a revelar aos homens,

ele a assimilou. A palavra divina, de que se penetrara, encarnou nele; Ele a

trouxe consigo ao nascer e assim é que João pôde com razão dizer: O Verbo

foi feito carne e habitou entre nós. Jesus podia, pois, ter sido encarregado de

transmitir a palavra de Deus, sem ser o próprio Deus, como um embaixa

dor transmite as palavras do seu soberano, sem ser o soberano. Segundo

o dogma da divindade, é Deus quem fala; na outra hipótese, Ele fala pela

boca do seu enviado, o que nada tira à autoridade das suas palavras.

Mas quem autoriza esta suposição, de preferência a outra? A única

autoridade competente para decidir a questão é a das próprias palavras de

Jesus, quando diz: “Não tenho falado por mim mesmo; aquele que me enviou

foi quem me prescreveu, por seu mandamento, o que tenho de dizer. — A dou

trina que prego não é minha, mas daquele que me enviou; a palavra que tendes

ouvido não é palavra minha, mas de meu Pai que me enviou”. A ninguém

fora possível exprimir-se com mais clareza e precisão.

A qualidade de Messias ou Enviado, que lhe é atribuída em todo

o curso dos Evangelhos, implica uma posição subordinada com relação

àquele que ordena; o que obedece não pode ser igual ao que manda. João

caracteriza esta posição secundária e, por conseguinte, estabelece a duali

dade de entidades, quando diz: “E vimos a sua glória, tal como o Filho único

devia recebê-la do Pai”, visto que aquele que recebe não pode ser o que dá

e aquele que dá a glória não pode ser o igual daquele que a recebe. Se Jesus

é Deus, possui a glória por si mesmo e não a espera de ninguém; se Deus

e Jesus são um único ser sob dois nomes diferentes, entre Eles não poderia

existir supremacia, nem subordinação. Ora, não havendo paridade absolu

ta de posições, segue-se que são dois seres distintos.

A qualificação de Messias Divino não exprime que haja mais igualda

de entre o mandatário e o mandante do que a de enviado real entre um rei

e seu representante.

Jesus era um messias divino pelo duplo motivo de que de Deus é que

tinha a sua missão e de que suas perfeições o punham em relação direta

com Deus.

NOVE – O Filho de Deus e o Filho do homem

O título de Filho de Deus, longe de implicar igualdade, é, muito ao

contrário, indício de uma submissão. Ora, ninguém é submetido a si mes

mo, mas a alguém.

Para que Jesus fosse, em absoluto, igual a Deus, fora preciso que Ele

existisse, como Deus, de toda a eternidade, isto é, que fosse incriado. Ora,

o dogma diz que Deus o gerou desde toda a eternidade, mas quem diz gerou

diz criou. Fosse ou não desde toda a eternidade, Ele não deixa por isso de

ser uma criatura e de estar, como tal, subordinada ao seu Criador. É a ideia

que implicitamente se contém no termo Filho.

Nasceu Jesus no tempo? Ou, por outra: houve um tempo, na

eternidade passada, em que Ele não existia? ou é Ele coeterno com o

Pai? Tais as sutilezas sobre que disputaram durante séculos. Em que

autoridade se apoia a doutrina da coeternidade, que passou ao esta

do de dogma? Na opinião dos homens que a engendraram. Mas esses

homens em que autoridade fundaram semelhante opinião? Não foi na

de Jesus, pois que este se declara subordinado; não foi na dos profetas

que o anunciam como o enviado e o servo de Deus. Em que documen

tos desconhecidos, mais autênticos do que os Evangelhos, encontraram

eles tal doutrina? Parece que só na consciência e na superioridade de

suas próprias luzes.

Deixemos, pois, essas discussões vãs, que a nada conduzem e cuja

própria solução, fosse esta possível, não tornaria melhores os homens.

Digamos que Jesus é Filho de Deus, como todas as criaturas, que Ele cha

ma a Deus Pai, como nós aprendemos a tratá-lo de nosso Pai. É o Filho

bem-amado de Deus, porque, tendo alcançado a perfeição, que aproxima

de Deus a criatura, possui toda a confiança e toda a afeição de Deus. Ele

se diz Filho único, não porque seja o único ser que haja chegado à perfei

ção, mas porque era o único predestinado a desempenhar aquela missão

na Terra.

Se pode parecer que a qualificação de Filho de Deus apoia a doutrina

da divindade, o mesmo já não se dá com a de Filho do homem, que também

Jesus deu a si mesmo, em sua missão, e que constituiu objeto de muitos

comentários.

Para lhe compreendermos o verdadeiro sentido, temos que remon

tar à Bíblia, na qual a encontramos dada pelo próprio Deus ao profeta

Ezequiel.

Tal a imagem do Senhor, que me foi apresentada. Ao ver aquelas coisas, caí de

rosto em terra e ouvi uma voz que me falou assim: Filho do homem, tem-te de pé

e Eu falarei contigo. — E, tendo-me falado dessa maneira, o Espírito entrou em

mim e me firmou nos pés e ouvi que me falava, dizendo: Filho do homem, envio-te

aos filhos de Israel, a um povo apóstata, que se retirou de mim. Violaram até hoje,

eles e seus pais, a aliança que Eu com eles fizera (Ezequiel, 2:1 a 3).

Filho do homem, eis que eles te prepararam grilhões; acorrentar-te-ão e dali não

sairás (Ezequiel, 3:25).

O Senhor me dirigiu então a palavra, dizendo: — E tu, Filho do homem, ouve o

que diz o Senhor Deus à terra de Israel: o fim vem; vem esse fim nos quatro cantos

da terra (Ezequiel, 7:1 e 2).

No décimo dia do décimo mês do nono ano, o Senhor me dirigiu a palavra, di

zendo: — Filho do homem, marca bem este dia em que o rei de Babilônia reuniu

suas tropas diante de Jerusalém (Ezequiel, 24:1 e 2).

Disse-me ainda o Senhor estas palavras: — Filho do homem, vou ferir-vos

com uma chaga e tirar-vos o que há de mais agradável aos vossos olhos, mas

não me fareis lamentações fúnebres; não chorareis e lágrimas não vos correrão

pelas faces. — Gemereis em segredo e não vos enlutareis, como se faz pelos

mortos; a vossa coroa se conservará presa à vossa cabeça e tereis nos pés as

vossas sandálias; não cobrireis o vosso rosto e não comereis as viandas que se

dão aos que se acham de luto. — Falei então pela manhã ao povo e à tarde

minha mulher morreu. No dia seguinte, fiz o que Deus me ordenara (Ezequiel,

24:15 a 18).

O Senhor ainda me falou e disse: — Filho do homem, profetiza com referência aos

pastores de Israel; profetiza e dize aos pastores: Eis o que diz o Senhor Deus: Ai dos

pastores de Israel que se apascentam a si mesmos; os pastores não apascentam seus

rebanhos? (Ezequiel, 34:1 e 2).

Então, eu o ouvi que me falava, dentro da casa; e o homem que me estava próximo

disse: — Filho do homem, está aqui o lugar do meu trono, o lugar onde porei

meus pés e onde ficarei para sempre no meio dos filhos de Israel e a casa de Israel

não profanará mais o meu santo nome no futuro, nem eles, nem seus reis, com as

suas idolatrias, com os sepulcros de seus reis, nem com as nobres descendências

(Ezequiel, 43:6 e 7).

Porque Deus não ameaça como o homem e não entra em furor como o Filho do

Homem (Judite, 8:15).

É evidente que a qualificação de Filho do Homem quer aqui dizer: que

nasceu do homem, por oposição ao que está fora da Humanidade. A última

citação, tirada do livro de Judite, não permite dúvida quanto ao significado

da expressão, usada em sentido muito literal. Deus somente assim designa

a Ezequiel, certamente para lhe lembrar que, malgrado o dom de profecia

que lhe fora concedido, ele não deixava de pertencer à Humanidade e a fim

de que não se considerasse de natureza excepcional.

Jesus dá a si mesmo essa qualificação com persistência notável, pois

só em circunstâncias muito raras Ele se diz Filho de Deus. Em sua boca, não

pode ter ela outra significação, que não lembrar que também Ele pertence à

Humanidade, identificando-se desse modo aos profetas que o precederam

e aos quais se comparou, aludindo à sua morte, quando disse: Jerusalém,

que matas os profetas! A insistência com que Ele se designa por Filho do

homem parece um protesto antecipado contra a qualidade que, segundo

previa, lhe seria dada mais tarde, a fim de ficar bem determinado que essa

qualidade não saíra de seus lábios.

É de notar-se que, durante essa interminável polêmica que apai

xonou os homens por longa série de séculos e que ainda continua, que

acendeu fogueiras e fez correr rios de sangue, o que se discutia era uma

abstração, a natureza de Jesus, da qual se fizera a pedra angular do edifício,

embora deste não falassem e hajam olvidado uma coisa, a que o Cristo

disse ser toda a lei e os profetas: o amor de Deus e do próximo e a caridade,

que Ele estabeleceu como condição expressa da salvação. Aferraram-se à

questão da afinidade de Jesus com Deus e emudeceram com relação às

virtudes que Ele recomendou e exemplificou.

O próprio Deus ficou apagado, ante a exaltação da personalidade

do Cristo. No símbolo de Niceia, diz-se apenas: Cremos num só Deus

etc. Mas como é esse Deus? Nenhuma menção ali há dos seus atributos

essenciais: a soberana bondade e a soberana justiça. É que estas palavras

teriam sido a condenação dos dogmas que consagram a sua parcialidade

para com certas criaturas, a sua inexorabilidade, o seu ciúme, a sua cólera,

o seu espírito de vindita, e com que justificaram as crueldades cometidas

em seu nome.

Se o símbolo de Niceia, que se tornou o fundamento da fé católica,

estava conforme ao espírito do Cristo, por que o anátema com que ele

termina? Não está aí uma prova de que ele é obra da paixão dos homens?

A que se deve, aliás, a sua adoção? À pressão do imperador Constantino,

que dele fez uma questão mais política do que religiosa. Sem sua ordem,

o concílio de Niceia não se houvera realizado; sem a intimidação que ele

exerceu, é mais que provável que o Arianismo levasse a melhor. Tudo, pois,

dependeu da autoridade soberana de um homem, que não pertence à Igre

ja, que reconheceu, mais tarde, o erro político que cometera e que inutil

mente procurou voltar atrás, conciliando os partidos. Unicamente daquela

autoridade dependeu não haver arianos em vez de católicos e de não ser

hoje o Arianismo a ortodoxia e o Catolicismo a heresia.

Após dezoito séculos de lutas e disputas vãs, no curso das quais foi

posta inteiramente de lado a parte mais essencial do ensino do Cristo, a

única que podia garantir a paz para a Humanidade, toda gente se acha can

sada dessas discussões estéreis, que só a perturbações conduziram, gerando

a incredulidade, e cujo objeto já não satisfaz à razão.

A opinião geral manifesta hoje uma tendência acentuada a voltar às

ideias fundamentais da Igreja primitiva e à parte moral dos ensinamentos

do Cristo, por ser a única que pode tornar melhores os homens. Essa é

clara, positiva e não pode abrir ensejo a nenhuma controvérsia. Se, desde o

princípio, a Igreja houvesse tomado esse caminho, seria agora onipotente

em vez de estar em declínio. Houvera congregado a imensa maioria dos

homens, em lugar de ter sido esfacelada pelas facções.

Quando marcharem sob essa bandeira, os homens se darão as mãos

fraternalmente, em vez de se anatematizarem e amaldiçoarem, por ques

tões que quase nunca compreendem.

Aquela tendência da opinião é sinal de que chegou o momento de

ser levada a questão para o verdadeiro terreno.

Teoria da beleza

Será a beleza coisa convencional e relativa a cada tipo? O que, para

certos povos, constitui a beleza, não será, para outros, horrenda fealdade?

Os negros se consideram mais belos que os brancos e vice-versa. Nesse con

flito de gostos, haverá uma beleza absoluta? Em que consiste ela? Somos,

realmente, mais belos do que os hotentotes e os cafres? Por quê?

Esta questão que, à primeira vista, parece estranha ao objeto dos

nossos estudos, a eles, no entanto, se prende de modo direto e entende com

o futuro mesmo da Humanidade. Ela nos foi sugerida, assim como a sua

solução, pela seguinte passagem de um livro muito interessante e muito

instrutivo, intitulado: As revoluções inevitáveis no globo e na humanidade,

de Charles Richard.

O autor combate a opinião dos que sustentam a degenerescência fí

sica do homem, desde os tempos primitivos; refuta vitoriosamente a crença

na existência de uma primitiva raça de gigantes e empreende provar que,

do ponto de vista físico e do talhe, os homens de hoje valem os antigos, se

é que não os ultrapassam.

Tratando da beleza das formas, exprime-se ele assim, nas páginas 41

e seguintes:

Pelo que toca à beleza do rosto, à graça da fisionomia, ao conjunto que constitui a

estética do corpo, ainda é mais fácil de comprovar-se a melhoria operada.

Basta, para isso, que se lance um olhar sobre os tipos que as medalhas e as estátuas

antigas nos transmitiram intactas através dos séculos.

A iconografia de Visconti e o museu do conde de Clarol são, entre muitas outras,

duas fontes donde com facilidade se podem tirar variados elementos para este

interessante estudo.

O que mais solicita a atenção nesse conjunto de figuras é a rudeza dos traços, a

animalidade da expressão, a crueza do olhar. O observador sente, com involuntário

frêmito, que tem diante de si gente que o cortaria em pedaços, para dá-los de co

mer às suas moreias, como o fazia Polion, rico apreciador de boas iguarias, cidadão

de Roma e familiar de Augusto.

O primeiro Brutus (Lucius Junius), o que mandou cortar a cabeça a seus filhos

e assistiu a sangue-frio ao suplício de ambos, assemelha-se a uma fera. Seu perfil

sinistro tem da águia e do mocho o que esses dois carniceiros do ar apresentam de

mais feroz. Vendo-o, ninguém pode duvidar de que haja merecido a ignominiosa

honra que a História lhe conferiu. Assim como matou os dois filhos, também teria

estrangulado a própria mãe, pelo mesmo motivo.

O segundo Brutus (Marcus), que apunhalou César, seu pai adotivo, precisamente

na hora em que este mais contava com o seu reconhecimento e o seu amor, lem

bra, pelos traços, um asno fanático; não mostra, sequer, a beleza sinistra que o

artista descobre muitas vezes, essa energia extremada que impele ao crime.

Cícero, o orador brilhante, escritor espiritual e profundo, que deixou tão grande

recordação da sua passagem por este mundo, tem um rosto acachapado e vulgar,

que certamente tornava muito menos agradável vê-lo, do que ouvi-lo.

Júlio César, o grande, o incomparável vencedor, o herói dos massacres, que deu

entrada no reino das sombras com um cortejo de dois milhões de almas por ele

previamente despachadas para lá, era tão feio como o seu predecessor, mas de

outro gênero. Seu rosto magro e ossudo, posto sobre um pescoço comprido e en

feado por um gogó saliente, parecia-se mais com um grande Gilles13 do que com

um grande guerreiro.

Galba, Vespasiano, Nerva, Caracala, Alexandre Severo, Balbino, não eram apenas

feios, mas horrendos. É com dificuldade que, nesse museu dos antigos tipos da

nossa espécie, o observador logra descobrir, aqui ou ali, algumas figuras que pos

sam merecer um olhar de simpatia.

As de Cipião, o Africano, de Pompeu, de Cômodo, de Heliogábalo, de Antinous,

o pequeno de Adriano, são desse reduzido número. Sem serem belos, no sentido

moderno da palavra, essas figuras são, entretanto, regulares e de agradável aspecto.

As mulheres não são melhor tratadas do que os homens e dão ensejo às mesmas

notas. Lívia, filha de Augusto, tem o perfil pontudo de uma fuinha; Agripina faz

medo e Messalina, como que para desconcertar a Cabanis e Lavater, parece uma

gordanchuda serviçal, mais amante de sopas suculentas do que de outra coisa.

Os gregos, é preciso dizê-lo, são, em geral, menos mal talhados que os romanos. As

figuras de Temístocles e de Milcíades, entre outros, podem comparar-se aos mais

belos tipos modernos. Mas Alcibíades, o avô longínquo dos nossos Richelieu e dos

nossos Lauzun, cujas façanhas galantes, por si sós, enchem a crônica de Atenas,

tinha, como Messalina, muito pouco do físico que corresponderia às suas ativida

des. Ao ver-lhe os traços solenes e a fronte grave, quem quer que seja o tomaria

antes por um jurisconsulto agarrado a um texto de lei do que pelo audacioso con

quistador, que foi, de mulheres, que se fazia exilar em Esparta, unicamente para

enganar o pobre rei Ágis e, depois, vangloriar-se de ter sido amante de uma rainha.

Sem embargo da pequena vantagem que, quanto a esse ponto, se possa conceder

aos gregos sobre os romanos, quem se der ao trabalho de comparar esses velhos

tipos com os do nosso tempo, reconhecerá sem esforço que nesse sentido, como

em todos os outros, houve progresso. Apenas, convém não esquecer, nessa compa

ração, que aqui se trata de classes privilegiadas, sempre mais belas do que as outras

e que, por conseguinte, os tipos modernos que se hajam de contrapor aos antigos

deverão ser escolhidos nos salões, e não nas pocilgas. É que a pobreza, ah! em todos

os tempos e sob todos os aspectos, jamais foi bela e não o é, precisamente, para nos

envergonhar e forçar-nos a um dia nos libertarmos dela.

Não quero, pois, dizer, longe disso, que a fealdade haja desaparecido inteiramente

das nossas frontes e que a marca divina se acha afinal posta em todas as máscaras

que velam uma alma. Longe de mim avançar uma afirmação que muito facilmente

poderia ser contestada por toda gente. A minha pretensão se limita a verificar que,

num período de dois mil anos, coisa tão pouca para uma Humanidade que tanto tem

de viver, a fisionomia da espécie melhorou de maneira já sensível.

Creio, além disso, que as mais belas figuras da Antiguidade são inferiores às que

podemos diariamente admirar em nossas reuniões públicas, em nossas festas e até

no trânsito das ruas. Se não fosse o receio de ofender certas modéstias e também o

de excitar certos ciúmes, confirmaria a evidência do fato com algumas centenas de

exemplos conhecidos de todos, no mundo contemporâneo.

Os oradores do passado enchem constantemente a boca com a famosa Vênus de

Médici, que lhes parece o ideal da beleza feminina, sem se aperceberem de que

essa mesma Vênus passeia todos os domingos pelas avenidas d’Arles, em mais de

cinquenta exemplares, e poucas serão as nossas cidades, sobretudo do Sul, que não

possuam algumas...

...Em tudo o que vimos de dizer, limitamo-nos a comparar o nosso tipo atual com

o dos povos que nos precederam de apenas alguns milhares de anos. Se, porém,

remontarmos mais longe através das idades, penetrando nas camadas terrestres

onde dormem os despojos das primeiras raças que habitaram o nosso globo, a

vantagem a nosso favor se tornará de tal modo sensível que qualquer negação a

esse propósito se desvanecerá por si mesma.

Sob aquela influência teológica que deteve Copérnico e Tycho Brahe, que per

seguiu Galileu e que, nestes tempos mais próximos, obscureceu por um instante

o gênio do próprio Cuvier, a Ciência hesitava em sondar os mistérios das épocas

antediluvianas. A narrativa bíblica, admitida ao pé da letra, no mais estreito sen

tido, parecia haver dito a última palavra acerca da nossa origem e dos séculos que

nos separam dela. Mas a verdade, impiedosa nos seus acrescentamentos, acabou

rompendo a veste de ferro em que a queriam aprisionar para sempre e pondo a nu

formas até então ocultas.

O homem que vivia, antes do dilúvio, em companhia dos mastodontes, do urso das

cavernas e de outros grandes mamíferos hoje desaparecidos, o homem fóssil, numa

palavra, por tão longo tempo negado, foi encontrado afinal, ficando fora de dúvida

a sua existência. Os recentes trabalhos dos geólogos, particularmente os de Boucher

de Perthes,14 de Filippi e de Lyell, permitem se apreciem os caracteres físicos desse ve

nerável avô do gênero humano. Ora, a despeito dos contos imaginados pelos poetas,

sobre a beleza originária; malgrado o respeito que lhe é devido, como chefe antigo da

nossa raça, a Ciência é obrigada a atestar que ele era de prodigiosa fealdade.

Seu ângulo facial não passava de 70o; suas mandíbulas, de considerável volume,

eram armadas de dentes longos e salientes; tinha fugidia a fronte e as têmporas

achatadas, o nariz esborrachado, largas as narinas. Em resumo, esse venerável pai

devia assemelhar-se bem mais a um orangotango do que aos seus afastados filhos

de hoje; a tal ponto que, se não lhe houvessem achado ao lado as achas de sílex que

fabricara e, em alguns casos, animais que ainda apresentavam traços das feridas

causadas por essas armas informes, fora de duvidar-se do papel que ele desempe

nhava na nossa filiação terrestre. Não somente sabia fabricar achas de sílex, como

também clavas e pontas de dardos, da mesma matéria.

A galantaria antediluviana chegava mesmo a confeccionar braceletes e colares de

pedrinhas arredondadas para adorno, naqueles tempos longínquos, dos braços e

pescoços do sexo encantador, que depois se tornou muito mais exigente, como

todos podem testemunhar.

Não sei o que a respeito pensarão as elegantes dos nossos dias, cujas espáduas cin

tilam de diamantes; quanto a mim, confesso-o, não me posso forrar a uma emoção

profunda, ao pensar nesse primeiro esforço que o homem, mal diferenciado do

bruto, fez para agradar à sua companheira, pobre e nua como ele, no seio de uma

Natureza inóspita, sobre a qual a sua raça há de reinar um dia. Ó distanciados

avós! Se já sabíeis amar, com as vossas faces rudimentares, como poderíamos nós

duvidar da vossa paternidade, ante esse sinal divino da nossa espécie?

É, pois, manifesto que aqueles humanos informes são nossos pais, uma vez que

nos deixaram traços da sua inteligência e do seu amor, atributos essenciais que nos

separam da besta. Podemos, então, examinando-os atentamente, despojados das

aluviões que os cobrem, medir, como a compasso, o progresso físico que a nossa

espécie realizou, desde o seu aparecimento na Terra. Ora, esse progresso, que, faz

pouco, podia ser contestado pelo espírito de sistema e pelos prejuízos de educação,

assume tal evidência que não há mais como deixar de o reconhecer e proclamar.

Alguns milhares de anos podiam permitir dúvidas, algumas centenas de séculos as

dissipam irrevogavelmente...

...Quão jovens e recentes somos em todas as coisas! Ainda ignoramos o nosso lugar

e o nosso caminho na imensidade do Universo e ousamos negar progressos que, por

falta de tempo, ainda não puderam ser reconhecidos. Crianças que somos, tenha

mos um pouco de paciência e os séculos, aproximando-nos da meta, nos revelarão

esplendores que, no seu afastamento, escapam aos nossos olhos apenas entreabertos.

Mas, desde já, proclamemos em altas vozes, pois que a Ciência no-lo permite,

o fato capital e consolador do progresso lento, mas seguro, do nosso tipo físico,

rumo a esse ideal que os grandes artistas entreviram, graças às inspirações que o

Céu lhes envia, revelando-lhes seus segredos. O ideal não é produto ilusório da

imaginação, um sonho fugitivo destinado a dar, de tempos a tempos, compensa

ção às nossas misérias. É um fim assinado por Deus aos nossos aperfeiçoamentos,

fim infinito, porque só o infinito, em todos os casos, pode satisfazer ao nosso

espírito e oferecer-lhe uma carreira digna dele.

Destas judiciosas observações, resulta que a forma dos corpos se mo

dificou em sentido determinado e segundo uma lei, à medida que o ser

moral se desenvolveu; que a forma exterior está em relação constante com

o instinto e os apetites do ser moral; que, quanto mais seus instintos se

aproximam da animalidade, tanto mais a forma igualmente dela se apro

xima; enfim, que, à medida que os instintos materiais se depuram e dão

lugar a sentimentos morais, o envoltório material, que já não se destina à

satisfação de necessidades grosseiras, toma formas cada vez menos pesadas,

mais delicadas, de harmonia com a elevação e a delicadeza das ideias. A

perfeição da forma é, assim, consequência da perfeição do Espírito: donde

se pode concluir que o ideal da forma há de ser a que revestem os Espíritos

em estado de pureza, a com que sonham os poetas e os verdadeiros artistas,

porque penetram, pelo pensamento, nos mundos superiores.

Diz-se, de há muito, que o semblante é o espelho da alma. Esta ver

dade, que se tornou axioma, explica o fato vulgar de desaparecerem certas

fealdades sob o reflexo das qualidades morais do Espírito e o de, muito

amiúde, se preferir uma pessoa feia, dotada de eminentes qualidades, a

outra que apenas possui a beleza plástica. É que semelhante fealdade con

siste unicamente em irregularidades de forma, mas sem excluir a finura dos

traços, necessária à expressão dos sentimentos delicados.

Do que precede se pode concluir que a beleza real consiste na forma

que mais afastada se apresenta da animalidade e que melhor reflete a supe

rioridade intelectual e moral do Espírito, que é o ser principal. Influindo

o moral, como influi, sobre o físico, que ele apropria às suas necessidades

físicas e morais, segue-se: 1o) que o tipo da beleza consiste na forma mais

própria à expressão das mais altas qualidades morais e intelectuais; 2o) que,

à medida que o homem se elevar moralmente, seu envoltório se irá avizi

nhando do ideal da beleza, que é a beleza angélica.

O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um

gato, mas não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros,

seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir

as paixões violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados

matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito fino.15

Daí o podermos, sem fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que

os negros e os hotentotes. Mas também pode ser que, para as gerações

futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com relação a nós. E

quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, elas não os tomarão

pelos de alguma espécie de animais.

Lido que foi na Sociedade de Paris, este artigo se tornou obje

to de grande número de comunicações, apresentando todas as mesmas

conclusões. Transcreveremos apenas as duas seguintes, por serem as mais

desenvolvidas:

Paris, 4 de fevereiro de 1869.

(Médium: Sra. Malet)

Ponderastes com acerto que a fonte primária de toda bondade e de toda inte

ligência é também a fonte de toda beleza. — O amor gera a beleza de todas as

coisas, sendo, ele próprio, a perfeição. — O Espírito tem por dever adquirir essa

perfeição, que é a sua essência e o seu destino. Ele tem que se aproximar, por seu

trabalho, da inteligência soberana e da bondade infinita; tem, pois, também que

revestir a forma cada vez mais perfeita, que caracteriza os seres perfeitos.

Se, nas vossas sociedades infelizes, no vosso globo ainda mal equilibrado, a espé

cie humana está tão longe dessa beleza física, é porque a beleza moral ainda está

em começo de desenvolvimento. A conexão entre essas duas belezas é fato certo,

lógico e do qual já neste mundo a alma tem a intuição. Com efeito, sabeis todos

quão penoso é o aspecto de uma encantadora fisionomia, cujo encanto, porém, o

caráter desmente. Se ouvis falar de uma pessoa de mérito comprovado, logo lhe

atribuis os mais simpáticos traços e ficais dolorosamente impressionados, quando

verificais que a realidade desmente as vossas previsões.

Que concluir daí, senão que, como todas as coisas que o futuro guarda de reserva,

a alma tem a presciência da beleza, à medida que a Humanidade progride e se

que tem como base a igualdade entre os homens, pois que todos somos Espíritos em busca de evolu

ção, as raças seriam apenas “roupagens” que vestimos durante determinada encarnação.

aproxima do seu tipo divino. Não busqueis tirar, da aparente decadência em que

se acha a raça mais adiantada deste globo, argumentos contrários a essa afirmação.

Sim, é verdade que a espécie parece degenerar, abastardar-se; sobre vós se abatem

as enfermidades antes da velhice; mesmo a infância sofre as moléstias que habitual

mente só se manifestam noutra idade da vida. É isso, no entanto, simples transição.

A vossa época é má; ela acaba e gera: acaba um período doloroso e gera uma época

de regeneração física, de adiantamento moral, de progresso intelectual. A nova raça,

de que já falei, terá mais faculdades, mais recursos para os serviços do espírito; será

maior, mais forte, mais bela. Desde o princípio, pôr-se-á de harmonia com as ri

quezas da Criação que a vossa raça, descuidosa e fatigada, desdenha ou ignora. Ter--lhe-eis feito grandes coisas, das quais ela aproveitará, avançando pela estrada das

descobertas e dos aperfeiçoamentos, com um ardor febril cujo poder desconheceis.

Mais adiantados também em bondade, os vossos descendentes farão desta infeliz

terra o que não haveis sabido fazer: um mundo ditoso, onde o pobre não será repe

lido, nem desprezado, mas socorrido por vastas e liberais instituições. Já desponta

a aurora dessas ideias; chega-nos, por momentos, a claridade delas.

Amigos, eis afinal o dia em que a luz brilhará na Terra obscura e miserável, em

que a raça será boa e bela, de acordo com o grau de adiantamento que haja al

cançado, em que o sinal posto na fronte do homem já não será o da reprovação,

mas um sinal de alegria e de esperança. Então, os Espíritos adiantados virão, em

multidões, tomar lugar entre os colonos deste globo; estarão em maioria e tudo

lhes cederá ao passo. Far-se-á a renovação e a face do globo será mudada, por

quanto essa raça será grande e poderosa e o momento em que ela vier assinalará

o começo dos tempos venturosos.

pamphile

Paris, 4 de fevereiro de 1869.

A beleza, do ponto de vista puramente humano, é uma questão muito discutível e

muito discutida. Para a apreciarmos bem, precisamos estudá-la como amador de

sinteressado. Aquele que estiver sob o encantamento não pode ter voz no capítulo.

Também entra em linha de conta o gosto de cada um, nas apreciações que se fazem.

Belo, realmente belo só é o que o é sempre e para todos; e essa beleza eterna,

infinita, é a manifestação divina em seus aspectos incessantemente variados; é

Deus em suas obras e nas suas leis! Eis aí a única beleza absoluta. É a harmonia

das harmonias e tem direito ao título de absoluta, porque nada de mais belo se

pode conceber.

Quanto ao que se convencionou chamar belo e que é verdadeiramente digno desse

título, não deve ser considerado senão como coisa essencialmente relativa, por

quanto sempre se pode conceber alguma coisa mais bela, mais perfeita. Somente

uma beleza existe e uma única perfeição: Deus. Fora dele, tudo o que adornarmos

com esses atributos não passa de pálido reflexo do belo único, de um aspecto har

monioso das mil e uma harmonias da Criação.

Há tantas harmonias, quantos objetos criados, quantas belezas típicas, por conse

guinte, determinando o ponto culminante da perfeição que qualquer das subdi

visões do elemento animado pode alcançar. — A pedra é bela e bela de modos

diversos. — Cada espécie mineral tem suas harmonias e o elemento que reúne todas

as harmonias da espécie possui a maior soma de beleza que a espécie possa alcançar.

A flor tem suas harmonias; também ela pode possuí-las todas ou insuladamente e

ser diferentemente bela, mas somente será bela quando as harmonias que concor

rem para a sua criação se acharem harmonicamente fusionadas. — Dois tipos de

beleza podem produzir, por fusão, um ser híbrido, informe, de aspecto repulsivo.

— Há então cacofonia! Todas as vibrações, insuladamente, eram harmônicas, mas

a diferença de tonalidade entre elas produziu um desacordo, ao encontrarem-se as

ondas vibrantes; daí o monstro!

Descendo a escala criada, cada tipo animal dá lugar às mesmas observações e a fero

cidade, a manha, até a inveja poderão dar origem a belezas especiais, se estiver sem

mistura o princípio que determina a forma. A harmonia, mesmo no mal, produz

o belo. Há o belo satânico e o belo angélico; a beleza enérgica e a beleza resignada.

Cada sentimento, cada feixe de sentimentos, contanto que seja harmônico, produz um

particular tipo de beleza, cujos aspectos humanos são todos, não degenerescências, mas

esboços. É, pois, certo dizermos, não que somos mais belos, porém que nos aproxima

mos cada vez mais da beleza real, à medida que nos elevamos para a perfeição.

Todos os tipos se unem harmonicamente no perfeito. Daí o ser este o belo abso

luto. — Nós que progredimos possuímos apenas uma beleza relativa, debilitada e

combatida pelos elementos desarmônicos da nossa natureza.

lavateR

A música celeste

Certo dia, numa reunião familiar, o chefe da família lera uma pas

sagem de O livro dos espíritos concernente à música celeste. Uma de suas

filhas, boa musicista, pôs-se a dizer consigo mesma: Mas não há música

no Mundo Invisível! Parecia-lhe isso impossível; entretanto, não externou

seu pensamento. Na noite do mesmo dia, escreveu ela espontaneamente a

comunicação seguinte:

Esta manhã, minha filha, teu pai te leu uma passagem de O livro dos espíritos. Trata

va-se de música e tu aprendeste que a do Céu é muito mais bela do que a da Terra.

Os Espíritos acham-na muito superior à vossa. Tudo isto é verdade; no entanto, di

zias intimamente: Como poderia Bellini vir dar-me conselhos e ouvir a minha mú

sica? Foi provavelmente algum Espírito leviano e farsista (Alusão aos conselhos que

o Espírito Bellini às vezes lhe dava sobre música). Enganas-te, minha filha. Quando

os Espíritos tomam sob a sua proteção um encarnado, o objetivo que colimam é

fazê-lo adiantar-se.

Assim, Bellini já não acha bela a sua música, porque não a pode comparar à do Es

paço, mas, vendo a tua aplicação e o teu amor a essa arte, se te dá conselhos, é por

sincera satisfação. Ele deseja que o teu professor seja recompensado de todo o seu es

forço. Achando suas composições muito infantis, em face das sublimes harmonias do

Mundo Invisível, ele aprecia o teu talento, que se pode qualificar de grande aí nesse

mundo. Acredita, minha filha, os sons dos vossos instrumentos, as vossas mais belas

vozes não poderiam dar-vos a menor ideia da música celeste e da sua suave harmonia.

Passados alguns instantes, disse a moça: “Papai, papai, vou ador

mecer, vou cair”. Logo se lançou numa poltrona, exclamando: “Ó papai,

papai, que música deliciosa!... Desperta-me, senão eu me vou”.

Não sabendo os assistentes, aterrorizados, como fazer para despertá--la, disse ela: “Água, água”.

Com efeito, algumas gotas que lhe salpicaram no rosto deram pron

to resultado. Atordoada a princípio, voltou lentamente a si, sem a mínima

consciência do que se passara.

Ainda na mesma noite, achando-se só, o pai da donzela recebeu do

Espírito São Luís a explicação seguinte:

Quando lias à tua filha a passagem de O livro dos espíritos referente à música ce

leste, ela se conservava em dúvida; não compreendia que no Mundo Espiritual

pudesse haver música. Eis por que depois eu lhe disse que era verdade. Não tendo

a minha afirmativa podido persuadi-la, Deus permitiu que, para convencer-se, ela

caísse em sono sonambúlico. Então, desprendendo-se do corpo adormecido, seu

Espírito se lançou pelo Espaço e foi admitido nas regiões etéreas, onde ficou em

êxtase produzido pela impressão da harmonia celeste. Por isso foi que exclamou:

‘Que música! que música!’ Sentindo-se, porém, transportada a regiões cada vez

mais elevadas do Mundo Espiritual, pediu que a despertassem, indicando o meio

de o conseguirem: com água.

Tudo se faz pela vontade de Deus. O Espírito de tua filha não mais duvidará.

Embora, despertado, não guarde lembrança nítida do que se passou, seu Espírito

sabe agora onde está a verdade.

Agradecei a Deus os favores de que cumula esta criança. Agradecei-lhe o dignar-se

fazer-vos conhecer cada vez mais a sua onipotência e a sua bondade. Que suas

bênçãos se derramem sobre vós e sobre este médium, ditoso entre mil!”

Nota – Perguntar-se-á talvez que convicção pode ter resultado para aquela moça

do que lhe foi dado ouvir, uma vez que de nada se lembra. Se, no estado de vigília,

os pormenores se lhe apagaram da memória, seu Espírito se recorda. Ficou-lhe uma

intuição, bastante para lhe modificar as ideias. Em vez de fazer-lhes oposição, ela

aceitará sem dificuldade as explicações que lhe foram dadas, porque as compreen

derá e intuitivamente as reconhecerá de acordo com o seu sentimento íntimo.

O que se passou neste fato isolado, pelo espaço de alguns minutos, durante a breve

excursão que o Espírito da moça realizou pelo Mundo Espiritual, é análogo ao

que se dá no intervalo de uma existência a outra, quando o Espírito que encarna

possui luzes sobre um assunto qualquer. Ele se apropria sem dificuldade de todas

as ideias referentes a esse assunto, se bem que, como homem, não se recorde da

maneira por que as adquiriu. Ao contrário, as ideias, para cuja assimilação ainda

não se acha maduro, dificilmente lhe entram no cérebro.

Assim se explica a facilidade com que certas pessoas assimilam as ideias espíritas.

Em tais pessoas, essas ideias nada mais fazem que despertar as que já elas pos

suíam. As criaturas a que nos referimos são espíritas de nascença, como outros são

poetas, músicos ou matemáticos. Logo às primeiras palavras, compreendem e não

necessitam de fatos materiais para se convencerem. É, não há duvidar, um sinal de

adiantamento moral e de desenvolvimento espiritual.

Na comunicação acima se lê: “Agradecei a Deus os favores de que cumula esta

criança; que suas bênçãos desçam sobre este médium, ditoso entre mil”. Poder--se-ia supor que estas palavras indicam a concessão de um favor, uma preferência,

um privilégio, quando o Espiritismo ensina que, sendo Deus soberanamente jus

to, nenhuma de suas criaturas é privilegiada e que Ele não facilita o caminho mais

a uns do que a outros. Sem nenhuma dúvida a mesma senda está aberta a todos,

mas nem todos a percorrem com a mesma rapidez e com o mesmo resultado;

nem todos aproveitam igualmente das instruções que recebem. O Espírito da

moça em questão, embora jovem como encarnado, já com certeza muito vivera

e progredira bastante.

Os bons Espíritos, achando-a dócil aos seus ensinamentos, se comprazem em ins

truí-la, como faz o professor ao aluno em quem descobre boas disposições. É nesse

sentido que o médium é ditoso entre muitos outros que, para seu adiantamento

moral, nenhum fruto colhem da mediunidade de que são dotados. Não há, pois,

neste caso, nem favor, nem privilégio; unicamente uma recompensa. Se o seu

Espírito deixasse de ser digno dela, dentro em pouco teria afastado de si seus bons

guias e se veria cercado de uma multidão de Espíritos maus.

Música espírita

“Recentemente, na sede da Sociedade Espírita de Paris, o presidente me deu a

honra de pedir a minha opinião sobre o estado atual da música e sobre as modi

ficações que lhe poderiam advir por influência das crenças espíritas. Se de pronto

não cedi a esse apelo benévolo e simpático, foi, crede-o, meus senhores, por uma

causa de ordem superior.

Os músicos são homens como os outros, mais homens, talvez, e, nessas condi

ções, falíveis e sujeitos a pecar. Nunca estive isento de fraquezas e, se Deus me fez

longa a vida, a fim de que eu tivesse tempo de me arrepender, a embriaguez do

êxito, a complacência dos amigos e as lisonjas dos cortejadores muitas vezes me

tiraram o meio de efetivar esse arrependimento. Um maestro é uma potência neste

mundo, onde o prazer desempenha tão importante papel. Àquele cuja arte con

siste em deleitar os ouvidos e enternecer os corações muitas ciladas se lhe armam

diante dos passos, nas quais cai o infeliz. Ele se inebria da ebriez dos outros; os

aplausos lhe tapam as ouças e ei-lo a caminhar direto para o abismo, sem procurar

um ponto de apoio para resistir ao arrastamento.

Entretanto, sem embargo dos meus erros, eu depositava fé em Deus; eu cria na

alma que vibrava em mim e, libertando-se da gaiola sonora, ela presto se reco

nheceu em meio das harmonias da Criação e confundiu sua prece com as que se

elevam da Natureza ao Infinito, da Criação ao Ser incriado!...

Sou feliz pelo sentimento que a minha vinda ao seio dos espíritas provocou,

porque foi a simpatia que o determinou, e, se a princípio só a curiosidade me

atraiu, é ao meu reconhecimento que devereis a explanação do tema que me

propuseram.

Eu ali estava, pronto a falar, supondo tudo saber, quando, abatido o meu orgulho,

a minha ignorância se me patenteou. Fiquei mudo e a escutar. Voltei, instruí-me e,

quando às palavras de verdade, ditas pelos vossos mentores, se juntaram a reflexão

e a meditação, disse eu de mim para comigo:

O grande maestro Rossini, o criador de tantas obras-primas segundo os homens,

nada mais fez, ah! do que debulhar algumas das pérolas menos perfeitas do escrí

nio musical criado pelo Mestre dos mestres. Rossini reuniu notas, compôs melo

dias, bebeu da taça que contém todas as harmonias, roubou algumas centelhas

ao fogo sagrado, mas esse fogo sagrado nem ele, nem outros o criaram! — Nada

inventamos: copiamos do grande livro da Natureza e a multidão aplaude, quando

não apresentamos por demais deformada a partitura.

Uma dissertação sobre a música celeste! Quem poderia de tal coisa encarregar-se?

Que Espírito sobre-humano poderia fazer vibrar a matéria em uníssono com essa

arte encantadora? Que cérebro humano, que Espírito encarnado poderia apanhar--lhe os matizes infinitamente variados? Quem possui a esse ponto o sentimento

da harmonia?... Não, o homem não está feito em tais condições!... Mais tarde!...

muito mais tarde!...

Por agora, virei, talvez dentro em pouco, satisfazer ao vosso desejo e dar-vos a

minha apreciação sobre o estado atual da música e dizer-vos das transformações,

dos progressos que o Espiritismo poderá fazer que ela experimente. — Hoje, é

ainda muitíssimo cedo. O assunto é vasto, já o estudei, mas ele ainda me excede.

Quando dele me houver assenhoreado, se isso for possível, ou, melhor, quando eu

haja entrevisto tanto quanto o estado de meu espírito me permitir, eu vos satis

farei. Um pouco mais de tempo. Se somente um músico pode falar da música do

futuro, deve fazê-lo como mestre e Rossini não quer falar dela como um escolar.

RossiNi – Médium: Desliens

“Foi explicado o silêncio que guardei sobre a questão que o Mestre da Doutrina

Espírita me propôs. Era conveniente que, antes de entrar em tão difícil assunto, eu

me concentrasse, reunisse as minhas lembranças e condensasse os elementos que

me estavam ao alcance. Não me cabia estudar a música, tinha apenas de classificar

com método os argumentos, a fim de apresentar um resumo capaz de dar ideia da

minha concepção da harmonia. Esse trabalho, que não fiz sem dificuldade, se acha

concluído e estou pronto a submetê-lo à apreciação dos espíritas.

A harmonia é difícil de definir-se; muitas vezes, confundem-na com a música,

com os sons, como resultante de um arranjo de notas e das vibrações dos instru

mentos que reproduzem esse arranjo. Mas não é isso a harmonia, do mesmo modo

que a chama não é a luz. A chama resulta da combinação de dois gases: é tangível;

a luz que ela projeta é um efeito dessa combinação, e não a própria chama: não

é tangível. Aqui, o efeito é superior à causa. O mesmo se dá com a harmonia; ela

resulta de um arranjo musical, é um efeito igualmente superior à causa. Esta é

brutal e tangível; o efeito é sutil e intangível.

Pode-se conceber a luz sem chama e compreender a harmonia sem música. A alma

é apta a perceber a harmonia, excluído todo o concurso de instrumentação, como

é apta a ver a luz sem o concurso de combinações materiais. A luz é um sentido

íntimo que a alma possui: quanto mais desenvolvido ele, tanto melhor percebe

ela a luz. A harmonia é igualmente um sentido íntimo da alma, que a percebe em

relação com o desenvolvimento desse sentido. Fora do mundo material, isto é, fora

das causas tangíveis, a luz e a harmonia são de essência divina. A posse de uma e

outra está na razão dos esforços empregados para adquiri-las. Se comparo a luz e

a harmonia, é para me fazer mais bem compreendido e também porque esses dois

sublimes gozos da alma são filhos de Deus e, portanto, irmãos.

É tão complexa a harmonia do Espaço, tem tantos graus que eu conheço e muitos

outros mais que se me conservam ocultos no éter infinito, que aquele que se acha

colocado a certa altura de percepções é como que tomado de espanto ao contemplar

essas diversas harmonias, que constituiriam, se reunidas, a mais insuportável caco

fonia; enquanto, ao contrário, percebidas separadamente, constituem a harmonia

particular a cada grau. Nos graus inferiores, essas harmonias são elementares e gros

seiras; levam ao êxtase, nos graus superiores. Tal harmonia, que choca um Espírito

de percepções sutis, encanta um outro de percepções grosseiras e, quando é dado

ao Espírito inferior deleitar-se com os encantos das harmonias superiores, o êxtase

o arrebata e a prece lhe penetra o íntimo. O encantamento o transporta às elevadas

esferas do mundo moral; ele entra a viver uma vida superior à sua e assim desejara

continuar a viver para sempre. Mas desde que a harmonia deixe de penetrá-lo, ele

desperta, ou, se o preferirem, adormece. Em todo caso, volta à realidade da sua situa

ção e, dos lamentos que lhe escapam por haver descido, se exala uma prece ao Eter

no, a pedir-lhe forças para de novo subir. Aí tem ele um grande motivo de emulação.

Não tentarei explicar os efeitos musicais que o Espírito produz atuando sobre

o éter; o que é certo é que o Espírito produz os sons que queira e que não pode

querer o que não sabe. Assim, pois, aquele que compreende muito, que tem em

si a harmonia, que se acha dela saturado, que goza do seu sentido íntimo, desse

nada impalpável, dessa abstração que é a concepção da harmonia, atua quando

quer sobre o fluido universal que, instrumento fiel, reproduz o que ele concebe

e deseja. O éter vibra sob a ação da vontade do Espírito; a harmonia, que este

último traz em si, concretiza-se, por assim dizer; evola-se, doce e suave, como o

perfume da violeta, ou ruge como a tempestade, ou estala como o raio, ou solta

queixumes como a brisa. É rápida qual relâmpago, ou lenta como a neblina; tem

os despedaçamentos de um soluço, ou é contínua como a relva; é precipitada qual

catarata, ou calma como um lago; murmura como um regato, ou ronca como uma

torrente. Ora apresenta a rudeza agreste das montanhas, ora a frescura de um oá

sis; é alternativamente triste e melancólica como a noite, leda e jovial como o dia;

caprichosa como a criança, consoladora como uma mãe e protetora como um pai;

desordenada como a paixão, límpida como o amor e grandiosa como a Natureza.

Quando chega a este último terreno, confunde-se com a prece, glorifica a Deus e

leva ao arroubamento aquele mesmo que a produz, ou a concebe.

Oh! comparação! comparação! Por que havemos de ser obrigados a servir-nos de ti! Por

que havemos de dobrar-nos à necessidade degradante de buscar, de tomar de emprés

timo à natureza tangível imagens grosseiras, para fazermos compreensível a sublime

harmonia em que o Espírito se deleita! E, a despeito das comparações, não se consegue

dar ideia dessa abstração, sentimento quando causa, sensação quando se torna efeito.

O Espírito que tem o sentimento da harmonia é como o Espírito que tem a ri

queza intelectual: um e outro gozam constantemente da propriedade inalienável

que granjearam. O Espírito inteligente, que ensina a sua ciência aos que ignoram,

experimenta a ventura de ensinar, porque sabe que torna felizes aqueles a quem

instrui; o Espírito que faz ressoar no éter os acordes da harmonia que traz em si

experimenta a felicidade de ver satisfeitos os que o escutam.

A harmonia, a ciência e a virtude são as três grandes concepções do Espírito: a

primeira o arrebata, a segunda o esclarece, a terceira o eleva. Possuídas em toda a

plenitude, elas se confundem e constituem a pureza. Ó Espíritos puros que as pos

suís! descei às nossas trevas e iluminai a nossa caminhada. Mostrai-nos a estrada

que tomastes, a fim de que sigamos as vossas pegadas!

Quando penso que esses Espíritos, cuja existência mal posso compreender, são seres

finitos, átomos, em face do eterno Senhor do Universo, a minha razão se confunde

ao cogitar da grandeza de Deus e da bem-aventurança infinita, de que ele goza em si

mesmo, pelo só fato de ser infinita a sua pureza, pois que tudo o que a criatura ad

quire não é mais que uma parcela do que emana do Criador. Ora, se a parcela chega

a fascinar pela vontade, a cativar e a deslumbrar pela suavidade, a resplandecer pela

virtude, que não produzirá a fonte eterna e infinita donde provém a criatura? Se o

Espírito, ser criado, chega a extrair da sua pureza tanta felicidade, que ideia se há de

ter da que o Criador tira da sua pureza absoluta? Problema eterno!

O compositor que concebe a harmonia a traduz na grosseira linguagem chamada

música; concreta a sua ideia e a escreve. O artista aprende a forma e escolhe o

instrumento que lhe permita exprimir a ideia. Acionado pelo instrumento, o ar a

transporta ao ouvido do ouvinte e o ouvido a transmite à alma. Mas o compositor

foi impotente para expressar inteiramente a harmonia que concebera, por falta de

uma língua apropriada. O executante, a seu turno, não compreendeu toda a ideia

escrita e o instrumento indócil de que ele se serve não lhe permite traduzir tudo o

que haja compreendido. O ouvido é afetado pelo ar grosseiro que o cerca e a alma,

enfim, recebe, por um órgão rebelde, a horrível tradução da ideia desabrochada

na alma do maestro. Essa ideia era o seu sentimento íntimo. Embora desvirtuada

pelos agentes da instrumentação e da percepção, ela sempre causa sensações nos

que a ouvem traduzida; essas sensações são a harmonia.

A música as produziu; elas são efeito da música. Esta é posta a serviço do senti

mento para ocasionar a sensação. O sentimento, na composição, é a harmonia; a

sensação, no ouvinte, é também a harmonia, com a diferença de que é concebida

por um e recebida pelo outro. A música é o médium da harmonia; ela a recebe

e a dá, como o refletor é o médium da luz, como tu és o médium dos Espíritos.

Transmite-a mais ou menos deformada, conforme seja bem ou mal executada, do

mesmo modo que o refletor envia mais ou menos bem a luz, conforme seja mais

ou menos brilhante e polido, do mesmo modo que o médium exprime mais ou

menos bem os pensamentos dos Espíritos, conforme seja mais ou menos maleável.

Agora, que a harmonia está bem compreendida na sua significação, que se sabe ser

ela concebida pela alma e transmitida à alma, compreender-se-á a diferença que

existe entre a harmonia da Terra e a do Espaço.

Na Terra, tudo é grosseiro: o instrumento de tradução e o instrumento de percep

ção. Entre nós, tudo é sutil: vós tendes o ar, nós temos o éter; tendes um órgão que

obstrui e vela; nós temos a percepção direta. Entre vós, o autor é traduzido; entre

nós, ele opera sem intermediário e numa língua que exprime todas as concepções.

Entretanto, essas harmonias têm a mesma fonte de origem, como a luz da lua tem

a mesma fonte de origem que a do sol; a harmonia da Terra não é mais do que

reflexo da harmonia do Espaço.

É tão indefinível a harmonia, quanto a felicidade, o temor, a cólera. É um sentimen

to. Só a pode compreender quem a possui e só a possui quem a tenha adquirido. O

homem jovial não pode explicar a sua jovialidade; o que é timorato não pode expli

car a sua timidez; podem expor os fatos que esses sentimentos provocam, defini-los,

descrevê-los, mas os sentimentos, esses se conservam inexplicados. O fato que a um

causa alegria, nada a outro produzirá; o objeto que ocasiona o temor em um deter

minará a coragem noutro. As mesmas causas geram efeitos contrários; em Física isto

não existe, em Metafísica existe. Existe, porque o sentimento é propriedade da alma

e as almas diferem de sensibilidade entre si, de impressionabilidade, de liberdade.

A música, que é a causa segunda da harmonia percebida, penetra e transporta a

um, deixando frio e indiferente a outro. É que o primeiro se acha em estado de

receber a impressão que a harmonia produz, ao passo que o segundo se acha em

estado oposto; ele ouve o ar que vibra, mas não compreende a ideia que ele lhe

traz. Este chega a entediar-se e a adormecer, enquanto aquele outro se entusias

ma e chora. Evidentemente, o homem que goza as delícias da harmonia é muito

mais elevado, mais depurado, do que aquele em quem ela não logra penetrar; sua

alma, mais apta a sentir, desprende-se mais facilmente e a harmonia lhe auxilia o

desprendimento; transporta-a e lhe permite ver melhor o mundo moral. Deve-se

concluir daí que a música é essencialmente moralizadora, uma vez que traz a har

monia às almas e que a harmonia as eleva e engrandece.

Toda gente reconhece a influência da música sobre a alma e sobre o seu progresso.

Mas a razão dessa influência é em geral ignorada. Sua explicação está toda neste

fato: que a harmonia coloca a alma sob o poder de um sentimento que a desmate

rializa. Este sentimento existe em certo grau, mas desenvolve-se sob a ação de um

sentimento similar mais elevado. Aquele que esteja desprovido de tal sentimento

é conduzido gradativamente a adquiri-lo: acaba deixando-se penetrar por ele e

arrastar ao mundo ideal, onde esquece, por instantes, os prazeres inferiores que

prefere à divina harmonia.

Agora, se considerarmos que a harmonia sai do concerto do Espírito, deduziremos

que a música exerce salutar influência sobre a alma e a alma que a concebe também

exerce influência sobre a música. A alma virtuosa, que nutre a paixão do bem,

do belo, do grandioso e que adquiriu harmonia, produzirá obras-primas capazes

de penetrar as mais endurecidas almas e de comovê-las. Se o compositor é terra

a terra, como poderá exprimir a virtude de que desdenha, o belo que ignora e o

grandioso que não compreende? Suas composições refletirão seus gostos sensuais,

sua leviandade, sua negligência. Serão ora licenciosas, ora obscenas, ora cômicas,

ora burlescas; comunicarão aos ouvintes os sentimentos que exprimirem e os per

verterão, em vez de melhorá-los.

O Espiritismo, com o moralizar os homens, exercerá, pois, grande influência sobre

a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que transfundirão suas virtudes

ao fazerem ouvidas suas composições.

Rir-se-á menos; chorar-se-á mais; a hilaridade cederá lugar à emoção, a fealdade à

beleza e o cômico à grandiosidade.

Por outro lado, os ouvintes que o Espiritismo dispuser a receber facilmente a har

monia gozarão, ouvindo a música séria, de verdadeiro encanto; desprezarão a mú

sica frívola e licenciosa, que seduz as massas. Quando o grotesco e o obsceno forem

varridos pelo belo e pelo bem, desaparecerão os compositores daquela ordem, por

quanto, sem ouvintes, nada ganharão, e é para ganhar que eles se emporcalham.

Oh! sim, o Espiritismo terá influência sobre a música! Como poderia não ser

assim? Seu advento transformará a arte, depurando-a. Sua origem é divina, sua

força o levará a toda parte onde haja homens para amar, para elevar-se e para

compreender. Ele se tornará o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores,

compositores, poetas irão buscar nele suas inspirações e ele lhas fornecerá, porque

é rico, é inesgotável.

O Espírito do maestro Rossini voltará, numa nova existência, a continuar a arte

que ele considera a primeira de todas. O Espiritismo será seu símbolo e o inspira

dor de suas composições.

RossiNi – Médium: NivarT

O caminho da vida

A questão da pluralidade das existências há desde longo tempo preo

cupado os filósofos e mais de um reconheceu na anterioridade da alma a

única solução possível para os mais importantes problemas da Psicologia.

Sem esse princípio, eles se encontraram detidos a cada passo, encurralados

num beco sem saída, donde somente puderam escapar com o auxílio da

pluralidade das existências.

A maior objeção que podem fazer a essa teoria é a da ausência de lem

branças das existências anteriores. Com efeito, uma sucessão de existências

inconscientes umas das outras; deixar um corpo para tomar outro sem a

memória do passado equivaleria ao nada, visto que seria o nada quanto ao

pensamento; seria uma multiplicidade de novos pontos de partida, sem

ligação entre si; seria a ruptura incessante de todas as afeições que fazem

o encanto da vida presente, a mais doce e consoladora esperança do futu

ro; seria, afinal, a negação de toda a responsabilidade moral. Semelhante

doutrina seria tão inadmissível e tão incompatível com a Justiça Divina,

quanto a de uma única existência com a perspectiva de uma eternidade de

penas por algumas faltas temporárias. Compreende-se então que os que

formam semelhante ideia da reencarnação a repilam, mas não é assim que

o Espiritismo no-la apresenta.

A existência espiritual da alma, diz ele, é a sua existência normal,

com indefinida lembrança retrospectiva. As existências corpóreas são ape

nas intervalos, curtas estações na existência espiritual, sendo a soma de

todas as estações apenas uma parcela mínima da existência normal, ab

solutamente como se, numa viagem de muitos anos, de tempos a tempos

o viajor parasse durante algumas horas. Embora pareça que, durante as

existências corporais, há solução de continuidade, por ausência de lem

brança, a ligação efetivamente se estabelece no curso da vida espiritual, que

não sofre interrupção. A solução de continuidade, realmente, só existe para

a vida corpórea exterior e de relação, e a ausência, aí, da lembrança prova

a sabedoria da Providência que assim evitou fosse o homem por demais

desviado da vida real, onde ele tem deveres a cumprir, mas quando o corpo

se acha em repouso, durante o sono, a alma levanta o voo parcialmente e

restabelece-se então a cadeia interrompida apenas durante a vigília.

A isto ainda se pode opor uma objeção, perguntando que proveito

pode o homem tirar de suas existências anteriores, para melhorar-se, dado

que ele não se lembra das faltas que haja cometido. O Espiritismo respon

de, primeiro, que a lembrança de existências desgraçadas, juntando-se às

misérias da vida presente, ainda mais penosa tornaria esta última. Desse

modo, poupou Deus às suas criaturas um acréscimo de sofrimentos. Se

assim não fosse, qual não seria a nossa humilhação, ao pensarmos no que já

fôramos! Para o nosso melhoramento, aquela recordação seria inútil. Du

rante cada existência, sempre damos alguns passos para a frente, adquiri

mos algumas qualidades e nos despojamos de algumas imperfeições. Cada

uma de tais existências é, portanto, um novo ponto de partida, em que

somos qual nos houvermos feito, em que nos tomamos pelo que somos,

sem nos preocuparmos com o que tenhamos sido. Se, numa existência

anterior, fomos antropófagos, que importa isso, desde que já não o somos?

Se tivemos um defeito qualquer, de que já não conservamos vestígio, aí está

uma conta saldada, de que não mais nos cumpre cogitar. Suponhamos que,

ao contrário, se trate de um defeito apenas meio corrigido: o restante ficará

para a vida seguinte e a corrigi-lo é do que nesta devemos cuidar.

Tomemos um exemplo: um homem foi assassino e ladrão, e foi pu

nido, quer na vida corpórea, quer na vida espiritual; ele se arrepende e cor

rige do primeiro pendor, porém, não do segundo. Na existência seguinte,

será apenas ladrão, talvez um grande ladrão, porém, não mais assassino.

Mais um passo para diante e já não será mais que um ladrão obscuro;

pouco mais tarde já não roubará, mas poderá ter a veleidade de roubar, que

a sua consciência neutralizará. Depois, um derradeiro esforço e, havendo

desaparecido todo vestígio da enfermidade moral, será um modelo de pro

bidade. Que lhe importa então o que ele foi? A lembrança de ter acabado

no cadafalso não seria uma tortura e uma humilhação constantes?

Aplicai este raciocínio a todos os vícios, a todos os desvios, e podereis

ver como a alma se melhora, passando e tornando a passar pelos cadinhos

da encarnação. Não terá sido Deus mais justo com o tornar o homem

árbitro da sua própria sorte, pelos esforços que empregue por se melhorar,

do que se fizesse que sua alma nascesse ao mesmo tempo que seu corpo e o

condenasse a tormentos perpétuos por erros passageiros, sem lhe conceder

meios de purificar-se de suas imperfeições? Pela pluralidade das existências,

nas suas mãos está o seu futuro. Se ele gasta longo tempo a se melhorar,

sofre as consequências dessa maneira de proceder: é a suprema justiça; a

esperança, porém, jamais lhe é interdita.

A seguinte comparação é de molde a tornar compreensíveis as peri

pécias da vida da alma:

Suponhamos uma estrada longa, em cuja extensão se encontram,

de distância em distância, mas com intervalos desiguais, florestas que se

tem de atravessar e, à entrada de cada uma, a estrada, larga e magnífica,

se interrompe, para só continuar à saída. O viajor segue por essa estrada

e penetra na primeira floresta. Aí, porém, não dá com caminho aberto;

depara-se-lhe, ao contrário, um dédalo inextricável em que ele se perde. A

claridade do sol há desaparecido sob a espessa ramagem das árvores. Ele

vagueia, sem saber para onde se dirige. Afinal, depois de inauditas fadigas,

chega aos confins da floresta, mas extenuado, dilacerado pelos espinhos,

machucado pelos pedrouços. Lá, descobre de novo a estrada e prossegue a

sua jornada, procurando curar-se das feridas.

Mais adiante, segunda floresta se lhe antolha, onde o esperam as

mesmas dificuldades. Mas ele já possui um pouco de experiência e dela sai

menos contundido. Noutra, topa com um lenhador que lhe indica a dire

ção que deve seguir para se não transviar. A cada nova travessia, aumenta a

sua habilidade, de maneira que transpõe cada vez mais facilmente os obs

táculos. Certo de que à saída encontrará de novo a boa estrada, firma-se

nessa certeza; depois, já sabe orientar-se para achá-la com mais facilidade.

A estrada finaliza no cume de uma montanha altíssima, donde ele descor

tina todo o caminho que percorreu desde o ponto de partida. Vê também

as diferentes florestas que atravessou e se lembra das vicissitudes por que

passou, mas essa lembrança não lhe é penosa, porque chegou ao termo da

caminhada. É qual velho soldado que, na calma do lar doméstico, recorda

as batalhas a que assistiu. Aquelas florestas que pontilhavam a estrada lhe

são como que pontos negros sobre uma fita branca e ele diz a si mesmo:

“Quando eu estava naquelas florestas, nas primeiras, sobretudo, como me

pareciam longas de atravessar! Figurava-se-me que nunca chegaria ao fim;

tudo ao meu derredor me parecia gigantesco e intransponível. E quando

penso que, sem aquele bondoso lenhador que me pôs no bom caminho,

talvez eu ainda lá estivesse! Agora, que contemplo essas mesmas florestas

do ponto onde me acho, como se me apresentam pequeninas! Afigura-se--me que de um passo teria podido transpô-las; ainda mais, a minha vista

as penetra e lhes distingo os menores detalhes; percebo até os passos em

falso que dei”.

Diz-lhe então um ancião:

— Meu filho, eis-te chegado ao termo da viagem, mas um repouso

indefinido causar-te-á tédio mortal e tu te porias a ter saudades das vicis

situdes que experimentaste e que te davam atividade aos membros e ao

Espírito. Vês daqui grande número de viajantes na estrada que percorreste

e que, como tu, correm o risco de transviar-se; tens experiência, nada mais

temas: vai-lhes ao encontro e procura com teus conselhos guiá-los, a fim

de que cheguem depressa.

— Irei com alegria — replica o nosso homem —; entretanto, per

gunto: por que não há uma estrada direta desde o ponto de partida até

aqui? Isso forraria aos viajantes o terem de atravessar aquelas abomináveis

florestas.

— Meu filho — retruca o ancião —, atenta bem e verás que muitos

evitam a travessia de algumas delas: são os que, tendo adquirido mais de

pronto a experiência necessária, sabem tomar um caminho mais direto e

mais curto para chegarem aqui. Essa experiência, porém, é fruto do tra

balho que as primeiras travessias lhes impuseram, de sorte que eles aqui

aportam em virtude do mérito próprio. Que é o que saberias, se por lá não

houvesses passado? A atividade que houveste de desenvolver, os recursos de

imaginação que precisaste empregar para abrir caminho aumentaram os

teus conhecimentos e desenvolveram a tua inteligência. Sem que tal se des

se, serias tão noviço quanto o eras à partida. Ademais, procurando safar-te

dos tropeços, contribuíste para o melhoramento das florestas que atraves

saste. O que fizeste foi pouca coisa, imperceptível mesmo; pensa, contudo,

nos milhares de viajores que fazem outro tanto e que, trabalhando para si

mesmos, trabalham, sem o perceberem, para o bem comum. Não é justo

que recebam o salário de suas penas no repouso de que gozam aqui? Que

direito lhes caberia a esse repouso, se nada houvessem feito?

— Meu pai — responde o viajor —, numa das florestas, encontrei

um homem que me disse: “Na orla há um imenso abismo a ser transposto

de um salto, mas, de mil, apenas um o consegue; todos os outros lhe caem

no fundo, numa fornalha ardente e ficam perdidos sem remissão. Esse

abismo eu não o vi”.

— Meu filho, é que ele não existe, pois, do contrário, seria uma cilada

abominável, armada a todos os que para cá se dirigem. Bem sei que lhes

cabe vencer dificuldades, mas igualmente sei que cedo ou tarde as vencerão.

Se eu houvera criado impossibilidades para um só que fosse, sabendo que

esse sucumbiria, teria praticado uma crueldade, que avultaria imenso, se

atingisse a maioria dos viajores. Esse abismo é uma alegoria, cuja explica

ção vais receber. Olha para a estrada e observa os intervalos das florestas.

Entre os viajantes, alguns vês que caminham com passo lento e semblante

jovial; vê aqueles amigos, que se tinham perdido de vista nos labirintos da

floresta, como se sentem ditosos, por se haverem de novo encontrado ao

deixarem-na. A par deles, porém, outros há que se arrastam penosamente;

estão estropiados e imploram a compaixão dos que passam, pois que sofrem

atrozmente das feridas de que, por culpa própria, se cobriram, atravessando

os espinheiros. Curar-se-ão, no entanto, e isso lhes constituirá uma lição da

qual tirarão proveito na floresta seguinte, donde sairão menos machucados.

O abismo simboliza os males que eles experimentam e, dizendo que de mil

apenas um o transpõe, aquele homem teve razão, porquanto enorme é o

número dos imprudentes; errou, porém, quando disse que aquele que ali

cair não mais sairá. Para chegar a mim, o que tombou encontra sempre uma

saída. Vai, meu filho, vai mostrar essa saída aos que estão no fundo do abis

mo; vai amparar os feridos que se arrastam pela estrada e mostrar o caminho

aos que se embrenharam pelas florestas.

A estrada é a imagem da vida espiritual da alma e em cujo percurso

esta é mais ou menos feliz. As florestas são as existências corpóreas, em que

ela trabalha pelo seu adiantamento, ao mesmo tempo que na obra geral. O

caminheiro que chega ao fim e que volta para ajudar os que vêm atrasados

figura os anjos guardiães, os missionários de Deus, que se sentem venturo

sos em vê-lo, como também no desdobrarem suas atividades para fazer o

bem e obedecer ao supremo Senhor.

As cinco alternativas da Humanidade

Bem poucos homens vivem despreocupados do dia seguinte. Ora, se

cada um se inquieta pelo que virá após o dia que está transcorrendo, com

mais forte razão é natural se preocupe com o que haverá depois do grande

dia da vida, pois já não se trata de alguns instantes, mas da eternidade.

Viveremos ou não viveremos, findo esse grande dia? Não há meio-termo; é

uma questão de vida e de morte; é a suprema alternativa!...

Se interrogarmos o sentimento íntimo da quase universalidade dos

homens, todos responderão: “Viveremos.” Essa esperança constitui uma

consolação. Entretanto, uma pequena minoria se esforça, sobretudo de al

gum tempo para cá, por lhes provar que não viverão. Fez prosélitos essa

escola, força é confessá-lo, e principalmente entre os que, temendo a res

ponsabilidade do futuro, acham mais cômodo gozar sem constrangimen

to do presente, sem se perturbarem com a perspectiva das consequências.

Essa, porém, é a opinião de uma pequena minoria.

Se havemos de viver, como viveremos? Em que condições viremos

a encontrar-nos? Aqui, os sistemas variam, de acordo com as ideias reli

giosas e filosóficas. Podem, no entanto, reduzir-se a cinco todas as capitais

alternativas, que passamos a sumariar, a fim de que se torne mais fácil a

comparação e cada um possa escolher a que lhe pareça mais racional e me

lhor corresponda às suas aspirações pessoais e às exigências da sociedade.

As cinco alternativas são as que resultam das doutrinas do materialismo, do

panteísmo, do deísmo, do dogmatismo e do Espiritismo.

UM – Doutrina materialista

A inteligência do homem é uma propriedade da matéria; nasce e mor

re com o organismo. O homem nada é antes, nem depois da vida corporal.

Consequências. Sendo o homem apenas matéria, os gozos materiais são

as únicas coisas reais e desejáveis; as afeições morais carecem de futuro; os laços

morais, a morte os quebra sem remissão e para as misérias da vida não há com

pensação; o suicídio vem a ser o fim racional e lógico da existência, quando

não se pode esperar atenuação para os sofrimentos; inútil qualquer constrangi

mento para vencer os maus pendores; viver cada um para si o melhor possível,

enquanto aqui estiver; estupidez vexar-se e sacrificar o repouso, o bem-estar

por causa de outros, isto é, por causa de seres que a seu turno serão aniquilados

e que ninguém tornará a ver; deveres sociais sem fundamento, o bem e o mal

meras convenções; por freio social unicamente a força material da lei civil.

Nota – Não será talvez inútil lembrar aqui, aos nossos leitores, algumas passagens

do artigo O materialismo e o Direito que publicamos na Revista de agosto de 1868.

Exibindo-se como não o tinha feito em nenhuma outra época e se apresentando

como supremo regulador dos destinos morais da Humanidade, o materialismo teve

por efeito apavorar as massas pelas consequências inevitáveis de suas doutrinas para

a ordem social. Por isto mesmo provocou, em favor das ideias espiritualistas, uma

enérgica reação, que deve provar-lhe que está longe de ter simpatias tão gerais quan

to supõe, e que se ilude singularmente se espera um dia impor suas leis ao mundo.

Seguramente as crenças espiritualistas dos tempos passados são insuficientes para

este século; elas não estão no nível intelectual da nossa geração; sobre muitos pon

tos estão em contradição com os dados positivos da Ciência; deixam no espírito

um vazio incompatível com a necessidade do positivo que domina na sociedade

moderna; além disso, cometem o erro imenso de se imporem pela fé cega e de

proscreverem o livre-exame. Daí, sem a menor dúvida, o desenvolvimento da in

credulidade no maior número; é muito evidente que se os homens não fossem

alimentados, desde a infância, senão por ideias susceptíveis de serem confirmadas

mais tarde pela razão, não haveria incrédulos. Quantas pessoas, reconduzidas à

crença pelo Espiritismo, nos disseram: “Se sempre nos tivessem apresentado Deus,

a alma e a vida futura de maneira racional, jamais teríamos duvidado!”

Pelo fato de um princípio receber uma aplicação má ou falsa, segue-se que se deva

rejeitá-lo? Isto acontece com coisas espirituais, como com a legislação de todas as

instituições sociais: é necessário apropriá-las aos tempos, sob pena de sucumbir.

Mas em vez de apresentar algo de melhor que o velho espiritualismo clássico, o

materialismo preferiu tudo suprimir, o que o dispensava de procurar, e parecia mais

cômodo àqueles a quem importuna a ideia de Deus e do futuro. Que pensariam de

um médico que, achando que o regime de um convalescente não é bastante subs

tancial para o seu temperamento, lhe prescrevesse não comer absolutamente nada?

O que é de admirar é encontrar na maioria dos materialistas da escola moderna

esse espírito de intolerância levado aos últimos limites, logo eles que reivindicam

sem cessar o direito de liberdade de consciência. [...]

Há, neste momento, da parte de certo partido, uma oposição furibunda contra

as ideias espiritualistas em geral, nas quais o Espiritismo se acha naturalmente en

globado. O que ele busca não é um Deus melhor e mais justo, é o Deus matéria,

menos constrangedor, porque não tem que lhe dar contas. Ninguém contesta a

esse partido o direito de ter sua opinião, de discutir as opiniões contrárias, mas o

que não se lhe poderia conceder é a pretensão, no mínimo singular, para homens

que se apresentam como apóstolos da liberdade, de impedir que os outros creiam

à sua maneira e de discutir as doutrinas que não partilham. Intolerância por into

lerância, uma não vale mais que a outra.

DOIS – Doutrina panteísta

O princípio inteligente, ou alma, independente da matéria, é extraído,

ao nascer, do todo universal; individualiza-se em cada ser durante a vida e vol

ta, por efeito da morte, à massa comum, como as gotas de chuva ao oceano.

Consequências. Sem individualidade e sem consciência de si mesmo,

o ser é como se não existisse. As consequências morais desta doutrina são

exatamente as mesmas que as da doutrina materialista.

Nota – Certo número de panteístas admitem que a alma, tirada, ao nascer, do

todo universal, conserva a sua individualidade por tempo indefinido e somen

te volta à massa depois de haver chegado aos últimos degraus da perfeição. As

consequências desta variedade de crença são absolutamente as mesmas que as da

doutrina panteísta propriamente dita, pois de todo inútil é que alguém se dê ao

trabalho de adquirir alguns conhecimentos, cuja consciência terá de perder, pelo

aniquilar-se após um tempo relativamente curto. Se a alma, em geral, se nega a ad

mitir semelhante concepção, quão mais penosamente não haveria ela de sentir-se

chocada, ponderando que o instante em que alcançasse o conhecimento e a perfei

ção supremos seria o em que se veria condenada a perder o fruto de todos os seus

labores, perdendo a sua individualidade.

TRES – Doutrina deísta

O deísmo compreende duas categorias bem distintas de crentes: os

deístas independentes e os deístas providencialistas.

Os primeiros creem em Deus; admitem todos os seus atributos como

criador. Deus, dizem eles, estabeleceu as leis gerais que regem o Universo,

mas, uma vez estabelecidas, essas leis funcionam por si sós e aquele que as

promulgou de mais nada se ocupa. As criaturas fazem o que querem ou o

que podem, sem que Ele se inquiete. Não há providência; não se ocupando

Deus conosco, nada temos que lhe agradecer, nem que lhe pedir.

Os que negam qualquer intervenção providencial na vida do homem

são como crianças que se julgam muito ajuizadas para se libertarem da tu

tela, dos conselhos e da proteção de seus pais, ou que pensam não deverem

estes ocupar-se mais com eles, desde que os puseram no mundo.

Sob o pretexto de glorificarem a Deus, demasiado grande, dizem,

para se abaixar até as suas criaturas, fazem dele um grande egoísta e o rebai

xam até o nível dos animais que abandonam suas crias à natureza.

Essa crença é resultado do orgulho; é sempre a ideia de que esta

mos submetidos a um poder superior que fere o amor-próprio e do qual

procuram eximir-se. Enquanto uns negam absolutamente esse poder, ou

tros consentem em reconhecer-lhe a existência, embora condenando-a à

nulidade.

Há uma diferença essencial entre o deísta independente, do qual aca

bamos de falar, e o deísta providencialista. Este último, com efeito, crê não

só na existência e no poder criador de Deus, na origem das coisas, como

também crê na sua intervenção incessante na Criação e a Ele ora, mas não

admite o culto exterior e o dogmatismo atual.

QUATRO – Doutrina dogmática

A alma, independente da matéria, é criada por ocasião do nasci

mento do ser; sobrevive e conserva a individualidade após a morte; desde

esse momento, tem irrevogavelmente determinada a sua sorte; nulos lhe

são quaisquer progressos ulteriores; ela será, pois, por toda a eternidade,

intelectual e moralmente, o que era durante a vida. Sendo os maus con

denados a castigos perpétuos e irremissíveis no inferno, completamente

inútil lhes resulta todo arrependimento; parece assim que Deus se nega a

conceder-lhes a possibilidade de repararem o mal que fizeram. Os bons são

recompensados com a visão de Deus e a contemplação perene no Céu. Os

casos que possam merecer o Céu ou o inferno, por toda a eternidade, são

deixados à decisão e ao juízo de homens falíveis, aos quais é dada a facul

dade de absolver ou condenar.

Nota – Se a esta proposição final objetassem que Deus julga em última instância,

poder-se-ia perguntar que valor tem a decisão proferida pelos homens, uma vez

que ela pode ser infirmada.

Separação definitiva e absoluta dos condenados e dos eleitos. Inuti

lidade dos socorros morais e das consolações para os condenados. Criação

de anjos ou almas privilegiadas, isentas de todo trabalho para chegarem à

perfeição etc. etc.

Consequências. Esta doutrina deixa sem solução os graves problemas

seguintes:

1o) Donde vêm as disposições inatas, intelectuais e morais, que fa

zem com que os homens nasçam bons ou maus, inteligentes ou idiotas?

2o) Qual a sorte das crianças que morrem em tenra idade? Por que vão

elas para uma vida bem-aventurada, sem o trabalho a que os outros ficam su

jeitos durante longos anos? Por que são recompensadas sem terem podido fa

zer o bem, ou são privadas de uma felicidade perfeita, sem terem feito o mal?

3o) Qual a sorte dos cretinos e dos idiotas que não têm consciência

de seus atos?

4o) Onde a justiça das misérias e das enfermidades de nascença, uma

vez que não resultam de nenhum ato da vida presente?

5o) Qual a sorte dos selvagens e de todos os que forçosamente mor

rem no estado de inferioridade moral em que foram colocados pela natu

reza mesma, se não lhes é dado progredirem ulteriormente?

6o) Por que cria Deus umas almas mais favorecias do que outras?

7o) Por que chama Ele a si prematuramente os que teriam podido

melhorar-se, se vivessem mais tempo, visto que não lhes é permitido pro

gredirem depois da morte?

8o) Por que criou Deus anjos em estado de perfeição sem trabalho, ao

passo que outras criaturas são submetidas às mais rudes provações em que

têm maiores probabilidades de sucumbir, do que de sair vitoriosas etc. etc.?

CINCO – Doutrina Espírita

O princípio inteligente independe da matéria. A alma individual

preexiste e sobrevive ao corpo. O ponto de partida ou de origem é o mesmo

para todas as almas, sem exceção; todas são criadas simples e ignorantes e

sujeitas a progresso indefinido. Nada de criaturas privilegiadas e mais favo

recidas do que outras. Os anjos são seres que chegaram à perfeição, depois

de haverem passado, como todas as outras criaturas, por todos os graus da

inferioridade. As almas ou Espíritos progridem mais ou menos rapidamen

te, mediante o uso do livre-arbítrio, pelo trabalho e pela boa vontade.

A vida espiritual é a vida normal; a vida corpórea é uma fase tem

porária da vida do Espírito, que durante ela se reveste de um envoltório

material, de que se despe por ocasião da morte.

O Espírito progride no estado corporal e no estado espiritual. O

estado corpóreo é necessário ao Espírito, até que haja galgado certo grau

de perfeição. Ele aí se desenvolve pelo trabalho a que é submetido pe

las suas próprias necessidades e adquire conhecimentos práticos especiais.

Sendo insuficiente uma só existência corporal para que adquira todas as

perfeições, retoma um corpo tantas vezes quantas lhe forem necessárias e

de cada vez encarna com o progresso que haja realizado em suas existências

precedentes e na vida espiritual. Quando, num mundo, alcança tudo o que

aí pode obter, deixa-o para ir a outros mundos, intelectual e moralmente

mais adiantados, cada vez menos materiais, e assim por diante, até a perfei

ção de que é suscetível a criatura.

O estado ditoso ou inditoso dos Espíritos é inerente ao adiantamen

to moral deles; a punição que sofrem é consequência do seu endurecimen

to no mal, de sorte que, com o perseverarem no mal, eles se punem a si

mesmos, mas a porta do arrependimento nunca se lhes fecha e eles podem,

desde que o queiram, volver ao caminho do bem e efetuar, com o tempo,

todos os progressos.

As crianças que morrem em tenra idade podem ser Espíritos mais

ou menos adiantados, porquanto já tiveram outras existências em que ou

praticaram o bem ou cometeram ações más. A morte não os livra das pro

vas que hajam de sofrer e, em tempo oportuno, eles voltam a uma nova

existência na Terra, ou em mundos superiores, conforme o grau de eleva

ção que tenham atingido.

A alma dos cretinos e dos idiotas é da mesma natureza que a de qual

quer outro encarnado; possuem, muitas vezes, grande inteligência; sofrem

pela deficiência dos meios de que dispõem para entrar em relação com os

seus companheiros de existência, como os mudos sofrem por não poderem

falar. É que abusaram da inteligência em existências pretéritas e aceitaram

voluntariamente a situação de impotência para usar dela, a fim de expia

rem o mal que praticaram etc. etc

A morte espiritual

A questão da morte espiritual é um dos novos princípios que assina

lam os progressos da ciência espírita. A maneira por que foi apresentada

em certa teoria pessoal determinou, no primeiro momento, a sua rejeição,

porque parecia implicar o aniquilamento, em dado tempo, do eu indivi

dual e assimilar as transformações da alma às da matéria, cujos elementos

se desagregam para formar novos corpos. Os seres ditosos e aperfeiçoados

seriam, na realidade, novos seres, o que é inadmissível. A equidade das

penas e dos gozos futuros só se evidencia com a perpetuidade dos seres

ascendendo a escala do progresso e depurando-se pelo trabalho e pelos

esforços da vontade própria.

Tais as consequências que se podiam tirar, a priori, daquela teoria.

Entretanto, devemos convir em que ela não foi apresentada com a empáfia

de um orgulhoso que pretendesse impor o seu sistema. Disse modestamen

te o autor que apenas desejava lançar uma ideia no terreno da discussão,

dado que dessa ideia poderia surgir uma verdade nova.

Ao parecer dos nossos eminentes guias espirituais, ele teria pecado

menos quanto ao fundo do que quanto à forma, que se prestou a uma falsa

interpretação. Isso nos determina a estudar seriamente a questão. É o que

tentaremos fazer, baseando-nos na observação dos fatos que ressaltam da

situação do Espírito, em duas épocas, para ele, capitais: a da sua descida à

vida corpórea e a do seu regresso à vida espiritual.

Por ocasião da morte corpórea, o Espírito entra em perturbação e

perde a consciência de si mesmo, de sorte que jamais testemunha o último

suspiro do seu corpo. Pouco a pouco a perturbação se dissipa e o Espírito

se recobra, como um homem que desperta de profundo sono. Sua primeira

sensação é a de estar livre do fardo carnal; segue-se o espanto, ao reparar no

novo meio em que se encontra. Acha-se na situação de um a quem se cloro

formiza para uma amputação e que, ainda adormecido, é levado para outro

lugar. Ao acordar, ele se sente livre do membro que o fazia sofrer; muitas

vezes, procura-o, surpreendido de não mais o possuir. Do mesmo modo,

o Espírito, no primeiro momento, procura o corpo que tinha; descobre-o

a seu lado; reconhece que é o seu e espanta-se de estar dele separado e só

gradativamente se apercebe da sua nova situação.

Nesse fenômeno, apenas se operou uma mudança de situação mate

rial. Quanto ao moral, o Espírito é exatamente o que era algumas horas an

tes; por nenhuma modificação sensível passou; suas faculdades, suas ideias,

seus gostos, seus pendores, seu caráter são os mesmos e as transformações

que possa experimentar só gradativamente se operarão, pela influência do

que o cerca. Em resumo, unicamente para o corpo houve morte; para o

Espírito, apenas sono houve.

Na reencarnação, as coisas se passam de outra maneira.

No momento da concepção do corpo que se lhe destina, o Espírito é

apanhado por uma corrente fluídica que, semelhante a uma rede, o toma e

aproxima da sua nova morada. Desde então, ele pertence ao corpo, como

este lhe pertencerá até que morra. Todavia, a união completa, o apossa

mento real somente se verifica por ocasião do nascimento.

Desde o instante da concepção, a perturbação ganha o Espírito; suas

ideias se tornam confusas; suas faculdades se somem; a perturbação cresce

à medida que os liames se apertam; torna-se completo nas últimas fases da

gestação, de sorte que o Espírito não aprecia o ato de nascimento do seu

corpo, como não aprecia o da morte deste; nenhuma consciência tem, nem

de um, nem de outro.

Desde que a criança respira, a perturbação começa a dissipar-se, as

ideias voltam pouco a pouco, mas em condições diversas das verificadas

quando da morte do corpo.

No ato da reencarnação, as faculdades do Espírito não ficam ape

nas entorpecidas por uma espécie de sono momentâneo, conforme se dá

quando do regresso à vida espiritual; todas, sem exceção, passam ao estado

de latência. A vida corpórea tem por fim desenvolvê-las mediante o exer

cício, mas nem todas se podem desenvolver simultaneamente, porque o

exercício de uma poderia prejudicar o de outra, ao passo que, por meio

do desenvolvimento sucessivo, umas se firmam nas outras. Convém, pois,

que algumas fiquem em repouso, enquanto outras aumentam. Esta a ra

zão por que, na sua nova existência, pode o Espírito apresentar-se sob

aspecto muito diferente, sobretudo se pouco adiantado for, do que tinha

na existência precedente.

Num, a faculdade musical, por exemplo, será mais ativa; ele conce

berá, perceberá e, portanto, fará tudo o que for necessário ao desenvolvi

mento dessa faculdade; noutra existência, tocará a vez à pintura, às ciências

exatas, à poesia etc. Enquanto estas novas faculdades se exercitarem, a da

música estará latente, mas conservando o progresso que realizou. Resulta

daí que quem foi artista numa existência, poderá ser um sábio, um homem

de estado, ou um estrategista noutra, sendo nulo do ponto de vista artístico

e reciprocamente.

O estado latente das faculdades na reencarnação explica o esque

cimento das existências precedentes, enquanto, por ocasião da morte,

achando-se as faculdades em estado de sono pouco durável, a lembrança

da vida que acaba de transcorrer é completa, ao despertar o Espírito na

vida espiritual.

As faculdades que se manifestam estão naturalmente em relação com

a posição que o Espírito tem de ocupar no mundo e com as provas que haja

escolhido. Entretanto, acontece muitas vezes que os preconceitos sociais o

desloquem, o que faz que certas pessoas estejam intelectual e moralmente

acima ou abaixo da posição que ocupam. Esse deslocamento, pelos en

traves que acarreta, faz parte das provas; cessará com o progresso. Numa

ordem social avançada, tudo se regula de acordo com a lógica das Leis Na

turais e aquele que apenas tiver aptidão para fabricar sapatos não será, por

direito de nascimento, chamado a governar os povos.

Voltemos à criança. Até nascer, todas as faculdades se lhe encontram

em estado latente, nenhuma consciência de si mesmo tem o Espírito. As

que devam desenvolver-se não desabrocham de súbito no ato de nascer; o

desenvolvimento delas acompanha o dos órgãos que terão de servir para

as suas manifestações; por meio da atividade íntima em que se põem, elas

impulsionam o desenvolvimento dos órgãos que lhes correspondem, do

mesmo modo que o broto, ao nascer, força a casca da árvore. Daí resulta

que, na primeira infância, o Espírito não goza em plenitude de nenhuma

de suas faculdades, não só como encarnado, mas também como Espírito

livre. Ele é verdadeiramente infantil, como o corpo a que se acha liga

do, sem, contudo, estar neste comprimido penosamente. A não ser assim,

Deus houvera feito da encarnação um suplício para todos os Espíritos,

bons ou maus.

O mesmo, porém, não acontece com o idiota ou o cretino. Nestes,

não se tendo os órgãos desenvolvido paralelamente às faculdades, o Espírito

acaba por achar-se na posição de um homem preso por laços que lhe tiram

a liberdade dos movimentos. Tal a razão por que se pode evocar o Espírito

de um idiota e obter respostas sensatas, ao passo que o de uma criança de

muito pouca idade, ou que ainda não veio à luz, é incapaz de responder.

Todas as faculdades, todas as aptidões se encontram em gérmen no

Espírito, desde a sua criação, mas em estado rudimentar, como todos os

órgãos no primeiro filete do feto informe, como todas as partes da árvore

na semente. O selvagem que mais tarde se tornará homem civilizado pos

sui, pois, em si os germens que, um dia, farão dele um sábio, um grande

artista, ou um grande filósofo.

À medida que esses germens chegam à maturidade, a Providência

lhes dá, para a vida terrestre, um corpo apropriado às suas novas aptidões.

É assim que o cérebro de um europeu é organizado de modo mais comple

to, provido de maior número de teclas, do que o do selvagem. Para a vida

espiritual, dá-lhes um corpo fluídico, ou perispírito, mais sutil e impres

sionável por novas sensações. À proporção que o Espírito se engrandece, a

Natureza o provê dos instrumentos que lhe são necessários.

No sentido de desorganização, de desagregação das partes, de dis

persão dos elementos, não há morte, senão para o invólucro material e o

invólucro fluídico, mas, quanto à alma, ou Espírito, esse não pode morrer

para progredir; de outro modo, ele perderia a sua individualidade, o que

equivaleria ao nada. No sentido de transformação, regeneração, pode di

zer-se que o Espírito morre a cada encarnação, para ressuscitar com atribu

tos novos, sem deixar de ser o eu que era. Tal, por exemplo, um camponês

que enriquece e se torna importante senhor. Trocou a choupana por um

palácio, as roupas modestas por vestuários de brocado. Todos os seus hábi

tos mudaram, seus gostos, sua linguagem, até o seu caráter. Numa palavra,

o camponês morreu, enterrou as vestes de grosseiro estofo, para renascer

homem de sociedade, sendo sempre, no entanto, o mesmo indivíduo, po

rém transformado.

Cada existência corpórea é, pois, para o Espírito, um meio de pro

gredir mais ou menos sensivelmente. De volta ao mundo dos Espíritos,

leva para lá novas ideias; um horizonte moral mais dilatado; percepções

mais agudas, mais delicadas. Vê e compreende o que antes não via, nem

compreendia; sua visão que, a princípio, não ia além da última existência

que tivera, passa a abranger sucessivamente as suas existências pretéritas,

como o homem que sobe uma montanha e para quem o nevoeiro se vai

dissipando, abrange com o olhar um horizonte cada vez mais vasto.

A cada novo estágio na erraticidade, novas maravilhas do Mundo

Invisível se desdobram diante do seu olhar, porque, em cada um desses

estágios, um véu se rasga. Ao mesmo tempo, seu envoltório fluídico se

depura; torna-se mais leve, mais brilhante e mais tarde resplandecerá. É

quase um novo Espírito; é o camponês desbastado e transformado. Morreu

o Espírito velho, mas o eu é sempre o mesmo.

É assim, cremos, que convém se entenda a morte espiritual.

A vida futura

A vida futura já deixou de ser um problema. É um fato apurado pela

razão e pela demonstração para a quase totalidade dos homens, porquanto

os que a negam formam ínfima minoria, sem embargo do ruído que ten

tam fazer. Não é, pois, a sua realidade o que nos propomos demonstrar

aqui. Fora repetir-nos, sem acrescentarmos coisa alguma à convicção geral.

Admitido que está o princípio, como primícias, o a que nos propomos é

examinar-lhe a influência sobre a ordem social e a moralização, segundo a

maneira por que é encarada.

As consequências do princípio contrário, isto é, do nadismo, já são por

demais conhecidas e bastante compreendidas, para que se torne necessário

desenvolvê-las de novo. Apenas diremos que, se estivesse demonstrada a ine

xistência da vida futura, nenhum outro fim teria a vida presente, senão o da

manutenção de um corpo que, amanhã, dentro de uma hora, poderá deixar

de existir, ficando tudo, nesse caso, inteiramente acabado. A consequência

lógica de semelhante condição para a Humanidade seria concentrarem-se to

dos os pensamentos na incrementação dos gozos materiais, sem atenção aos

prejuízos de outrem. Por que, então, haveria alguém de suportar privações,

de impor-se sacrifícios? Por que haveria de constranger-se para se melhorar,

para se corrigir de defeitos? Seria também a absoluta inutilidade do remor

so, do arrependimento, uma vez que nada se deveria esperar. Seria, afinal, a

consagração do egoísmo e da máxima: O mundo pertence aos mais fortes e aos

mais espertos. Sem a vida futura, a moral não passa de mero constrangimento,

de um código convencional, arbitrariamente imposto; nenhuma raiz teria ela

no coração. Uma sociedade fundada em tal crença só teria por elo, a prender--lhe os membros, a força e bem depressa cairia em dissolução.

Não se objete que, entre os negadores da vida futura, há pessoas

honestas, incapazes de cientemente causar dano a quem quer que seja e

suscetíveis dos maiores devotamentos. Digamos, antes de tudo, que, en

tre muitos incrédulos, a negação do porvir é mais fanfarronada, jactância,

orgulho de passarem por Espíritos fortes do que resultado de uma con

vicção absoluta. No foro íntimo de suas consciências, há uma dúvida a

importuná-los, pelo que procuram eles atordoar-se. Não é, porém, sem

dissimulação que pronunciam o terrível nada, que os priva do fruto de

todos os trabalhos da inteligência e despedaça para sempre as mais caras

afeições. Muitos dos que mais forte deblateram são os primeiros a tremer

ante a ideia do desconhecido; por isso mesmo, quando se lhes aproxima o

momento fatal de entrarem nesse desconhecido, bem poucos são os que

adormecem no derradeiro sono, na firme persuasão de que não despertarão

algures, visto que a Natureza jamais abdica dos seus direitos.

Afirmamos, pois, que, na maioria dos incrédulos, a incredulidade

é muito relativa, isto é, que, não lhes estando satisfeita a razão, nem com

os dogmas, nem com as crenças religiosas, e nada tendo encontrado, em

parte alguma, com que enchessem o vazio que se lhes fizera no íntimo,

eles concluíram que nada há e edificaram sistemas com que justificassem a

negação. Não são, conseguintemente, incrédulos, senão por falta de coisa

melhor. Os absolutamente incrédulos são raríssimos, se é que existem.

Uma latente e inconsciente intuição do futuro é, portanto, capaz de

deter grande número deles no declive do mal e uma imensidade de atos

se poderiam citar, mesmo da parte dos mais endurecidos, testificantes da

existência desse sentimento secreto que os domina, a seu mau grado.

Cumpre também dizer que, seja qual for o grau da incredulidade,

o respeito humano é o que torna reservadas as pessoas de certa condição

social. A posição que ocupam os obriga a uma linha de proceder muito dis

creta; temem acima de tudo a desconsideração e o desdém que, fazendo-os

perder, por decaírem da categoria em que se encontram, as atenções do

mundo, os privariam dos gozos de que desfrutam; se carecem de um fundo

de virtudes, pelo menos têm destas o verniz. Mas aos que nenhuma razão

se apresenta para se preocuparem com a opinião dos outros, aos que zom

bam do “que dirão”, e não há contestar que esses formam a maioria, que

freio se pode impor ao transbordamento das paixões brutais e dos apetites

grosseiros? Em que base assentar a teoria do bem e do mal, a necessidade

de eles reformarem seus maus pendores, o dever de respeitarem o que per

tence aos outros, quando eles próprios nada possuem? Qual pode ser o

estímulo à honradez, para criaturas a quem se haja persuadido que não

passam de simples animais? A lei, respondem, aí está para contê-los, mas a

lei não é um código de moral que toque o coração; é uma força cuja ação

eles suportam e que iludem, se o podem. Se lhe caem sob o guante, isso é

por eles tido como resultado de má sorte ou de inabilidade, a que tratam

de remediar na primeira ocasião.

Os que pretendem que os incrédulos têm mais mérito em fazer o

bem, por não esperarem nenhuma recompensa numa vida futura, em que

não creem, se valem de um sofisma igualmente mal fundado. Também os

crentes dizem que é pouco meritório o bem praticado com vistas em van

tagens que possam colher. Vão mesmo mais longe, porquanto se acham

persuadidos de que o mérito pode ser completamente anulado, tal o móvel

que determine a ação. A perspectiva da vida futura não exclui o desinteres

se nas boas obras, porque a ventura que elas proporcionam está, antes de

tudo, subordinada ao grau de adiantamento moral do indivíduo. Ora, os

orgulhosos e os ambiciosos se contam entre os menos aquinhoados. Mas os

incrédulos que praticam o bem são tão desinteressados como o pretendem?

Será que, nada esperando do outro mundo também deste nada esperam?

O amor-próprio não tem no caso a sua parte? Serão eles insensíveis aos

aplausos dos homens? Se tal acontecesse, estariam num grau de perfeição

rara e não cremos haja muitos que a tanto sejam induzidos unicamente

pelo culto da matéria.

Objeção mais séria é esta: Se a crença na vida futura é um elemento

moralizador, como é que aqueles a quem se prega isso desde que vêm ao

mundo são igualmente tão maus?

Primeiramente, quem nos diz que sem isso não seriam piores? Não

há duvidar, desde que se considerem os resultados inevitáveis da populari

zação do nadismo. Não se comprova, ao contrário, observando-se as dife

rentes graduações da Humanidade, desde a selvajaria até a civilização, que

o progresso intelectual e moral vai à frente, produzindo o abrandamento

dos costumes e uma concepção mais racional da vida futura? Essa concep

ção, no entanto, por muito imperfeita, ainda não pode exercer a influência

que necessariamente terá, à medida que for mais bem compreendida e que

se adquiram noções mais exatas sobre o futuro que nos está reservado.

Por muito sólida que seja a crença na imortalidade, o homem não se

preocupa com a sua alma, senão de um ponto de vista místico. A vida futu

ra, definida com extrema falta de clareza, só muito vagamente o impressio

na; não passa de um objetivo que se perde muito ao longe, e não um meio,

porque a sorte lhe está irrevogavelmente assinada e em parte alguma lha

apresentam como progressiva, donde se conclui que aquilo que formos, ao

sair daqui, sê-lo-emos por toda a eternidade. Aliás, o quadro que traçam da

vida futura, as condições determinantes da felicidade ou da desventura que

lá se experimentam, longe estão, sobretudo num século de exame, como o

nosso, de satisfazer completamente à razão. Acresce que ela não se prende

muito diretamente à vida terrestre, nenhuma solidariedade havendo entre

as duas, mas, antes, um abismo, de maneira que aquele que se preocupa

principalmente com uma das duas quase sempre perde a outra de vista.

Sob o império da fé cega, essa crença abstrata bastara às inspirações

dos homens que, então, se deixavam conduzir. Hoje, porém, sob o reinado

do livre-exame, eles querem conduzir-se por si mesmos, ver com seus pró

prios olhos e compreender. Aquelas vagas noções da vida futura já não estão

à altura das novas ideias e já não correspondem às necessidades que o pro

gresso criou. Com o desenvolvimento das ideias, tudo tem que progredir

em torno do homem, porque tudo se liga, tudo é solidário em a Natureza:

ciências, crenças, cultos, legislações, meios de ação. O movimento para a

frente é irresistível, porque é lei da existência dos seres. O que quer que

fique para trás, abaixo do nível social, é posto de lado, como vestuário que

se tornou imprestável e, finalmente, arrastado pela onda que se avoluma.

O mesmo acontece com as ideias pueris sobre a vida futura, com que

os nossos pais se contentavam; persistir hoje em impô-las seria propagar a

incredulidade. Para que a opinião geral a aceite e para que ela exerça sua

ação moralizadora, a vida futura tem que ser apresentada sob o aspecto de

coisa positiva, de certo modo tangível e capaz de suportar qualquer exame,

satisfazendo à razão, sem nada deixar na sombra. No momento em que a

precariedade das noções sobre o porvir abria a porta à dúvida e à incredu

lidade, novos meios de investigação foram conferidos ao homem, para pe

netrar esse mistério e fazer-lhe compreender a vida futura na sua realidade,

em seu positivismo, nas suas relações íntimas com a vida corpórea.

Por que, em geral, se cuida tão pouco da vida futura? Trata-se, no

entanto, de uma atualidade, pois que todos os dias milhares de homens

partem para esse destino desconhecido. Tendo cada um de nós de partir

por sua vez e podendo a hora da partida soar de um momento para outro,

parece natural que todos se preocupem com o que sucederá. Por que não

se dá isso? Precisamente porque é desconhecido o destino e porque, até

o presente, ninguém tinha meio de conhecê-lo. A Ciência, inexorável, o

desalojou dos lugares onde o tinham limitado. Está ele perto? Está longe?

Acha-se perdido no infinito? As filosofias de antanho nada respondem,

porque nada sabem a respeito. Diz-se então: “Será o que for”. Indiferença.

Ensinam-nos que seremos felizes ou infelizes, conforme houvermos

vivido bem ou mal. Mas isso é tão vago! Em que consistem essa felici

dade e essa infelicidade? O quadro que de uma e outra nos traçam tão

em desacordo está com a ideia que fazemos da Justiça de Deus, tão cheio

de contradições, de inconsequências, de impossibilidades radicais, que

involuntariamente a dúvida se apresenta, senão a incredulidade absoluta.

Ademais, pondera-se que os que se enganaram com relação aos lugares in

dicados para moradas futuras também podem ter sido induzidos em erro,

quanto às condições que estatuem para a felicidade e para o sofrimento.

Aliás, como seremos nesse outro mundo? Seremos seres concretos ou abs

tratos? Teremos uma forma ou uma aparência? Se nada de material tiver

mos, como poderemos experimentar sofrimentos materiais? Se os ditosos

nada tiverem que fazer, a ociosidade perpétua, em vez de uma recompensa,

será um suplício, a menos que se admita o Nirvana do budismo, que não é

mais desejável do que aquela ociosidade.

O homem não se preocupará com a vida futura, senão quando vir

nela um fim claro e positivamente definido, uma situação lógica, em cor

respondência com todas as suas aspirações, que resolva todas as dificulda

des do presente e em que não se lhe depare coisa alguma que a razão não

possa admitir. Se ele se preocupa com o dia seguinte, é porque a vida do

dia seguinte se liga intimamente à vida do dia anterior; uma e outra são

solidárias; ele sabe que do que fizer hoje depende a sua posição amanhã e

que do que fizer amanhã dependerá a sua posição no dia imediato e assim

por diante.

Tal tem de ser para ele a vida futura, quando esta não mais se achar

perdida nas nebulosidades da abstração e for uma atualidade palpável, com

plemento necessário da vida presente, uma das fases da vida geral, como os

dias são fases da vida corporal. Quando vir o presente reagir sobre o futuro,

pela força das coisas, e, sobretudo, quando compreender a reação do futuro

sobre o presente; quando, em suma, verificar que o passado, o presente e o

futuro se encadeiam por inflexível necessidade, como o ontem, o hoje e o

amanhã na vida atual, oh! então suas ideias mudarão completamente, por

que ele verá na vida futura não só um fim, como também um meio; não

um efeito distante, mas atual. Então, igualmente, essa crença exercerá sem

dúvida, e por uma consequência toda natural, ação preponderante sobre o

estado social e sobre a moralização da Humanidade.

Tal o ponto de vista donde o Espiritismo nos faz considerar a vida

futura.

Questões e problemas

As expiações coletivas16

Questão – O Espiritismo explica perfeitamente a causa dos sofrimentos

individuais, como consequências imediatas das faltas cometidas na existên

cia precedente, ou como expiação do passado, mas, uma vez que cada um só

é responsável pelas suas próprias faltas, não se explicam satisfatoriamente as

desgraças coletivas que atingem as aglomerações de indivíduos, às vezes, uma

família inteira, toda uma cidade, toda uma nação, toda uma raça, e que se

abatem tanto sobre os bons, como sobre os maus, assim sobre os inocentes, como

sobre os culpados.

Resposta – Todas as leis que regem o Universo, sejam físicas ou mo

rais, materiais ou intelectuais, foram descobertas, estudadas, compreen

didas, partindo-se do estudo da individualidade e do da família para o de

todo o conjunto, generalizando-as gradualmente e comprovando-se-lhes a

universalidade dos resultados.

Outro tanto se verifica hoje com relação às leis que o estudo do Es

piritismo dá a conhecer. Podem aplicar-se, sem medo de errar, as leis que

regem o indivíduo à família, à nação, às raças, ao conjunto dos habitantes

dos mundos, os quais formam individualidades coletivas. Há as faltas do

indivíduo, as da família, as da nação; e cada uma, qualquer que seja o seu

caráter, se expia em virtude da mesma lei. O algoz expia, relativamente

à sua vítima, quer indo a encontrar-se em sua presença no espaço, quer

vivendo em contato com ela numa ou em muitas existências sucessivas,

até a reparação do mal praticado. O mesmo sucede quando se trata de

crimes cometidos solidariamente por certo número de pessoas. As expia

ções também são solidárias, o que não suprime a expiação simultânea das

faltas individuais.

Três caracteres há em todo homem: o do indivíduo, do ser em si mes

mo; o de membro da família e, finalmente, o de cidadão. Sob cada uma dessas

três faces pode ele ser criminoso e virtuoso, isto é, pode ser virtuoso como pai

de família, ao mesmo tempo que criminoso como cidadão e reciprocamente.

Daí as situações especiais que para si cria nas suas sucessivas existências.

Salvo alguma exceção, pode-se admitir como regra geral que todos

aqueles que numa existência vêm a estar reunidos por uma tarefa comum

já viveram juntos para trabalhar com o mesmo objetivo e ainda reunidos se

acharão no futuro, até que hajam atingido a meta, isto é, expiado o passa

do, ou desempenhado a missão que aceitaram.

Graças ao Espiritismo, compreendeis agora a justiça das provações

que não decorrem dos atos da vida presente, porque reconheceis que elas

são o resgate das dívidas do passado. Por que não haveria de ser assim

com relação às provas coletivas? Dizeis que os infortúnios de ordem geral

alcançam assim o inocente como o culpado, mas não sabeis que o inocente

de hoje pode ser o culpado de ontem? Quer ele seja atingido individual

mente, quer coletivamente, é que o mereceu. Depois, como já o dissemos,

há as faltas do indivíduo e as do cidadão; a expiação de umas não isenta

da expiação das outras, pois que toda dívida tem que ser paga até a última

moeda. As virtudes da vida privada diferem das da vida pública. Um, que é

excelente cidadão, pode ser péssimo pai de família; outro, que é bom pai de

família, probo e honesto em seus negócios, pode ser mau cidadão, ter so

prado o fogo da discórdia, oprimido o fraco, manchado as mãos em crimes

de lesa-sociedade. Essas faltas coletivas é que são expiadas coletivamente

pelos indivíduos que para elas concorreram, os quais se encontram de novo

reunidos, para sofrerem juntos a pena de talião, ou para terem ensejo de

reparar o mal que praticaram, demonstrando devotamento à causa públi

ca, socorrendo e assistindo aqueles a quem outrora maltrataram. Assim, o

que é incompreensível, inconciliável com a Justiça de Deus, se torna claro

e lógico mediante o conhecimento dessa lei.

A solidariedade, portanto, que é o verdadeiro laço social, não o é ape

nas para o presente; estende-se ao passado e ao futuro, pois que as mesmas s

individualidades se reuniram, reúnem e reunirão, para subir juntas a escala

do progresso, auxiliando-se mutuamente. Eis aí o que o Espiritismo faz

compreensível, por meio da equitativa Lei da Reencarnação e da continui

dade das relações entre os mesmos seres.

clélia duplaNtieR

Nota – Conquanto se subordine aos conhecidos princípios de responsabilidade

pelo passado e da continuidade das relações entre os Espíritos, esta comunica

ção encerra uma ideia de certo modo nova e de grande importância. A distinção

que estabelece entre a responsabilidade decorrente das faltas individuais ou

coletivas, das da vida privada e da vida pública, explica certos fatos ainda mal

conhecidos e mostra de maneira mais precisa a solidariedade existente entre os

seres e entre as gerações.

Assim, muitas vezes um indivíduo renasce na mesma família, ou, pelo me

nos, os membros de uma família renascem juntos para constituir uma família

nova noutra posição social, a fim de apertarem os laços de afeição entre si, ou

reparar agravos recíprocos. Por considerações de ordem mais geral, a criatura

renasce no mesmo meio, na mesma nação, na mesma raça, quer por simpatia,

quer para continuar, com os elementos já elaborados, estudos começados,

para se aperfeiçoar, prosseguir trabalhos encetados e que a brevidade da vida

não lhe permitiu acabar. A reencarnação no mesmo meio é a causa determi

nante do caráter distintivo dos povos e das raças. Embora melhorando-se, os

indivíduos conservam o matiz primário, até que o progresso os haja comple

tamente transformado.

Os franceses de hoje são, pois, os do século passado, os da Idade Média, os dos

tempos druídicos; são os exatores e as vítimas do feudalismo; os que submeteram

outros povos e os que trabalharam pela emancipação deles, que se encontram na

França transformada, onde uns expiam, na humilhação, o seu orgulho de raça e

onde outros gozam o fruto de seus labores. Quando se consideram todos os cri

mes desses tempos em que a vida dos homens e a honra das famílias em nenhuma

conta eram tidas, em que o fanatismo acendia fogueiras em honra da divindade;

quando se pensa em todos os abusos de poder, em todas as injustiças que se co

metiam com desprezo dos mais sagrados direitos, quem pode estar certo de não

haver participado mais ou menos de tudo isso e admirar-se de assistir a grandes e

terríveis expiações coletivas?

Mas dessas convulsões sociais uma melhora sempre resulta; os Espíritos se escla

recem pela experiência; o infortúnio é o estimulante que os impele a procurar

um remédio para o mal; na erraticidade, refletem, tomam novas resoluções e,

quando voltam, fazem coisa melhor. É assim que, de geração em geração, o

progresso se efetua.

Não se pode duvidar de que haja famílias, cidades, nações, raças culpadas, porque,

dominadas por instintos de orgulho, de egoísmo, de ambição, de cupidez, enve

redam por mau caminho e fazem coletivamente o que um indivíduo faz insulada

mente. Uma família se enriquece à custa de outra; um povo subjuga outro povo,

levando-lhe a desolação e a ruína; uma raça se esforça por aniquilar outra raça.

Essa a razão por que há famílias, povos e raças sobre os quais desce a pena de talião.

“Quem matou com a espada perecerá pela espada” são palavras do Cristo, palavras

que se podem traduzir assim: Aquele que fez correr sangue verá o seu também

derramado; aquele que levou o facho do incêndio ao que era de outrem, verá o

incêndio ateado no que lhe pertence; aquele que despojou será despojado; aquele

que escraviza e maltrata o fraco será a seu turno escravizado e maltratado, quer se

trate de um indivíduo, quer de uma nação, ou de uma raça, porque os membros

de uma individualidade coletiva são solidários assim no bem como no mal que em

comum praticaram.

Ao passo que o Espiritismo dilata o campo da solidariedade, o materialismo o

restringe às mesquinhas proporções da efêmera existência do homem, fazendo

da mesma solidariedade um dever social sem raízes, sem outra sanção além da

boa vontade e do interesse pessoal do momento. É uma simples teoria, simples

máxima filosófica, cuja prática nada há que a imponha. Para o Espiritismo, a soli

dariedade é um fato que assenta numa Lei Universal da Natureza, que liga todos

os seres do passado, do presente e do futuro e a cujas consequências ninguém pode

subtrair-se. É esta uma coisa que todo homem pode compreender, por menos

instruído que seja.

Quando todos os homens compreenderem o Espiritismo, compreenderão tam

bém a verdadeira solidariedade e, conseguintemente, a verdadeira fraternidade.

Uma e outra então deixarão de ser simples deveres circunstanciais, que cada um

prega as mais das vezes no seu próprio interesse, e não no de outrem. O reinado

da solidariedade e da fraternidade será forçosamente o da justiça para todos e o da

justiça será o da paz e da harmonia entre os indivíduos, as famílias, os povos e as

raças. Virá esse reinado? Duvidar do seu advento seria negar o progresso. Se com

pararmos a sociedade atual, nas nações civilizadas, com o que era na Idade Média,

reconheceremos grande a diferença. Ora, se os homens avançaram até aqui, por

que haveriam de parar? Observando-se o percurso que eles hão feito apenas de um

século para cá, poder-se-á avaliar o que farão daqui a mais outro século.

As convulsões sociais são revoltas dos Espíritos encarnados contra o mal que os

acicata, índice de suas aspirações a esse Reino de Justiça pelo qual anseiam, sem,

todavia, se aperceberem claramente do que querem e dos meios de consegui-lo.

Por isso é que se movimentam, agitam, tudo subvertem a torto e a direito, criam

sistemas, propõem remédios mais ou menos utópicos, cometem mesmo injustiças

sem conta, por espírito, ao que dizem, de justiça, esperando que desse movimento

saia, porventura, alguma coisa. Mais tarde, definirão melhor suas aspirações e o

caminho se lhes aclarará.

Quem quer que desça ao âmago dos princípios do Espiritismo filosófico, que

considere os horizontes que ele desvenda, as ideias a que dá origem e os senti

mentos que desenvolve, não duvidará da parte preponderante que há de ter na

regeneração, pois que, precisamente e pela força das coisas, ele conduz ao objetivo

a que a Humanidade aspira: ao reino da justiça, pela extinção dos abusos que lhe

hão obstado ao progresso e pela moralização das massas. Se os que sonham com

a restauração do passado não entendessem assim, não se aferrariam tanto a esse

sonho; deixá-lo-iam morrer tranquilamente, como há sucedido a muitas utopias.

Isto, por si só, devera dar que pensar a certos zombadores, fazendo-os ponderar

que talvez haja aí alguma coisa mais séria do que imaginam. Mas há pessoas que

de tudo riem, que ririam mesmo de Deus, se o vissem na Terra. Também há os que

têm medo de que aos seus olhos se apresente a alma que se obstinam em negar.

Qualquer que seja a influência que um dia o Espiritismo chegue a exercer sobre

as sociedades, não se suponha que ele venha a substituir uma aristocracia por

outra, nem a impor leis; primeiramente, porque, proclamando o direito absoluto

à liberdade de consciência e do livre-exame em matéria de fé, quer, como crença,

ser livremente aceito, por convicção, e não por meio de constrangimento. Pela sua

natureza, não pode, nem deve exercer nenhuma pressão. Proscrevendo a fé cega,

quer ser compreendido. Para ele, absolutamente não há mistérios, mas uma fé ra

cional, que se baseia em fatos e que deseja a luz. Não repudia nenhuma descoberta

da Ciência, dado que a Ciência é a coletânea das Leis da Natureza e que, sendo de

Deus essas leis, repudiar a Ciência fora repudiar a obra de Deus.

Em segundo lugar, estando a ação do Espiritismo no seu poder moralizador,

não pode ele assumir nenhuma forma autocrática, porque então faria o que

condena. Sua influência será preponderante, pelas modificações que trará às

ideias, às opiniões, aos caracteres, aos costumes dos homens e às relações so

ciais. E maior será essa influência, pela circunstância de não ser imposta. Forte

como filosofia, o Espiritismo só teria que perder, neste século de raciocínio,

se se transformasse em poder temporal. Não será ele, portanto, que fará as

instituições do mundo regenerado; os homens é que as farão, sob o império

das ideias de justiça, de caridade, de fraternidade e de solidariedade, mais bem

compreendidas, graças ao Espiritismo.

Essencialmente positivo em suas crenças, ele repele todo misticismo, desde que

não se estenda esta denominação, como o fazem os que em nada creem, à crença

em Deus, na alma e na vida futura. Induz, é certo, os homens a se ocuparem

seriamente com a vida espiritual, mas porque essa é a vida normal, sendo nela

que se têm de cumprir os nossos destinos, pois que a vida terrestre é transitória,

passageira. Pelas provas que apresenta da realidade da vida espiritual, ensina aos

homens a não atribuírem mais que relativa importância às coisas deste mundo,

dando-lhes assim força e coragem para suportar com paciência as vicissitudes da

vida terrena. Ensina-lhes que, morrendo, não deixam para sempre este mundo;

que podem a ele voltar, a fim de aperfeiçoarem sua educação intelectual e moral,

a menos que já estejam bastante adiantados para merecerem passar a um mun

do melhor; que os trabalhos e progressos que realizem, ou para cuja realização

contribuam, lhes aproveitarão, concorrendo para que melhorada se lhes torne

a posição futura. Mostra-lhes dessa forma que é de todo o interesse deles não o

desprezarem. Se lhes repugna voltar aqui, uma vez que possuem o livre-arbítrio,

deles depende o fazerem o que é necessário a se tornarem habitantes de outros

orbes, mas que não se iludam sobre as condições que devem preencher para me

recerem uma mudança de residência! Não será por meio de algumas fórmulas,

expressas em palavras ou atos, que o conseguirão, sim por efeito de uma reforma

séria e radical de suas imperfeições, modificando-se, despojando-se das paixões

más, adquirindo dia a dia novas qualidades, ensinando a todos, pelo exemplo,

a linha de proceder que levará solidariamente todos os homens à ventura, pela

fraternidade, pela tolerância, pelo amor.

A Humanidade se compõe de personalidades, que constituem as existências in

dividuais, e das gerações, que constituem as existências coletivas. Umas e outras

avançam na senda do progresso, por variadas fases de provações que, portanto,

são individuais para as pessoas e coletivas para as gerações. Do mesmo modo que,

para o encarnado, cada existência é um passo à frente, cada geração marca um grau

de progresso para o conjunto. É irresistível esse progresso do conjunto e arrasta

as massas, ao mesmo tempo que modifica e transforma em instrumento de rege

neração os erros e prejuízos de um passado que tem de desaparecer. Ora, como

as gerações se compõem dos indivíduos que já viveram nas gerações precedentes,

segue-se que o progresso delas é a resultante do progresso dos indivíduos.

Mas quem demonstrará, poderão dizer, a existência de solidariedade entre a ge

ração atual e as que a precederam, ou entre ela e as que lhe sucederão? Como se

poderia provar que eu já vivi na Idade Média, por exemplo, e que voltarei a tomar

parte nos acontecimentos que se produzirão na sucessão dos tempos?

Nas obras fundamentais da Doutrina e na Revista, o princípio da pluralidade das

existências já foi exaustivamente demonstrado, para que ainda nos detivéssemos

aqui a demonstrá-lo. Nos fatos da vida cotidiana fervilham provas e uma demons

tração quase matemática. Limitamo-nos, pois, a concitar os pensadores a que

atentem nas provas morais que decorrem do raciocínio e da indução.

Será, porventura, necessário vejamos uma coisa, para que nela acreditemos? Ob

servando efeitos, não se pode adquirir a certeza material da causa?

Afora a da experiência, a única senda legítima que se abre para essa investiga

ção consiste em remontar do efeito à causa. A justiça nos oferece notabilíssimo

exemplo desse princípio, quando empreende descobrir os indícios dos meios que

serviram à perpetração de um crime, as intenções que se agregam à culpabilidade

do malfeitor. Este não foi apanhado em flagrante e, contudo, é condenado por

esses indícios.

A Ciência, que pretende caminhar tão só pela via da experiência, afirma todos os

dias princípios que mais não são do que induções das causas por meio unicamente

da observação dos efeitos.

Em Geologia, determina-se a idade das montanhas. Porventura assistiram os geó

logos ao surto delas? Viram formar-se as camadas de sedimento que lhes determi

nam a idade?

Os conhecimentos astronômicos, físicos e químicos permitem se avaliem o peso

dos planetas, suas densidades, seus volumes, a velocidade que os anima, a natureza

dos elementos que os compõem; entretanto, os sábios não fizeram experiências

diretas e é à analogia e à indução que devemos tão belas e preciosas descobertas.

Os homens de antanho, baseados nos testemunhos de seus sentidos, afirmavam

ser o Sol que gira em torno da Terra. No entanto, esse testemunho os enganava e

prevaleceu o raciocínio.

O mesmo se dará com os princípios que o Espiritismo sustenta, desde que se

disponham a estudá-los, sem prevenções, e, então, a Humanidade entrará, real e

rapidamente, numa era de progresso e de regeneração, porque, já não se sentindo

isolados entre dois abismos, o desconhecido do passado e a incerteza do porvir, os

indivíduos trabalharão com energia por aperfeiçoar e multiplicar os elementos da

felicidade que tem de ser obra deles, porque reconhecerão que não é devida ao aca

so a posição que ocupam no mundo e que eles próprios gozarão, no futuro e em

melhores condições, do fruto de seus labores e de suas vigílias. É que o Espiritismo

lhes ensinará que, se as faltas coletivamente cometidas são expiadas solidariamen

te, os progressos realizados em comum são igualmente solidários, princípio em

virtude do qual desaparecerão as dissensões de raças, de famílias e de indivíduos

e a Humanidade, livre das faixas da infância, avançará célere e virilmente, para a

conquista de seus verdadeiros destinos.

O egoísmo e o orgulho

Suas causas, seus efeitos e os meios de destruí-los

É bem sabido que a maior parte das misérias da vida tem origem

no egoísmo dos homens. Desde que cada um pensa em si antes de pen

sar nos outros e cogita antes de tudo de satisfazer aos seus desejos, cada

um naturalmente cuida de proporcionar a si mesmo essa satisfação, a

todo custo, e sacrifica sem escrúpulo os interesses alheios, assim nas

mais insignificantes coisas, como nas maiores, tanto de ordem moral

quanto de ordem material. Daí todos os antagonismos sociais, todas as

lutas, todos os conflitos e todas as misérias, visto que cada um só trata

de despojar o seu próximo.

O egoísmo, por sua vez, se origina do orgulho. A exaltação da perso

nalidade leva o homem a considerar-se acima dos outros. Julgando-se com

direitos superiores, melindra-se com o que quer que, a seu ver, constitua

ofensa a seus direitos. A importância que, por orgulho, atribui à sua pessoa,

naturalmente o torna egoísta.

O egoísmo e o orgulho nascem de um sentimento natural: o instinto

de conservação. Todos os instintos têm sua razão de ser e sua utilidade,

porquanto Deus nada pode ter feito inútil. Ele não criou o mal; o homem

é quem o produz, abusando dos dons de Deus, em virtude do seu livre-ar

bítrio. Contido em justos limites, aquele sentimento é bom em si mesmo.

A exageração é o que o torna mau e pernicioso. O mesmo acontece com

todas as paixões que o homem frequentemente desvia do seu objetivo pro

videncial. Ele não foi criado egoísta, nem orgulhoso por Deus, que o criou

simples e ignorante; o homem é que se fez egoísta e orgulhoso, exagerando

o instinto que Deus lhe outorgou para sua conservação.

Não podem os homens ser felizes, se não viverem em paz, isto é, se

não os animar um sentimento de benevolência, de indulgência e de condes

cendência recíprocas; numa palavra: enquanto procurarem esmagar-se uns

aos outros. A caridade e a fraternidade resumem todas as condições e todos

os deveres sociais; uma e outra, porém, pressupõem a abnegação. Ora, a ab

negação é incompatível com o egoísmo e o orgulho; logo, com esses vícios,

não é possível a verdadeira fraternidade, nem, por conseguinte, igualdade,

nem liberdade, dado que o egoísta e o orgulhoso querem tudo para si.

Eles serão sempre os vermes roedores de todas as instituições pro

gressistas; enquanto dominarem, ruirão aos seus golpes os mais generosos

sistemas sociais, os mais sabiamente combinados. É belo, sem dúvida, pro

clamar-se o reinado da fraternidade, mas para que fazê-lo, se uma causa

destrutiva existe? É edificar em terreno movediço; o mesmo fora decretar a

saúde numa região malsã. Em tal região, para que os homens passem bem,

não bastará se mandem médicos, pois que estes morrerão como os outros;

insta destruir as causas da insalubridade. Para que os homens vivam na

Terra como irmãos, não basta se lhes deem lições de moral; importa des

truir as causas de antagonismo, atacar a raiz do mal: o orgulho e o egoísmo.

Essa a chaga sobre a qual deve concentrar-se toda a atenção dos que

desejem seriamente o bem da Humanidade. Enquanto subsistir semelhan

te obstáculo, eles verão paralisados todos os seus esforços, não só por uma

resistência de inércia, como também por uma força ativa que trabalhará in

cessantemente no sentido de destruir a obra que empreendam, por isso que

toda ideia grande, generosa e emancipadora arruína as pretensões pessoais.

Impossível, dir-se-á, destruir o orgulho e o egoísmo, porque são ví

cios inerentes à espécie humana. Se fosse assim, houvéramos de desesperar

de todo progresso moral; entretanto, desde que se considere o homem nas

diferentes épocas transcorridas, não há negar que evidente progresso se

efetuou. Ora, se ele progrediu, ainda naturalmente progredirá. Por outro

lado, não se encontrará homem nenhum sem orgulho, nem egoísmo? Não

se veem, ao contrário, criaturas de índole generosa, em quem parecem ina

tos os sentimentos do amor ao próximo, da humildade, do devotamente

e da abnegação? O número delas, positivamente, é menor do que o dos

egoístas; se assim não fosse, não seriam estes últimos os fautores da lei.

Há muito mais criaturas dessas do que se pensa e, se parecem tão pouco

numerosas, é porque o orgulho se põe em evidência, ao passo que a virtude

modesta se conserva na obscuridade.

Se, portanto, o orgulho e o egoísmo se contassem entre as condições

necessárias da Humanidade, como a da alimentação para sustento da vida,

não haveria exceções. O ponto essencial, pois, é conseguir que a exceção

passe a constituir regra; para isso, trata-se, antes de tudo, de destruir as

causas que produzem e entretêm o mal.

Dessas causas, a principal reside evidentemente na ideia falsa que o

homem faz da sua natureza, do seu passado e do seu futuro. Por não saber

donde vem, ele se crê mais do que é; e não sabendo para onde vai, concentra

na vida terrena todo o seu pensar; acha-a tão agradável, quanto possível; an

seia por todas as satisfações, por todos os gozos; essa a razão por que atropela

sem escrúpulo o seu semelhante, se este lhe opõe alguma dificuldade. Mas,

para isso, é preciso que ele predomine; a igualdade daria, a outros, direitos

que ele só quer para si; a fraternidade lhe imporia sacrifícios em detrimen

to do seu bem-estar; a liberdade também ele só a quer para si e somente a

concede aos outros quando não lhe fira de modo algum as prerrogativas.

Alimentando todos as mesmas pretensões, têm resultado os perpétuos con

flitos que os levam a pagar bem caro os raros gozos que logram obter.

Identifique-se o homem com a vida futura e completamente mudará

a sua maneira de ver, como a do indivíduo que apenas por poucas horas

haja de permanecer numa habitação má e que sabe que, ao sair, terá outra,

magnífica, para o resto de seus dias.

A importância da vida presente, tão triste, tão curta, tão efêmera, se

apaga, para ele, ante o esplendor do futuro infinito que se lhe desdobra às

vistas. A consequência natural e lógica dessa certeza é sacrificar o homem

um presente fugidio a um porvir duradouro, ao passo que antes ele tudo

sacrificava ao presente. Tomando por objetivo a vida futura, pouco lhe im

porta estar um pouco mais ou um pouco menos nesta outra; os interesses

mundanos passam a ser o acessório, em vez de ser o principal; ele trabalha

no presente com o fito de assegurar a sua posição no futuro, tanto mais

quando sabe em que condições poderá ser feliz.

Pelo que toca aos interesses terrenos, podem os humanos criar-lhe obs

táculos: ele tem que os afastar e se torna egoísta pela força mesma das coisas.

Se lançar os olhos para o alto, para uma felicidade a que ninguém pode obstar,

interesse nenhum se lhe deparará em oprimir a quem quer que seja e o egoís

mo se lhe torna carente de objeto. Todavia, restará o estimulante do orgulho.

A causa do orgulho está na crença, em que o homem se firma, da sua

superioridade individual. Ainda aí se faz sentir a influência da concentra

ção dos pensamentos sobre a vida corpórea. Naquele que nada vê adiante

de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja

e o orgulho fica sem contrapeso.

A incredulidade não só carece de meios para combater o orgulho,

como o estimula e lhe dá razão, negando a existência de um poder supe

rior à Humanidade. O incrédulo apenas crê em si mesmo; é, pois, natural

que tenha orgulho. Enquanto, nos golpes que o atingem, unicamente vê

uma obra do acaso e se ergue para combatê-la, aquele que tem fé percebe

a mão de Deus e se submete. Crer em Deus e na vida futura é, conseguin

temente, a primeira condição para moderar o orgulho; porém, não basta.

Juntamente com o futuro, é necessário ver o passado, para fazer ideia

exata do presente.

Para que o orgulhoso deixe de crer na sua superioridade, cumpre se

lhe prove que ele não é mais do que os outros e que estes são tanto quanto

ele; que a igualdade é um fato, e não apenas uma bela teoria filosófica; que

estas verdades ressaltam da preexistência da alma e da reencarnação.

Sem a preexistência da alma, o homem é induzido a acreditar que

Deus, dado creia em Deus, lhe conferiu vantagens excepcionais; quando

não crê em Deus, rende graças ao acaso e ao seu próprio mérito. Inician

do-o na vida anterior da alma, a preexistência lhe ensina a distinguir, da

vida corporal, transitória, a vida espiritual, infinita; ele fica sabendo que

as almas saem todas iguais das mãos do Criador; que todas têm o mesmo

ponto de partida e a mesma finalidade, que todas hão de alcançar, em mais

ou menos tempo, conforme os esforços que empreguem; que ele próprio

não chegou a ser o que é, senão depois de haver, por longo tempo e penosa

mente, vegetado, como os outros, nos degraus inferiores da evolução; que,

entre os mais atrasados e os mais adiantados, não há senão uma questão

de tempo; que as vantagens do nascimento são puramente corpóreas e

independem do Espírito; que o simples proletário pode, noutra existência,

nascer num trono e o maior potentado renascer proletário.

Se levar em conta unicamente a vida planetária, ele vê apenas as desi

gualdades sociais do momento, que são as que o impressionam; se, porém,

deitar os olhos sobre o conjunto da vida do Espírito, sobre o passado e o fu

turo, desde o ponto de partida até o de chegada, aquelas desigualdades se so

mem e ele reconhece que Deus nenhuma vantagem concedeu a qualquer de

seus filhos em prejuízo dos outros; que deu parte igual a todos e não achanou

o caminho mais para uns do que para outros; que o que se apresenta menos

adiantado do que ele na Terra pode tomar-lhe a dianteira, se trabalhar mais do

que ele por aperfeiçoar-se; reconhecerá, finalmente, que, nenhum chegando

ao termo senão por seus esforços, o princípio da igualdade é um princípio de

justiça e uma Lei da Natureza, perante a qual cai o orgulho do privilégio.

Provando que os Espíritos podem renascer em diferentes condições

sociais, quer por expiação, quer por provação, a reencarnação ensina que

naquele a quem tratamos com desdém pode estar um que foi nosso supe

rior ou nosso igual noutra existência, um amigo ou um parente. Se o sou

besse, o que com ele se defronta o trataria com atenções, mas, nesse caso,

nenhum mérito teria; por outro lado, se soubesse que o seu amigo atual

foi seu inimigo, seu servo ou seu escravo, sem dúvida o repeliria. Ora, não

quis Deus que fosse assim, pelo que lançou um véu sobre o passado. Deste

modo, o homem é levado a ver, em todos, irmãos seus e seus iguais, donde

uma base natural para a fraternidade; sabendo que pode ser tratado como

haja tratado os outros, a caridade se lhe torna um dever e uma necessidade

fundados na própria natureza.

Jesus assentou o princípio da caridade, da igualdade e da fraterni

dade, fazendo dele uma condição expressa para a salvação, mas estava re

servado à terceira manifestação da vontade de Deus, ao Espiritismo, pelo

conhecimento que faculta da vida espiritual, pelos novos horizontes que

desvenda e pelas leis que revela, sancionar esse princípio, provando que ele

não encerra uma simples doutrina moral, mas uma Lei da Natureza que

o homem tem o máximo interesse em praticar. Ora, ele a praticará desde

que, deixando de encarar o presente como o começo e o fim, compreenda

a solidariedade que existe entre o presente, o passado e o futuro. No campo

imenso do infinito, que o Espiritismo lhe faz entrever, anula-se a sua im

portância capital e ele percebe que, por si só, nada vale e nada é; que todos

têm necessidade uns dos outros e que uns não são mais do que os outros:

duplo golpe, no seu egoísmo e no seu orgulho.

Para isso, é-lhe necessária a fé, sem a qual permanecerá na rotina do

presente, não a fé cega, que foge à luz, restringe as ideias e, em consequência,

alimenta o egoísmo. É-lhe necessária a fé inteligente, racional, que procura

a claridade, e não as trevas, que ousadamente rasga o véu dos mistérios e

alarga o horizonte. Essa fé, elemento básico de todo progresso, é que o Es

piritismo lhe proporciona, fé robusta, porque assente na experiência e nos

fatos, porque lhe fornece provas palpáveis da imortalidade da sua alma, lhe

mostra donde ele vem, para onde vai e por que está na Terra e, finalmente,

lhe firma as ideias, ainda incertas, sobre o seu passado e sobre o seu futuro.

Uma vez que haja entrado decisivamente por esse caminho, já não

tendo o que os incite, o egoísmo e o orgulho se extinguirão pouco a pouco,

por falta de objetivo e de alimento, e todas as relações sociais se modifica

rão sob o influxo da caridade e da fraternidade bem compreendidas.

Poderá isso dar-se por efeito de brusca mudança? Não, fora impos

sível: nada se opera bruscamente em a Natureza; jamais a saúde volta de

súbito a um enfermo; entre a enfermidade e a saúde, há sempre a convales

cença. Não pode o homem mudar instantaneamente o seu ponto de vista

e volver da Terra para o céu o olhar; o infinito o confunde e deslumbra; ele

precisa de tempo para assimilar as novas ideias.

O Espiritismo é, sem contradita, o mais poderoso elemento de mo

ralização, porque mina pela base o egoísmo e o orgulho, facultando um

ponto de apoio à moral. Há feito milagres de conversão; é certo que ainda

são apenas curas individuais, e não raro parciais. O que, porém, ele há

produzido com relação a indivíduos constitui penhor do que produzirá

um dia sobre as massas. Não lhe é possível arrancar de um só golpe as

ervas daninhas. Ele dá a fé e a fé é a boa semente, mas mister se faz que

ela tenha tempo de germinar e de frutificar, razão por que nem todos os

espíritas já são perfeitos.

Ele tomou o homem em meio da vida, no fogo das paixões, em

plena força dos preconceitos e se, em tais circunstâncias, operou prodí

gios, que não será quando o tomar ao nascer, ainda virgem de todas as

impressões malsãs; quando a criatura sugar com o leite a caridade e tiver a

fraternidade a embalá-lo; quando, enfim, toda uma geração for educada e

alimentada com ideias que a razão, desenvolvendo-se, fortalecerá, em vez

de falsear? Sob o domínio destas ideias, a cimentarem a fé comum a todos,

não mais esbarrando o progresso no egoísmo e no orgulho, as instituições

se reformarão por si mesmas e a Humanidade avançará rapidamente para

os destinos que lhe estão prometidos na Terra, aguardando os do Céu.

200

Liberdade, igualdade, fraternidade

Liberdade, igualdade, fraternidade. Estas três palavras constituem,

por si sós, o programa de toda uma ordem social que realizaria o mais

absoluto progresso da Humanidade, se os princípios que elas exprimem

pudessem receber integral aplicação. Vejamos quais os obstáculos que, no

estado atual da sociedade, se lhes opõem e, ao lado do mal, procuremos

o remédio.

A fraternidade, na rigorosa acepção do termo, resume todos os de

veres dos homens, uns para com os outros. Significa: devotamento, abne

gação, tolerância, benevolência, indulgência. É, por excelência, a caridade

evangélica e a aplicação da máxima: “Proceder para com os outros, como

quereríamos que os outros procedessem para conosco”. O oposto do egoís

mo. A fraternidade diz: “Um por todos e todos por um”. O egoísmo diz:

“Cada um por si”. Sendo estas duas qualidades a negação uma da outra,

tão impossível é que um egoísta proceda fraternalmente para com os seus

semelhantes, quanto a um avarento ser generoso, quanto a um indivíduo

de pequena estatura atingir a de um outro alto. Ora, sendo o egoísmo a

chaga dominante da sociedade, enquanto ele reinar soberanamente, im

possível será o reinado da fraternidade verdadeira. Cada um a quererá em

seu proveito; não quererá, porém, praticá-la em proveito dos outros, ou, se

o fizer, será depois de se certificar de que não perderá coisa alguma.

Considerada do ponto de vista da sua importância para a realização

da felicidade social, a fraternidade está na primeira linha: é a base. Sem ela,

não poderiam existir a igualdade, nem a liberdade séria. A igualdade decor

re da fraternidade e a liberdade é consequência das duas outras.

Com efeito, suponhamos uma sociedade de homens bastante de

sinteressados, bastante bons e benévolos para viverem fraternalmente, sem

haver entre eles nem privilégios, nem direitos excepcionais, pois de outro

modo não haveria fraternidade. Tratar a alguém de irmão é tratá-lo de

igual para igual; é querer quem assim o trate, para ele, o que para si pró

prio quereria. Num povo de irmãos, a igualdade será a consequência de

seus sentimentos, da maneira de procederem, e se estabelecerá pela força

mesma das coisas. Qual, porém, o inimigo da igualdade? O orgulho, que

faz queira o homem ter em toda parte a primazia e o domínio, que vive

de privilégios e exceções, poderá suportar a igualdade social, mas não a

fundará nunca e na primeira ocasião a desmantelará. Ora, sendo também

o orgulho uma das chagas da sociedade, enquanto não for banido, oporá

obstáculo à verdadeira igualdade.

A liberdade, dissemo-lo, é filha da fraternidade e da igualdade. Fa

lamos da liberdade legal, e não da liberdade natural, que, de direito, é im

prescritível para toda criatura humana, desde o selvagem até o civilizado.

Os homens que vivam como irmãos, com direitos iguais, animados do

sentimento de benevolência recíproca, praticarão entre si a justiça, não

procurarão causar danos uns aos outros e nada, por conseguinte, terão que

temer uns dos outros. A liberdade nenhum perigo oferecerá, porque nin

guém pensará em abusar dela em prejuízo de seus semelhantes. Mas como

poderiam o egoísmo, que tudo quer para si, e o orgulho, que incessante

mente quer dominar, dar a mão à liberdade que os destronaria? O egoísmo

e o orgulho são, pois, os inimigos da liberdade, como o são da igualdade e

da fraternidade.

A liberdade pressupõe confiança mútua. Ora, não pode haver con

fiança entre pessoas dominadas pelo sentimento exclusivista da persona

lidade. Não podendo cada uma satisfazer-se a si própria senão à custa de

outrem, todas estarão constantemente em guarda umas contra as outras.

Sempre receosas de perderem o a que chamam seus direitos, a dominação

constitui a condição mesma da existência de todas, pelo que armarão con

tinuamente ciladas à liberdade e a coarctarão quanto puderem.

Aqueles três princípios são, pois, conforme acima dissemos, solidá

rios entre si e se prestam mútuo apoio; sem a reunião deles o edifício social

não estaria completo. O da fraternidade não pode ser praticado em toda

a pureza, com exclusão dos dois outros, porquanto, sem a igualdade e a

liberdade, não há verdadeira fraternidade. A liberdade sem a fraternidade é

rédea solta a todas as más paixões, que desde então ficam sem freio; com a

fraternidade, o homem nenhum mau uso faz da sua liberdade: é a ordem;

sem a fraternidade, usa da liberdade para dar curso a todas as suas torpezas:

é a anarquia, a licença. Por isso é que as nações mais livres se veem obrigadas

a criar restrições à liberdade. A igualdade, sem a fraternidade, conduz aos

mesmos resultados, visto que a igualdade reclama a liberdade; sob o pretex

to de igualdade, o pequeno rebaixa o grande, para lhe tomar o lugar, e se

torna tirano por sua vez; tudo se reduz a um deslocamento de despotismo.

Seguir-se-á daí que, enquanto os homens não se acharem imbuídos

do sentimento de fraternidade, será necessário tê-los em servidão? Dar-se-á

sejam inaptas as instituições fundadas sobre os princípios de igualdade e de

liberdade? Semelhante opinião fora mais que errônea; seria absurda. Nin

guém espera que uma criança se ache com o seu crescimento completo para

lhe ensinar a andar. Quem, ademais, os tem sob tutela? Serão homens de

ideias elevadas e generosas, guiados pelo amor do progresso? Serão homens

que se aproveitem da submissão dos seus inferiores para lhes desenvolver o

senso moral e elevá-los pouco a pouco à condição de homens livres? Não;

são, em sua maioria, homens ciosos do seu poder, a cuja ambição e cupidez

outros homens servem de instrumentos mais inteligentes do que animais e

que, então, em vez de emancipá-los, os conservam, por todo o tempo que

for possível, subjugados e na ignorância.

Porém, esta ordem de coisas muda de si mesma, pelo poder irre

sistível do progresso. A reação é não raro violenta e tanto mais terrível,

enquanto o sentimento da fraternidade, imprudentemente sufocado, não

logra interpor o seu poder moderador; a luta se empenha entre os que que

rem tomar e os que querem reter; daí um conflito que se prolonga às vezes

por séculos. Afinal, um equilíbrio fictício se estabelece; há qualquer coisa

de melhor. Sente-se, porém, que as bases sociais não estão sólidas; a cada

passo o solo treme, por isso que ainda não reinam a liberdade e a igualda

de, sob a égide da fraternidade, porque o orgulho e o egoísmo continuam

empenhados em fazer se malogrem os esforços dos homens de bem.

Todos vós que sonhais com essa idade de ouro para a Humanidade

trabalhai, antes de tudo, na construção da base do edifício, sem pensardes

em lhe colocar a cúpula; ponde-lhe nas primeiras fiadas a fraternidade

na sua mais pura acepção. No entanto, para isso, não basta decretá-la e

inscrevê-la numa bandeira; faz-se mister que ela esteja no coração dos

homens e não se muda o coração dos homens por meio de ordenações.

Do mesmo modo que para fazer que um campo frutifique, é necessário se

lhe arranquem os pedrouços e os tocos, aqui também é preciso trabalhar

sem descanso por extirpar o vírus do orgulho e do egoísmo, pois que aí

se encontra a causa de todo o mal, o obstáculo real ao reinado do bem.

Eliminai das leis, das instituições, das religiões, da educação até os últimos

vestígios dos tempos de barbárie e de privilégios, bem como todas as cau

sas que alimentam e desenvolvem esses eternos obstáculos ao verdadeiro

progresso, os quais, por assim dizer, bebemos com o leite e aspiramos por

todos os poros na atmosfera social. Somente então os homens compreen

derão os deveres e os benefícios da fraternidade e também se firmarão por

si mesmos, sem abalos, nem perigos, os princípios complementares, os da

igualdade e da liberdade.

Será possível a destruição do orgulho e do egoísmo? Responderemos

alto e terminantemente: SIM. Do contrário, forçoso seria determinar um

ponto de parada ao progresso da Humanidade. Que o homem cresce em

inteligência, é fato incontestável; terá ele chegado ao ponto culminante,

além do qual não possa ir? Quem ousaria sustentar tão absurda tese? Pro

gride ele em moralidade? Para responder a esta questão, basta se compa

rem as épocas de um mesmo país. Por que teria ele atingido o limite do

progresso moral, e não o do progresso intelectual? Sua aspiração por uma

melhor ordem de coisas é indício da possibilidade de alcançá-la. Aos que

são progressistas cabe acelerar esse movimento por meio do estudo e da

utilização dos meios mais eficientes.

As aristocracias

Aristocracia vem do grego aristos, o melhor, e kratos, poder. Aristocra

cia, pois, em sua acepção literal, significa: poder dos melhores. Há-se de con

vir em que o sentido primitivo tem sido por vezes singularmente deturpado,

mas vejamos que influência o Espiritismo pode exercer na sua aplicação.

Para esse efeito, tomemos as coisas no ponto de partida e acompanhemo-las

através das idades, a fim de deduzirmos daí o que acontecerá mais tarde.

Em nenhum tempo, nem no seio de nenhum povo, os homens,

em sociedade, hão podido prescindir de chefes; com estes deparamos nas

tribos mais selvagens. Decorre isto de que, em razão da diversidade das

aptidões e dos caracteres inerentes à espécie humana, há por toda parte ho

mens incapazes, que precisam ser dirigidos, homens fracos que reclamam

proteção, paixões que exigem repressão. Daí a necessidade imperiosa de

uma autoridade. É sabido que, nas sociedades primitivas, essa autoridade

foi conferida aos chefes de família, aos antigos, aos anciãos; numa palavra:

aos patriarcas. Essa a primeira de todas as aristocracias.

Tornando-se numerosas as sociedades, a autoridade patriarcal veio

a ficar impotente em certas circunstâncias. As querelas entre povoações

vizinhas deram lugar a combates; fez-se mister, para dirigi-las, não mais os

velhos, porém homens fortes, vigorosos e inteligentes; daí os chefes milita

res. Vitoriosos, estes chefes foram investidos da autoridade, esperando os

seus comandados que com a valentia deles estariam garantidos contra os

ataques dos inimigos. Muitos, abusando da posição a que tinham sido ele

vados, se apossavam dela por si mesmos. Depois, os vencedores passaram a

impor-se aos vencidos, ou os reduziram à escravidão. Daí a autoridade da

força bruta, que foi a segunda aristocracia.

Os fortes, com os bens que possuíam, transmitiram muito natu

ralmente a seus filhos a autoridade de que desfrutavam; e os fracos, nada

ousando dizer, se habituaram pouco a pouco a ter esses filhos por herdeiros

dos direitos que os pais haviam conquistado e a considerá-los seus superio

res. Veio assim a divisão da sociedade em duas classes: a dos superiores e a

dos inferiores, a dos que mandam e a dos que obedecem. Estabeleceu-se de

tal modo a aristocracia do nascimento, que tão poderosa e preponderante

se tornou, quanto a da força, visto que, se não tinha por si a força, como

nos primeiros tempos, em que importava fizesse cada um o sacrifício da

sua pessoa, dispunha de uma força mercenária. Na posse de todo o poder,

ela naturalmente se arrogou todos os privilégios.

Para conservação destes, era necessário lhes dessem o prestígio da

legalidade; ela então fez leis em seu próprio proveito, o que lhe era fácil,

pois que ninguém mais as fazia. Como isto, entretanto, não bastasse, jun

tou aos privilégios o prestígio do direito divino, para torná-los respeitáveis

e invioláveis. A fim de lhes assegurar o respeito das classes submetidas, que

cada vez mais numerosas se faziam e mais difíceis de ser contidas, mesmo

pela força, um único meio havia: impedi-las de ver claro, isto é, conservá--las na ignorância.

Se a classe superior houvesse podido manter a classe inferior sem

se ocupar com coisa alguma, tê-la-ia governado facilmente durante ainda

longo tempo, mas como a segunda fosse obrigada a trabalhar para viver, e

trabalhar tanto mais quanto mais premida se achava, resultou que a neces

sidade de encontrar incessantemente novos recursos, de lutar contra uma

concorrência invasora, de procurar novos mercados para os produtos, lhe

desenvolveu a inteligência e fez com que as próprias causas, de que os da

classe superior se serviam para trazê-la sujeita, a esclarecessem. Não se pa

tenteia aí o dedo da Providência?

A classe submetida viu com clareza as coisas; viu a fraca consistência

que lhe opunham e, sentindo-se forte pelo número, aboliu os privilégios

e proclamou a igualdade perante a lei. Este princípio, no seio de alguns

povos, marcou o fim do reinado da aristocracia de nascimento, que passou

a ser apenas nominal e honorífica, porquanto já não confere direitos legais.

Elevou-se então uma nova potência, a do dinheiro, porque com di

nheiro se dispõe dos homens e das coisas. Era um Sol nascente e diante do

qual todos se inclinaram, como outrora se curvavam diante de um brasão.

O que não se concedia ao título, concedia-se à riqueza e a riqueza teve

igualmente seus privilégios. Logo, porém, se aperceberam de que, para

conseguir a riqueza, certa dose de inteligência era necessária, não sendo

necessária muita para herdá-la, e de que os descendentes são quase sem

pre mais hábeis em a consumir do que em ganhá-la, de que os próprios

meios de enriquecimento nem sempre são irreprocháveis, donde resultou

ir o dinheiro perdendo pouco a pouco o seu prestígio moral e tender essa

potência a ser substituída por outra, por uma aristocracia mais justa: a da

inteligência, diante da qual todos podem curvar-se, sem se envilecerem,

porque ela pertence tanto ao pobre quanto ao rico.

Será a última? Será a mais alta expressão da Humanidade civilizada?

Não.

A inteligência nem sempre constitui penhor de moralidade e o ho

mem mais inteligente pode fazer péssimo uso de suas faculdades. Doutro

lado, a moralidade, isolada, pode, muita vez, ser incapaz. A reunião dessas

duas faculdades, inteligência e moralidade, é, pois, necessária a criar uma

preponderância legítima, a que a massa se submeterá cegamente, porque

lhe inspirará plena confiança, pelas suas luzes e pela sua justiça.

Será essa a última aristocracia, a que se apresentará como conse

quência, ou, antes, como sinal do advento do reinado do bem na Terra.

Ela se erguerá muito naturalmente pela força mesma das coisas. Quando

os homens de tal categoria forem bastante numerosos para formarem uma

maioria imponente, a massa lhes confiará seus interesses.

Como vimos, todas as aristocracias tiveram sua razão de ser; nas

ceram do estado da Humanidade; assim há de acontecer com o que se

tornará uma necessidade. Todas preencheram ou preencherão seu tempo,

conforme os países, porque nenhuma teve por base o princípio moral; só

este princípio pode constituir uma supremacia durável, porque terá a ani

má-la sentimentos de justiça e caridade. A essa aristocracia chamaremos:

aristocracia intelecto-moral.

Mas semelhante estado de coisas será possível com o egoísmo, o or

gulho, a cupidez que reinam soberanos na Terra? Responderemos termi

nantemente: sim, não só é possível, como se implantará, por ser inevitável.

Já hoje a inteligência domina; é soberana, ninguém o pode contes

tar. É tão verdade isto, que já se vê o homem do povo chegar aos cargos

de primeira ordem. Essa aristocracia não será mais justa, mais lógica, mais

racional do que a da força bruta, do nascimento, ou do dinheiro? Por que,

então, seria impossível que se lhe juntasse a moralidade? — Porque, dizem

os pessimistas, o mal domina sobre a Terra. — Quem ousará dizer que o

bem nunca o sobrepujará? Os costumes e, por conseguinte, as instituições

sociais, não valem cem vezes mais hoje do que na Idade Média? Cada

século não se assinala por um progresso? Por que, então, a Humanidade

pararia, quando ainda tem tanto que fazer? Por instinto natural, os homens

procuram o seu bem-estar; se não o acharem completo no reino da inte

ligência, procurá-lo-ão algures, e onde poderão encontrá-lo, senão no rei

no da moralidade? Para isso, torna-se preciso que a moralidade sobrepuje

numericamente. Não há contestar que muitíssimo se tem que fazer, mas,

ainda uma vez, fora tola pretensão dizer-se que a Humanidade chegou ao

apogeu, quando é vista a avançar continuamente pela senda do progresso.

Digamos, antes de tudo, que os bons, na Terra, não são absoluta

mente tão raros como se julga; os maus são numerosos, é infelizmente

verdade; o que, porém, faz pareçam eles ainda mais numerosos é que têm

mais audácia e sentem que essa audácia lhes é indispensável ao bom êxito.

De tal modo, entretanto, compreendem a preponderância do bem, que,

não podendo praticá-lo, com ele se mascaram.

Os bons, ao contrário, não fazem alarde das suas boas qualidades;

não se põem em evidência, donde o parecerem tão pouco numerosos. Pes

quisai, no entanto, os atos íntimos praticados sem ostentação e, em todas

as camadas sociais, deparareis com criaturas de natureza boa e leal em nú

mero bastante a vos tranquilizar o coração, de maneira a não desesperardes

da Humanidade. Depois, cumpre também dizê-lo, entre os maus, muitos

há que apenas o são por arrastamento e que se tornariam bons, desde que

submetidos a uma influência boa. Admitamos que, em 100 indivíduos,

haja 25 bons e 75 maus; destes últimos, 50 se contam que o são por fra

queza e que seriam bons, se observassem bons exemplos e, sobretudo, se

tivessem sido bem encaminhados desde a infância; dos 25 maus, nem to

dos serão incorrigíveis.

No estado atual das coisas, os maus estão em maioria e ditam a lei

aos bons. Suponhamos que uma circunstância qualquer opere a conversão

de 50 por cento deles: os bons ficarão em maioria e a seu turno ditarão a

lei; dos 25 outros, francamente maus, muitos sofrerão a influência daque

les, restando apenas alguns incorrigíveis sem preponderância.

Tomemos um exemplo, para ilustrar o que acabamos de dizer: Há

povos no seio dos quais o assassínio e o roubo são a normalidade, consti

tuindo exceção o bem. Nos povos mais adiantados e mais bem governados

da Europa, o crime é a exceção; acuado pelas leis, ele nenhuma influência

exerce sobre a sociedade. O que nesses povos ainda predomina são os vícios

de caráter: o orgulho, o egoísmo, a cupidez com seus cortejos.

Por que, progredindo esses povos, os vícios não se tornariam a exce

ção, como o são hoje os crimes, ao passo que os povos inferiores galgariam

o nosso nível? Negar a possibilidade dessa marcha ascendente fora negar o

progresso.

Certamente, chegar a tal estado de coisas não pode ser obra de um

dia, mas se há uma causa capaz de apressar-lhe o advento, essa causa é,

sem nenhuma dúvida, o Espiritismo. Fator, por excelência, da fraternidade

humana, por mostrar que as provas da vida atual são a consequência lógica

e racional dos atos praticados nas existências anteriores, por fazer de cada

homem o artífice voluntário da sua própria felicidade, a vulgarização uni

versal do Espiritismo dará em resultado, necessariamente, uma elevação

sensível do nível moral da atualidade.

Apenas elaborados e coordenados, já os princípios gerais da nossa

filosofia hão congregado, em imponente comunhão de ideias, milhões de

adeptos espalhados por toda a Terra.

Os progressos realizados pela sua influência, as transformações indivi

duais e locais que eles têm provocado em menos de quinze anos, permitem

apreciemos as modificações imensas e radicais que operarão no futuro.

Mas se, graças ao desenvolvimento e à aceitação geral dos ensinos dos

Espíritos, o nível moral da Humanidade tende constantemente a elevar-se,

singularmente se iludiria quem supusesse que a moralidade preponderará

sobre a inteligência. O Espiritismo, com efeito, não quer que o aceitem

cegamente; reclama a discussão e a luz.

“Em vez da fé cega, que aniquila a liberdade de pensar, diz ele: Fé

inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da

Humanidade. A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita

daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo,

compreender” (O evangelho segundo o espiritismo). Com bom direito, pois,

podemos considerar o Espiritismo como um dos mais fortes precursores da

aristocracia do futuro, isto é, da aristocracia intelecto-moral.

Os desertores

Se é certo que todas as grandes ideias contam apóstolos fervorosos e

dedicados, não menos certo é que mesmo as melhores dentre elas têm seus

desertores. O Espiritismo não podia escapar aos efeitos da fraqueza hu

mana. Ele também teve os seus e a esse respeito não serão inúteis algumas

observações.

Nos primeiros tempos, muitos se equivocaram sobre a natureza e os

fins do Espiritismo e não lhe perceberam o alcance. Antes de tudo mais,

excitou a curiosidade; muitos eram os que não viam nas manifestações

espíritas mais do que simples objeto de diversão; divertiram-se com os Es

píritos, enquanto estes quiseram diverti-los. Constituíam um passatempo,

muitas vezes complementar das reuniões familiares.

Esta maneira por que a princípio a coisa se apresentou foi uma tática

hábil dos Espíritos. Sob a forma de divertimento, a ideia penetrou por toda

parte e semeou germens, sem espavorir as consciências timoratas. Brinca

ram com a criança, mas a criança tinha de crescer.

Quando aos Espíritos facetos sucederam os Espíritos sérios, morali

zadores; quando o Espiritismo se tornou ciência, filosofia, as pessoas super

ficiais deixaram de achá-lo divertido; para os que se preocupam sobretudo

com a vida material, era um censor importuno e embaraçoso, pelo que não

poucos o puseram de lado. Não há que deplorar a existência desses deserto

res, porquanto as criaturas frívolas não passam de pobres auxiliares, seja no

que for. Todavia, essa primeira fase não se pode considerar tempo perdido.

Graças àquele disfarce, a ideia se popularizou cem vezes mais do que se

houvera, desde o primeiro momento, revestido severa forma, e daqueles

meios levianos e displicentes saíram graves pensadores.

Postos em moda pelo atrativo da curiosidade, constituindo um en

godo, os fenômenos tentaram a cupidez dos que andam à cata do que

surge como novidade, na esperança de encontrar aí uma porta aberta. As

manifestações pareceram coisa maravilhosamente explorável e não faltou

quem pensasse em fazer delas um auxiliar de seus negócios; para outros,

eram uma variante da arte da adivinhação, um processo, talvez mais seguro

do que a cartomancia, a quiromancia, a borra de café etc. etc., para se co

nhecer o futuro e descobrir coisas ocultas, uma vez que, segundo a opinião

então corrente, os Espíritos tudo sabiam.

Vendo, afinal, essas pessoas que a especulação lhes escapava dentre

os dedos e dava em mistificação, que os Espíritos não vinham ajudá-las a

enriquecer, nem lhes indicar números que seriam premiados nas loterias,

ou revelar-lhes a boa sorte, ou levá-las a descobrir tesouros, ou a receber

heranças, nem ainda facultar-lhes uma invenção frutuosa de que tirassem

patente, suprir-lhes em suma a ignorância e dispensá-las do trabalho inte

lectual e material, os Espíritos para nada serviam e suas manifestações não

passavam de ilusões. Tanto essas pessoas deferiram louvores ao Espiritis

mo, durante todo o tempo em que esperaram auferir dele algum proveito,

quanto o denegriram desde que chegou a decepção. Mais de um dos críti

cos que o vituperam tê-lo-iam elevado às nuvens, se ele houvesse feito que

descobrissem um tio rico na América, ou que ganhassem na Bolsa. Das

categorias dos desertores, é essa a mais numerosa, mas compreende-se que

os que a formam não podem ser qualificados de espíritas.

Também essa fase apresentou sua utilidade. Mostrando o que não se

devia esperar do concurso dos Espíritos, ela deu a conhecer o objetivo sé

rio do Espiritismo e depurou a Doutrina. Sabem os Espíritos que as lições

da experiência são as mais proveitosas; se, logo de começo, eles dissessem:

Não peçais isto ou aquilo, porque nada conseguires, ninguém mais lhes

daria crédito. Essa a razão por que deixaram que as coisas tomassem o

rumo que tomaram: foi para que da observação ressaltasse a verdade. As

decepções desanimaram os exploradores e contribuíram para que o núme

ro deles diminuísse. Eram parasitos de que elas, as decepções, livraram o

Espiritismo, e não adeptos sinceros.

Alguns indivíduos, mais perspicazes do que outros, entreviram o

homem na criança que acabava de nascer e temeram-na, como Herodes

temeu o menino Jesus. Não se atrevendo a atacar de frente o Espiritismo,

esses indivíduos incitaram agentes com o encargo de o abraçarem para

asfixiá-lo; agentes que se mascaram para em toda parte se intrometerem,

para suscitarem habilmente a desafeição nos centros e espalharem, den

tro destes, com furtiva mão, o veneno da calúnia, acendendo, ao mesmo

tempo, o facho da discórdia, inspirando atos comprometedores, tentando

desencaminhar a Doutrina, a fim de torná-la ridícula ou odiosa e simular

em seguida defecções.

Outros ainda são mais habilidosos: pregando a união, semeiam a

separação; destramente levantam questões irritantes e ferinas; despertam

o ciúme da preponderância entre os diferentes grupos; deleitar-se-iam,

vendo-os apedrejar-se e erguer bandeira contra bandeira, a propósito de

algumas divergências de opiniões sobre certas questões de forma ou de

fundo, as mais das vezes provocadas intencionalmente. Todas as doutrinas

têm tido seus Judas; o Espiritismo não poderia deixar de ter os seus e eles

ainda não lhe faltaram.

Esses são espíritas de contrabando, mas que também foram de algu

ma utilidade: ensinaram ao verdadeiro espírita a ser prudente, circunspecto

e a não se fiar nas aparências.

Por princípio, deve-se desconfiar dos entusiasmos demasiado febris:

são quase sempre fogo de palha, ou simulacros, ardores ocasionais, que su

prem com a abundância de palavras a falta de atos. A verdadeira convicção

é calma, refletida, motivada; revela-se, como a verdadeira coragem, pelos

fatos, isto é, pela firmeza, pela perseverança e, sobretudo, pela abnegação.

O desinteresse moral e material é a legítima pedra de toque da sinceridade.

Tem esta um cunho sui generis; exterioriza-se por matizes muitas

vezes mais fáceis de ser compreendidos do que definidos; é sentida por

efeito dessa transmissão do pensamento, cuja lei o Espiritismo regulou,

sem que a falsidade chegue nunca a simulá-la completamente, visto não

lhe ser possível mudar a natureza das correntes fluídicas que projeta de

si. Ela, a sinceridade, considera erro dar troco à baixa e servil lisonja, que

somente seduz as almas orgulhosas, lisonja por meio da qual precisamente

a falsidade se trai para com as almas elevadas.

Jamais pôde o gelo imitar o calor.

Se passarmos à categoria dos espíritas propriamente ditos, ainda

aí depararemos com certas fraquezas humanas, das quais a doutrina não

triunfa imediatamente. As mais difíceis de vencer-se são o egoísmo e o

orgulho, as duas paixões originárias do homem. Entre os adeptos con

victos, não há deserções, na lídima acepção do termo, visto como aquele

que desertasse, por motivo de interesse ou qualquer outro, nunca teria

sido sinceramente espírita; pode, entretanto, haver desfalecimentos. Pode

dar-se que a coragem e a perseverança fraqueiem diante de uma decepção,

de uma ambição frustrada, de uma preeminência não alcançada, de uma

ferida no amor-próprio, de uma prova difícil. Há o recuo ante o sacrifício

do bem-estar, ante o receio de comprometer os interesses materiais, ante

o medo do “que dirão?”; há o ser-se abatido por uma mistificação, tendo

como consequência, não o afastamento, mas o esfriamento; há o querer

viver para si, e não para os outros, o beneficiar-se da crença, mas sob a

condição de que isso nada custe.

Sem dúvida, podem os que assim procedem ser crentes, mas, sem

contestação, crentes egoístas, nos quais a fé não ateou o fogo sagrado do

devotamento e da abnegação; às suas almas custa o desprenderem-se da

matéria. Fazem nominalmente número, porém não há contar com eles.

Todos os outros são espíritas que em verdade merecem esse qualifi

cativo. Aceitam por si mesmos todas as consequências da Doutrina e são

reconhecíveis pelos esforços que empregam por melhorar-se. Sem despre

zarem, além dos limites do razoável, os interesses materiais, estes são, para

eles, o acessório, e não o principal; não consideram a vida terrena senão

como travessia mais ou menos penosa; estão certos de que do emprego útil

ou inútil que lhe derem depende o futuro; têm por mesquinhos os gozos

que ela proporciona, em face do objetivo esplêndido que entreveem no

Além; não se intimidam com os obstáculos com que topem no caminho;

veem nas vicissitudes e decepções provas que não lhes causam desânimo,

porque sabem que o repouso será o prêmio do trabalho. Daí vem que não

se verificam entre eles deserções, nem falências.

Por isso mesmo, os bons Espíritos protegem manifestamente os que

lutam com coragem e perseverança, aqueles cujo devotamente é sincero e

sem ideias preconcebidas; ajudam-nos a vencer os obstáculos e suavizam

as provas que não possam evitar-lhes, ao passo que, não menos manifesta

mente, abandonam os que se afastam deles e sacrificam a causa da verdade

às suas ambições pessoais.

Deveremos incluir também entre os desertores do Espiritismo os

que se retiram porque a nossa maneira de ver não lhes satisfaz; os que,

por acharem muito lento ou muito rápido o nosso método, pretendem

alcançar mais depressa e em melhores condições a meta a que visamos?

Certamente que não, se têm por guia a sinceridade e o desejo de propagar

a verdade. — Sim, se seus esforços tendem unicamente a se porem eles em

evidência e a chamar sobre si a atenção pública, para satisfação do amor--próprio e de interesses pessoais!...

Tendes um modo de ver diferente do nosso, não simpatizais com os

princípios que admitimos! Nada prova que estais mais próximos da verda

de do que nós. Pode-se divergir de opinião em matéria de ciência; inves

tigai do vosso lado, como nós investigamos do nosso; o futuro dará a ver

qual de nós está em erro ou com a razão. Não pretendemos ser os únicos a

reunir as condições fora das quais não são possíveis estudos sérios e úteis;

o que temos feito podem outros, sem dúvida, fazer. Que os homens inte

ligentes se agreguem a nós, ou se congreguem longe de nós, pouco impor

ta!... Se os centros de estudos se multiplicarem, tanto melhor; será um sinal

de incontestável progresso, que aplaudiremos com todas as nossas forças.

Quanto às rivalidades, às tentativas que façam por nos suplantarem,

temos um meio infalível de não as temer. Trabalhamos para compreender,

por enriquecer a nossa inteligência e o nosso coração; lutamos com os ou

tros, mas lutamos com caridade e abnegação. O amor do próximo inscrito

em nosso estandarte é a nossa divisa; a pesquisa da verdade, venha donde

vier, o nosso único objetivo. Com tais sentimentos, enfrentamos a zomba

ria dos nossos adversários e as tentativas dos nossos competidores. Se nos

enganarmos, não teremos o tolo amor-próprio que nos leve a obstinar-nos

em ideias falsas; há, porém, princípios acerca dos quais podemos todos

estar seguros de nos não enganarmos nunca: o amor do bem, a abnegação,

a proscrição de todo sentimento de inveja e de ciúme. Estes princípios são

os nossos; vemos neles os laços que prenderão todos os homens de bem,

qualquer que seja a divergência de suas opiniões. Somente o egoísmo e a

má-fé erguem entre eles barreiras intransponíveis.

Mas qual será a consequência de semelhante estado de coisas? In

dubitavelmente, o proceder dos falsos irmãos poderá de momento acar

retar algumas perturbações parciais, pelo que todos os esforços devem ser

empregados para levá-las ao malogro, tanto quanto possível; essas pertur

bações, porém, pouco tempo necessariamente durarão e não poderão ser

prejudiciais ao futuro: primeiro, porque são simples manobras de oposição,

fadadas a cair pela força mesma das coisas; depois, digam o que disserem,

ou façam o que fizerem, ninguém seria capaz de privar a Doutrina do seu

caráter distintivo, da sua filosofia racional e lógica, da sua moral consola

dora e regeneradora. Hoje, estão lançadas de forma inabalável as bases do

Espiritismo; os livros escritos sem equívoco e postos ao alcance de todas as

inteligências serão sempre a expressão clara e exata do ensino dos Espíritos

e o transmitirão intacto aos que nos sucederem.

Insta não perder de vista que estamos num momento de transição e

que nenhuma transição se opera sem conflito. Ninguém, pois, deve espan

tar-se de que certas paixões se agitem, por efeito de ambições malogradas,

de interesses feridos, de pretensões frustradas. Pouco a pouco, porém, tudo

isso se extingue, a febre se abranda, os homens passam e as novas ideias

permanecem. Espíritas, se quereis ser invencíveis, sede benévolos e carido

sos; o bem é uma couraça contra a qual sempre se quebrarão as manobras

da malevolência!...

Nada, pois, temamos: o futuro nos pertence. Deixemos que os nos

sos adversários se debatam, apertados pela verdade que os ofusca; qualquer

oposição é impotente contra a evidência, que inevitavelmente triunfa pela

força mesma das coisas. É uma questão de tempo a vulgarização universal

do Espiritismo e neste século o tempo marcha a passo de gigante, sob a

impulsão do progresso.

allaN KaRdec

Nota – Como complemento deste artigo, publicamos uma instrução que sobre

o mesmo assunto Allan Kardec deu, logo que voltou ao mundo dos Espíritos.

Pareceu-nos interessante, para os nossos leitores, juntar às páginas eloquentes

e viris que se acabam de ler a opinião atual do organizador por excelência da

nossa filosofia.

***

Quando eu me achava corporalmente entre vós, disse muitas vezes que havia de

fazer aí uma história do Espiritismo, que não seria destituída de interesse. É este,

ainda agora, o meu parecer e os elementos que eu reunira para esse fim poderão

servir um dia à realização da minha ideia. É que eu, com efeito, me encontrava

mais bem colocado do que qualquer outro para apreciar o curioso espetáculo que a

descoberta e a vulgarização de uma grande verdade provocara. Pressentia outrora,

hoje sei, que ordem maravilhosa e que harmonia inconcebível presidem à con

centração de todos os documentos destinados a dar nascimento à nova obra. A

benevolência, a boa vontade, o devotamento absoluto de uns; a má-fé, a hipocri

sia, as maldosas manobras de outros, tudo concorre para garantir a estabilidade do

edifício que se eleva. Nas mãos das potestades superiores, que presidem a todos os

progressos, as resistências inconscientes ou simuladas, os ataques visando semear o

descrédito e o ridículo, se tornam elementos de elaboração.

Que não têm feito! Que é o que não têm posto em ação para asfixiar no berço a

criança!

A princípio o charlatanismo e a superstição quiseram, ora um, ora outra, apode

rar-se dos nossos princípios, a fim de os explorarem em proveito próprio; todos

os raios da imprensa se projetaram contra nós; chasquearam das coisas mais res

peitáveis; atribuíram aos Espíritos do mal os ensinos dos Espíritos mais dignos da

admiração e da veneração universais; entretanto, todos esses esforços conjugados

mais não conseguiram, senão proclamar a impotência dos nossos adversários.

É dentro dessa luta incessante contra os preconceitos firmados, contra erros acre

ditados, que se aprende a conhecer os homens. Eu sabia, ao consagrar-me à obra

da minha predileção, que me expunha ao ódio, à inveja e ao ciúme dos outros. O

caminho se achava inçado de dificuldades que de contínuo se renovavam. Nada

podendo contra a doutrina, atiravam-se ao homem, mas, por esse lado, eu me sen

tia forte, porque renunciara à minha personalidade. Que me importavam os esfor

ços da calúnia; a minha consciência e a grandeza do objetivo me faziam esquecer

de boa vontade as urzes e os espinhos da estrada. Os testemunhos de simpatia e de

estima, que recebi dos que me souberam apreciar, constituíram a mais estimável

recompensa que eu jamais ambicionara. Mas ah! Quantas vezes teria sucumbido

ao peso da minha tarefa, se a afeição e o reconhecimento de muitos não me hou

vessem feito olvidar a ingratidão e a injustiça de alguns, porquanto, se os ataques

contra mim dirigidos sempre me encontraram insensível, penosamente magoado

me sentia, devo dizê-lo, todas as vezes que descobria falsos amigos entre aqueles

com quem mais contava.

Se é justo censurar os que hão tentado explorar o Espiritismo ou desnaturá-lo em

seus escritos, sem o terem previamente estudado, quão mais culpados não são os

que, depois de lhe haverem assimilado todos os princípios, não contentes de se lhe

apartarem do seio, contra ele voltaram todos os seus esforços! É, sobretudo, para

os desertores dessa categoria que devemos implorar a misericórdia divina, pois

que apagaram voluntariamente o facho que os iluminava e com o qual podiam

esclarecer os outros. Eles, por isso, logo perdem a proteção dos bons Espíritos e,

conforme a triste experiência que temos feito, bem depressa chegam, de queda em

queda, às mais críticas situações!

Desde que voltei para o mundo dos Espíritos, tornei a ver alguns desses infe

lizes! Arrependem-se agora; lamentam a inação em que ficaram e a má vonta

de de que deram prova, sem lograrem, todavia, recuperar o tempo perdido!...

Tornarão em breve à Terra, com o firme propósito de concorrerem ativamente

para o progresso e se verão ainda em luta com as tendências antigas, até que

definitivamente triunfem.

Fora de crer que os espíritas de hoje, esclarecidos por esses exemplos, evitariam cair

nos mesmos erros. Assim, porém, não é. Ainda por longo tempo haverá irmãos

falsos e amigos desassisados, mas, tal como seus irmãos mais velhos, não conse

guirão fazer que o Espiritismo saia da sua diretriz. Embora causem algumas per

turbações momentâneas e puramente locais, nem por isso a Doutrina periclitará.

Ao contrário, os espíritas transviados bem depressa reconhecerão o erro em que

incidiram e virão colaborar com maior ardor na obra por um instante abandonada

e, atuando de acordo com os Espíritos Superiores que dirigem as transformações

humanitárias, caminharão a passo rápido para os ditosos tempos prometidos à

Humanidade regenerada.

allaN KaRdec17

Paris, novembro de 1869

Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo

É imprescritível o direito de exame e de crítica e o Espiritismo não

alimenta a pretensão de subtrair-se ao exame e à crítica como não tem a de

satisfazer a toda gente. Cada um é, pois, livre de o aprovar ou rejeitar, mas,

para isso, necessário se faz discuti-lo com conhecimento de causa. Ora, a

crítica tem por demais provado que lhe ignora os mais elementares prin

cípios, fazendo-o dizer precisamente o contrário do que ele diz, atribuin

do-lhe o que ele desaprova, confundindo-o com as imitações grosseiras e

burlescas do charlatanismo, enfim, apresentando, como regra de todos, as

excentricidades de alguns indivíduos. Também por demais a malignidade

há querido torná-lo responsável por atos repreensíveis ou ridículos, nos

quais o seu nome foi envolvido incidentemente, e disso se aproveita como

arma contra ele.

Antes de imputar a uma doutrina a culpa de incitar a um ato conde

nável qualquer, a razão e a equidade exigem que se examine se essa doutri

na contém máximas que justifiquem semelhante ato.

Para conhecer-se a parte de responsabilidade que, em dada circuns

tância, caiba ao Espiritismo, há um meio muito simples: proceder de boa-fé

a uma perquirição, não entre os adversários, mas na própria fonte, do que

ele aprova e do que condena. Isso é tanto mais fácil, quanto ele não tem

segredos; seus ensinos são patentes e quem quer que seja pode verificá-los.

Assim, se os livros da Doutrina Espírita condenam explícita e formal

mente um ato justamente reprovável; se, ao contrário, só encerram instruções

de natureza a orientar para o bem, segue-se que não foi neles que um indiví

duo culpado de malefícios se inspirou, ainda mesmo que os possua.

O Espiritismo não é solidário com aqueles a quem apraza dizerem-se

espíritas, do mesmo modo que a Medicina não o é com os que a explo

ram, nem a sã religião com os abusos e até crimes que se cometam em seu

nome. Ele não reconhece como seus adeptos senão os que lhe praticam os

ensinos, isto é, que trabalham por melhorar-se moralmente, esforçando-se

por vencer os maus pendores, por ser menos egoístas e menos orgulhosos,

mais brandos, mais humildes, mais caridosos para com o próximo, mais

moderados em tudo, porque é essa a característica do verdadeiro espírita.

Esta breve nota não tem por objeto refutar todas as falsas alegações

que se lançam contra o Espiritismo, nem lhe desenvolver e provar todos

os princípios, nem, ainda menos, tentar converter a esses princípios os que

professem opiniões contrárias, mas, apenas, dizer, em poucas palavras, o

que ele é e o que não é, o que admite e o que desaprova.

As crenças que propugna, as tendências que manifesta e o fim a que

visa se resumem nas proposições seguintes:

1o) O elemento espiritual e o elemento material são os dois princípios,

as duas forças vivas da Natureza, as quais se completam uma a outra e

reagem incessantemente uma sobre a outra, indispensáveis ambas ao fun

cionamento do mecanismo do Universo.

Da ação recíproca desses dois princípios se originam fenômenos que

cada um deles, isoladamente, não tem possibilidade de explicar.

À Ciência, propriamente dita, cabe a missão especial de estudar as

leis da matéria.

O Espiritismo tem por objeto o estudo do elemento espiritual em

suas relações com o elemento material e aponta na união desses dois prin

cípios a razão de uma imensidade de fatos até então inexplicados.

O Espiritismo caminha ao lado da Ciência, no campo da maté

ria: admite todas as verdades que a Ciência comprova, mas não se de

tém onde esta última para: prossegue nas suas pesquisas pelo campo da

espiritualidade.

2o) Sendo o elemento espiritual um estado ativo da Natureza, os fe

nômenos em que ele intervém estão submetidos a leis e são por isso mesmo

tão naturais quanto os que derivam da matéria neutra.

Alguns de tais fenômenos foram reputados sobrenaturais, apenas por

ignorância das leis que os regem. Em virtude desse princípio, o Espiritismo

não admite o caráter de maravilhoso atribuído a certos fatos, embora lhes

reconheça a realidade ou a possibilidade. Não há, para ele, milagres, no

sentido de derrogação das Leis Naturais, donde se segue que os espíritas

não fazem milagres e que é impróprio o qualificativo de taumaturgos que

umas tantas pessoas lhes dão.

O conhecimento das leis que regem o princípio espiritual prende-se

de modo direto à questão do passado e do futuro do homem. Cinge-se a

sua vida à existência atual? Ao entrar neste mundo, vem ele do nada e volta

para o nada ao deixá-lo? Já viveu e ainda viverá? Como viverá e em que con

dições? Numa palavra: donde vem ele e para onde vai? Por que está na Terra

e por que sofre aí? Tais as questões que cada um faz a si mesmo, porque

são para toda gente de capital interesse e às quais ainda nenhuma doutrina

deu solução racional. A que lhe dá o Espiritismo, baseada em fatos, por

satisfazer às exigências da lógica e da mais rigorosa justiça, constitui uma

das causas principais da rapidez de sua propagação.

O Espiritismo não é uma concepção pessoal, nem o resultado de

um sistema preconcebido. É a resultante de milhares de observações feitas

sobre todos os pontos do globo e que convergiram para um centro que os

coligiu e coordenou. Todos os seus princípios constitutivos, sem exceção

de nenhum, são deduzidos da experiência. Esta precedeu sempre a teoria.

Assim, desde o começo, o Espiritismo lançou raízes por toda parte. A

História nenhum exemplo oferece de uma doutrina filosófica ou religiosa

que, em dez anos, tenha conquistado tão grande número de adeptos. En

tretanto, não empregou, para se fazer conhecido, nenhum dos meios vul

garmente em uso; propagou-se por si mesmo, pelas simpatias que inspirou.

Outro fato não menos constante é que, em nenhum país, a sua dou

trina não surgiu das ínfimas camadas sociais; em todos os lugares ela se

propagou de cima para baixo na escala da sociedade e ainda é nas classes

esclarecidas que se acha quase exclusivamente espalhada, constituindo in

significante minoria, no seio de seus adeptos, as pessoas iletradas.

Verifica-se também que a disseminação do Espiritismo seguiu, desde

os seus primórdios, marcha sempre ascendente, a despeito de tudo quanto

fizeram seus adversários para entravá-la e para lhe desfigurar o caráter, com

o fito de desacreditá-lo na opinião pública. É mesmo de notar-se que tudo

o que hão tentado com esse propósito lhe favoreceu a difusão; o arruído que

provocaram por ocasião do seu advento fez que viessem a conhecê-lo muitas

pessoas que antes nunca ouviram falar dele; quanto mais procuraram dene

gri-lo ou ridiculizá-lo, tanto mais despertaram a curiosidade geral, e, como

todo exame só lhe pode ser proveitoso, o resultado foi que seus opositores

se constituíram, sem o quererem, ardorosos propagandistas seus. Se as dia

tribes nenhum prejuízo lhe acarretaram, é que os que o estudaram em suas

legítimas fontes o reconheceram muito diverso do que o tinham figurado.

Nas lutas que precisou sustentar, os imparciais lhe testificaram a mo

deração; ele nunca usou de represálias com os seus adversários, nem res

pondeu com injúrias às injúrias.

O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como

qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fun

damentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas não é

uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e

que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote

ou de sumo sacerdote. Estes qualificativos são de pura invenção da crítica.

É-se espírita pelo só fato de simpatizar com os princípios da Dou

trina e por conformar com esses princípios o proceder. Trata-se de uma

opinião como qualquer outra, que todos têm o direito de professar, como

têm o de ser judeus, católicos, protestantes, simonistas, voltairianos, carte

sianos, deístas e, até, materialistas.

O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito na

tural; reclama-a para os seus adeptos, do mesmo modo que para toda a

gente. Respeita todas as convicções sinceras e faz questão da reciprocidade.

Da liberdade de consciência decorre o direito de livre-exame em ma

téria de fé. O Espiritismo combate a fé cega, porque ela impõe ao homem

que abdique da sua própria razão; considera sem raiz toda fé imposta, don

de o inscrever entre suas máximas: Não é inabalável, senão a fé que pode

encarar de frente a razão em todas as épocas da Humanidade.

Coerente com seus princípios, o Espiritismo não se impõe a quem

quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe

suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram.

Não cuida de afastar pessoa alguma das suas convicções religiosas;

não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos

que, insatisfeitos com o que se lhes dá, pedem alguma coisa melhor.

Extratos, in extenso, o livro das Previsões concernentes ao espiritismo

Manuscrito composto com especial cuidado por Allan Kardec

e do qual nenhum capítulo fora ainda publicado.

A minha primeira iniciação no Espiritismo

Foi em 1854 que pela primeira vez ouvi falar das mesas girantes.

Encontrei um dia o magnetizador, Sr. Fortier, a quem eu conhecia desde

muito tempo e que me disse: “Já sabe da singular propriedade que se acaba

de descobrir no Magnetismo? Parece que já não são somente as pessoas

que se podem magnetizar, mas também as mesas, conseguindo-se que elas

girem e caminhem à vontade.” “É, com efeito, muito singular” — respon

di —; “mas, a rigor, isso não me parece radicalmente impossível. O fluido

magnético, que é uma espécie de eletricidade, pode perfeitamente atuar so

bre os corpos inertes e fazer que eles se movam.” Os relatos, que os jornais

publicaram, de experiências feitas em Nantes, em Marselha e em algumas

outras cidades, não permitiam dúvidas acerca da realidade do fenômeno.

Algum tempo depois, encontrei-me novamente com o Sr. Fortier,

que me disse: “Temos uma coisa muito mais extraordinária; não só se con

segue que uma mesa se mova, magnetizando-a, como também que fale.

Interrogada, ela responde.” “Isto agora” — repliquei-lhe —, “é outra ques

tão. Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem

cérebro para pensar, nervos para sentir e que possa tornar-se sonâmbula.

Até lá, permita que eu não veja no caso mais do que um conto para fazer--nos dormir em pé”.

Era lógico este raciocínio: eu concebia o movimento por efeito de uma

força mecânica, mas, ignorando a causa e a lei do fenômeno, afigurava-se-me

absurdo atribuir-se inteligência a uma coisa puramente material. Achava-me

na posição dos incrédulos atuais, que negam porque apenas veem um fato

que não compreendem. Há 50 anos, se a alguém dissessem, pura e sim

plesmente, que se podia transmitir um despacho telegráfico a 500 léguas

e receber a resposta dentro de uma hora, esse alguém se riria e não teriam

faltado excelentes razões científicas para provar que semelhante coisa era ma

terialmente impossível. Hoje, quando já se conhece a lei da eletricidade, isso

a ninguém espanta, nem sequer ao camponês. O mesmo se dá com todos os

fenômenos espíritas. Para quem quer que não conheça a lei que os rege, eles

parecem sobrenaturais, maravilhosos e, por conseguinte, impossíveis e ridí

culos. Uma vez conhecida a lei, desaparece a maravilha, o fato deixa de ter

o que repugne à razão, porque se prende à possibilidade de ele produzir-se.

Eu estava, pois, diante de um fato inexplicado, aparentemente con

trário às Leis da Natureza e que a minha razão repelia. Ainda nada vira,

nem observara; as experiências, realizadas em presença de pessoas honradas

e dignas de fé, confirmavam a minha opinião, quanto à possibilidade do

efeito puramente material; a ideia, porém, de uma mesa falante ainda não

me entrara na mente.

No ano seguinte, estávamos em começo de 1855, encontrei-me com

o Sr. Carlotti, amigo de 25 anos, que me falou daqueles fenômenos duran

te cerca de uma hora, com o entusiasmo que consagrava a todas as ideias

novas. Ele era corso, de temperamento ardoroso e enérgico, e eu sempre

lhe apreciara as qualidades que distinguem uma grande e bela alma, porém

desconfiava da sua exaltação. Foi o primeiro que me falou na intervenção

dos Espíritos e me contou tantas coisas surpreendentes que, longe de me

convencer, me aumentou as dúvidas. “Um dia, o senhor será dos nossos”,

concluiu. “Não direi que não”, respondi-lhe; “veremos isso mais tarde.”

Passado algum tempo, pelo mês de maio de 1855, fui à casa da so

nâmbula Sra. Roger, em companhia do Sr. Fortier, seu magnetizador. Lá

encontrei o Sr. Pâtier e a Sra. Plainemaison, que daqueles fenômenos me

falaram no mesmo sentido em que o Sr. Carlotti se pronunciara, mas em

tom muito diverso. O Sr. Pâtier era funcionário público, já de certa idade,

muito instruído, de caráter grave, frio e calmo; sua linguagem pausada,

isenta de todo entusiasmo, produziu em mim viva impressão e, quando

me convidou a assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra.

Plainemaison, à Rua Grange-Batelière, 18, aceitei imediatamente. A reu

nião foi marcada para terça-feira18 de maio às oito horas da noite.

Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que

giravam, saltavam e corriam em condições tais que não deixavam lugar

para qualquer dúvida. Assisti então a alguns ensaios, muito imperfeitos,

de escrita mediúnica numa ardósia, com o auxílio de uma cesta. Minhas

ideias estavam longe de precisar-se, mas havia ali um fato que necessaria

mente decorria de uma causa. Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades,

no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério,

como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.

Bem depressa, ocasião se me ofereceu de observar mais aten

tamente os fatos, como ainda o não fizera. Numa das reuniões da Sra.

Plainemaison, travei conhecimento com a família Baudin, que residia en

tão à Rua Rochechouart. O Sr. Baudin me convidou para assistir às sessões

hebdomadárias que se realizavam em sua casa e às quais me tornei desde

logo muito assíduo.

Eram bastante numerosas essas reuniões; além dos frequentadores

habituais, admitiam-se todos os que solicitavam permissão para assistir a

elas. Os médiuns eram as duas senhoritas Baudin, que escreviam numa ar

dósia com o auxílio de uma cesta, chamada carrapeta e que se encontra des

crita em O livro dos médiuns. Esse processo, que exige o concurso de duas

pessoas, exclui toda possibilidade de intromissão das ideias do médium.

Aí, tive ensejo de ver comunicações contínuas e respostas a perguntas for

muladas, algumas vezes, até, perguntas mentais, que acusavam, de modo

evidente, a intervenção de uma inteligência estranha.

Eram geralmente frívolos os assuntos tratados. Os assistentes se

ocupavam, principalmente, de coisas respeitantes à vida material, ao futuro,

numa palavra, de coisas que nada tinham de realmente sério; a curiosidade

e o divertimento eram os móveis capitais de todos. Dava o nome de Zéfiro

o Espírito que costumava manifestar-se, nome perfeitamente acorde com

o seu caráter e com o da reunião. Entretanto, era muito bom e se dissera

protetor da família. Se com frequência fazia rir, também sabia, quando

preciso, dar ponderados conselhos e manejar, se ensejo se apresentava, o

epigrama, espirituoso e mordaz. Relacionamo-nos de pronto e ele me ofe

receu constantes provas de grande simpatia. Não era um Espírito muito

adiantado, porém, mais tarde, assistido por Espíritos Superiores, me auxi

liou nos meus trabalhos. Depois, disse que tinha de reencarnar e dele não

mais ouvi falar.

Foi nessas reuniões que comecei os meus estudos sérios de Espiritis

mo, menos, ainda, por meio de revelações do que de observações. Apliquei

a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nun

ca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava,

deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por de

dução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida

uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão.

Foi assim que procedi sempre em meus trabalhos anteriores, desde a idade

de 15 a 16 anos. Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração

que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema

tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a

solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma

revolução nas ideias e nas crenças; fazia-se mister, portanto, andar com a

maior circunspeção, e não levianamente; ser positivista, e não idealista,

para não me deixar iludir.

Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi

que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não pos

suíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que

dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adianta

mento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Re

conhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho

de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias

prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.

O simples fato da comunicação com os Espíritos, dissessem eles o

que dissessem, provava a existência do Mundo Invisível ambiente. Já era

um ponto essencial, um imenso campo aberto às nossas explorações, a

chave de inúmeros fenômenos até então inexplicados. O segundo ponto,

não menos importante, era que aquela comunicação permitia se conheces

sem o estado desse mundo, seus costumes, se assim nos podemos exprimir.

Vi logo que cada Espírito, em virtude da sua posição pessoal e de seus co

nhecimentos, me desvendava uma face daquele mundo, do mesmo modo

que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes seus

de todas as classes, não podendo um só, individualmente, informar-nos de

tudo. Compete ao observador formar o conjunto, por meio dos documen

tos colhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e comparados

uns com outros. Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito

com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me in

formar, e não reveladores predestinados.

Tais as disposições com que empreendi meus estudos e neles pros

segui sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que constante

mente segui.

Até ali, as sessões em casa do Sr. Baudin nenhum fim determinado

tinham tido. Tentei lá obter a resolução dos problemas que me interessa

vam, do ponto de vista da Filosofia, da Psicologia e da natureza do Mundo

Invisível. Levava para cada sessão uma série de questões preparadas e meto

dicamente dispostas. Eram sempre respondidas com precisão, profundeza

e lógica. A partir de então, as sessões assumiram caráter muito diverso.

Entre os assistentes contavam-se pessoas sérias, que tomaram por elas vivo

interesse e, se me acontecia faltar, ficavam sem saberem o que fazer. As

perguntas fúteis haviam perdido, para a maioria, todo atrativo. Eu, a prin

cípio, cuidara apenas de instruir-me; mais tarde, quando vi que aquilo

constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a ideia

de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente. Foram

aquelas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e completa

das, constituíram a base de O livro dos espíritos.

No ano seguinte, em 1856, frequentei ao mesmo tempo as reuniões

espíritas que se celebravam à Rua Tiquetone, em casa do Sr. Roustan e

Srta. Japhet, sonâmbula. Eram sérias essas reuniões e se realizavam com or

dem. As comunicações eram transmitidas por intermédio da Srta. Japhet,

médium, com auxílio da cesta de bico.

Estava concluído, em grande parte, o meu trabalho e tinha as pro

porções de um livro. Eu, porém, fazia questão de submetê-lo ao exame

de outros Espíritos, com o auxílio de diferentes médiuns. Lembrei-me de

fazer dele objeto de estudo nas reuniões do Sr. Roustan. Ao cabo de algu

mas sessões, disseram os Espíritos que preferiam revê-lo na intimidade e

marcaram para tal efeito certos dias nos quais eu trabalharia em particular

com a Srta. Japhet, a fim de fazê-lo com mais calma e também de evitar as

indiscrições e os comentários prematuros do público.

Não me contentei, entretanto, com essa verificação; os Espíritos

assim mo haviam recomendado. Tendo-me as circunstâncias posto em

relação com outros médiuns, sempre que se apresentava ocasião, eu a apro

veitava para propor algumas das questões que me pareciam mais espinho

sas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram concurso a esse trabalho.

Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas

e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a pri

meira edição de O livro dos espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril

de 1857.

Pelos fins desse mesmo ano, às duas Srtas. Baudin se casaram; as

reuniões cessaram e a família se dispersou. Mas, então, já as minhas rela

ções começavam a dilatar-se e os Espíritos me multiplicaram os meios de

instrução, tendo em vista meus ulteriores trabalhos.

11 de dezembro de 1855

(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Sra. Baudin)

Meu Espírito protetor

Pergunta (Ao Espírito Z) – No mundo dos Espíritos algum haverá

que seja para mim um bom gênio?

Resposta – Sim.

P. – Será o Espírito de algum parente, ou de algum amigo?

R. – Nem uma coisa, nem outra.

P. – Quem foi ele na Terra?

R. – Um homem justo de muita sabedoria.

P. – Que devo fazer, para lhe granjear a benevolência?

R. – Todo o bem possível.

P. – Por que sinais poderei reconhecer a sua intervenção?

R. – Pela satisfação que experimentarás.

P. – Terei algum meio de o invocar e qual esse meio?

R. – Ter fé viva e chamá-lo com instância.

P. – Reconhecê-lo-ei, depois da minha morte, no mundo dos

Espíritos?

R. – Sobre isso não pode haver dúvida; será ele quem virá receber-te

e felicitar-te, se houveres desempenhado bem a tua tarefa.

Nota – Vê-se, por estas perguntas, que eu era ainda muito noviço acerca das coisas

do Mundo Espiritual.

P. – O Espírito de minha mãe me vem visitar algumas vezes?

R. – Vem e te protege quanto lhe é possível.

P. – Vejo-a frequentemente em sonho. Será uma lembrança e um

efeito da minha imaginação?

R. – Não; é mesmo ela que te aparece; deves compreendê-lo pela

emoção que sentes.

Nota – Isto é perfeitamente exato. Quando minha mãe me aparecia em sonho,

eu experimentava uma emoção indescritível, o que o médium não podia saber.

P. – Quando, faz algum tempo, evocamos S. e lhe perguntamos se

poderia ser o gênio protetor de um de nós, ele respondeu: “Mostre-se um

de vós digno disso, e estarei com esse; Z. vo-lo dirá”. Julgas que eu poderei

merecer esse favor?

R. – Se o quiseres.

P. – Que me é necessário para isso?

R. – Fazer todo o bem que possas e suportar com coragem as penas

da vida.

P. – Pela natureza da minha inteligência, terei aptidão para penetrar,

tanto quanto ao homem for permitido fazê-lo, as grandes verdades acerca

do nosso destino futuro?

R. – Sim, tens a aptidão necessária, mas o resultado dependerá da tua

perseverança no trabalho.

P. – Poderei concorrer para a propagação dessas verdades?

R. – Sem dúvida.

P. – Por que meios?

R. – Sabê-lo-ás mais tarde; enquanto esperas, trabalha.

25 de março de 1856

(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)

Meu guia espiritual

Morava eu, por essa época, na Rua dos Mártires, no 8, no segundo

andar, ao fundo. Uma noite, estando no meu gabinete a trabalhar, pequenas

pancadas se fizeram ouvir na parede que me separava do aposento vizinho.

A princípio, nenhuma atenção lhes dei; como, porém, elas se repetissem

mais fortes, mudando de lugar, procedi a uma exploração minuciosa dos

dois lados da parede, escutei para verificar se provinham do outro pavimen

to e nada descobri. O que havia de singular era que, de cada vez que eu me

punha a investigar, o ruído cessava, para recomeçar logo que eu retomava o

trabalho. Minha mulher chegou da rua por volta das dez horas; veio ao meu

gabinete e, ouvindo as pancadas, me perguntou o que era. “Não sei”, res

pondi-lhe, “há uma hora que isto dura.” Investigamos juntos, sem melhor

êxito. O ruído continuou até a meia-noite, quando fui deitar-me.

No dia seguinte, como houvesse sessão em casa do Sr. Baudin, narrei

o fato e pedi que mo explicassem.

Pergunta – Ouvistes, sem dúvida, o relato que acabo de fazer; po

deríeis dizer-me qual a causa daquelas pancadas que se fizeram ouvir com

tanta persistência?

Resposta – Era o teu Espírito familiar.

P. – Com que fim foi ele bater daquele modo?

R. – Queria comunicar-se contigo.

P. – Poderíeis dizer-me quem é ele?

R. – Podes perguntar-lhe a ele mesmo, pois que está aqui.

Nota – Nessa época, ainda se não fazia distinção nenhuma entre as diversas cate

gorias de Espíritos simpáticos. Dava-se-lhes a todos a denominação de Espíritos

familiares.

P. – Meu Espírito familiar, quem quer que tu sejas, agradeço-te o me

teres vindo visitar. Consentirás em dizer-me quem és?

R. – Para ti, chamar-me-ei A Verdade e todos os meses, aqui, durante

um quarto de hora, estarei à tua disposição.

P. – Ontem, quando bateste, estando eu a trabalhar, tinhas alguma

coisa de particular a dizer-me?

R. – O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho a que te aplicavas;

desagradava-me o que escrevias e quis fazer que o abandonasses.

Nota – O que eu estava escrevendo dizia respeito, precisamente, aos estudos que

empreendera acerca dos Espíritos e de suas manifestações.

P. – A tua desaprovação era referente ao capítulo que eu escrevia ou

ao conjunto do trabalho?

R. – Ao de ontem; submeto-o ao teu juízo; se o releres, re

conhecerás tuas faltas e as corrigirás.

P. – Eu mesmo não me sentia satisfeito com esse capítulo e o refiz

hoje. Está melhor?

R. – Está melhor, mas ainda não satisfaz. Relê da 3a a 30a linha e com

um grave erro depararás.

P. – Rasguei o que escrevera ontem.

R. – Não importa! Isso não impediu que a falta continuasse. Relê e

verás.

P. – O nome Verdade, que adotaste, constitui uma alusão à verdade

que eu procuro?

R. – Talvez; pelo menos, é um guia que te protegerá e ajudará.

P. – Poderei evocar-te em minha casa?

R. – Sim, para te assistir pelo pensamento, mas, para respostas escri

tas em tua casa, só daqui a muito tempo poderás obtê-las.

Nota – Com efeito, durante cerca de um ano, nenhuma comunicação escrita

obtive em minha casa e sempre que ali se encontrava um médium, com quem eu

esperava conseguir qualquer coisa, uma circunstância imprevista a isso se opunha.

Somente fora de minha casa lograva eu receber comunicações.

P. – Poderias vir mais amiúde e não apenas de mês em mês?

R. – Sim, mas não prometo senão uma vez mensalmente, até nova ordem.

P. – Terás animado na Terra alguma personagem conhecida?

R. – Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer

discrição; nada mais saberás a respeito.

Nota – À noite, de regresso a casa, dei-me pressa em reler o que escrevera. Quer

no papel que eu lançara à cesta, quer em nova cópia que fizera, se me deparou, na

30a linha, um erro grave, que me espantei de haver cometido. Desde então, ne

nhuma outra manifestação do mesmo gênero das anteriores se produziu. Tendo-se

tornado desnecessárias, por se acharem estabelecidas as minhas relações com o

meu Espírito protetor, elas cessaram. O intervalo de um mês, que ele assinara para

suas comunicações, só raramente foi mantido, no princípio. Mais tarde, deixou

de o ser, em absoluto. Fora sem dúvida um aviso de que eu tinha de trabalhar por

mim mesmo e para não estar constantemente a recorrer ao seu auxílio diante da

menor dificuldade.

9 de abril de 1856

(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)

Pergunta (à Verdade) – Criticaste outro dia o trabalho que eu havia

feito e tiveste razão. Reli-o e encontrei na 30a linha um erro contra o qual

protestaste por meio das pancadas que me fizeste ouvir. Isso me levou a

descobrir outros defeitos e a refazer o trabalho. Estás agora satisfeito?

Resposta – Acho-o melhor, mas aconselho-te que esperes um mês

para divulgá-lo.

P. – Que queres dizer, falando em divulgá-lo? Não tenho, bem sabes,

a intenção de publicá-lo já, se é que o haja de publicar.

R. – Quero dizer: mostrá-lo a terceiros. Busca um pretexto para re

cusar isso aos que te pedirem para vê-lo. Daqui até lá melhorarás o tra

balho. Faço-te esta recomendação para te poupar à crítica; precato o teu

amor-próprio.

P. – Disseste que serás para mim um guia, que me ajudará e prote

gerá. Compreendo essa proteção e o seu objetivo, dentro de certa ordem

de coisas, mas poderias dizer-me se essa proteção também alcança as coisas

materiais da vida?

R. – Nesse mundo, a vida material é muito de ter-se em conta; não

te ajudar a viver seria não te amar.

Nota – A proteção desse Espírito, cuja superioridade eu então estava longe de ima

ginar, jamais, de fato, me faltou. A sua solicitude e a dos bons Espíritos que agiam

sob suas ordens, se manifestou em todas as circunstâncias da minha vida, quer a me

remover dificuldades materiais, quer a me facilitar a execução dos meus trabalhos,

quer, enfim, a me preservar dos efeitos da malignidade dos meus antagonistas, que

foram sempre reduzidos à impotência. Se as tribulações inerentes à missão que me

cumpria desempenhar não me puderam ser evitadas, foram sempre suavizadas e

largamente compensadas por muitas satisfações morais gratíssimas.

30 de abril de 1856

(Em casa do Sr. Roustan – Médium: Srta. Japhet)

Primeira revelação da minha missão

Eu assistia, desde algum tempo, às sessões que se realizavam em casa

do Sr. Roustan e começara aí a revisão do meu trabalho, que posterior

mente formaria O livro dos espíritos. (Veja-se a Introdução). Numa dessas

sessões, muito íntima, a que, apenas assistiam sete ou oito pessoas, falavam

estas de diferentes coisas relativas aos acontecimentos capazes de acarretar

uma transformação social, quando o médium, tomando da cesta, esponta

neamente escreveu isto:

“Quando o bordão soar, abandoná-lo-eis; apenas aliviareis o vosso

semelhante; individualmente o magnetizareis, a fim de curá-lo. Depois,

cada um no posto que lhe foi preparado, porque de tudo se fará mister,

pois que tudo será destruído, ao menos temporariamente. Deixará de ha

ver religião e uma se fará necessária, mas verdadeira, grande, bela e digna

do Criador... Seus primeiros alicerces já foram colocados... Quanto a ti,

Rivail, a tua missão é aí (Livre, a cesta se voltou rapidamente para o meu

lado, como o teria feito uma pessoa que me apontasse com o dedo). A ti,

M..., a espada que não fere, porém mata; contra tudo o que é, serás tu o

primeiro a vir. Ele, Rivail, virá em segundo lugar: é o obreiro que recons

trói o que foi demolido”.

Nota – Foi essa a primeira revelação positiva da minha missão e confesso que,

quando vi a cesta voltar-se bruscamente para o meu lado e designar-me nominati

vamente, não me pude forrar a certa emoção.

O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas,

envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar muito em evidência.

Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte

nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo.

7 de maio de 1856

(Em casa do Sr. Roustan – Médium: Srta. Japhet)

Minha missão

Pergunta (a Hahnemann) – Outro dia, disseram-me os Espíritos que

eu tinha uma importante missão a cumprir e me indicaram o seu objeto.

Desejaria saber se confirmas isso.

Resposta – Sim e, se observares as tuas aspirações e tendências e o ob

jeto quase constante das tuas meditações, não te surpreenderás com o que

te foi dito. Tens que cumprir aquilo com que sonhas desde longo tempo.

É preciso que nisso trabalhes ativamente, para estares pronto, pois mais

próximo do que pensas vem o dia.

P. – Para desempenhar essa missão tal como a concebo, são-me ne

cessários meios de execução que ainda não se acham ao meu alcance.

R. – Deixa que a Providência faça a sua obra e serás satisfeito.

Acontecimentos

Pergunta – A comunicação há dias dada faz presumir, ao que pare

ce, acontecimentos muito graves. Poderás dar-nos algumas explicações a

respeito?

Resposta – Não podemos precisar os fatos. O que podemos dizer é

que haverá muitas ruínas e desolações, pois são chegados os tempos predi

tos de uma renovação da Humanidade.

P. – Quem causará essas ruínas? Será um cataclismo?

R. – Nenhum cataclismo de ordem material haverá, como o enten

deis, mas flagelos de toda espécie assolarão as nações; a guerra dizimará os

povos; as instituições vetustas se abismarão em ondas de sangue. Faz-se

mister que o velho mundo se esboroe, para que uma nova era se abra ao

progresso.

P. – A guerra não se circunscreverá então a uma região?

R. – Não, abrangerá a Terra.

P. – Nada, entretanto, neste momento, parece pressagiar uma tem

pestade próxima.

R. – As coisas estão por fio de teia de aranha, meio partido.

P. – Poder-se-á, sem indiscrição, perguntar donde partirá a primeira

centelha?

R. – Da Itália.

12 de maio de 1856

(Sessão pessoal em casa do Sr. Baudin)

Acontecimentos

Pergunta (à Verdade) – Que pensas de M...? É homem que venha a

influir nos acontecimentos?

Resposta – Muito ruído. Ele tem boas ideias; é homem de ação, mas

não é uma cabeça.

P. – Dever-se-á tomar ao pé da letra o que foi dito, isto é, que lhe

cabe o papel de destruir o que existe?

R. – Não; pretendeu-se apenas personificar nele o partido cujas

ideias ele representa.

P. – Posso manter com ele relações de amizade?

R. – Por enquanto, não; correrias perigos inúteis.

P. – Dispondo de um médium, diz M... que lhe determinaram a

marcha dos acontecimentos, para, por assim dizer, uma data fixa. Será

verdade?

R. – Sim, determinaram-lhe épocas, mas foram Espíritos levianos

que lhe responderam, Espíritos que não sabem mais do que ele e que lhe

exploram a exaltação. Sabes que não devemos precisar as coisas futuras. Os

acontecimentos pressentidos certamente se darão em tempo próximo, mas

que não pode ser determinado.

P. – Disseram os Espíritos que os tempos são chegados em que tais

coisas têm de acontecer: em que sentido se devem tomar essas palavras?

R. – Tratando-se de coisas de tanta gravidade, que são alguns anos

a mais ou a menos? Elas nunca ocorrem bruscamente, como o chispar de

um raio; são longamente preparadas por acontecimentos parciais que lhes

servem como que de precursores, quais os rumores surdos que precedem

a erupção de um vulcão. Pode-se, pois, dizer que os tempos são chegados,

sem que isso signifique que as coisas sucederão amanhã. Significa unica

mente que vos achais no período em que se verificarão.

P. – Confirmas o que foi dito, isto é, que não haverá cataclismos?

R. – Sem dúvida, não tendes que temer nem um dilúvio, nem o

abrasamento do vosso planeta, nem outros fatos desse gênero, porquan

to não se pode denominar cataclismos a perturbações locais que se têm

produzido em todas as épocas. Apenas haverá um cataclismo de natureza

moral, de que os homens serão os instrumentos.

10 de junho de 1856

(Em casa do Sr. Roustan – Médium: Srta. Japhet)

O livro dos espíritos

Pergunta (a Hahnemann) – Pois que dentro em breve teremos acaba

do a primeira parte do livro, lembrei-me de que, para andarmos mais de

pressa, eu poderia pedir a B... que me ajudasse, como médium; que achas?

Resposta – Acho que será melhor não te servires dele. — Por quê? —

Porque a verdade não pode ser interpretada pela mentira.

P. – Mesmo que o Espírito familiar de B... seja afeito à mentira, isso

não obstaria a que um bom Espírito se comunicasse pelo médium, desde

que se não evocasse outro Espírito.

R. – Sim, mas aqui o médium secunda o Espírito e, quando o Es

pírito é velhaco, ele se presta a auxiliá-lo. Aristo, seu intérprete, e B...

acabarão mal.

Nota – B..., bem moço, era um médium escrevente muito maleável, mas assis

tido por um Espírito muito orgulhoso e arrogante, que dava o nome de Aristo

e que lhe lisonjeava o amor-próprio. As previsões de Hahnemann se realizaram.

O moço, julgando ter na sua faculdade um meio de enriquecer, já atendendo

a consultas médicas, já realizando inventos e descobertas produtivas, somente

colheu decepções e mistificações. Passado algum tempo, ninguém mais ouviu

falar dele.

12 de junho de 1856

(Em casa do Sr. C... – Médium: Srta. Aline C...)

Minha missão

Pergunta (à Verdade) – Bom Espírito, eu desejara saber o que pensas

da missão que alguns Espíritos me assinaram. Dize-me, peço-te, se é uma

prova para o meu amor-próprio. Tenho, como sabes, o maior desejo de

contribuir para a propagação da verdade, mas, do papel de simples traba

lhador ao de missionário em chefe, a distância é grande e não percebo o

que possa justificar em mim graça tal, de preferência a tantos outros que

possuem talento e qualidades de que não disponho.

Resposta – Confirmo o que te foi dito, mas recomendo-te muita dis

crição, se quiseres sair-te bem. Tomarás mais tarde conhecimento de coisas

que te explicarão o que ora te surpreende. Não esqueças que podes triun

far, como podes falir. Neste último caso, outro te substituiria, porquanto

os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um homem. Nunca, pois,

fales da tua missão; seria a maneira de a fazeres malograr-se. Ela somente

pode justificar-se pela obra realizada e tu ainda nada fizeste. Se a cumprires,

os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou tarde, visto que pelos frutos é

que se verifica a qualidade da árvore.

P. – Nenhum desejo tenho certamente de me vangloriar de uma mis

são na qual dificilmente creio. Se estou destinado a servir de instrumento

aos desígnios da Providência, que ela disponha de mim. Nesse caso, recla

mo a tua assistência e a dos bons Espíritos, no sentido de me ajudarem e

ampararem na minha tarefa.

R. – A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de teu lado,

não fizeres o que for necessário. Tens o teu livre-arbítrio, do qual podes

usar como o entenderes. Nenhum homem é constrangido a fazer coisa

alguma.

P. – Que causas poderiam determinar o meu malogro? Seria a insu

ficiência das minhas capacidades?

R. – Não, mas a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e

perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e

transformar o mundo inteiro. Não suponhas que te baste publicar um

livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranquilamente

em casa. Tens que expor a tua pessoa. Suscitarás contra ti ódios terrí

veis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a

braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos

que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão

desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso

da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua,

com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até

da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo. Ora bem! não

poucos recuam quando, em vez de uma estrada florida, só veem sob

os passos urzes, pedras agudas e serpentes. Para tais missões, não bas

ta a inteligência. Faz-se mister, primeiramente, para agradar a Deus,

humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos,

os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens, são in

dispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são

de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo

conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas

intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposi

ção a todos os sacrifícios.

Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que de

pendem de ti.

espíRito veRdade

Eu – Espírito Verdade, agradeço os teus sábios conselhos. Aceito

tudo, sem restrição e sem ideia preconcebida.

Senhor! pois que te dignaste lançar os olhos sobre mim para cum

primento dos teus desígnios, faça-se a tua vontade! Está nas tuas mãos a

minha vida; dispõe do teu servo. Reconheço a minha fraqueza diante de

tão grande tarefa; a minha boa vontade não desfalecerá, as forças, porém,

talvez me traiam. Supre à minha deficiência; dá-me as forças físicas e mo

rais que me forem necessárias. Ampara-me nos momentos difíceis e, com o

teu auxílio e dos teus celestes mensageiros, tudo envidarei para correspon

der aos teus desígnios.

Nota – Escrevo esta nota a 1o de janeiro de 1867, dez anos e meio depois

que me foi dada a comunicação acima e atesto que ela se realizou em todos os

pontos, pois experimentei todas as vicissitudes que me foram preditas. Andei

em luta com o ódio de inimigos encarniçados, com a injúria, a calúnia, a in

veja e o ciúme; libelos infames se publicaram contra mim; as minhas melhores

instruções foram falseadas; traíram-me aqueles em quem eu mais confiança

depositava, pagaram-me com a ingratidão aqueles a quem prestei serviços. A

Sociedade de Paris se constituiu foco de contínuas intrigas urdidas contra mim

por aqueles mesmos que se declaravam a meu favor e que, de boa fisionomia

na minha presença, pelas costas me golpeavam. Disseram que os que se me

conservavam fiéis estavam à minha soldada e que eu lhes pagava com o dinheiro

que ganhava do Espiritismo. Nunca mais me foi dado saber o que é o repouso;

mais de uma vez sucumbi ao excesso de trabalho, tive abalada a saúde e com

prometida a existência.

Graças, porém, à proteção e assistência dos bons Espíritos que incessantemente

me deram manifestas provas de solicitude, tenho a ventura de reconhecer que

nunca senti o menor desfalecimento ou desânimo e que prossegui, sempre com o

mesmo ardor, no desempenho da minha tarefa, sem me preocupar com a maldade

de que era objeto. Segundo a comunicação do Espírito Verdade, eu tinha de con

tar com tudo isso e tudo se verificou.

Mas também, a par dessas vicissitudes, que de satisfações experimentei, vendo a

obra crescer de maneira tão prodigiosa! Com que compensações deliciosas foram

pagas as minhas tribulações! Que de bênçãos e de provas de real simpatia recebi

da parte de muitos aflitos a quem a Doutrina consolou! Este resultado não mo

anunciou o Espírito Verdade que, sem dúvida intencionalmente, apenas me mos

trara as dificuldades do caminho. Qual não seria, pois, a minha ingratidão, se me

queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal, não esta

ria com a verdade, porquanto o bem, refiro-me às satisfações morais, sobreleva

ram de muito o mal. Quando me sobrevinha uma decepção, uma contrariedade

qualquer, eu me elevava pelo pensamento acima da Humanidade e me colocava

antecipadamente na região dos Espíritos e desse ponto culminante, donde divi

sava o da minha chegada, as misérias da vida deslizavam por sobre mim sem me

atingirem. Tão habitual se me tornara esse modo de proceder, que os gritos dos

maus jamais me perturbaram.

17 de junho de 1856

(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)

O livro dos espíritos

Pergunta (à Verdade) – Uma parte da obra foi revista, quererás ter a

bondade de dizer o que dela pensas?

Resposta – O que foi revisto está bem, mas, quando a obra estiver

acabada, deverás tornar a revê-la, a fim de ampliá-la em certos pontos e

abreviá-la noutros.

P. – Entendes que deva ser publicada antes que os acontecimentos

preditos se tenham realizado?

R. – Uma parte, sim; tudo não, pois, afirmo-te, vamos ter capítulos

muito espinhosos. Por muito importante que seja esse primeiro trabalho,

ele não é, de certo modo, mais do que uma introdução. Assumirá proporções

que longe estás agora de suspeitar. Tu mesmo compreenderás que certas

partes só muito mais tarde e gradualmente poderão ser dadas a lume, à

medida que as novas ideias se desenvolverem e enraizarem. Dar tudo de

uma vez fora imprudente. Importa dar tempo a que a opinião se forme.

Toparás com alguns impacientes que procurarão empurrar-te para diante:

não lhes dês ouvidos. Vê, observa, sonda o terreno, dispõe-te a esperar e

faze como o general cauteloso que não ataca, senão quando chega o mo

mento favorável.

Nota (Escrita em janeiro de 1867) – Na época em que essa comunicação foi

dada, eu apenas tinha em vista O livro dos espíritos e longe estava, como disse

o Espírito, de imaginar as proporções que tomaria o conjunto do trabalho. Os

acontecimentos preditos só decorridos muitos anos teriam de verificar-se, tanto

que neste momento ainda não se deram. As obras que até agora apareceram foram

publicadas sucessivamente e eu fui induzido a elaborá-las, à medida que as novas

ideias se desenvolveram. Das que restam por fazer, a mais importante, a que se

poderá considerar a cúpula do edifício e que, com efeito, encerra os capítulos mais

espinhosos, não poderia ser publicada, sem prejuízo, antes do período dos desas

tres. Eu, então, um único livro via e não compreendia que esse pudesse cindir-se,

enquanto o Espírito aludia aos que teriam de seguir-se e cuja publicação prematu

ra apresentaria inconvenientes.

“Dispõe-te a esperar”, disse o Espírito; “não dês ouvidos aos impacientes que pro

curem empurrar-te para diante.” Os impacientes não faltaram e, se eu os escutara,

teria atirado o navio em cheio nos arrecifes. Coisa estranha! ao passo que uns me

incitavam a andar mais depressa, outros me acusavam de não ir tão devagar quan

to devia. Não dei ouvidos nem a uns, nem a outros, tomando sempre por bússola

a marcha das ideias.

De que confiança no futuro não me enchia eu, à proporção que via realizar-se o

que fora predito e que comprovava a profundeza e a sabedoria das instruções dos

meus protetores invisíveis!

11 de setembro de 1856

(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)

O livro dos espíritos

Depois de haver eu procedido à leitura de alguns capítulos de O

livro dos espíritos, concernentes às leis morais, o médium espontaneamente

escreveu:

“Compreendeste bem o objetivo do teu trabalho. O plano está bem

concebido. Estamos satisfeitos contigo. Continua, mas lembra-te, sobre

tudo quando a obra se achar concluída, de que te recomendamos que a

mandes imprimir e propagar. É de utilidade geral. Estamos satisfeitos e

nunca te abandonaremos. Crê em Deus e avante.”

muitos espíRitos

6 de maio de 1857

(Em casa da Sra. De Cardonne)

A tiara espiritual

Eu tivera ocasião de conhecer a Sra. de Cardonne nas sessões do Sr.

Roustan. Alguém me disse, creio que foi o Sr. Carlotti, que ela possuía

notável talento para ler nas mãos. Nunca acreditei que as linhas da mão

tenham uma significação qualquer, mas sempre acreditei que, para cer

tas pessoas dotadas de uma espécie de segunda vista, podia isso constituir

meio de estabelecerem uma relação que lhes permitisse, como aos sonâm

bulos, dizer algumas vezes coisas verdadeiras. Os sinais da mão nada mais

são, nesse caso, do que um pretexto, um meio de fixar a atenção, de de

senvolver a lucidez, como o são as cartas, a borra de café, os espelhos ditos

mágicos, para os indivíduos que dispõem dessa faculdade. A experiência

me confirmou de novo a justeza dessa opinião. Seja como for, aquela se

nhora, tendo-me convidado a ir visitá-la, acedi ao seu convite e eis aqui um

resumo do que ela me disse:

“Nascestes com grande abundância de recursos e de meios intelec

tuais... extraordinária força de raciocínio... Formou-se o vosso gosto; go

vernado pela cabeça, moderais a inspiração pelo raciocínio; subordinas o

instinto, a paixão, a intuição ao método, à teoria. Tivestes sempre pendor

para as ciências morais... Amor da verdade absoluta... Amor da Arte definida.

Tem número, medida e cadência o vosso estilo, mas, por vezes, tro

caríeis um pouco da sua precisão por uma certa poesia.

Como filósofo idealista, estivestes sujeito à opinião de outrem; como

filósofo crente, experimentais agora a necessidade de formar seita.

Benevolência judiciosa; necessidade imperiosa de aliviar, de socorrer,

de consolar; necessidade de independência.

Muito demoradamente vos corrigis da subitânea impulsão do vosso

humor.

Éreis singularmente apto para a missão que vos está confiada, por

quanto o vosso feitio é mais para vos tornardes o centro de imensos de

senvolvimentos do que capaz de trabalhos insulados... Vossos olhos têm o

olhar do pensamento.

Vejo aqui o sinal da tiara espiritual... É bem pronunciado... Vede”

(Olhei e nada vi de particular).

“Que entendeis”, perguntei-lhe, “por tiara espiritual? Querereis di

zer que serei papa? Se tal houvesse de acontecer, não seria decerto nesta

existência.”

Resposta – Deveis notar que eu disse tiara espiritual, o que significa:

autoridade moral e religiosa, e não soberania efetiva.

Reproduzi pura e simplesmente as palavras daquela senhora, por ela

mesma transcritas. Não me compete julgar se são exatas sobre todos os

pontos. Algumas, reconheço-as verdadeiras, porque estão de acordo com o

meu caráter e com as disposições do meu espírito.

Há, porém, uma passagem evidentemente errônea, a em que ela diz,

a propósito do meu estilo, que eu às vezes trocaria algo da minha precisão

por um pouco de poesia. Nenhum instinto poético existe em mim; o que

procuro, acima de tudo, o que me agrada, o que aprecio nos outros é a

clareza, a limpidez, a precisão e, longe de sacrificar esta à poesia, o que se

me poderia reprochar fora o sacrificar o sentimento poético à sequidão da

forma positiva. Preferi sempre o que fala à inteligência ao que apenas fala

à imaginação.

Quanto à tiara espiritual, O livro dos espíritos acabava de aparecer; a

Doutrina estava em seus primórdios e não podia ainda prejulgar dos resul

tados que ulteriormente daria. Nenhuma importância, pois, liguei a essa

revelação e me limitei a anotá-la a título informativo.

No ano seguinte a Sra. de Cardonne deixou Paris e não tornei a

vê-la, senão oito anos depois, em 1866, quando as coisas já tinham cami

nhado bastante. Disse-me ela:

— Lembra-se da minha predição acerca da tiara espiritual? Aí a tem

realizada.

— Como realizada? Que eu o saiba, não me acho no trono de Pedro.

— Não, decerto, mas também não foi isso o que lhe anunciei. O

senhor não é, de fato, o chefe da Doutrina, reconhecido pelos espíritas

do mundo inteiro? Não são os seus escritos que fazem lei? Não se contam

por milhões os seus correligionários? Em matéria de Espiritismo, haverá

alguém cujo nome tenha mais autoridade do que o seu? Os títulos de sumo

sacerdote, de pontífice, mesmo de papa, não lhe são dados espontanea

mente? São-no, sobretudo, pelos seus adversários e por ironia, bem o sei,

mas nem por isso o fato deixa de indicar de que gênero é a influência que

eles lhe reconhecem, porque pressentem qual o papel que lhe cabe. Assim,

esses títulos lhe ficarão.

Em suma, o senhor conquistou, sem a buscar, uma posição moral

que ninguém lhe pode tirar, dado que, sejam quais forem os trabalhos que

se elaborem depois dos seus, ou concomitantemente com eles, o senhor

será sempre o proclamado fundador da Doutrina. Logo, em realidade, está

com a tiara espiritual, isto é, com a supremacia moral. Reconheça, portan

to, que eu disse a verdade.

Acredita agora, mais um pouco, nos sinais das mãos?” — Menos que

nunca e estou convencido de que, se a senhora viu alguma coisa, não foi na

minha mão, mas no seu próprio espírito e vou prová-lo.

Admito que nas mãos, como nos pés, nos braços e nas outras partes

do corpo, existem certos sinais fisiognomônicos, mas cada órgão apresenta

sinais particulares, conforme o uso a que é sujeito e conforme as suas rela

ções com o pensamento. Os sinais das mãos não podem ser os mesmos que

os dos pés, dos braços, da boca, dos olhos etc.

Quanto ao pregueado da palma das mãos, a maior ou menor acen

tuação que apresentam resulta da natureza da pele e da maior ou menor

quantidade de tecido celular. Como essas partes em nenhuma correlação

fisiológica estão com os órgãos das faculdades intelectuais e morais, não

podem ser a expressão dessas faculdades. Mesmo admitindo-se que haja

essa correlação, elas poderiam fornecer indicações sobre o estado atual do

indivíduo, mas não poderiam constituir sinais de presságios de coisas fu

turas, nem de acontecimentos passados e independentes da vontade do

mesmo indivíduo. Na primeira hipótese, eu, a rigor, compreenderia que,

com o auxílio de tais lineamentos, se pudesse dizer que uma pessoa possui

esta ou aquela aptidão, este ou aquele pendor; o mais vulgar bom senso,

porém, repeliria a ideia de que se possa ver ali se ela foi casada ou não,

quantas vezes e o número de filhos que teve, se é viúva ou não, e outras

coisas semelhantes, como o pretende a maioria dos quiromantes.

Entre as linhas das mãos, há uma que toda gente conhece e que re

presenta bem um M. Se é bastante acentuada, pressagia, dizem, uma vida

infeliz (malheureuse); porém, a palavra malheur (infelicidade) é francesa

e ninguém se lembra de que, nas outras línguas, a palavra que a essa cor

responde não começa pela mesma letra, donde se segue que a linha em

questão deveria apresentar formas diferentes, de acordo com as línguas

dos povos.

Quanto à tiara espiritual, é, evidentemente, uma coisa especial,

excepcional e, até certo ponto, individual e eu estou convencido de que

a senhora não encontrou essa expressão no vocabulário de nenhum tra

tado de quiromancia. Como então lhe veio ela à mente? Pela intuição,

pela inspiração, por essa espécie de presciência peculiar à dupla vista de

que muitas pessoas são dotadas sem o suspeitarem. Sua atenção estava

concentrada nos lineamentos da mão, a senhora fixou o pensamento

num sinal em que outra pessoa teria visto coisa muito diversa, ou a

que a senhora mesmo atribuiria significação diferente, se se tratasse de

outro indivíduo.

17 de janeiro de 1857

(Em casa do Sr. Baudin – Médium: Srta. Baudin)

Primeira notícia de uma nova encarnação

O Espírito prometera escrever-me uma carta por ocasião da entrada

do ano. Tinha, dizia, qualquer coisa de particular a me dizer. Havendo-lha

eu pedido numa das reuniões ordinárias, respondeu que a daria na intimi

dade ao médium, para que este ma transmitisse. É esta a carta:

“Caro amigo, não te quis escrever terça-feira última diante de toda a

gente, porque há certas coisas que só particularmente se podem dizer.

Eu queria, primeiramente, falar-te da tua obra, a que mandaste im

primir (O livro dos espíritos entrara para o prelo). Não te afadigues tanto, da

manhã à noite; passarás melhor e a obra nada perderá por esperar.

Segundo o que vejo, és muito capaz de levar a bom termo a tua em

presa e tens que fazer grandes coisas. Nada, porém, de exagero em coisa al

guma. Observa e aprecia tudo judiciosa e friamente. Não te deixes arrastar

pelos entusiastas, nem pelos muito apressados. Mede todos os teus passos,

a fim de chegares ao fim com segurança. Não creias em mais do que aquilo

que vejas; não desvies a atenção de tudo o que te pareça incompreensível;

virás a saber a respeito mais do que qualquer outro, porque os assuntos de

estudo serão postos sob as tuas vistas.

Mas ah! a verdade não será conhecida de todos, nem crida, senão

daqui a muito tempo! Nessa existência não verás mais do que a aurora do

êxito da tua obra. Terás que voltar, reencarnado noutro corpo, para comple

tar o que houveres começado e, então, dada te será a satisfação de ver em

plena frutificação a semente que houveres espalhado pela Terra.

Surgirão invejosos e ciosos que procurarão infamar-te e fazer-te opo

sição: não desanimes; não te preocupes com o que digam ou façam contra

ti; prossegue em tua obra; trabalha sempre pelo progresso da Humanidade,

que serás amparado pelos bons Espíritos, enquanto perseverares no bom

caminho.

Lembras-te de que, há um ano, prometi a minha amizade aos que,

durante o ano, tivessem tido um proceder sempre correto? Pois bem! de

claro que és um dos que escolhi entre todos.

Teu amigo que te quer e protege.”

Z.

Nota – Já tive ocasião de dizer que Z. não era um Espírito superior, porém muito

bom e muito benfazejo. Talvez fosse mais adiantado do que o deixava supor o nome

que tomara. Legitimavam essa suposição o caráter sério e a sabedoria de suas comu

nicações, conforme as circunstâncias. Sob a capa daquele nome, ele se permitia usar

de uma linguagem familiar apropriada ao meio onde se manifestava e dizer, como

frequentemente sucedia, duras verdades, sob a forma leve do epigrama. Como quer

que seja, dele guardei sempre grata recordação e muito reconhecimento pelas boas

advertências que sempre me deu e pelo devotamento que me testemunhou. Desa

pareceu com a dispersão da família Baudin, dizendo que em breve reencarnaria.

15 de novembro de 1857

(Em casa do Sr. Dufaux – Médium: Sra. E. Dufaux)

A Revista Espírita

Pergunta – Tenho a intenção de publicar um jornal espírita: julgais

que o conseguirei e me aconselhais a fazê-lo? A pessoa a quem me dirigi,

Sr. Tiedman, não parece resolvida a me prestar o seu concurso pecuniário.

Resposta – Consegui-lo-ás, com perseverança. A ideia é boa; preciso

se faz, porém, deixá-la amadurecer mais.

P. – Temo que outros me tomem a dianteira.

R. – Importa andar depressa.

P. – Não quero outra coisa, mas falta-me tempo. Tenho dois empre

gos que me são necessários, como o sabeis. Desejara renunciar a eles, a fim

de me consagrar inteiramente à minha tarefa, sem outras preocupações.

R. – Por enquanto, não deves abandonar coisa alguma; há sempre

tempo para tudo; move-te e conseguirás.

P. – Devo agir sem o concurso do Sr. Tiedman?

R. – Age com ou sem o seu concurso; não te consumas por sua causa.

Podes prescindir dele.

P. – Eu pretendia publicar um primeiro número como ensaio, a fim

de lançar o jornal e marcar data, e continuar mais tarde, se for possível.

Que vos parece?

R. – A ideia é boa, mas um só número não bastará; entretanto, é conve

niente, e mesmo necessário, para abrir caminho. Será preciso que lhe dispenses

muito cuidado, a fim de assentares as bases de um bom êxito durável. A apre

sentá-lo defeituoso, melhor será nada fazer, porquanto a primeira impressão

pode decidir do seu futuro. De começo, deves cuidar de satisfazer à curiosi

dade; reunir o sério ao agradável: o sério para atrair os homens de Ciência, o

agradável para deleitar o vulgo. Esta parte é essencial, porém a outra é mais

importante, visto que sem ela o jornal careceria de fundamento sólido. Em

suma, é preciso evitar a monotonia por meio da variedade, congregar a instru

ção sólida ao interesse que, para os trabalhos ulteriores, será poderoso auxiliar.

Nota – Apressei-me a redigir o primeiro número e fi-lo circular a 1o de janeiro de 1858,

sem haver dito nada a quem quer que fosse. Não tinha um único assinante e nenhum

fornecedor de fundos. Publiquei-o correndo eu, exclusivamente, todos os riscos e não

tive de que me arrepender, porquanto o resultado ultrapassou a minha expectativa. A

partir daquela data, os números se sucederam sem interrupção e, como previa o Espíri

to, esse jornal se tornou um poderoso auxiliar meu. Reconheci mais tarde que fora para

mim uma felicidade não ter tido quem me fornecesse fundos, pois assim me conservara

mais livre, ao passo que outro interessado houvera querido talvez impor-me suas ideias e

sua vontade e criar-me embaraços. Sozinho, eu não tinha que prestar contas a ninguém,

embora, pelo que respeitava ao trabalho, me fosse pesada a tarefa.

1o de abril de 1858

Fundação da Sociedade Espírita de Paris

Se bem não haja aqui nenhum caso de previsão, menciono, para

conservá-lo em lembrança, o da fundação da Sociedade, por motivo do

papel que ela representou na marcha do Espiritismo e das comunicações a

que deu lugar.

Havia cerca de seis meses, eu realizava, em minha casa, à Rua dos

Mártires, uma reunião com alguns adeptos, às terças-feiras. A Srta. E.

Dufaux era a médium principal. Conquanto o local não comportasse mais

de 15 ou 20 pessoas, até 30 lá se juntavam às vezes. Apresentavam grande

interesse tais reuniões, pelo caráter sério de que se revestiam e pelas ques

tões que ali se tratavam. Lá não raro compareciam príncipes estrangeiros e

outras personagens de alta distinção.

Nada cômoda pela sua disposição, a sala onde nos reuníamos se tor

nou em breve muito acanhada. Alguns dos frequentadores deliberaram co

tizar-se para alugar uma que mais conviesse. Então, fazia-se necessária uma

autorização legal, a fim de se evitar que a autoridade nos fosse perturbar. O

Sr. Dufaux, que se dava pessoalmente com o prefeito de Polícia, encarre

gou-se de tratar do caso. A autorização também dependia do Ministro do

Interior. Coube então ao general X..., que era, sem que ninguém o soubes

se, simpático às nossas ideias, embora sem as conhecer inteiramente, obter

a autorização. Esta, graças à sua influência, pôde ser concedida em quinze

dias, quando, de ordinário, leva três meses para ser dada.

A Sociedade ficou, em consequência, legalmente constituída e

passamos a reunir-nos todas as terças-feiras no compartimento que ela

alugara, no Palais Royal, galeria de Valois. Aí esteve um ano, de 1o de

abril de 1858 a 1o de abril de 1859. Não tendo permanecido lá por mais

tempo, entrou a reunir-se às sextas-feiras num dos salões do restaurante

Douix, no mesmo Palais Royal, galeria Montpensier, de 1o de abril de

1859 a 1o de abril de 1860, época em que se instalou num local seu, à

rua e passagem Sant’Ana, 59.

Formada a princípio de elementos pouco homogêneos e de pessoas de boa vontade, que eram aceitas com facilidade um tanto excessiva, a Sociedade se viu sujeita a muitas vicissitudes, que não foram dos menores percalços da minha tarefa.

24 de janeiro de 1860

(Em casa do Sr. Forbes – Médium: Sra. Forbes)

Duração dos meus trabalhos

Segundo a minha maneira de apreciar as coisas, calculava eu que

ainda me faltavam cerca de dez anos para conclusão dos meus trabalhos,

mas a ninguém falara disso. Achei-me, pois, muito surpreendido, ao rece

ber de um dos meus correspondentes de Limoges uma comunicação dada

espontaneamente, em que o Espírito, falando de meus trabalhos, dizia que

dez anos se passariam antes que eu os terminasse.

Pergunta (à Verdade) – Como é que um Espírito, comunicando-se

em Limoges, onde nunca fui, pôde dizer precisamente o que eu pensava

acerca da duração dos meus trabalhos?

Resposta – Nós sabemos o que te resta a fazer e, por conseguinte, o

tempo aproximado de que precisas para acabar a tua tarefa. É, portanto,

muito natural que alguns Espíritos o tenham dito em Limoges e algures,

para darem uma ideia da amplitude da coisa, pelo trabalho que exige.

Entretanto, não é absoluto o prazo de dez anos; pode ser prolongado

por alguns mais, em virtude de circunstâncias imprevistas e independentes

da tua vontade.

Nota (Escrita em dezembro de 1866) – Tenho publicado quatro volumes subs

tanciosos, sem falar de coisas acessórias. Os Espíritos instam para que eu publique

A gênese em 1867, antes das perturbações. Durante o período da grande pertur

bação terei de trabalhar nos livros complementares da Doutrina, que não poderão

aparecer senão depois da forte tormenta e para os quais me são precisos de três a

quatro anos. Isso nos leva, o mais cedo, a 1870, isto é, cerca de 10 anos.

28 de janeiro de 1860

(Em casa do Sr. Solichon – Médium: Srta. Solichon)

Acontecimentos. Papado

Pergunta (ao Espírito Ch.) – Foste embaixador em Roma e a esse tem

po predisseste a queda do governo papal. Que pensas hoje a esse respeito?

Resposta – Creio que se aproxima o tempo em que a minha profecia

se cumprirá, porém, não sem grandes dores. Tudo se complica; exacerbam--se as paixões e uma coisa que se poderia fazer sem comoção, empolgou a

todos, e de tal maneira que a cristandade inteira será abalada.

P. – Consentirias em dar-nos a tua opinião sobre o poder temporal

do Papa?

R. – Penso que o poder temporal do Papa não é necessário à sua

grandeza, nem ao seu poder moral; ao contrário, quanto menos súditos ele

contar, mais venerado será. Aquele que é o representante de Deus na Terra

está colocado muito alto para não precisar do realce do poder terreno. Di

rigir a Terra espiritualmente, tal a missão do pai dos cristãos.

P. – Achas que o Papa e o Sacro Colégio, mais bem esclarecidos, fa

rão tudo por evitar o cisma e a guerra intestina, embora seja apenas moral?

R. – Não o creio; todos esses homens são obstinados, ignorantes,

habituados a todos os gozos profanos; necessitam de dinheiro para satis

fazê-los e recearão que a nova ordem de coisas não permita que o ganhem

suficientemente. Por isso levam tudo ao extremo, pouco se incomodando

com o que venha a acontecer, por demasiadamente cegos para compreen

derem as consequências da sua maneira de proceder.

P. – Nesse conflito não será de temer-se que a infeliz Itália sucumba

e seja posta sob o cetro da Áustria?

R. – Não, é impossível. A Itália sairá vitoriosa da luta e a liberdade

raiará para essa terra gloriosa. Ela nos salvou da barbárie, foi nossa mestra

em tudo o que a inteligência tem de mais nobre e de mais elevado. Não

recairá absolutamente sob o jugo dos que a rebaixaram.

12 de abril de 1860

(Em casa do Sr. Dehau – Médium: Sr. Crozet)

(Comunicação espontânea obtida na minha ausência)

Minha missão

Pela sua firmeza e perseverança, o vosso Presidente desmanchou os

projetos dos que procuravam destruir-lhe o crédito e arruinar a Sociedade,

na esperança de desfecharem na Doutrina um golpe fatal. Honra lhe seja!

Fique ele certo de que estamos a seu lado e que os Espíritos de sabedoria se

sentirão felizes por poderem assisti-lo em sua missão. Quantos desejariam

desempenhar a sombra dessa missão, para receberem a sombra dos benefí

cios que decorrem dela!

Ela, porém, é perigosa e, para cumpri-la, são necessárias uma fé e

uma vontade inabaláveis, assim como abnegação e coragem para afrontar

as injúrias, os sarcasmos, as decepções e não se alterar com a lama que a in

veja e a calúnia atirem. Nessa posição, o menos que pode acontecer a quem

a ocupa é ser tratado de louco e de charlatão. Deixai que falem, deixai que

pensem livremente: tudo, exceto a felicidade eterna, dura pouco. Tudo vos

será levado em conta e ficai sabendo que, para ser-se feliz, é preciso que se

haja contribuído para a felicidade dos pobres seres de que Deus povoou

a vossa terra. Permaneça, pois, tranquila e serena a vossa consciência: é o

precursor da felicidade celeste.

15 de abril de 1860

(Marselha – Médium: Sr. Georges Genouillat)

(Comunicação transmitida pelo Sr. Brion Dorgeval)

Futuro do Espiritismo

O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra.

Ele reformará a legislação ainda tão frequentemente contrária às Leis di

vinas; retificará os erros da História; restaurará a religião do Cristo, que se

tornou, nas mãos dos padres, objeto de comércio e de tráfico vil; instituirá

a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai dire

tamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus

de um altar. Extinguirá para sempre o ateísmo e o materialismo, aos quais

alguns homens foram levados pelos incessantes abusos dos que se dizem

ministros de Deus, pregam a caridade com uma espada em cada mão,

sacrificam às suas ambições e ao espírito de dominação os mais sagrados

direitos da Humanidade.

um espíRito

10 de junho de 1860

(Em minha casa; médium: Sra. Schmidt)

Minha volta

Pergunta (à Verdade) – Acabo de receber de Marselha uma carta em

que se me diz que, no seminário dessa cidade, estão estudando seriamente

o Espiritismo e O livro dos espíritos. Que se deve augurar desse fato? Será

que o clero toma a coisa a peito?

Resposta – Não podes duvidar disso. Ele a toma muito a peito, porque

lhe prevê as consequências e grandes são as suas apreensões. Principalmente

a parte esclarecida do clero estuda o Espiritismo mais do que o supões; não

creias, porém, que seja por simpatia; ao contrário, é à procura de meios para

combatê-lo e eu te asseguro que rude será a guerra que lhe fará. Não te inco

modes; continua a obrar com prudência e circunspeção; tem-te em guarda

contra as ciladas que te armarão; evita cuidadosamente em tuas palavras e

nos teus escritos tudo o que possa fornecer armas contra ti.

Prossegue em teu caminho sem temor; ele está juncado de espinhos,

mas eu te afirmo que terás grandes satisfações, antes de voltares para junto

de nós “por um pouco”.

P. – Que queres dizer por essas palavras: “por um pouco”?

R. – Não permanecerás longo tempo entre nós. Terás que volver à

Terra para concluir a tua missão, que não podes terminar nesta existência.

Se fosse possível, absolutamente não sairias daí, mas é preciso que se cum

pra a Lei da Natureza. Ausentar-te-ás por alguns anos e, quando voltares,

será em condições que te permitam trabalhar desde cedo. Entretanto, há

trabalhos que convém os acabes antes de partires; por isso, dar-te-emos o

tempo que for necessário a concluí-los.

Nota – Calculando aproximadamente a duração dos trabalhos que ainda tenho

de fazer e levando em conta o tempo da minha ausência e os anos da infância e

da juventude, até a idade em que um homem pode desempenhar no mundo um

papel, a minha volta deverá ser forçosamente no fim deste século ou no princípio

do outro.

21 de setembro de 1861

(Em minha casa – Médium: Sr. d’A...)

Auto de fé em Barcelona. Apreensão dos livros

A pedido do Sr. Lachâtre, então residente em Barcelona, eu lhe en

viara certa quantidade de O livro dos espíritos, de O livro dos médiuns, das

coleções da Revista Espírita, além de diversas obras e brochuras espíritas,

perfazendo um total de cerca de 300 volumes. A expedição da encomenda

fora regularmente feita pelo seu correspondente em Paris, num caixão que

continha outras mercadorias e sem a menor infração da legalidade. À che

gada dos livros, fizeram que o destinatário pagasse os direitos de entrada,

mas, antes de os entregarem, houve que ser entregue uma relação das obras

ao bispo, pois, naquele país, a polícia de livraria competia à autoridade

eclesiástica. O bispo se achava então em Madri. Ao regressar, tomando

conhecimento da relação dos livros, ordenou que eles fossem apreendidos e

queimados em praça pública pela mão do carrasco. A execução da sentença

foi marcada para 9 de outubro de 1861.

Se se houvesse tentado introduzir aquelas obras como contrabando,

a autoridade espanhola teria o direito de dispor delas à sua vontade, mas

desde que absolutamente não havia fraude, nem surpresa, como o prova

va o pagamento espontâneo dos direitos, fora de rigorosa justiça que se

ordenasse a reexportação dos volumes, uma vez que não convinha se lhes

admitisse a entrada. Ficaram, porém, sem resultado as reclamações apre

sentadas por intermédio do cônsul francês em Barcelona. O Sr. Lachâtre

me perguntou se valeria a pena recorrer à autoridade superior. Opinei por

que se deixasse consumar o ato arbitrário; entendi, porém, acertado ouvir

a opinião do meu guia espiritual.

Pergunta (à Verdade) – Não ignoras, sem dúvida, o que acaba de pas

sar-se em Barcelona, com algumas obras espíritas. Quererás ter a bondade

de dizer-me se convirá prosseguir na reclamação para restituição delas?

Resposta – Por direito, podes reclamá-las e conseguirias que te fossem

restituídas, se te dirigisses ao Ministro de Estrangeiros da França. Mas, ao meu

parecer, desse auto de fé resultará maior bem do que o que adviria da leitura

de alguns volumes. A perda material nada é, a par da repercussão que seme

lhante fato produzirá em favor da Doutrina. Deves compreender quanto uma

perseguição tão ridícula, quanto atrasada, poderá fazer a bem do progresso do

Espiritismo na Espanha. A queima dos livros determinará uma grande expan

são das ideias espíritas e uma procura febricitante das obras dessa Doutrina.

As ideias se disseminarão lá com maior rapidez e as obras serão procuradas

com maior avidez, desde que as tenham queimado. Tudo vai bem.

P. – Convirá que eu escreva a respeito um artigo para o próximo

número da Revista?

R. – Espera o auto de fé.

9 de outubro de 1861

Auto de fé em Barcelona

Esta data ficará assinalada nos anais do Espiritismo, por motivo do

auto de fé praticado com os livros espíritas em Barcelona. Eis aqui um

extrato da ata da execução:

Neste dia, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia

da manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, no local onde são executados os

criminosos condenados ao derradeiro suplício e por ordem do bispo desta cidade,

foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber: O

livro dos espíritos, por Allan Kardec etc.

Os principais jornais da Espanha deram conta minuciosa do fato,

que os órgãos da imprensa liberal do país muito justamente profligaram.

É de notar-se que na França os periódicos liberais se limitaram a mencio

ná-lo sem comentários. O próprio Século, tão ardoroso em estigmatizar os

abusos do poder e os menores atos de intolerância do clero, não achou uma

palavra de reprovação para esse ato digno da Idade Média. Alguns jornais

da pequena imprensa acharam mesmo no caso motivo para risota. Pondo

de parte o que diz respeito à crença, havia ali uma questão de princípio,

de direito internacional, que interessava a todo o mundo, sobre a qual não

teriam tão levianamente guardado silêncio, se se tratasse de certas outras

obras. Eles não se furtam de censuras, quando está em causa a simples

exigência de uma estampilha para venda de um livro materialista; ora, o

restaurar a Inquisição as suas fogueiras com a solenidade de outrora, às

portas da França, apresentava bem maior gravidade. Por que, então, seme

lhante indiferença? É que estava em jogo uma Doutrina a cujos progressos

a incredulidade assiste com pavor. Reivindicar justiça para ela fora consa

grar-lhe o direito à proteção da autoridade e aumentar-lhe o crédito. Seja

como for, o auto de fé em Barcelona não deixou de produzir o esperado

efeito, pela repercussão que teve na Espanha, onde contribuiu fortemente

para propagar as ideias espíritas (Veja-se a Revista Espírita de novembro de

1861, Resquícios da Idade Média — O auto de fé de Barcelona).

O acontecimento abriu ensejo a muitas comunicações da parte dos

Espíritos. A que se segue foi dada espontaneamente na Sociedade de Paris,

a 19 de outubro, quando regressei de Bordeaux.

“Fazia-se mister alguma coisa que chocasse com violência certos Espí

ritos encarnados, para que se decidissem a ocupar-se com essa grande Dou

trina, que há de regenerar o mundo. Nada, para isto, se faz inutilmente na

Terra e nós que inspiramos o auto de fé em Barcelona, bem sabíamos que,

procedendo assim, forçávamos um grande passo para frente. Esse fato brutal,

inaudito nos tempos atuais, se consumou tendo por fim chamar a atenção dos

jornalistas que se mantinham indiferentes diante da agitação profunda que

abalava as cidades e os centros espíritas. Eles deixavam que falassem e fizessem

o que bem entendessem, mas obstinavam-se em passar por surdos e respon

diam com o mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. De

bom ou mau grado, hoje falam dele; uns, comprovando o histórico do fato de

Barcelona; outros, desmentindo-o, ensejaram uma polêmica que dará volta ao

mundo, de grande proveito para o Espiritismo. Essa a razão por que a retaguar

da da Inquisição fez hoje o seu último auto de fé. É que assim o quisemos.”

um espíRito.

Nota – De Barcelona enviaram-me uma aquarela feita in loco por um artista dis

tinto, representando a cena do auto de fé. Mandei fazer do quadro uma redução

fotográfica. Possuo também um pouco de cinza apanhada na fogueira, em que se

encontram fragmentos ainda legíveis de folhas queimadas. Conservei-os numa

urna de cristal.20,21

22 de dezembro de 1861

(Em minha casa: comunicação particular – Médium: Sr. d’A...)

Meu sucessor

Tendo uma conversação com os Espíritos levado a falar do meu su

cessor na direção do Espiritismo, formulei a questão seguinte:

Pergunta – Entre os adeptos, muitos há que se preocupam com o que

virá a ser do Espiritismo depois de mim e perguntam quem me substituirá

quando eu partir, uma vez que não se vê aparecer ninguém, de modo no

tório, para lhe tomar as rédeas.

Respondo que não nutro a pretensão de ser indispensável; que Deus

é extremamente sábio para não fazer que uma Doutrina destinada a rege

nerar o mundo assente sobre a vida de um homem; que, ademais, sempre

me avisaram que a minha tarefa é a de constituir a Doutrina e que para

isso tempo necessário me será concedido. A do meu sucessor será, pois,

mais fácil, porquanto já achará traçado o caminho, bastando que o siga.

Entretanto, se os Espíritos julgassem oportuno dizer-me a respeito alguma

coisa de mais positivo, eu muito grato lhes ficaria.

Resposta – Tudo isso é rigorosamente exato — eis o que se nos per

mite dizer-te a mais.

Tens razão em afirmar que não és indispensável; só o és ao ver dos

homens, porque era necessário que o trabalho de organização se concen

trasse nas mãos de um só, para que houvesse unidade; não o és, porém, aos

olhos de Deus. Foste escolhido e por isso é que te vês só, mas não és, como,

aliás, bem o sabes, a única entidade capaz de desempenhar essa missão. Se

20 Nota do autor: A Livraria espírita ainda os conserva.

o seu desempenho se interrompesse por uma causa qualquer, não faltariam

a Deus outros que te substituíssem. Assim, aconteça o que acontecer, o

Espiritismo não periclitará.

Enquanto o trabalho de elaboração não estiver concluído, será, pois,

necessário sejas o único em evidência: fazia-se mister uma bandeira em

torno da qual pudessem as gentes agrupar-se. Era preciso que te consi

derassem indispensável, para que a obra que te sair das mãos tenha mais

autoridade no presente e no futuro; era preciso mesmo que temessem pelas

consequências da tua partida.

Se aquele que te há de substituir fosse designado de antemão, a

obra, ainda não acabada, poderia sofrer entraves; formar-se-iam contra ti

oposições suscitadas pelo ciúme; discuti-lo-iam, antes que ele desse provas

de si; os inimigos da Doutrina procurariam barrar-lhe o caminho, resul

tando daí cismas e separações. Ele, portanto, se revelará, quando chegar

o momento.

Sua tarefa será assim facilitada, porque, como dizes, o caminho

estará todo traçado; se ele daí se afastasse, perder-se-ia a si próprio,

como já se perderam os que hão querido atravessar-se na estrada. A

referida tarefa, porém, será mais penosa noutro sentido, visto que ele

terá de sustentar lutas mais rudes. A ti te incumbe o encargo da con

cepção, a ele o da execução, pelo que terá de ser homem de energia e de

ação. Admira aqui a sabedoria de Deus na escolha de seus mandatários:

tu possuis as qualidades que eram necessárias ao trabalho que tens de

realizar, porém não possuis as que serão necessárias ao teu sucessor.

Tu precisas da calma, da tranquilidade do escritor que amadurece as

ideias no silêncio da meditação; ele precisará da força do capitão que

comanda um navio segundo as regras da Ciência. Exonerado do traba

lho de criação da obra sob cujo peso teu corpo sucumbirá, ele terá mais

liberdade para aplicar todas as suas faculdades ao desenvolvimento e à

consolidação do edifício.

P. – Poderás dizer-me se a escolha do meu sucessor já está feita?

R. – Está, sem o estar, dado que o homem, dispondo do livre-ar

bítrio, pode no último momento recuar diante da tarefa que ele próprio

elegeu. É também indispensável que dê provas de si, de capacidade, de de

votamento, de desinteresse e de abnegação. Se se deixasse levar apenas pela

ambição e pelo desejo de primar, seria certamente posto de lado.

P. – Frequentemente se há dito que muitos Espíritos encarnariam

para ajudar o movimento.

R. – Sem dúvida, muitos Espíritos terão essa missão, mas cada um

na sua especialidade, para agir, pela sua posição, sobre tal ou tal parte na

sociedade. Todos se revelarão por suas obras e nenhum por qualquer pre

tensão à supremacia.

Ségur, 9 de agosto de 1863

(Médium Sr. d’A...)

Imitação do evangelho

Nota – Eu a ninguém dera ciência do assunto do livro em que estava trabalhan

do. Conservara-lhe de tal modo em segredo o título, que o editor, Sr. Didier, só o

conheceu quando da impressão. Esse título foi, a princípio: Imitação do evangelho.

Mais tarde, por efeito de reiteradas observações do mesmo Sr. Didier e de algumas

outras pessoas, mudei-o para o de O evangelho segundo o espiritismo. Assim, as

reflexões contidas nas comunicações seguintes não podem ser tidas como fruto de

ideias preconcebidas do médium.

Pergunta – Que pensais da nova obra em que trabalho neste

momento?

Resposta – Esse livro de doutrina terá considerável influência, pois

que explanas questões capitais, e não só o mundo religioso encontrará nele

as máximas que lhe são necessárias, como também a vida prática das nações

haurirá dele instruções excelentes. Fizeste bem enfrentando as questões de

alta moral prática, do ponto de vista dos interesses gerais, dos interesses

sociais e dos interesses religiosos. A dúvida tem que ser destruída; a terra

e suas populações civilizadas estão prontas; já de há muito os teus amigos

de além-túmulo as arrotearam; lança, pois, a semente que te confiamos,

porque é tempo de que a Terra gravite na ordem irradiante das esferas e

que saia, afinal, da penumbra e dos nevoeiros intelectuais. Acaba a tua obra

e conta com a proteção do teu guia, guia de todos nós, e com o auxílio

devotado dos Espíritos que te são mais fiéis e em cujo número digna-te de

me incluir sempre.

P. – Que dirá o clero?

R. – O clero gritará — heresia —, porque verá que atacas decisi

vamente as penas eternas e outros pontos sobre os quais ele baseia a sua

influência e o seu crédito. Gritará tanto mais, quanto se sentirá muito

mais ferido do que com a publicação de O livro dos espíritos, cujos dados

principais, a rigor, poderia aceitar. Agora, porém, tu entraste por um novo

caminho, no qual não poderá ele acompanhar-te. O anátema secreto se

tornará oficial e os espíritas serão repelidos, como o foram os judeus e os

pagãos, pela Igreja Romana. Em compensação, os espíritas verão aumen

tar-se-lhes o número, em virtude dessa espécie de perseguição, sobretudo

com o qualificarem, os padres, de demoníaca uma Doutrina cuja morali

dade esplenderá como um raio de sol pela publicação mesma do teu novo

livro e dos que se seguirão.

Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o Espiritis

mo qual ele é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina

ensinada pelo Cristo. Aproxima-se a hora em que, à face do céu e da Terra,

terás de proclamar que o Espiritismo é a única tradição verdadeiramente

cristã e a única instituição verdadeiramente divina e humana. Ao te esco

lherem, os Espíritos conheciam a solidez das tuas convicções e sabiam que

a tua fé, qual muro de aço, resistiria a todos os ataques.

Entretanto, amigo, se a tua coragem ainda não desfaleceu sob a ta

refa tão pesada que aceitaste, fica sabendo que foste feliz até o presente,

mas que é chegada a hora das dificuldades. Sim, caro mestre, prepara-se a

grande batalha; o fanatismo e a intolerância, exacerbados pelo bom êxito

da tua propaganda, vão atacar-te e aos teus com armas envenenadas. Pre

para-te para a luta. Tenho, porém, fé em ti, como tu tens fé em nós, e sei

que a tua fé é das que transportam montanhas e fazem caminhar por sobre

as águas. Coragem, pois, e que a tua obra se complete. Conta conosco e

conta sobretudo com a grande alma do Mestre de todos nós, que te protege

de modo muito particular.

Paris, 14 de setembro de 1863.

Nota – Eu solicitara para mim uma comunicação sobre um assunto qualquer e

pedira que ela me fosse enviada para o meu retiro de Sainte-Adresse.

“Quero falar-te de Paris, embora isso não me pareça de manifesta

utilidade, uma vez que as minhas vozes íntimas se fazem ouvir em torno

de ti e que teu cérebro percebe as nossas inspirações, com uma facilidade

de que nem tu mesmo suspeitas. Nossa ação, principalmente a do Espírito

Verdade, é constante ao teu derredor e tal que não a podes negar. Assim

sendo, não entrarei em detalhes ociosos a respeito do plano de tua obra,

plano que, segundo meus conselhos ocultos, modificaste tão ampla e com

pletamente. Compreendes agora por que precisávamos ter-te sob as mãos,

livre de toda preocupação outra, que não a da Doutrina. Uma obra como

a que elaboramos de comum acordo necessita de recolhimento e de insu

lamento sagrado. Tenho vivo interesse pelo teu trabalho, que é um passo

considerável para a frente e abre, afinal, ao Espiritismo a estrada larga das

aplicações proveitosas, a bem da sociedade. Com esta obra, o edifício co

meça a libertar-se dos andaimes e já se lhe pode ver a cúpula a desenhar-se

no horizonte. Continua, pois, sem impaciência e sem fadiga; o monumen

to estará pronto na hora determinada.

Já tratamos contigo das questões incidentes do momento, isto é,

das questões religiosas. O Espírito Verdade te falou das rebeliões que já se

levantam na hora, presente. São necessárias essas hostilidades para manter

desperta a atenção dos homens, que tão facilmente se deixam desviar de

um assunto sério. Aos soldados que combatem pela causa, incessantemente

se juntarão combatentes novos, cujas palavras e escritos hão de causar sen

sação e levarão a perturbação e a confusão às fileiras dos adversários.

Adeus, caro companheiro de antanho, discípulo fiel da verdade, que

continua através da vida a obra a que outrora, diante do Espírito que te

ama e a quem venero, juramos consagrar as nossas forças e as nossas exis

tências, até que ela se achasse concluída. Saúdo-te.”

obseRvação – O plano da obra fora, de fato, completamente modificado, o

que sem dúvida o médium não podia saber, pois que ele estava em Paris e eu

em Sainte-Adresse. Tampouco podia saber que o Espírito Verdade me falara

da atitude de revolta do bispo de Argélia e outros. Todas essas circunstâncias

eram bem urdidas para me comprovar que os Espíritos tomavam parte em

meus trabalhos.

Paris, 30 de setembro de 1863

(Médium: Sr. d’A...)

A Igreja

Eis-te de volta, meu amigo, e não perdeste o teu tempo. À obra ainda,

pois não deves deixar se enferruje a tua bigorna. Forja, forja armas bem tem

peradas; repousa do trabalho feito, empreendendo trabalhos mais difíceis.

Todos os elementos serão postos ao teu alcance, à medida que for necessário.

É chegada a hora em que a Igreja tem de prestar contas do depósito

que lhe foi confiado, da maneira por que pratica os ensinos do Cristo, do

uso que fez da sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que

levou os espíritos. A hora é vinda em que ela tem de dar a César o que

é de César e de assumir a responsabilidade de todos os seus atos. Deus a

julgou, e a reconheceu inapta, daqui por diante, para a missão de progres

so que incumbe a toda autoridade espiritual. Somente por meio de uma

transformação absoluta lhe seria possível viver, mas resignar-se-á ela a essa

transformação? Não, pois que, então, já não seria a Igreja; para assimilar

as verdades e as descobertas da Ciência, teria de renunciar aos dogmas que

lhe servem de fundamentos; para volver à prática rigorosa dos preceitos do

Evangelho, teria de renunciar ao poder, à dominação, de trocar o fausto e

a púrpura pela simplicidade e a humildade apostólicas. Ela se acha nesta

alternativa: ou se suicida, transformando-se; ou sucumbe nas garras do

progresso, se permanecer estacionária.

Aliás, Roma já se mostra cheia de ansiedade e na Cidade Eterna se

sabe, por inegáveis revelações, que a Doutrina Espírita causará dor viva ao

papado, porque na Itália se prepara rigorosamente o cisma. Não é, pois, de

espantar o encarniçamento com que o clero se lança ao combate contra o

Espiritismo, impelido pelo instinto de conservação. Ele, porém, já verifi

cou que suas armas se embotam contra essa potência que surge; seus argu

mentos não têm podido resistir à lógica inflexível; só lhe resta o demônio,

mísero auxiliar seu no século XIX.

Ademais, a luta está aberta entre a Igreja e o progresso, mais do que

entre ela e o Espiritismo. Ela é batida em toda a linha pelo progresso ge

ral das ideias e sucumbirá sob os seus golpes, como tudo quanto sai fora

do seu nível. A marcha rápida das coisas há de fazer-vos pressentir que o

desenlace não demorará muito tempo. A própria Igreja parece compelida

fatalmente a precipitá-lo.

espíRito e.

Paris, 14 de outubro de 1863

(Médium: Sr. d’A...)

(Sobre o futuro de diferentes publicações)

Vida de Jesus por Renan

Pergunta (a Erasto) – Que efeito produzirá a Vida de Jesus, de Renan?

Resposta – Enorme efeito. Grande será a repercussão no clero, por

que esse livro derroca os próprios fundamentos do edifício em que ele se

abriga há dezoito séculos. Não se trata de um livro irrepreensível, longe

disso, porque reflete uma opinião exclusiva, que se circunscreve no cír

culo acanhado da vida material. Todavia, Renan não é materialista, mas

pertence a essa escola que, se não nega o princípio espiritual, também

não lhe atribui nenhum papel efetivo e direto no encaminhamento das

coisas do mundo. Ele é desses cegos inteligentes que explicam a seu modo

o que não podem ver; que, não compreendendo o mecanismo da visão a

distância, imaginam que só tocando-a se pode conhecer uma coisa. Por

isso é que reduziu o Cristo às proporções do mais vulgar dos homens, ne

gando-lhe todas as faculdades que constituem atributos do Espírito livre

e independente da matéria.

Entretanto, a par de erros capitais, sobretudo no que concerne à

espiritualidade, o livro contém observações muito justas, que até aqui ha

viam escapado aos comentadores e que, de certo ponto de vista, lhe dão

grande alcance. Seu autor se inclui nessa legião de Espíritos encarnados

que se podem classificar como demolidores do velho mundo, tendo por

missão nivelar o terreno sobre o qual se edificará um mundo novo mais

racional. Quis Deus que um escritor, justamente conceituado entre os

homens, do ponto de vista do talento, viesse projetar luz sobre algumas

questões obscuras e eivadas de preconceitos seculares, a fim de predispor

os Espíritos às novas crenças. Sem o suspeitar, Renan achanou o caminho

para o Espiritismo.

Paris, 30 de janeiro de 1866

(Grupo do Sr. Golovine – Médium: Sr. L...)

Precursores da tempestade

Permiti que um antigo dignitário da Táurida abençoe vossos dois

filhos. Possam eles, sob a égide das respectivas mães, tornar-se inteligentes

em tudo e ser para vós causa de reais satisfações! Desejo que sejam espíri

tas convictos, isto é, de tal modo se saturem da ideia de outras vidas, dos

princípios de fraternidade, de caridade e de solidariedade, que os aconteci

mentos, que se precipitarão quando eles estiverem em idade de consciência

e de razão, não os espantem, nem lhes enfraqueçam a confiança na Justiça

divina, em meio das provas por que tem a Humanidade de passar.

Por vezes, surpreende-vos o azedume com que os vossos adversários

vos atacam. Segundo eles, sois loucos, alucinados, tomais a ficção pela rea

lidade, ressuscitais o diabo e todos os erros da Idade Média.

Sabeis que responder a todos os ataques seria travar uma polêmica

sem resultado. O vosso silêncio prova a vossa força e, se não lhes derdes

ocasião de retrucar, acabarão calando-se.

O imprevisto é o que mais podeis temer. Se se desse uma mudança

de governo, no sentido do mais intolerante ultramontanismo, certamente

seríeis perseguidos, escarnecidos, condenados, expatriados. Mas os acon

tecimentos, mais fortes que as maquinações em surdina, preparam no ho

rizonte político um temporal bastante violento e, quando a tempestade

estalar, tratai de estar bem abrigados, de ser bem fortes e muito desinteres

sados. Haverá ruínas, invasões, delimitações de fronteiras e, desse naufrá

gio imenso, que virá da Europa, da Ásia, da América, somente escaparão,

ficai sabendo, as almas temperadas, os espíritos esclarecidos, tudo o que for

justiça, lealdade, honra, solidariedade.

São perfeitas as vossas sociedades, tais quais se acham organizadas?

Tendes aos milhões os vossos párias; a miséria enche incessantemente as

vossas prisões, os vossos lupanares, e abastece os cadafalsos. A Alemanha

assiste, como em todos os tempos, à emigração de seus habitantes às cen

tenas de milhares, o que não faz honra aos seus governos; o Papa, príncipe

temporal, espalha o erro pelo mundo, em vez do Espírito de Verdade, de

que ele se constituiu o emblema artificial. Por toda parte a inveja. Vejo in

teresses que se combatem e nenhum esforço pelo erguimento do ignoran

te. Os governos, minados por princípios egoístas, pensam em fortificar-se

contra a maré que sobe, maré que é a consciência humana, que afinal se

insurge, após séculos de expectativa, contra a minoria que explora as forças

vivas das nacionalidades.

Nacionalidades! Que a Rússia não encontre terrível escolho, um

Cabo das Tormentas, nessa palavra. Bem-amado país, não esqueçam os

teus homens de Estado que a grandeza de uma nação não consiste em ter

fronteiras indefinidas, muitas províncias e poucas aldeias, algumas grandes

cidades num oceano de ignorância, imensas planícies, desertas, estéreis,

inclementes como a inveja, como tudo o que é falso e emite sons falsos.

Pouco importa que o Sol não se esconda sobre as vossas conquistas, nem

por isso haverá menos deserdados, menos ranger de dentes, todo um infer

no ameaçador e de fauces escancaradas como a imensidade.

As nações, como os governos, têm o livre-arbítrio; como as simples

individualidades, elas sabem dirigir-se pelo amor, pela união, pela concór

dia. Entretanto, fornecerão à tempestade anunciada elementos elétricos

apropriados a melhor as destruir e desagregar.

iNoceNte

Em vida, arcebispo da Táurida.

Lyon, 30 de janeiro de 1866.

(Grupo Villon – Médium: Sr. G...)

A nova geração

A Terra freme de alegria; aproxima-se o dia do Senhor; todos os que

entre nós estão à frente disputam porfiadamente por entrar na liça. Já o Es

pírito de algumas valorosas almas encarnadas agitam seus corpos até quase

despedaçá-los. A carne interdita não sabe o que há de pensar, desconhecido

fogo a devora. Elas serão libertadas, porque chegaram os tempos. Uma

eternidade está a ponto de expirar, uma eternidade gloriosa vai despontar

em breve e Deus conta seus filhos.

O reinado do ouro cederá lugar a um reinado mais puro; o pensa

mento será dentro em pouco soberano e os Espíritos de escol, que hão

vindo desde remotas eras iluminar os séculos em que viveram e servir de

balizas aos séculos vindouros, encarnarão entre vós. Que digo? Muitos se

acham encarnados. A sábia palavra deles será uma chama destruidora, que

causará devastações irreparáveis no seio dos velhos abusos. Quantos prejuí

zos antigos vão desmoronar em bloco, quando o Espírito, como uma acha

de duplo gume, vier decepá-los pelos fundamentos.

Sim, os pais do progresso do espírito humano deixaram, uns, as

suas moradas radiosas; outros, grandes trabalhos, em que a felicidade se

junta ao prazer de instruir-se, para retomarem o bastão de peregrinos,

que apenas haviam deposto no limiar do templo da Ciência, e daqui a

pouco, dos quatro cantos do globo, os sábios oficiais ouvirão, apavora

dos, jovens imberbes a lhes retorquir, numa linguagem profunda, aos

argumentos que eles julgavam irrefutáveis. O sorriso zombeteiro já não

constituirá um escudo que valha e, sob pena de desmoralização, forçoso

será responder. Então, o círculo vicioso em que se metem os mestres da

vã filosofia mostrar-se-á completamente, porquanto os novos campeões

levam consigo não só um facho, que é a inteligência desimpedida dos

véus grosseiros, senão também muitos dentre eles gozarão desse estado

particular, que é privilégio das grandes almas, como Jesus, e que dá o

poder de curar e de operar essas maravilhas chamadas milagres. Diante

dos fatos materiais, em que o Espírito se mostra tão superior à matéria,

como negar os Espíritos? O materialismo será abatido em seus discursos

por uma palavra mais eloquente do que a sua e pelo fato patente, positi

vo e averiguado por todos, visto que grandes e pequenos, novos Tomés,

poderão tocar com o dedo.

O velho mundo carcomido estala por toda parte; o velho mundo

acaba e com ele todos esses velhos dogmas, que só reluzem ainda pelo dou

rado que os cobre. Espíritos valorosos, cabe-vos a tarefa de raspar esse ouro

falso. Para trás, vós que em vão quereis escorar o velho ídolo. Atingido de

todos os lados, ele vai ruir e vos arrastará na sua queda.

Para trás, todos vós negadores do progresso; para trás, com as vossas

crenças de uma época que se foi. Por que negais o progresso e vos esforçais

por detê-lo? É que, desejando sobrepujar, sobrepujar ainda e sempre, con

densastes o vosso pensamento em artigos de fé, clamando para a Humani

dade: “Serás sempre criança e nós, que temos a iluminação do alto, estamos

destinados a conduzir-te.”

No entanto, já tendes visto ficar-vos nas mãos as andadeiras da in

fância; e a criança salta diante de vós e ainda negais que ela possa caminhar

sozinha! Será chicoteando-a com as andadeiras destinadas a sustentá-la que

provareis a autoridade dos vossos argumentos? Não, e bem o sentis, mas é

tão agradável, a quem se diz infalível, crer que os outros ainda depositam

fé nessa infalibilidade, em que nem vós mesmos acreditais!

Ah! que de gemidos não se soltam no santuário! É aí que, pres

tando-se ouvido atento, se escutam os cochichos dolorosos. Que dizeis,

então, pobres obstinados? Que a mão de Deus se abate sobre a sua Igre

ja? Que por toda parte a imprensa livre vos ataca e pulveriza os vossos

argumentos? Onde estará o novo Crisóstomo, cuja potente palavra re

duzirá a nada esse dilúvio de raciocinadores? Em vão o esperais; nada

mais podem as vossas mais vigorosas e mais conceituadas penas. Elas se

obstinam em agarrar-se ao passado que se vai, quando a nova geração,

num impulso irresistível que a impele para a frente, exclama: “Não,

nada de passado; a nós, o futuro; nova aurora se ergue e é para lá que

tendem as nossas aspirações!”.

“Avante!”, diz ela; “alargai a estrada, os irmãos nos seguem. Ide com a

onda que nos arrasta; necessitamos do movimento, que é vida, ao passo que

vós nos apresentais a imobilidade, que é a morte. Os vossos santos mártires

absolutamente não estão mortos, para que lhes imobilizeis o presente. Eles

entreviram a nossa época e se lançaram à morte como à estrada que havia

de conduzi-los lá. A cada época o seu gênio. Queremos lançar-nos à vida,

porquanto os séculos vindouros, que divisamos, têm horror à morte.”

Eis aí, meus amigos, o que os valorosos Espíritos que presentemente

encarnam vão tornar compreensível. Este século não terminará sem que

muitos destroços junquem o solo. A guerra mortífera e fratricida desapa

recerá em breve diante da discussão; o espírito substituirá a força brutal.

Depois que todas essas almas generosas houverem combatido, voltarão ao

vosso Mundo Espiritual, para receberem a coroa do vencedor.

Aí está a meta, meus amigos. Por demais aguerridos são os campeões,

para que seja duvidoso o êxito. Deus escolheu a nata dos seus combatentes

e a vitória é alcançada para a Humanidade.

Rejubilai-vos, pois, todos vós que aspirais à felicidade e que desejais

participem dela os vossos irmãos, como vós mesmos: o dia chegou! A Terra

trepida de alegria, porquanto vai assistir ao começo do reinado da paz que

o Cristo, o Divino Mestre, prometeu, reinado cujos fundamentos Ele des

ceu a assentar.

um espíRito

Paris, 23 de abril de 1866.

(Comunicação particular – Médium: Sr. D...)

Instrução relativa à saúde do Sr. Allan Kardec

Enfraquecendo-se diariamente a saúde do Sr. Allan Kardec, em con

sequência de trabalhos excessivos, superiores às suas forças, vejo-me na

necessidade de repetir, novamente, o que já lhe dissera tantas vezes:

“Precisas de repouso; as forças humanas têm limites que o desejo

de que o ensino progrida te leva muitas vezes a ultrapassar. Estás errado,

porquanto, procedendo assim, não apressarás a marcha da Doutrina,

mas arruinarás a tua saúde e te colocarás na impossibilidade material de

acabar a tarefa que vieste desempenhar neste mundo. A tua enfermidade

atual não é mais do que resultado de um dispêndio incessante de forças

vitais, sem dar tempo a que se efetue a reparação necessária, e a um

aquecimento do sangue produzido pela falta absoluta de repouso. Sem

dúvida, nós te sustentamos, porém sob a condição de que não desfaças o

que fizermos. De que serve correr? Não te dissemos já muitas vezes que

cada coisa virá a seu tempo e que os Espíritos prepostos ao movimento

das ideias sabem fazer que surjam circunstâncias favoráveis, soando o

momento de agir?

Quando se faz preciso que todo espírita concentre suas forças para

a luta, pensas que seja do teu dever esgotar as tuas? Não. Em tudo tens

que dar o exemplo e teu lugar é na estacada, no momento do perigo.

Que farias lá, se, por enfraquecimento, o teu corpo não mais permitisse

que teu espírito se utilizasse das armas que a experiência e a revelação te

puseram nas mãos? — Ouve-me: deixa para mais tarde as grandes obras

destinadas a completar a que está esboçada nas tuas primeiras publica

ções; teus trabalhos ordinários e algumas pequenas brochuras de urgên

cia bastam para te absorver o tempo e devem constituir os únicos objetos

das tuas preocupações atuais.

Não te falo apenas em meu nome; sou aqui o delegado de todos

os Espíritos que tão poderosamente têm contribuído para a propagação

do ensino, mediante suas sábias instruções. Eles te dizem, por meu in

termédio, que esse atraso, que consideras prejudicial ao futuro da Dou

trina, é uma medida necessária, de mais de um ponto de vista, quer

porque certas questões ainda não se acham completamente elucidadas,

quer para preparar os Espíritos a melhor assimilá-las. É necessário que

outros tenham limpado o terreno, que se ache provada a insustenta

bilidade de certas teorias e que maior vácuo se haja produzido. Numa

palavra: o momento não é oportuno; poupa-te, portanto; quando for

tempo, indispensável te será todo o vigor de corpo e de espírito. Até

aqui, o Espiritismo foi alvo de muitas diatribes, levantou muitas tem

pestades. Julgas, porém, que toda essa agitação esteja abrandada, que

todos os ódios se tenham acalmado e tornado impotentes? Desilude-te,

o cadinho depurador ainda não expeliu todas as impurezas; o porvir lhe

reserva outras provas e as últimas crises não serão as menos penosas e

difíceis de suportar.

Sei que a tua situação particular te impõe uma imensidade de tra

balhos secundários que te consomem a maior parte do tempo. Os pedi

dos de toda espécie chovem sobre ti e tu te julgas no dever de atendê-los

quanto possível. Farei aqui o que não ousarias fazer por ti próprio: diri

gindo-me à generalidade dos espíritas, pedir-lhes-ei, no interesse mesmo

do Espiritismo, que te evitem toda sobrecarga de trabalho, capaz de con

sumir instantes que deves consagrar quase exclusivamente à terminação

da obra. Se a tua correspondência algo sofrer com isso, em compensação

o ensino ganhará.

Às vezes, necessário se torna sacrificar as satisfações individuais ao in

teresse geral. É uma medida urgente que todos os adeptos sinceros saberão

compreender e aprovar.

A volumosa correspondência que recebes é para ti um precioso

acervo de documentos e informações; ela te esclarece sobre a verdadeira

marcha e os progressos reais da Doutrina; é um termômetro imparcial;

proporciona-te, além disso, satisfações morais que por mais de uma vez

te têm sustentado a coragem, mostrando-te a adesão que encontram

tuas ideias, em todos os pontos do globo. Sob esse aspecto, a supera

bundância é um bem, e não um inconveniente, mas com a condição de

te auxiliar os trabalhos, e não de os embaraçar, criando-te um acréscimo

de ocupações.”

dR. demeuRe

Bom Dr. Demeure, agradeço os seus ponderados conselhos. Graças

à resolução que tomei de enviar, salvo casos excepcionais, a correspondên

cia habitual a um substituto, ela agora sofre menos e no futuro nada so

frerá, mas que hei de fazer da que se acha acumulada, mais de quinhentas

cartas, a qual, a despeito de toda a minha boa vontade, não posso chegar

a pôr em dia?

Resposta – É preciso, como se diz em linguagem comercial, lançá--las em bloco à conta de lucros e perdas. Noticiando esta providência pela

Revista, os teus correspondentes saberão o que fazer; compreender-lhe-ão

a necessidade e a considerarão justificada pelos conselhos que acabamos

de dar. Repito, seria impossível que as coisas continuassem como têm

ido. Tudo com isso sofreria: a tua saúde e a Doutrina. Convém, quando

necessário, saber fazer os sacrifícios indispensáveis. Tranquilizado, do

ravante, sobre este ponto, poderás entregar-te mais livremente aos teus

trabalhos ordinários. Eis o que te aconselha aquele que será sempre teu

amigo dedicado.

demeuRe

Cedendo a tão sábio conselho, pedimos àqueles dos nossos corres

pondentes com os quais estávamos desde longo tempo em atraso, que acei

tassem as nossas escusas e a manifestação do nosso pesar, por não termos

podido responder pormenorizadamente, como desejáramos, às suas aten

ciosas cartas e que se dignassem de receber, coletivamente, a expressão dos

nossos sentimentos fraternais.

Paris, 25 de abril de 1866.

(Resumo das comunicações dadas pelas Sras.

M... e T... em estado sonambúlico)

Regeneração da Humanidade23

Precipitam-se com rapidez os acontecimentos, pelo que já não vos

dizemos, como outrora: “Aproximam-se os tempos”. Agora, dizemos: “Os

tempos são chegados”.

Não suponhais que as nossas palavras se referem a um novo dilúvio,

nem a um cataclismo, nem a um revolvimento geral. Revoluções parciais

do globo se hão produzido em todas as épocas e ainda se produzem, porque

decorrem da sua constituição, mas não representam os sinais dos tempos.

Entretanto, tudo o que está predito no Evangelho tem de cumprir-se

e neste momento se cumpre, conforme o reconhecereis mais tarde. Não

tomeis, porém, os sinais anunciados, senão como figuras, que precisam ser

compreendidas segundo o espírito, e não segundo a letra. Todas as escritu

ras encerram grandes verdades sob o véu da alegoria e, por se terem apega

do à letra, é que os comentadores se transviaram. Faltou-lhes a chave para

lhes compreenderem o verdadeiro sentido. Essa chave está nas descobertas

da Ciência e nas leis do Mundo Invisível, que o Espiritismo vem revelar.

Daqui em diante, com o auxílio desses novos conhecimentos, o que era

obscuro se tornará claro e inteligível.

Tudo segue a ordem natural das coisas e as Leis imutáveis de Deus

não serão subvertidas. Não vereis milagres, nem prodígios, nem fatos so

brenaturais, no sentido vulgarmente dado a essas palavras.

Não olheis para o céu em busca dos sinais precursores, porquanto

nenhum vereis, e os que vo-los anunciarem estarão a enganar-vos. Olhai

em torno de vós, entre os homens: aí é que os descobrireis.

Não sentis que um como vento sopra sobre a Terra e agita todos os

Espíritos? O mundo se acha na expectativa e como que presa de um vago

pressentimento de que a tempestade se aproxima.

Não acrediteis, porém, no fim do mundo material. A Terra tem pro

gredido, desde a sua transformação; tem ainda que progredir e não que ser

destruída. A Humanidade, entretanto, chegou a um dos períodos de sua

transformação e o mundo terreno vai elevar-se na hierarquia dos mundos.

O que se prepara não é, pois, o fim do mundo material, mas o fim

do mundo moral. É o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do or

gulho, do egoísmo e do fanatismo que se esboroa. Cada dia leva consigo

alguns destroços. Tudo dele acabará com a geração que se vai e a gera

ção nova erguerá o novo edifício, que as gerações seguintes consolidarão e

completarão.

De mundo de expiação, a Terra se mudará um dia em mundo ditoso

e habitá-lo será uma recompensa, em vez de ser uma punição. O reinado

do bem sucederá ao reinado do mal.

Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso se faz que somen

te a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que unicamente

ao bem aspirem. Como já chegou esse tempo, uma grande emigração neste

momento se opera entre os que a habitam. Os que praticam o mal pelo

mal, alheios ao sentimento do bem, dela se verão excluídos, porque lhe

acarretariam novamente perturbações e confusões que constituiriam obs

táculo ao progresso. Irão expiar o seu endurecimento em mundos inferio

res, aos quais levarão os conhecimentos que adquiriram, tendo por missão

fazê-los adiantar-se. Substituí-los-ão na Terra Espíritos melhores que farão

reinem entre si a justiça, a paz, a fraternidade.

A Terra, dissemo-lo, não será transformada por um cataclismo que

aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a

nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança na ordem

natural das coisas. Tudo, pois, exteriormente, se passará como de costume,

com uma única diferença, embora capital: a de que uma parte dos Espíri

tos que nela encarnam não mais encarnarão. Em cada criança que nasça,

em lugar de um Espírito atrasado e propenso ao mal, encarnará um Espí

rito mais adiantado e propenso ao bem. Trata-se, portanto, muito menos

de uma nova geração corporal do que de uma nova geração de Espíritos.

Assim, desapontados ficarão os que contem que a transformação resulte de

efeitos sobrenaturais e maravilhosos.

A época atual é a da transição; os elementos das duas gerações se

confundem. Colocados no ponto intermédio, assistis à partida de uma e à

chegada da outra, e cada uma já se assinala no mundo pelos caracteres que

lhe são próprios.

As duas gerações que sucedem uma à outra têm ideias e modos de

ver inteiramente opostos. Pela natureza das disposições morais, porém, so

bretudo pelas disposições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir à qual

das duas pertence cada indivíduo.

Tendo de fundar a era do progresso moral, a nova geração se distin

gue por uma inteligência e uma razão, em geral, precoces, juntas ao senti

mento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável

de certo grau de adiantamento anterior. Não se comporá tão só de Espíri

tos eminentemente superiores, mas de Espíritos que, já tendo progredido,

estão predispostos a assimilar as ideias progressistas e aptos a secundar o

movimento regenerador.

O que, ao contrário, distingue os Espíritos atrasados é, primeira

mente, a revolta contra Deus, pela negação da Providência e de qualquer

poder acima da Humanidade; depois, pela propensão instintiva para as

paixões degradantes, para os sentimentos antifraternais do orgulho, do

ódio, do ciúme, da cupidez, enfim, a predominância de apego a tudo o

que é material.

Desses vícios é que a Terra tem de ser expurgada pelo afastamento

dos que recalcitram em emendar-se, visto que são incompatíveis com o

reino da fraternidade e os homens de bem sofreriam sempre com o contato

dessas criaturas. Livre deles a Terra, os outros caminharão desembaraça

damente para o futuro melhor, que lhes está reservado neste mundo, em

recompensa de seus esforços e da sua perseverança, enquanto uma depura

ção ainda mais completa não lhes abre o pórtico dos mundos superiores.

Com referência a essa emigração de Espíritos, ninguém pretenda

que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e relegados para

mundos inferiores. Muitos, ao contrário, aí hão de voltar, porque muitos

cederão ao império das circunstâncias e do exemplo; neles, a casca está

mais estragada do que o cerne. Uma vez subtraídos à influência da matéria

e dos prejuízos do mundo corporal, eles, em sua maioria, verão as coisas

de maneira inteiramente diversa da que as viam quando vivos, conforme

os numerosos casos que já tendes apreciado. Para isso, terão a ajudá-los os

Espíritos bons, que por eles se interessam e que se esforçam por esclare

cê-los e por lhes mostrar que errado era o caminho que trilhavam. Pelas

vossas preces e exortações, podeis contribuir muito para que se melhorem,

porque há perpétua solidariedade entre os mortos e os vivos.

Aqueles, conseguintemente, poderão voltar e se sentirão felizes, por

que isso lhes será uma recompensa. Que importa o que tenham sido e

feito, se animados de melhores sentimentos se encontram? Longe de se

mostrarem hostis à sociedade, serão seus auxiliares úteis, porquanto per

tencerão à geração nova.

Não haverá, pois, exclusão definitiva, senão dos Espíritos substan

cialmente rebeldes, daqueles que o orgulho e o egoísmo, mais do que a

ignorância, tornaram surdos aos apelos do bem e da razão. Esses mesmos,

porém, não estarão votados a perene inferioridade. Dia virá em que repu

diarão o passado e abrirão os olhos para a luz.

Assim, orai por esses endurecidos, a fim de que se emendem enquan

to ainda é tempo, visto que se aproxima o dia da expiação.

Infelizmente, a maioria, desconhecendo a voz de Deus, persistirá na

sua cegueira e a resistência que virá a opor mascarará, por meio de terríveis

lutas, o fim do reinado dos que a constituem. Desvairados, correrão à sua

própria perda; provocarão destruições que darão origem a um sem-número

de flagelos e de calamidades, de sorte que, sem o quererem, apressarão o

advento da era de renovação.

E, como se não se operasse com bastante rapidez a destruição, os

suicídios se multiplicarão em proporções inauditas, até entre as crianças. A

loucura jamais terá atingido tão grande quantidade de homens que, antes

mesmo de morrerem, estarão riscados do número dos vivos. São esses os

verdadeiros sinais dos tempos e tudo isso se cumprirá pelo encadeamento

das circunstâncias, como já o dissemos, sem que haja a mais ligeira derro

gação das Leis da Natureza.

Contudo, através da escura nuvem que vos envolve e em cujo seio

ronca a tempestade, já podeis ver despontando os primeiros raios da era

nova. A fraternidade lança seus fundamentos em todos os pontos do globo

e os povos estendem uns aos outros as mãos; a barbárie se familiariza no

contato com a civilização; os preconceitos de raças e de seitas, que causa

ram o derramamento de ondas de sangue, se vão extinguindo; o fanatismo,

a intolerância perdem terreno, ao passo que a liberdade de consciência se

introduz nos costumes e se torna um direito. Por toda parte fermentam

as ideias; percebe-se o mal e experimentam-se remédios para debelá-lo,

mas muitos caminham sem bússola e se perdem em utopias. O mundo

se acha empenhado num imenso trabalho de gestação que já dura há um

século; nesse trabalho, ainda confuso, nota-se, todavia, que predomina a

tendência para determinado fim: o da unidade e da uniformidade, que

predispõem à confraternização.

Também aí tendes sinais dos tempos. Mas, enquanto os outros são

os das agonias do passado, estes últimos são os primeiros vagidos da criança

que nasce, os precursores da aurora que o próximo século verá despontar,

pois que então a geração nova estará em toda a sua pujança. Tanto a fisio

nomia do século XIX difere da do XVIII, sob certos pontos de vista, quan

to a do XX diferirá da do século XIX, sob outros pontos de vista.

A fé inata será um dos caracteres distintivos da nova geração, não a fé

exclusiva e cega que divide os homens, mas a fé raciocinada, que esclarece e

fortifica, que os une e confunde num sentimento comum de amor a Deus

e ao próximo. Com a geração que se extingue desaparecerão os últimos ves

tígios da incredulidade e do fanatismo, igualmente contrários ao progresso

moral e social.

O Espiritismo é a senda que conduz à renovação, porque destrói os

dois maiores obstáculos que se opõem a essa renovação: a incredulidade e o

fanatismo; porque faculta uma fé sólida e esclarecida; desenvolve todos os

sentimentos e todas as ideias que correspondem aos modos de ver da nova

geração, pelo que, no coração dos representantes desta, ele se achará inato

e em estado de intuição. Assim, pois, a era nova vê-lo-á engrandecer-se e

prosperar pela força mesma das coisas. Tornar-se-á a base de todas as cren

ças, o ponto de apoio de todas as instituições.

Daqui até lá, que de lutas terá ainda de sustentar contra os seus

dois maiores inimigos: a incredulidade e o fanatismo que — coisa sin

gular! — se dão as mãos para abatê-lo. É que os dois lhe pressentem o

futuro e, em consequência, a ruína de ambos. Essa a razão por que o

temem; já o veem erguendo, sobre os destroços do velho mundo egoís

ta, a bandeira em torno da qual se reunirão todos os povos. Na divina

máxima: Fora da caridade não há salvação, eles leem a sua própria con

denação, porquanto essa máxima é o símbolo da nova aliança fraternal

proclamada pelo Cristo. Ela se lhes apresenta como as palavras fatais

do festim de Baltazar. Entretanto, deveriam bendizer essa máxima, por

quanto os defende de todas as represálias da parte dos que os perseguem.

Tal, porém, não se dá: uma força cega os impele a rejeitar a única coisa

capaz de salvá-los.

Que poderão contra o ascendente da opinião que os repudia? O

Espiritismo sairá triunfante da luta, ficai certos, porquanto ele está nas

Leis da Natureza, não podendo, por isso mesmo, perecer. Observai a

multiplicidade de meios por que a ideia se espalha e penetra em toda

parte; crede que esses meios não são fortuitos, mas providenciais. O

que, à primeira vista, devera ser-lhe prejudicial é exatamente o que lhe

auxilia a propagação.

Dentro em breve, surgirão campeões que em voz alta se proclamarão

tais, entre os de maior consideração e mais acreditados, os quais, com a

autoridade de seus nomes e de seus exemplos o apoiarão, impondo silêncio

aos que o detratem, pois ninguém ousará tratá-los de loucos. Esses homens

o estudam em silêncio e aparecerão quando for chegado o momento opor

tuno. Até lá, bom é se conservem afastados.

Dentro em pouco, também vereis as Artes se acercarem dele, como

de uma mina riquíssima, e traduzirem os pensamentos e os horizontes que

ele patenteia, por meio da pintura, da música, da poesia e da literatura. Já

se vos disse que haverá um dia a arte espírita, como houve a arte pagã e

a arte cristã. É uma grande verdade, pois os maiores gênios se inspirarão

nele. Em breve, vereis os primeiros esboços da arte espírita, que mais tarde

ocupará o lugar que lhe compete.

Espíritas, o futuro é vosso e de todos os homens de coração e devo

tados. Não vos assustem os obstáculos, porquanto nenhum há que possa

embaraçar os desígnios da Providência. Trabalhai sem descanso e agradecei

a Deus o ter-vos colocado na vanguarda da nova falange. É um posto de

honra que vós mesmos solicitastes e do qual é preciso vos mostreis dignos

pela vossa coragem, pela vossa perseverança e pelo vosso devotamento. Fe

lizes dos que sucumbirem nessa luta contra a força; a vergonha, ao contrá

rio, esperará, no mundo dos Espíritos, os que sucumbirem por fraqueza

ou pusilanimidade. As lutas, aliás, são necessárias para fortalecer a alma;

o contato com o mal faz que melhor se apreciem as vantagens do bem.

Sem as lutas, que estimulam as faculdades, o Espírito se entregaria a uma

despreocupação funesta ao seu adiantamento. As lutas contra os elementos

desenvolvem as forças físicas e a inteligência; as lutas contra o mal desen

volvem as forças morais.

Paris, 27 de abril de 1866.

(Em casa do Sr. Leymarie – Médium: Sr. L...)

Marcha gradativa do Espiritismo. Dissidências e obstáculos

Caros condiscípulos, o que é verdade tem que ser; nada pode opor-se

à irradiação de uma verdade; às vezes, podem encobri-la, torturá-la e fazer

com ela o que fazem os teredos nos diques holandeses, mas uma verdade

não assenta sobre estacarias: ela percorre o espaço; está no ar ambiente e,

se foi possível cegarem uma geração, há sempre novas encarnações, há re

crutas da erraticidade que trazem germens fecundos, e outros elementos, e

que sabem atrair a si todas as grandes coisas desconhecidas.

Não vos apresseis, amigos. Muitos dentre vós desejariam ir a vapor

e, nestes tempos de eletricidade, correr tanto quanto esta. Esquecidos das

Leis da Natureza, quereriam andar mais depressa do que o tempo. Refleti,

porém, e vereis quão sábio é Deus em tudo. Os elementos que constituem

o vosso planeta sofreram longa e laboriosa elaboração; antes que pudésseis

existir, foi preciso que tudo se constituísse de acordo com a aptidão dos

vossos órgãos. A matéria, os minerais, fundidos e refundidos, os gases, os

vegetais, pouco a pouco se harmonizaram e condensaram, a fim de permi

tirem que surgísseis na Terra. É a eterna Lei do Trabalho, que nunca cessou

de reger os seres inorgânicos, como os seres inteligentes.

O Espiritismo não pode fugir a essa lei, à lei da elaboração. Plantado

num solo ingrato, forçoso é que o cerquem as ervas más e os maus frutos.

Mas também todos os dias o terreno é desbravado, os maus ramos são ar

rancados ou cortados; o campo se destorroa insensivelmente e, quando o

viajante, fatigado das lutas da vida, encontrar a fartura e a paz à sombra de

um fresco oásis, se dessedentará e enxugará o suor, nesse reino lenta e sa

biamente preparado. Aí o rei é Deus, o dispensador generoso, o igualitário

judicioso, que bem sabe ser doloroso, mas fecundo, o trajeto que o viajor

seguirá; penoso, mas necessário. O Espírito formado na escola do trabalho

dela sai mais forte e mais apto para as grandes coisas. Aos que desfalecem,

ele diz: coragem e, como suprema esperança, lhes deixa entrever, mesmo

aos mais ingratos, um ponto de chegada, ponto salutar, caminho assinala

do pelas reencarnações.

Ride das declamações vãs; deixai que falem os dissidentes, que ber

rem os que não podem consolar-se de não serem os primeiros; todo esse

arruído não impedirá que o Espiritismo prossiga imperturbavelmente o

seu caminho. Ele é uma verdade e, qual rio, toda verdade tem que seguir

seu curso.

16 de agosto de 1867

(Sociedade de Paris – Médium: Sr. M..., em estado sonambúlico)

Publicações espíritas

Nota – O Sr. L... acabava de anunciar que se propunha a fazer obras espíritas para

vendê-las a preços fabulosamente reduzidos. Foi a esse respeito que o Sr. Morin

disse o que segue, em sono sonambúlico:

“Os espíritas já são hoje numerosos, mas muitos ainda não com

preendem o alcance eminentemente moralizador e emancipador do Espi

ritismo. O núcleo que sempre seguiu a boa estrada continua a sua marcha

lenta, mas segura; afasta-se de todos os propósitos preconcebidos e pouco

se ocupa com os que vão ficando pelo caminho.

Infelizmente, mesmo entre os que formam esse núcleo fiel, há os que

tudo acham magnífico, assim da parte dos outros, como da deles próprios

e, facilmente, benevolamente, se deixam levar pelas aparências e vão to

lamente prender-se no visco de seus inimigos, de uma personalidade que

diz despojar-se, dar seu sangue, seus bens, sua inteligência pelo triunfo

completo da ideia. Pois bem! relede a comunicação (comunicação que L...

acabava de escrever) e vereis que, da parte de certos indivíduos, tais sacrifí

cios não podem ser feitos sem segundas intenções.

Importa desconfiar das dedicações e das generosidades de ostenta

ção, como da veracidade de pessoas que dizem não mentir nunca.

Pretender dar uma coisa a preços impossíveis, sem prejuízo, é ocultar

especulação. Fazer ainda mais: dar de graça a título de excesso de zelo, a

título de brinde, todos os elementos de uma doutrina sublime é o cúmulo

da hipocrisia. Espíritas, tomai cuidado!”.

16 de agosto de 1867

(Sociedade de Paris – Médium: Sr. D...)

Acontecimentos

A sociedade em geral, ou, a bem dizer, a reunião de seres, tanto en

carnados como desencarnados, que compõem a população flutuante de um

mundo, numa palavra — a Humanidade —, mais não é que uma grande

criança coletiva que, como todo ser dotado de vida, passa por todas as fases

que se sucedem em cada um, desde o nascimento até a mais avançada idade.

Do mesmo modo que o desenvolvimento do indivíduo é acompanhado

de certas perturbações físicas e intelectuais, peculiares, particularmente, a

determinados períodos da vida, também a Humanidade tem suas crises de

crescimento, seus transtornos morais e intelectuais. Atravessais uma dessas

grandes épocas, que encerram um período e dão começo a outro. Partici

pando simultaneamente das coisas do passado e das do futuro, dos sistemas

que ruem e das verdades que se fundam, tende o cuidado, meus amigos,

de colocar-vos do lado da solidez, da progressividade e da lógica, se não

quiserdes ser arrastados ao sabor das ondas; tende o de abandonar palácios

suntuosos na aparência, mas vacilantes em suas bases e que não tardarão a

sepultar nas suas ruínas os infelizes que insensatamente não quiserem deles

sair, a despeito dos avisos de toda sorte que lhes são prodigalizados.

Todas as frontes se anuviam e a calma aparente de que gozais apenas

serve para acumular maior quantidade de elementos destruidores.

Algumas vezes, antes da tempestade que destrói os frutos dos suores

de um ano, surgem precursores que permitem se tomem as precauções

necessárias a evitar, tanto quanto possível, as devastações. Desta vez, as

sim não será. Parecerá que o céu, depois de estar sombreado, se aclara; as

nuvens fugirão; em seguida, de súbito, todos os furores, por longo tempo

comprimidos, se desencadearão com inaudita violência.

Ai dos que não hajam preparado para si um abrigo! Ai dos fanfarrões

que forem ao encontro do perigo com o braço desarmado e o peito des

coberto! Ai dos que afrontarem o perigo empunhando a taça! Que terrível

decepção os espera! A taça que empunham não lhes chegará aos lábios,

antes que eles sejam atingidos!

À obra, pois, espíritas, e não esqueçais que todos deveis ter prudên

cia e previdência. Tendes um escudo, sabei servir-vos dele. Tendes uma

âncora de salvação, não a desprezeis.

Ségur, 9 de setembro de 1867.

(Sessão íntima – Médium: Sr. D...)

Minha nova obra sobre a gênese

(Comunicação espontânea)

Primeiro, duas palavras com relação à obra em preparo. Como já o

temos dito muitas vezes, urge pô-la em execução sem demora e apressar-lhe

quanto possível a publicação. É preciso que a primeira impressão já se tenha

produzido nos espíritos, quando estalar o conflito europeu. Se ela tardasse,

os acontecimentos brutais poderiam desviar das obras puramente filosóficas

a atenção geral; e como essa obra se destina a desempenhar um papel na

elaboração em curso, necessário se torna não deixe de ser apresentada em

tempo oportuno. Entretanto, não conviria, por isso, restringir-lhe os desen

volvimentos. Dá-lhe toda a amplitude desejável; cada uma das suas menores

partes tem peso na balança da ação e, numa época tão decisiva como esta,

nada se deve desprezar, quer na ordem material, quer na ordem moral.

Pessoalmente, estou satisfeito com o trabalho, mas a minha opinião

pouco vale, a par da satisfação daqueles a quem ela transformará. O que,

sobretudo, me alegra são as consequências que produzirá sobre as massas,

tanto no Espaço, quanto na Terra.

Pergunta – Se nenhum contratempo sobrevier, a obra poderá apare

cer em dezembro. Prevês obstáculos?

Resposta – Não prevejo dificuldades intransponíveis. A tua saúde se

ria a principal; por isso é que te aconselhamos incessantemente que não

te descuides dela. Quanto a obstáculos exteriores, nenhum pressinto de

natureza séria.

dR. d...

22 de fevereiro de 1868.

(Comunicação particular – Médium: Sr. D...)

A gênese

Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu

conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese,

para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu

lhe disse:

— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito

do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão

mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a

reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de

quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?

Resposta – É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que

não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipa

damente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais.

Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me

compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém não lhe consagres exces

sivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais

claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.

Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos vo

lumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito

entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico

e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas

pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez

do que supões.

Nota – Numa comunicação de 18 de dezembro, fora dito: Será, certamente, um

grande êxito entre os teus êxitos. É notável que, com o intervalo de dois meses, outro

Espírito repita exatamente as mesmas palavras, dizendo: Quando nós te dizíamos

etc. Essa palavra nós prova que os Espíritos agem de acordo e que, às vezes, um só

fala por muitos.

Paris, 23 de fevereiro de 1868.

(Comunicação íntima dada ao Sr. C..., médium)

Acontecimentos

Ocupa-te desde já com o trabalho que tens esboçado sobre os

meios de seres um dia útil aos teus irmãos em crença e de servires à causa

da Doutrina, porque será possível que os acontecimentos que se desen

rolarão não te deixem lazeres bastantes para te consagrares ao referido

trabalho.

Esses próprios acontecimentos darão lugar a fases durante as quais o

pensamento humano poderá produzir-se com absoluta liberdade. Nesses

momentos, os cérebros em delírio, baldos de qualquer orientação sã, ge

rarão enormidades tais, que a notícia do próximo aparecimento da besta

do apocalipse a ninguém espantaria e passaria despercebida. A imprensa

vomitará todas as loucuras humanas, até se esgotarem as paixões a que ela

terá dado nascimento.

Semelhante época será favorável aos espíritas. Eles se arregimentarão,

prepararão seus materiais e suas armas. Ninguém pensará em molestá-los,

por isso que eles a ninguém causarão embaraço. Serão os únicos discípulos

do Espírito, os outros serão discípulos da matéria.

Paris, 4 de julho de 1868.

(Médium: Sr. D...)

Meus trabalhos pessoais. Conselhos diversos

Vão em bom andamento os teus trabalhos particulares; prossegue na

reimpressão da tua última obra; faze a tua tábua geral para o fim do ano; é

coisa de utilidade e, quanto ao mais, descansa em nós.

Está apenas em começo a impulsão que A gênese produziu e muitos

elementos, abalados por ela, se colocarão, dentro em pouco, sob a tua ban

deira. Outras obras sérias também aparecerão, para acabar de esclarecer o

juízo humano sobre a nova Doutrina.

Aprovo igualmente a publicação das cartas de Lavater. É uma coisa

pequenina, mas destinada a produzir grandes efeitos. Em suma, o ano será

fecundo para todos os amigos do progresso racional e liberal.

Também estou de inteiro acordo em que publiques o resumo que

pretendes fazer sob a forma de catecismo ou manual, mas acho que o deves

esmiuçar cuidadosamente. Quando estiveres para dá-lo à publicidade, não

esqueças de me consultar sobre o título; terei talvez uma boa indicação a

te oferecer e cujos termos dependerão dos acontecimentos já verificados.

Ao te aconselharmos ultimamente que não levasses muito tempo

para remodelar A gênese, dissemos que terias de fazer-lhe acréscimos em

diversos pontos, a fim de preencheres algumas lacunas e de condensares,

aqui e ali, a matéria, a fim de não tornares mais extenso o volume.

Não foram perdidas as nossas observações e muito nos alegrará o

colaborarmos na remodelação dessa obra, como nos alegrou o termos con

tribuído para a sua execução.

Recomendo-te hoje que revejas com atenção sobretudo os primei

ros capítulos, cujas ideias são todas excelentes, que nada contêm que

não seja verdadeiro, mas algumas de cujas expressões poderiam prestar--se a interpretações errôneas. Salvo essas retificações, que te aconselho

a não deixares de lado, porque os antagonistas se lançam às palavras,

quando não podem atacar as ideias, nada mais preciso indicar-te sobre o

assunto. Aconselho, entretanto, que não percas tempo; é preferível que

os volumes esperem pelo público, do que este por eles. Nada deprecia

mais uma obra do que a interrupção da sua venda. Impacientado por

não poder satisfazer aos pedidos que recebe, o editor, a quem assim

escapam ocasiões de vender o livro, se desinteressa das obras do autor

imprevidente. O público se cansa de esperar e a má impressão que daí

resulta custa a apagar-se.

Por outro lado, não é mau que gozes de uma certa liberdade de espí

rito para acudir às eventualidades que possam surgir ao teu derredor e para

dispensares teus cuidados a estudos particulares que, segundo os aconteci

mentos, podem ser suscitados atualmente ou relegados para tempos mais

propícios.

Tem-te, pois, pronto para tudo; desembaraça-te de todos os óbi

ces, quer para te consagrares a um trabalho especial, se a tranquilidade

geral o permite, quer para estares preparado a qualquer acontecimento,

se complicações imprevistas vierem tornar necessária, de tua parte, uma

determinação súbita. O ano próximo começará em breve; é preciso, pois,

que, pelos fins deste, dês a última demão à primeira parte da obra espíri

ta, a fim de teres livre o campo para a conclusão da tarefa que concerne

ao futuro.

Fora da caridade

não há salvação

Estes princípios, para mim, não existem apenas em teoria, pois que

os ponho em prática; faço tanto bem quanto o permite a minha posição;

presto serviços quando posso; os pobres nunca foram repelidos de minha

porta, ou tratados com dureza; foram recebidos sempre, a qualquer hora,

com a mesma benevolência; jamais me queixei dos passos que hei dado

para fazer um benefício; pais de família têm saído da prisão, graças aos

meus esforços. Certamente, não me cabe inventariar o bem que já pude

fazer, mas, do momento em que parecem esquecer tudo, é-me lícito, creio,

trazer à lembrança que a minha consciência me diz que nunca fiz mal a

ninguém, que hei praticado todo o bem que esteve ao meu alcance, e isto,

repito-o, sem me preocupar com a opinião de quem quer que seja.

A esse respeito trago tranquila a consciência; e a ingratidão com que

me hajam pago em mais de uma ocasião não constituirá motivo para que

eu deixe de praticá-lo. A ingratidão é uma das imperfeições da Humani

dade e, como nenhum de nós está isento de censuras, é preciso desculpar

os outros, para que nos desculpem, de sorte a podermos dizer como Jesus

Cristo: “atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado”. Continua

rei, pois, a fazer todo o bem que me seja possível, mesmo aos meus inimi

gos, porquanto o ódio não me cega. Sempre lhes estenderei as mãos, para

tirá-los de um precipício, se se oferecer oportunidade.

Eis como entendo a caridade cristã. Compreendo uma religião que

nos prescreve retribuamos o mal com o bem e, com mais forte razão, que

retribuamos o bem com o bem. Nunca, entretanto, compreenderia a que

nos prescrevesse que paguemos o mal com o mal .

(Pensamentos íntimos de Allan Kardec, num documento achado entre

os seus papéis)

Projeto – 1868

Um dos maiores obstáculos capazes de retardar a propagação da

Doutrina seria a falta de unidade. O único meio de evitá-la, senão quanto

ao presente, pelo menos quanto ao futuro, é formulá-la em todas as suas

partes e até nos mais mínimos detalhes, com tanta precisão e clareza, que

impossível se torne qualquer interpretação divergente.

Se a Doutrina do Cristo deu lugar a tantas controvérsias, se ainda

agora tão malcompreendida se acha e tão diversamente praticada, é isso

devido a que o Cristo se limitou a um ensinamento oral e a que seus

próprios Apóstolos apenas transmitiram princípios gerais, que cada um

interpretou de acordo com suas ideias ou interesses. Se Ele houvesse for

mulado a organização da Igreja cristã com a precisão de uma lei ou de um

regulamento, é incontestável que houvera evitado a maior parte dos cis

mas e das querelas religiosas, assim como a exploração que foi feita da re

ligião, em proveito das ambições pessoais. Resultou que, se o Cristianismo

constituiu, para alguns homens esclarecidos, uma causa de séria reforma

moral, não foi e ainda não é para muitos senão objeto de uma crença cega

e fanática, resultado que, em grande número de criaturas, gerou a dúvida

e a incredulidade absoluta.

Somente o Espiritismo, bem entendido e bem compreendido, pode

remediar esse estado de coisas e tornar-se, conforme disseram os Espíri

tos, a grande alavanca da transformação da Humanidade. A experiência

deve esclarecer-nos sobre o caminho a seguir. Mostrando-nos os incon

venientes do passado, ela nos diz claramente que o único meio de serem

evitados no futuro consiste em assentar o Espiritismo sobre as bases sólidas

de uma doutrina positiva que nada deixe ao arbítrio das interpretações.

As dissidências que possam surgir se fundirão por si mesmas na unidade

principal que se estabeleceria sobre as bases mais racionais, desde que es

sas bases sejam claras, e não vagamente definidas. Também ressalta destas

considerações que essa marcha, dirigida com prudência, representa o mais

poderoso meio de luta contra os antagonistas da Doutrina Espírita. Todos

os sofismas quebrar-se-ão de encontro a princípios aos quais a sã razão

nada acharia para opor.

Dois elementos hão de concorrer para o progresso do Espiritismo: o

estabelecimento teórico da Doutrina e os meios de a popularizar. O desen

volvimento cada dia maior, que ela toma, multiplica as nossas relações, que

somente tendem a ampliar-se, pelo impulso que lhe darão a nova edição de

O livro dos espíritos e a publicidade que se fará a esse propósito.

Para utilizarmos de maneira proveitosa essas relações, se, depois

de constituída a teoria, eu tivesse de concorrer para sua instalação, ne

cessário seria que, além da publicação de minhas obras, dispusesse de

meios para exercer uma ação mais direta. Ora, creio fora conveniente

que aquele que fundou a teoria pudesse ao mesmo tempo impulsioná-la,

porque então haveria mais unidade. Sob esse aspecto, a Sociedade tem

necessariamente que exercer grande influência, conforme o disseram os

próprios Espíritos; sua ação, porém, não será, em realidade, eficiente,

senão quando ela servir de centro e de ponto de ligação donde parta um

ensinamento preponderante sobre a opinião pública. Para isso, faz-se

mister uma organização mais forte e elementos que ela não possui. No

século em que estamos e tendo-se em vista o estado dos nossos costumes,

os recursos financeiros são o grande motor de todas as coisas, quando

empregados com discernimento. Na hipótese de que esses recursos, de

um modo ou doutro, me viessem às mãos, eis o plano que eu seguiria e

cuja execução seria proporcional à importância dos meios e subordinada

aos conselhos dos Espíritos.

Estabelecimento central

O mais urgente seria prover a Sociedade de um local conveniente

mente situado e disposto para as reuniões e recepções. Sem lhe dar um luxo

desnecessário e, ademais, sem cabimento, precisaria que nada aí denotas

se penúria, mas apresentasse um aspecto tal, que as pessoas de distinção

Projeto – 1868

pudessem estar lá sem se considerarem muito diminuídas. Além do aloja

mento particular onde eu habitasse, deveria possuir:

1o) Uma grande sala para as sessões da Sociedade e para as grandes

reuniões;

2o) Um salão de recepção;

3o) Um compartimento destinado às evocações íntimas, espécie de

santuário, que não seria profanado por nenhuma ocupação estranha;

4o) Um escritório para a Revista, os arquivos e os negócios da Sociedade.

Tudo isso disposto e preparado de maneira cômoda e condizente

com a sua destinação.

Criar-se-ia uma biblioteca composta de todas as obras e escritos pe

riódicos franceses e estrangeiros, antigos e modernos, relacionados com o

Espiritismo.

O salão de recepção estaria aberto todos os dias e a certas horas, para os

membros da Sociedade, que aí poderiam conferenciar livremente, ler os jornais

e consultar os arquivos e a biblioteca. Os adeptos estrangeiros, de passagem por

Paris, seriam aí recebidos, desde que fossem apresentados por um sócio.

Estabelecer-se-ia correspondência regular com os diferentes centros

da França e do estrangeiro.

Haveria um empregado secretário e um auxiliar de escritório.

Ensino espírita

Um curso regular de Espiritismo seria professado com o fim de de

senvolver os princípios da Ciência e de difundir o gosto pelos estudos sé

rios. Esse curso teria a vantagem de fundar a unidade de princípios, de

fazer adeptos esclarecidos, capazes de espalhar as ideias espíritas e de de

senvolver grande número de médiuns. Considero esse curso como de natu

reza a exercer capital influência sobre o futuro do Espiritismo e sobre suas

consequências.

Publicidade

Dar-se-ia maior desenvolvimento à Revista, quer aumentando-se-lhe

o número de páginas, quer tornando-se-lhe mais frequente a publicação.

Agregar-se-lhe-ia um redator remunerado.

Uma publicidade em larga escala, feita nos jornais de maior circu

lação, levaria ao mundo inteiro, até as localidades mais distantes, o co

nhecimento das ideias espíritas, despertaria o desejo de aprofundá-las e,

multiplicando-lhes os adeptos, imporia silêncio aos detratores, que logo

teriam de ceder, diante do ascendente da opinião geral.

Viagens

Dois ou três meses do ano seriam consagrados a viagens, em visita

aos diferentes Centros e a lhes imprimir boa direção.

Se os recursos o permitissem, instituir-se-ia uma caixa para custear as

despesas de viagem de certo número de missionários, esclarecidos e talen

tosos, que seriam encarregados de espalhar a Doutrina.

Uma organização completa e a assistência de auxiliares remunera

dos, com os quais eu pudesse contar, libertando-me de uma imensidade de

ocupações e preocupações, me dariam o lazer necessário para ativar os tra

balhos que ainda me restam por fazer e aos quais o atual estado das coisas

não permite que eu me consagre tão assiduamente como fora preciso, por

me faltar materialmente o tempo e por não serem suficientes para tanto as

minhas forças físicas.

Se porventura me estivesse reservado realizar este projeto, em cuja

execução eu teria de me haver com a mesma prudência de que usei no pas

sado, indubitavelmente alguns anos bastariam para fazer que a Doutrina

avançasse de alguns séculos.

***

A Constituição do Espiritismo, Allan Kardec a inseriu na Revista

de dezembro de 1868, mas sem os comentários que lhe acrescentou antes

de morrer e que reproduzimos textualmente. A morte corpórea o deteve,

quando se preparava para formular os Princípios fundamentais da Doutrina

Espírita reconhecidos como verdades definitivas, o que os nossos leitores cer

tamente lamentarão, como nós, porquanto esses princípios teriam comple

tado aquela Constituição por meio de apreciações lógicas e judiciosas. É o

último manuscrito do mestre e nós o lemos com profundo respeito.

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Constituição do Espiritismo

Exposição de motivos

UM – Considerações preliminares

O Espiritismo teve, como todas as coisas, o seu período de gestação

e, enquanto todas as questões, principais e acessórias, que dele derivam não

se acharem resolvidas, somente pode dar resultados incompletos. Entre

viu-se-lhe a finalidade, pressentiram-se-lhe as consequências, mas apenas

de modo vago. Da incerteza sobre pontos ainda não determinados haviam

forçosamente de nascer divergências sobre a maneira de os considerar; a

unificação tinha que ser obra do tempo e se efetuou gradualmente à medi

da que os princípios se foram elucidando. Unicamente quando tiver desen

volvido todas as partes em que se desdobra é que a Doutrina formará um

todo harmônico e só então se poderá julgar do que é o Espiritismo.

Enquanto ele não passava de uma opinião filosófica, não podia con

tar, da parte de seus adeptos, senão com a simpatia natural que a comu

nhão de ideias produz; nenhum laço sério podia existir entre eles, por falta

de um programa claramente traçado. Esta, evidentemente, a causa funda

mental da débil coesão e da instabilidade dos grupos e sociedades que logo

se formaram. Por isso mesmo, constantemente procuramos, e com todas

as nossas forças, afastar os espíritas do propósito de fundarem prematura

mente qualquer instituição especial com base na Doutrina, antes que esta

assentasse em alicerces sólidos. Fora exporem-se a fracassos inevitáveis, cujo

efeito teria sido desastroso, pela impressão que produziriam no público e

pelo desânimo em que lançariam os adeptos. Semelhantes fracassos talvez

retardassem de um século o progresso definitivo da Doutrina, a cuja im

potência se imputaria um insucesso devido, na realidade, à imprevidência.

Por não saberem esperar, a fim de chegarem no momento exato, os muito

apressados e os impacientes, em todos os tempos, hão comprometido as

melhores causas.24

Não se deve pedir às coisas senão o que elas podem dar, à medida

que se vão pondo em estado de produzir. Não se pode exigir de uma crian

ça o que se pode esperar de um adulto, nem de uma árvore que acaba de

ser plantada o que ela dará quando estiver em toda a sua pujança. O Espi

ritismo, em via de elaboração, somente resultados individuais podia dar;

os resultados coletivos e gerais serão fruto do Espiritismo completo, que

sucessivamente se desenvolverá.

Se bem não haja ele dito ainda sua última palavra sobre todos os

pontos, aproxima-se do seu complemento e soou a hora de se lhe oferecer

uma base forte e durável, suscetível, contudo, de receber todos os desen

volvimentos que as circunstâncias ulteriores comportem e que ofereça toda

a segurança aos que inquiram quem lhe tomará as rédeas, depois daquele

que lhe dirigiu os primeiros passos.

A Doutrina é, sem dúvida, imperecível, porque repousa nas Leis da

Natureza e porque, melhor do que qualquer outra, corresponde às legíti

mas aspirações dos homens. Entretanto, a sua difusão e a sua instalação

definitiva podem ser adiantadas ou retardadas por circunstâncias várias,

algumas das quais subordinadas à marcha geral das coisas, outras inerentes

à própria Doutrina, à sua constituição e à sua organização.

Conquanto a questão de substância seja preponderante em tudo e

acabe sempre por prevalecer, a questão de forma tem aqui importância ca

pital; poderia mesmo sobrepujar momentaneamente e suscitar embaraços

e atrasos, conforme a maneira por que fosse resolvida.

Houvéramos, pois, feito coisa incompleta e deixado grandes difi

culdades para o futuro, se não prevíssemos as que podem surgir. Com o

intuito de evitá-las foi que elaboramos um plano de organização, pondo

em jogo a experiência do passado, a fim de evitar os escolhos contra que se

chocaram a maioria das doutrinas que apareceram no mundo.

O plano aqui exposto concebemo-lo há longo tempo, porque sem

pre nos preocupamos com o futuro do Espiritismo. Fazemo-lo pressentir,

em diversas ocasiões, vagamente, é certo, mas o bastante para mostrar que

não é esta, hoje, uma concepção nova e que, trabalhando na parte teórica

da obra, não nos descuidávamos do lado prático.

DOIS– Dos cismas

Uma questão que desde logo se apresenta é a dos cismas que poderão

nascer no seio da Doutrina. Estará preservado deles o Espiritismo?

Não, certamente, porque terá, sobretudo no começo, de lutar contra

as ideias pessoais, sempre absolutas, tenazes, refratárias a se amalgamarem

com as ideias dos demais; e contra a ambição dos que, a despeito de tudo, se

empenham por ligar seus nomes a uma inovação qualquer; dos que criam

novidades só para poderem dizer que não pensam ou agem como os ou

tros, pois lhes sofre o amor-próprio por ocuparem uma posição secundária.

Se, porém, o Espiritismo não pode escapar às fraquezas humanas,

com as quais se tem de contar sempre, pode todavia neutralizar-lhes as

consequências e isto é o essencial.

É de notar-se que os vários sistemas divergentes, surgidos na origem

do Espiritismo, sobre a maneira de explicarem-se os fatos, foram desapare

cendo à medida que a Doutrina se completou por meio da observação e de

uma teoria racional. Hoje, raros partidários ainda contam esses primitivos

sistemas. É este um fato notório, do qual se pode concluir que as últimas

divergências se apagarão com a elucidação integral de todas as partes da

Doutrina. Mas haverá sempre os dissidentes, de ânimo prevenido e inte

ressados, por um motivo ou outro, a constituir bando à parte. Contra a

pretensão desses é que cumpre se premunam os demais.

Para assegurar-se, no futuro, a unidade, uma condição se faz indis

pensável: que todas as partes do conjunto da Doutrina sejam determinadas

com precisão e clareza, sem que coisa alguma fique imprecisa. Para isso,

procedemos de maneira que os nossos escritos não se prestem a interpreta

ções contraditórias e cuidaremos de que assim aconteça sempre. Quando

for dito peremptoriamente e sem ambiguidade que dois e dois são quatro,

ninguém poderá pretender que se quis dizer que dois e dois fazem cinco.

Conseguintemente, seitas poderão formar-se ao lado da Doutrina,

seitas que não lhe adotem os princípios ou todos os princípios, porém não

dentro da Doutrina, por efeito de interpretação dos textos, como tantas se

formaram sobre o sentido das próprias palavras do Evangelho. É este um

primeiro ponto de capital importância.

O segundo ponto está em não se sair do âmbito das ideias práticas.

Se é certo que a utopia da véspera se torna muitas vezes a verdade do dia

seguinte, deixemos que o dia seguinte realize a utopia da véspera, porém

não atravanquemos a Doutrina de princípios que possam ser considerados

quiméricos e fazer que a repilam os homens positivos.

O terceiro ponto, enfim, é inerente ao caráter essencialmente pro

gressivo da Doutrina. Pelo fato de ela não se embalar com sonhos irrealizá

veis, não se segue que se imobilize no presente. Apoiada tão só nas Leis da

Natureza, não pode variar mais do que estas Leis, mas, se uma nova lei for

descoberta, tem ela que se pôr de acordo com essa Lei. Não lhe cabe fechar

a porta a nenhum progresso, sob pena de se suicidar. Assimilando todas as

ideias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas ou

metafísicas, ela jamais será ultrapassada, constituindo isso uma das princi

pais garantias da sua perpetuidade.

Se, portanto, uma seita se formar à ilharga do Espiritismo, fundada

ou não em seus princípios, de duas uma: ou essa seita estará com a verdade,

ou não estará; se não estiver, cairá por si mesma, sob o ascendente da razão

e do senso comum, como já sucedeu a tantas outras, através dos séculos;

se suas ideias forem acertadas, mesmo que com relação a um único ponto,

a Doutrina, que apenas procura o bem e o verdadeiro onde quer que se

encontrem, as assimilará, de sorte que, em vez de ser absorvida, absorverá.

Se alguns de seus adeptos vierem a afastar-se, é que se acreditarão

capazes de fazer coisa melhor; se realmente fizerem algo melhor, ela se

esforçará por fazer outro tanto; se fizerem coisa má, deixará que a façam,

certa de que, cedo ou tarde, o bem sobrepuja o mal e o que é verdadeiro

predomina sobre o que é falso. Esta a única luta em que se empenhará.

Acrescentemos que a tolerância, fruto da caridade, que constitui a

base da Doutrina Espírita, lhe impõe como um dever respeitar todas as

crenças. Querendo ser aceita livremente, por convicção, e não por cons

trangimento, proclamando a liberdade de consciência um direito natural

imprescritível, diz: Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se

estou em erro, acabarei por pensar como os outros. Em virtude destes prin

cípios, não atirando pedras a ninguém, ela nenhum pretexto dará para

represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas pala

vras e de seus atos.

Não será, pois, invariável o programa da Doutrina, senão com refe

rência aos princípios que hoje tenham passado à condição de verdades com

provadas. Com relação aos outros, não os admitirá, como há feito sempre,

senão a título de hipóteses, até que sejam confirmados. Se lhe demonstra

rem que está em erro acerca de um ponto, ela se modificará nesse ponto.

A verdade absoluta é eterna e, por isso mesmo, invariável. Mas quem

poderá lisonjear-se de possui-la toda? No estado de imperfeição em que se

acham os nossos conhecimentos, o que hoje nos parece falso pode amanhã

ser reconhecido como verdadeiro, em consequência da descoberta de no

vas leis, e isso tanto na ordem moral quanto na ordem física. Contra essa

eventualidade, a Doutrina nunca deverá estar desprevenida. O princípio

progressivo, que ela inscreve no seu código, será a salvaguarda da sua pere

nidade e a sua unidade se manterá, exatamente porque ela não assenta no

princípio da imobilidade.

Esta, longe de ser uma força, se torna causa de fraqueza e de ruína,

para quem não acompanha o movimento geral; quebra a unidade, por

que os que querem avançar se separam dos que persistem em ficar atrás.

Acompanhando o movimento progressivo, cumpre fazê-lo com prudência

e evitar ir de cabeça baixa ao encontro dos devaneios da utopia e dos siste

mas; cumpre fazê-lo a tempo, nem muito cedo, nem muito tarde, e com

conhecimento de causa.

Indiscutivelmente uma doutrina assente sobre tais bases tem que ser

forte, em realidade, capaz de desafiar qualquer concorrência e de anular as

pretensões dos seus competidores.

Aliás, a experiência já comprovou o acerto desta previsão. Tendo

marchado sempre por esse caminho desde a sua origem, a Doutrina avan

ça constantemente, mas sem precipitação, verificando sempre se é sólido

o terreno em que pisa e medindo seus passos pelo estado da opinião. Há

feito como o navegante que não prossegue sem ter na mão a sonda e sem

consultar os ventos.

TRES – O chefe do Espiritismo

Mas quem será encarregado de manter o Espiritismo nessa senda?

Quem terá o lazer e a perseverança necessários a se consagrar ao trabalho

incessante que essa tarefa exige? Se o Espiritismo for entregue a si mesmo,

sem guia, não será de temer que se desvie da sua rota? e que a malevolência,

com a qual ainda estará por longo tempo em luta, não procure desfigu

rar-lhe o Espírito? É essa, com efeito, uma questão vital e cuja solução se

reveste do maior interesse para o futuro da Doutrina.

A necessidade de uma direção central superior, guarda vigilante da

unidade progressiva e dos interesses gerais da Doutrina, é tão evidente que

já causa inquietação o não ser visto, a surgir no horizonte, o seu condutor.

Compreende-se que, sem uma autoridade moral, capaz de centralizar os

trabalhos, os estudos e as observações, de dar a impulsão, de estimular os

zelos, de defender os fracos, de sustentar os ânimos vacilantes, de ajudar

com os conselhos da experiência, de fixar a opinião sobre os pontos incer

tos, o Espiritismo correria o risco de caminhar ao léu. Não somente essa

direção é necessária, como também preciso se faz que preencha condições

de força e de estabilidade suficientes para afrontar as tempestades.

Os que nenhuma autoridade admitem não compreendem os ver

dadeiros interesses da Doutrina. Se alguns pensam poder dispensar toda

direção, a maioria, os que não se creem infalíveis e não depositam confian

ça absoluta em suas próprias luzes, se sentem necessitados de um ponto

de apoio, de um guia, ainda que apenas para ajudá-los a caminhar com

segurança (Veja-se, na Revista Espírita de abril de 1866, O espiritismo

independente).

Reconhecida a necessidade de uma direção, de quem receberá pode

res o chefe para exercê-la? Será ele aclamado pela universalidade dos adep

tos? É coisa impraticável. Se se impuser por sua própria autoridade, uns o

aceitarão, enquanto outros o recusarão, e podem surgir vinte pretendentes,

levantando bandeira contra bandeira. Fora ao mesmo tempo o despotismo

e a anarquia. Semelhante ato seria próprio de um ambicioso e ninguém

conviria menos do que um ambicioso, por isso mesmo orgulhoso, para

chefiar uma doutrina que se baseia na abnegação, no devotamento, no

desinteresse, na humildade. Colocado fora do princípio fundamental da

Doutrina, outra coisa não poderia fazer, senão falsear-lhe o espírito. É o

que inevitavelmente se daria, se de antemão se não adotassem medidas

eficazes a prevenir esse inconveniente.

Admitamos, no entanto, houvesse um homem com todas as quali

dades necessárias ao desempenho do seu mandato e que, por uma senda

qualquer, chegasse à direção suprema. Os homens se sucedem e não se

assemelham; depois de um bom, poderia vir um mau. Com o indivíduo,

pode mudar o espírito da direção; sem maus desígnios, pode ele ter modos

de ver mais ou menos justos; se entender de fazer que prevaleçam suas

ideias pessoais, pode levar a Doutrina a transviar-se, suscitar dissidências e

as mesmas dificuldades se renovarão a cada mudança. É preciso não esque

cer que o Espiritismo ainda não está na plenitude da sua força. Do ponto

de vista da organização, é uma criança que mal começa a andar. Insta, pois,

sobretudo no princípio, premuni-lo contra os obstáculos do caminho.

Dir-se-á, porém, não virá estar à frente do Espiritismo um dos Es

píritos que, segundo foi anunciado, tem que tomar parte na obra de re

generação? É provável; todavia, como esses Espíritos não trarão na fronte

um sinal para serem reconhecidos; como não se farão reconhecer como

tais pela maioria, senão depois de terem morrido, conformemente ao que

houverem produzido durante a vida; como, ademais, não serão perpétuos,

mister se torna prever todas as eventualidades.

É sabido que eles terão uma missão multíplice; que serão de todos

os graus da escala espiritual e se encontrarão nos diversos ramos da econo

mia social, nos quais cada um exercerá influência a favor das novas ideias,

conforme a particularidade da sua posição; que todos, pois, trabalharão

pelo ascendente da Doutrina, aqui e ali, uns como chefes de Estado, outros

como legistas, outros como magistrados, sábios, literatos, oradores, indus

triais etc.; que cada um dará provas de si onde lhe caiba exercer sua ativi

dade, desde o proletário até o soberano, sem que qualquer coisa os distinga

do comum dos homens, a não serem suas obras. Se a um deles couber tomar

parte na direção, é provável que seja posto providencialmente na posição

apropriada a fazê-lo chegar lá pelos meios legais que forem adotados; cir

cunstâncias aparentemente fortuitas até lá o conduzirão, sem que de sua

parte haja desígnio premeditado, sem mesmo ter ele consciência de sua

missão (Revista Espírita: Os messias do espiritismo, fev./mar. 1868).

Em tal caso, o pior de todos os chefes seria o que se desse por eleito

de Deus. Como não é racional se admita que Deus confie tais missões a

ambiciosos ou a orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro

messias têm que ser, antes de tudo, a simplicidade, a humildade, a mo

déstia, numa palavra, o mais completo desinteresse material e moral. Ora,

a só pretensão de ser um messias constituiria a negação dessas qualidades

essenciais; provaria, naquele que se prevalecesse de semelhante título, ou

tola presunção, em havendo boa-fé, ou insigne impostura.

Não faltarão intrigantes, pseudoespíritas, que queiram elevar-se por

orgulho, ambição ou cupidez; outros que estadeiem pretensas revelações

com o auxílio das quais procurem salientar-se e fascinar as imaginações por

demais crédulas. É também de prever que, sob falsas aparências, indivíduos

haja que tentem apoderar-se do leme, com a ideia preconcebida de fazerem

soçobrar o navio, desviando-o da sua rota. O navio não soçobrará, mas

poderia sofrer prejudiciais atrasos que se devem evitar.

São esses, sem contestação, os maiores escolhos de que o Espiritismo

precisa preservar-se. Quanto maior consistência ele adquirir, tanto mais

ciladas lhe armarão seus adversários. É, portanto, dever de todos os espíri

tas sinceros anular as manobras da intriga que se possam urdir, assim nos

pequenos como nos grandes centros. Deverão eles, em primeiro lugar, re

pudiar, do modo mais absoluto, todo aquele que por si mesmo se apresente

qual messias, quer como chefe do Espiritismo, quer como simples apóstolo

da Doutrina. Pelo fruto é que se conhece a árvore; espere-se, pois, que a

árvore dê seu fruto, para decidir se ela é boa e veja-se também se os frutos

têm sabor (Ver O evangelho segundo o espiritismo, cap. XXI, it. 9: Caracteres

do verdadeiro profeta).

Houve quem propusesse que os candidatos fossem designados pelos

próprios Espíritos em cada grupo ou sociedade espírita. Além de que este

meio não obviaria a todos os inconvenientes, apresentaria outros, peculia

res a semelhante modo de proceder, que a experiência já demonstrou e que

fora supérfluo lembrar aqui. Não se deve perder de vista que a missão dos

Espíritos consiste em nos instruir, para que nos melhoremos, porém não

em se sobreporem ao nosso livre-arbítrio. Eles nos sugerem ideias, ajudam

com seus conselhos, principalmente no que concerne às questões morais,

mas deixam ao nosso raciocínio o encargo da execução das coisas materiais,

encargo a que não lhes cabe poupar-nos. Contentem-se os homens com

o serem assistidos e protegidos por Espíritos bons; não descarreguem, po

rém, sobre eles, a responsabilidade que incumbe ao encarnado.

Esse meio, aliás, suscitaria maiores embaraços do que se poderia su

por, pela dificuldade de fazer-se que todos os grupos participassem de se

melhante eleição. Seria uma complicação nas rodagens e estas tanto menos

suscetíveis se mostrarão de desarranjar-se, quanto mais simplificadas forem.

O problema é, pois, o de constituir-se uma direção central em con

dições, de força e estabilidade, que a ponham ao abrigo de todas as flu

tuações; que correspondam a todas as necessidades da causa e oponham

intransponível barreira às tramas da intriga e da ambição. Tal o objetivo do

plano de que vamos dar um rápido esboço.

QUATRO – Comissão central

Durante o período de elaboração, a direção do Espiritismo teve que

ser individual; era necessário que todos os elementos constitutivos da Dou

trina, saídos, no estado de embriões, de uma multidão de focos, se dirigis

sem para um centro comum, a fim de serem aí examinados e cotejados,

de sorte que um só pensamento presidisse à coordenação deles, a fim de

estabelecer-se a unidade no conjunto e a harmonia entre todas as partes.

Se não fosse assim, a Doutrina se teria assemelhado a um mecanismo cujas

rodas não se engrenam com precisão umas nas outras.

Já o temos dito, por ser verdade incontestável, hoje claramente de

monstrada: a Doutrina não podia sair, de um único centro, completamente

estruturada, da mesma maneira que toda a ciência astronômica não po

deria sair, inteiramente constituída, de um único observatório. Qualquer

centro que tentasse erguê-la exclusivamente sobre as suas observações faria

coisa incompleta e se acharia, com relação a uma infinidade de pontos,

em contradição com os outros. Se mil centros quisessem fazer cada um a

sua doutrina, não haveria duas iguais em todos os pontos. Se estivessem

de acordo quanto aos fundamentos, difeririam inevitavelmente quanto à

forma. Ora, como há muita gente que atenta mais na forma do que na

substância, tantas seriam as seitas quantas as formas diferentes. Somente

do conjunto e da comparação de todos os resultados parciais podia resultar

a unidade. Por isso é que era necessária a concentração dos trabalhos (A

gênese, cap. I: Caráter da revelação espírita, it. 51 e seguintes).

No entanto, o que era de vantagem por certo tempo mais tarde se

tornaria inconveniente. Hoje, que o trabalho de elaboração se acha con

cluído, no que concerne às questões fundamentais; que estabelecidos se en

contram os princípios gerais da Ciência, a direção, de individual que houve

de ser em começo, tem que se tornar coletiva, primeiramente, porque um

momento há de vir em que o seu peso excederá as forças de um homem

e, em segundo lugar, porque maior garantia apresenta um conjunto de

indivíduos, a cada um dos quais caiba apenas um voto e que nada podem

sem o concurso mútuo, do que um só indivíduo, capaz de abusar da sua

autoridade e de querer que predominem as suas ideias pessoais.

Em vez de um chefe único, a direção será confiada a uma comissão

central permanente, cuja organização e atribuições se definam de manei

ra a não dar azo ao arbítrio. Essa comissão se comporá, no máximo, de

doze membros titulares, que deverão, para tal efeito, preencher certas

condições indispensáveis, e de igual número de conselheiros. Ela se com

pletará a si mesma, segundo regras igualmente determinadas, à medida

que em seu seio se derem vagas por falecimentos ou por outras causas.

Uma disposição especial estabelecerá o modo por que serão nomeados os

doze primeiros.

A comissão nomeará o seu presidente por um ano.

Puramente administrativa será a autoridade do presidente. Ele diri

girá as deliberações da comissão, velará pela execução dos trabalhos e pelo

expediente, mas, fora das atribuições que os estatutos constitutivos lhe

conferirem, nenhuma decisão poderá tomar sem o concurso da comissão.

Portanto, não haverá possibilidade de abusos, nem alimentos para a am

bição, nem pretextos para intrigas ou ciúmes, nem supremacia chocante.

A comissão central será, pois, a cabeça, o verdadeiro chefe do Espi

ritismo, chefe coletivo, que nada poderá sem o assentimento da maioria.

Suficientemente numeroso para se esclarecer por meio da discussão, não o

será bastante para que haja confusão.

A autoridade da comissão central será temperada e seus atos fisca

lizados pelos congressos ou assembleias gerais, de que adiante falaremos.

Para a comunidade dos adeptos, a aprovação ou a desaprovação, o

consentimento ou a recusa, as decisões, em suma, de um corpo constituí

do, representando opinião coletiva, forçosamente terão uma autoridade

que jamais teriam, se emanassem de um só indivíduo, que apenas represen

ta uma opinião pessoal. É frequente uma pessoa rejeitar a opinião de outra,

por entender que se humilharia, caso se submetesse a essa opinião, e acatar

sem dificuldades a de muitos.

Fica bem entendido que aqui se trata de autoridade moral, no que

respeita à interpretação e aplicação dos princípios da Doutrina, e não de

um poder disciplinar qualquer. Essa autoridade será, em matéria de Espiri

tismo, o que é a de uma academia, em matéria de Ciência.

Para o público estranho, um corpo constituído tem maior ascen

dente e preponderância; contra os adversários, sobretudo, apresenta uma

força de resistência e dispõe de meios de ação com que um indivíduo não

poderia contar; aquele luta com vantagens infinitamente maiores. Uma

individualidade está sujeita a ser atacada e aniquilada; o mesmo já não se

dá com uma entidade coletiva.

Semelhante entidade oferece garantias de estabilidade, que não exis

te, quando tudo recai sobre uma cabeça única. Desde que o indivíduo se

ache impedido por uma causa qualquer, tudo fica paralisado. A entidade

coletiva, ao contrário, se perpetua incessantemente. Embora perca um ou

vários de seus membros, nada periclita.

A dificuldade, dirão, consistirá em reunir, de modo permanente,

doze pessoas que estejam sempre de acordo.

O essencial é que sejam acordes no tocante aos princípios funda

mentais. Ora, isso constituirá uma condição absoluta para que sejam ad

mitidas à direção, como para a de todos os que desta hajam de participar.

Sobre as questões pendentes de detalhes, pouco importa que divirjam,

porquanto a opinião da maioria é que prevalecerá. Àquele cuja maneira de

ver for acertada, não faltarão razões boas com que a justifique. Se algum,

contrariado por não conseguir que suas ideias predominem, se retirar, nem

por isso deixariam as coisas de seguir o seu curso e motivo não haveria para

se lhe deplorar a saída, pois que teria dado prova de uma suscetibilidade

orgulhosa, pouco espírita, e que poderia tornar-se origem de perturbações.

A causa mais comum de separatividade entre cointeressados é o con

flito de interesses e a possibilidade de uns suplantarem os outros, em pro

veito próprio. Esta causa não pode existir, do momento em que o prejuízo

de um em nada aproveitará aos outros; desde que todos são solidários e

somente podem perder, em vez de ganhar, com a desunião. É esta uma

questão de minúcia prevista na organização.

Admitamos que entre os membros da comissão haja um irmão falso,

um traidor, que os inimigos da causa tenham ganho para si: que logrará

ele fazer, não dispondo senão do seu voto nas decisões? Suponhamos que,

por impossível, toda a comissão enverede por mau caminho: aí estarão os

congressos para reconduzi-la à ordem.

A fiscalização dos atos da administração pertencerá aos congressos,

que poderão decretar a censura ou uma acusação contra a comissão central,

por infração do seu mandato, por violação dos princípios estabelecidos, ou

por medidas prejudiciais à Doutrina. Por isso é que se apelará da comissão

para o congresso, nas circunstâncias em que se julgue que a responsabilida

de da primeira está gravemente comprometida.

Sendo os congressos um freio para a comissão, na aprovação deles

haure esta última novas forças. É assim que o chefe coletivo depende, em

definitivo, da opinião geral e não pode, sem risco para si próprio, afastar-se

do caminho reto.

Serão estas as atribuições principais da comissão central:

1o) Cuidar dos interesses da Doutrina e da sua propagação; manter--lhe a utilidade, pela conservação da integridade dos princípios firmados;

prover ao desenvolvimento de suas consequências;

2o) O estudo dos novos princípios, suscetíveis de entrar no corpo da

Doutrina;25

3o) A concentração, em seu poder, de todos os documentos e infor

mações que interessem ao Espiritismo;

4o) A correspondência;

5o) A manutenção, a consolidação e a extensão dos laços de fraterni

dade entre os adeptos e as sociedades particulares dos diversos países;

6o) A direção da Revista, que será o jornal oficial do Espiritismo e à

qual se poderá juntar outra publicação periódica;

7o) O exame e apreciação das obras, dos artigos de jornais e de

todos os escritos que interessem à Doutrina: a refutação dos ataques, se

aparecerem;

8o) A publicação das obras fundamentais da Doutrina, nas condições

mais favoráveis à sua vulgarização; a elaboração e publicação das de que

daremos o plano e que não teremos tempo de executar em nossa atual exis

tência; a animação de que precisem as publicações que sejam de proveito

para a causa;

9o) A fundação e conservação da biblioteca, dos arquivos e do museu;

10o) A administração da caixa de socorros, do dispensário e do retiro;

11o) A administração dos negócios materiais;

12o) A direção das sessões da Sociedade;

13o) O ensino oral;

25 N.E.: Kardec parecia prever que muitos dos seus discípulos tenderiam para o estacionamento.

304

Constituição do Espiritismo

14o) As visitas e instruções às reuniões e sociedades particulares que

se colocarem sob o seu patrocínio;

15o) A convocação dos congressos e assembleias gerais.

Estas atribuições os membros da comissão as distribuirão entre si,

conforme a especialidade de cada um, sendo eles, se for preciso, assistidos

por certo número de auxiliares ou de simples empregados.

CINCO– Instituições acessórias e complementares

da comissão central

Muitas instituições complementares serão anexadas à comissão cen

tral, como dependências locais, à medida que as circunstâncias o permiti

rem, a saber:

1o) Uma biblioteca, onde se encontrem reunidas todas as obras que

interessem ao Espiritismo e que possam ser consultadas no local, ou cedi

das para leitura fora;

2o) Um museu, onde se achem colecionadas as primeiras obras de

arte espírita, os trabalhos mediúnicos mais notáveis, os retratos dos adeptos

a quem a causa muito deva pelo devotamento que lhe tenham demons

trado, os dos homens a quem o Espiritismo renda homenagens, embora

estranhos à Doutrina, como benfeitores da Humanidade, grandes gênios

missionários do progresso etc.

3o) Um dispensário destinado às consultas médicas gratuitas e ao tra

tamento de certas afecções, sob a direção de um médico diplomado;

4o) Uma caixa de socorros e de previdência em condições práticas;

5o) Um asilo;

6o) Uma sociedade de adeptos, que celebre sessões regulares.

Sem entrar num exame prematuro a respeito, convém dizer algu

mas palavras acerca de dois artigos, com relação aos quais poderão dar-se

equívocos.

A criação de uma caixa geral de socorros é impraticável e apresentaria

sérios inconvenientes, como já o demonstramos em artigo especial (Ver Revis

ta Espírita de julho de 1866). A comissão não deve, pois, tomar um caminho

que teria de abandonar ao cabo de pouco tempo, nem empreender coisa al

guma que não esteja certa de poder realizar. Ela precisa ser positiva e não se

embalar em ilusões quiméricas. Esse o meio de caminhar longo tempo e com

segurança. Para isso, cumpre-lhe ficar sempre dentro dos limites do possível.

A caixa de socorros a criar-se não pode e não deve ser mais do que

uma instituição local, de ação circunscrita e cuja prudente organização sir

va de modelo às do mesmo gênero que as sociedades particulares venham

a criar. Pela sua multiplicidade é que elas prestarão serviços eficazes, e não

pela centralização dos meios de ação.

Será alimentada: 1o) pelas parcelas, que se lhe destinem, tiradas da

renda da caixa geral do Espiritismo; 2o) pelos donativos especiais que lhe

forem feitos. Ela capitalizará as somas que receber, de maneira a constituir

para si um rendimento. Com essa renda é que prestará os socorros tempo

rários ou vitalícios e cumprirá as obrigações do seu mandato, estipuladas

no regulamento da sua constituição.

O projeto de um asilo, na acepção completa do termo, não pode

rá ter execução logo de começo, pelos capitais que reclamaria semelhante

fundação e, ademais, porque é preciso dar à administração tempo de se

firmar e de atuar com regularidade, antes de complicar suas atribuições

com empreendimentos que possam malograr-se. Fora imprudência tentar

muitas coisas, antes de estar certa de dispor dos meios de execução. É o que

facilmente se compreenderá, desde que se pense em todos os pormenores

inerentes a estabelecimentos desse gênero. Convém, sem dúvida, alimentar

boas intenções, mas, antes de tudo, mister se faz poder realizá-las.

SEIS – Amplitude de ação da comissão central

No princípio, um centro de elaboração das ideias espíritas se formou

por si mesmo, sem desígnio premeditado, pela força das coisas, mas sem

nenhum caráter oficial. Ele era necessário, porquanto, se não existira, qual

seria o ponto de ligação dos espíritas disseminados por diferentes países?

Não podendo comunicar suas ideias, suas impressões, suas observações a

todos os outros centros particulares, esparsos a seu turno e não raro sem

consistência, ficariam insulados, com o que a difusão da Doutrina sofreria.

Era, pois, indispensável um ponto de concentração, do qual tudo se irra

diasse. O desenvolvimento das ideias espíritas, longe de tornar inútil esse

centro, ainda melhor fará sentir a sua necessidade, porque tanto maior será

a dos espíritas se aproximarem e formarem feixe, quanto mais considerável

for o número deles. A constituição do Espiritismo, regularizando o estado

das coisas, terá por efeito fazê-lo produzir maiores vantagens e preencher as

lacunas que apresente. O centro que essa organização criará não será uma

individualidade, mas um foco de atividade coletiva, atuando no interesse

geral e onde se apaga toda autoridade pessoal.

Mas qual será a amplitude do círculo de atividade desse centro?

Destinar-se-á a reger o mundo e a tornar-se árbitro universal da verdade?

Alimentar semelhante pretensão fora compreender mal o espírito do Espi

ritismo que, pela razão mesma de proclamar os princípios do livre-exame

e da liberdade de consciência, repele a ideia de arvorar-se em autocracia;

logo que o fizesse, teria enveredado por uma senda fatal.

O Espiritismo sustenta princípios que, por se fundarem nas Leis da

Natureza, e não em abstrações metafísicas, tendem a tornar-se, e um dia

certamente o serão, os da universalidade dos homens; todos os aceitarão,

porque encontrarão neles verdades palpáveis e demonstradas, como aceita

ram a teoria do movimento da Terra, mas pretender-se que o Espiritismo

chegue a estar, por toda parte, organizado da mesma forma; que os espíri

tas do mundo inteiro se sujeitarão a um regime uniforme, a uma mesma

forma de proceder; que terão de esperar lhes venha de um ponto fixo a luz,

ponto em que deverão fixar os olhos, fora utopia tão absurda como a de

pretender-se que todos os povos da Terra formem um dia uma única nação,

governada por um só chefe, regida pelo mesmo código de leis e submetida

aos mesmos usos. Há, é certo, leis gerais que podem ser comuns a todos os

povos, mas que sempre, quanto às minúcias da aplicação e da forma, serão

apropriadas aos costumes, aos caracteres, aos climas de cada um.

Outro tanto se dará com o Espiritismo organizado. Os espíritas do

mundo todo terão princípios comuns, que os ligarão à grande família pelo

sagrado laço da fraternidade, mas cujas aplicações variarão segundo as re

giões, sem que, por isso, a unidade fundamental se rompa; sem que se

formem seitas dissidentes a atirar pedras e lançar anátemas umas às outras,

o que seria absolutamente antiespírita. Poderão, pois, formar-se, e inevita

velmente se formarão, centros gerais em diferentes países, ligados apenas

pela comunidade da crença e pela solidariedade moral, sem subordinação

de uns aos outros, sem que o da França, por exemplo, nutra a pretensão de

impor-se aos espíritas americanos e vice-versa.

É perfeitamente justa a comparação, de que acima nos valemos, com

os observatórios. Há-os em diferentes pontos do globo; todos, seja qual for

a nação a que pertençam, se fundam em princípios gerais firmados pela

Astronomia, o que, entretanto, não os torna tributários uns dos outros.

Cada um regula como entende os respectivos trabalhos. Permutam suas

observações e cada um se utiliza da Ciência e das descobertas dos outros.

Assim acontecerá com os centros gerais do Espiritismo; serão os observató

rios do Mundo Invisível, que permutarão entre si o que obtiverem de bom

e de aplicável aos costumes dos países onde funcionarem, uma vez que o

objetivo que eles colimam é o bem da Humanidade, e não a satisfação de

ambições pessoais. O Espiritismo é uma questão de fundo; prender-se à

forma seria puerilidade indigna da grandeza do assunto. Daí vem que os

centros que se acharem penetrados do verdadeiro espírito do Espiritismo

deverão estender as mãos uns aos outros, fraternalmente, e unir-se para

combater os inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo.

SETE – Os estatutos constitutivos

A redação dos estatutos constitutivos deve preceder a toda execu

ção. Se for confiada a uma assembleia, preciso é que antecipadamente se

determinem as condições que devam preencher os que sejam encarrega

dos do trabalho. A falta de base prévia, a divergência de pontos de vista,

possivelmente as pretensões individuais, sem falar das intrigas dos adversá

rios, poderiam produzir dissídios. Trabalho de tão grande alcance não pode

improvisar-se; demanda longa elaboração, conhecimento das necessidades

reais da Doutrina, conhecimento esse adquirido por meio da experiência e

de sérias meditações. Para que haja unidade de vistas, harmonia e coorde

nação de todas as partes do conjunto, tem ele que promanar da iniciativa

individual, ressalvada a possibilidade de receber mais tarde a sanção dos

interessados. De princípio, porém, será necessária uma regra, um rumo

traçado, um objetivo determinado. Estabelecida a regra, caminha-se com

segurança, sem tateamentos, nem hesitações.

Todavia, como a ninguém é dado possuir a luz universal, nem fazer

perfeito o que quer que seja; como um homem pode equivocar-se acerca

de suas próprias ideias, enquanto outros podem ver o que ele não vê; como

seria abusiva a pretensão de quem quisesse impor-se por qualquer título,

os estatutos serão submetidos à revisão do congresso que haja de reunir-se

mais proximamente, o qual poderá fazer-lhe as retificações que pareçam

convenientes.

No entanto, uma constituição, por muito boa que seja, não poderia

ser perpétua. O que é bom para certa época pode tornar-se deficiente em

época posterior. As necessidades variam com as épocas e com o desenvolvi

mento das ideias. Se não se quiser que com o tempo ela caia em desuso, ou

que venha a ser postergada pelas ideias progressistas, será necessário cami

nhe com essas ideias. Dá-se com as doutrinas filosóficas e com as socieda

des particulares o que acontece em política e em Religião: acompanhar ou

não o movimento propulsivo é uma questão de vida ou de morte. No caso

de que aqui se trata, fora grave erro acorrentar o futuro por meio de uma

regra que se declarasse inflexível.

Não menos grave erro seria introduzir com muita frequência, na

constituição orgânica, modificações que acabariam por privá-la de esta

bilidade. Faz-se mister proceder com ponderação e circunspeção. Só uma

experiência de certa duração pode permitir se julgue da utilidade real das

modificações. Ora, quem pode em tal caso ser juiz? Não será um único ho

mem, que geralmente só do seu ponto de vista vê as coisas; tampouco será

o autor do trabalho primitivo, porque poderá ser demasiado complacente

na apreciação da sua obra. Serão os próprios interessados, porque experi

mentam de modo direto e permanente os efeitos da instituição e podem

perceber por onde ela peca.

A revisão dos estatutos constitutivos se fará pelos congressos ordinários,

transformados para esse efeito em congressos orgânicos, em determinadas

épocas, e assim se prosseguirá indefinidamente, de maneira a conservá-los,

sem interrupção, ao nível das necessidades e do progresso das ideias, ainda

que a mil anos daqui.

Sendo periódicas e conhecidas antecipadamente as épocas de revi

são, não haverá cabimento para se fazerem apelos, nem convocações espe

ciais. A revisão constituirá não apenas um direito, mas também um dever

do congresso da época indicada; inscrever-se-á, de antemão, na sua ordem

do dia, de sorte que não estará subordinada à boa vontade de quem quer

que seja e ninguém poderá arrogar-se o direito de decidir, firmado na sua

autoridade particular, se a revisão é ou não oportuna. Se, depois de lidos os

estatutos, o congresso julgar desnecessária qualquer modificação, declará--los-á mantidos na íntegra.

Sendo forçosamente limitado o número dos membros dos congres

sos, atenta a impossibilidade material de reunir neles todos os interessados,

para que os que se reúnam não fiquem privados das luzes dos ausentes, to

dos estes poderão, qualquer que seja o lugar do mundo onde se encontrem,

enviar à comissão central, no intervalo de dois congressos orgânicos, suas

observações, que serão postas em ordem do dia do congresso vindouro.

Nenhum movimento apreciável das ideias se esboça em período me

nor do que um quarto de século. De vinte cinco em vinte cinco anos,

pois, é que a constituição orgânica do Espiritismo será submetida à revisão.

Sem ser demasiado longo, esse lapso de tempo é suficiente a permitir se

apreciem as necessidades novas e não se causem perturbações por efeito de

modificações muito frequentes.

Contudo, como nos primeiros anos é que se verificará o maior tra

balho de elaboração; é que o movimento a operar-se nessa ocasião pode

fazer surjam necessidades imprevistas, até que a sociedade haja firmado

seus passos; e é que importa se aproveitem, sem grande demora, as lições

da experiência, mais aproximadas serão as épocas de revisão, porém sem

pre determinadas previamente, até o fim do século atual. No intervalo

dos trinta primeiros anos, a constituição se terá completado e retificado

suficientemente, para gozar de relativa estabilidade. Então é que, sem in

conveniente, poderão começar os períodos de vinte cinco anos.

Desta maneira, a obra individual primitiva, que abrira o caminho, se

tornará obra coletiva de todos os interessados, com as vantagens inerentes a

esses dois modos, sem os seus inconvenientes. Ela se modificará sob o im

pério das ideias progressivas e da experiência, mas sem abalos, sem precipi

tações, porque obedecerá ao princípio estabelecido na própria constituição.

OITO – Do programa das crenças

A condição absoluta de vitalidade para toda reunião ou associação,

qualquer que seja o seu objetivo, é a homogeneidade, isto é, a unidade de

vistas, de princípios e de sentimentos, a tendência para um mesmo fim

determinado, numa palavra: a comunhão de ideias. Todas as vezes que

alguns homens se congregam em nome de uma ideia vaga jamais chegam

a entender-se, porque cada um apreende essa ideia de maneira diferente.

Toda reunião formada de elementos heterogêneos traz em si os germens da

sua dissolução, porque se compõe de interesses divergentes, materiais, ou

de amor-próprio, tendentes a fins diversos que se entrechocam e rarissi

mamente se mostram dispostos a fazer concessões ao interesse comum, ou

mesmo à razão; que suportam a opinião da maioria, se outra coisa não lhes

é possível, mas que nunca se aliam francamente.

Assim foi sempre, até o advento do Espiritismo. Formado gradativa

mente, como todas as ciências, em consequência de observações sucessivas,

sua aceitação tem ganho pouco a pouco maior amplitude. O qualificativo

de espírita, aplicado sucessivamente a todos os graus de crença, comporta

uma infinidade de matizes, desde o da simples crença nas manifestações,

até as mais altas deduções morais e filosóficas; desde aquele que, detendo--se na superfície, não vê nas manifestações mais do que um passatempo,

até aquele que procura a concordância dos seus princípios com as leis uni

versais e a aplicação dos mesmos princípios aos interesses gerais da Huma

nidade; enfim, desde aquele que não vê nas manifestações senão um meio

de exploração em proveito próprio, até o que haure delas elementos para

seu próprio melhoramento moral.

Dizer-se alguém espírita, mesmo espírita convicto, não indica, pois,

de modo algum, a medida da crença; essa palavra exprime muito, com

relação a uns, e muito pouco, relativamente a outros. Uma assembleia para

a qual se convocassem todos os que se dizem espíritas apresentaria um

amálgama de opiniões divergentes, que não poderiam assimilar-se recipro

camente, e nada de sério chegaria a realizar, sem falar dos interessados a

suscitarem no seu seio as discussões a que ela abrisse ensejo.

Essa falta de precisão, inevitável no começo e durante o período de

elaboração, há frequentemente causado equívocos lamentáveis, fazendo se

atribuísse à Doutrina o que não passava de abuso ou transviamento. Pela

falsa aplicação que diariamente se faz do qualificativo de espírita é que a

crítica, pouco inquirindo do fundo das coisas e ainda menos do lado sério

do Espiritismo, encontrou nele matéria para zombarias. Diga-se espírita

um indivíduo, ou pretenda fazer Espiritismo como os prestidigitadores

pretendem fazer física, embora seja um saltimbanco, e logo se considera

representante da Doutrina. Uma distinção, é certo, se tem feito entre os

bons e os maus, os verdadeiros e os falsos espíritas, os espíritas mais ou me

nos esclarecidos, mais ou menos convencidos, os espíritas de coração etc.

Mas essas designações, sempre vagas, nada de autêntico revelam, nada que

os caracterize, quando não se conhecem os indivíduos e ainda não se teve

ocasião de os julgar por suas obras.

Pode-se, pois, ser enganado pelas aparências, das quais resulta que a

qualificação de espírita, não comportando mais que uma aplicação falha,

não constitui recomendação absoluta e essa incerteza lança nos espíritas

uma espécie de desconfiança, que impede se estabeleça entre os adeptos

um laço sério de confraternização.

Hoje, quando nenhuma dúvida mais se legitima sobre os pontos fun

damentais da Doutrina, nem sobre os deveres que tocam a todos os adeptos

sérios, a qualidade de espírita pode ter um caráter definido, de que antes

carecia. É possível estabelecer-se um formulário de profissão de fé e a ade

são, por escrito, a esse programa será testemunho autêntico da maneira de

considerar o Espiritismo. Essa adesão, comprovando a unidade dos princí

pios, será, além do mais, o laço que unirá os adeptos numa grande família,

sem distinção de nacionalidades, sob o império de uma mesma fé, de uma

comunhão de pensamentos, de modos de ver e de aspirações. A crença no

Espiritismo já não será simples aquiescência, muitas vezes parcial, a uma

ideia vaga, porém uma adesão motivada, feita com conhecimento de causa

e comprovada por um título oficial, deferido ao aderente. Para evitar os

inconvenientes da falta de precisão, quanto ao qualificativo de espírita, os

signatários da profissão de fé tomarão o título de espíritas professos.

Assentando numa base precisa e definida, essa qualificação a ne

nhum equívoco dá lugar, permitindo que os adeptos que professem os

mesmos princípios e caminhem pela mesma senda se reconheçam, sem

outra formalidade mais do que a declaração de sua qualidade e, se for pre

ciso, a apresentação do seu título.

Um formulário de profissão de fé, circunstanciado e claramente ex

presso será o caminho traçado; o título de espírita professo será a palavra de

ligação.

Mas, perguntar-se-á, esse título constituirá garantia bastante contra

os de sinceridade duvidosa?

É impossível obter-se garantia absoluta contra a má-fé, porquanto

pessoas há que tratam com descaso os atos mais solenes; convenhamos, to

davia, em que essa garantia vale mais do que qualquer outra que não exista.

Aliás, aquele que, sem escrúpulos, se faz passar pelo que não é — quando

a questão é só de palavras que voam —, muitas vezes recua diante de uma

afirmação escrita, que deixa vestígios e que lhe pode ser apresentada no

caso de ele afastar-se do caminho reto. Se, entretanto, alguns haja que

não se deixem deter por essa consideração, mínimo seria o número deles

e nenhuma influência teriam. Ademais, essa hipótese estará prevista nos

estatutos, que lhe consagrarão um dispositivo especial.

Tal providência inevitavelmente afastará das reuniões sérias as pessoas

que aí não estariam em seus devidos lugares. Se ela tivesse por efeito o afasta

mento de alguns espíritas de boa-fé, estes seriam dos que não se acham bas

tante senhores de si mesmos, para se declararem tais, ou dos timoratos, que

temem pôr-se em evidência, ou, ainda, dos que jamais são os primeiros a pro

nunciar-se, em quaisquer circunstâncias, antes de verem que rumo tomam as

coisas. Com o tempo, uns se esclarecerão de modo mais completo e os outros

tomarão coragem. Nem uns, nem outros, no entanto, poderão contar-se entre

os firmes defensores da causa. Quanto àqueles cuja ausência fora verdadeira

mente de lamentar, será pequeno o número deles e diminuirá continuamente.

Nada sendo perfeito neste mundo, as melhores coisas têm seus in

convenientes. Se se houvesse de rejeitar tudo o que não esteja isento de

inconveniências, nada se admitiria. Em tudo se faz preciso contrapesar as

vantagens e desvantagens. Ora, é por demais evidente que, aqui, as primei

ras sobrepujam as segundas.

Que nem todos os que se qualificam de espíritas se submeterão à

constituição, é certo; por isso mesmo, ela existirá apenas para os que a acei

tarem livremente e voluntariamente, porquanto não nutrirá a pretensão de

impor-se a quem quer que seja.

Uma vez que o Espiritismo não é compreendido da mesma forma

por toda a gente, a constituição apela para os que o encaram do seu ponto

de vista, com o objetivo de lhe dar apoio, quando se achem isolados, e

de fortalecer os laços da grande família pela unidade da crença. Mas fiel

ao princípio de liberdade de consciência, que a Doutrina proclama como

direito natural, ela respeitará todas as convicções sinceras e não anatemati

zará os que sustentem ideias diferentes das suas, nem deixará de aproveitar

as luzes que possam brilhar fora do seu seio.

O essencial é, portanto, conhecer os que seguem a mesma trilha.

Mas como sabê-lo com exatidão? É materialmente impossível consegui-lo

por meio de interrogatórios individuais, acrescendo que ninguém pode ser

investido do direito de perscrutar as consciências. O único meio, o mais

simples, o mais legal, seria estabelecer um formulário de princípios, resu

mindo o estado dos conhecimentos atuais que ressaltam da observação e

que têm a sancioná-los o ensino geral dos Espíritos, ensino a que cada um é

livre de aderir ou não. A adesão escrita é uma profissão de fé, que dispensa

qualquer outra investigação, deixando a cada um inteira liberdade.

Conseguintemente, a constituição do Espiritismo tem como com

plemento necessário, no que concerne à crença, um programa de princípios

definidos, sem o qual seria obra sem alcance e sem futuro. Este programa,

fruto da experiência adquirida, será o marco indicador do caminho. Para

perlustrá-lo com segurança, a par da constituição orgânica, faz-se necessá

ria uma constituição da fé, um credo, se o preferirem, que seja o ponto de

referência de todos os adeptos.

Contudo, nem esse programa, nem a constituição orgânica podem

ou devem acorrentar o futuro, sob pena de sucumbirem, cedo ou tarde, sob

as coações do progresso. Fundado de acordo com o estado presente dos co

nhecimentos, tem ele que se modificar e completar à medida que novas ob

servações lhe demonstrarem as deficiências ou os defeitos. As modificações,

entretanto, não lhe devem ser introduzidas levianamente, nem com precipi

tação. Hão de ser obra dos congressos orgânicos que, à revisão periódica dos

estatutos constitutivos, acrescentará a do formulário dos princípios.

Marchando constantemente de harmonia com o progresso, consti

tuição e credo subsistirão na sucessão dos tempos.

NOVE – Vias e meios

É de lastimar, sem dúvida, que tenhamos de entrar em considerações

de ordem material, para alcançarmos um objetivo todo espiritual. Cum

pre, porém, observemos que a espiritualidade mesma da obra se prende

à questão da Humanidade terrena e do seu bem-estar; que já não se trata

somente da emissão de algumas ideias filosóficas, mas de fundar alguma

coisa de positivo e de durável. Imaginar que ainda estamos nos tempos

em que alguns apóstolos podiam pôr-se a caminho com um bastão de

viagem, sem cogitarem de saber onde pousariam, nem do que comeriam,

fora alimentar uma ilusão que bem depressa amarga decepção destruiria.

Para alguém fazer qualquer coisa de sério, tem que se submeter às necessi

dades impostas pelos costumes da época em que vive e essas necessidades

são muito diversas das dos tempos da vida patriarcal. O próprio interesse

do Espiritismo exige, pois, que se apreciem os meios de ação, para não ser

forçoso parar a meio do caminho. Apreciemo-los, portanto, uma vez que

estamos num século em que é preciso calcular tudo.

São em grande número, como se vê, as atribuições da comissão

central, para necessitarem de uma verdadeira administração. Tendo cada

um de seus membros funções ativas e assíduas, se apenas a constituíssem

homens de boa vontade, os trabalhos seriam prejudicados, porquanto

ninguém teria o direito de censurar os negligentes. Para regularidade dos

trabalhos e normalidade do expediente, necessário se torna contar com

homens de cuja assiduidade se possa estar certo e que não considerem suas

funções como simples atos de comprazer. De quanto mais independência

eles forem senhores, pelos seus recursos pessoais, tanto menos se deixarão

prender por ocupações quaisquer; se não dispuserem de tempo, não po

derão consagrá-lo àquelas funções. Importa, pois, que sejam retribuídos,

assim como o pessoal administrativo. A Doutrina com isso ganhará em

força, em estabilidade, em pontualidade, do mesmo passo que constituirá

um meio de prestar serviços a pessoas que dela necessitem.

Ponto essencial, na economia de toda administração previdente,

é que sua existência não dependa de produtos eventuais que possam fa

zer falta, mas de recursos certos, regulares, de maneira que sua marcha,

aconteça o que acontecer, não seja embaraçada. Insta, pois, que as pes

soas que forem chamadas a lhe prestar concurso, não se sintam inquietas

pelo futuro que as aguarde. Ora, a experiência demonstra que se devem

considerar essencialmente aleatórios os recursos que apenas tenham por

base o produto de cotas ou contribuições, sempre facultativas, quais

quer que sejam os compromissos contraídos, e de cobrança sempre difí

cil. Assentar despesas permanentes e regulares sobre recursos eventuais,

implicaria falta de previdência, que mais tarde se haveria de deplorar.

Menos graves são, sem dúvida, as consequências, quando se trate de

fundações temporárias, destinadas a durar quanto possam; aqui, porém,

é uma questão de futuro. A sorte de uma administração como esta não

pode ficar subordinada aos azares de um negócio comercial; precisa ser,

desde o seu início, senão tão florescente, pelo menos tão estável quanto

o será daqui a um século.

Em tal caso, a mais vulgar prudência manda se capitalizem, de for

ma inalienável, os recursos, à proporção que vão sendo obtidos, a fim de

constituir-se uma renda perpétua, a coberto de todas as eventualidades.

Regulando a administração a sua despesa pela renda que aufira, não pode

a sua existência, em nenhum caso, achar-se comprometida, pois que dis

porá sempre de meios para funcionar. Pode, no começo, organizar-se em

menor escala; o número de membros da comissão poderá ser limitado

provisoriamente a cinco ou seis, o pessoal e os gastos administrativos redu

zidos ao mínimo possível, sem prejuízo do desenvolvimento dos recursos.

A preparar o caminho para essa instalação é que consagramos até

agora o fruto dos nossos trabalhos, conforme dissemos acima. Se os nossos

recursos pessoais não nos permitem fazer mais, temos, pelo menos, a satis

fação de haver colocado a primeira pedra.

Figuremos então que, de um modo ou doutro, a comissão central,

em dado tempo, esteja em condições de funcionar, o que pressupõe uma

renda de 25 a 30.000 francos. Restringindo, em começo, as suas despesas,

os recursos de toda espécie de que disponha, em capitais e produtos even

tuais, constituirão a Caixa Geral do Espiritismo, que será objeto de uma

contabilidade rigorosa. Reguladas as despesas obrigatórias, o excedente da

renda irá aumentar o capital comum. Proporcionalmente, com os recur

sos desse capital é que a comissão proverá às diversas despesas proveitosas

ao desenvolvimento da Doutrina, sem que jamais faça dele aplicação pes

soal, nem fonte de especulação para qualquer de seus membros. Ademais,

o emprego dos fundos e escrituração serão submetidos à verificação de

comissários especiais, designados, para esse efeito, pelos congressos ou

assembleias gerais.

A comissão terá por um de seus primeiros cuidados ocupar-se com

as publicações, desde que seja possível, sem esperar que o possa fazer com

o auxílio das rendas. Os fundos a isso destinados não serão, em realidade,

mais que um adiantamento, pois que voltarão à caixa, em virtude da ven

da das obras, cujo produto reverterá ao capital comum. É um negócio de

administração.

DEZ – Allan Kardec e a nova constituição

Como prelúdio da nova constituição do Espiritismo, que ele ela

borava, e a externação da sua maneira de ver com referência à sua posição

pessoal, têm perfeito cabimento neste preâmbulo as considerações que pas

samos a reproduzir, extraídas da exposição que, a propósito da Caixa do

Espiritismo, ele fez à Sociedade de Paris, em 5 de maio de 1865:

“Muito se há falado dos proventos que eu retirava das minhas obras.

Certamente, nenhuma pessoa séria acredita nos meus milhões, a despeito

da afirmação dos que diziam saber de boa fonte que eu mantinha um

trem principesco, carruagens a quatro e que em minha casa se andava

por cima de tapetes d’Aubusson (Ver Revista Espírita, jun. 1862, Assim

se escreve a História! – Os milhões do Sr. Allan Kardec). Além disso, não

obstante o que disse o autor de uma brochura que conheceis, provando,

por meio de cálculos hiperbólicos, que o meu orçamento de receita ul

trapassa a lista civil do mais poderoso soberano da Europa, porquanto,

só na França, vinte milhões de espíritas são meus tributários (Ver Revista

Espírita, jul. 1863, Orçamento do Espiritismo), há um fato mais autêntico

do que os seus cálculos, isto é: que eu nada nunca pedi a ninguém, que

nunca ninguém me deu nada para mim pessoalmente; numa palavra:

que não vivo a expensas de quem quer que seja, pois que, das somas que

voluntariamente se me confiaram no interesse do Espiritismo, nenhuma

parcela foi desviada em meu proveito.26

As minhas imensas riquezas proviriam, pois, das minhas obras es

píritas. Conquanto essas obras tenham alcançado inesperado êxito, quem

quer que esteja um pouco iniciado em negócios de livraria sabe que não é

com livros filosóficos que se ganham milhões em cinco ou seis anos, quan

do sobre as vendas não se tem mais do que os direitos de autor, que não

passam de alguns cêntimos por exemplar. Mas, avultado ou mínimo, sen

do esse lucro fruto do meu trabalho, ninguém tem o direito de se imiscuir

no emprego que lhe dou.

Comercialmente falando, estou na posição de qualquer homem que

colha o fruto de seu trabalho; corro os azares de todo escritor que tanto

pode ser bem-sucedido, como pode sofrer um malogro.

Quem quer que tenha visto a nossa habitação outrora e a veja hoje

poderá atestar que nada mudou na nossa maneira de viver, depois que en

trei a ocupar-me com o Espiritismo; ela é agora absolutamente tão simples

quanto o era antigamente. É portanto, manifesto que meus lucros, quais

quer que tenham sido, não deram para nos proporcionar os gozos do luxo.

Que se segue daí?

Tirando-me da obscuridade, o Espiritismo me lançou num novo

rumo; em pouco tempo, vi-me arrastado por um movimento que me acha

va longe de prever. Quando concebi a ideia de O livro dos espíritos, era

minha intenção não me pôr de modo algum em evidência e permanecer

desconhecido, mas, para logo ultrapassados os limites que eu imaginara,

isso não me foi possível; tive de renunciar ao meu gosto pelo insulamento,

sob pena de abdicar da obra empreendida e que crescia de dia para dia;

foi-me preciso ceder à impulsão e tomar-lhe as rédeas. À proporção que

ela se desenvolvia, mais vasto horizonte se desdobrava diante de mim e lhe

distanciava os lindes. Compreendi então a imensidade da minha tarefa e a

importância do trabalho que me restava fazer para completá-la. As dificul

dades e os obstáculos, longe de me atemorizarem, redobraram as minhas

energias. Divisei o fim objetivado e resolvi atingi-lo, com a assistência dos

bons Espíritos. Sentia que não tinha tempo a perder e não perdi, nem

em visitas inúteis, nem em cerimônias estéreis. Foi a obra de minha vida.

Dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe o meu repouso, a minha saúde,

porque diante de mim o futuro estava escrito em letras irrecusáveis.

Sem me afastar do meu gênero de vida, nem por isso essa posição

excepcional deixou de criar-me necessidades a que só os meus recursos

pessoais, muito limitados, não me permitiam prover. Seria difícil a outrem

imaginar a multiplicidade das despesas que aquela posição acarreta e que,

sem ela, eu teria evitado.

Pois bem! Senhores, o que me proporcionou suprimento aos meus

recursos foi o produto das minhas obras. Digo-o com satisfação, foi com o

meu próprio trabalho, com o fruto das minhas vigílias que provi, em sua

maior parte pelo menos, às necessidades materiais da instalação da Dou

trina. Levei assim uma larga contribuição à Caixa do Espiritismo; os que

ajudam a propagação das obras não poderão, conseguintemente, dizer que

trabalham para me enriquecer, porque o produto da venda de todo livro,

de toda assinatura da Revista redunda em proveito da Doutrina, e não do

indivíduo.

Mas prover ao presente não era tudo; importava também pensar

no futuro e preparar uma fundação que, depois de mim, pudesse auxiliar

aquele que me substituísse na grande tarefa que terá de desempenhar. Essa

fundação, a cujo respeito ainda devo guardar silêncio, se prende à proprie

dade que possuo e é em vista disso que aplico, em melhorá-la, uma parte

do que ganho. Como estou longe dos milhões com que me gratificaram,

duvido muito que, sem embargo das minhas economias, os meus recursos

me permitam jamais dar a essa fundação o complemento que eu desejara

ela tivesse, ainda em minha vida. Uma vez, porém, que a sua realização

está nos desígnios dos meus guias espirituais, se eu próprio não o fizer, é

provável que, um dia ou outro, isso se fará. Enquanto aguardo, vou elabo

rando os planos a que ela obedecerá.

Longe de mim, senhores, a ideia de me envaidecer, ainda que de

leve, com o que acabo de expor-vos. Foi necessária a pertinácia de certas

diatribes, para que eu me decidisse, embora a contragosto, a quebrar o si

lêncio acerca de alguns fatos que me concernem. Mais tarde, todos aqueles

que à malignidade aprouve desnaturar serão evidenciados, por meio de

documentos autênticos. Ainda não chegou a oportunidade para essas ex

plicações. A única coisa que por enquanto me importava era que ficásseis

esclarecidos com relação ao destino dos fundos que a Providência faz que

passem pelas minhas mãos, qualquer que seja a proveniência deles. Não me

considero mais do que um depositário, até mesmo do que ganho; portan

to, com mais forte razão, daquilo que me é confiado.

Perguntou-me alguém certo dia, sem curiosidade, bem entendido,

por mero interesse pela coisa em si, o que eu faria de um milhão de francos,

se o tivesse. Respondi-lhe que, presentemente, o emprego dessa soma teria

de ser totalmente diverso do que houvera sido no princípio. Outrora, eu

com ela teria feito a propaganda, mediante larga publicidade; agora, reco

nheço que isso seria inútil, pois que os nossos adversários se encarregaram de

custeá-la. Não me pondo então à disposição grandes recursos, os Espíritos

quiseram provar que o Espiritismo devia seus triunfos à sua própria força.

Hoje, ampliado como está o horizonte e quando, sobretudo, o fu

turo se desdobrou, são de ordem muito diferente as necessidades que se

fazem sentir. Um capital, como o figurado, teria emprego mais útil. Sem

entrar em pormenores que seriam prematuros, direi apenas que uma parte

se destinaria a converter a minha propriedade numa casa especial de re

tiro espírita, cujos habitantes colheriam os benefícios da nossa doutrina

moral; outra a constituir uma renda inalienável, destinada: 1o) a manter o

estabelecimento; 2o) a assegurar uma existência independente àquele que

me sucedesse e aos que o ajudassem no desempenho da sua missão; 3o) a

atender às necessidades correntes do Espiritismo, sem os riscos de auxílios

eventuais, como sou obrigado a fazer, pois que a maior parte de seus recur

sos decorrem do meu trabalho, que terá termo.

Aí está o que eu faria, mas, se tal satisfação não me é dada, sei que, de

um modo ou de outro, os Espíritos que dirigem o movimento proverão a

todas as necessidades em tempo oportuno. Por isso, de forma nenhuma me

inquieto e só me ocupo com o que, para mim, é o essencial: o acabamento

dos trabalhos que me restam por terminar”.

* * *

Ao que ele então dizia, acrescentou recentemente Allan Kardec:

“Quando a comissão estiver organizada, dela faremos parte como

simples membro seu, dando-lhe a nossa colaboração, sem reivindicar, para

nós, nem supremacia, nem título, nem qualquer privilégio.

Embora membro ativo da comissão, não pesaremos de forma algu

ma no seu orçamento, nem por honorários, nem por despesas de viagens,

nem por qualquer outra causa. Se nunca a ninguém nada pedimos para

nós, ainda menos o faríamos nesta circunstância. Nosso tempo, nossa vida,

todas as nossas forças físicas e intelectuais pertencem à Doutrina. Declara

mos, pois, formalmente, que nenhuma parcela dos recursos de que dispu

ser a comissão será desviada em proveito nosso.

Dar-lhe-emos, ao contrário, a nossa contribuição:

1o) abrindo mão, em seu favor, do que produzam as nossas obras,

feitas e por fazer;

2o) doando-lhe valores mobiliários e imobiliários.

Achando-se organizado o Espiritismo pela constituição da comissão

central, nossas obras se tornarão propriedade do Espiritismo, na pessoa

dessa mesma comissão, que as gerirá e cuidará da publicação delas, pelos

meios mais apropriados a popularizá-las. Ela também deverá cuidar de que

sejam traduzidas nas principais línguas estrangeiras.

A Revista foi, até agora, e não podia deixar de ser, uma obra pessoal,

visto que fazia parte das nossas obras doutrinárias, constituindo os anais

do Espiritismo. Por seu intermédio é que todos os princípios novos foram

elaborados e entregues ao estudo. Era, pois, necessário que conservasse seu

caráter individual, para que se estabelecesse a unidade.

Fomos, por diversas vezes, solicitados a fazê-la circular mais amiú

de; por muito lisonjeiro, porém, que nos fosse esse desejo, não pudemos

atendê-lo, primeiramente, porque o tempo material não nos consentia esse

acréscimo de trabalho e, em segundo lugar, porque importava não perdesse

ela o seu caráter essencial, que não é o de um jornal propriamente dito.

Hoje, que a nossa obra pessoal se aproxima do seu termo, as neces

sidades já não são as mesmas; a Revista se tornará, como as nossas outras

obras, feitas e por fazer, propriedade coletiva da comissão, que lhe tomará

a direção, para maior vantagem do Espiritismo, sem que, por isso, renun

ciemos a lhe prestar a nossa colaboração.

Para completar a obra doutrinária, falta-nos publicar vários tra

balhos, que não formam a parte menos difícil, nem menos penosa.

Conquanto já disponhamos de todos os elementos para os executar e o

programa de cada um esteja traçado até o último capítulo, poderíamos

dispensar-lhes mais acurada atenção e ativá-los, se, por instituída a co

missão central, estivéssemos livres de outros cuidados que nos absorvem

grande parte do tempo.

* * *

O primeiro período do Espiritismo foi consagrado ao estudo dos

princípios e das leis, que em seu conjunto tinham de constituir a Doutrina;

numa palavra: a preparar os materiais, ao mesmo tempo que à vulgarização

da ideia. Foi o do plantio da semente que, semelhante à da Parábola do

Evangelho, não frutificaria igualmente por toda parte. A criança cresceu;

tornou-se adulto e chegado é o momento em que, amparado por adeptos

sinceros e devotados, tem que avançar para o objetivo que lhe está posto,

sem ser obstado pelos retardatários.

Mas como fazer essa seleção? Quem ousaria assumir a responsabi

lidade de um julgamento a incidir sobre as consciências individuais? O

melhor seria que a seleção se fizesse por si mesma e o meio era bem simples:

bastava desfraldar um estandarte e dizer — sigam-no os que o adotem.

Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um

direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender,

a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante

em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode quei

xar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para

atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar

as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita

(Ver Revista Espírita, abril de 1866).

Depois de tudo o que fica dito, facilmente se compreenderá quão

impossível e prematuro fora estabelecer essa constituição logo no princí

pio. Se a Doutrina Espírita se houvera formado em conjunto, como toda

concepção pessoal, teria sido completada desde o primeiro dia e, então,

nada mais simples do que constituí-la. No entanto, tendo ela surgido gra

dualmente, em consequência de aquisições sucessivas, a sua constituição

teria congregado todos os amantes de novidades; em breve, porém, estaria

abandonado pelos que não lhe aceitassem todas as consequências.

Entretanto, alguns porventura dirão: não estais assim provocando uma

cisão entre os adeptos? Abrindo dois campos, não enfraqueceis a falange?

Nem todos os que se dizem espíritas pensam do mesmo modo sobre

todos os pontos; a divisão existe, de fato, e é muito mais prejudicial, por

que pode acontecer que não se saiba se, num espírita, está um aliado ou

um antagonista. O que faz a força é a universalidade: ora, uma união fran

ca não poderia existir entre pessoas interessadas, moral ou materialmente,

em não seguir o mesmo caminho e que não objetivam o mesmo fim. Dez

homens unidos por um pensamento comum são mais fortes do que cem

que não se entendam. Em tal caso, a miscelânea de vistas divergentes tira

a força de coesão entre os que desejariam andar juntos, exatamente como

um líquido que, infiltrando-se num corpo, ergue obstáculo à agregação das

moléculas desse corpo.

Se a constituição tem por efeito diminuir momentaneamente o nú

mero aparente dos espíritas, terá, por outro lado, como consequência, dar

mais força aos que caminharem de comum acordo para a realização do

grande objetivo humanitário que o Espiritismo há de alcançar. Eles se co

nhecerão e se estenderão mutuamente as mãos, de um extremo a outro do

mundo.

Terá, além disso, por efeito opor barreira às ambições que, se se

impusessem, tentariam desviá-lo em proveito próprio. Tudo está calcu

lado, visando esse resultado, pela supressão de toda autocracia ou supre

macia pessoal.

Credo espíritaPreâmbulo

Os males da Humanidade provêm da imperfeição dos homens;

pelos seus vícios é que eles se prejudicam uns aos outros. Enquanto

forem viciosos, serão infelizes, porque a luta dos interesses gerará cons

tantes misérias.

Sem dúvida, boas leis contribuem para melhorar o estado social, mas

são impotentes para tornar venturosa a Humanidade, porque mais não

fazem do que comprimir as paixões ruins, sem as eliminar. Em segundo

lugar, porque são mais repressivas do que moralizadoras e só reprimem os

mais salientes atos maus, sem lhes destruir as causas. Aliás, a bondade das

leis guarda relação com a bondade dos homens; enquanto estes se conser

varem dominados pelo orgulho e pelo egoísmo, farão leis em benefício de

suas ambições pessoais. A lei civil apenas modifica a superfície; somente a

lei moral pode penetrar o foro íntimo da consciência e reformá-lo.

Reconhecido, pois, que o atrito oriundo do contato dos vícios é que

faz infortunados os homens, o único remédio para seus males está em se

melhorarem eles moralmente. Uma vez que nas imperfeições se encontra

a causa dos males, a felicidade aumentará na proporção em que as imper

feições diminuírem.

Por melhor que seja uma instituição social, sendo maus os homens,

eles a falsearão e lhe desfigurarão o espírito para a explorarem em proveito

próprio. Quando os homens forem bons, organizarão boas instituições,

que serão duráveis, porque todos terão interesse em conservá-las.

A questão social não tem, pois, por ponto de partida a forma de tal

ou qual instituição; ela está toda no melhoramento moral dos indivíduos

e das massas. Aí é que se acha o princípio, a verdadeira chave da felicidade

do gênero humano, porque então os homens não mais cogitarão de se

prejudicarem reciprocamente. Não basta se cubra de verniz a corrupção, é

indispensável extirpar a corrupção.

O princípio do melhoramento está na natureza das crenças, porque

estas constituem o móvel das ações e modificam os sentimentos. Também

está nas ideias inculcadas desde a infância e que se identificam com o Es

pírito; está ainda nas ideias que o desenvolvimento ulterior da inteligência

e da razão podem fortalecer, nunca destruir. É pela educação, mais do que

pela instrução, que se transformará a Humanidade.

O homem que se esforça seriamente por se melhorar assegura para si

a felicidade, já nesta vida. Além da satisfação que proporciona à sua cons

ciência, ele se isenta das misérias materiais e morais, que são a consequência

inevitável das suas imperfeições. Terá calma, porque as vicissitudes só de

leve o roçarão. Gozará de saúde, porque não estragará o seu corpo com os

excessos. Será rico, porque rico é sempre todo aquele que sabe contentar-se

com o necessário. Terá a paz do espírito, porque não experimentará neces

sidades fictícias, nem será atormentado pela sede das honrarias e do supér

fluo, pela febre da ambição, da inveja e do ciúme. Indulgente para com as

imperfeições alheias, menos sofrimentos lhe causarão elas, que, antes, lhe

inspirarão piedade, e não cólera. Evitando tudo o que possa prejudicar o

seu próximo, por palavras e por atos, procurando, ao invés, fazer tudo o que

possa ser útil e agradável aos outros, ninguém sofrerá com o seu contato.

Garante a sua felicidade na vida futura, porque quanto mais ele se

depurar, tanto mais se elevará na hierarquia dos seres inteligentes e cedo

abandonará esta terra de provações, por mundos superiores, porquanto o

mal que haja reparado nesta vida não terá que o reparar em outras existên

cias; porquanto, na erraticidade, só encontrará seres amigos e simpáticos

e não será atormentado pela visão incessante dos que contra ele tenham

motivos de queixa.

Vivam juntos alguns homens, animados desses sentimentos, e serão

tão felizes quanto o comporta a nossa terra. Ganhem assim, passo a passo,

esses sentimentos todo um povo, toda uma raça, toda a Humanidade e o

nosso globo tomará lugar entre os mundos ditosos.

Será isto uma utopia, uma quimera? Sê-lo-á para aquele que não crê

no progresso da alma; não o será, para aquele que crê na sua perfectibili

dade indefinita.

O progresso geral é a resultante de todos os progressos individuais,

mas o progresso individual não consiste apenas no desenvolvimento da

inteligência, na aquisição de alguns conhecimentos. Nisso mais não há do

que uma parte do progresso, que não conduz necessariamente ao bem, pois

que há homens que usam mal do seu saber. O progresso consiste, sobretu

do, no melhoramento moral, na depuração do Espírito, na extirpação dos

maus germens que em nós existem. Esse o verdadeiro progresso, o único

que pode garantir a felicidade ao gênero humano, por ser o oposto mesmo

do mal. Muito mal pode fazer o homem de inteligência mais cultivada;

aquele que se houver adiantado moralmente só o bem fará. É, pois, do

interesse de todos o progresso moral da Humanidade.

Mas que importam a melhora e a felicidade das gerações futuras,

àquele que acredita que tudo se acaba com a vida? Que interesse tem ele

em se aperfeiçoar, em se constranger, em domar suas paixões inferiores,

em se privar do que quer que seja em benefício de outrem? Nenhum. A

própria lógica lhe diz que seu interesse está em gozar depressa e por todos

os meios possíveis, visto que amanhã, talvez, ele nada mais será.

A doutrina do nadismo é a paralisia do progresso humano, porque

circunscreve as vistas do homem ao imperceptível ponto da presente exis

tência; porque lhe restringe as ideias e as concentra forçosamente na vida

material. Com essa doutrina, o homem nada sendo antes, nem depois,

cessando com a vida todas as relações sociais, a solidariedade é vã palavra,

a fraternidade uma teoria sem base, a abnegação em favor de outrem mero

embuste, o egoísmo, com a sua máxima — cada um por si, um direito

natural; a vingança, um ato de razão; a felicidade, privilégio do mais forte

e dos mais astuciosos; o suicídio, o fim lógico daquele que, baldo de re

cursos e de expedientes, nada mais espera e não pode safar-se do tremedal.

Uma sociedade fundada sobre o nadismo traria em si o gérmen de sua

próxima dissolução.

Outros, porém, são os sentimentos daquele que tem fé no futuro;

que sabe que nada do que adquiriu em saber e em moralidade lhe estará

perdido; que o trabalho de hoje dará seus frutos amanhã; que ele próprio

fará parte das gerações porvindouras, mais adiantadas e mais ditosas. Sabe

que, trabalhando para os outros, trabalha para si mesmo. Sua visão não se

detém na Terra, abrange a infinidade dos mundos que lhe servirão um dia

de morada; entrevê o glorioso lugar que lhe caberá, como o de todos os

seres que alcançam a perfeição.

Com a fé na vida futura, dilata-se-lhe o círculo das ideias; o porvir

lhe pertence; o progresso pessoal tem um fim, uma utilidade real. Da con

tinuidade das relações entre os homens nasce a solidariedade; a fraternida

de se funda numa Lei da Natureza e no interesse de todos.

A crença na vida futura é, pois, elemento de progresso, porque esti

mula o Espírito; somente ela pode dar ao homem coragem nas suas provas,

porque lhe fornece a razão de ser dessas provas, perseverança na luta contra

o mal, porque lhe assina um objetivo. A formar essa crença no espírito das

massas é, portanto, o em que devem aplicar-se os que a possuem.

Entretanto, ela é inata no homem. Todas as religiões a proclamam.

Por que, então, não deu, até hoje, os resultados que se deviam esperar? É

que, em geral, a apresentam em condições que a razão não pode aceitar.

Conforme a pintam, ela rompe todas as relações com o presente; desde

que tenha deixado a Terra, a criatura se torna estranha à Humanidade:

nenhuma solidariedade existe entre os mortos e os vivos; o progresso é pu

ramente individual; cada um, trabalhando para o futuro, unicamente para

si trabalha, só em si pensa e isso mesmo para uma finalidade vaga, que nada

tem de definido, nada de positivo, sobre que o pensamento se firme com

segurança; enfim, porque é mais uma esperança que uma certeza material.

Daí resulta, para uns, a indiferença, para outros, uma exaltação mística

que, isolando da Terra o homem, é essencialmente prejudicial ao progresso

real da Humanidade, porquanto negligencia os cuidados que reclama o

progresso material, para o qual a Natureza lhe impõe o dever de contribuir.

Todavia, por muito incompletos que sejam os resultados, não deixam

de ser efetivos. Quantos homens não se sentiram encorajados e sustentados

na senda do bem por essa vaga esperança! Quantos não se detiveram no

declive do mal, pelo temor de comprometer o seu futuro! Quantas virtudes

nobres essa crença não desenvolveu! Não desdenhemos as crenças do passa

do, por imperfeitas que sejam, quando conduzem ao bem: elas estavam em

correspondência com o grau de adiantamento da Humanidade.

Porém, tendo progredido, a Humanidade reclama crenças em har

monia com as novas ideias. Se os elementos da fé permanecem estacionários

e ficam distanciados pelo espírito, perdem toda influência; e o bem que

hajam produzido, em certo tempo, não pode prosseguir, porque aqueles

elementos já não se acham à altura das circunstâncias.

Para que a doutrina da vida futura doravante dê os frutos que se de

vem esperar, é preciso, antes de tudo, que satisfaça completamente à razão;

que corresponda à ideia que se faz da sabedoria, da justiça e da bondade

de Deus; que não possa ser desmentida de modo algum pela Ciência. É

preciso que a vida futura não deixe no espírito nem dúvida, nem incerteza;

que seja tão positiva quanto a vida presente, que é a sua continuação, do

mesmo modo que o amanhã é a continuação do dia anterior. É necessário

seja vista, compreendida e, por assim dizer, tocada com o dedo. Faz-se mis

ter, enfim, que seja evidente a solidariedade entre o passado, o presente e o

futuro, através das diversas existências.

Tal a ideia que da vida futura apresenta o Espiritismo. O que a

essa ideia dá força é que ela absolutamente não é uma concepção hu

mana com o mérito apenas de ser mais racional, sem contudo oferecer

mais certeza do que as outras. É o resultado de estudos feitos sobre os

testemunhos oferecidos por Espíritos de diferentes categorias, nas suas

manifestações, que permitiram se explorasse a vida extracorpórea em to

das as suas fases, desde o extremo superior ao extremo inferior da escala

dos seres. As peripécias da vida futura, por conseguinte, já não consti

tuem uma simples teoria, ou uma hipótese mais ou menos provável: de

correm de observações. São os habitantes do Mundo Invisível que vêm,

eles próprios, descrever os seus respectivos estados e há situações que a

mais fecunda imaginação não conceberia, se não fossem patenteadas aos

olhos do observador.

Ministrando a prova material da existência e da imortalidade da

alma, iniciando-nos em os mistérios do nascimento, da morte, da vida fu

tura, da vida universal, tornando-nos palpáveis as inevitáveis consequên

cias do bem e do mal, a Doutrina Espírita, melhor do que qualquer outra,

põe em relevo a necessidade da melhoria individual. Por meio dela, sabe

o homem donde vem, para onde vai, por que está na Terra; o bem tem

um objetivo, uma utilidade prática. Ela não se limita a preparar o homem

para o futuro, forma-o também para o presente, para a sociedade. Melho

rando-se moralmente, os homens prepararão na Terra o reinado da paz e

da fraternidade.

A Doutrina Espírita é assim o mais poderoso elemento de moraliza

ção, por se dirigir simultaneamente ao coração, à inteligência e ao interesse

pessoal bem compreendido.

Por sua mesma essência, o Espiritismo participa de todos os ramos

dos conhecimentos físicos, metafísicos e morais. São inúmeras as questões

que ele envolve, as quais, no entanto, podem resumir-se nos pontos se

guintes que, considerados verdades inconcussas, formam o programa das

crenças espíritas.

Princípios fundamentais da Doutrina Espírita,

reconhecidos como verdades inconcussas

A morte corpórea de Allan Kardec interrompeu as Obras póstumas

desse eminente Espírito. Este volume termina com um ponto de interro

gação e muitos leitores desejariam vê-lo respondido logicamente, como

o sabia fazer o douto professor em matéria de Espiritismo. Sem dúvida,

assim deveria ser.

No Congresso Espírita e Espiritualista Internacional de 1890, de

clararam seus membros que, desde 1869, estudos perseverantes haviam

revelado coisas novas e que, segundo o ensinamento preconizado por Allan

Kardec, alguns dos princípios do Espiritismo, sobre os quais o mestre ba

seava seu ensino, tinham de ser revistos e postos de acordo com os progres

sos da Ciência, em geral, nos últimos 20 anos.

Essa corrente de ideias, comum aos membros daquele Congresso,

vindos de todas as partes da Terra, provou que um volume novo precisava

ser elaborado, para conjugar o ensino de Allan Kardec com o que nos pro

porciona constantemente a pesquisa da verdade.

Essa será a obra da Comissão de propaganda. Muito contamos com os

bons conselhos dos irmãos que no Congresso demonstraram a sua compe

tência acerca das mais altas questões filosóficas, para auxiliarem a Comissão

nessa elaboração de um trabalho coletivo e incessantemente progressivo.

Esse volume terá por sua vez que ser revisto, quando um novo Congresso

assim o decidir.

“A Ciência”, disse Allan Kardec, “tem por finalidade constituir a ver

dadeira gênese, segundo as Leis da Natureza.

As descobertas da Ciência, longe de rebaixá-lo, glorificam a Deus.

Elas somente destroem o que os homens construíram sobre as ideias falsas

que hão feito de Deus.

O Espiritismo, avançando com o progresso, jamais será ultrapas

sado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro

acerca de um ponto, ele se modificará nesse ponto; se uma verdade nova

se revelar, ele a aceitará” (A gênese, cap. I – Caráter da Revelação Espírita).

p.-G. leymaRie